Curtas & Finas (França & Alemanha)
Um pouco estranho, em um texto sobre as eleições francesas deste domingo, estampar acima a foto do Monstro, desfilando em Paris quando da ocupação da cidade-luz pelas forças das trevas em 1940. Explico mais ao final do texto, mas antecipo que faz sentido em uma conversa sobre o que está em jogo nas eleições. Na verdade, o que está em jogo para o futuro da Europa. A crise econômica na zona do euro gerou rachaduras no próprio projeto europeu, que tem a aliança franco-germânica como pilar de sua fundação. E a votação neste domingo cria uma nova dinâmica, abalando esta aliança que, para a exasperação dos franceses, é cada vez mais dominada por Berlim.
O provável vencedor da eleição francesa será o socialista François Hollande, mas, mesmo que ocorra a surpresa com o triunfo do presidente conservador Nicolas Sarkozy, teremos uma Franca mais assanhada para mudar o rumo da agenda direcionada por Berlim. Haverá pressões francesas, secundadas por outros países da zona do euro no sufoco, por políticas econômicas de crescimento, ou seja, de afrouxamento da austeridade receitada pela primeira-ministra alemã Angela Merkel. Berlim insiste que o caminho pedregoso é o único viável para restaurar a confiança nas finanças públicas da região, mas desvios macios são exigidos devido ao aprofundamento da recessão e desemprego.
Merkel, uma política mais marota do que aparenta, está ajustando sua retórica, assim como o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, para alguns compromissos com a França para estimular o crescimento, ao mesmo tempo em que se aferra à meta de disciplina fiscal. Afinal, sem este pacto fiscal de austeridade, ela não consegue apoio da opinião pública alemã para pacotes de resgate.
Hollande, o provável vencedor da eleição francesa, também é mais maroto do que aparenta. Ele sabe que sua margem de manobra para afrouxar a rigidez fiscal na França e na Europa é limitada. Hollande está consciente do clima de terror prenunciado pelos mercados caso seja irresponsável. Não é à toa que semanas atrás, o socialista francês apareceu em Londres, principal praça financeira europeia, e, em inglês, fez questão de anunciar que não era “perigoso”.
Existem graduações de preocupação nos meios financeiros globais com a chegada de Hollande ao palácio do Eliseu. Curiosamente, os dois principais jornais econômicos do mundo, o Wall Street Journal e o Financial Times, têm uma atitude até blasé, avaliando que muito do que Hollande fala agora é mise-en-scène de campanha eleitoral. E acrescentam que Angela Merkel talvez até consiga um casamento decente com o novo parceiro francês, menos serelepe do que Sarkozy. No lugar de Merkozy, será Mellande (combinação que soa mais charmosa).
Portanto, não se espera um derretimento do consenso europeu e muito menos no seu núcleo duro (a aliança franco-germânica). E aqui, ao final, fazemos a ponte com o começo do texto. Estatísticas de dívida, de déficit, de contração e de desemprego claro que são cruciais neste momento tão difícil na Europa. Mas vamos lembrar um outro número: 60 milhões. Esta é a estimativa de gente que morreu na Europa entre 1914 e 1945, em conflitos entre nacionalismos extremados num continente dividido.
O projeto europeu não foi uma trama de burocratas, mas de visionários que queriam concretizar uma coexistência realista na esteira desta imensidão de mortes. Foram décadas de paz e prosperidade. Que o projeto europeu tenha vida longa, muito longa, mesmo que esta crise econômica, política e de identidade seja também muito longa.
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Colher de chá matinal para o Ricardo (dia 4, 9:45), pela abordagem e pelo saboroso jogo de palavras “Mellando”. Leiam para entender.












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