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Arquivo da categoria Civilização

Curtas & Finas (França & Alemanha)

Hitler desfila na Paris ocupada em junho de 1940

Um  pouco estranho, em um texto sobre as eleições francesas deste domingo, estampar acima a foto do Monstro, desfilando em Paris quando da ocupação da cidade-luz pelas forças das trevas em 1940. Explico mais ao final do texto, mas antecipo que faz sentido em uma conversa sobre o que está em jogo nas eleições. Na verdade, o que está em jogo para o futuro da Europa. A crise econômica na zona do euro gerou rachaduras no próprio projeto europeu, que tem a aliança franco-germânica como pilar de sua fundação. E a votação neste domingo cria uma nova dinâmica, abalando esta aliança que, para a exasperação dos franceses, é cada vez mais dominada por Berlim.

O provável vencedor da eleição francesa será o socialista François Hollande, mas, mesmo que ocorra a surpresa com o triunfo do presidente conservador Nicolas Sarkozy, teremos uma Franca mais assanhada para mudar o rumo da agenda direcionada por Berlim. Haverá pressões francesas, secundadas por outros países da zona do euro no sufoco, por políticas econômicas de crescimento, ou seja, de afrouxamento da austeridade receitada pela primeira-ministra alemã Angela Merkel. Berlim insiste que o caminho pedregoso é o único viável para restaurar a confiança nas finanças públicas da região, mas desvios macios são exigidos devido ao aprofundamento da recessão e desemprego.

Merkel, uma política mais marota do que aparenta, está ajustando sua retórica, assim como o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, para alguns compromissos com a França para estimular o crescimento, ao mesmo tempo em que se aferra à meta de  disciplina fiscal. Afinal, sem este pacto fiscal de austeridade, ela não consegue apoio da opinião pública alemã para pacotes de resgate.

Hollande, o provável vencedor da eleição francesa, também é mais maroto do que aparenta. Ele sabe que sua margem de manobra para afrouxar a rigidez fiscal na França e na Europa é limitada. Hollande está consciente do clima de terror prenunciado pelos mercados caso seja irresponsável. Não é à toa que semanas atrás, o socialista francês apareceu em Londres, principal praça financeira europeia, e, em inglês, fez questão de anunciar que não era “perigoso”.

Existem graduações de preocupação nos meios financeiros globais com a chegada de Hollande ao palácio do Eliseu. Curiosamente, os dois principais jornais econômicos do mundo, o Wall Street Journal e o Financial Times, têm uma atitude até blasé, avaliando que muito do que Hollande fala agora é mise-en-scène de campanha eleitoral. E acrescentam que Angela Merkel talvez até consiga um casamento decente com o novo parceiro francês, menos serelepe do que Sarkozy. No lugar de Merkozy, será Mellande (combinação que soa mais charmosa).

Portanto, não se espera um derretimento do consenso europeu e muito menos no seu núcleo duro (a aliança franco-germânica). E aqui, ao final, fazemos a ponte com o começo do texto. Estatísticas de dívida, de déficit, de contração e de desemprego claro que são cruciais neste momento tão difícil na Europa. Mas vamos lembrar um outro número: 60 milhões. Esta é a estimativa de gente que morreu na Europa entre 1914 e 1945, em conflitos entre nacionalismos extremados num continente dividido.

O projeto europeu não foi uma trama de burocratas, mas de visionários que queriam concretizar uma coexistência realista na esteira desta imensidão de mortes. Foram décadas de paz e prosperidade. Que o projeto europeu tenha vida longa, muito longa, mesmo que esta crise econômica, política e de identidade seja também muito longa.

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Colher de chá matinal para o Ricardo (dia 4, 9:45), pela abordagem e pelo saboroso jogo de palavras “Mellando”. Leiam para entender.

Na Síria de Assad (pai ou filho), tudo igual, tudo pior

Com Bashar Assad, "horror hereditário"

Para parafrasear o jogador pensante de beisebol Yogi Berra e suas frases folclóricas, na Síria, é déjà vu novamente. Vamos começar com o ministro das Relações Exteriores da Turquia (e está tudo tão desolador na Síria, que dou até colher de chá para a diplomacia turca). Ahmed Davutoglu disse que quando russos e chineses vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no sábado, condenando a brutalidade na Síria e pedindo a saída do poder do ditador Bashar Assad, estavam agindo com uma mentalidade de Guerra Fria, “baseando os votos, não em realidades existentes, mas em uma atitude mais automática contra o Ocidente”. E, de fato, na Guerra Fria, russos e chineses já apoiavam os massacres praticados por um ditador sírio, mas era Hafez Assad, o pai de Bashar.

Claro que também soa déjà vu novamente, como naquelas cruzadas do mundo livre contra o comunismo na Guerra Fria, integradas por Somoza e Pinochet, quando a secretária de Estado, Hillary Clinton, reage ao anacronismo sino-soviético (oops, russo), dizendo que agora será preciso articular uma coalizão dos “amigos da Síria democrática” a favor da oposição e contra a brutalidade do regime Assad. O que fazer? A coalizão vai incluir a Arábia Saudita.
Diplomacia tem estas ambiquidades e paradoxos, mas alguns casos são bem piores do que outros. Melhor ter a Arábia Saudita contra Assad do que a favor. A Rússia tem o despudor de argumentar que não podia apoiar uma resolução sobre a Síria, pois significava tomar partido de um dos lados. Vladimir, Vladimir, seu veto significa mais do que tomar partido de um dos lados, como você está fazendo na condição de grande sustentáculo internacional de Bashar Assad. Significa dar sinal verde para o ditador avançar na matança, tentar se entrincheirar no poder e dificultar ainda mais uma solução política para a crise, que ganha feições de guerra civil em larga escala.
Só há um argumento plausível a favor de Assad: o day after à sua queda pode ser pior do que o dia de hoje. com guerra de mílícias ou a ascensão ao poder de fundamentalistas sunitas. Talvez. Existe a idéia, portanto, de que seja melhor ficar com o demônio conhecido. Como assim? Sabemos que ele é horrível. Este é consolo? Com uma ditadura como a de Assad vamos justificar o status quo, na lógica russa de venalidade? E, de qualquer forma, o debate é acadêmico. A dúvida é quando Assad irá cair. Ele se tornou carga pesada até para as demais ditaduras da região.

Existem interesses geopolíticos contra o regime Assad (como o empenho de autocracias sunitas do Oriente Médio para enfraquecer o único aliado regional do Irã xiita), mas também os gestos humanitários. E pouca coisa deixa russos e chineses tão horrorizados como gestos humanitários. Afinal, tais gestos podem ser usados para condenar as condutas da semiditadura Putin e da ditadura do politburo chinês contra seus próprios povos e suas minorias. Mas já estamos refletindo com mais profundidade do que Yogi Berra. Há algo mais superficial, imediato e cínico para comentar. Neste episódio do Conselho de Segurança, o Ocidente (e seus aliados suspeitos do Oriente Médio) tiveram uma grande vitória em termos de realpolitik.

Os países ocidentais têm a vantagem moral na crise síria. Russos e chineses agora são cúmplices escancarados da carnificina praticada pelo regime Assad. São co-responsáveis acintosos pela escalada de violência, pois a oposição, que já está militarizada, tem pouco a fazer além de incrementar a luta armada. O que aconteceu no sábado nas Nações Unidas foi um vexame histórico para russos e chineses. Na frase dita à exaustão nos últimos dias, eles deram a Assad permissão para matar (para matar mais ainda).

Moscou e Pequim vetaram uma resolução, que já fora diluída para satisfazê-los, no momento em que as forças de Bashar Assad massacravam inocentes na cidade de Homs (os números de baixas são incertos, variam de dezenas a centenas). Existe ojeriza quase que universal ao regime de Assad. Do lado dos sírios estão os russos (chineses menos ativamente), a desgraça que é o regime iraniano, os asseclas do Hezbollah (até o Hamas se livra da saia justa), as tralhas bolivarianas e relíquias do ativismo terceiro-mundista. Em termos táticos, teria sido mais conveniente para russos e chineses engolirem o sapo. Para que queimar bala diplomática (no caso russo, bala mesmo) por um ditador que dia menos dia será carta fora do baralho? E qual  é o cenário mais provável? Uma intervenção militar americana parece improvável (talvez , assim como um sucesso diplomático. Hillary Clinton alerta sobre uma “brutal guerra civil”. Podemos acrescentar que terá violentas tonalidades sectárias, com apoio de monaquias sunitas à oposição.

Esta coluna está recheada de citações diplomáticas. Vamos terminar com mais uma. O embaixador francês nas Nações Unidas, Gerard Araud, lembrou como tudo é parecido na Síria,. Este massacre em Homs em 2012 teve lugar quando eram lembrados os 30 anos da mortandade em Hama (entre 10 mil e 40 mil mortos),. Em 1982, o responsável foi o ditador Hafez Assad. Agora, é o seu filho. Como disse o embaixador Araud, na Síria o “horror é hereditário”. Déjà vu novamente.

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Colher de chá para o comentário do Pablo (dia 6, 13:50)  sobre as posturas da Rússia e China. E uma colher de café para a Carmem (dia 6, 15:40),  por sua saborosa advertência contra as estapafúrdias analogias, especialmente as hitleristas.

 

05/10/2011

às 22:35 \ Civilização, Educação, EUA, Gênios

Curtas & Finas (iSteve Jobs)

Não tenho nada de original para dizer sobre Steve Jobs, este gênio empreendedor, metido a Messias, supermarqueteiro, da escola Thomas Edison e Henry Ford. Em todo caso, vou dizer alguma coisa. Antes de tudo, Steve Jobs é a prova da inesgotável capacidade inovadora da sociedade americana. Como ele, era na base de erro, acerto, erro, acerto. Este americano se reerguia. Sucumbiu porque o ser humano sucumbe. Em alguma garagem, um Steve Jobs Jr. está bolando alguma coisa, comprovando mais uma vez como é prematuro assinar o atestado de óbito dos EUA.

Sobre coisas mais pedestres: Steve Jobs criou elegantes “necessidades necessárias”. Sou um retardado tecnológico e por esta razão sou grato à empresa Apple por tornar produtos como o Mac acessíveis para gente como eu. Meu primeiro computador, ainda na faculdades aqui nos EUA, foi um Macintosh. Desta vez o press-release, como o da Apple, está bom. Obrigado, Steve Jobs, por realmente facilitar nossa vida, melhorar o mundo. O que sempre me fascinou na empresa é sua empatia com o consumidor. Muitos consumidores ficam fascinados com a filosofia cool da Apple. Bom para eles. O que realmente mexe comigo é a possibilidade de usar o produto sem a necessidade de um manual de instrução. Claro que a iFilha sempre ajuda. Descanse em paz, iJobs.
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Colher de chá, claro, nepotista, para a filha Ana (dia 6, 12:13). Não é marmelada. iLeia!

11/09/2011

às 0:01 \ Civilização

Onze de setembro

As torres antes daquele dia - Foto Peter J. Eckel/ AP

Há exatamente um ano, 11 de setembro de 2010, eu inaugurei meu trabalho em VEJA.com. Data solene e triste, mas estou muito feliz com esta oportunidade. O tema da primeira coluna, obviamente, foi aquele 11 de setembro. A data foi sugestão de Eurípedes Alcântara, diretor de redação de VEJA (sim, chefe pode ter ótimas idéias). Quero ficar muitos anos neste emprego. E o ritual será republicar, a cada 11 de setembro, a coluna de inauguração. Leia ou releia.

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Eu fui atacado em 11 de setembro de 2001 pelos homicidas de Osama Bin Laden. E você também. Além de derrubar aquelas torres horrendas do World Trade Center, em Manhattan, e matar muita gente, a ideia era destruir uma babel de conceitos como tolerância, diversidade, dinamismo econômico, vulgaridade, promiscuidade e balbúrdia. Em suma, a nossa civilização, com seus altos e baixos.

No caso específico dos EUA, o cálculo estratégico de Bin Laden era testar a determinação do país, sua autoconfiança e coesão. O tranco foi da pesada, mas os pilares estão aí. Sete anos depois dos atentados praticados em nome da restauração de um califado, os americanos elegeram presidente um tal de Barack Hussein Obama. Hoje, a maioria dos americanos está desiludida com o seu presidente. Alguns incautos, é verdade, por causa do seu nome do meio.

Sim, a civilização tem seus idiotas. Não é que uma pesquisa revelou que 18% dos americanos acreditam que Obama seja muçulmano? País de direitistas ignorantes e conspiratórios. E não é que 1/3 dos democratas acreditavam, em pesquisa em 2007, que o maligno George W. Bush sabia de antemão dos atentados do 11 de setembro? País de esquerdistas ignorantes e conspiratórios. Juntando todas as pesquisas com resultados bizarros, a gente chega lá: a maioria dos americanos é idiota, mas a civilização aguenta o tranco.

Há duas semanas, a revista Time, publicada no país de Barack Hussein Obama e próspero em histerismos instantâneos, perguntou soturnamente na capa: “Is America Islamophobic?” Um influente idiota de direita, o radialista Rush Limbaugh, com humor chulo, respondeu que não pode haver islamofobia num país com um presidente muçulmano. Liberais estão histéricos com a resistência (que une idiotas e outros nem tanto) ao projeto de um centro islâmico (megamesquita, no histerismo da outra banda), a duas quadras do Ground Zero, o local onde estavam as torres destruídas em 11 de setembro de 2001.

Não compartilho nenhum dos histerismos. Meu histerismo é motivado por islamofascismo e não islamofobia. Queria ver na mídia americana mais destaque para a suposta adúltera iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, com a sentença de apedrejamento apenas suspensa. Queria ver mais muçulmanos marcharem por Sakineh e não apenas para protestar contra o pastor americano Terry Jones, que acha religiosamente correto queimar o Corão e ganhou um picadeiro da mídia (nós) para sua palhaçada incendiária, que, felizmente, não foi consumada.

É chato, no “grand opening” desta coluna, citar outros colunistas. Mas o Thomas Friedman, do The New York Times tem razão. A controvérsia sobre a tal mesquita no Ground Zero é um sideshow. A questão-chave não é se as diferentes seitas muçulmanas podem viver harmonicamente com os americanos, mas se elas podem conviver entre elas. Houve ultraje nas bandas islâmicas com este pastor fundamentalista da Flórida, mas muçulmanos explodem mesquitas no Oriente Médio e, de fato, algumas páginas do Corão (e de livros sagrados de outras religiões) deveriam ser simbolicamente queimadas devido à sua brutalidade. Quem pratica islamofobia (e homofobia e “mulherfobia”) é o regime iraniano de Mahmoud Ahmadinejad e do aiatolá Khamenei.

A nossa civilização em terras norte-americanas trata seus muçulmanos com altos e baixos (muito mais altos). Existem espamos nativistas, arroubos de ignorância e alguns lances de violência. Mas os nipo-americanos sofreram mais depois do ataque a Pearl Harbor e sucessivas levas raciais, étnicas e religiosas levaram suas pancadas, foram submetidas a linchamentos e tiveram portas fechadas até as coisas se acomodarem no melting pot.

O imã Rauf, deste projeto islâmico no Ground Zero, parece que sabe como as coisas derretem neste país. Por esta razão, ele deveria ter tido um pouco mais de jogo de cintura, deveria ter sido menos ambíguo nas suas digressões sobre o Hamas (finalmente disse à rede CNN que o grupo pratica terrorismo) e parasse de falar bobagem que os EUA foram cúmplices dos atentados do 11 de setembro porque inventaram Osama bin Laden. Este megaterrorista é obra saudita. E vamos rezar (e apurar) para que os fundos deste projeto não venham destes bilionários sauditas que investem tanto em bancos ocidentais e na rede Fox, como em madrassas fundamentalistas.

John Locke

O imã mexeu com as sensibilidades de vítimas dos atentados, mas não fez provocação ou se meteu a triunfalista com seu projeto. As vítimas merecem irrestrita solidariedade e conforto. Mas, a quantas quadras do Ground Zero seria apropriado construir o centro islâmico? O imã não deveria ter ido onde foi. No entanto, já foi e ele e nós precisamos tolerar as consequências. Este negócio de direito constitucional é coisa séria. Isto aqui não é banana republic. Basta ver que 2/3 dos americanos são contra o projeto, mas em geral eles estão dispostos a tolerá-lo. Está aí a lição do pai do liberalismo, John Locke. O que ele chamava de “toleration” não é o mesmo que aprovação. Nós, aqui na civilização, toleramos (aturamos) coisas que consideramos nada aceitáveis. Nao se trata de ser bonzinho. Há circunstâncias em que não temos condições de suprimir o que não toleramos ou a supressão vai resultar em um mal ainda maior.

O acordo religioso e político nos EUA teve alguns momentos negros (sic) como a guerra civil e aparecem pastores malucos como este Terry Jones ou sicofantas como Pat Robertson, mas funciona. O acordo vai incorporar os muçulmanos (aliás o processo aqui é bem mais suave do que na Europa) desde que eles aceitem as regras do jogo. E, voltando a Locke, significa acatar a separação Estado-Igreja (ou Mesquita).

O historiador Bernard Lewis escreveu que uma forma de moderação foi uma parte central do islamismo desde o começo. Os muçulmanos não eram comandados a amar os seus vizinhos, mas a aceitar a diversidade. Basta ver que o princípio criou um nível de tolerância entre os muçulmanos e coexistência entre muçulmanos e os outros que era desconhecida na Cristandade até o triunfo do secularismo. No entanto, no período moderno, uma versão mais radical e violenta do islamismo ganhou força. E grupos como Al Qaeda e o Taliban, que eram menores e marginais, ganharam uma posição mais poderosa e até dominante.

E hoje em dia, por circunstâncias complexas, mesmo em capitais da civilização ocidental, existem partidários destes princípios. Por isto mesmo, no nosso liberalismo, precisamos evitar a condescendência e manter a vigilância sobre algumas mesquitas (e também sobre algumas congregações alopradas, como a deste pastor da Flórida). Contra o fundamentalismo religioso não dá para marcar passo com um fundamentalismo liberal. Não somos todos idiotas na nossa civilização. Precisamos manter as outras torres de pé.

PS – O 11 de setembro merecia um texto de inauguração. Mas esta coluna será publicada regularmente toda quarta-feira. Até lá.

Como a esquerda justifica o apoio a Assad e Kadafi?


Em relação à intervenção militar ocidental na Líbia (e eu destaco que se trata de uma intervenção humanitária), Talal Salman, o editor do jornal esquerdista libanês As-Safir, escreveu que “o retorno dos poderes coloniais vestidos de libertadores é mais perigoso do que qualquer um possa imaginar”. Ora, habib Talal, facílimo listar coisas bem mais perigosas, bem mais infames.

Podemos começar por um dirigente que você, habib, trata com camaradagem, o presidente sírio Bashar Assad. Ele também tem recorrido a esta linguagem surrada que seu país (perdão, o seu regime) é vítima deste “novo imperialismo”. Assim, obviamente, Assad tenta remover a legitimidade de um movimento de resistência interna à sua ditadura, como se fosse um mero instrumento de potências ocidentais e mesmo Israel. Imagine, a Irmandade Muçulmana que integra esta resistência irmanada com Israel. Na verdade, temos a ditadura de Bashar Assad irmanada com países como China, Rússia, Cuba e Equador.

Foram os quatro países que se opuseram à decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU (o infame organismo que tomou um pouco de vergonha na cara) pedindo investigação das denúncias de crimes contra a humanidade cometidos na Síria. Os quatros irmãos de Assad argumentaram que a iniciativa tem “fins destrutivos” e busca “desestabilizar” a situação. Ao que consta (e aqui nem é preciso investigação), Bashar Assad é o grande desestabilizador com sua repressão sanguinária e a perda de oportunidade histórica para fazer reformas efetivas quando ainda havia tempo.

Muito mais perigoso, habib Talal, é “novo imperialismo” de Bashar Assad. O eixo Damasco-Teerã-Hamas-Hezbollah parece muito interessado em desestabilizar a situação no Oriente Médio. Nada mais conveniente do que as provocações do grupo terrorista Hamas e outros grupelhos palestinos contra Israel, com o objetivo de provocar uma escalada militar em Gaza e quem sabe gerar um racha gravíssimo entre israelenses e egípcios.

A situação ficaria ainda mais explosiva com a abertura de uma frente ao norte, com provocações contra Israel do grupo xiita libanês Hezbollah. Para um regime como o da Síria, que luta por sua sobrevivência a ferro e fogo, nada mais oportuno do que desviar a narrativa para um conflito regional. A prioridade para os sírios deixaria de ser a guerra civil e passsaria a ser o “imperialismo israelense”.

O habib libanês Talal Salman claro que não está sozinho nesta sua narrativa surrada, que bate na tecla que para os ocidentais se trata basicamente de garantir o petróleo. Ele está irmanado com o bandoleiro-petroleiro Hugo Chávez e outros apologistas de tiranos como Kadafi e Assad, que consideram uma intervenção ocidental pior do que a soberania (não do povo) mas destes regimes infames.

É uma experiência intelectual extenuante ver que ainda existe gente que se diz de esquerda ou favorável a movimentos de libertação nacional vender (ou comprar) esta narrativa que os Kadafis e Assads estejam lutando contra o imperialismo e esta pataquada toda. Como consolo nestas horas, é bom beber na fonte do profeta George Orwell. Por estes dias, eu andei lendo algumas cartas que ele escreveu nos anos 30.

Lá vai um trechinho: “O que me deixa nauseado sobre pessoas de esquerda, especialmente os intelectuais, é sua total ignorância sobre como as coisas realmente acontecem. Eu sempre ficava impressionado a respeito disso quando estava na Birmânia e costumava ler literatura antiimperialista”. Orwell tinha uma postura não doutrinária, em uma das cartas se considerava “definitivamente de esquerda”, mas tinha “horror” de partidos esquerdistas e pontificava que o dever de um verdadeiro socialista era combater o totalitarismo. Ao final de sua jornada política e intelectual, Orwell assumiu que “a divisão real não é entre conservadores e revolucionários, mas entre autoritários e libertários”.

Nem preciso dizer se fico com o habib Talal Salman ou o big brother George Orwell.
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A colher-de-chá nesta coluna vai para alguns leitores que logo cedo se rebelaram contra o teor do texto orwelliano (Rone, Carlos Cezar e Reynaldo). Menção honrosa para o Cantídio (dia 24, 9:12), por sua saborosa proposta de mediação diplomática, gastronômica e etílica em Natal, RN.

Osama bin Laden era um grande inimigo, mas só um deles

Morte do terrorista motivou comemoração em frente à Casa Branca (Foto: Chris Kleponis/AFP)

Eu detestava Osama bin Laden. Quem mais? George W. Bush e Barack Obama. Até aí é fácil, é um bipartidarismo óbvio.A Irmandade Muçulmana detestava Osama bin Laden, renega o terrorismo da rede Al Qaeda. Muamar Kadafi denuncia sem cessar o terror da Al Qaeda e acusa os rebeldes líbios de estarem a serviço do grupo. Os terroristas do Hamas não querem saber desta gangue e seus filhotes. Aliás, nem patrocinadores do Hamas como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o sírio Bashar Assad.

Regimes autocratas no Oriente Médio, alguns despejados do poder como o de Hosni Mubarak, são aliados nesta dita guerra contra o terror da rede Al Qaeda. O governo do Paquistão, onde Osama bin Laden tinha santuário e finalmente terminou sua vida excecrável no domingo, tem uma postura ambivalente e tortuosa sobre o terror islâmico e o Taliban, mas no seu jogo duplo e de insinuantes cumplicidades acoberta e também coopera no combate contra a rede Al Qaeda. Querem realmente mais? Até o Taliban acena com o distanciamento da Al Qaeda se os EUA e seus aliados ocidentais chegarem a um modus vivendi com a barbárie do grupo no Afeganistão. O pacto seria permitir que o Taliban exerça seu terror dentro de casa, mas ele prometeria não exportar o terror e não dar mais guarida à rede Al Qaeda.

Claro que o terror da rede Al Qaeda viverá apesar da morte de Osama bin Laden, mas este é um inimigo fácil, pouco controvertido. É uma ameaça existencial, é um inferno no nosso cotidiano e nunca se sabe o tipo de estrago que seus militantes poderão causar agora em represália à morte do inimigo público número um da humanidade. Mas no “big picture” destas convulsões no mundo árabe, a rede Al Qaeda é fichinha, uma espécie de transtorno sangrento (eu jamais minimizaria seu papel no nuclear e instável Paquistão).

Lá no mundo árabe convulsionado temos o avanço da Irmandade Muçulmana, o potencial da Síria virar ao avesso a geopolítica regional se o regime de Bashar Assad implodir, os perigos que se avizinham no conflito entre Israel e os palestinos, as ansiedades na Arábia Saudita e outros postos de gasolina no golfo Pérsico e existe aquele regime ignóbil no Irã. O Iêmen, com sua banda podre institucional, é o terreno mais fértil hoje no Oriente Médio para a rede Al Qaeda.

Para este jornalista que estava em Manhattan naquela manhã linda, ensolarada de 11 de setembro de 2001, é emocionante ver as multidões que passaram a celebrar de forma espontânea o anúncio perto do Ground Zero e também nas grades da Casa Branca, em Washington. A morte deste inimigo da civilização é um momento de justiça, As famílias de quase três mil vítimas mereciam este momento.

Horrível ser fatalista neste momento de celebração nos EUA, foi incrível como em questão de horas foi possivel sentir a injeção de autoestima no país, a festa nacional. Vem terror de represália por aí, sei lá exatamente onde. Mas a morte de Osama bin Laden deve servir apenas para celebração fugaz. É preciso manter o foco nestas convulsões no mundo árabe, no Irã e nas bandas do Paquistão. É uma longa guerra contra o terror islâmico (dos sequestradores de uma religião), mas também contra aqueles que querem implantar uma civilização iliberal no mundo árabe-islâmico.
PS: Pequena retratação: li agora (final da manhã de segunda-feira) no site do britânico Guardian que o Hamas condenou o assassinato do “guerreiro sagrado” Osama bin Laden.

Na Líbia, alvo definido, missão confusa, estratégia opaca

Estrago causado por bombardeio ocidental na Líbia

Foto: Imed Lamloum/AFP

É fácil tomar posição em algumas questões cruciais. Quando Hugo Chávez (e hermanitos), o José Dirceu e o ditador de Guiné Equatorial (o tal do Teodoro, aquele que passou o último carnaval no Rio) consideram a Líbia, de Muamar Kadafi uma trincheira da luta antiimperialista, devemos ir para o outro lado. Mas o que é o outro lado na intervenção da Líbia? Existe a engenhosa posição alemã (abstenção não é neutralidade), os americanos fingindo que não são tão importantes (coisa de superpotência júnior na era Obama) e os franco-britânicos fingindo que são mais importantes do que são. Para a Liga Árabe, depende do horário e da posição das vírgulas no comunicado. Quanto aos russos, a posição é de indignação com o uso desproporcional de força. Modelo de intervenção razoável é o deles na Chechênia. E a China? Ora, a China.

Como se vê, é fácil ter uma posição cínica sobre os acontecimentos. Mas vamos deixar claro um ponto. Existem genuínos motivos humanitários para esta intervenção na Líbia, apesar da narrativa cansativa de que é o petróleo, estúpido! e do desconforto sobre os double standards ocidentais. Por que vale para a Líbia e não para o Bahrein, a Arábia Saudita ou a Fredônia? Por que não no mundo inteiro? Estamos nos sentindo desconfortáveis, mas vamos, então, perguntar: como não vale para Bahrein, não vale para a Líbia?

A intervenção na Líbia não é uma crua agressão imperialista. Basta ver que tem o apoio do grupo Human Rights Watch, com a observação de que a intervenção foi sancionada pelo Conselho de Segurança das ONU, no contexto de “sérios abusos das forças de segurança libias no último mês e o desrespeito de Kadafi pelos direitos humanos ao longo de quatro décadas”. O Prêmio Nobel da Paz, o sul-africano Desmond Tutu, disse que ataques aéreos são justificados diante do prontuário de Kadafi.

Vamos relembrar que o estopim da rebelião em fevereiro foi a prisão de um jovem advogado na área de direitos humanos, que representava famílias de presos (cerca de 1.200, em sua maioria fundamentalistas islâmicos) que morreram em um motim em 1996 em Benghazi. Cadê o pessoal indignado com Abu Ghraib e Guantánamo? O potencial de atrocidades por Kadafi é desproporcional. Agora ele tem até escudos humanos voluntários

A intervenção estrangeira foi relutante, após pedidos difusos e desesperados de rebeldes. Pressões internas na Casa Branca de altos assessores, ex-ativistas humanitários, dobraram o cerebral, cauteloso e deliberativo presidente Obama. A secretária de Estado, Hillary Clinton, abandonou seu aliado, o realista e nada sentimental secretário de Defesa Robert Gates. Não estamos no afoito processo decisório da era Bush. Mas se a coisa se prolongar e desgalhar, haverá as generalizações de que se trata de outro Iraque.

Não vamos ter ilusões. É uma intervenção em parte humanitária, mas qual é o objetivo? Proteger civis ou dar cabo do regime de Kadafi? Dirigentes ocidentais insistiram que Kadafi deve partir, mas a resolução do Conselho de Segurança dá mandato para a proteção de civis. Como fazer a distinção? Para se manter no poder, Kadafi precisa matar líbios. Para proteger os civis, é preciso se livrar de Kadafi. Para conseguir a aprovação da resolução foi fixada uma missão limitada, mas como cumpri-la?

Um precedente para a Líbia é Srebrenica, na Bósnia. Em 1995, os países ocidentais fracassaram no objetivo de proteger civis num enclave muçulmano, que era considerado um santuário. Forças de paz holandesas não conseguiram defender a área e milhares de homens e adolescentes foram chacinados pelos sérvios. Semanas mais tarde, a Otan respondeu a um novo ataque contra uma santuário, Sarajevo. Uma campanha de bombardeios foi lançada. Bem, o resultado foi um acordo de paz, com a Bósnia semidesmembrada. Um outro resultado da intervenção ocidental nos Balcãs foi a derrubada, em um dinâmica interna, do homem-forte da Sérvia, o genocida Slobodan Milosevic.

Não sabemos ainda, é claro, qual será o resultado desta intervenção na Líbia. Faltou combinar com o inimigo para que houvesse uma rápida campanha e sua saída do poder, de preferência morto ou deposto num golpe palaciano. Isto evidentemente é possível. Houve uma aposta precipitada que os rebeldes marchariam para Trípoli. Isto ainda pode acontecer. Mas quanto mais se prolonga o conflito, mas difícil será manter a coalizão e o sonho de Obama é cair fora o mais cedo possível. Afinal, a Líbia talvez não seja a única Líbia nos próximos tempos.

Gurus analíticos, como George Friedman, da empresa Stratfor, ressaltam que a missão é mais clara do que a estratégia. Isto, porém, não torna a missão cristalina. O mandato é por operações aéreas nesta intervenção e o presidente Obama insiste que tropas americanas não pisarão no solo da Líbia (nem forças especiais?).

De fato, é duro imaginar uma terceira guerra americana (depois de Afeganistão e Iraque) em terras muçulmanas em menos de uma década. O problema maior, porém, não seria a invasão, mas a ocupação. A questão é o que aconteceria se as forças de Kadafi (com ele morto ou vivo) lançassem uma insurreição. No Afeganistão, por exemplo, o Talibã abandonou o poder formal sem ter sido decisivamente derrotado. É a ocupação, estúpido!

Agora estamos deste lado, sem muita segurança sobre o que se descortina no horizonte. E bem adiante da Líbia, já no Oriente Médio, estão os campos de batalha mais importantes. O contágio chegou à Síria, país do ditador Bashir Assad, que não é excêntrico como Kadafi, mas também é um campeão de brutalidade e do discurso contra a agressão dos imperialistas ocidentais.

Somos todos egípcios (por uns tempos)


Eu conheço o ritual. É momento de dizer: somos todos egípcios. Celebramos a partida de um Hosni Mubarak. Tipo desagradável. Se quisermos dar pose para o enxotado autocrata podemos chamá-lo de faraó. Mas Mubarak estava mais para o gênero de policial que resolvia os problemas na vizinhança a um preço. Havia segurança e muitas vezes era melhor nem perguntar como ele impunha lei e ordem.

Agora existe festa na vizinhança, mas tambem muita inquietação com a partida do policial corrupto e brutal. Quem vai oferecer proteção? Uma garotada animada liderou o movimento para se livrar do policial, mas muitos bandidos estão fantasiados de mocinhos neste carnaval de libertação.

Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se acalmarem. Na verdade, eles na última hora foram até a mansão do policial e o despejaram. Foi traição, pois os fardados sempre tiveram negócios com o homem, ex-militar. Mas deixa para lá e chega de metáforas policialescas sobre o estado policial do Egito.

Sim, somos todos egípcios. Numa região do mundo que cultiva o martírio, explora a vitimização e cultua o terrorista-suicida, a moçada com ajuda de amplos setores da sociedade egípcia empreendeu uma mudança relativamente pacífica (300 mortos). Tiveram uma mão dos militares que ficaram em cima do muro e finalmente concluíram que precisavam se livrar do ônus Mubarak. O ditador que tinha serventia como pilar de estabilidade se convertera em fator de instabilidade.

Um jornalista que respeito e conhece bem a região, Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, lembra que a crise egípcia está apenas começando. Perdão por estragar a festa tão cedo. Uma ditadura de 30 anos caiu em menos de três semanas.  A massa festiva ficará impaciente e será difícil conter suas expectativas. De um lado, existe um cenário econômico, com gente muito pobre e um setor jovem e altamente educado sem perspectivas. Do outro, plutocratas que não estão interessados em reformar um sistema, sem esquecer que estes militares, hoje heróis do povo, são grandes beneficiados do esquema.

 O poder político agora está nas mãos destes militares (a rigor, eles sempre estiveram nas entranhas deste regime). Não está claro que tipo de transição eles irão patrocinar e isto num país sem tradição de democracia e submetido a quase 60 anos de liderança militar (de variadas ideologias). Goldberg lembra um ponto essencial: Mubarak marginalizou, baniu e reprimiu líderes e movimentos seculares de oposição. Reprimiu, mas também tolerou a Irmandade Muçulmana. O grupo ajudava a justificar o estado policial em casa e seu papel de guarda no imenso quarteirão do Oriente Médio.

Goldberg, que não é nenhum ingênuo, não está particularmente preocupado com a possibilidade da Irmandade Muçulmana ocupar o vácuo de poder de uma hora para outra, mas adverte que as coisas são muito voláteis e podem mudar rapidamente, para o lado mais perigoso. A questão não é ficar em pânico e passar o tempo alertando sobre estes perigos. Obviamente não interessa nem a consolidação do poder militar nem o caos que abra caminho para a ascensão da Irmandade Muçulmana. É verdade que interessa um Exército forte, guardião das instituições democráticas e seculares e que preserve o acordo de paz com Israel. Para tal será preciso uma revolução cultural no Exército (na parte democrática).

Grupos radicais islâmicos como a Irmandade e o filhote Hamas, em Gaza, têm fervor, disciplina, organização e capacidade de sacrifício. Por meio liberais podem atingir fins iliberais. Somos todos egípcios por um momento. Devemos ser por alguns egípcios mais a longo prazo (espero que por muitos). Devemos favorecer e ajudar aqueles setores da sociedade egípcia, e por extensão, no mundo islâmico, que não querem ser governados nem por ditadores nem por fanáticos religiosos.

A protestocracia precisa se transformar num verdadeiro movimento e construir instituições civis.Será preciso forjar um senso de cidadania, em uma experiencia que será acompanhada com atenção e apreensão na região e no resto do mundo. Num projeto espinhoso, será preciso, como lembrou Anthony Shadid, no New York Times, aprender a “reconciliar direitos individuais com identidade religiosa”. Se este Egito triunfar será uma maravilha voltar para a praça Tahrir, a genuína praça da duradoura libertação e não apenas da festa fugaz do fim de uma ditadura.

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22/12/2010

às 6:00 \ Civilização, Europa

Abaixo os Céticos, Viva a Europa

Líderes pequenos na grande crise/ Foto Phillipe Wojazer/Reuters

Gritar Viva Europa parece ser um brado melancólico. A União Européia está frouxa, em particular no seu núcleo duro, a zona do euro. A liderança de plantão (veja foto) está aquém da carga de responsabilidades e desafios. Obviamente nem falo de bufões como o italiano Silvio Berlusconi, mas da dobradinha Angela Merkel/ Nicolas Sarkozy. O motor propulsor do projeto europeu são alemães e franceses, mas a máquina está emperrada em meio à constante tarefa de apagar incêndios econômicos. Alguns desafios e obstáculos no projeto europeu foram subestimados ou deliberadamente ignorados, a destacar a criação de uma união monetária (o euro), sem uma união fiscal.

 
Obviamente, existe um preço para uma união européia mais rigorosa, mais ampla e mais eficiente. Exige menos soberania nacional e aumenta o ônus dos sócios ricos, em particular a Alemanha, para segurar o rojão, a fragilidade e as indulgências dos sócios mais pobres ou vulneráveis da periferia, que vão de paisecos como Grécia, Portugal e Irlanda, a outros, como Espanha e Itália, que, se quebrarem, podem levar edifício europeu ao desabamento. E a periferia precisa se comportar muito bem.
 
Relutantes para pagar a conta, os alemães sabem também como é vital preservar o projeto europeu. O país que renasceu da ignomínia nazista na Segunda Guerra Mundial está consciente que pode ser forte e influente desde que esteja dentro do santuário europeu. A potência alemã deve proteger e não ameaçar. A crise, porém, hoje incomoda sua população, menos inclinada a se sacrificar pelos primos europeus da periferia. Por outro lado, na periferia, existe ressentimento contra a Alemanha.
 
Isto exige um jogo político ardiloso da primeira-ministra Angela Merkel. Ela tem compromissos domésticos, mas também continentais. E secundada pelo francês Sarkozy (com o qual  muitas vezes não está afinada),  Merkel precisa liderar o coro de que os líderes europeus farão tudo o que for necessário para assegurar a estabilidade do euro e, por extensão, do projeto continental. Nada disso é fácil em razão da relutância dos alemães para pagar contas e do quadro de inevitável austeridade em vários países europeus que pode trazer instabilidade social e estagnação econômica por um bom tempo.
 
Existem graves problemas econômicos na Europa, mas, no final das contas, as soluções são políticas. Se o caminho inevitável para salvar o euro for uma união fiscal mais rígida, um grande desafio será vender o projeto em termos políticos. Na expressão da empresa de consultoria e análise de risco Stratfor, uma união mais sólida vai significar decisões sobre taxação e apropriação, ou seja, quem paga quanto e como para quem. E aqui estamos falando de atos políticos, intromissão na soberania nacional e um aprofundamento de iniciativas coletivas. É difícil imaginar uma centralização fiscal sem uma efetiva autoridade política (e militar) igualmente centralizada. E realmente eu não sei dizer de cabeça quem é o presidente-fantasma da União Européia (na informação inútil, é o belga Herman van Rompuy)
 
Infelizmente, parece que a Europa não está preparada hoje para passos tão largos, embora, ironicamente, a urgência da crise talvez os apressem. Claro que o resultado podem ser tombos maiores ou passos insuficientes diante dos buracos imensos no meio do caminho. Uma crise não manejável em países mais importantes da zona do euro, Espanha ou Itália, pode ser maior do que as promessas ou mesmo do reforço  da rede de proteção para ajudar os sócios do clube europeu em situaçao dramática. No cenário de déficit e divida na Europa, existe um superávit de céticos se o euro e o projeto europeu vão aguentar o tranco. Para os céticos,  a execução ficará a cargo dos alemães, com a paciência exaurida para arcar com tantos pacotes de resgate. 
 
O colapso europeu será uma tragédia e não apenas para os europeus. O mundo precisa de uma Europa forte e integrada, que irradie seus valores e lições históricas. Em países emergentes existem surtos triunfalistas de que a era dos EUA e da Europa já era. É verdade que a União Européia em muitas situações colide com os primos dos Estados Unidos da América, mas suas convergências são muito maiores do que as divergências. Ainda bem. Está aí um bloco que propaga o melhor modelo para a humanidade. em termos de respeito à democracia, do império da lei, da obediência aos contratos e de um estado, que embora excessivo e oneroso, em especial na Europa, está a serviço do cidadão.
 
A Europa, em particular, com os esforços de integração no pós-guerra, é um exemplo de repúdio aos conflitos militares e acomodação de diferenças religiosas, étnicas, culturais e ideológicas. Claro que é um projeto imperfeito e que de certa forma peca pela ambição. Em contrapartida, ambição é uma virtude em muitas situações. É um conforto escutar a voz da Europa quando países da Ásia, África e América Latina descambam na violação dos direitos humanos. Muita gente rebate que os europeus com seu passado colonial e barbaridades dentro de casa não têm moral para pontificar e se intrometer. Pelo contrário. A velha Europa errou e aprendeu. Tem muito para dizer e vamos esperar que seu projeto de união sobreviva e se consolide.
 

20/10/2010

às 5:55 \ China, Civilização

Nem Tudo Emerge sobre o Emergente Chinês

Xi Jinping - Adrian Bradshwa/Getty Images

A China é o número um dos Brics, o mais emergente dos emergentes. Mas por lá nada emerge com clareza sobre o processo político, muito menos o sucessório. O povo é o partido comuno-capitalista, né?
Por lá, não tem estas frescuras de democracia burguesa, esta chatice de debate presidencial ou candidato movido a marqueteiro.
Por lá, tudo acontece estritamente intramuralhas. Esta semana, soubemos que o vice-presidente Xi Jinping deu um passo estratégico para assumir o poder dentro de dois anos no lugar de Hu Jintao.
 
Xi Jinping foi nomeado para a vice-presidência da Comissão Militar Central, instância de poder, ao lado da secretaria-geral do Partido Comunista e da presidência.  Xi Jinping avançou de forma decisiva depois de algumas declarações ousadas (para os opacos padrões chineses) do primeiro-ministro Wen Jiabao a favor de reformas políticas. Os lances alimentaram especulações sobre algumas pressões dentro das muralhas do poder sobre mais abertura do sistema politico. 
Xi Jinping sobe pela ladeira mais burocrática. Resta saber como manter este ritmo burocrático diante da dicotomia entre a exuberância econômica e o abafamento político. O comando comunista hoje em dia preza muito, aos olhos do público, a liderança coletiva, distanciando-se do culto a personalidade e parece inconcebível na modernização chinesa uma sucessão ao estilo das relíquias comunistas, seja de pai para filho, como na Coréia do Norte, ou de irmão para irmão, como na Castrolândia.
Parece distante o cenário daquelas chatices da democracia burguesa. Revolução burguesa, por ora, só na economia. A China não quer mais saber de exportar delirantes revoluções à moda Mao, mas também reforça as muralhas para se proteger da importação de subversivas revoluções políticas. Vamos ver no que dão as tais das contradições internas.

 

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