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Arquivo da categoria China

12/03/2014

às 6:00 \ China, Ucrânia

Na crise à la Kiev, a China quer cozinhar em banho-maria

A China tem uma longa história de negócios com a Ucrânia

A China tem uma longa história de negócios com a Ucrânia

A China preferiria ficar distante da crise ucraniana. Tem suas ambições geopolíticas centradas na Ásia, mas seu negócio é harmonia, ou seja, estabilidade global para tocar os seus negócios. A China, em uma intensidade ainda maior do que países ocidentais, não pede ficha de antecedentes morais ou criminais dos seus clientes. No entanto, será cada mais difícil fingir que não é com ela, na medida em que está se tornando uma superpotência com crescentes responsabilidades globais. Precisará cada vez mais tomar posição.

A ocupação militar da Crimeia pelos russos coloca a ditadura de Pequim em uma saia justa. São prioridades conflitantes. Os chineses cultivam boas relações com ucranianos e russos. Não querem atritos com nenhum dos atores. Para dar uma medida, a China hoje é o segundo parceiro comercial da Ucrânia (depois da Rússia). Kiev tem até negócios militares com os chineses e efetuou a venda do primeiro porta-aviões para Pequim.

No começo da crise, quando o presidente pró-russo Viktor Yanukovich ainda estava no poder, a propaganda chinesa era mais automática para denunciar a interferência ocidental em assuntos internos. A China tem pavor de movimento de massa se insurgindo contra governo. Isto apenas era bom quando a insurreição comunista estava em marcha na China.

Com os novos fatos, a China está mais discreta e prefere emitir notas diplomáticas anódinas, embora tenha reafirmado o seu compromisso com a “independência, soberania e integridade territorial” da Ucrânia. A China tem ojeriza de separatismo, que ela define como uma das “três forças do mal”, ao lado de terrorismo e extremismo religioso. Basta ver que a China não apoiou a anexação russa de dois enclaves separatistas na Geórgia em 2008. Pequim quer abafar apoio internacional ao separatismo uighur (muçulmano) na região de Xinjiang (marcado por ações terroristas), assim como as aspirações no Tibete e Taiwan.

Neste contexto e com o objetivo de isolar diplomaticamente a Rússia, o presidente Obama tentou cortejar o presidente chinês Xi Jinping em uma conversa telefônica no domingo. A China, porém, tem seus compromissos diplomáticos com a Rússia (além de uma estratégica parceria econômica). Também professa valores autoritários e tem interesse em se contrapor à influência ocidental no mundo (apesar de sua estratégica parceria econômica com esta banda também).

De novo, a China fica muito incomodada com a adoção de sanções, especialmente quando envolvem razões como direitos humanos e democracia. No ritual retórico, tudo isso não passa de hipocrisia ocidental e interferência nos assuntos internos de outros países.

Vladimir Putin também cortejou Xi Jinping e o comunicado russo exagerou nas alegações de solidariedade. O presidente chinês simplesmente enrolou. Ele disse o seguinte a Putin: “A situação na Ucrânia é altamente complicada e sensível. Parece acidental, mas tem elementos do inevitável”.

Contorcionismo verbal à parte, em princípio (e por alguns motivos de princípios), a China está mais afinada com a Rússia nesta crise ucraniana, mas agirá de forma oportunista, dependendo da evolução dos acontecimentos. Um racha ucraniano seria inadmissível para Pequim, pois poderia criar precedentes muito desconfortáveis em casa.

É uma fantasia imaginar um sólido bloco China/Rússia (apesar de afinação nas votações no Conselho de Segurança da ONU, onde os dois países têm poder de veto). Mas é isto aí: uma afinação de interesses. A China é uma superpotência emergente, movida por interesses nacionais e não ideológicos, ao contrário da Guerra Fria quando a URSS comunista era a superpotência que se contrapunha aos EUA.

Claro que os chineses não vão se alinhar com os países ocidentais (com os quais têm uma relação de competição e cooperação) e tampouco irão recuar nas suas disputas territoriais no Pacífico, onde muitos países são aliados dos EUA. No entanto, haverá um limite para o regime chinês gastar seu capital diplomático para os lados do Mar Negro se Vladimir Putin confrontar o Ocidente de forma muito ostentatória.

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Colher de chá para Heloisa Jorio, primeiro comentário do dia (dia 12, 6:12) e seu primeiro comentário na coluna.

12/12/2013

às 22:22 \ China, Coréia do Norte

Acerto de contas ao estilo norte-coreano

Vamos dar um sumiço no meu tio

Vamos dar um sumiço no meu tio

Da bárbara e reclusa ditadura comunista da Coreia do Norte, uma lição para os tios em qualquer parte do mundo: não confiem em sobrinhos com menos de 30 anos. Com a confirmação da execução do tio Jang SongThaek, o garotão-ditador Kim Jong-un aparentemente consolida o seu poder, depois de uma fase de transição em que o veterano parente funcionou como mentor.

Ao que tudo indica, o garotão aprendeu com o regente do trono a “executar” o poder com a crueldade que se espera deste tipo de regime. Aprendizado rápido: na semana que vem, teremos o segundo aniversário da ascensão ao poder de Kim Jong-un, filho e neto de ditadores nesta bizarra dinastia comunista. Na expressão do “koreanólogo” Adam Cathcart, é o “direito divino dos Kims”. Nada de liderança coletiva. Expurgos e execuções são parte do modus-vivendi de regimes como o norte-coreano, mas um espetáculo tão teatral, tão público, de alguém do círculo íntimo (literalmente) de poder é inusitado.

Difícil dizer que tipo de estabilidade esta suposta consolidação do poder pode trazer de positivo num país em que a população morre de fome enquanto o regime investe no seu arsenal nuclear. Talvez não deva ser feita nenhuma grande leitura ideológica do ocorrido. Afinal, a Coreia do Norte é um negócio de família, uma família mafiosa. Foi um ajuste de contas entre gangsters.

Existe muito nervosismo na vizinha Coreia do Sul com os últimos lances norte-coreanos. E por que não haveria? Quem repassar os olhos pelas linhas acima deste meu texto verá que só há especulações. Ninguém sabe exatamente o que acontece no reino de Kimworld. De qualquer forma, vale a questão: o que fará a China, o elo da Coreia do Norte com o resto do mundo? O titio Jang Song-Thaek advogava reformas econômicas ao estilo chinês no seu obsoleto país e era o grande elo de Pyongyang com Pequim. Se o elo está perdido, podemos especular com uma dose de alarmismo: estamos todos perdidos?

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Colher de chá matutina para a Anna, que estava sumida na coluna do tio Caio,  mas é ativa no Twitter. 

11/12/2013

às 6:00 \ China, EUA, Europa, Irã, Rússia, Ucrânia

Rabiscos Estratégicos (Ucrânia & Great Game)

A polícia na praça da Independência, em Kiev

A polícia na praça da Independência, em Kiev

Vamos ser sinceros: uma longa agonia, mas Mandela foi a crônica da morte anunciada. Na mecânica habitual do jornalismo, o obituário estava pronto, sendo atualizado. Claro que meu obituário de Fidel Castro está mofando na gaveta digital. Aliás, poucas notícias no espetáculo midiático do memorial Mandela na terça-feira, no estádio de Soweto. O presidente sul-africano Jacob Zuma foi vaiado. E como estavam lindas a Charlize Teron e a primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt, a das fotos estilo selfie com o presidente Barack Obama. Claro, antes que eu me esqueça, há também a imagem do aperto de mão entre Obama e o ditador Raúl Castro, mas nada tão histórico que mereça um segundo parágrafo.

De qualquer forma, os temas desta coluna não são África e as Américas e sim as três grandes histórias geopolíticas que estão rolando na Eurásia neste final de 2013. No relato conciso do meu guru Walter Russell Mead, uma é a marcha iraniana para domínio regional, com os xiitas e seus aliados, conseguindo a vantagem na guerra civil síria e a legitimidade do programa nuclear nas negociações internacionais, a destacar com os americanos.

O segundo desdobramento é o novo lance da “estratégia do repolho” da China, de construir novas camadas de penetração sobre territórios contestados perto de suas fronteiras marítimas. É um cenário muito tenso, envolvendo países como Japão, Coréia do Sul, Filipinas, Vietnã e Taiwan. São lances expansionistas que integram uma política de assertividade geopolítica que acompanhe o salto na economia. Para complicar as coisas na região, temos os sinais de instabilidade na misteriosa Coreia do Norte com o expurgo do regente do trono Jang Son Thaek, encetado pelo garotão Kim Jong-un. Imagine: ele tomando decisões sozinho de posse de um arsenal nuclear.

E o terceiro desdobramento (e aqui estamos no calor da luta) é se a Ucrânia vai pender decisivamente para Moscou ou para a União Europeia. Os protestos maciços das últimas semanas em Kiev e outras cidades ucranianas a favor de mais integração na Europa e contra o abraço do urso russo dão uma medida do momento crucial. Na madrugada desta  quarta-feira, a praça da Independência, em Kiev, se tornou uma filial da praça Tahrir, no Cairo. Os acontecimentos na Ucrânia são a grande surpresa geopolítica deste finalzinho de 2013. Para o presidente russo Vladimir Putin, a vitória na Ucrânia é vital como parte de sua estratégia de recuperar o status de sua nação.

Em um plano mais abrangente, Walter Russell Mead adverte que se estes três poderes (China, Rússia e Irã) se saírem bem com os seus lances, a balança global de poder irá mudar. No arco geopolítico, os EUA e seus aliados perderão posições. E pequenos poderes irão recalibrar suas alianças com os vencedores no Great Game, dos Balcãs ao sudeste asiático; do Oceano Ártico à Baía de Bengala.

Walter Russell Mead pega pesado. Diz que Barack Obama e seus aliados europeus estão perdidos no mato e pecaram por concederem tantas vantagens a adversários mais fracos. Neste xadrez geopolítico, sou um jogador lento. Preciso pensar mais se ele tem razão. No entanto, concordo num ponto: não devemos subestimar o empenho de Putin para ganhar, usar todas as alavancas na disputa e tirar pleno proveito dos erros dos adversários (como na guerra civil síria).

De olho na Ucrânia. Dependendo da evolução das coisas, eu  alerto os leitores que o assunto poderá se tornar uma obsessão desta coluna.

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PS- Assunto sério! Revista Time escolheu o papa como pessoa do ano. O Instituto Blinder & Blainder mudou o voto de Snowden para o papa e mantém sua credibilidade AAAA (suas quatro musas: mulher Alma, filhas Aiza e Ana e a Angelina).

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Colher de chá para os rabiscos do Censi (dia 11, 10:37).

02/12/2013

às 6:00 \ Ásia, China, EUA, Japão

A China agita o Pacífico ao colocar as asinhas de fora

Os militares chineses olham para o céu e para os mares

Os militares chineses olham para o céu e para os mares

As coisas estão mais agitadas nos ares e nos mares do Pacífico ocidental, em um jogo que pode trazer grandes riscos devido a erros de cálculo, conflitos acidentais e arroubos nacionalistas, envolvendo China, Japão, EUA e uma pilha de países menos poderosos como Coreia do Sul, Vietnã, Filipinas e Taiwan (Pequim considera este último uma província renegada).

Existem várias disputas por águas territoriais e ilhas no Pacífico ocidental. A nova escalada de tensões teve origem na decisão chinesa de declarar uma zona de defesa de identificação aérea em torno de ilha desabitadas sob controle do Japão, mas disputadas pelos dois países, em uma área de abundantes recursos pesqueiros e muito potencial de petróleo e gás. Aviões militares americanos e japoneses desafiaram a exigência de notificação e sobrevoaram a área de identificação aérea estabelecida pelos chineses.

Com o desafio de americanos e japoneses, os chineses reagiram com ambiguidade. Eles não querem exagerar nos recados agressivos, como alertar que aviões intrusos podem ser derrubados, mas tampouco podem recuar de forma muito apaziguadora, agora que flexionaram os músculos.

A decisão de Pequim sobre esta identificação aérea foi um teste mal executado. Os chineses estimaram que os EUA (que possuem um tratado de segurança com o Japão) reagiriam de forma relutante, especialmente agora que o governo Obama é pródigo nos acenos conciliatórios e na aversão a intervenções militares no Oriente Médio (a destacar na blitz diplomática sobre o programa nuclear iraniano).

No entanto, a mensagem americana de agir com mais vigor no Pacífico foi fundamental para acalmar um pouco seus aliados regionais, cada vez mais inquietos com uma China que coloca as asinhas de fora. É tanta inquietação que mesmo países que sofreram com a barbárie japonesa na Segunda Guerra Mundial, como Filipinas, hoje até acatam a estridência nacionalista do governo de Shinzo Abe e sua falta de contrição com os crimes do passado, pois estão mais preocupados com a expansão chinesa e querem um contrapeso. E a China, que tem aumentado anualmente em 10% nos últimos tempos seu orçamento militar, dá munição para o Japão também reforçar os seus gastos na área e cogitar da reinterpretação de sua Constituição pacifista.

Não adianta espernear. A China está apenas nos primeiros estágios de uma atitude geopolítica mais desenvolta, compatível com sua expansão econômica. Dá assim para entender a promessa do governo Obama de dar uma virada estratégica do Oriente Médio para as bandas do Pacífico. A China está deixando de lado sua tímida política externa (ainda muito focada em aspectos mercantilistas) e de não se meter na vida dos outros, em uma movimentação natural por mais espaços que faz lembrar a Alemanha dos anos 30.

Nacionalismo inclusive é um chamado às armas muito conveniente para substituir o surrado comunismo. O presidente Xi Jinping fala no “rejuvenescimento da grande nação chinesa”. O país, aliás, não esquece a carga de humilhações e feridas provocadas desde o século 19 por países ocidentais e mais tarde pelos japoneses. Não é à toa que existe o paralelo com os anos 30, mais interessante e mais preocupante do que a bobagem de comparar o Irã com a Alemanha nazista ou Barack Obama com o apaziguador britânico Neville Chamberlain. O Irã nunca será uma ameaça existencial aos EUA ou um poder com tentáculos globais.

Já o desafio regional e global dos chineses deve ser encarado com maturidade e habilidade. Por coincidência, o vice-presidente americano Joe Biden circula esta semana pela região (Japão, Coreia do Sul e China). No caso específico dos EUA, um desafio aos chineses tem mais consequências econômicas do que confrontar os soviéticos na Guerra Fria. Existe interdependência econômica entre os dois países. Este tipo de laço também está bem amarrado no caso de nações asiáticas que temem o avanço geopolítico e miltares dos chineses.

Existe a necessidade óbvia de acalmar as coisas no Pacífico ocidental. Qualquer escalada a partir de pequenos incidentes também suscita comparações com outro período histórico: a véspera da Primeira Guerra Mundial.

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Debates menos agitados do que eu imaginava, pelo menos até agora. Colher de chá vai para o Nehemias, com o qual travei um bom bate-bola.

14/11/2013

às 6:00 \ Ásia, China, EUA, Filipinas

Yankees, don’t go home

Os marines estão chegando

Os marines estão chegando

Natural que em um desastre natural como este tufão nas Filipinas, a intervenção humanitária americana seja imediata. Os EUA têm uma história de afinidade no país (inclusive de colonização) e uma tradição de assistência global nestas circunstâncias que é compatível com seus recursos militares e logísticos. Os marines desembarcaram nas Filipinas e navios, inclusive um porta-aviões, aportaram para a missão de assistência. Aviões americanos despejam suprimentos e não bombas. E no solo, bandeiras americanas não são queimadas e não se escutam os gritos de yankees, go home. Por que ocorreria isto? Na quarta-feira, aviões militares americanos puderam distribuir 25 toneladas de biscoitos para sobreviventes famintos na devastada cidade de Tacloban.

Sem dúvida que esta assistência de emergência americana gera boa vontade e pontos políticos em países afligidos, pobres e ricos, mais ou menos hostis aos EUA. Apenas para ficar nas vizinhanças das Filipinas, foi assim no tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 e no terremoto no Japão em 2011. E este empenho dos EUA acontece em meio a pressões por cortes orçamentários do Pentágono e pendores isolacionistas mesmo em casos de ajuda humanitária ou de um SOS.

De novo, não podemos ser ingênuos ou sentimentais. A corrida para ajudar tem impacto estratégico. Basta ver que no Japão houve a suavização da retórica contra as bases americanas no país. Afinal, este aparato foi crucial para ajudar depois do desastre em Fukushima. Nas Filipinas, em 1991, os americanos abandonaram uma imensa base naval na esteira de uma ferrenha mobilização nacionalista e a assistência agora no tufão deve reforçar o ímpeto para a presença militar dos EUA no país, em particular no combate a insurgentes islâmicos.

E vale lembrar que muitos outros países também estão dando uma mão. Por exemplo, equipes médicas da Bélgica, Noruega e Israel estão em ação. Em contraste ao vigor assistencialista dos EUA e demais países, existe o minimalismo chinês. Tudo bem, os chineses ainda são pobres, mas gostam de bravatear a segunda colocação no ranking de economias mundiais e seu impulso para o status de superpotência. Pequim, no entanto, se limitou a oferecer US$ 100 mil de ajuda às Filipinas.  Em parte, é vingança pela posição mais desafiadora dos bem mais pobres e mais fracos filipinos para encararem os chineses em disputas por águas territoriais (atualização: na quinta-feira, os chineses anunciaram o incremento da ajuda).

Aliás, naquela região existe um clamor por proteção americana contra o tufão geopolítico chinês.
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Colher de chá para os comentários do Censi nesta coluna e na anterior, pois ele antecipou a coluna de hoje. Aliás, quem ainda não leu a coluna de quarta-feira que leia!

O chilique fiscal e os berrinches americanos (berrinches?)

Políticos americanos são como as crianças birrentas no México

Políticos americanos =  mexicanitos birrentos

Um vexame a novela fiscal americana (novos capítulos no começo de 2014, graças ao acordo temporário entre democratas e republicanos). Não falta rincão no mundo onde não se passe sabão nos EUA. Como lembrou o New York Times, os americanos são vistos com uma mistura de medo e desolação devido ao espetáculo de disfunção de sua classe política e a repetição do filme clássico O Feitiço do Tempo, com Bill Murray. É a constante marcha, contramarcha e marcha para o precípicio.

Além de medo e desolação, existe uma espécie de regozijo com a desgraça alheia: quem são estes americanos para darem lição de moral política e  bons modos econômicos ao mundo? Aqui, há semanas, eu bato na tecla do amadurecimento de uma Banana Republic. Gracias, Tea Party.

E falando em espanhol, com a reportagem do New York Times, eu aprendi uma gíria mexicana: berrinche. Tecnicamente, é um chilique, mas berrinches são crianças ricas e estragadas, sem noção dos seus privilégios e mau comportamento. O termo vale para os norte-americanos do México e, pelo visto, para os “estadunidenses”.

Vexame mesmo. A reportagem do New York Times traz até reflexões de gregos, escolados em crise, dizendo que não é apenas nas bandas do Mediterrâneo que existem políticos com um comportamento irresponsável e míope. Opa, Tea Party.

Não há dúvida que o espetáculo das últimas duas semanas em Washington (uma pesquisa revelou que 60% dos americanos gostariam de demitir o Congresso como um todo) reforça uma narrativa global sobre o declínio dos EUA.  Opa (aqui não em grego), calma com esta narrativa. Imagine, a reportagem do New York Times entrevistou os chamados “populares” nas ruas do Cairo, capital do caos, lamentando a falta de liderança da classe dirigente de Washington.

Bem, chega de comentários de berrinches. Preocupante é como regimes autoritários, a destacar a superemergente China (país que é o credor internacional número 1 dos EUA), tentam tirar vantagem ideológica do espetáculo em Washington. Pequim aproveita para apunhalar o modelo de democracia liberal, que, de fato, tem estes componentes circenses exibidos, em especial pelo aguerrido Tea Party.

A Xinhua, o braço “noticioso” do regime comunista chinês, distribuiu um editorial incisivo argumentando que a crise americana mostra como a China e o resto do mundo devem começar um processo de “desamericanização” (perdão pelo palavrão), destronando o rei dólar.

As feridas autoinflingidas em Washington são atrozes para os americanos e para o mundo. Mas o regime chinês dando conselhos sobre como o mundo deve se comportar, não dá. Vou ter um chilique, um berrinche.

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Colher de chá para Felipe Goltz e André pelo debate chinês. 

26/09/2013

às 6:00 \ China, Coréia do Norte, Coreia do Sul, EUA

Na Coreia do Norte, só perigos, nada de oportunidades

Kim Jong-un e Dennis Rodman, seu conselheiro de segurança nacional

Até o momento, as colunas da semana foram devotadas ao triunfo de Angela Merkel nas eleições alemães e ao jogo sinuoso de perigos e oportunidades na crise iraniana. Vamos falar agora apenas de perigo: a Coreia do Norte. Bastante sombrio um relatório que acaba de ser divulgado pelo centro norte-americano de pesquisas e análises Rand. No alerta do autor Bruce Bennett, o colapso norte-coreano poderá ser repentino, ao estilo da Alemanha Oriental no final da Guerra Fria. E pior: este colapso poderá ser mais perigoso e desastroso do que aquele ocorrido com a Alemanha comunista, que foi absorvida pelo lado ocidental nos tempos do mentor de Angela Merkel, Helmul Khol.

Bruce Bennett é taxativo. Ele vai mais na linha de “quando” e não “se” irá ocorrer este colapso norte-coreana, pois o regime de Kim Jong-un mostra sinais de instabilidade (esta não é a opinião do seu novo confidente, o ex-jogador de basquete, o excêntrico e autopromocional Dennis Rodman). E o fracasso do esforço multilateral para trazer o mínimo de estabilidade na Coreia do Norte poderá ser uma catástrofe na região e levar  a um vácuo de poder por uma década ou mais.

Entre as possíveis consequências do colapso norte-coreano, são citadas no relatório da Rand guerra civil, crise humanitária, uso de armas químicas e biológicas e guerra entre EUA (aliado da vizinha Coreia do Sul) e a China, o mais importante elo de Kim Jong-un com o planeta Terra (não devemos considerar Dennis Rodman como um dos nossos).

O relatório traça o cenário em que tropas chineses avançam para o sul na península coreana e colidem com forças sul-coreanas e norte-americanas (há 28 mil soldados dos EUA estacionados no país aliado). O choque poderá levar inclusive à deflagração de um conflito nuclear. De acordo com o relatório, uma intervenção milittar chinesa poderia ocorrer em caso de implosão do governo norte-coreano. Uma possibilidade é o asssassinato de Kim Jong-un e a explosão de conflitos entre facções do regime. Por esta razão, existe a recomendação de planos de contingência por Washington e Pequim para evitar os cenários mais apocalípticos.

Analistas têm previsto o colapso iminente do regime norte-coreano (uma monarquia comunista inaugurada pelo avô do garotão Kim Jong-un) há duas décadas. No entanto, a perseverança do regime está aí: sobreviveu a duas mudanças de liderança, a sanções devido a seu programa nuclear e à fome que matou mais de um milhão de pessoas. A Coreia do Norte é um campo de concentração com armas nucleares. E pelo visto, jogar basquete será parte dos trabalhos forçados.

Conversa apocalíptica? Sem dúvida, com uma ressalva: como lembra a BBC de Londres, a Coreia do Norte é uma anomalia totalitária que poderá até sobreviver por mais duas décadas, mas ninguém pode prever com confiança o que vai acontecer por lá na semana que vem. Dá mais conforto conversar sobre o Irã?

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Colher de chá para a sacada do Nehemias (dia 26, 11: 57). 

23/08/2013

às 6:00 \ África do Sul, Brasil, Brics, China, Índia, Rússia

O susto (Brasil & Brics)

Palmas que eles não merecem

Eu iniciei esta looooonga primeira semana pós-férias escrevendo sobre meu susto em São Paulo, onde, entre outras coisas, deu para sentir a babaca euforia eike batistiana cedendo lugar ao catastrofismo. Vamos fechar a semana ampliando o arco, falando do susto Brasil (e Brics). Ainda um pouco enferrujado pela dolce vita das férias, meio preguiçoso, eu pego carona num texto do economista sueco Anders Aslund, um dos gurus da transição de economias planificadas para economias de mercado, especialmente no finado bloco soviético.

Mas, neste texto publicado no Financial Times, o tema de Aslund é o funesto bloco de marketing alcunhado de Bric. Ele deixa no singular mesmo, nem comprando o abuso de marquetagem que foi acrescentar o S (South Africa, África do Sul), ao bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China, na sopa de letrinhas cozinhada pelo economista inglês John O’Neill em 2001.

O deslumbramento com o bloco acabou. O susto para Aslund não é que tenha terminado, mas que tenha demorado tanto tempo para cair a ficha. Nos quatro países, existe uma deterioração econômica, em escalas diferentes, evidentemente. Jim O’Neill, sem dúvida, antecipou tendências ao cunhar o termo em 2001. Aslund lembra que entre 2002 e 2008 o mundo viveu um dos maiores booms de commodities e crédito da história.

Este baile da ilha Fiscal se alongou por mais uns cinco anos graças ao afrouxamento monetário nas economias maduras (a destacar nos EUA), o que resultou na inundação de financiamento fácil nos mercados emergentes.

Foram anos mal aproveitados de fartura de preparação para dias inglórios. Brasil e Rússia foram prejudicados pela baixa dos preços de commodities, os bancos chineses estão alavancados e a Índia padece de muitas doenças, como alta inflação, corrupção e governança medíocre. Há o consolo indo-brasileiro: são duas democracias. Aliás, a promessa deste colunista é escrever com mais denodo sobre a Índia de agora em diante.

Aslund destaca a arrogância dos quatro países nos tempos do boom. Ele lembra a construção de elefantes brancos. Em 2008, a China bateu o recorde de gastança esportiva: US$ 40 bilhões para sediar as Olimpíadas de Pequim. Agora em 2014, a Rússia vai torrar estimados US$ 50 bilhões nas Olímpiadas de inverno, em Sochi (em 2010, o custo em Vancouver foi de US$ 6 bilhões). E temos, é claro, os folguedos brasileiros (Copa em 2014 e Olimpíadas no Rio em 2016), que engatilharam protestos de rua. Tirando a China, os outros integrantes do bloco são uma história de gargalos devido à ausência de investimentos vitais de infraestrutura.

O pensamento econômico também está entupido. Há uma visão protecionista e estatizante das elites governantes. A tarefa política é enxugar o estado. Mas, no Parlamento russo, um dos mais influentes deputados, Igor Rudensky, teve a audácia de dizer que “nós precisamos preservar tudo de positivo da experiência histórica soviética”.

A festa do Bric acabou, mas não o porre. Assusta.

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Colher de chá para o nei Brasil, que não se assusta (se ufana do Brasil) com o susto da coluna.

17/07/2013

às 6:00 \ China, Mao, Xi Jinping

Cultos chineses (II)

Trabalho forçado não dignifica o homem ou a mulher

Na China, há limites para tudo: até onde a economia pode crescer (tema da coluna de segunda-feira) e também, paradoxalmente, para os excessos ditatoriais e clamores por um pouco de oxigênio político. Na segunda-feira, tivemos a boa notícia de um tribunal na província de Hunan que reverteu a sentença de instância inferior de 18 meses de trabalhos forçados para uma mulher que reclamara da sentença leniente para alguns dos homens condenados pelo sequestro, estupro e prostituição de sua filha de 11 anos.

Foi um revés para o sistema de campos de trabalhos forçados, mais uma herança maldita do maoísmo. Trata-se da infame ideologia da reeducação, que permite a punição de infratores, com pena de até quatro anos de trabalhos forçados, sem julgamento e pequena chance de recorrer da sentença. O sistema serve supostamente para castigar drogados, prostitutas e pequenos criminosos comuns. No entanto, não poupa dissidentes políticos, integrantes de grupos religiosos banidos e gente que resolve desafiar com mais ímpeto as autoridades, como Tang Hui, a mãe da vítima de 11 anos.

Este é o sinistro alerta do Partido Comunista. Alguns alívios são necessários na panela de pressão, mas sempre com o controle de cima. Corrupção, por exemplo, é um gravísssimo problema em uma China mais próspera, mas num processo econômico ditado pelo regime. Logo, lá em cima, no topo do partidão, estão os maiores beneficiados com a prosperidade e a corrupção, além é claro de uma classe de novos ricos que tirou proveito da abertura econômica.

O novo dirigente, Xi Jinping, lançou uma campanha contra corrupção e por mais transparência. A tolerância zero é relativa. Estão em marcha as investigações oficiais sobre alegações de suborno realizado pela indústria farmacêutica britânica GlaxoSmithKline , mas cuidado com os excessos para denunciar. Acaba de sair o anúncio de que três ativistas presos em abril (foram mais de 15) serão julgados por terem coordenado uma campanha para que as autoridades governamentais revelem publicamente o seu patrimônio.

O regime não tolera desafios abertos. Ao estilo maoísta, Xi Jinping quer canalizar indignação e realizar algumas retificações. Agora é a campanha contra os “quatro ventos” do “formalismo”, “burocracia”, “hedonismo” e “extravagância”. Para o regime, é aquela extravagância medonha de lançar campanhas para as massas. Não se via algo do gênero há uma década. Esta é lançada agora justamente para conter a frustração popular com a corrupção e se esquivar de reformas políticas mais audazes. É aquele treco de arregimentar os quadros partidários para uma atitude de mais simplicidade quando ele está divorciado das massas, na pataquada com jeito de paródia.

Shirley MacLaine: maravilhada com a Revolução Cultural

Contra o “vento do hedonismo”, quadros com cargo de secretário provincial do partido vão para o campo ajudar os camponeses a remover (literalmente) ervas daninhas, enquanto os netos de líderes da revolução dirigem Porsches em Pequim ou estudam em Harvard. Algumas coisas mudaram com a China segunda economia mundial, mas outras fazem lembrar o diálogo que Deng Xiaoping, o mentor das reformas econômicas sob tacão ditatorial, teve com a atriz Shirley MacLaine, na sua primeira visita aos EUA, em 1979.

A atriz disse que visitara a China durante a Revolução Cultural de Mao e que achara tudo maravilhoso. Ficara impressionada quando um professor expressou gratidão porque o partido o despachara para trabalhar no campo. Deng Xiaoping olhou a Shirley com merecido desdém e disse que o professor estava mentindo, pois ele deveria estar ensinando na universidade, ao invés de plantar legumes.

Não será tão fácil se livrar da erva daninha do maoísmo.

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Colher de chá vai mesmo para as vítimas de trabalhos forçados na China.

16/07/2013

às 6:00 \ China

Cultos chineses

Xi e Li: o que fazer?

A economia chinesa está crescendo menos: apenas 7,5% no segundo trimestre deste ano. Os números divulgados na segunda-feira ao menos corresponderam às expectativas. Alívio nos mercados. Nos dois trimestres anteriores, a expansão do PIB da segunda economia do mundo fora de 7,7% e 7,9%, respectivamente. Os indicadores do segundo semestre devem reforçar a tendência de enfraquecimento. Mesmo se for atingida a meta de crescimento de 7,5% para 2013,  será a expansão anual mais lenta desde 1990.

A ressalva crônica é a falta de confiabilidade nos números oficiais chineses. De qualquer forma, a notícia mais importante é a falta de sinal do regime de Pequim de que irá intervir e injetar mais estímulos, como é a praxe quando a economia perde o gás, gerando sobressaltos globais. Haverá mais sofrimento a curto prazo em razão desta decisão (ou falta de) e a economia brasileira, movida à China e a crédito fácil ao consumidor brasileiro, irá sofrer.

A idéia das autoridades de Pequim é fazer a transição de uma economia movida pelo estado e impulsionada por investimentos improdutivos em uma infraestrutura inchada para um sistema mais sustentável. O homem da economia é o primeiro-ministro Li Keqiang e ele sinaliza que a meta agora seria mais qualitativa, com a China deixando de ser meramente uma fábrica global de bugigangas e se transformando em uma economia ímpulsionada pelo mercado consumidor doméstico. Meta difícil. Entre outras coisas, irá prejudicar elites beneficiadas pelo sistema vigente, como aquelas que controlam as estatais.

Existem outros desafios, além das disputas no topo da pirâmide. Menor crescimento pode gerar desemprego, distúrbios sociais e descontrole político. Transições são complexas. No plano puramente econômico, o processo penoso será atenuado se a taxa de crescimento do consumo doméstico for superior à da expansão do PIB. Mas aqui existe o paradoxo óbvio: crescimento mais lento dificulta o aumento da renda e assim o consumo tão almejado pelas autoridades.

Desde 2004, o regime comunocapitalista de Pequim fala em recalibrar a economia. Mas nos tempos da dupla Hu Jintao/Wen Jiabao, as reformas foram sacrificadas no altar do crescimento, na expressão do jornal Financial Times. A nova liderança da dupla Xi Jinping/Li Kequiang sinaliza reformas, mas ainda não implantou mudanças significativas. O risco é o pior dos cenários: crescimento mais lento sem ajustes estruturais.

Claro que  o poder reinante em qualquer país tem a meta de administrar crescimento econômico vigoroso, mas no caso chinês há um senso de urgência permanente. Por muito tempo, havia o alerta de que seria inadmissível o país tolerar crescimento anual abaixo de 8%, por uma questão de segurança nacional (preservar a estabilidade social) e para conferir um selo de legitimidade a um regime com sua ideologia comunista falida.

Aceitar uma expansão mais lenta seria algo histórico. Quem sabe até uma revolução cultural num país que passou do culto a Mao para o culto ao crescimento econômico.

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Algumas desgalhadas, mas um bom debate na coluna sobre a China. Dia de uma colher de chá coletiva. 

 

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