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Arquivo da categoria China

17/07/2013

às 6:00 \ China, Mao, Xi Jinping

Cultos chineses (II)

Trabalho forçado não dignifica o homem ou a mulher

Na China, há limites para tudo: até onde a economia pode crescer (tema da coluna de segunda-feira) e também, paradoxalmente, para os excessos ditatoriais e clamores por um pouco de oxigênio político. Na segunda-feira, tivemos a boa notícia de um tribunal na província de Hunan que reverteu a sentença de instância inferior de 18 meses de trabalhos forçados para uma mulher que reclamara da sentença leniente para alguns dos homens condenados pelo sequestro, estupro e prostituição de sua filha de 11 anos.

Foi um revés para o sistema de campos de trabalhos forçados, mais uma herança maldita do maoísmo. Trata-se da infame ideologia da reeducação, que permite a punição de infratores, com pena de até quatro anos de trabalhos forçados, sem julgamento e pequena chance de recorrer da sentença. O sistema serve supostamente para castigar drogados, prostitutas e pequenos criminosos comuns. No entanto, não poupa dissidentes políticos, integrantes de grupos religiosos banidos e gente que resolve desafiar com mais ímpeto as autoridades, como Tang Hui, a mãe da vítima de 11 anos.

Este é o sinistro alerta do Partido Comunista. Alguns alívios são necessários na panela de pressão, mas sempre com o controle de cima. Corrupção, por exemplo, é um gravísssimo problema em uma China mais próspera, mas num processo econômico ditado pelo regime. Logo, lá em cima, no topo do partidão, estão os maiores beneficiados com a prosperidade e a corrupção, além é claro de uma classe de novos ricos que tirou proveito da abertura econômica.

O novo dirigente, Xi Jinping, lançou uma campanha contra corrupção e por mais transparência. A tolerância zero é relativa. Estão em marcha as investigações oficiais sobre alegações de suborno realizado pela indústria farmacêutica britânica GlaxoSmithKline , mas cuidado com os excessos para denunciar. Acaba de sair o anúncio de que três ativistas presos em abril (foram mais de 15) serão julgados por terem coordenado uma campanha para que as autoridades governamentais revelem publicamente o seu patrimônio.

O regime não tolera desafios abertos. Ao estilo maoísta, Xi Jinping quer canalizar indignação e realizar algumas retificações. Agora é a campanha contra os “quatro ventos” do “formalismo”, “burocracia”, “hedonismo” e “extravagância”. Para o regime, é aquela extravagância medonha de lançar campanhas para as massas. Não se via algo do gênero há uma década. Esta é lançada agora justamente para conter a frustração popular com a corrupção e se esquivar de reformas políticas mais audazes. É aquele treco de arregimentar os quadros partidários para uma atitude de mais simplicidade quando ele está divorciado das massas, na pataquada com jeito de paródia.

Shirley MacLaine: maravilhada com a Revolução Cultural

Contra o “vento do hedonismo”, quadros com cargo de secretário provincial do partido vão para o campo ajudar os camponeses a remover (literalmente) ervas daninhas, enquanto os netos de líderes da revolução dirigem Porsches em Pequim ou estudam em Harvard. Algumas coisas mudaram com a China segunda economia mundial, mas outras fazem lembrar o diálogo que Deng Xiaoping, o mentor das reformas econômicas sob tacão ditatorial, teve com a atriz Shirley MacLaine, na sua primeira visita aos EUA, em 1979.

A atriz disse que visitara a China durante a Revolução Cultural de Mao e que achara tudo maravilhoso. Ficara impressionada quando um professor expressou gratidão porque o partido o despachara para trabalhar no campo. Deng Xiaoping olhou a Shirley com merecido desdém e disse que o professor estava mentindo, pois ele deveria estar ensinando na universidade, ao invés de plantar legumes.

Não será tão fácil se livrar da erva daninha do maoísmo.

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Colher de chá vai mesmo para as vítimas de trabalhos forçados na China.

16/07/2013

às 6:00 \ China

Cultos chineses

Xi e Li: o que fazer?

A economia chinesa está crescendo menos: apenas 7,5% no segundo trimestre deste ano. Os números divulgados na segunda-feira ao menos corresponderam às expectativas. Alívio nos mercados. Nos dois trimestres anteriores, a expansão do PIB da segunda economia do mundo fora de 7,7% e 7,9%, respectivamente. Os indicadores do segundo semestre devem reforçar a tendência de enfraquecimento. Mesmo se for atingida a meta de crescimento de 7,5% para 2013,  será a expansão anual mais lenta desde 1990.

A ressalva crônica é a falta de confiabilidade nos números oficiais chineses. De qualquer forma, a notícia mais importante é a falta de sinal do regime de Pequim de que irá intervir e injetar mais estímulos, como é a praxe quando a economia perde o gás, gerando sobressaltos globais. Haverá mais sofrimento a curto prazo em razão desta decisão (ou falta de) e a economia brasileira, movida à China e a crédito fácil ao consumidor brasileiro, irá sofrer.

A idéia das autoridades de Pequim é fazer a transição de uma economia movida pelo estado e impulsionada por investimentos improdutivos em uma infraestrutura inchada para um sistema mais sustentável. O homem da economia é o primeiro-ministro Li Keqiang e ele sinaliza que a meta agora seria mais qualitativa, com a China deixando de ser meramente uma fábrica global de bugigangas e se transformando em uma economia ímpulsionada pelo mercado consumidor doméstico. Meta difícil. Entre outras coisas, irá prejudicar elites beneficiadas pelo sistema vigente, como aquelas que controlam as estatais.

Existem outros desafios, além das disputas no topo da pirâmide. Menor crescimento pode gerar desemprego, distúrbios sociais e descontrole político. Transições são complexas. No plano puramente econômico, o processo penoso será atenuado se a taxa de crescimento do consumo doméstico for superior à da expansão do PIB. Mas aqui existe o paradoxo óbvio: crescimento mais lento dificulta o aumento da renda e assim o consumo tão almejado pelas autoridades.

Desde 2004, o regime comunocapitalista de Pequim fala em recalibrar a economia. Mas nos tempos da dupla Hu Jintao/Wen Jiabao, as reformas foram sacrificadas no altar do crescimento, na expressão do jornal Financial Times. A nova liderança da dupla Xi Jinping/Li Kequiang sinaliza reformas, mas ainda não implantou mudanças significativas. O risco é o pior dos cenários: crescimento mais lento sem ajustes estruturais.

Claro que  o poder reinante em qualquer país tem a meta de administrar crescimento econômico vigoroso, mas no caso chinês há um senso de urgência permanente. Por muito tempo, havia o alerta de que seria inadmissível o país tolerar crescimento anual abaixo de 8%, por uma questão de segurança nacional (preservar a estabilidade social) e para conferir um selo de legitimidade a um regime com sua ideologia comunista falida.

Aceitar uma expansão mais lenta seria algo histórico. Quem sabe até uma revolução cultural num país que passou do culto a Mao para o culto ao crescimento econômico.

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Algumas desgalhadas, mas um bom debate na coluna sobre a China. Dia de uma colher de chá coletiva. 

27/06/2013

às 6:00 \ China, EUA, Obama, Putin, Rússia, Snowden, Xi Jinping

Snowden e um triângulo nada amoroso

Os big players Barack, Vladimir e Xi

O périplo de Edward Snowden, que saiu por aí, após vazar informações sobre os programas secretos de vigilância dos EUA, também serve para exibir o grande jogo de Realpolitik envolvendo EUA, Rússia e China. Há os jogadores menores, como os Equadores da vida, mas vamos ficar apenas com os big players. Temos nossas torcidas pessoais neste jogo, mas este é um rápido comentário sobre os cálculos frios na triangulação.

Como lembra o cerebral Gerald Seib, do Wall Street Journal, não existem favores pessoais nesta história. Snowden primeiro pousou em Hong-Kong, o que foi ótimo para a propaganda chinesa (menos para a imagem de Snowden). Afinal, o ex-analista da CIA expôs a hipocrisia americana e deu chance para Pequim lembrar que Washington nem sempre tem moral para passar lição de moral, embora os chineses sejam campeões de pirataria cibernética.

No entanto, há limites para o uso de Sonwden. Ele não poderia se tornar um fardo, uma persona non grata. No cálculo chinês, era melhor que ele caísse fora o mais cedo possível para que não houvesse o risco de causar estragos maiores nas relações com os EUA. A mesma coisa com os russos. Bom para Vladimir Putin desafiar os americanos e esfregar a história na cara de Barack Obama, fazer o presidente americano sofrer. Snowden é descartável. Ademais, Putin odeia qualquer tipo de dissidente (algo similar com os camaradas de Pequim).

Em comum, Obama, Putin e o presidente chinês Xi Jinping não podem exibir fraqueza nesta história. Dentro de casa, brios nacionalistas não podem ser ofendidos (embora na democracia americana haja nuances e ambivalências em relação a Snowden). Nos cálculos da Realpolitik, os big players precisam também passar por cima dos ressentimentos.

Existe a necessidade de cooperação. Os americanos precisam de russos e chineses em crises espinhosas como a guerra civil síria e as novelas nucleares do Irã e Coreia do Norte. Putin quer coordenação com o Ocidente na batalha contra o terror islâmico e deseja mais integração no sistema econômico global.

Xi Jinping quer estabelecer uma relação de igual para igual com o presidente americano (o atual e o próximo). Logo, não pode exagerar em um antagonismo passional. Numa frase consagrada, ele precisa se tornar em uma “acionista responsável” da ordem mundial, com lances mais sofisticados, ao invés de uma surrada retórica terceiro-mundista. Isto é para os Equadores.

Snowden é um peão neste tabuleiro.

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Colher de chá para o xeque do enxadrista Rogério (dia 27, 13:53) 

07/06/2013

às 6:00 \ China, EUA, Obama, Xi Jinping

Os EUA, a China e armadilha de Tucídides

A intimidade estratégica de Xi Jinping e Barack Obama

A capa da revista The Economist está maldosa sobre a intimidade lá no rancho da Califórnia entre Barack Obama e Xi Jinping, no primeiro encontro formal/informal dos dirigentes dos EUA e China. Não estamos no clima do filme O Segredo de Brokeback Mountain nem de Casablanca, quando Rick diz: “Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade”. Estamos mais para a organização do modo de operação da mais importante relação bilateral do século 21, como observou a própria The Economist.

Regras precisam ser fixadas, o que é obviamente não significa uma relação burocrática e com, na medida do possível, franqueza mútua sobre os motivos e interesses a longo prazo. Na banda de cá, nós nunca podemos esquecer que um regime atroz ainda governa a banda de lá, um regime que trata seus cidadãos brutalmente, mais como produtores e consumidores.

Mas é isto aí entre EUA e China: uma relação complicada de cooperação e conflito; de interdependência e rivalidade e de busca de confiança e de muita suspeita (e espionagem e sabotagem). Com isto, é preciso um esforço superpotente para que não se caia na “armadilha de Tucídides”. O historiador grego da Guerra do Peloponeso no século 5 A.C. (e comandante naval ateniense) não foi convidado para a cúpula informal do G-2 lá no rancho, mas está presente de espírito com a analogia sobre o medo de Esparta (EUA, o poder vigente) de Atenas (China, o poder ascendente).

Tucídides: testemunha ocular

Como escreveu Tucídides, “foi a ascensão de Atenas e o medo que isto inspirou em Esparta que tornou a guerra inevitável”. Foi um ciclo de ameaças e contraameaças que produziu competição, confrontação e finalmente confliito. Depois de 27 anos de guerra, Esparta e Atenas estavam destruídas.

Guerra e destruição são comuns neste dinâmica de potência dominante e potência ascendente. Como observa o professor Graham Allison, da Universidade de Harvard, em 11 de 15 casos de 1500 até agora, quando o poder ascendente desafiou a o poder vigente ocorreu a guerra. Basta lembrar que depois da unificação, a Alemanha ultrapassou a Grã-Bretanha como a maior potência econômica na Europa. A agressão alemã e a resposta britânica resultaram em duas guerras mundiais no século 20.

O caso chinês é vertiginoso. Em uma geração, um país que tinha uma economia do tamanho da Espanha se converteu na segunda maior do mundo. E existe a possibilidade de que ao final do seu segundo e último mandato em janeiro de 2017, Obama presida um país com a economia ultrpassada pela China. Claro que os dados qualitativos, sociais, tecnológicos, educacionais e militares mostram uma superioridade americana a valer por um bom tempo. De qualquer forma, imagine Xi Jinping (no caso dele, o acerto da ditadura comunista é que fique no poder por 10 anos), quando aparecer no rancho para papear com o sucessor de Obama?

Claro que não sabemos exatamente o que irá acontecer. Não devemos nos vergar às leis férreas da história (aí está uma outra armadilha). Aliás, estamos em uma temporada de menos triunfalismo chinês e de mais confiança americana. E, a propósito, Esparta no seu tempo não era um potência tão poderosa em relação a seus pares, como os EUA de hoje. Mas isto é outra história.

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Colher de chá para o Nehemias (dia 7, 9:57). 

10/05/2013

às 6:00 \ China, EUA, Mundo islâmico, Síria

Rabiscos Estratégicos (EUA & China & Arco Islâmico)

Para Luttwak, a Síria é uma "missão fútil"

Edward Luttwak é sempre um estrategista militar interessante para ser lido: original, polêmico, taxativo e sem papas na língua. Ele acaba de publicar uma pensata no site da publicação Foreign Policy, concluindo que o presidente Barack Obama deve ser elogiado e não condenado pela relutância para enfiar a colher e os aviões na guerra civil da Síria.

Para Luttwak, a prioridade estratégica dos EUA deve ser responder de forma efetiva à China emergente, ao invés de se engajar “na busca fútil de estabilidade na África do Norte, Oriente Médio e Afeganistão”.  Ele faz uma rápida viagem pelo “arco islâmico”‘ para observar “variedades de anarquismo”. Mas, atenção, Luttwak não culpa o papel político do islamismo por si pelas mazelas. Ele tampouco elabora se o custo da inação americana poderá ser ainda maior do que o engajamento. Ademais, Luttwak simplesmente não menciona Irã e Israel na sua pensata a favor do desengajamento na região.

Edward Luttwak

Vale lembrar que Luttwak é o mesmo estrategista que publicou um texto na revista Foreign Affairs, em 1999, com o título Give War a Chance, argumentando que guerra tem uma virtude: pode resolver conflitos políticos e levar à paz, depois de exaustão dos combatentes ou a vitória de um deles. Ele acredita que o envolvimento de grandes potências para conter conflitos entre países menores pode muitas vezes prolongá-los.

Nesta pensata na Foreign Policy, o foco de Luttwak é realmente a relação de um grande país, os EUA, com esta China emergente. Ele não está sugerindo que os americanos encarem frontalmente os chineses. Mas, Luttwak alerta para a necessidade de Washington reassegurar seus aliados asiáticos, e  vizinhos da China,  sobre seu engajamento estratégico. Luttwak propõe uma relação sutil dos EUA com a China, um país que, segundo ele, coopera de muitas formas com os americanos, mas também ameaça a vizinhança.

Luttwak amarra um pacote que inclui necessidade americana de vigilância militar, intensa diplomacia e fortalecimento de moderados em Pequim que, de acordo com ele, existem. Tantas tarefas exigem foco. Nada, portanto, de distração com as missões “fúteis” no Oriente Médio. Luttwak está quase certo. Na verdade, o desafio para uma superpotência, mesmo exausta como os EUA, é colossal: foco em várias frentes.

Curiosamente, Luttwak também vê a China se exaurindo nesta sua ascensão. Em recente livro, The Rise of China vs The Logic of Strategy, ele considera infundados os rumores sobre o triunfo chinês. Luttwak argumenta que a ditadura agora chefiada por Xi Jinping não tem como conseguir tudo. Para Luttwak, existe uma “incompatibilidade inerente entre o rápido crescimento da capacidade econômica e o poderio mlitar e a influência diplomática”. A China precisará escolher entre os objetivos estratégicos para evitar a catástrofe. Aqui estou mais alinhado com uma pensata de Luttwak.

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Colher de chá para Ícaro sem penas (dia 10, 11:51). E uma vespertina para um leitor meio sumido, o Fernando Martins (dia 10, 13:12).

Rabiscos Estratégicos (Coreia do Norte)

O intragável ditador Kim-Jong-un

O teste nuclear norte-coreano de terça-feira foi o terceiro na história do regime comunista e o primeiro sob “gestão” do garotão Kim Jong-un. O teste também testa a nova gestão chinesa, sob  Xi Jinping.

Pequim é o único aliado de Pyongyang. É uma relação marcada por exasperação da parte dos chineses, pois as advertências e admoestações para os norte-coreanos não avançarem com suas provocações não são acatadas. Até humilhante que o regime de Pequim não controle o afilhado delinquente.

Da parte dos norte-coreanos, existe até ressentimento com o aliado protetor, pois ele já embarcou em ondas de sanções internacionais e participa do ritual de “protestos enérgicos” no Conselho de Segurança da ONU. Nada, da parte dos chineses, é claro, capaz de vergar o regime comunista em Pyongyang, embora ele avance cada vez mais no semáforo nuclear.

Difícil imaginar tão cedo um ponto de ruptura entre os dois países. A China não quer a Coreia do Norte aparelhada com efetivas ogivas nucleares (e, vale lembrar, não temos informações precisas sobre os progressos norte-coreanos neste sentido com o terceiro teste nuclear), mas na escala de preocupações, a frente nuclear não é a primeira para os chineses.

Para Pequim, inquietações maiores são um eventual colapso do regime no país vizinho ou alta instabilidade. E não convém para Pequim, uma Coreia unificada (aliada dos EUA). Os chineses perderiam um aliado que serve de zona-tampão. É verdade que a China não é um monolito nesta questão e há debates entre setores decisórios sobre como proceder em relação ao problema norte-coreano, especialmente com o excesso de travessuras e a apreensão que geram na comunidade internacional.

Do lado ocidental, a Coreia do Norte apresenta os desafios de sempre (embora mais graves): como lidar com um país que alimenta as tensões internacionais ao invés de alimentar o seu próprio povo, enquanto o vizinho é cada vez mais próspero e democrático? O argumento norte-coreano é no sentido de que seu programa nuclear é uma questão de autopreservação. Mas por que o mundo deve contribuir para preservar um regime tão asqueroso?

Os desafios são familiares quando Barack Obama inicia seu segundo mandato e há novos dirigentes no Japão (Shinzo Abe assumiu o poder em dezembro) e na Coreia do Sul (Park Geun-hye tomará posse no próximo dia 25). São dois dirigentes mais nacionalistas e a expectativa no caso do chinês Xi Jinping é de que adote uma postura mais agressiva na região (há risco de colisões incalculáveis com vários países, a destacar o Japão, em disputa sobre ilhas), enquanto mantém uma dança complicada com a superpotência americana, como tem sido a praxe.

É um cenário tenso em que a existência de um regime como a da Coreia do Norte coloca mais lenha na fogueira. E o risco é uma fogueira nuclear. O jogo de pressões diplomáticas e sanções não está funcionando. Existe um padrao há décadas de um regime norte-coreano que faz provocações para extorquir da comunidade internacional ajuda (inclusive alimentar) e garantias de segurança.

Não há boas opções na crise. Ninguém quer lançar um ataque contra a Coreia do Norte, mas uma escalada sempre é possível em caso de erro de cálculo ou alguma provocação intolerável do regime comunista. Sempre é difícil decifrar o que vem adiante em Pyongyang. Pode ser um novo teste nuclear ou uma ofensiva de charme diplomático. O fato é que o mundo está à mercê de um pequeno ditador.

A não ser uma fulminante ação multilateral (e aqui falo de isolamento completo do país e não de um ataque militar) é dífícill imaginar a Coreia do Norte alterando seu comportamento ou mudanças no ritual da crise. Uma possibilidade muito remota é a China botar para quebrar. Já mencionei que impedir mais avanços nucleares norte-coreanos está abaixo de outras inquietações estratégicas para os chineses.

No entanto, a China pode  ser induzida a mudar seu comportamento por ações ocidentais, ou seja, países como EUA, Japão e Coreia do Sul aumentarem sua capacidade de defesa balística. Aliás, nesta quarta-feira, os sul-coreanos já anunciaram que vão ampliar o alcance dos seus mísseis balísticos. Há também uma variante mais radical, que é uma corrida nuclear na região.

São cenários que trazem instabilidades e riscos ainda maiores do que os atuais. A China precisará decidir se prefere apenas uma Coreia do Norte instável ou toda a região.

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Bons comentários estratégicos, de ângulos diferentes, nesta quarta-feira de cinzas (cinzas e assunto nuclear combinam, sorry).  Para a colher de chá, escolho o comentário do Marco (dia 13, 15:11).

11/12/2012

às 6:00 \ China, Japão

O Japão da recessão econômica e da depressão política

O favorito e beligerante Shinzo Abe

E tem aquela país, terceira economia mundial e frustrado pela impotência para recuperar glórias perdidas. O Japão está em estado recessivo, quinta vez que isto acontece desde 1997. Na política, é um estado depressivo. Os japoneses terão eleições gerais no próximo domingo e os números negativos na economia são notícias positivas para o líder da oposição Shinzo Abe. E aqui vai a explicação para o estado depressivo da política japonesa. Abe renunciou à chefia do governo há cinco anos (desde então, o país teve cinco primeiros-ministros), após permanecer no cargo por apenas um e desastroso ano. Sua volta demonstra a incapacidade de renovação de liderança no país.

O Japão anda para trás e tem esta coisa melancólica de alguém como Shinzo Abe andar para frente. Antes de tudo, melancólico é o desempenho do Partido Democrático do Japão, que chegou ao poder em 2009 (desde então houve troca-troca de seus dirigentes no poder e é difícil decorar o nome de quem manda) e se mostrou incapaz de rejuvenescer a política japonesa e tirar a economia do marasmo. Abe pertence ao Partido Liberal Democrático, que mandou no país por mais de meio século.

Como primeiro-ministro, Abe foi terrível, entre outras coisas com seu empenho para passar uma borracha no passado imperialista do Japão e sua missão para  os cidadãos não terem “vergonha” de sua história militar. Com razão, os países vizinhos ficaram enfurecidos com Shinzo Abe. Hoje, porém, a mensagem nacionalista e agressiva de Abe é disseminada em um outro contexto.

O papel mais assertivo da China preocupa a vizinhança, como na disputa pela posse de ilhas. Abe tem mais munição retórica e eleitoral. Parece mais razoável agora seu arsenal de argumentos para o Japão abandonar sua Constituição pacifista e investir em gastos militares.

Como arremata um editorial do jornal Financial Times, Abe hoje parece o  candidato menos sofrível na praça, resultado de duas coisas: os equívocos da política externa chinesa e o estado desolador da política interna japonesa, incapaz de produzir melhores candidatos.

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Colher de chá para o “nativo” Jorji (14:08) e para o Helio, com comparações interessantes nos negócios entre Japão, China e Coreia do Sul (16:01). 

06/12/2012

às 6:00 \ Brasil, China, Corrupção, Rússia

Pra não dizer que não falei das roses chinesas

Xi Jinping deixando as flores murcharem

Nem tudo são roses na luta contra a corrupção no Brasil. Mas poderia ser até pior. Na edição 2012 do relatório da Transparência Internacional, divulgado esta semana, o Brasil continua mal, mas deu um pequeno salto. Passou da posição 73 para a 69, entre os 176 países. Naquela marquetagem que são os Brics, até que o Brasil se saiu bem, empatado com a África do Sul. A China é número 80, a Ïndia, 94 e a submergente Rússia de VP, Vladimir Putin, está na posição 133.

Lá nas estepes russas, como escrevi na coluna de segunda-feira, nem tudo são roses… mesmo. Aquele coluna, aliás, falou da jogada espinhosa de VP para fazer alguma faxina contra as ervas daninhas da corrupção. O risco, claro, é varrer o próprio sistema político, que é uma espécie de crime organizado. Mas estas faxinas sempre são populares. Não vou novamente pisar nas roses russas.

Com fins educacionais, aqui vai uma menção para a China, que caminha para se tornar a primeira economia do mundial em questão de décadas. No entanto, vamos ver quanto tempo vai levar para ela sair desta posição 80 no ranking de corrupção.

Pra não dizer que não falei das flores, cito a primeira medida do politburo chinês, agora sob a liderança de Xi Jinping. Na campanha contra a corrupção e o desperdício, os burocratas comunistas baniram esta semana os gastos com elaborados arranjos de flores, boas vindas com tapetes vermelhos, banquetes nababescos, discursos intermináveis, excesso de babação de ovo dos poderosos, cerimônias fajutas de inauguração de obras e viagens ao exterior de inchadas delegações governamentais.

Campanhas a favor disso ou daquilo, de cima para baixo, sempre são problemáticas, ainda por cima em ditaduras. Já que agora estamos falando de flores, não custa lembrar que em 1956, Mao Tsé-tung, aquela flor de pessoa, determinou: “Deixem que desabrochem cem flores”, para incentivar críticas e correções para a melhoria do sistema comunista. O lema brotou da tradicional frase chinesa “que flores de todos os tipos desabrochem, que diversas escolas de pensamento se enfrentem”. Desabrochou demais para o odor comunista e, no ano seguinte, Mao cortou o mal pela raiz.

Na longa marcha chinesa, para Xi Jinping, o dirigente comunista de plantão, a solução é deixar as flores murcharem.

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De forma transparente, colher de chá para a dita cuja: Transparência Internacional. 

29/11/2012

às 6:00 \ China, Coréia do Norte, Irã, Síria

Os mísseis do homem mais sexy do mundo

O irresistível ditador norte-coreano Kim Jong-un

O PC chinês é um partido cinzento. Não pegou ou ignorou o sarcasmo do jornal satírico americano The Onion, que anunciou ao mundo a escolha do jovem ditador norte-coreano Kim Jong-un, 29 anos, como o “homem mais sexy do mundo” em 2012.

O site do jornal do partidão, Diário do Povo, mandou bala (atenção, metáfora irônica) com uma galeria de 55 fotos do garotão sexy, viril e virtuoso da Coreia do Norte, reproduzindo os dizeres do Onion de que “com este rosto redondo devastadoramente bonito, seu charme pueril e seu físico forte e resistente, este galã de Pyongyang torna realidade o sonho de toda mulher”.

O Diário do Povo omitiu que outros vencedores na lista do Onion de homem mais sexy do mundo já foram Bashar Assad, Bernard Madoff e o “Unabomber” Ted Kaczynski. O site precisou asssinar o atestado de ridículo e na quarta-feira removeu a história. Mas todos nós devemos pegar a seriedade das ameaças do nada sexy regime norte-coreano. De acordo com revelações do jornal não satírico The Wall Street Journal, Pyongyang continua com o fornecimento ilegal de tecnologia de mísseis e armas para a Síria de Bashar Assad, sob a administração do garotão Kim Jong-un.

As revelações dissipam as esperanças de que haveria moderação das atividades de proliferação da ditadura norte-coreana. A divulgação destas más notícias acontece em meio aos temores de que o regime comunista esteja preparando o lançamento do seu segundo míssil de longo alcance desde que Kim Jong-un ascendeu ao poder no final de 2011.

A Coréia do Norte, que já tem a bomba atômica, é um dos melhores (e poucos) parceiros da Síria e contribuiu para o desenvolvimento do seu programa de armas químicas e de mísseis, mesmo com a intensificação da guerra civil. Inspetores das Nações Unidas acreditam que Pyongyang ajudava o regime sírio a construir secretamente o reator nuclear no leste do país, cujas instalações foram destruídas por jatos israelenses em 2007.

Falando em ditaduras com programas nucleares secretos, o Onion também enganou o Irã este ano, quando a agência “noticiosa” Fars reproduziu a história da publicação satírica americana sobre uma pesquisa concluindo que mais americanos da zona rural votariam em Mahmoud Ahmadinejad para presidente do que para Barack Obama. Mais tarde, a agência pediu desculpas por ter caído na cascata, mas insistiu que Ahmadinejad era mais popular do que Obama.

Estas ditaduras comunistas e teocráticas matam e as vezes nos matam de rir.

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Espero que os leitores entendam, mas só posso dar a colher de chá para os editores do Diário do Povo. Sem eles, esta coluna não existiria.

16/11/2012

às 6:00 \ China, EUA, Obama, Xi Jinping

Curtas & Finas (Barack Obama & Xi Jinping)

Ainda vice, Xi Jinping esteve com Obama na Casa Branca em fevereiro

Não é um novembro de grandes surpresas políticas nos dois países mais importantes do mundo. A reeleição de Barack Obama nos EUA não era determinada, mas muito provável. Já a ascensão de Xi Jinping na China foi coreografada. A única surpresa é que Xi, agora secretário-geral do Partido Comunista no lugar de Hu Jintao e que se tornará presidente em março, asssumiu de forma antecipada a chefia da Comissão Militar Central, que controla as Forças Armadas.

E como os dois dirigentes vão se relacionar? Obama administra um país em relativo declínio, mas que será insuperável em termos geopolíticos por muito tempo, enquanto o emergente Xi Jinping expressa uma confiança exagerada na força chinesa e corre o risco de subestimar o poderio americano. Está aí um cenário pouco encorajador de tensões entre os dois principais atores no teatro mundial.

Resta saber se esta crescente autoconfiança chinesa (que anda de mãos dadas com a conclusão sobre a decadência americana) irá se traduzir a curto prazo em arrogância, excesso de belicosidade e expansionismo. O patrono da abertura econômica, Deng Xiaoping, insistia que a China deveria ganhar tempo, se concentrar no desenvolvimento econômico e não se meter na arena internacional, mas o país hoje está mais impaciente e os militares mais assanhados.

No seu discurso da semana passada na abertura do congresso do Partido Comunista destinado a referendar a ascensão de Xi Jinping, o presidente de partida, Hu Jintao, foi explícito para pregar que a China se converta em um poder marítimo. Isto quando existem disputas territoriais com países da região e os EUA ressaltam seus compromissos com a segurança de aliados locais, como o Japão.

Dificil imaginar que Washington e Pequim queiram tão cedo um conflito aberto ou mesmo uma perigosa escalada de tensões, em função da interdependência econômica. Mas os sinais são de que Xi Jinping tem ouvidos para o nacionalismo mais belicoso. E não podemos esquecer que o regime chinês enfatiza cada vez mais a narrativa nacionalista como fonte de legitimidade no lugar do comunismo. Parte desta narrativa (que faz sentido) é que a China sofreu muitas humilhações, impostas por poderes estrangeiros (a destacar o Japão) e que chegou o momento de clamar por seu status de primeira classe no cenário mundial.

De novo, resta saber se a China se sente madura para um papel mais saliente (e mesmo mais agressivo) ou se erros de cálculos podem levar a uma desgalhada neste cenário mundial.

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Pessoal, nas últimas horas constatei um bom debate sobre China/EUA envolvendo vários leitores. Em nome da liderança coletiva chinesa (hehehe), uma colher de chá coletiva para todos os leitores que estão participando deste debate aqui no meio do feriadão. 

 

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