Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria China

29/09/2014

às 6:00 \ China, Hong Kong

Um clamor por democracia made in Hong Kong

Até quando será possível esta marcha por democracia?

Até quando será possível esta marcha por democracia?

No meio do caminho do capitalismo autoritário made in China há um pedregulho democrático. Momento histórico, comovente, nervoso, perigoso. São os ativistas, estudantes e simpatizantes do movimento que se alastra rapidamente em Hong Kong desde sexta-feira e que foge ao controle de sua liderança corajosa, mas que teme um banho de sangue.

O esquema vigente na cidade desde sua devolução pela Grã-Bretanha à ditadura comunista em 1997 é de “um país, dois sistemas”. A fórmula acertada entre Margaret Thatcher e Deng Xiaoping (o pai da abertura econômica, mas não política) vislumbrava um luxo, um sistema privilegiado em Hong Kong: o sufrágio universal, um produto que não pode ser oferecido aos demais chineses. Um sistema, no entanto, fajuto, já que no final das contas é norteado pelo poder de veto de Pequim sobre os candidatos nas eleições para o dirigente da cidade em 2017. A única coisa genuína neste democracia à la chinesa é o tacão da ditadura comunista.

Setores da população em Hong Kong não acham o sistema de liberdade política um mero luxo. Não acreditam que a única glória seja ficar rico, um direito aceitável e incentivado há três décadas pelos herdeiros da pobreza (em todos os sentidos) maoísta. Não querem seguir o destino do resto da China. Eles querem a plena democracia, algo inadmissível para a ditadura hoje chefiada por Xi Jinping. Para a ditadura, democracia liberal é um produto nocivo que irá solapar a harmonia social e a arrancada econômica chinesa. Sem dúvida, irá solapar o monopólio de poder do Partido Comunista.

O alastramento do movimento em si em Hong Kong, agora marcado por repressão, já é motivo de muita ansiedade em Pequim. O sentimento se torna aflição com o cenário de contágio pelo resto da China. É inconcebível que as autoridades chineses cedam às exigências deste movimento de desobediência civil que antecipou uma grande concentração prevista para quarta-feira diante da mobilização estudantil.

O que fará o regime? O cenário de multidões de pessoas pró-democracia nas ruas em desafio à ditadura comunista gera o inevitável paralelo com o massacre de estudantes na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em junho de 1989. A questão é se o regime irá despachar a tropa, o  “Exército Popular de Libertação”, para abafar e esmagar o clamor popular por libertação. O dilema para o regime é que ele não pode nem ficar indiferente nem reprimir com tudo. Tais posturas, em um primeiro estágio, apenas intensificariam os protestos.

Os acontecimentos em Hong Kong se desenrolam diante dos olhos do mundo, um mundo que já teve uma espetacular cota de surpresas neste ano, da Ucrânia à barbárie do Estado Islâmico no Siraque (Síria + Iraque). A sensação é de desordem, algo que não está na planilha do Partido Comunista chinês. A questão agora é o preço que a ditadura estará disposto a pagar para reassegurar a ordem em Hong Kong. Difícil saber, pois, para muita gente a commodity democracia é priceless.

***

Colher de chá para o “perturbador” Marcelo Henrique Gonçalves (dia 29, 11:23).

 

11/08/2014

às 6:00 \ China, Vietnã

Nos ares vietnamitas (II)

Protestos antichineses com motos e lambretas

Protestos antichineses com lambretas e motos

No mês passado, eu publiquei uma coluna, ao estilo de crônica, sobre minhas impressões de turista de primeira viagem ao Vietnã, um turista deslumbrado com o cotidiano das lambretas e motocicletas na cidade de Ho Chi Minh e a dicotomia entre uma fechada ditadura comunista e uma abertura econômica, ao estilo do vizinho chinês. Por quanto tempo será possível manter a dicotomia de um “partidão”, cuja sede em Ho Chi Minh (o pai da pátria e da revolução) fica em frente a um luxuoso shopping-center? Talvez, neste shopping-center, as mulheres dos dirigentes comprem um montão de bolsas Louis Vuitton. Afinal, a corrupção prospera no ainda muito pobre Vietnã.

Claro que capitalismo pode subsistir sem democracia e ainda por cima em uma ditadura comunista. No entanto, existe algo nos ares vietnamitas. Um grupo de 61 quadros do “partidão”, entre eles um ex-embaixador em Pequim, acaba de divulgar uma carta aberta, denunciando a atual liderança do país, acusada de tomar o caminho errado, e pedindo uma “guinada decisiva” de ditadura para democracia.

O documento também pede menos dependência da China, em um momento de muita tensão entre os dois países, que travaram uma rápida guerra em 1979. Intriga que a carta aberta tenha sido anunciada publicamente, mas este é um momento em que o regime está vulnerável devido à crise com a China e acusações de ter se submetido a Pequim (os protestos populares antichineses foram contidos pelas forças de segurança quando estavam em uma espiral).

São tempos de assertividade chinesa no Pacífico, com disputas com vários países nas vizinhanças devido a reinvindicações de águas terrritoriais (as mais importantes, claro, com o Japão). No caso vietnamita, a encrenca cresceu quando os chineses instalaram uma plataforma petrolífera em águas contestadas. Isto gerou uma onda nacionalista em maio e sangrentos distúrbios, em especial em fábricas chinesas (na confusão, foram destruídas também algumas instaladas por indústrias de Taiwan). A liderança vietnamita incentiva cada vez mais investimentos estrangeiros europeus, americanos e e japoneses, mas a principal parceria segue sendo com a China.

Um dos três co-autores da carta-aberta, o ex-vice-ministro de Ciência e Tecnologia, Chu Hao, disse à agência de notícias Bloomberg que “o partido precisa se livrar do marxismo-leninismo e cair fora da órbita chinesa”. No entanto, a liderança em Hanói fará o possível para continuar na trilha chinesa de sufoco político e legitimidade através de crescimento econômico e nacionalismo (com operações-arrastão contra dissidentes e quadros corruptos).

Existe, porém, o modelo de Mianmar. O expansionismo chinês pode se tornar intolerável e oferecer uma oportunidade para os EUA servirem de anteparo econômico e de segurança ao Vietnã (nas reviravoltas da história, tendo como pano de fundo a guerra que acabou em 1975, com a vitória comunista). A ditadura militar de Mianmar realizou uma guinada estratégica nos últimos quatro anos, que desembocou em uma aproximação com o Ocidente e uma genuína abertura política. Se isto ocorrer, será uma grande perda estratégica e ideológica para a China.

 ***
Colher de chá para Alexandre F (dia 11, 14:30), velha dívida.

07/07/2014

às 6:00 \ China, Copa

A pátria de chuteiras (China)

Este made in China ainda não dá para comprar

Este made in China ainda não dá para comprar

No futebol, a China não é nem uma Costa Rica. No ranking da Fifa, a superpotência emergente está na posição 103, um degrau abaixo da Guiné Equatorial. Os chineses participaram apenas uma vez de Copa (em 2002), mas os relatos são de um acompanhamento fanático dos jogos no Brasil e no pecado capital existe uma queda de produtividade, com trabalhadores chegando tarde ao emprego ou fajutando doença. Até o presidente-ditador Xi Jinping é fã do esporte bretão (embora patriotas chineses garantam que invenção do jogo seja local). Ele estará ao lado de Dilma Rousseff na final no Maracanã no próximo domingo.

Existe um espírito mais relaxado na torcida lá na China. Ariel Armony, um conhecido meu que dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Miami e que também dá aulas na China, conta que a torcida na chinesa está dividida entre Brasil e Argentina. Messi é o “cara” (vamos esclarecer que o Ariel é argentino). A sacada dele é que a torcida está mais relaxada pois a honra nacional não está em jogo.

Para o business global do futebol claro que seria muito interessante uma ascensão da China (assim como da Índia), mas que prejuízo político. Afinal, a China tirou a camisa do comunismo e agora veste a do nacionalismo cada vez mais exarcebado. Inquietante a visão de uma pátria de chuteiras made in China. É verdade que a seleção feminina de futebol faz bonito, mas a masculina é um vexame. Foi humilhada em amistosos no ano passado, sucumbindo inclusive ao Uzbequistão.

As coisas podem mudar se a máquina estatal de esportes, de estilo soviético, for realmente azeitada. Por ora, é o sucesso olímpico em esportes que exigem muita rotina como ginástica e mergulho. Bilionários deste sistema de leninismo de mercado começam a entrar na jogada, investindo em futebol. As ligas domésticas ainda são bem fraquinhas, mas já estão bem lubrificadas nos esquemas de suborno e manipulação de resultados.

A China, no entanto, como todos sabem, é sucesso nos jogos com bolinha pequena, como tênis de mesa e badminton. Uma teoria para o estado melancólico com a bola grande do futebol é a falta de tradição lúdica do esporte, ao estilo brasileiro, ou do esquema arregimentado das ligas suburbanas dos EUA. Na China, depois da escola, o lazer das crianças é estudar. No entanto, mais a longo prazo, existe o potencial para a China ser bric também no futebol, graças à dobradinha de chicote político e dinamismo econômico.

O modelo made in China costuma botar para quebrar os adversários.

 

***

Colher de chá chinês para o Henrique (dia 7, 10:34)

Pessoal, bolãozinho (angustiante) volta na terça-feira com Brasil x Alemanha.

 

 

05/06/2014

às 6:00 \ China, EUA, Europa, Polônia, Ucrânia

O desembarque das datas de junho

Walesa vota nas históricas eleições polonesas em 4 de junho de 1989

Walesa vota nas históricas eleições polonesas em 4 de junho de 1989

Primeira semana de junho é um desembarque de efemérides e algumas são redondas, como jornalista gosta e precisa. O desembarque começou no dia 3, terça-feira, 25 anos da morte do aiatolá Khomeini. Quarta-feira, dia 4, foram os 25 do massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim. Hoje, quinta-feira, dia 5, são 47 anos do início da Guerra dos Seis Dias (vamos esquecer, não é data redonda). Amanhã, dia 6, 46 anos do assassinato de Robert Kennedy e, é claro, os 70 anos do desembarque na Normandia, o Dia D.

Dia para falar exatamente de que assunto? Vou fazer a ponte entre os dias 4 e 6 nesta quinta-feira, 5 de junho. O passado da Normandia adquire urgência presente, pois a cerimônia dos 70 anos vai aconchegar Vladimir Putin com líderes ocidentais e também com o presidente eleito da Ucrânia Petro Poroshenko, justamente tendo a crise ucraniana como pano de fundo.

O pior cenário de uma invasão russa do país não se materializou, mas a desestabilização prossegue a todo vapor (e fogo) com  a escalada de uma guerra civil, devido ao incentivo do Kremlin aos separatistas no leste do país. O recado ocidental para Putin deve ser claro nos encontros bilaterais desta quinta-feira em Paris e na cerimônia na Normandia na sexta-feira: caso haja incremento da desestabilização ucraniana, novas sanções serão necessárias.

Os recados são conflitantes. Há comunicado do G-7 com linguagem dura contra a Rússia (excluída do clubinho), enfatizando que ela deve acelerar sua retirada de tropas da fronteira ucraniana e deixar de fomentar os separatistas, em meio a informações de que haverá uma “invasão” de 400 marinheiros russos num porto francês, a partir do próximo dia 22. Eles vão treinar nos dois navios de guerra que serão entregues a Moscou. Apesar da bronca de aliados ocidentais, o presidente François Hollande vai honrar o contrato de US$ 1.6 bilhão. Ces’t la vie.

O atoleiro ucraniano contrasta com a desenvoltura da Polônia, país que se livrou das amarras russas com o fim do bloco soviético e está especialmente preocupado com o assanhamento retrô de Putin. Os poloneses estão na linha de frente das cobranças por mais vigilância da Otan e para lembrar ao presidente americano Barack Obama que não dá para se desengajar da Europa.

A desconexão Varsóvia-Kiev mostra os rachas no antigo bloco soviético, que Putin teima em remontar em uma escala  menor. A Polônia é uma das grandes histórias de sucesso na Europa pós-Guerra Fria em comparação ao fracasso ucraniano. Os dois países estavam no mesmo buraco antes do esfarelamento do bloco soviético. São países de população e tamanho similares. A Polônia empreendeu reformas (com terapia de choque) enquanto a Ucrânia, na expressão do ex-primeiro-ministro polonês Jan Bielecki, foi “capturada” por oligarcas, clãs políticos e remanscentes do antigo aparato de segurança, ou combinação dos três.

O presidente polonês Komorowski com Obama em Varsóvia na quarta-feira

O presidente polonês Komorowski com Obama em Varsóvia na quarta-feira

O desfecho da história? A renda per capita na Polônia no ano passado era de US$ 13.400 e na Ucrânia, US$ 3.900. A Polônia é um país estável, cada vez mais próspero, integrante da Otan e da União Europeia. A Ucrânia tem chances pouco alentadoras de sair do atoleiro. O mínimo que pode ser feito é o Ocidente dar uma mão a Petro Poroshenko e não deixar Putin dar mais rasteiras na Ucrânia.

Comecei esta coluna falando de datas redondas. Mais uma: no mesmo 4 de junho de 1989 em que a ditadura chinesa massacrava manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em Pequim, tiveram lugar eleições parcialmente livres na Polônia em que o Solidariedade de Lech Walesa deu uma lavada no Partido Comunista.

Obama fez discurso bonito e passional na quarta-feira em Varsóvia, lembrando que aquela eleição de 1989 foi o “começo do fim” do comunismo na Europa Oriental e que os ucranianos de hoje são os “herdeiros” do Solidariedade. O problema é que há 25 anos, os poloneses tinham um Mikhail Gorbachev no meio do caminho e não um Vladimir Putin (enquanto os chineses tinham o complexo Deng Xiaoping com suas reformas econômicas e tanques).

De fato, o triunfo eleitoral do Solidariedade há 25 anos foi uma rachadura importante no Muro de Berlim, que foi abaixo cinco meses mais tarde. No próximo 9 de novembro, a gente desembarca nesta outra data redonda.

***

Colher de chá para o pique de Leniéverson.

04/06/2014

às 13:00 \ China

República Popular da Amnésia (II)

Não podemos esquecer Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz na prisão

Não podemos esquecer Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz na prisão

E a repressão se agravou na China desde o massacre de junho de 1989. Quem puder, leia o texto curto de Andrew Nathan, professor da Columbia University, em Nova York, e do ativista Hua Ze, craques infatigáveis para revelar o que acontece além da grande muralha de silêncio da ditadura chinesa.

Ambos enfatizam que a necessidade de manter e intensificar a repressão é sinal de que a brutalidade do 4 de junho não resolveu os problemas chineses. Pelo contrário, eles foram exacerbados. Está aí a barbaridade da sentença de 11 anos de prisão, decretada há cinco anos, para Liu Xiaobo, ativista da Praça da Paz Celestial e Prêmio Nobel da Paz.

O partidão chegou a uma encruzilhada em 1989 (havia horror do caminho reformista escolhido pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, que, por sinal, estava em visita a Pequim, naquelas semanas turbulentas). O partidão poderia dialogar com os estudantes, conforme advogava o líder reformista Zhao Ziyang, formando uma frente ampla contra a corrupção. No entanto, o primeiro-ministro Li Peng argumentou que o diálogo representaria o fim do monopólio do poder do partidão. O líder supremo Deng Xiaoping se alinhou com Li Peng e o resto é a historia.

Pode-se se dizer que o massacre dos estudantes e o expurgo de Zhao Ziyang eram inevitáveis. Deng Xiaoping, a mola propulsora das reformas econômicas, queria dar o recado (e deu mesmo). Ele era consistentemente contrário a qualquer dissidência política.

Como escrevem Nathan e Ze, a recusa ao diálogo com a cidadania é o modus operandi do regime. Não sei se ambos estão muito otimistas quando arrematam que o regime está cada vez mais desacreditado e o resultado são “graduais e relutantes” atos de resistência. A resposta de Pequim é intensificar a repressão na medida em que o diálogo é visto com um contrato de altíssimo risco.

Nathan e Ze perguntam e respondem: “Será que a China vai se democratizar? Provavelmente sim, eventualmente; o modo presente de governar não é sustentável. Porém, a cada ano o risco de abertura é maior porque as demandas sociais que têm sido reprimidas estão crescendo”.

***
Colher de chá para os vários comentários nesta e na coluna anterior de Paulo Ricardo Herrmann.

04/06/2014

às 6:00 \ China

República Popular da Amnésia

Suprimir o protesto e a memória

Suprimir o protesto e a memória

O título desta coluna é o título do livro de Louisa Lim, a veterana correspondente na China da indispensável National Public Radio (dos EUA). Falar do livro é meu presente aos leitores no vigésimo quinto aniversário do massacre dos manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em Pequim, para que jamais esqueçamos o que aconteceu, ao contrário do que acontece com os chineses (pelo menos em Hong-Kong foi possível lembrar, com dezenas de mihares de pessoas presentes a uma vigília, a destacar estudantes que nem tinham nascido em 1989).

No ano passado, Louisa Lim realizou um experimento sobre o que ela qualifica de “grande esquecimento”. A jornalista confrontou estudantes de quatro importantes universidades de Pequim com uma das fotos icônicas da história da humanidade: o homem solitário e anônimo que confronta uma coluna de tanques no dia seguinte ao massacre dos manifestantes. Apenas 15 dos 100 estudantes souberam identificar a foto. Um estudante de doutorado em marketing perguntou se era na Coreia do Sul. Outro, um estudante de astronomia, se era em Kosovo. Dezenove estudantes especularam que se tratava de uma parada militar.

Suprimir o protesto foi apenas um ato da ditadura chinesa. Um outro foi e ainda é tentar suprimir a memória coletiva como parte de um pacto do regime com a população: sinal verde para buscar a fortuna econômica, mas não a fortuna política da liberdade. A repressão é vista como imprescindível para a fórmula de decolagem econômica.

Um proeminente novo-rico, Jack Ma, fundador do gigante do comércio eletrônico Alibaba, disse que a decisão de Deng Xiaoping de soltar os soldados contra os manifestantes foi “cruel, mas necessária”. Um líder estudantil na Universidade de Pequim que se alinhou com o regime, contra as manifestações, foi recompensado. Xiao Jianhua ganhou as devidas conexões com o aparelho partidário (passaporte para a riqueza) e hoje é empresário bilionário (em dólares).

Louisa Lim escreve que esquecer o que aconteceu em 1989 é um mecanismo de sobrevivência do regime e anda de mãos dadas com o revisionismo histórico de aceitar que o declínio chinês entre 1840 e 1949 (ano da revolução comunista) foi culpa do imperialismo estrangeiro, que os comunistas lutaram sozinhos contra os japoneses, que uma borracha deve ser passada na fome que matou 40 milhões de chineses no Grande Salto para Frente e que Mao foi “70% bom e 30% ruim”.

Esquecer é preciso, assim como novas formas de mobilização diante da falência do projeto ideológico comunista. Não é à toa que os maiores protestos na China desde 1989 aconteceram em 2012 nas marchas antijaponesas que tiveram lugar em 80 cidades com o aval das autoridades. Como diz Louisa Lim, melhor canalizar a fúria para fora do país, não para dentro.

A própria Praça da Paz Celestial foi reabilitada de um local de vergonha nacional para um de orgulho, de celebração da identidade nacional. Milhares de pessoas se congregam diariamente na praça e tiram fotos dos guardas que adentram com passo de ganso.

Até hoje não existem cifras oficiais sobre o número de vítimas. Morreram centenas, talvez milhares, de manifestantes há 25 anos. A Argentina da ditadura militar teve as Mães da Praça de Maio. A China tem as Mães da Praça da Paz Celestial. Seus filhos morreram em 3 e 4 de junho de 1989. Elas esperam os meros fatos, justiça e a abolição da república popular da amnésia.

E quem sabe, daqui a 25 anos, no cinquentenário do massacre, possamos escrever sobre o momento em que a coluna de tanques não resistiu ao avanço de pedestres anônimos, porém não solitários.

***
Colher de sopa, claro, para as vítimas, manifestantes, o homem-tanque e para aqueles que não sofrem de amnésia chinesa. 

 

 

 

 

 

 

16/05/2014

às 6:00 \ China, EUA

Rabiscos estratégicos (China & EUA)

Xi Jinping e Obama: por que a desconfiança?

Xi Jinping e Obama: por que a desconfiança?

Na sua cuidadosa e metódica coluna econômica, Robert Samuelson entra com um pouco de atraso na história sobre a ultrapassagem chinesa. Ele diz que provalmente os EUA já perderam a posição de economia número 1 do mundo para a China. É um marco, mas, para Samuelson, o significado imediato é limitado, pois os americanos ainda são bem mais ricos do que os chineses.

No entanto, este assunto da ultrapassagem chinesa é antigo (de abril). Para o meu alívio, Samuelson reconhece que a contabilidade sobre o triunfo do PIB chinês em 2014 levanta questões profundas e a maior delas envolve a natureza da geopolítica global. Existe um contraste na visão de mundo dos EUA e da China. E o foco aqui nem é tanto ideológico (na minha expressão, capitalismo democrático x comunocapitalismo).

Samuelson lembra que a lição aprendida pelos americanos com a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial é que o isolacionismo do país nas décadas de 20 e 30 contribuiu para os dois eventos grandiosos. Na visão da internacionalista política externa americana pós-1945, o mundo seria melhor (mais próspero, mais democrático e mais pacífico) se todos os países fossem como os EUA.

Houve aventuras militares e exercícios de arrogância imperial (Vietnã  e Iraque são bons exemplos). No entanto, a meta americana tem sido minimizar ameaças de segurança contra esta visão de sua política externa. Mesmo a grande ameaça do comunisno soviético foi embasada na doutrina da contenção e não da agressão. Em muitos momentos da Guerra Fria inclusive vigorou uma política de détente nas relações com o comunismo (soviético ou chinês).

Já a China não quer refazer o mundo à sua imagem. A China prefere um sistema global que sustente seu crescimento econômico doméstico, vital para preservar o poder do Partido Comunista e pouco se lixando se a ordem internacional deva ser democrática ou não. O essencial para os chineses é acesso fácil às commodities necessárias para mover sua economia.

Samuelson cita o economista Eswar Prasad, da University de Cornell, para o qual a política externa chinesa ainda tem a perspectiva estreita do autointeresse nacional. A China não quer exportar o seu modelo e tampouco assumir responsabilidades de acionista da sociedade global. Atua quando seus interesses estão em jogo.

No entanto, com crescimento econômico e mais prosperidade, o horizonte, as necessidades e ambições se ampliam. O resultado será uma política externa mais confiante, mais competitiva e mais agressiva. Basta ver as crescentes disputas com uma penca de países nas suas redondezas. Samuelson prefere não ver as contradições e limites internos do modelo chinês, como o alemão Josef Joffe citado na coluna de quinta-feira. Para Samuelson, o poder econômico está se deslocando a favor da China e assim os conflitos com os EUA serão inevitáveis. No meu arremate, ironicamente quando os americanos abandonam a desenvoltura que marcou sua política externa após 1945.

***
Colher de chá para Nehemias (dia 16, 10:20).

 

.

 

 

15/05/2014

às 6:00 \ China, Rússia

Rabiscos estratégicos (Rússia & China)

Putin quer indicar o caminho para o presidente chinês Xi Jinping

Putin quer indicar o caminho para Xi Jinping

Vladimir Putin tem um novo contrato social com o povo russo (e aqui falo das fronteiras formais do país e não da nação difusa que ele quer presidir na Eurásia). O triunfo nacionalista que se seguiu à anexação da Crimeia tem o previsível efeito mobilizador e fortalece a posição do Kremlin (a aprovação de Putin disparou para 90%) quando a economia enfraquece. Perde o gás a “nação de consumidores” fundada com o boom energético e que ocupou o lugar do caos e tempos enxutos dos anos 90, mas triunfa a “nação de patriotas”. A compensação é a sensação de que a Rússia será novamente uma grande potência global.

Arautos do putinismo apregoam que por este novo contrato social, os russos deram o consentimento para: criação de uma União Eurasiana (em contraponto à decadente União Europeia), a formulação de uma nova ideologia estatal corporativista (que nas minhas palavras fede a fascismo), a rejeição de reformas políticas e econômicas, crescentes gastos militares, maior distanciamento do Ocidente e uma virada para a China em um esforço para formar um eixo contra o Ocidente.

Claro que falta combinar com os chineses, prestes a superarem os EUA como a maior economia do mundo já em 2014, de acordo com alguns critérios contábeis. Sem dúvida que existem convergências econômicas entre os dois países e Putin estará em Pequim ainda neste mês para conversar com o presidente Xi Jinping. O foco do diálogo entre a ex-superpotência e a superpotência emergente será energia. Os europeus compram 75% do gás russo e querem diversificar devido à crise ucraniana. Moscou precisa cortejar novos compradores e também está em busca de capital devido à fuga de US$ 50 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2014.

No entanto, meu bom guru, o alemão Josef Joffe (não confundir com a musa da coluna Julia Ioffe), alerta que o modelo chinês está esgotado. O pico de crescimento foi há 30 anos (15%). Caiu agora pela metade. Parte do problema é a desaceleração mundial, mas existem as razões estruturais. É um modelo que, em inglês, Joffe rotula de modernitarianism, ou modernização autoritária. Ele bateu no teto dos seus limites embutidos como aconteceu com a velha União Soviética.

Industrialização frenética sob o tacão do partido é fácil por uns tempos (o preço político é penoso, obviamente), mas a economia do conhecimento pega suas dicas do mercado e não do estado autoritário. Joffe lembra que a palavra chave é liberdade, para empreendedores, capital, ideias e inovação, além do mero exercício da cidadania.

Pactos sociais putinistas, eixos em torno de ideologia estatal corporativista e modernização autoritária não são promissores na Eurasia a longo prazo. A curto, são estas tensões na frente ucraniana e nas disputas no oceano Pacífico.

***
Boas rabiscadas de leitores neste tema. Prefiro dar uma genérica e estratégica colher de chá aos leitores. 

 

06/05/2014

às 6:00 \ China, EUA

A economia chinesa vai ultrapassar a americana. E daí?

Abstenção chinesa no Conselho de Segurança. País é incapaz de liderar ordem mundial

Abstenção chinesa no Conselho de Segurança da ONU. Pequim é incapaz de liderar ordem mundial

Na semana passada, pipocou na imprensa global a manchete sobre a antecipação para este ano do triunfo da economia chinesa. Ela deverá ultrapassar a dos EUA ainda em 2014 com base no critério de paridade do poder de compra, ou seja, o peso relativo das economias pelo custo de vida real. Os EUA lideram desde 1872. Eu prefiro, no entanto, a manchete da nova coluna do sempre arguto Edward Luce no Financial Times: “Incerteza, não a China, está substituindo o poder dos EUA”.

A China carece de condições e ambições para ocupar o papel americano. Em dólares, ela vai levar uma década e tanto para ultrapassar os EUA. Ao invés de nos concentrarmos em marcos estatísticos, o alerta de Edward Luce é para nos preocuparmos com a crescente indisposição (e incapacidade) dos EUA para fazer o que tem feito nos últimos 70 anos: liderar. Com o declínio hegemônico dos EUA, vem a multipolaridade, mas de que gênero? Um sistema ainda baseada nas regras arquitetadas pelos americanos (ONU, FMI, Otan) ou algo do estilo “depois de mim, o dilúvio?

Algumas mudanças geopolíticas dão uma sensação de dilúvio nas duas pontas da massa de terra eurasiana. Nas bandas do Pacífico, existe temor de aliados dos EUA com a expansão chinesa e na Europa, com a crise ucraniana, há a preocupação com a Rússia, outro poder regional predatório. Na Guerra Fria, a grande meta estratégica dos EUA era a contenção do comunismo soviético. Agora no começo do século 21, é um país cansado de guerra, de responsabilidades e do fardo econômico da hegemonia que tropeça nesta tarefa de dupla contenção.

O cenário é inquietante, na avaliação de Edward Luce, por três motivos básicos. A China não tem condições de coordenar a ordem global no século 21 por ser autocrata, não ter sido construída com base na imigração e por nunca ter projetado valores universais. Em contrapartida, os EUA se comportam como um poder declinante que se mostra indisposto a compartilhar o poder, mas é incapaz de impor resultados.

O jogo, porém, não acabou. Nenhum país tem tantas cartas como os americanos (a história dirá se Barack Obama as esconde ou se é mau jogador) para forjar um mundo multipolar. No diagnóstico de Edward Luce, um obstáculo para a movimentação americana é a paralisia doméstica. E aqui eu acrescento que temas como cansaço de guerra, a fortuna declinante da classe média e as crescentes desigualdades sociais corroem o entusiasmo americano para se engajar no mundo.

Edward Luce arremata que os americanos possuem o poder para estabelecer o tom do engajamento global e negociar resultados benéficos tanto para eles como para os demais. Resta saber se o espírito para a missão está dormente ou extinto.

***
Colher de chá para Carmem (dia 6, 10:24) e Ney do MS (dia 6, 13:00).

22/04/2014

às 6:00 \ Ásia, China, EUA, Europa, Japão, Obama, Rússia, Síria, Ucrânia

Obama, para dentro e por fora

Na chuva, para se molhar

Na chuva, mas sem querer se molhar

O mundo está preocupado com os EUA. Não falo apenas dos inimigos de carteirinha, mas dos seus aliados. Eles estão apreensivos com o governo Obama, um governo que se desengaja do mundo de forma premeditada e, quando resolve se engajar, atua de forma desastrada.

O retraimento americano é natural. Há um cansaço imperial e Obama reflete o estado de espírito nacional, em particular depois do custo em todos os sentidos das empreitadas no Afeganistão e Iraque, marcas registradas da administração Bush. Obama prefere usar termos mais suaves como recalibramentos e viradas. Essencialmente, é uma virada para dentro, uma virada doméstica, embora acompanhada da promessa de mais investimentos geopolíticos e geoeconômicos na região da Ásia/Pacífico.

São viradas, porém, desajeitadas. Nesta terça-feira, o presidente está iniciando uma viagem pela região Ásia/Pacífico (era para ter viajado em outubro, mas houve o adiamento devido à crise de paralisação parcial do governo em Washington). São escalas no Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Malásia. Com a visita, Obama quer acalmar aliados dos EUA quando a China é cada vez mais assertiva na região, enfronhada em várias disputas sobre águas territoriais. Um exemplo concreto é a expectativa do anúncio do mais amplo acesso americano a bases navais filipinas desde a devolução do vasto complexo de Subic Bay em 1992.

Existe esta apreensão dos aliados diante do retraimento americano, como na crise síria, quando Obama fixou uma linha vermelha que não poderia ser cruzada pelo ditador Bashar Assad no uso de armas químicas e recuou quando elas foram utilizadas. A mensagem foi bem captada pelos russos, que estão entre os grandes beneficiários dos vacilos e amadorismos da politica externa americana. Basta ver a “invasão/não invasão” da Ucrânia, coisa de profissional.

E aqui vamos deixar claro que a flacidez diplomática dos EUA tem sinal verde de uma opinião pública interna que está indiferente às encrencas e às desolações internacionais, seja na Síria, seja na Ucrânia. Já a oposição republicana, dividida entre alas mais belicosas e outras mais isolacionistas, basicamente atua de forma oportunista e dispara a torto e a direito contra a Casa Branca.

Neste contexto de erros de cálculos da Casa Branca, indiferença da população americana e disfunção em Washington, é natural a dúvida de aliados como o Japão se realmente eles podem contar com os EUA, uma superpotência hoje avessa ao confronto, a não ser em caso de ataque direto aos seus interesses. E o governo de Shinzo Abe não ajuda muito com sua postura hipernacionalista e até insensível ao cruel papel japonês na Segunda Guerra Mundial. Felizmente nas últimas semanas, o primeiro-ministro Abe deu uma recalibrada para não constranger tanto os aliados e protetores americanos.

E as promessas de comprometimento americano são mal vendidas. Na verdade, Obama exagerou na dose com o recalibramento para a Ásia/Pacífico. Como ele irá concretizar a meta de direcionar 60% dos ativos militares dos EUA para a região em 2020? A superpotência americana corta gastos do Pentágono e, ao mesmo tempo, tem seus compromissos como a mais importante polícia na ordem mundial.

Washington negligenciou a Europa como se fosse um museu, mas está aí o dinossauro russo botando para quebrar. E qual é a resposta essencial de Obama? Existe uma fuzilaria retórica contra Putin, além de sanções cosméticas, enquanto de cara o presidente americano descartou o uso de força militar na crise ucraniana. Está aí uma prova da atuação desastrada de Obama: nem diplomacia efetiva e nem dissuasão convincente. Como no oceano Pacífico, aliados americanos no mar Báltico questionam se podem contar com os EUA.

Na viagem que está iniciando, Obama irá precisar acalmar seus aliados, a destacar os japoneses, enquanto não enfurece os chineses, com os quais os americanos têm um complexo balé de cooperação e competição. A politica externa americana pode acabar no pior dos mundos: agravar as relações com Rússia e China (sem conter os seus avanços) e, ao mesmo tempo, deixar mais apreensivos os aliados dos EUA.

***
Colher de chá matinal para Marcelo Henrique Gonçalves e Bruno Barreto pelo pingue-pongue. E uma noturna para Olavo Mata (dia 22, 22:26).

 

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados