Eike Xiaoping, o otimista Buffett e o capitalista Romney
A edição corrente de VEJA traz reportagem de capa sobre os novos milionários brasileiros que têm Eike Batista como ídolo e não se envergonham da riqueza, seguindo a palavra-de-ordem do líder comuno-capitalista chinês Deng Xiaoping que “enriquecer é glorioso”. Eike é a oitava pessoa mais rica do mundo, na lista da revista Forbes.
A edição corrente da revista Time traz reportagem de capa sobre a terceira pessoa mais rica do mundo. Warren Buffett não se envergonha do capitalismo (hello!), mas não ostenta sua riqueza. Antes de tudo, ele está doando 99% de sua fortuna de US$ 45 bilhões. Buffett vive na mesma casa que ele comprou em 1958 (cinco quartos), em Omaha, no estado de Nebraska, e calcula que suas despesas pessoais anuais não passem de US$ 150 mil. Seu luxo é o avião privado.
Brasil e EUA estão em fases diferentes de capitalismo e seus milionárois (e bilionários) têm posturas distintas. Sobre o Brasil, leiam a gloriosa reportagem de VEJA. Eu vou falar sobre os EUA. Warren Buffett, para que não sabe, está indignado com seus companheiros. Quer que eles paguem mais impostos (o presidente Obama também, assim como a maioria dos americanos que não estão lá em cima, como Buffett ou um pouco abaixo dele). Buffett adverte que o país precisa levar a sério a necessidade de “dividir sacrifícios”.
Para ele, entre outras coisas, mais impostos para os mais ricos vão contribuir para mitigar a sensação nacional de que se vive em uma plutocracia. Tal sensação é uma ducha de água fria e desmotiva o país. Mais impostos claro significam mais dinheiro para o governo. Gente mais conservadora abomina a idéia, argumentando que significa apenas alimentar a besta governamental, que deveria, isto sim, passar fome e emagrecer. Buffett acredita que mais gastos governamentais são necessários.
Buffett está na contra-mão do capitalismo darwinista esposado por tantos conservadores, que acreditam que o mercado seja a palavra final, o único meio de distribuição dos ativos econômicos. Estes conservadores não podem chamar Buffett de socialista (como fazem no caso de Obama). A saída é rotulá-lo de ingênuo, inocente útil ou equivocado (para mim, rótulos pouco convincentes diante do sucesso de Buffett e sua esperteza).
A questão, claro, é política. Buffett está no epicentro do debate político-eleitoral americano, o debate que envolve temas como desigualdade social (bandeira de luta de democratas) e competitvidade sem rodeios (bandeira de luta dos republicanos). A ressalva é que existe uma esquizofrenia na campanha das primárias republicanas, com alguns candidatos atropelados pelo avanço de Mitt Romney com uma retórica demagógica e desesperada à esquerda de Obama e, digamos, de Warren Buffett. Imagine, quando o governador texano Rich “Oops” Perry chama Romney de “abutre do capitalismo”, ele deve chocar até Michael Moore. Aliás, Perry já é uma ave penada na corrida republicana. Por que não desiste, como o Jon Huntsman?
Mas, voltando a Warren Buffett, ele acredita no direito de se ganhar muito dinheiro, mas também em justiça e na habilidade do governo para tornar melhor a vida das pessoas. Anticapitalista? Não. Intervencionista estatal? Não. Ao contrário de tantos liberais, Buffett não acredita em regulamentação para coibir excessos de Wall Street. Para ele, é necessário o espirito animal do capitalismo. Buffett apenas acredita que uma política tributária mais justa irá dar conta dos excessos, além de subsidiar investimentos necessários em infraestutura e programas sociais.
Sobre Buffett, um último comentário. Nem de longe, ele pode ser considerado um derrotista. Pelo contrário. Basta ver o título na capa de Time: “O Otimista”. Buffett acredita que quando o mercado imobiliário se recuperar, a economia americana estará de volta aos trilhos (a propósito, ele é um grande investidor na indústria ferroviária). Buffett insiste que seu otimismo não é emocional, mas quantitativo. Os EUA são um país de gente jovem, a América corporativa está enxuta e os estoques em baixa. Na visão dele, o motor de crescimento deverá engatar em breve. Eu espero que Buffett tenha razão.
Numa campanha eleitoral tão esquisita, o bilionário Buffett é garoto-propaganda do populismo de Barack Obama (enquanto temos aquela bizarrice populista de vários candidatos presidenciais republicanos). Toda a boiada (Obama e os republicanos ainda na parada contra Romney) é composta de milionários. Eriquecer pode ser glorioso, no Brasil, na China e nos EUA, mas na campanha eleitora americana, os candidatos fingem serem seguidores do estilo de vida de Warren Buffett, preferindo não exibir a riqueza, embora Mitt Romney apregoe uma “defesa clara e sem desculpas” dos ideais americanos do capitalismo de livre mercado.
Fingir ser do povo e sentir a dor de uma classe média espremida fazem parte do teatro político. Não se trata apenas da divisão de sacrifícios pregada por Warren Buffett. Como diz Ross Douhat (o outro colunista conservador do New York Times, ao lado de David Brooks), trata-se também de prometer uma competividade que não leve apenas ao crescimento, mas de crescimento que leve mais amplamente a uma divisão de prosperidade.
Douhat recomenda mais sensibilidade a Romney, no sentido de reconhecer que o capitalismo tem os seus custos, especialmente em uma era de insegurança. Criticar estes custos não expressa meramente ressentimento ou inveja dos vencedores. Para Douhat, a falta de sensibilidade pode custar a presidência a Mitt Romney.
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Colher de chá para o Ney (dia 16, 11:23), cada país no seu devido lugar, no seu devido contexto.


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