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Arquivo da categoria Ásia

04/07/2012

às 6:00 \ Ásia, EUA, Imigrantes, Latinos

Quatro de julho (2)

Rostos asiáticos na cerimônia de naturalização

Estamos no 4 de julho, feriadão americano da independência. No ritual da coluna, volto a escrever sobre o significado da data no dia mais apropriado. Este colunista que já viveu quase metade de sua vida nos EUA sente-se em casa por aqui (assim como nas bandas de Higienópolis/Consolação/Bom Retiro, em São Paulo). God Bless Americas! Muito para celebrar, mas é sempre bom ter cuidado com o excesso de fogos de artifício. Dá chabu esta lengalenga de país excepcional, o melhor do mundo, USA! USA! USA!. Patriotada é excepcionalmente perigosa em qualquer pátria. Faz o cidadão perder o senso crítico, bravatear, escamotear os problemas nacionais e se comportar de maneira arrogante e xenófoba (ok, no futebol pode). De qualquer forma, no 4 de julho, eu acho bacana saudar à la americana. Na terra de imigrantes, vamos falar de imigrantes, esta força vigorosa que realmente contribui de forma excepcional para a grandeza do país.

Hispânicos estão no radar e geram paixões. O presidente democrata Barack Obama agora presta atenção nos ‘hermanos”, de olho nas eleições, após anos de indiferença. Republicanos, em geral, se comportam cada vez mais como xerifes do Arizona e questionam o valor de imigrantes (com um discurso centrado nos ilegais para disfarçar o extremismo nativista). Eles visualizam os hispânicos como hordas de trabalhadores ilegais não qualificados, farofeiros invadindo a “nossa praia”, surrupiando indevidamente os benefícios e incapazes de assimilação ao modo de vida USA! USA! USA! (seja lá o que seja). Ironicamente, muitos fazendeiros querem mandar os xerifes plantar batatas com as leis mais rigorosas em vários estados, pois quem vai pegar pesado na roça?

A conversa passional sobre os latinos (ou hispânicos) faz perder de vista uma dinâmica muito importante. Desde 2009, estão chegando ao país mais asiáticos do que hispânicos. Uma das razões é o retorno de hispânicos para a América Latina devido ao crescimento econômico anêmico nos EUA aliado à crescente hostilidade aos ilegais (Obama inclusive endureceu a política de deportações) e potencial de empregos nos países de origem.

Não vou entupir a coluna com dados, extraídos de um estudo divulgado em junho pelo Pew Research Center. Mas, alguns adiante. Cerca de 45% dos latinos são ilegais. Entre os asiáticos, a taxa cai para 15%. Os asiáticos já são 6% da população (eram 1% em 1965). É a minoria racial de crescimento mais rápido. Na imensa maioria (85%), são chineses, filipinos, indianos, coreanos, vietnamitas e japoneses.

E o fluxo, de fato, é um ganho qualitativo para os EUA. Os asiáticos têm uma educação superior à da populacão do seus países de origem ou antepassados. Como 49% deles têm diploma universitário, batem de longe a média americana de 28%. A renda domiciliar anual também é superior à média nacional (US$ 66 mil x US$ 50 mil). São imigrantes movidos por uma cultura capitalista e empreendedorismo. O estudo Pew mostra que esta camada tem uma ética de trabalho mais rigorosa do que a dos americanos.

E vamos desfazer mitos. São grupos étnicos com muita capacidade de assimilação. Uma prova da integração está na taxa de casamento interracial (29%), acima da registrada para brancos, negros e hispânicos. Numa nota pessoal, para quem não sabe, minha mulher nasceu nas Filipinas. Nos conhecemos há muitas e muitas décadas atrás na faculdade no estado de Ohio. Nossa família vira-lata (com duas filhas) é o “samba do crioulo doido” para preencher os dados do censo, com nossa mistura europeia, latino-americana, asiática, católica e judaica (além de santista e são-paulina).

Com esta família melting pot,  é bacana gritar USA! USA! USA! Para nós e para imigrantes de todas as partes do mundo foi uma longa marcha (1/4 dos imigrantes asiáticos tem raízes na China e Taiwan). Mesmo entre os asiáticos, obviamente, há os ilegais sem qualificação profissional, trazidos por máfias em navios cargueiros.

Mas a trajetória hoje é bem mais suave para a grande maioria, com o perfil invejável de educação, ambição econômica e sólidos valores familiares. Esta boa acolhida contrasta com a discriminação que vitimou imigrantes asiáticos, num movimento de portas abertas e fechadas (literalmente para nipo-americanos que foram confinados durante a Segunda Guerra Mundial). Em 1917, o Congresso aprovou um ato de exclusão, que classificou os asiáticos como indesejáveis, ao lado de criminosos, epilépticos e insanos.

Pelo menos em relação aos asiáticos hoje existe sanidade migratória nos EUA. É fascinante que da Ásia emergente venham os imigrantes mais qualificados, mais trabalhadores e mais ambiciosos para os EUA, este país que amarga o tal do declínio histórico.

***
O imigrante aqui começa generoso no quatro de julho. Uma primeira colher de chá para o Pierre (dia 4, 9:33) pela visão abrangente  e outra para a Carmem (dia 4, 9:35), por seu comentário na mosca.  E mais uma para J.R. Monteiro (dia 4, 13:43). Leiam seu depoimento pessoal. 

14/11/2011

às 6:00 \ Ásia, EUA

Enquanto isto no Pacífico, a corda pode arrebentar

Os presidentes Hu Jintao e Barack Obama na cooperação e competição estratégica - Foto Larry Downing/Reuters


A crise na Europa é dramática (existe apenas um suspiro de alívio com a partida de Silvio Berlusconi e a aposta em governos tecnocratas na Itália e também na Grécia), existe suspense se haverá ou não um ataque israelense (e talvez americano) contra as instalações nucleares iranianas, existe ansiedade com o desengajamento dos EUA no Iraque e Afeganistão, existe muita incerteza no horizonte sobre a primavera árabe e onde está Barack Obama? O presidente americano se encontra na região da Ásia-Pacífico no meio de uma longa viagem de nove dias. São reuniões de cúpula e bilaterais que começaram no Havaí e devem se estender à Indonésia e à Austrália, com uma agenda econômica, diplomática, militar, em suma, estratégica.

Obviamente, não existe como se alienar da velha Europa ou simplesmente abandonar o Oriente Médio e o Sul da Ásia, com seus problemas espinhosos e aparentemente insolúveis. Mas o interesse americano se direciona cada vez mais para a região da Ásia-Pacífico, o motor mais possante da economia global. E não é apenas interesse e necessidade da atual administração democrata, ansiosa por acordos comerciais e mais abertura de mercados. No sábado passado, no primeiro debate devotado exclusivamente à política externa, os candidatos republicanos dedicaram o final da discussão ao relacionamento com a China (é verdade que temas internacionais se revelam secundários na campanha republicana).

E numa típica atitude de campanha, o tom foi meio belicoso no debate de sábado, a destacar do favorito Mitt Romney, que promete enquadrar a China, país, na suas palavras, “enganador” na política cambial e comercial. Tem razão, mas, caso ele chegue ao poder, como outros presidentes americanos, Romney será enquadrado na equação complexa que é lidar com a China, diante da interdependência econômica e competição estratégica. No Havaí, onde teve uma reunião bilateral com o presidente Hu Jintao, Obama também deu sua estocada, embora mais leve, dizendo que a China deve “jogar de acordo com as regras” e que a maioria dos economistas estima que a moeda chinesa esteja subvalorizada.

A China está em uma situação inusitada: já é um poder global, mas ainda sem os tentáculos militares compatíveis com a projeção econômica deste poder. Mas a mera projeção do poder chinês (e com seus crescentes investimentos militares e cotoveladas navais) é suficiente para inquietar a vizinhança. Muitos dos países da área do Pacífico têm profundas diferenças entre eles, mas em comum querem reforçar um sistema de alianças (e proteção) com os EUA. De novo, os EUA, apesar do declínio e econômico e do sufoco do momento, são e serão por décadas a única superpotência global.

No entanto, existem as pressões para o corte do orçamento militar (e aqui com exceção do incisivo isolacionista e isolado candidato Ron Paul), os postulantes republicanos preferem prometer o melhor dos mundos e fundos para o Pentágono. Mas num recente relatório, com o título “Escolhas Difíceis: Defesa Responsável em uma Era de Austeridade”, o Centro para uma Nova Segurança Americana, um grupo de estudos próximo do aparato de segurança nacional do governo Obama, ressalta que o foco deve ser “no Pacífico Ocidental e no Oceano Índico, e engajamento amplo na área do Pacífico”, enquanto se assume uma “estatégia defensiva” no Oriente Médio”. Em contraste, o relatório argumenta que a Europa é de “preocupacao terciária” e a África e América Latina merecem “a prioridade mais baixa”.

Nesta linha, num recente artigo na revista Foreign Policy, a secretária de Estado Hillary Clinton escreveu que uma das mais importantes tarefas da “arte de governar” dos EUA na próxima década será o foco em um investimento diplomático, econômico e estratégico “substancialmente maior na região da Ásia Pacífico”. E em recente visita à região, o secretário de Defesa Leon Panetta enfatizou a necessidade americana de manter ou mesmo aumentar a presença militar naquelas bandas para contrabalançar o crescente poderio chinês. Claro que um tom de urgência é a razão de ser do Pentágono para manter o seu próprio capital na estrutura de poder em Washington e justificar investimentos em novos sistema de defesa.

De qualquer forma, são prioridades militares que significam escolhas difíceis como baixar a bola em outras regiões do mundo (lembrando que crises nem sempre têm roteiros definidos, podendo explodir onde um estrategista não gostaria) ou simplesmente deixar a econômica americana sangrar ainda mais. Este último ponto será uma ironia caso um presidente republicano assuma o poder diante da insistência em ajuste fiscal dos seus candidatos.

Sim, escolhas são difíceis. Uma questão ainda mais ampla é se os EUA, na condição de superpotência no sufoco (apesar da insistência republicana sobre o caráter excepcional do país), aceitariam a idéia de menos confronto e mais partilha do poder na região Ásia-Pacífico com os chineses. A pergunta vale também para para a liderança chinesa, hoje ainda mais entretida com desafios domésticos, mas que assume uma postura cada vez mais assertiva no cenário internacional.

A realidade mais objetiva é de uma contradição fundamental e fica patente não apenas na complexa relação de interdependência e competição entre EUA e China, mas na postura dos aliados americanos na região Ásia-Pacífico. Eles querem ao mesmo tempo reforçar os laços econômicos com os chineses (dos quais são mais dependentes diante da fraqueza americana e da Europa) e atar com mais firmeza o nó da aliança militar com Washington, por temerem o poderio estratégico de Pequim. A longo prazo, a corda pode arrebentar devido às tensões e contradições.
***
Como não há a palavra Israel neste texto, tudo mais calmo por aqui. Onde estão os furiosos? Bem, colher de chá para o Pablo (dia 14, 11:09) e o Angelo (dia 14, 11:05) pela visão abrangente. Comentários úteis para debates entre leitores. Aproveitem.
PS- Oops, como diria o sábio Rick Perry, há a palavra israelense no texto.

12/01/2011

às 6:00 \ Ásia, Direitos Humanos, EUA, Terror

Pra não dizer que não falei de flores

Rosas para o Assassino - Foto Miar Khursheed/ Reuters

Existe uma imensa distância geográfica, política e cultural entre as cidades de Islamabad, no Paquistão, e Tucson, no estado americano do Arizona. Mas, em comum, na primeira semana de janeiro, ambas foram palcos de terríveis tragédias. As vítimas foram dois políticos moderados, conhecidos pela defesa da tolerância, e preocupados com o clima de envenenamento ideológico e polarização em seus respectivos países. No Paquistão, Salman Taseer, baleado e morto. Nos EUA, Gabrielle Giffords, baleada e que luta por sua vida no hospital.

Vamos começar pelo mais distante Paquistão, embora seja mais fácil explicar o que aconteceu e o que pode ainda acontecer de pior por lá. As raízes do extremismo se disseminam rapidamente em um dos países mais instáveis e explosivos do mundo. Isto ficou ainda mais óbvio com o assassinato de Taseer, governador da província de Punjab, por um integrante de sua própria equipe de segurança, enquanto os demais apenas olhavam a saraivada de 26 tiros.

Taseer era uma voz corajosa contra o radicalismo islâmico e sua morte foi mais uma prova de como este extremismo está nas entranhas do corpo político,  do sistema judicial e do aparato militar e de segurança, sem falar de organismos mais óbvios como mesquitas e madrassas (as escolas religiosas).

O policial Malik Qadri é um fanático religioso que ficou enraivecido com a oposição do corajoso governador contra as leis de blasfêmia. Taseer estava engajado na defesa, em uma proeza quixotesca, de uma camponesa cristã e analfabeta, acusada de insultar o profeta Maomé e o islamismo, crimes capitais com base nesta legislação implantada em 1980 pelo então general-ditador Mohammad Zia ul-Haq, que promoveu a islamização do  estado e da sociedade para unir o país e ganhar pontos políticos.
O ditador acelerou o afastamento do Paquistão do sonho do líder da independência, Ali Jinnah, de criar uma nação secular, democrática, multiétnica e multirreligiosa para os os muçulmanos do subcontinente indiano, depois do fim do domínio colonial britânico em 1947.  Hoje, o cenário é muito desolador. O Paquistão, país com um crescente arsenal nuclear e um governo cambaleante, é santuário de grupos extremistas e terroristas, como o Taliban e Lashkar e-Taiba, patrocinados pelas forças de segurança com o objetivo estratégico de impedir a estabilidade no Afeganistão e manter as tensões com a índia. Políticos e militares cortejam os partidos islâmicos e nunca reagem com o vigor necessário contra os radicais, apesar das pressões americanas.
O temor é que  material nuclear chegue às mãos de terroristas islâmicos ou que o Paquistão simplesmente se consume como um Estado falido. O assassinato de Salman Taseer foi chocante, assim como é a lei de blasfêmia. Também chocante foi a reação. A elite política se acovardou, centenas de clérigos expressaram apoio ao assassinato e advogados estão entusiasmados para fazer a defesa do suspeito, não tanto por achar que qualquer um seja inocente até prova em contrário, mas por considerá-lo o paladino de uma causa justa.
Pelo mundo correu a imagem da chuva de pétalas de rosa saudando um inimigo da tolerância quando ele chegou  ao tribunal,  sorrindo e em uma atitude de desafio.  Aliado ambíguo dos EUA e do Ocidente na luta contra o terror, o Paquistão pode ter agora cruzado uma fronteira ainda mais perigosa. Existe este vigor dos islamistas para cimentar a sharia (lei religiosa) dentro de casa e exportar a jihad. O Paquistão dá mais um passo rumo ao abismo. 
Não é à toa que numa pequisa com especialistas em terrorismo na revista Foreign Policy, Andrew Exum não tenha seguido a boiada apontando Osama bin Laden como o mais perigoso terrorista do  mundo. Ele advertiu que é o extremista anônimo que pode precipitar uma guerra entre a Índia e o Paquistão, com mais um atentado ao estilo do de Mumbai em 2008.

Flores para as Vítimas- John Moore/ Getty

Diante deste terrível cenário geopolítico na Ásia, a tragédia no Arizona parece provinciana. Claro que não é.  A chacina praticada por um lunático, que deixou seis mortos (entre eles, um juiz federal e uma menina de nove anos que nasceu em 11 de setembro de 2001), e 14 feridos (entre eles, a deputada democrata Gabrielle Giffords) gerou um compreensível trauma nacional e reflexões (algumas apresssadas à esquerda e à direita ) sobre os motivos.

Houve um previsível e instantâneo jogo de culpa. Para alguns setores liberais, nem é preciso esperar as investigações. O problemático rapaz Jared Loughner foi incitado pela retórica de Sarah Palin e pela narrativa paranóica do Tea Party.  Já uma tropa de choque dos conservadores tampouco perdeu tempo para vilipendiar os liberais, como se esta fosse a questão crucial neste momento. Os dois lados perdem uma oportunidade para tentar aprender algumas lições. Na verdade, não perdem nada. Ganham por serem o que são com palpitaria bombástica, leviana e oportunista.

No geral, porém, o país e sua liderança política se comportam com compostura. Talvez a lisura não dure muito tempo. Afinal, o clima político no país continua quente, existe polarização partidária e prospera uma necessária disputa ideológica sobre a melhor forma de tirar o pais de sua crise econômica e também em torno de questões como saúde e imigração. E o Arizona, sintomaticamente, é epicentro do debate.
No entanto, a tragedia tem este efeito salutar de unir temporariamente o pais, permitindo que vozes sensatas clamem para que o tom agressivo da retórica baixe. O Arizona é um lugar estranho e explosivo, mas não é o Punjab. A própria Gabrielle Giffords encarna suas peculariedades. Com bom trânsito entre alguns republicanos, mas determinada defensora da reforma de saúde e da imigração (para a fúria dos mais conservadores), ela também é uma animada seguidora da cultura das armas (para o espanto de liberais). 
Eu, pessoalmente, considero Sarah Palin uma figura grotesca e creio que ela poluiu o ambiente político, mas de novo estão aí as contradições americanas. Suas posições refletem aspirações de uma parcela do país. É o contraste de idéias que mantém a sanidade do sistema. Dentro do Tea Party (e fora dele),  existe gente que considera o atual governo americano ilegítimo e flerta com a violência. Mas não faz sentido vincular Jared Loughner a estas extravagâncias e perigos.  Ele já era obcecado com a deputada em 2007, antes do nascimento do Tea Party ou da saída de Sarah Palin do seu obscurantismo no Alaska.
O bom senso me impede de atribuir responsabilidade a gente como Sarah Palin ou ao Tea Party pela tragédia. O Tea Party é um movimento legítimo e suas preocupações centrais (governo menor e redução de impostos) são solidamente americanas, embora haja visões diametralmente opostas, igualmente legítimas. No entanto, o Tea Party tem bordas lunáticas, paranóicas e conspiratórias. É neste contexto histórico que teve lugar a chacina no Arizona. O resto é leviana e equivocada culpa por associação. 
Eu comecei esta texto falando de coisas em comum entre Islamadad e Tucson. Termino lembrando que na cidade paquistanesa foram as pétalas de rosa saudando um assassino. No Arizona, as flores homenageando as vítimas.

24/11/2010

às 6:00 \ Ásia, Geopolítica

Há método na loucura norte-coreana, mas até quando?

Herança maldita, de pai para filho - Kyodo/Getty

 

 
Você fala norte-coreano? Na praça, existem várias tentativas de tradução das ações teatrais, pirotécnicas e letais do regime comunista de Kim Jong-il, que o subsecretário de estado para assuntos asiáticos dos EUA, Kurt Campbell, define como uma “caixa preta”.
Na escalada de tensões, tivemos estes últimos e preocupantes lances que foram a barragem de artillharia contra uma ilha sul-coreana e a revelação ao mundo por um regime recluso que o seu programa de enriquecimento de urânio, de um país já dotado de um pequeno arsenal nuclear, é mais avançado do que se temia. Em março, já ocorrera uma escalada de tensões com o ataque a uma embarcação sul-coreana, que deixou 46 marinheiros mortos, numa ação negada pelos norte-coreanos, apesar das evidências.
 
Uma tradução é que existe método na loucura de uma regime que é uma mistura de relíquia stalinista, organização mafiosa e militarismo ultranacionalista. Kim Jong-il precisa mostrar ao mundo e ao público doméstico a sua força quando empreende a transição de poder ao filho Kim Jong-un, na única monarquia comunista do mundo, pois será a terceira geração no comando.
 
Há também a jogada frequente de botar fogo e fazer extorsão da comunidade internacional para que apague o incêndio com mais negociações nucleares, suprimentos e qualquer tipo de ajuda. Americanos e seus aliados prometem não cair novamente no golpe do método na loucura, mas se assustam. Não existem opções animadoras nesta crise. E uma medida da falta de boas opções para lidar com Kim Jong-il é que a Coréia do Sul espera que a China enquadre o seu afilhado delinquente.
 
E aqui os sinais são incertos. A China está adotando uma diplomacia cada vez mais muscular, batendo de frente com os EUA e outros países ocidentais em questões cambiais, comerciais e de direitos humanos.  O irriquieto aliado é um estorvo, mas Pequim parece temer, antes de tudo, a perspectiva da implosão do vizinho e de reunificação da península coreana, num desfecho pró-ocidental. Melhor que, antes de tudo, os chineses também se assustem com a explosão do método da loucura do regime de Kim Jong-il.
 
Afinal, há o cenário de uma escalada de tensões ainda maior. O método da loucura pode falhar, caso a Coréia do Sul revide com mais vigor às provocações do vizinho delinquente e fortemente armado. E o bandido também quer respeito. Apronta inclusive para ser aceito no clube nuclear e chamar atenção quando a Coréia do Sul consolida sua posição como um país próspero e democrático. Semanas atrás inclusive sediou a reunião do G-20. Os norte-coreanos também fizeram provocações perigosas no final dos anos 80 quando Seul foi escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 1988.
 
Tudo parece ser um lance de cartas marcadas, mas o que está em jogo é cada vez mais alarmante. Como a Coréia do Sul e o mundo, inclusive a China,  podem continuar a assistir a este espetáculo teatral, pirotécnico e letal? Apesar de alguns sinais de progressos, os anos de diplomacia e sanções econômicas não impediram a Coréia do Norte de desenvolver seu pequeno arsenal nuclear. Lembra o Irã, certo?
 
Os norte-coreanos realizaram testes nucleares em 2006 e 2009 e agora mostram ao mundo sua sofisticada instalação de enriquecimento de urânio. Este regime faz qualquer coisa para desviar as atenções da opressão e miséria ofertadas ao seu povo. E tecnicamente as duas Coréias continuam em estado de guerra, pois em 1953 foi apenas assinado um armistício. 
É necessário acompanhar a crise dia a dia, hora a hora.  O método na loucura pode pifar. É preciso traduzir o perigo? 

13/11/2010

às 12:23 \ Ásia, Direitos Humanos

Viva Aung San Suu Kyi!

Esta coluna que tem entre suas prioridades a defesa dos direitos humanos evidentemente brinda a libertação da líder oposicionista e pró-democracia de Mianmar, Aung San Suu Kyi, ocorrida no sábado. Mianmar é um remoto, miserável e oprimido país no sudeste asiático governado por uma junta militar que promoveu uma farsa eleitoral no último dia 7, boicotada pela Liga Nacional pela Democracia, liderada por Suu Kyi. O país é remoto, mas a causa de Suu Kyi (direitos humanos, democracia e resistência pacífica à opressão) não tem fronteiras e deve ser próxima de todos nós.

Neste sábado ainda não sabemos se existem condições em torno da libertação de Suu Kyi, pequena apenas na sua estatura física e que passou detida 15 dos últimos 21 anos. Vamos esperar que os desdobramentos não envolvam mais um banho de sangue promovido pelos militares caso manifestações da oposição se disseminem pelas ruas.  E na pantomina, a qualquer hora, Suu Kyi pode estar de volta à prisão domiciliar. O ideal seriam negociações ou pressões pacíficas que levem ao fim de um regime odioso.

As cenas da libertação de Suu Kyi de sua prisão domiciliar comovem como nas de Nelson Mandela, na África do Sul há 20 anos. Mandela é inspiração de Suu Kyi, assim como Gandhi e Luther King. Gente suspeita, não é? Aliás em uma entrevista, a líder oposicionista de Mianmar comparou o sofrimento do povo do seu país ao dos sul-africanos na época do apartheid. Ela disse que “na África era apartheid baseado na cor. Aqui é apartheid baseado nas idéias, como se aqueles que querem democracia sejam de uma raça inferior”.

A libertação de Suu Kyi foi saudada pelos suspeitos habituais: defensores dos direitos humanos e líderes ocidentais. Não se espera reação similar da China governada pelos comunistas que empreendem o leninismo de mercado. O regime chinês é o grande suporte internacional da junta militar de Mianmar, país em posição estratégica no sudeste asiático, rico em reservas de gás natural. A China desvaloriza tanto sua moeda como os direitos humanos. Até o sábado, havia dois premiados com o Nobel da Paz na prisão. Aung San Suu Kyi foi libertada. Resta o chinês Liu Xiaobo, agraciado com o prêmio deste ano.

10/11/2010

às 5:55 \ Ásia, EUA, Geopolítica, Índia

O Sobe-Desce de Obama e a Índia Emergente

Fotos Olivier Douliery/Getty e Jewel Samad/AFP

Barack Obama está num sobe-desce (dentro de casa mais no desce). Lá fora, depende. O fã-clube global está bem menos frenético e a reunião do G-20 em Seul mostra como autoridades de Berlim a Brasília não dão muita colher-de-chá para os lances de Washington de inundar os mercados com bilhões de dólares para fortalecer a economia, mas ao preço do enfraquecimento da moeda americana, o que prejudica a competividade de países exportadores.

 Mas Obama teve um sobe importante em sua viagem asiática na escala feita na Índia. Por lá foi um Tea Party (festa do chá) que o presidente gosta. Obama seguiu as pegadas dos antecessores Bill Clinton e George W. Bush e cimentou ainda mais a parceria estratégica com a Índia, ou seja, é um projeto bipartidário.
O presidente americano não se cansou de repetir que a Índia não é emergente, já emergiu. Tal parceria estratégica EUA-Índia, num consórcio ainda integrado por Japão e Coréia do Sul, seria um contraponto ambicioso e arriscado, porém necessário a longo prazo, à China (e esta aí, é emergente ou já emergiu?) e também tem objetivos mais imediatos de descolar aliados nos embates comerciais e cambiais globais, além de fechar negócios e gerar empregos dentro da casa, lá onde Obama desce.
O presidente americano fez muita média em Nova Déli e inclusive abençoou a pretensão indiana de um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, algo ainda não ofertado à diplomacia brasileira. O gesto americano, porém, é mais simbólico do que efetivo. Não existe a promessa de um empenho prático. De qualquer forma, a reforma do Conselho de Segurança é um projeto longo e tortuoso, em meio a questões sobre a relevância em si deste clube seleto. Nenhum drama para o Brasil. Se a Índia subir, sobem outros países.
Mais interessante é este novo paradigma de Obama, que nunca mostrou um entusiasmo espetacular por direitos humanos, em realçar a parceria estratégica do seu país, a mais velha democracia do mundo, com a democracia indiana, a maior. Houve tempos em que a Índia democrática era alinhada com a ditadura soviética, enquanto os americanos eram aliados da ditadura militar paquistanesa (rival nuclear da Índia). Hoje, o jogo americano é cortejar os democráticos indianos sem alienar os paquistaneses, com várias e ambíguas esferas de poder. Ménage à trois sempre é atividade promíscua e nem sempre perdura. Vamos ver o cacife de Obama neste affaire de estado.
Obama tem razão: a parceria EUA-Índia pode ser um dos fatores definidores do século 21. É vital para o mundo um contraponto ao capitalismo estatal e autoritário da China. Basta ver que dos países do G-20, apenas China e Arábia Saudita são inequivocadamente ditatoriais (a Rússia é híbrida). O Brasil, como a Índia, obviamente não deve subordinar seus interesses aos EUA e não tem como fugir da órbita econômica chinesa (quem tem?).  A China, por sinal, é o maior parceiro comercial da Índia e em Nova Déli existe uma tradição de desconfiança do “imperialismo” americano. No entanto,  é crucial que o Brasil integre esta esfera de valores capitaneada pelos EUA. Como a Índia, o Brasil é vibrante, desigual, muito corrupto, tem um incrível potencial e é democrático. Brasil, suba mais e se alinhe com os menos indecentes.

27/10/2010

às 5:55 \ Ásia, Direitos Humanos

A Fera e a Bela no País Enjaulado

Than Shwe e Aung San Suu Kyi

País com 50 milhões de habitantes no sudeste asiático, Mianmar (a ex-Birmânia) é um dos mais pobres e reclusos do mundo. Nação governada de forma brutal, corrupta e obscena pelos militares desde 1962, Mianmar quer dar lições ao mundo. Terá eleições gerais em 7 de novembro. Ao anunciar que observadores e jornalistas estrangeiros não poderão dar as caras para fiscalizar e cobrir o evento, o presidente da comissão eleitoral, Thein Soe, justificou, dizendo que ”nós temos abundante experiência na realização de eleições”. Nada mais abundante por lá do que a carência de democracia. Há abundância também de crimes contra a humanidade, praticados pelos militares.

 
As eleições foram convocadas (e abençoadas pelo grande aliado chinês) em uma farsa para dar legitimidade ao regime, que tem como chefão o soturno general Than Shwe. São 37 partidos chancelados pelo regime, mas o principal grupo de oposição, a Liga Nacional pela Democracia (LND), foi dissolvido pelos militares e prega o boicote da eleição. A LND é liderada pelo heróica e estóica combatente pelos direitos humanos Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, em prisão domiciliar. 
 
A LND ganhou facilmente as últimas eleições realizadas no país, em 1990, mas os gorilas governantes ignoraram os resultados. Protestos mobilizados por monges budistas são reprimidos cruelmente e no momento há mais de dois mil presos políticos. Existe ainda algum humor. Uma piada nacional, em inglês, é que não serão general elections (eleições gerais), mas eleições dos generais. De fato, uma piada: 25% das cadeiras no Parlamento serão reservadas aos militares.
 
São incertos os planos do general Than Shwe após as eleições. Que figura. Acaba de ser publicada uma biografia do homem por Benedict Rogers (Than Shwe: Unmasking Burma’s Tyrant). Parece coisa de romance de Vargas Llosa ou Garcia Marquez. No país miserável (para a população), ele gastou rios de dinheiro no casamento da filha. Supersticioso, o general só toma decisões depois de escutar seu adivinho favorito, um pequeno corcunda surdo-mudo, conhecido como ET. Uma das decisões delirantes foi construir uma nova e grandiosa capital numa área remota infestada por malária, mas longe da praga que é o povo.
 
O general Shwe seguiu as instruções de um astrólogo e forçou os agricultores a plantar jatropha, não apenas por seu potencial como biocombustível, mas para murchar os poderes de Aung San Suu Kyi. Em birmanês, a castanha é o nome invertido da líder oposicionista. Pobre Mianmar, abundante na tristeza.

 

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