Quatro de julho (2)
Estamos no 4 de julho, feriadão americano da independência. No ritual da coluna, volto a escrever sobre o significado da data no dia mais apropriado. Este colunista que já viveu quase metade de sua vida nos EUA sente-se em casa por aqui (assim como nas bandas de Higienópolis/Consolação/Bom Retiro, em São Paulo). God Bless Americas! Muito para celebrar, mas é sempre bom ter cuidado com o excesso de fogos de artifício. Dá chabu esta lengalenga de país excepcional, o melhor do mundo, USA! USA! USA!. Patriotada é excepcionalmente perigosa em qualquer pátria. Faz o cidadão perder o senso crítico, bravatear, escamotear os problemas nacionais e se comportar de maneira arrogante e xenófoba (ok, no futebol pode). De qualquer forma, no 4 de julho, eu acho bacana saudar à la americana. Na terra de imigrantes, vamos falar de imigrantes, esta força vigorosa que realmente contribui de forma excepcional para a grandeza do país.
Hispânicos estão no radar e geram paixões. O presidente democrata Barack Obama agora presta atenção nos ‘hermanos”, de olho nas eleições, após anos de indiferença. Republicanos, em geral, se comportam cada vez mais como xerifes do Arizona e questionam o valor de imigrantes (com um discurso centrado nos ilegais para disfarçar o extremismo nativista). Eles visualizam os hispânicos como hordas de trabalhadores ilegais não qualificados, farofeiros invadindo a “nossa praia”, surrupiando indevidamente os benefícios e incapazes de assimilação ao modo de vida USA! USA! USA! (seja lá o que seja). Ironicamente, muitos fazendeiros querem mandar os xerifes plantar batatas com as leis mais rigorosas em vários estados, pois quem vai pegar pesado na roça?
A conversa passional sobre os latinos (ou hispânicos) faz perder de vista uma dinâmica muito importante. Desde 2009, estão chegando ao país mais asiáticos do que hispânicos. Uma das razões é o retorno de hispânicos para a América Latina devido ao crescimento econômico anêmico nos EUA aliado à crescente hostilidade aos ilegais (Obama inclusive endureceu a política de deportações) e potencial de empregos nos países de origem.
Não vou entupir a coluna com dados, extraídos de um estudo divulgado em junho pelo Pew Research Center. Mas, alguns adiante. Cerca de 45% dos latinos são ilegais. Entre os asiáticos, a taxa cai para 15%. Os asiáticos já são 6% da população (eram 1% em 1965). É a minoria racial de crescimento mais rápido. Na imensa maioria (85%), são chineses, filipinos, indianos, coreanos, vietnamitas e japoneses.
E o fluxo, de fato, é um ganho qualitativo para os EUA. Os asiáticos têm uma educação superior à da populacão do seus países de origem ou antepassados. Como 49% deles têm diploma universitário, batem de longe a média americana de 28%. A renda domiciliar anual também é superior à média nacional (US$ 66 mil x US$ 50 mil). São imigrantes movidos por uma cultura capitalista e empreendedorismo. O estudo Pew mostra que esta camada tem uma ética de trabalho mais rigorosa do que a dos americanos.
E vamos desfazer mitos. São grupos étnicos com muita capacidade de assimilação. Uma prova da integração está na taxa de casamento interracial (29%), acima da registrada para brancos, negros e hispânicos. Numa nota pessoal, para quem não sabe, minha mulher nasceu nas Filipinas. Nos conhecemos há muitas e muitas décadas atrás na faculdade no estado de Ohio. Nossa família vira-lata (com duas filhas) é o “samba do crioulo doido” para preencher os dados do censo, com nossa mistura europeia, latino-americana, asiática, católica e judaica (além de santista e são-paulina).
Com esta família melting pot, é bacana gritar USA! USA! USA! Para nós e para imigrantes de todas as partes do mundo foi uma longa marcha (1/4 dos imigrantes asiáticos tem raízes na China e Taiwan). Mesmo entre os asiáticos, obviamente, há os ilegais sem qualificação profissional, trazidos por máfias em navios cargueiros.
Mas a trajetória hoje é bem mais suave para a grande maioria, com o perfil invejável de educação, ambição econômica e sólidos valores familiares. Esta boa acolhida contrasta com a discriminação que vitimou imigrantes asiáticos, num movimento de portas abertas e fechadas (literalmente para nipo-americanos que foram confinados durante a Segunda Guerra Mundial). Em 1917, o Congresso aprovou um ato de exclusão, que classificou os asiáticos como indesejáveis, ao lado de criminosos, epilépticos e insanos.
Pelo menos em relação aos asiáticos hoje existe sanidade migratória nos EUA. É fascinante que da Ásia emergente venham os imigrantes mais qualificados, mais trabalhadores e mais ambiciosos para os EUA, este país que amarga o tal do declínio histórico.
***
O imigrante aqui começa generoso no quatro de julho. Uma primeira colher de chá para o Pierre (dia 4, 9:33) pela visão abrangente e outra para a Carmem (dia 4, 9:35), por seu comentário na mosca. E mais uma para J.R. Monteiro (dia 4, 13:43). Leiam seu depoimento pessoal.










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