O filme da repressão saudita
A coluna de terça-feira foi um desenho da repressão iraniana. Hoje o foco é um filme da repressão saudita. Conhecemos o essencial: ambos os países são mecas do fundamentalismo religioso (um xiita e o outro sunita). Com o movimento refomista travado, o Irã pedala para trás. E a Arábia Saudita?
Com o filme O Sonho de Wadjda (com estreia oficial no Brasil nesta sexta-feira), a mensagem da diretora Haifaa al-Mansour, 38 anos, acaba sendo ambígua na história de Wadja, a menina de 11 anos, com seu sonho e trama para ter uma bicicleta. Aqui um trailer do filme, com legendas em português.
Haifaa al-Mansour exibe o obscurantismo do seu país, em particular em relação às mulheres, mas também serve de garota-propaganda para o regime saudita apregoar pelo menos algumas tímidas reformas (para nós, de fora, em ritmo paquidérmico, mas para a casa Saud, algo camaleônico). Aliás, curiosamente, é no cinema que a sociedade iraniana (em filmes como A Separação, premiado com o Oscar) exibe ao mundo suas nuances.
E Haifaa al-Mansour está sendo premiada e festejada por seu feito. No mês passado, foi a festa no festival Tribeca em Nova York. E o filme é um sucesso doméstico? Antes de mais nada, não há cinemas na Arábia Saudita desde os anos 70, em contraste à profusão de shopping-centers (o filme será lançado em DVD e televisão por assinatura). No reino do petróleo, o consumismo hedonista coexiste com uma interpretação obscurantista e puritana do islamismo.
A proeza de Haifaa al-Mansour foi além de dirigir um filme na Arábia Saudita. O Sonho de Wadjda foi o primeiro longa-metragem inteiramente filmado no país. A história da filmagem dá um filme. Foi difícil conseguir patrocínio, pois parecia impossível que uma mulher concretizasse a missão.
Haifaa al-Mansour é uma saudita viajada e ocidentalizada (estudou na Austrália e casou com um diplomata americano). Produtores alemães bancaram seu projeto, assim como a produtora do príncipe iluminista saudita Alwaleed bin Talal. Haifaa al-Mansour superou outro obstáculo num país em que as mulheres não gostam de ser fotografadas ao encontrar a promissora menina Waad Mohammed para o papel de Wadjda. Saiu a permissão para a filmagem, mas existem as restrições sauditas para mulheres trabalharem em público. Haifaa al-Mansour dirigiu o filme de dentro de uma van, dando instruções através de um walkie-talkie.
É uma corrida de obstáculos (fazer o filme levou cinco anos), mas Haifaa al-Mansour acredita que a sociedade saudita pelo menos avança, com pequenos espaços sendo negociados. É possível traçar alguns paralelos na ficção da menina Wadjda com a corajosa (e tambem trágica) realidade da menina Malala Yousafzai (baleada no Paquistão pelo Taliban por lutar por educação feminina), por tentarem conquistar o fundamental.
Malala sobreviveu e está na luta. A metáfora do filme de Haifaa al-Mansour é óbvia. A menina Wadjda almeja a liberdade conferida pela bicicleta, ela quer ir adiante e mais rapidamente. Como o filme tem beneplácito do regime, Haifaa al-Mansour despolitiza o tema. Nas entrevistas, ela diz que é uma obra sobre esperança.
Na vida real, as autoridades sauditas anunciaram no começo de abril que as mulheres podem andar de bicicleta em público, desde que em áreas recreacionais, trajadas a rigor e na companhia de um parente do sexo masculino. Mas nada ainda de dirigir carros, apesar de uma corajosa campanha de mulheres.
No plano dos potentados sauditas: lentíssimas mudanças políticas e culturais, polpudo assistencialismo, combate barra pesada ao terror islâmico (interno) e dura, mas dosada, repressão para impedir que a Primavera Árabe chegue ao país, a pé, de camelo ou de bicicleta. Esta é a esperança do regime, mas não é justo as Wadjdas esperarem tão pouco. Elas têm direito a muito mais.
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Colher de chá para a Andrea, bom trabalho neste Dia do Trabalho. Pedalem com os dois comentários dela.






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