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Arquivo da categoria Arábia Saudita

01/05/2013

às 6:00 \ Arábia Saudita, Irã

O filme da repressão saudita

A diretora Haifaa al-Mansour e a atriz Waad Mohammed pedalando para a fama no Festival de Veneza

A coluna de terça-feira foi um desenho da repressão iraniana. Hoje o foco é um filme da repressão saudita. Conhecemos o essencial: ambos os países são mecas do fundamentalismo religioso (um xiita e o outro sunita). Com o movimento refomista travado, o Irã pedala para trás. E a Arábia Saudita?

Com o filme O Sonho de Wadjda (com estreia oficial no Brasil nesta sexta-feira), a mensagem da diretora Haifaa al-Mansour, 38 anos, acaba sendo ambígua na história de Wadja, a menina de 11 anos, com seu sonho e trama para ter uma bicicleta. Aqui um trailer do filme, com legendas em português.

Haifaa al-Mansour exibe o obscurantismo do seu país, em particular em relação às mulheres, mas também serve de garota-propaganda para o regime saudita apregoar pelo menos algumas tímidas reformas (para nós, de fora, em ritmo paquidérmico, mas para a casa Saud, algo camaleônico). Aliás, curiosamente, é no cinema que a sociedade iraniana (em filmes como A Separação, premiado com o Oscar) exibe ao mundo suas nuances.

E Haifaa al-Mansour está sendo premiada e festejada por seu feito. No mês passado, foi a festa no festival Tribeca em Nova York. E o filme é um sucesso doméstico? Antes de mais nada, não há cinemas na Arábia Saudita desde os anos 70, em contraste à profusão de shopping-centers (o filme será lançado em DVD e televisão por assinatura). No reino do petróleo, o consumismo hedonista coexiste com uma interpretação obscurantista e puritana do islamismo.

A proeza de Haifaa al-Mansour foi além de dirigir um filme na Arábia Saudita. O Sonho de Wadjda foi o primeiro longa-metragem inteiramente filmado no país. A história da filmagem dá um filme. Foi difícil conseguir patrocínio, pois parecia impossível que uma mulher concretizasse a missão.

Haifaa al-Mansour é uma saudita viajada e ocidentalizada (estudou na Austrália e casou com um diplomata americano). Produtores alemães bancaram seu projeto, assim como a produtora do príncipe iluminista saudita Alwaleed bin Talal. Haifaa al-Mansour superou outro obstáculo num país em que as mulheres não gostam de ser fotografadas ao encontrar a promissora menina Waad Mohammed para o papel de Wadjda. Saiu a permissão para a filmagem, mas existem as restrições sauditas para mulheres trabalharem em público. Haifaa al-Mansour dirigiu o filme de dentro de uma van, dando instruções através de um walkie-talkie.

É uma corrida de obstáculos (fazer o filme levou cinco anos), mas Haifaa al-Mansour acredita que a sociedade saudita pelo menos avança, com pequenos espaços sendo negociados. É possível traçar alguns paralelos na ficção da menina Wadjda com a corajosa (e tambem trágica) realidade da menina Malala Yousafzai (baleada no Paquistão pelo Taliban por lutar por educação feminina), por tentarem conquistar o fundamental.

Malala sobreviveu e está na luta. A metáfora do filme de Haifaa al-Mansour é óbvia. A menina Wadjda almeja a liberdade conferida pela bicicleta, ela quer ir adiante e mais rapidamente. Como o filme tem beneplácito do regime, Haifaa al-Mansour despolitiza o tema. Nas entrevistas, ela diz que é uma obra sobre esperança.

Na vida real, as autoridades sauditas anunciaram no começo de abril que as mulheres podem andar de bicicleta em público, desde que em áreas recreacionais, trajadas a rigor e na companhia de um parente do sexo masculino. Mas nada ainda de dirigir carros, apesar de uma corajosa campanha de mulheres.

No plano dos potentados sauditas: lentíssimas mudanças políticas e culturais, polpudo assistencialismo, combate barra pesada ao terror islâmico (interno) e dura, mas dosada, repressão para impedir que a Primavera Árabe chegue ao país, a pé, de camelo ou de bicicleta. Esta é a esperança do regime, mas não é justo as Wadjdas esperarem tão pouco. Elas têm direito a muito mais.

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Colher de chá para a Andrea, bom trabalho neste Dia do Trabalho. Pedalem com os dois comentários dela. 

Rabiscos Estratégicos (Israel & Oriente Médio)

Protesto estudantil no Cairo contra Israel

Não é segredo que Israel acompanha com apreensão a volatilidade geopolítica no Oriente Médio. Por este motivo, é interessante acompanhar o raciocinio de Barry Rubin, judeu americano e acadêmico conservador influente, que circula nos meios militares e de inteligência em Israel. Na sua avaliação, as coisas estão melhores do que parecem para Israel na esteira da Primavera Árabe.

Para Rubin, será um período de batalhas internas, instabilidade e conflitos contínuos que irão reduzir a capacidade de países árabes lutarem contra Israel. Existe a óbvia ressalva do aventureirismo para desviar as atenções. Mas mesmo que ocorra algo neste sentido -e aqui Rubin é específico sobre Egito e Síria pós-revolução- , os países árabes terão menos capacidade militar para atuar de forma efetiva contra Israel. Hostilidade popular contra Israel não é novidade e já servia de válvula de escape antes da Primavera Árabe. Não mudou, por exemplo, nas ruas egípcias, mas, na estimativa de Rubin, os militares ainda controlam política externa e vão conter os ímpetos da Irmandade Muçulmana, agora no poder formal.

E as coisas não estão brilhantes para estrelas que buscam hegemonia regional no mundo árabe (embora não sejam árabes), casos da Turquia e Irã. A ascensão de movimentos islamistas sunitas na Líbia, Tunísia, Egito e Síria turva as ambições de um país que é herdeiro do império otomano e de outro que é persa e xiita. A condescendência do primeiro-ministro turco Recep Erdogan irrita o mundo árabe e os iranianos estão praticamente sem ativos não xiitas. Barry Rubin pontifica que o grande conflito no Oriente Médio no futuro não será entre árabes e israelenses, mas entre sunitas e xiitas e haverá a competição pelo controle de zonas mais movediças como Líbano, Síria Iraque e Bahrein.

Rubin é daquela escola mais otimista de que mesmo os regimes conservadores que sobrevivem em meio aos tumultos (a destacar Arábia Saudita) sabem que a maior ameaça deriva do Irã e de movimento revolucionário islamista e não de Israel. Na verdade, estas autocracias percebem que Israel é uma espécie de protetor.

Sobre a questão palestina, Rubin diz que os dirigentes palesitinos como Mahmoud Abbas mais uma vez desperdiçaram uma oportunidade histórica. Não tiraram vantagem das rusgas entre Israel e os EUA. Para Rubin, o governo Obama estava pronto para se tornar o mais pró-palestino da história americana. No entanto, a liderança palestina se recusou a cooperar com Obama, sequer topando em retomar negociações com Israel. Numa dura campanha eleitoral, Obama retorna para uma zona de conforto mais tradicional e mais pró-Israel.

Na sua análise, Barry Rubin passa quase batido pela questão nuclear iraniana (“ameaça no futuro” e fatores de contenção como pressões externas e problemas logísticos para construir a bomba).

Apesar de tudo, Rubin avalia que Israel e sua segurança estão em “boa forma”.  Ele não está tão apreensivo, embora naquelas bandas seja perigoso ser muito primaveril.
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Hoje vou ser leviano, primaveril. O assunto é sério, mas a colher de chá vai para a piada do Maisvalia (dia 17, 11:39)
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PS: Israel pode até estar relativamente em boa forma estratégica, mas dentro de casa é outra história. As informações nesta terça-feira são de implosão da grande coalizão de governo forjada há dois meses.

Ao vencedor, o Egito (uma batata quente)

Morsi, vitorioso, mas não faraônico

Mohammed Morsi não é uma figura faraônica, mas o poder simbólico de sua vitória eleitoral é indiscutível. No Egito que já foi governado por faraós, reis e ditadores, ele é o primeiro presidente eleito democraticamente. Funcionário da Irmandade Muçulmana (o termo técnico é apparatchik), Morsi também é o primeiro presidente de um partido islamista que chega ao poder no mundo árabe.

Morsi tem um mandato popular e legitimidade democrática, mas seus poderes são restritos. Os militares que capitaneiam a transição pós-ditadura Mubarak foram astutos para não melar sua vitória eleitoral. No entanto, eles manietaram o poder do futuro presidente. Têm poder de veto nas decisões do Executivo e assumiram poderes legislativos com a dissolução do Parlamento eleito democraticamente e que era controlado por partido islâmicos.

E os militares estão aferrados ao que se conhece como “estado profundo”, com seus tentáculos no aparato de segurança, no judiciário e nos negócios (por alguns cálculos controlam 40% da economia). Eles são um estado dentro do estado. Entramos em uma segunda fase da transição no Egito. A Irmandade Muçulmana e os militares são agora parceiros relutantes no poder e o grupo islâmico tem uma tradição de duplicidade.

Ele confronta e faz conluio com os militares. Na época dos protestos pela derrubada de Hosni Mubarak, se dizia que a Irmandade tinha um pé na praça Tahrir e o outro nos quartéis. Agora é a questão de saber até que ponto o grupo irá confrontar os militares para ampliar o seu poder. É um jogo delicado, pois ele precisa de aliados que a tratam com suspeita, como setores liberais e esquerdistas.

Ademais, a Irmandade precisa agir com pragmatismo para atrair investidores estrangeiros e trazer de volta os turistas, vitais para a economia local (como proibir álcool e biquini?). E não podemos esquecer que, embora a vitória eleitoral tenha sido legítima, este é um país polarizado, pois quase metade dos eleitores votaram em Ahmed Shaifk, um resquício da ditadura Mubarak, com sua promessa de restaurar lei e ordem e botar um frei no avanço islâmico. A Irmandade Muçulmana foi eleita pelo voto e resultados serão cobrados. Os militares foram astutos para aceitar a vitória e o primeiro discurso do vencedor Morsi foi conciliatório. O que mais eles poderiam fazer?

Na política externa, apesar da hostilidade a Israel e o desprezo pelo modo de vida ocidental, não há como visualizar rupturas imediatas, a destacar no acordo de paz com os israelenses. Ademais, lá está o poder de veto dos militares, que recebem ajuda dos EUA, o grande aliado de israel. Existe uma história de virulento antiamericanismo e antissemitismo na Irmandade Muçulmana. Com os EUA, o grupo buscou muitos contatos nos últimos meses para diminuir as preocupações. No entanto, não respondeu aos acenos de Israel para abrir canais de comunicação. Natural a apreensão israelense com a fluidez do cenário.

De novo, nenhuma supresa com o prontuário de duplicidade da Irmandade Muçulmana, capaz de um pragmatismo venal em algumas situações e e de rigidez fanática em outras. A vitória de Morsi foi bem recebida em algumas partes do Oriente Médio, como no pequeno, riquíssimo e autocrata Catar, que já se envolveu na queda de Muamar Kadafi no Líbia e apóia ativamente rebeldes da Irmandade Muçulmana que tentam derrubar a ditadura secular de Bashar Assad na Síria. No entanto, o grupo não conta com a mesma simpatia da ditadura fundamentalista sunita da Arábia Saudita, que o considera uma ameaça apenas menor do que o Irã xiita.

Com sua vitória democrática no mais populoso país do mundo árabe, a Irmandade Muçulmana significa uma redobrada injeção de ânimo para as rebeliões na região, mas será o seu desempenho como parceira no poder no Egito que dará uma medida mais precisa sobre as perspectivas da Primavera Árabe.  A Irmandade Muçulmana venceu, o Egito é outra história.

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Colher de chá para o comentário realista e cauteloso do Angelo (dia 25, 9:27). 

 

As irmandades muçulmanas no Oriente Médio

O rei Abdullah (de bengala) e irmão herdeiro, príncipe Salman

No Egito, temos a Irmandade Muçulmana com seu avanço ao poder contido pelos militares, em mais um destes lances confusos da curta Primavera Árabe que já parece tão longa. E lá no deserto saudita é o inverno de sempre com uma outra irmandade. É a dos filhos do rei Abdelaziz al-Saud, que fundou, em 1934, o moderno (e tão atrasado) reino montado num barril de petróleo.

O esquema ditatorial e geriátrico do poder saudita parece irmanado com o cubano, pois o trono passa de irmão para irmão. Quem manda hoje em Riad é o rei Abdullah, de 88 anos. Ele já sobreviveu nos últimos cinco anos a dois príncipes que indicou para sucedê-lo. O último, Naif, morreu na semana passada. Outro meio-irmão (papai Abdelaziz estava cheio de mulheres e de filhos, uns 45) acaba de ser formalizado como herdeiro. É o príncipe Salman, um garotão de 76 anos.

Esta irmandade saudita, casada com os interesses políticos e econômicos americanos, não morre de amores pela Irmandade Muçulmana ou este negócio de se tentar chegar ao poder pelo voto ou manifestar hostilidade antiamericana. É verdade que as duas irmandades estão, well, irmanadas no fundamentalismo islâmico sunita (a saudita nem tem estas nuances de pragmatismo, fruto de necessidade política, para americano e liberal verem). No reino saudita, impera o wahhabismo e sua rígida interpretação do islamismo.

As variações das irmandades são antissemitas, mas a família real saudita tem um modus-vivendi com Israel, especialmente com a existência do inimigo comum, o Irã persa e xiita. As informações esta semana são de satisfação em Riad e nas capitais dos paisecos do golfo Pérsico com o murchamento das flores da Primavera Árabe pelos militares egípcios.

Eles dissolveram o Parlamento, controlado pela Irmandade Muçulmana, e deixaram claro o seu poder de veto sobre as decisões do Executivo (a Irmandade alega que ganhou as eleições presidenciais de domingo, embora os resultados oficiais não tenham sido divulgados. Em marcha está uma dramática luta pelo poder no Cairo. Estes petroditadores suspeitam da ascensão da Irmandade Muçulmana, considerada a maior ameaça a estes regimes depois do Irã controlado pela teocracia xiita.

A loucura (samba do árabe doido?) é que os sauditas e seus priminhos do golfo Pérsico estão à frente da campanha de desestabilização (e possível derrubada) do regime de Bashar Assad na Síria, que pode desembocar com a filial local da Irmandade Muçulmana no poder. Mas quem mandou Assad ser aliado dos iranianos e russos e contrário aos interesses ocidentais? De sua parte, países ocidentais são seletivos na indignação com as barbaridades no mundo árabe (e Irã), poupando sauditas e potentados do golfo dos sermões em públicos sobre valores universais, como liberdade e igualdade.

Meir Dagan, ex-chefe do Mossad, o serviço secreto israelense, estimou em entrevista à BBC de Londres que a Arábia Saudita irá impedir loucuras antiIsrael com um eventual novo regime em Damasco e que o risco compensa desde que o Irã saia enfraquecido desta encrenca síria. Mas como controlar estas coisas?

Estas transições políticas no mundo árabe são confusas, tumultuadas, sangrentas e podem ser revertidas, como mostra o Egito. Já a Arábia Saudita espera assegurar uma transição mais suave com a escolha de Salman como príncipe herdeiro. Ele é conhecido por favorecer estes laços econômicos e políticos com o Ocidente. Desde novembro, Salman é ministro da Defesa e antes, por 50 anos, foi governador da província de Riad, onde empreendeu uma política de modernização, que, obviamente, nao tem nada a ver com democracia. É o negócio de incentivar mais educação, construir estradas, arranha-céus e shopping-centers.

Naif, o príncipe herdeiro que morreu na semana passada, era bem mais barra pesada e se chegasse ao trono poderia inclusive reverter algumas  reformas cosméticas, como um pouco menos de controle religioso na educação ou permitir que mulheres estudem no exterior. Nos últimos anos, o reino saudita tem vacilado entre empreender algumas reformas modernizantes (de novo, que não devem ser confundidas com democracia ou liberdade) e aplacar os clérigos que exigem pureza religiosa. Salman é visto como menos hostil a algumas mudanças no tratamento das mulheres (para as quais não existe o conceito de cidadania), mas, de novo, não deve ser saudado como defensor de um islamismo mais liberal.

Enquanto isto, o reino enfrenta múltiplos problemas seculares. Existem as receitas petrolíferas que permitem sucessivos programas ao estilo bolsa-família para impedir que floresçam protestos (e quando acontecem não são tratados com delicadeza). O índice de desemprego é de 40% entre os jovens (embora 90% de todos os trabalhadores no setor privado sejam estrangeiros). Num país com este domínio geriátrico e obscurantista, 80% da população têm menos de 20 anos.

Há inquietação social, embora os sinais sejam de que o rei Abdullah seja popular. Há mais informação sobre o mundo, não apenas dentro da imensa famiíia real e apaniguados que podem viajar para o exterior, gastar nos cassinos e estudar nas melhores universidades. Hoje há 10 milhões de usuários na Internet na Arábia Saudita. Eram 500 mil há uma década. Pipocam os pequenos gestos de protestos que são uma sensação na Internet, como as corajosas mulheres que desafiam a proibição para dirigir carro ou uma que enfrentou a patrulha religiosa em um shopping-center ao ser censurada por ter esmalte na unha

A família Saud espera garantir o poder para os filhos, netos, bisnetos e tataranetos do rei Abdelaziz. Mas melhor não confundir estagnação com estabilidade. uma lição para ditaduras religiosas ou seculares.

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Colher de chá bem matinal para a Anouk (dia 20, 8:37), por sua história da princesa saudita. 

 

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