09/01/2012
às 6:00 \ África do SulDa luta de libertação às amarras corruptas do poder
Depois de uma vida na resistência, com líderes mortos, torturados e exilados por uma ditadura, um partido revolucionário chega ao poder. É um momento histórico e glorioso. Mas o poder corrompe (muitas vezes já corrompia o partido mesmo antes da vitória). Existem aparelhismo, mamatas em contratos governistas, brigas ferozes entre facções por nacos do poder e sobre a direção ideológica.
O presidente é acusado de pragmatismo entreguista, mantendo uma política econômica subserviente às velhas elites, que eram favorecidas na época da ditadura, mas que se ajustaram à nova ordem. O presidente, que se safara das acusações de corrupção, também tenta fazer uma faxina dentro de casa, espirrando ministros mais escandalosos na corrupção e incompetência administrativa, assim como realizando um expurgo de uma ala jovem e radical, contrária à privatização e possuída pela nostalgia revolucionária. Ao mesmo tempo, o governo consegue impor legislação que coloca uma mordaça na imprensa que investiga os trambiques oficiais.
Algumas linhas dos parágrafos acima têm um jeitinho brasileiro, de uma trajetória petista. Mas é outra história. Estamos falando do novo companheiro do Brasil no blocão nobre dos emergentes (Brics), a África do Sul, governada pelo Congresso Nacional Africano (CNA), desde o final do apartheid em 1994, quando chegou ao poder nas primeiras eleições democráticas na história da África do Sul. E existe uma diferença fundamental: o grande líder do partido sul-africano não se mostrou sedento pelo poder e soube abandoná-lo como estadista. É isto, aí, sr. Lula, you are no Mr. Mandela.
Bem, toda esta conversa sobre o Congresso Nacional Africano porque o partido organizou uma festança extravagante no fim-de-semana para celebrar o centenário de sua fundação. É o mais antigo movimento de libertação nacional na África. Um marco, sem dúvida, mas o partido está numa marca baixa de sua longa história. A infâmia do regime de segregação racial acabou, mas existem outras infâmias na África do Sul, hoje governada por Jacob Zuma, o terceiro presidente (depois de Nelson Mandela e Thabo Mbeki), desde o fim do regime racista de minoria branca.
Apesar do aparelhismo e destas mordaças, a África do Sul é uma democracia, com uma imprensa vibrante e uma oposição atuante, embora não se vislumbre tão cedo o fim do poder do CNA. Existem as denúncias habituais do governo sobre herança maldita do apartheid, mas a concentração de renda aumentou no país nos últimos 18 anos. Com quase duas décadas no poder, o CNA tem responsabilidade pelo estado de coisas. O CNA agora governa em nome da maioria, mas uma minoria é beneficiada. De acordo com o tribunal de contas do país, existe a maior farra na concessão de contratos governistas a companhias de famíliares de funcionários governistas e cerca de 1/4 dos gastos federais são desperdiçados por sobrefaturamento e suborno.
Com a saúde já bastante frágil aos 93 anos, Nelson Mandela não compareceu à festa do centenário do partido, que ele conseguiu revitalizar quando estava em baixa nos anos 40 e que levou ao poder nos anos 90. Visionário, astuto e reconciliador, ele evitou uma guerra racial. Mandela também se mostrou estadista e deixou o poder após um mandato, evitando o desfecho de tantos líderes de movimentos de libertação nacional, a destacar o ignóbil Robert Mugabe, do Zimbábue, ainda no controle das coisas aos 87 anos.
Existe ainda, no entanto, o culto a personalidade (Mandela), mesclado ao culto ao partido (CNA). Mandela é figura central na lenda do CNA. Aliás, sua transformação de líder rebelde na prisão em ícone global fez parte de um estupendo e bem-sucedido trabalho de marketing do CNA. Dito isto, Mandela foi grandioso, especialmente por sua capacidade para perdoar os algozes, em termos humanos e estratégicos. Está aí alguém que merece a mitologia.
Mas o CNA é menor, bem menor, do que Mandela. Perdeu a autoridade moral. Mandela não estava na festa do centenário, mas havia a presença do arcebispo Desmond Tutu, outro ícone da resistência. O mesmo Tutu, que, furioso com os desmandos do CNA, disse no ano passado que o o partido era “pior do que o governo do apartheid”. Como eu disse acima, o CNA não deve deixar o poder tão cedo e uma das razões é a ligação emocional das massas negras com a luta de libertação, apesar do desencanto com um partido no poder que não correspondeu às expectativas num país em que 40% da população vive abaixo do nível de pobreza (US$ 51 dólares mensais) e o desemprego entre os jovens está na faixa de 50%.
É um consolo, porém, ver o avanço de um partido de oposição, como a Aliança Democrática, nascido entre brancos liberais que combatiam o apartheid e hoje fazendo esforços para concretizar o sonho do arcebispo Tutu de uma “nação arco-íris”, recrutando lideranças negras. Logo depois do fim do apartheid, a Aliança Democrática conseguiu 2% dos votos em eleições. No ano passado, saltou para 24%. Em uma entrevista à revista Time, a líder do partido, Helen Zille, disse que sua meta é que a Aliança Democrática chegue ao poder nas eleições de 2019. Sei lá.
Mas uma observação de Helen Zille é muito interessante: somente a remoção do poder do CNA fará com que a Africa do Sul se converta em uma genuína democracia. Seria maravilhoso. Vamos ver. Afinal movimentos de libertação nacional não têm o hábito de se aposentar de forma digna e elegante, como um Nelson Mandela. Costumam apodrecer no poder.
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Colher de chá para o Thales (dia 9, 12:08) pela comparação entre máquinas partidárias e uma segunda para o Felipe (dia 9, 10:29) pela panorâmica sul-africana.





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