As rugas e as falhas da musa Suu Kyi
Na segunda-feira, eu publiquei coluna sobre a espera da partida de Nelson Mandela, a figura mais próxima de santo vivo. E Aung San Suu Kyi é a figura mais próxima que temos no mundo de hoje de Mandela, de alguém que faz a jornada de herói da resistência a líder governista. No caso dela, em Mianmar, o remoto país asiático.
Suu Kyi ainda não chegou lá. A jornada é tortuosa, com tantas pedras no caminho e, no sentido figurado, ela está sendo alvejada por algumas, atiradas por gente que tanta espera desta musa da resistência pacífica e celebridade global da luta pelos direitos humanos. Gente que espera o impossível e a fidelidade à pureza da causa.
Como Mandela, Suu Kyi, também Prêmio Nobel da Paz, combateu um regime odioso e agora negocia a transição, em uma transa com muitas transações. Como Mandela, ela é aristocrática e elegante. Tem 67 anos e leva jeito de ter alguns a menos. Seu pai (assassinado) foi líder da independência. Suu Kyi já sofreu bastante na mão dos algozes, como 15 anos de prisão domiciliar (nada, é, verdade, na intensidade que marcou o cativeiro de Mandela), mas ela sabe que uma transição política pacífica exige espírito aberto. Mas, o quão aberto?
O mundo real da política desgasta. Hillary Clinton, que sabe destas coisas, advertiu Suu Kyi que a prática da política era um mundo diferente do nobre ativismo. Com pragmatismo, a ex-dissidente, hoje deputada em um sistema de democracia controlada pelos militares, mantém silêncio sobre atrocidades cometidas contra as minorias étnicas que representam 30% da população de 60 milhões de Mianmar, assim como sobre os ataques de budistas contra a minoria muçulmana. As imagens das cenas íntimas da ex-dissidente em parada militar com seus algozes dizem bastante e indignaram muitos que a idolatravam.
Suu Kyi teve um papel de mediação quando a polícia reprimiu brutalmente moradores de um vilarejo e monges budistas que protestavam contra uma mina de cobre, de propriedade chinesa, altamente poluente. Liderou o inquérito com a conclusão de que a mina deve continuar as operações, mas a polícia deve se comportar e controles ambientais mais rigorosos implantados. Suu Kyi fez a média.
Ela calcula que tem um longo jogo adiante. Está de olho nas eleições presidenciais de 2015. Não pode alienar a maioria étnica birmanesa e budista, precisa transacionar com os militares e sabe que não pode simplesmente renegar os poderosos vizinhos chineses. Suu Kyi tem o compasso moral, mas também o político. O retrato da musa tem rugas, tem falhas. Pode ser retocado por quem prefere fantasias políticas ou passado adiante por quem exige perfeição.
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Colher de chá para os comentários desta quinta-feira do Vinicius, que estimularam bons debates. E uma vespertina para o Roberto (dia 4, 12:54).








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