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Arquivo da categoria África do Sul

04/04/2013

às 6:00 \ África do Sul, Mandela, Mianmar, Suu Kyi

As rugas e as falhas da musa Suu Kyi

Suu Kyi na parada miitar no final de março, com seus ex-algozes

Na segunda-feira, eu publiquei coluna sobre a espera da partida de Nelson Mandela, a figura mais próxima de santo vivo. E Aung San Suu Kyi é a figura mais próxima que temos no mundo de hoje de Mandela, de alguém que faz a jornada de herói da resistência a líder governista. No caso dela, em Mianmar, o remoto país asiático.

Suu Kyi ainda não chegou lá. A jornada é tortuosa, com tantas pedras no caminho e, no sentido figurado, ela está sendo alvejada por algumas, atiradas por gente que tanta espera desta musa da resistência pacífica e celebridade global da luta pelos direitos humanos. Gente que espera o impossível e a fidelidade à pureza da causa.

Como Mandela, Suu Kyi, também Prêmio Nobel da Paz, combateu um regime odioso e agora negocia a transição, em uma transa com muitas transações. Como Mandela, ela é aristocrática e elegante. Tem 67 anos e leva  jeito de ter alguns a menos. Seu pai (assassinado) foi líder da independência. Suu Kyi  já sofreu bastante na mão dos algozes, como 15 anos de prisão domiciliar (nada, é, verdade, na intensidade que marcou o cativeiro de Mandela), mas ela sabe que uma transição política pacífica exige espírito aberto. Mas, o quão aberto?

O mundo real da política desgasta. Hillary Clinton, que sabe destas coisas, advertiu Suu Kyi que a prática da política era um mundo diferente do nobre ativismo. Com pragmatismo, a ex-dissidente, hoje deputada em um sistema de democracia controlada pelos militares, mantém silêncio sobre atrocidades cometidas contra as minorias étnicas que representam 30% da população de 60 milhões de Mianmar, assim como sobre os ataques de budistas contra a minoria muçulmana. As imagens das cenas íntimas da ex-dissidente em parada militar com seus algozes dizem bastante e indignaram muitos que a idolatravam.

Suu Kyi teve um papel de mediação quando a polícia reprimiu brutalmente moradores de um vilarejo e monges budistas que protestavam contra uma mina de cobre, de propriedade chinesa, altamente poluente. Liderou o inquérito com a conclusão de que a mina deve continuar as operações, mas a polícia deve se comportar e controles ambientais mais rigorosos implantados. Suu Kyi fez a média.

Ela calcula que tem um longo jogo adiante. Está de olho nas eleições presidenciais de 2015. Não pode alienar a maioria étnica birmanesa e budista, precisa transacionar com os militares e sabe que não pode simplesmente renegar os poderosos vizinhos chineses. Suu Kyi tem o compasso moral, mas também o político. O retrato da musa tem rugas, tem falhas. Pode ser retocado por quem prefere fantasias políticas ou passado adiante por quem exige perfeição.

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Colher de chá para os comentários desta quinta-feira do Vinicius, que estimularam bons debates. E uma vespertina para o Roberto (dia 4, 12:54).

01/04/2013

às 6:00 \ África do Sul, Mandela

Esperando Mandela…partir

A última aparição pública, final da Copa em 2010

Nelson Mandela está no hospital, de novo. Ele tem pneumonia e 94 anos. Boletim do governo sul-africano divulgado no domingo comunica que as condições do venerável líder melhoram. Quanto a mim, não sei se Mandela irá morrer em questão de horas, dias ou se irá passar dos 100 anos. Sabemos do inevitável espetáculo macabro inspirado pela longa vida e a estatura de alguém como ele. Aqui os clichês são obrigatórios: herói da luta antiapartheid, pai da reconciliação sul-africana e a figura mais próxima que o mundo tem de santo vivo.

E conhecemos o ritual: editores dão uma polida e atualização nos obituários, suplementos e documentários. A mesma coisa com os planos M, de cobertura do funeral, para o qual virá todo mundo, de dignatários a Oprah Winfrey. Existe a ansiedade sobre como será a África do Sul sem ele, embora Mandela tenha deixado a presidência em 1999.

A espera e os preparativos do gênero valem também para o octogenário Fidel Castro, outra figura grande da história, embora sem a grandeza de Mandela. E, de fato, a indústria Mandela é imensa e antiga. Imagine, em 1997, o jornalista sul-africano Lester Venter  publicou o livro”Quando Mandela Partir”.

Haverá a ocasião oportuna aqui para o balanço mais detalhado (ok, o obituário) de Mandela, mas é sempre bom antecipar um alerta. Mandela está na galeria de figuras grandiosas da história, como Mahmata Gandhi e Martin Luther King, mas eles tiveram morte repentina (assassinatos), enquanto o venerável sul-africano vai partindo lentamente (Fidel dá umas aceleradas).

Herdeiros políticos e genéticos de Mandela tiram a lasquinha enquanto é possível. A última aparição pública de Mandela foi em julho de 2010, na partida final da Copa do Mundo. No ano anterior, ele fora usado de forma vergonhosa em um comício eleitoral do governista Congresso Nacional Africano, do qual será até o fim, e além, um fiel militante. Mandela, de algum jeito, estará presente nas eleições de 2014, exatos 20 anos depois de sua vitória triunfal como o primeiro presidente negro da África do Sul.

Tanta manipulação não surpreende. Mesmo máquinas governistas menos autocráticas e corruptas do que o Congresso Nacional Africano fariam o mesmo se tivessem alguém como Mandela à disposição. De qualquer modo, uma pena, assim como este excesso de deslumbramento. Eu mencionei acima figuras trágicas assassinadas como Gandhi e Luther King. Podemos também mencionar Abraham Lincoln, o presidente republicano que transcendeu partidos e é reverenciado por todo mundo (ok, quase todo mundo, afinal os eleitores de Hollywood não deram o Oscar de melho filme).

Mandela merece muita estátua e estatueta, mas nada de embalsamar ou canonizar o homem. Ele é super, mas não superhomem. Como já disse, haverá o momento oportuno (muito em breve ou talvez depois do obituário de Fidel), para um balanço de Mandela, mas, por ora, fico com a frase de George Orwell, quando escreveu a resenha de uma biografia de Gandhi em 1949: “Santos sempre devem ser julgados culpados até serem provados inocentes”.

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Colher de chá para George Orwell. 

Curtas & Finas (Nocautes & Pontos)

Pacquiao na lona, sob os olhares do nocauteado Romney

Para o espanto de muita gente, o ícone filipino do boxe Manny Pacquiao foi nocauteado no sexto round pelo mexicano Juan Manuel Márquez na luta de sábado à noite em Las Vegas. Para o espanto do meu sogro, em Manila, pugilista amador na juventude, e de Mitt Romney, perdedor profissional no pugilato eleitoral. Romney apareceu no vestiário antes da luta para desejar boa sorte a Pacquiao e disse: “Alô, Manny, eu concorri à presidência e perdi”. Pacquiao já é deputado nas Filipinas e quem saiba um dia dispute a presidência do seu país. Não precisa do endosso de pé-frio.
Já aquele pugilista ágil que nocauteou Romney em novembro continua com bom desempenho. Barack Obama vai derrotando por pontos os republicanos, que controlam a Câmara dos Deputados, na disputa sobre o chamado abismo fiscal. O presidente democrata encurrala os adversários no corner do ringue político, desferindo seus golpes sistemáticos. Nada da letargia de embates anteriores.

O presidente da Câmara, o republicano John Boehner, já deu uma enquadrada no seu plantel e prepara o terreno para concessões no aumento de impostos, anátema para os mais conservadores. Obama, porém, não pode bailar demais no ringue, nada de arrogância Muhammad Ali. Precisará fazer suas concessões no corte de benefícios sociais. Dito isto, o presidente vai ganhar por pontos neste seu segundo e último round presidencial.

Lá no ringue da Primavera Árabe, são várias lutas. No Egito, o presidente Mohammed Mursi forçou a barra para ter mais poderes. Os adversários revidaram. É gente que brigou na praça Tahrir até nocautear a múmia Hosni Mubarak, há pouco menos de dois anos. Mas, Mursi, treinado pela Irmandade Muçulmana, é peso-pesado.

Ele entregou alguns pontos simbólicos nesta questão de poderes adicionais, mas segue firme com a data do referendo, o próximo sábado, sobre o projeto de Constituição que com razão assusta gente mais moderada, temerosa do projeto de hegemonia islamista. No entanto, nesta primeira fase da Primavera Árabe não dá para reverter totalmente a vitória dos islamistas egípcios, talvez suavizá-la. É vital manter a guarda para impedir o nocaute de uma frágil democracia. Serão anos, décadas de embates na Primavera Árabe.

Já na parte do ringue com o pugilato dos sírios, não existe nada suave. É a brutalidade da guerra civil. Eu e tantos comentaristas subestimamos a duração da luta, mas no final das contas será um nocaute horrendo desferido contra Bashar Assad, com o sangue de muita gente na lona.

E tem lutador que não sabe que chegou a hora de pendurar as luvas. Silvio Botox Bunga-Bunga Bersluconi anunciou que vai concorrer novamente ao governo. Que coisa. A Itália mal se levanta com Mario Monti e agora este lance de Berlusconi, que pode nocautear o país. Pelo menos na Alemanha, ninguém derruba Angela Merkel. E se Berlusconi partiu e agora quer voltar, Hugo Chávez, outro lutador ególatra, ficou quando deveria ter partido devido a seu câncer e agora talvez seja forçado a partir.

Enquanto isto, o mundo aguarda a partida de Nelson Mandela, um modelo de lutador magnânimo e, aliás, sem metáfora, o ícone sul-africano foi boxeador na juventude.

E vamos arrematar com lutas menores. A presidente Dilma Rousseff estrilou com um mero editorial da revista The Economist, que gosta de bancar o juiz global em qualquer briga (por mim, tudo bem), pedindo a cabeça do peso-pena Guido Mantega. O Brasil dos golpes autodesferidos não espanta, que um dia seja salvo por algum gongo.

No primeiro round, colher de chá para o Jorji (dia 10, 10:07), pelas analogias.

09/01/2012

às 6:00 \ África do Sul

Da luta de libertação às amarras corruptas do poder

Muita festa e pouca autoridade moral no CNA - Foto AFP

Depois de uma vida na resistência, com líderes mortos, torturados e exilados por uma ditadura, um partido revolucionário chega ao poder. É um momento histórico e glorioso. Mas o poder corrompe (muitas vezes já corrompia o partido mesmo antes da vitória). Existem aparelhismo, mamatas em contratos governistas, brigas ferozes entre facções por nacos do poder e sobre a direção ideológica.

O presidente é acusado de pragmatismo entreguista, mantendo uma política econômica subserviente às velhas elites, que eram favorecidas na época da ditadura, mas que se ajustaram à nova ordem. O presidente, que se safara das acusações de corrupção, também tenta fazer uma faxina dentro de casa, espirrando ministros mais escandalosos na corrupção e incompetência administrativa, assim como realizando um expurgo de uma ala jovem e radical, contrária à privatização e possuída pela nostalgia revolucionária. Ao mesmo tempo, o governo consegue impor legislação que coloca uma mordaça na imprensa que investiga os trambiques oficiais.

Algumas linhas dos parágrafos acima têm um jeitinho brasileiro, de uma trajetória petista. Mas é outra história. Estamos falando do novo companheiro do Brasil no blocão nobre dos emergentes (Brics), a África do Sul, governada pelo Congresso Nacional Africano (CNA), desde o final do apartheid em 1994, quando chegou ao poder nas primeiras eleições democráticas na história da África do Sul. E existe uma diferença fundamental: o grande líder do partido sul-africano não se mostrou sedento pelo poder e soube abandoná-lo como estadista. É isto, aí, sr. Lula, you are no Mr. Mandela.

Bem, toda esta conversa sobre o Congresso Nacional Africano porque o partido organizou uma festança extravagante no fim-de-semana para celebrar o centenário de sua fundação. É o mais antigo movimento de libertação nacional na África. Um marco, sem dúvida, mas o partido está numa marca baixa de sua longa história. A infâmia do regime de segregação racial acabou, mas existem outras infâmias na África do Sul, hoje governada por Jacob Zuma, o terceiro presidente (depois de Nelson Mandela e Thabo Mbeki), desde o fim do regime racista de minoria branca.

Apesar do aparelhismo e destas mordaças, a África do Sul é uma democracia, com uma imprensa vibrante e uma oposição atuante, embora não se vislumbre tão cedo o fim do poder do CNA. Existem as denúncias habituais do governo sobre herança maldita do apartheid, mas a concentração de renda aumentou no país nos últimos 18 anos. Com quase duas décadas no poder, o CNA tem responsabilidade pelo estado de coisas. O CNA agora governa em nome da maioria, mas uma minoria é beneficiada. De acordo com o tribunal de contas do país, existe a maior farra na concessão de contratos governistas a companhias de famíliares de funcionários governistas e cerca de 1/4 dos gastos federais são desperdiçados por sobrefaturamento e suborno.

Com a saúde já bastante frágil aos 93 anos, Nelson Mandela não compareceu à festa do centenário do partido, que ele conseguiu revitalizar quando estava em baixa nos anos 40 e que levou ao poder nos anos 90.  Visionário, astuto e reconciliador, ele evitou uma guerra racial. Mandela também se mostrou estadista e deixou o poder após um mandato, evitando o desfecho de tantos líderes de movimentos de libertação nacional, a destacar o ignóbil Robert Mugabe, do Zimbábue, ainda no controle das coisas aos 87 anos.

Existe ainda, no entanto, o culto a personalidade (Mandela), mesclado ao culto ao partido (CNA). Mandela é figura central na lenda do CNA. Aliás, sua transformação de líder rebelde na prisão em ícone global fez parte de um estupendo e bem-sucedido trabalho de marketing do CNA. Dito isto, Mandela foi grandioso, especialmente por sua capacidade para perdoar os algozes, em termos humanos e estratégicos. Está aí alguém que merece a mitologia.

Mas o CNA é menor, bem menor, do que Mandela. Perdeu a autoridade moral. Mandela não estava na festa do centenário, mas havia a presença do arcebispo Desmond Tutu, outro ícone da resistência. O mesmo Tutu, que, furioso com os desmandos do CNA, disse no ano passado que o o partido era “pior do que o governo do apartheid”. Como eu disse acima, o CNA não deve deixar o poder tão cedo e uma das razões é a ligação emocional das massas negras com a luta de libertação, apesar do desencanto com um partido no poder que não correspondeu às expectativas num país em que 40% da população vive abaixo do nível de pobreza (US$ 51 dólares mensais) e o desemprego entre os jovens está na faixa de 50%.

É um consolo, porém, ver o avanço de um partido de oposição, como a Aliança Democrática, nascido entre brancos liberais que combatiam o apartheid e hoje fazendo esforços para concretizar o sonho do arcebispo Tutu de uma “nação arco-íris”, recrutando lideranças negras. Logo depois do fim do apartheid, a Aliança Democrática conseguiu 2% dos votos em eleições. No ano passado, saltou para 24%. Em uma entrevista à revista Time, a líder do partido, Helen Zille, disse que sua meta é que a Aliança Democrática chegue ao poder nas eleições de 2019. Sei lá.

Mas uma observação de Helen Zille é muito interessante: somente a remoção do poder do CNA fará com que a Africa do Sul se converta em uma genuína democracia. Seria maravilhoso. Vamos ver. Afinal movimentos de libertação nacional não têm o hábito de se aposentar de forma digna e elegante, como um Nelson Mandela. Costumam apodrecer no poder.

***
Colher de chá para o Thales (dia 9, 12:08) pela comparação entre máquinas partidárias e uma segunda para o Felipe (dia 9, 10:29) pela panorâmica sul-africana.

26/10/2011

às 6:00 \ África do Sul, Mianmar, Primavera Árabe

A transição árabe incomoda, que saudades do Mandela

Mandela e De Klerk, a boa transição – Foto Harry How/Getty Images

Mandela e De Klerk, a boa transição – Foto Harry How/Getty Images

Transição de ditadura para democracia (e muitas vezes de ditadura para ditadura) pode ser atabalhoada, exasperante, sangrenta, pacífica, alternando sangue e negociação. Pode ser tortuosa, com figuras trafegando e traficando influência entre os sistemas, como no Brasil. José Sarney foi homem da ditadura, foi homem da mineirice democrática de Tancredo Neves e é homem desta coisa que está aí.

E temos aquele agreste na “primavera árabe”. Nenhuma das transições para alguma coisa tem sido pacífica e está cheio de Sarneys no processo. Temos graus de violência e graus de resistência de ditadores para não entregarem o ouro e o abacaxi. O que está acontecendo na Líbia é chocante nesta transição pós-Kadafi. Mas nunca podemos esquecer que a escalada de violência aconteceu quando o ditador resolveu tratar manifestantes pacíficos como ratos e ele morreu como rato, no clichê repetido ad nauseaum. E para finalizar a metáfora, não faltou rato abandonando o navio do Kadafi no final da jornada, aderindo a esta coisa que está aí e não sabemos onde vai aportar.

Outros regimes terríveis souberam costurar melhor a transição. Há 20 anos, Nelson Mandela, cujo Congresso Nacional Africano praticara luta armada, negociou penosamente e muitas vezes num clima de ressentimento com Frederick de Klerk, que presidia o abominável apartheid. O dirigente branco se curvou à realidade e Mandela não tratou os brancos como ratos, embora tenha passado quase 30 anos na ratoeira . E a democracia está lá na África do Sul, com muita coisa vexaminosa, é claro. A nova elite no poder também é corrupta e o líder da ala jovem do Congresso Nacional Africano, Julius Malema, tem uma atitude racista (contra os brancos).

O país que tem ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, como o próprio Mandela, de Klerk e Desmond Tutu, vergonhosamente não permitiu a visita do Dalai Lama, outro Nobel da Paz, em nome de suas boas relações com a ditadura comuno-capitalista da China, que ocupa o Tibete. O governo sul-africano de Jacob Zuma, aliás, segurou a barra do companheiro Kadafi até onde deu. Porém, vamos sempre saudar a obra magnífica de Mandela. Como o mundo precisa de outros Mandelas.

Suu Kyi e uma possível transição – Foto AFP

Suu Kyi e uma possível transição – Foto AFP

Lá no remoto Mianmar (nome terrivel dado para a Birmânia pelos militares que mandam e abusam do poder desde 1962) tem uma Mandela, uma favorita desta coluna, que é a também Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi. Sei que os olhos do mundo e as apreensões de quem se preocupa com direitos humanos e o futuro das liberdades estão nestas convulsões no mundo árabe. Mas a terra também se move lá naquele rincão da Ásia. Com Mianmar submetido a sanções internacionais, seus dirigentes ensaiam uma abertura para romper o isolamento e ganhar alguma legitimidade. Recentemente, foram mudanças inimagináveis. A própria Suu Kyi foi libertada da prisão domiciliar, censura foi relaxada, exilados políticos estão retornando e presos políticos sendo soltos.

Em agosto, Suu Kyi se reuniu com o presidente Thein Sein, mantido pelos militares. Ela comparou este diálogo ao ponto em que a África do Sul estava no começo dos anos 90 para negociar o fim do apartheid. Suu Kyi é gata escaldada. Já houve outros alarmes falsos. Em 2002, ela foi libertada da prisão na expectativa de que haveria uma transição negociada. No ano seguinte, a dissidente, filha do pai da independência nacional, estava de volta ao xadrez.

Agora Suu Kyi calibra uma resposta cautelosamente positiva e não descarta concorrer em eleições, se forem realmente livres, em 2015. Muitos dissidentes duvidam da sinceridade das reformas, criticam a disposição conciliatória de Suu Kyi e advertem os países ocidentais para não suavizarem as sanções tão cedo para que a oposição não perca o poder de barganha. E a própria Suu Kyi diz que é prematuro abandonar as sanções. Sem sinais encorajadores de Suu Kyi, os americanos e os europeus não vão desistir das punições econômicas contra o país com uma das populações mais miseráveis da Ásia. E os sinais são de que o governo de Mianmar é mais sério do que no passado sobre um projeto de reforma, em contraste, por exemplo, à ditadura da Síria, que chegou a encenar uma farsa reformista enquanto esmagava a oposição.

Bem, falando em Síria, de volta à complicada “primavera árabe”, onde se pode, no mínimo, duvidar do empenho democrático de muita gente que luta até bravamente, ao lado dos Sarneys, pela fim das ditaduras de plantão. Não temos estas dúvidas sobre Suu Kyi. Imagine uma mulher como ela, longe da selva de Mianmar, no deserto do Oriente Médio, lutando por democracia, com um sorriso e sem o véu.

Não dá para sorrir muito com estas transições, mas tampouco chorar de forma convulsiva com o triunfo de partidos islâmicos, como aconteceu nesta primeira eleição (para assembléia constituinte) na Tunísia, onde começou a “primavera árabe”. Melhor um Mandela ou uma Suu Kyi, mas temos só um Rachid Ghannouchi e sua filha porta-voz, com sotaque britânico, e cabeça coberta, dizendo que não devemos nos assustar. Meio assustado, preciso dar um meio voto de confiança. O processo eleitoral foi decente. Como observou em editorial o Wall Street Journal, que não é um jornal deslumbrado, “o teste definitivo de qualquer nova democracia não é a primeira eleição; é a primeira transferência pacífica de poder. Mas a primeira eleição na Tunísia é um começo esperançoso”.

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Já estava inclinado e por pressão da massa (cerca de dois leitores) eu me submeto. Colher de chá para os comentários desta quarta-feira do acelerado leitor Lawrence da Arábia (grande codinome).

 

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