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Da Grécia ao Afeganistão, fadiga e frustração

Como organizar e pagar a estratégia de saída ocidental do Afeganistão?

Pelo menos os líderes ocidentais se movimentam. Eles foram de Camp David para Chicago, onde está em curso a reunião da Otan para discutir o futuro (que futuro?) do Afeganistão. Tudo melancólico, a começar pelo encontro da liderança do G-8 em Camp David, concentrado na crise europeia. Saiu o esperado comunicado, onde até as vírgulas são negociadas, sobre a guerra austeridade x novo pacto de crescimento.

Foi o cerco liderado pelo novo presidente francês François Hollande contra a primeira-ministra alemã Angela Merkel para suavizar, abrir a carteira e bancar o novo pacto de crescimento, mas ela move poucas vírgulas e poucos euros. O resultado foi o comunicado frouxo do G-8, fazendo média entre o compromisso formal para manter a Grécia na zona do Europa e a insistência alemã de que um apoio entusiasmo seria o recado errado, confundido com uma tábua de salvação a qualquer preço, não apenas para os gregos, mas outros países da zona do euro em uma situação de sufoco. O duelo tem nova rodada na cúpula da União Europeia (dirigentes sempre se movimentando) nesta próxima quarta-feira.

O presidente americano Barack Obama, morrendo de medo de uma bancarrota europeia durante sua campanha de reeleição, apenas bota banca, mas não assistência aos aliados do outro lado do Atlântico, enquanto tenta sugar alguma ajuda dos europeus às voltas com os seus buracos afegãos (Grécia e demais) para o Afeganistão original, assunto principal da agenda da cúpula da Otan.

Tanto na crise europeia, como na afegã, existem fadiga e frustração. A Grécia é um símbolo dos erros na construção do projeto europeu. Foi aceita no clube quando não deveria ter sido e agora se teme que, caso seja espirrada, gere tamanha encrenca que talvez não haja condições de fazer as reformas na associação, para que seja realmente mais unida, mas com menos autonomia para os sócios. No cenário mais aterrador, o clube com planos tão grandiosos talvez seja fechado e no seu lugar seja aberto um outro menor e mais elitista.

Existe justificável irritação com o Grécia dentro da Europa e estes dilemas estratégicos e táticos sobre até que ponto compensa salvar o país e se remédios tão dolorosos, como a austeridade, podem agravar a situação do paciente. Mas é inegável que não dá para escapar da dor. A Europa empreendeu uma jornada visionária no pós-guerra e os planos de união colidem com as realidades de países em graus diferentes de solidez e potencial. E obviamente uma crise econômica é um desafio para quem está em uma situação menos pior,  se comportou como formiga e agora precisa ajudar quem sempre foi metido a cigarra. Como se fala formiga em alemão e cigarra em grego?

A Europa foi maravilhosa com o sucesso de sua reconstrução pós-guerra e agora tem esta dificuldade para ampliar a obra ou impedir que desabe. Já no caso afegão, é a constatação sobre a mera inviabilidade de construção de um país sólido, democrático e próspero (no jargão em inglês a expressão é nation-building). No caso europeu, o debate é em torno do jargão conhecido como Grexit (como será a eventual saída da Grécia da zona do euro?). No Afeganistão, é uma estratégia mais ampla de saída dos países ocidentais, liderados pelos EUA (até 2014).

O projeto bem mais modesto é se contentar com um mínimo de segurança, sem retorno da rede Al Qaeda que teve santuário no pais até a derrubada do Taliban em 2001, um nível tolerável de corrupção e de ineficácia do governo local e mesmo um modus-vivendi com o Taliban. O problema é evitar a percepção de uma fuga atabalhoada, que apenas iria encorajar o Taliban a ser maximalista e levar atores regionais como o Paquistão, um dos parceiros mais turbulentos e menos confiáveis que os EUA já tiveram na história,  a fazer seus próprios cálculos, pois os americanos vão cair fora do buraco de qualquer forma. Já o cálculo americano é que um Paquistão nuclear e instável merece mais atenção do que a busca de estabilidade no vizinho Afeganistão.

Por esta razão, existe esta mensagem ambígua do governo Obama: vamos sair e vamos ficar no Afeganistão. A mensagem é caríssima. Significa um compromisso de respaldar o governo local a um preço de US$ 4 bilhões anuais, por dez anos, nesta tarefa inglória de afeganistização da guerra. Existe um desejo entre praticamente todos os membros da Otan de uma saída com dignidade do Afeganistão. E para o governo Obama, ainda sobrou a tarefa ingrata de achacar o que for possível dos aliados em termos de compromissos financeiros e cronograma de retirada de tropas. Basta ver que François Hollande, contra a austeridade na Europa, é  bem austero no Afeganistão, pois promete antecipar em dois anos a retirada das tropas francesas do país.

Esta reunião em Chicago, portanto, se destina a organizar uma saida com dignidade e ver como rachar a conta afegã. Quem prefere falar de Grécia? Tanta movimentação, de Camp David a Chicago, para isto.

***
Colher de chá para o Aurélio (dia 21, 12:26) e sua doutrina das melancias.  E uma noturna para o Mauricio (dia 21, 19:2o), por colocar a fadiga e a frustração no seu devido contexto.

03/05/2012

às 6:00 \ Afeganistão

Curtas & Finas (Afeganistão & Vietnã)

Obama cansado de guerra no Afeganistão

A frase original é mais complicada, mas para a história fica o sentido do que disse nos anos 70 um senador chamado George Aiken: a solução americana para a guerra do Vietnã era declarar vitória e cair fora do atoleiro. Sobre o Afeganistão, Barack Obama não chegou a tanto na terça-feira, quando apareceu de surpresa em Cabul, no primeiro aniversário da morte de Osama Bin Laden, mas se aproximou da peça pregada por George W. Bush, quando anunciou em 2003: missão cumprida no Iraque. E que coisa: no horário americano, os dois presidentes fizeram discurso no mesmo dia, um 1 de maio.

Obama disse que há luz no horizonte (pelo menos não soltou um no-fim-do-túnel) e um claro caminho para concretizar a missão no Afeganistão. Para o povo americano cansado de guerra, Obama prometeu uma presença minimalista, depois do final das operações de combate em 2014. Para o governo afegão e quem morre de medo do Talilban, Obama prometeu que o país não será abandonado à sua triste sorte.  A saída americana, em todos os sentidos, é a “afeganistização” (lembram-se da “vietnamização”?) da guerra com o treinamento das tropas locais, trabalho de inteligência e realização de operações especiais contra a rede Al Qaeda. Será um compromisso de pelo menos dez anos, com um pacote de ajuda ocidental de US$ 4 bilhões anuais, que o governo de Hamid Karzai considera insuficiente (para regar na horta da corrupção e incompetência?).

Com Osama Bin Laden fora de cena (morto no Paquistão dez anos depois de autorizar a barbárie do 11 do setembro do seu santuário no Afeganistão), a presença maciça de tropas americanas naquelas bandas perdeu a razão de ser (por motivos eleitorais, econômicos e novos focos estratégicos). Perdeu a razão dentro dos parâmetros fixados pelo comandante-em-chefe. Como disse Obama, os objetivos de destruir a rede Al-Qaeda e impedir que reconstrua sua base no Afeganistão estão ao alcance. O detalhe é que o mesmo não se aplica ao Taliban, sem falar da descomunal encrenca que é o Paquistão (país praticamente ignorado no discurso de terça-feira).

Resta saber se uma presença minimalista do Ocidente (minimalista é um termo discutível) será suficiente para enfrentar o desafio do Taliban num país tão precário, tão corrupto e tão desconjuntado como o Afeganistão. A retirada das tropas é a prioridade, não a estabilização do país. Resta, portanto,  pouca esperança. Mas para os americanos, a solução é, sem declarar vitória, anunciar o fim da guerra.

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Com atraso, colher de chá para o comentário matinal do Angelo (dia 3, 8:50), sempre preciso e conciso. 

13/03/2012

às 6:00 \ Afeganistão, EUA, Gingrich

Curtas & Finas (Gingrich & Afeganistão)

Gingrich e um país miserável - Fotos AFP

Nesta terça-feira, tem mais uma rodada de primárias republicanas (deixou de ser super). Agora é simplesmente extenuante. Newt Gingrich joga sua última cartada. Precisa fazer bonito nos estados sulistas de Alabama e Mississippi. Com seu ego inchado (em dias modestos, a referência é Moisés), Gingrich ocupa seu indevido lugar, impedindo que se consume a batalha final entre Mitt Romney e Rick Santorum.

Na piada-lamento, muito se comenta que o candidato ideal dos republicanos deveria ter a aparência de Romney, a fibra moral de Santorum e o cérebro de Gingrich. E, de fato, sai muita coisa daquela cérebro petulante. Também já se fez muito piada sobre os planos gingrichianos de base lunar (quem sabe o satélite se torne estado americano antes de Porto Rico), mas aqui na Terra ele até falou coisas que merecem reflexão sobre as bases americanas no Afeganistão e o sentido da missão em um país que realmente parece ser outro planeta.

Está aí uma situação desoladora. O último lance foi o massacre cometido no domingo por um sargento americano, matando 16 civis em um vilarejo. Isto na sequência de queima de cópias do Corão e das imagens de soldados americanos urinando em cadáveres de militantes do Talibã. Uma cadeia de incidentes suficiente para mostrar a missão inglória do Ocidente para conquistar corações e mentes no fim do mundo. Afegãos expressam ingratidão com tropas ocidentais que tiraram a barbárie do poder (o Talibã) e a opinião pública americana dá crescentes mostras de que se lixa cada vez mais para o que considera um país-lixo.

Em meio à demagogia republicana de acusar Barack Obama de simplesmente cair fora de buracos quentes como Iraque e Afeganistão (refletindo os pendores da opinião pública americana), Gingrich faz avaliações estratégicas que devem ser levadas em conta. É verdade que Santorum começou a reavaliar as coisas na segunda-feira e, ao invés de repetir a ladainha que Obama não passa de um fracote,  ele admitiu que talvez os EUA precisem “sair  mais cedo” do Afeganistão (o plano é a retirada da grande maioria das tropas ocidentais ao final de 2014, depois de uma escalada decidida no governo Obama). Quanto a Mitt Romney, mantém a postura que é preciso seguir com a missão e nada de negociar com o Talibã. As pesquisas mostram o eleitorado republicano sobre o que fazer no Afeganistão, enquanto democratas e independentes estão no ritmo de arriar a bandeira americana e bye bye.

Já Gingrich foi menos oportunista e imediatista nesta questão. Em um debate dos candidatos republicanos em fevereiro, ele disse que “‘nós (os americanos) não vamos consertar o Afeganistão. Não é viável”. E arrematou que os problemas que os EUA enfrentam em países como o Afeganistão são muito grandes e complicados para soluções militares (isto não impede Gingrich de ser a favor de um botar para quebrar no Irã).

Na frase de efeito de Gingrich, “os afegãos vão precisar calcular como viver sua vida miserável”. Nesta horas, eu penso nas meninas que apenas sonham com o prosaico: ter o direito de ir  à escola neste país miserável. E isto será mais difícil quando partirem as tropas ocidentais que travam combates contra o Talibã e estão travadas nesta missão de conquistar os corações e mentes da população de um país que talvez esteja condenado á sua miséria.

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Colher de chá matinal para o Jorji (dia 13, 9:08), pelo argumento conciso (bom, gosto de pontos telegráficos) sobre o que está em jogo no Afeganistão. Outra de chá para o Cláudio (menos conciso, hehehe), pela panorâmica (dia 13, 10:26) e uma de café para a Anouk (dia 13, 10:29) por lembrar alguns avanços no pais miserável. Colher de chá vespertina para o J.R. (dia 13, 16:29), pelo conceito de imperialismo arrependido.

28/02/2012

às 6:00 \ Afeganistão, Obama, Republicanos, Santorum

Curtas & Finas (Santorum & Afeganistão)

Lenha republicana na fogueira afegã - Foto Arif Ali/AFP

Mais um dia de primárias republicanas. Nesta terça-feira, o circo mambembe tem apresentações nos estados de Michigan e Arizona. Na quarta-feira, eu dou uma panorâmica sobre os resultados, mas agora vou falar apenas de um dos artistas, Rick Santorum. Nada de Oscar para ele, pois fala demais, ao contrário de Jean Dujardin. Existe um debate se o teólogo-em-chefe Santorum está pronto para liderar os EUA no século XIII. Eu tenho minhas dúvidas.

Nem vou discutir (muito) a declaração do candidato republicano de que teve vontade de “vomitar” após ler o discurso de 1960 do presidente John Kennedy (católico, como ele), pedindo uma separação absoluta entre estado e religião. Pelo visto, Santorum acha abominável que o país sequer chegue ao final do século XVIII dos pais fundadores da pátria, que achavam uma boa idéia esta separação, este absolutismo.
Falando em Santorum e religião, eu tenho o gancho para chegar no ponto que eu gostaria realmente de comentar. A coisa está pegando fogo no Afeganistão (sempre está, né?). Numa ação não intencional, soldados americanos incineraram cópias do Corão. O resultado foram protestos exaltados, com mortes de manifestantes e de militares ocidentais.
Há um debate razoável sobre a efetividade da estratégia americana no Afeganistão. Republicanos encontraram mais um flanco para atacar o governo Obama com sua pressa para a retirada de tropas e aposta no treinamento pouco convincente de contingentes locais. Obama quer, ao mesmo tempo, cair fora (como no Iraque) e vender o peixe que dá para atuar através da terceirização,  contra-insurgência, apetrechos como aviões não tripulados contra o terror Al Al Qaeda e governos relativamente sólidos. Não é fácil construir este aparato e leva tempo.
Mas, ao lado destas críticas pertinentes (embora seja difícil imaginar apoio da opinião pública americana a um compromisso duradouro e mais investimentos no país, como apregoam quase todos os republicanos), veio a saraivada demagógica. É aquela história de que Obama é um fracote e fica se desculpando no exterior. Mitt Romney embarcou nesta, mas Rick Santorum foi mais virulento (como de hábito).
Vamos descontar. É falatório de campanha eleitoral, mas assusta a idéia do teólogo-em-chefe Rick Santorum engajado em guerra de civilizações na condição de presidente. Sobre isto, só uma frase: graças a Deus, não vai acontecer (ele na Casa Branca). De qualquer forma, a irresponsabilidade de Santorum e dos demais candidatos é simplesmente infanto-juvenil (deveria escrever apenas infantil, mas vá lá).
Claro que Obama precisava de desculpar pela incineração de cópias do Corão. E o mesmo foi feito pelos comandantes militares ocidentais no Afeganistão. Se alguem pisar no calo de Santorum sem querer, não é de bom tom pedir desculpas? Uso esta analogia primária (sic) para mostar a tosca demagogia. Barack Obama é chefe de estado e comandante-em-chefe das forças armadas dos EUA. Soldados americanos estão morrendo em função do incidente. Seu dever é proteger suas tropas e baixar o fogo, ao contrário de Santorum, mais interessado em colocar lenha na fogueira, quando está em risco a complicada parceria dos EUA com o Afeganistão, este país conservador, atrasado e extremamente muçulmano.
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Colher de chá para o André (dia 28, 13:13) por elaborar como partidos se comportam na oposição e no governo. E uma de café para o Brasil 2022 (dia 28, 17:23) pelo clamor a favor de comentários com menos de 90 linhas. E, embalado, mais uma de café para o Maisvalia (dia 28, 21:05), pelo clamor a favor da clareza nos comentários.

Primeira Impressão (Paquistão)

Livro profético

No feriadão de Ação de Graças, o presidente Barack Obama foi civicamente americano. Foi consumista no tiro de largada da temporada natalina. Obama, porém, é cerebral, metido a intelectual. Sua aquisição foi um livro. Boa escolha com Descent into Chaos, livro de 2008 do brilhante jornalista paquistanês Ahmed Rashid, uma descriçao profética do AfPak (Afeganistão e Paquistão) indo ladeira abaixo e caoticamente.

A trajetória se acelerou no fim-de-semana depois do incidente, em que helicópteros e aviões da Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fornteira AfPak. Rashid é obrigatório, com seus livros, artigos de jornais e depoimentos, para quem quer entender minimamente uma região confusa e perigosa. Ele tem acesso aos vários atores, algo perigosíssimo em se tratando do Taliban, rede Al Qaeda e outros grupos radicais, que não vacilam em sequestrar, assasssinar e decepar cabeça de jornalista, como foi o caso do americano Daniel Pearl (o mesmo em relação ao serviço de inteligência paquistanês, exceto no quesito decepar cabeça). Entrevistado esta semana, Rashid diagnosticou que a política americana para a Ásia Central é disfuncional, contraditória (relação de amigo e inimigo com o Paquistão) e o tempo se esgota para evitar estragos maiores.

Rashid adverte que o fervor antiamericano é intenso no Paquistão, mas descarta a receita de alguns candidatos presidenciais republicanos de decepar ajuda ao país. Alerta que será ainda mais desastrosa. Servirá para enfraquecer os já anêmicos setores pró-ocidentais. Isolar o Paquistão é uma opção perigosa, embora seja inevitável para os EUA se aproximarem ainda mais da Índia (enquanto os paquistaneses vão se ligar mais intimamente aos chineses).

Rashid claro que gostou da publicidade em torno do seu livro, comprado pelo presidente, mas lembrou que a campanha do candidato Obama recebeu seis cópias em 2008, quando foi lançado. A tentação é dizer antes tarde do que nunca. Mas pode ser tarde mesmo.

PS: Esta, na verdade, é uma segunda impressão minha do livro de Ahmed Rashid. Publiquei resenha no Estadão em julho de 2008. Para quem estiver interessado, basta checar no Google.
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Boas discussões estratégicas logo cedo sobre um tema atroz. Destaque para a sucessão de comentários do Devildom Voyeur (dia 2, 10:21, 11:42, 12:27).

O perigoso Paquistão está cada vez mais perigoso

Os dúbios militares paquistaneses- Foto John Moore/Getty

Eu não sou grande fã do plantel de candidatos republicanos à presidência americana, muito menos da deputada Michele Bachmann, que já teve seus 15 minutos de fama como queridinha do Tea Party. No entanto, no debate da semana passada dos candidatos sobre política externa, ela deu uma resposta muito honesta e sofisticada sobre a complexa crise do Paquistão (da sua posição estratégica e bem informada como integrante do Comitê de Forças Armadas da Câmara), em meio `a gritaria de tantos candidatos para o governo americano dar uma de macho e cortar ajuda para este aliado que, de fato, merece toda desconfiança do mundo (de todo mundo) e age com duplicidade.

Michele Bachmann foi direto ao ponto, dizendo que o Paquistão é uma “nação que mente”, mas, ao mesmo tempo, compartilha dados de inteligência sobre a rede terrorista Al Qaeda com os americanos. E a candidata republicana alertou que a ajuda deve continuar pois, na sua boa frase de efeito, o “Paquistão, como nação, é muito nuclear para fracassar”. É a mesma analogia para os bancos na crise econômica. Eles agem com duplicidade, mas são muito grandes para quebrar.

O Paquistão é a esquina mais perigosa do mundo, com suas armas nucleares, conflito com a também nuclear Índia e este jogo duplo de ser aliado ocidental e, ao mesmo tempo, ajudar o Talibã e outros grupos insurgentes do Afeganistão. E tudo ficou mais perigoso no fim-de-semana com o incidente no qual ataques com helicópteros e aviões na Otan mataram 24 soldados paquistaneses na fronteira com o Afeganistão, onde insurgentes afegãos atuam.

As autoridades afegãs (com sua própria relação de duplicidade com os EUA e o Paquistão) inclusive esquentaram as coisas dizendo ser falsa a versão paquistanesa de que não houve provocação antes do ataque da Otan. Os paquistaneses, claro, que estão furiosos e denunciam violação da soberania nacional, mas parte da fúria é encenação, justamente em função do jogo duplo. Uma primeira represália foi bloquear duas rotas de tráfego terrrestre de suprimentos para a Otan no Afeganistão e exigir que os americanos fechem uma base no país para o lançamento de ataques com aviões não tripulados dentro do próprio Paquistão (a exigência já foi feita antes e não se concretizou).

Há muita encenação e não se espera o rompimento total, mas não há dúvidas que existe uma séria deterioração das relações dos EUA com o seu duvidoso aliado. Como era de esperar, e em função do incidente, as autoridades americanas estão tentando conter o estrago e colocar panos quentes nas coisas, apesar do círculo vicioso. São décadas de desconfiança e duplicidade de ambas as partes.

E o ano de 2011 tem sido especialmente espinhoso, com os danos colaterais causados pelos ataques com aviões não tripulados, as acusações de envolvimento da inteligência paquistanesa em operações terorristas na embaixada americana em Cabul e o assassinato de um ex-presidente afegão e obviamente a morte de Osama Bin Laden em maio, por forças especiais americanas, realizada sem aviso prévio ao governo local, com as questões levantadas sobre conivência de parte da inteligência paquistanesa para abrigar o líder da rede Al Qaeda.

A duplicidade paquistanesa sempre foi flagrante ao longo de décadas. O país se proclamava aliado americano contra o comunismo soviético e agora contra a rede Al Qaeda, mas seus militares querem, isto sim, faturar ajuda e receber armas para se reforçar contra a Índia. Da parte americana, são as proclamações de que existe a prioridade para ajudar a construção de um país estável, democrático e próspero. E Washington se comporta de forma imperial e imperativa. O resultado da cooperação são sucessivas ditaduras militares (ou militares mandando nos bastidores) e mais instabilidade regional.

Os americanos ajudam militares que, no final das contas, preferem a monstruosidade do Taliban ou outros grupos insurgentes medievais a um governo em Cabul pró-ocidental (mas também próximo da Índia). Soldados americanos morrem no Afeganistão, enquanto o líder do Taliban, o mulá Mohammed Omar, recebe santuário da inteligência paquistanesa no país. Os americanos ajudam seus amigos inimigos. Na expressão em inglês, o Paquistão é um “frenemy” (friend and enemy).

Existem setores civis no Paquistão empenhados em melhorar as relações com a índia e o Afeganistão, além de manter uma relação mais honesta com os EUA. Mas eles são simplesmente fulminados pelos militares. Um governo democrático, embora corrupto e ineficiente, foi eleito em 2008, tendo a frente Asif Zardari (viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, assassinada há quatro anos, num atentado reinvindicado pela Al- Qaeda), tentou cooperar com a Índia, depois dos atentados terroristas em Mumbai em 2008, mas foi neutralizado pelos militares. Agora ocorreu a queda do embaixador paquistanês em Washington, aliado de Zardari, depois que vazou um memorando no qual ele tentava costurar um acordo secreto com os americanos para que eles ajudassem a liderança civil a imporem sua autoridade sobre o establishment militar paquistanês.

Obviamente, existem motivos de suspeitas e ressentimento dos dois lados. O Paquistão, por exemplo, denuncia o envolvimento americano no Afeganistão como responsável pelo crescimento do Taliban e outros grupos insurgentes no próprio país, algo que não poderia acontecer sem a cumplicidade dos militares paquistaneses, que são seletivos na repressão.

A deterioração das relações entre EUA e Paquistão ocorre em meio ao desengajamento americano no Afeganistão, depois de 10 anos de uma guerra que pode ser definida como empacada. Há os esforços infrutíferos de Washington para algum tipo de compromisso político com o Taliban e qualquer remendo de solução negociada vai exigir costura paquistanesa, ou seja, roupa de péssimo acabamento.

Os americanos, infelizmente, precisam deste escandaloso relacionamento com o Paquistão. O país, como reconheceu Michele Bachmann, é muito importante para que não haja promiscuidade geopolítica. Afinal, o Paquistão caminha para possuir o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. Evidentemente é vital vitaminar a anêmica democracia paquistanesa e conter seus generais. Mas a missão se mostra frustrante na esquina mais perigosa do mundo e não existe uma política alternativa decente.

O que temos é um país fraco, pobre e dividido, com o potencial de uma implosão. Há um sentimento antiamericano institucional e popular. E incidentes como o do fim-de-semana apenas agravam as feridas. O espetáculo de um desastre geopolítico no Paquistão fará do vizinho Afeganistão um sideshow.
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Colher de chá para dois comentários abrangentes do Lunardeli (dia 28, 12:32 e 13:31) e históricos do Alberto (dia 28, 13:37).

27/06/2011

às 6:00 \ Afeganistão, China, EUA, Geopolítica, Obama, Oriente Médio

Adeus Oriente Médio, alô Extremo Oriente

O comandante quer partir e quer ficar - foto Saul Loeb/AFP

O comandante-em-chefe Barak Obama não assumiu a doutrina Aiken no Afeganistão. George Aiken foi o senador republicano que na guerra do Vietnã recomendou que os EUA deveriam simplesmente “declarar vitória e cair fora”. O desfecho no Vietnã foi caótico (para os americanos) com a imagem inesquecível de debandada de helicópteros do telhado da embaixada na ex-Saigon.

O anúncio de redução de tropas americanas no Afeganistão (33 mil soldados até o final de 2012) foi um daqueles lances de Obama em que ele se desdobra para fazer média com todos e frustra meio mundo. Analistas e humoristas não perdoaram e repetiram que o presidente quer partir e quer ficar. O senador Aiken teria ficado irritado.

Mas, no final das contas, é o início do desengajamento dos EUA da mais longa guerra de sua história. O negócio é cair fora, sem declarar vitória em uma guerra que gerou tanto desgaste e pouca glória. Seria ridículo declarar vitória. Basta ver a sucessão de hediondos e espetaculares atentados do Talibã nos últimos dias. De qualquer forma para os americanos, existem as razões óbvias de fadiga de guerra, sem esquecer que o Afeganistão é um buraco, mas o buraco fiscal americano conta mais. De olho na sua campanha de reeleição (e o mesmo esta sendo feito pelo batalhão de pretendentes republicanos), Obama lembrou que o foco agora é doméstico. Numa expressão usada comumente por estes dias nos EUA, fala-se que a prioridade é reconstruir pontes em Kansas City e Baltimore e não em Kandahar e Bagdá.

O desengajamento regional é profundo. mas não extremado e muito menos imediato. Os americanos seguirão envolvidos no Afeganistão (e tropas ficarão lá por muito tempo em tarefas de contraterrorismo e não mais de contrainsurgência ou de construção em um país que parece de conserto quase impossível), no Iraque e em várias partes do Oriente Médio e África do Norte. Mas o zelo missionário que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 perdeu a intensidade.

E não se trata apenas da consideração orçamentária. Mas também dos limites de atuação geopolítica, no contexto daquilo que o historiador Paul Kennedy chamou de “superextensão imperial”. Um pais precisa estabelecer a correspondência entre recursos e fins. Cair fora do Oriente Médio e de outros buracos quentes nas imediações irá permitir aos americanos concentrar seu poder de fogo estratégico, militar e fiscal em outras partes da Ásia, no Extremo Oriente, mais para as bandas da China. O comandante dos fuzileiros navais, general James Amos, não esconde seu projeto de deslocar para bases no Pacífico tropas liberadas do Afeganistão e Iraque. A hegemonia americana exige cada vez mais investimentos nos corredores navais ao redor da China.

É isto, aliás, que desejam aliados (Japão, a destacar) e mesmo não aliados dos EUA na região da Ásia-Pacifico (Vietnã). China, Vietnã e outros países da região estão envolvidos em disputas sobre ilhotas e recifes no Mar do Sul da China. As reinvindicações de Pequim acontecem quando o regime comunista ganha tonalidades cada vez mais nacionalistas (uma conveniente troca de ideologia e mensagem no país do leninismo de mercado).

Os chineses se inquietam com os vietnamitas e os americanos tomaram partido do adversário da guerra nos anos 60 e 70 (que na sequência teve um breve conflito com a China). Os chineses aumentam sua capacidade naval e seu primeiro porta-aviões vem aí. Militares e diplomatas chineses advertem para os americanos não “brincarem com fogo”, assim como vários países asiáticos envolvidos em disputas fronteiriças com Pequim.

Não há dúvida que a China é o único país que ameaça a supremacia global dos EUA (e estamos indo aqui muito além de economia). Existe este ponto de inflexão, com transferência de recursos estratégicos e militares americanos do Oriente Médio para a região da Ásia-Pacífico para conter a China. O drama é que os americanos precisam dos chineses também para sua reconstrução doméstica.

Para Obama e sucessores, será um desafio tirar a média. O atual presidente anda aos trancos e barrancos com esta prática. Vamos ver os próximos. Existe fadiga de guerra hoje nos EUA. Mas a história tem seus caminhos tortuosos (ou circulares). Nunca se sabe. Um dia, os americanos poderão estar novamente, por causa da China, em guerra no Vietnã, aquele do senador Aiken.


 

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