Curtas & Finas (Putin & Punk)
Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Yekaterina Samutsevich são três moças desrespeitosas. Elas integram a banda punk, anarquista e coletivo de arte Pussy Riot (está aí um nome desrespeitoso, penetrem no Google para entender). Presas desde março, elas aguardam o veredito da justiça nesta sexta-feira. Podem pegar até três anos de cadeia. São acusadas de vandalismo e de incitar o ódio religioso.
Em fevereiro passado, as moças aprontaram uma provocação no altar da catedral da igreja ortodoxa na capital russa. O desrepeito do papa Vladimir Putin é muito maior. Dissidentes lendários como Alexander Solzhenitsyn expuseram o sistema soviético. As minhas bandoleiras expõem o sistema comandado por Putin. E elas se comparam a Solzhenitsyn, que não era chegado ao punk, abominava a “corrupção moral” esposada pelas três neodissidentes e que no final da vida cometeu a heresia de abraçar Putin. Falando em abraços, a revista The Economist batizou a igreja ortodoxa russa como uma “força de conservadorismo e xenofobia” (Solzhenitsyn adoraria a definição), que encetou um “abraço simbiótico” com o Kremlin.
Minhas bandoleiras tomaram de assalto o altar da catedral para desempenhar uma “oração punk” depois que o líder da igreja ortodoxa, o patriarca Kirill, qualificou Putin, ex-agente da KGB, de “um milagre de Deus”, que retificou o ‘deformado caminho da história”. O patriarca recebeu residência no Kremlin, e assim restaurou um privilégio que detinha antes da revolução bolchevista de 1917, e apoiou abertamente o semiditador Putin, que retornou à presidência para um terceiro mandato em março.
Desde o colapso soviético em 1991, a igreja ortodoxa abençoa o estado russo como legítimo e o Kremlin faz o que pode para usar a continuidade histórica da religião do país em seu proveito. Em troca, a igreja depende da generosidade do estado. Embora a constituição russa estipule a separação entre as duas instituições, existe esta união muito mais escandalosa do que qualquer diatribe de uma banda de punk.
Outro escândalo exposto pelas bandoleiras é o atrelamento do sistema judicial ao Kremlin.Como observou John Lough, no jornal britânico The Daily Telegraph, é dado como certo que a juíza Marina Syrova vai se afinar como a promotoria. Nos 92% dos casos julgados por ela, os réus foram declarados culpados A dúvida é se as três moças irão mesmo para a prisão ou se vão receber uma sentença suspensa. Por mim, no máximo dava uma multa.
O caso devassou como funciona o sistema Putin. No seu espetáculo na catedral, as bandoleiras do Pussy Riot mencionaram o nome de Putin e assim condicionaram a máquina estatal a se afinar rigorosamente com o Kremlin. Provavelmente, não houve instruções de cima. Foi apenas acionado o piloto automático dos sicofantas num sistema de poder personalizado. Nao é à toa que no julgamento, uma das três moças, Maria Alyokhina, disse que elas aprontaram para denunciar a “verticalidade do poder”.
A igreja ortodoxa é engrenagem desta máquina, que desgovernou com sua reação desproprorcional a uma diatribe de um grupo marginal. Uma oração para as mocinhas do Pussy Riot.
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Colher de chá para o Davi (dia 16, 8:50), num debate complicado entre respeito e liberdade de expressão.




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