O Plano R de Mitt Romney (e o de Obama)
Existe algo de novo na frente eleitoral americana: está todo mundo feliz com o rumo da campanha. Há alguns dias, o sentimento era de lamúria generalizada (o mar de lama dos comerciais negativos), saudosistas obamistas do glorioso “yes, we can” de 2008 admitiam que ele pode agora apenas com um populismo barato (e publicidade negativa muito cara) e republicanos expressavam inquietação com a falta de carisma (mas não de gafes) de Mitt Romney.
O sentimento mudou no fim-de-semana. Audácia, expresssão que era associada ao Obama que emergiu do nada no mundo político, passou a ser conferida ao cauteloso tecnocrata Romney com a escolha do deputado Paul Ryan para ser companheiro de chapa. Fervoroso e articulado defensor de um governo enxuto e de reengenharia social de programas médicos e de aposentadoria (tradução: menos generosidade pública e a promessa de mais eficiência privada nestes programas), Ryan é visto mais do que como um segundo na chapa. Ele está posicionado como um impulsionador intelectual de um debate histórico sobre o tamanho e o papel do estado.
Audácia de Romney, aliás, por escolher alguém mais carismático do que ele para secundá-lo. E ao contrário da carismática Sarah Palin (aquela dos tempos remotos da campanha de 2008), Ryan traz também substância para o debate. Um dos meus gurus, Gerald Seib, do Wall Street Journal, escreveu que Ryan é a melhor garantia de que o “país terá o tipo de debate filosófico digno de uma campanha presidencial”. Com o seu lance, em princípio, Romney descarta uma pedra-de-toque da sua campanha que era fazer da eleição um referendo sobre Obama. A eleição passa a ser mais claramente sobre uma escolha entre ideias, sobre um tipo de governo. O debate digno de ideias evidentemente não irá abafar a fuzilaria de baixarias bipartidárias até novembro. Espírito olímpico não é marca de campanha eleitoral americana.
E por que os democratas estariam satisfeitos com este embate de ideias nos termos de Paul Ryan? Simples: eles consideram Ryan um alvo sob medida na campanha. Suas propostas polêmicas (acompanhadas, é claro, de caricaturas e hipérboles de ambas as partes) devem roubar espaço da lenga-lenga genérica de Romney sobre o caráter excepcional dos EUA e o fracasso da liderança do atual presidente.
Para Obama, será a hora R (de Ryan). Num debate filosófico detalhado sobre o papel do estado, o eleitor (a destacar gente da base republicana) precisará refletir se está disposto aos sacrifícios propugnados por Ryan. O debate digno traz muitos riscos para Romney. O candidato republicano obviamente é um calculista. Assim, ele avalia que sua campanha terá condições de absorver a barragem de ferozes ataques democratas de que com Ryan na chapa fica flagrante que uma administração republicana na Casa Branca e Congresso irá jogar os velhinhos na cadeira de rodas no precipício (já tivemos comerciais democratas de campanha com esta imagem), embora os republicano tenham apelado a coisas similares na campanha contra o plano de saúde de Obama.
Abismos caricaturais à parte, é preciso reconhecer que Ryan caminha pela beira de um precipício politico com seu plano. A história mostra que a base republicana (eleitores brancos assustados com a perda do status de classe média e os mais velhos) despreza gastos governamentais e o déficit fiscal em termos abstratos, mas a conversa muda quando programas específicos ameaçam os beneficiados. É fácil se insurgir com a percepção de que o governo é muito camarada com gente pobre (especialmente negros e hispânicos), mas é outra coisa ser convocado para oferecer sua dose pessoal de sacrifício. Não é à toa que mesmo simpatizantes do Tea Party (a ala mais conservadora e radical do Partido Republicano) descartam a reengenharia social do Medicare, o programa de assistência médica para quem tem mais de 65 anos.
A palavra-de-ordem de Ryan é refazer o contrato social firmado pelo New Deal de Franklin Roosevelt dos anos 30 e que teve aditivos nos anos 60, com Lyndon Jonhson. O plano Ryan pede sacrifícios sociais como salvação nacional, enquanto repudia aumento de impostos para os ricos e descarta reduções dos gastos militares. Em uma reedição dos debates da era Reagan, o argumento é de que uma carga menor de impostos irá revigorar a economia e que é preciso deixar de alimentar a besta estatal com arrecadação.
Somente os desdobramentos da campanha irão mostrar até onde vai a audácia de Romney para refazer o contrato social americano e reestruturar o papel do estado. Com o excesso de candidez, ele poderá alienar eleitores independentes e os mais velhos (alô, Flórida) ou poderá conferir uma inspiração churchilliana à campanha (o presente e o futuro exigem sangue, suor e lágrimas).
Eu me curvo à audácia tática de Romney no fim-de-semana, mas questiono se haverá condições estratégicas para colocar os americanos na parede, assumir claramente os sacrifícios propugnados pelo plano Ryan e esperar que cada eleitor cumpra o seu dever. Ademais, mesmo Paul Ryan admite que é preciso um sólido mandato nacional para implementar esta reengenharia social. O país não está lá. O seu plano polariza e precisa de cobertura bipartidária, algo inimaginável. E aqui nem estamos discutindo os méritos de cada aspecto do seu plano.
O lance vice-presidencial de Romney, como se esperava, animou instantaneamente as duas campanhas, cada uma delas vai forçar sua narrativa sobre o plano Ryan até novembro. Barack Obama quer preservar o seu poder e, se conseguir, expandir a atuação governamental. Por ora, ele é o verdadeiro candidato conservador, paladino de um status quo social (apesar do crescente e tenebroso ônus fiscal) e que se desdobra para acalentar um eleitor temeroso de propostas mais radicais da dupla Romney-Ryan. Parece ser um bom plano de vitória eleitoral, menos de governo.
***
Colher de chá bem matinal para o Ronaldo (dia 13, 9:30), por ter preenchido a lacuna. Como escrevi um texto sobre alguém chamado Ryan sem fazer metáfora com o filme estrelado por Tom Hanks? E colher de chá vespertina para o comentário apimentado de J.R. Monteiro (dia 13, 13:04). Leiam e debatam.



Manifestantes prometem mais protestos em São Paulo
'Vândalo do sapatênis' é preso por depredar a prefeitura de SP
Após Fed, Tesouro vai recomprar títulos da dívida para conter juros futuros
Viral da Dove sobre "real beleza" recebe 14 Leões no Festival de Cannes
SP desembolsará R$ 8,6 bi até 2016 para bancar subsídios à tarifa






