A Líbia e as estações políticas no mundo árabe
Não vamos fazer muito onda sobre os resultados (ainda preliminares) das eleições parlamentares na Líbia, mas eles são uma brisa acolhedora na Primavera Árabe. Antes de tudo, foi a vitória do processo (perdão por este jargão): a eleição aconteceu, foi bem menos violenta do que se temia e teve comparecimento acima das expectativas (até em bastiões da ex-ditadura Kadafi). Para os padrões de transição na região, é um bom desfecho. Foi a vitória do pragmatismo sobre a ideologia religiosa.
A opção preferencial dos líbios (um país onde os partidos estavam banidos mesmo antes da ascensão do poder do ditador Kadafi em 1969) foi para para a Aliança das Forças Nacionais do ex-primeiro ministro interino Mahmoud Jibril e não para os grupos islamistas ou abertamente jihadistas. A aliança vencedora é liberal, embora o próprio Jibril não assuma o rótulo fácil, para os padrões dos grupos que emergiram na Primavera Árabe e sua vitória contrasta com o triunfo eleitoral da Irmandade Muçulmana na Tunísia e Egito.
Jibril, educado nos EUA (como o presidente egípcio, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana), é um favorito das forças ocidentais que se envolveram na rebelião líbia no ano passado. Foi aquele que confrontou os islamistas dizendo: quem são eles para decidir quem é mais muçulmano? Claro que a identidade muçulmana está enraizada no mundo árabe, e vai florescer nesta Primavera Árabe, mas a proposta de Jibril é de um governo de coalizão, funcional, estável, que atraia capital estrangeiro e que faça o melhor uso possível da riqueza petrolífera.
Nada fácil se movimentar neste espaço exíguo num cenário ocupado de um lado por ditaduras amalucadas, ossificadas e sanguinárias (nas versões seculares e religiosas) e, do outro, por forças com legitimidade eleitoral, porém com pendores iliberais como a Irmandade Muçulmana.
Na Líbia, compromissos inclusive com forças extremistas serão necessários e problemas espinhosos existem, como a persistência de milícias armadas e divisões regionais e tribais, mas até agora o país desafia os prognósticos mais sombrios. Tem petróleo como o Iraque, mas não as mesmas divisões sectárias.
Bobagem qualquer celebração, mas tampouco um obituário desta Líbia pós-Kadafi (alguém ainda com saudades, precisando esbravejar que tudo piorou?). Em termos mais amplos, o cenário no Oriente Médio é fluido e incerto. Em países bem mais importantes do que a Líbia, como Egito e Síria, é dia atrás de dia de marchas e contramarchas.
Já que tantos teimam nas metáforas sobre esta primavera árabe se convertendo no inverno árabe (e o que existia antes das rebeliões?), vamos rebater que nestas transições existem todas as estações ao mesmo tempo.
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Colher de chá para Paulo Boccato e Ricardo Platero, pelas posições opostas.



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