Blogs e Colunistas

Arquivo de 10 de julho de 2012

A Líbia e as estações políticas no mundo árabe

As tintas eleitorais e as tonalidades democráticas

Não vamos fazer muito onda sobre os resultados (ainda preliminares) das eleições parlamentares na Líbia, mas eles são uma brisa acolhedora na Primavera Árabe. Antes de tudo, foi a vitória do processo (perdão por este jargão): a eleição aconteceu, foi bem menos violenta do que se temia e teve comparecimento acima das expectativas (até em bastiões da ex-ditadura Kadafi). Para os padrões de transição na região, é um bom desfecho. Foi a vitória do pragmatismo sobre a ideologia religiosa.

A opção preferencial dos líbios (um país onde os partidos estavam banidos mesmo antes da ascensão do poder do ditador Kadafi em 1969) foi para para a Aliança das Forças Nacionais do ex-primeiro ministro interino Mahmoud Jibril e não para os grupos islamistas ou abertamente jihadistas. A aliança vencedora é liberal, embora o próprio Jibril não assuma o rótulo fácil,  para os padrões dos grupos que emergiram na Primavera Árabe e sua vitória contrasta com o triunfo eleitoral da Irmandade Muçulmana na Tunísia e Egito.

Jibril, educado nos EUA (como o presidente egípcio, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana), é um favorito das forças ocidentais que se envolveram na rebelião líbia no ano passado. Foi aquele que confrontou os islamistas dizendo: quem são eles para decidir quem é mais muçulmano? Claro que a identidade muçulmana está enraizada no mundo árabe, e vai florescer nesta Primavera Árabe, mas a proposta de Jibril é de um governo de coalizão, funcional, estável, que atraia capital estrangeiro e que faça o melhor uso possível da riqueza petrolífera.

Nada fácil se movimentar neste espaço exíguo num cenário ocupado de um lado por ditaduras amalucadas, ossificadas e sanguinárias (nas versões seculares e religiosas) e, do outro, por forças com legitimidade eleitoral, porém com pendores iliberais como a Irmandade Muçulmana.

Na Líbia, compromissos inclusive com forças extremistas serão necessários e problemas espinhosos existem, como a persistência de milícias armadas e divisões regionais e tribais, mas até agora o país desafia os prognósticos mais sombrios. Tem petróleo como o Iraque, mas não as mesmas divisões sectárias.

Bobagem qualquer celebração, mas tampouco um obituário desta Líbia pós-Kadafi (alguém ainda com saudades, precisando esbravejar que tudo piorou?). Em termos mais amplos, o cenário no Oriente Médio é fluido e incerto. Em países bem mais importantes do que a Líbia, como Egito e Síria, é dia atrás de dia de marchas e contramarchas.

Já que tantos teimam nas metáforas sobre esta primavera árabe se convertendo no inverno árabe (e o que existia antes das rebeliões?), vamos rebater que nestas transições existem todas as estações ao mesmo tempo.

***
Colher de chá para Paulo Boccato e Ricardo Platero, pelas posições opostas. 

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados