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Arquivo de 5 de março de 2012

05/03/2012

às 6:00 \ Putin, Rússia

O butim de Putin

Que seja o último voto de Putin em Putin – Foto EFE

Putin rima com democracia de festim, rima com butim. O homem forte que voltará à presidência russa sem nunca ter deixado o poder pratica uma pilhagem das esperanças de renovação, com sua vitória no primeiro turno das eleições no domingo. Putin preside um sistema personalizado, não apenas corrupto, mas cada vez mais anacrônico. É inconcebível que o projeto Putin sobreviva a longo prazo (a idéia é na sequência mais um mandato de seis anos). Se isto se concretizar, Putin ficará no poder até 2024, em um padrão stalinista de tempo de serviço. Está bem, não vou exagerar na rima de Putin com Stálin.

O triunfo eleitoral, sob redobradas denúncias de fraudes e obstáculos para a participação de candidatos oposicionistas, mascara um sistema exaurido. Talvez não haja benefício imediato para uma oposição exasperada que tem muitas palavras de ordem, mas pouco ordem para se organizar. Também não é fácil no regime de semiditadura russa exercer uma plena oposição. E de pensar que o segundo colocado nas eleições foi o veterano líder comunista Gennady A. Zyuganov, um perdedor crônico nesta imitação de democracia na Rússia.
Existem estes protestos impulsionados com a fraude nas eleições parlamentares de dezembro passado e uma manifestação está programada para a noite desta segunda-feira, mas claro que esta mobilização ainda é incipiente, embora seja suficiente para mexer com os nervos do sistema. O apoio a Putin murchou depois da fraude de dezembro, mas aí ele deu uma regada populista com promessas de aumentos salariais para funcionários públicos e incrementou os gastos militares.
Sistemas como este presidido por Putin conseguem legitimidade através da expansão econômica, do nacionalismo estridente e do culto a personalidade. O resto é garantido por intimidação, repressão e algumas válvulas de escape para a atuação da oposição. Este tipo de sistema não tem a legitimidade enraizada em instituições democráticas. A oposição ainda não oferece uma convicta alternativa a este sistema exaurido, mas cada vez mais russos querem instituições democráticas e transparentes, em que o poder possa trocar de mãos, em que o poder vigente não enfie a mão para roubar dinheiro ou votos e que a oposição não seja tratada a pontapés ou pancadas bem mais severas.
De novo, o triunfo de Putin não esconde crescente desencanto com o líder russo e o desgaste de um contrato social entre o povo e o regime: passividade política em troca de crescente prosperidade. Não há mais a conveniente passividade e existe o fato inconveniente de que nesta segunda fase do Putin na presidência será impossível garantir a mesma prosperidade alavancada pelas receitas de gás e petróleo.
Ironicamente, as receitas que reforçaram a autoridade do estado (o putinismo), também foram o fator do amadurecimento político de uma classe média urbana e mais educada, agora mais inquieta. O futuro da Rússia não foi decidido com a democracia de festim que consagrou Putin no domingo. Isto vai acontecer mais adiante com esta classe média mais assertiva e suas demandas pelo fim do sistema. Putin agora será menos convincente com seu argumento de estabilidade acima de tudo.
Um segmento expressivo da população já tem suficiente segurança material para não tanta reclamar de barriga cheia, mas para exigir uma voz cívica. Como o autocrático Putin irá reagir a estas reinvindicações por mais abertura e clima competitivo, sem reprimir ou apelar para a lenga-lenga de que se trata de uma conspiração externa para desestabilizar o seu regime?
Putin está de novo na na presidência, mas esta não é a velha Rússia. O  homem forte assumirá em maio em uma posição mais fraca do que quando deixou o cargo em 2008 para o afilhado Dmitry Medvedev. Hora de começar a campanha contra a reeleição de Putin em 2018.
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Colher de chá para o Henrique (dia 5, 11:23), leitor bem informado, bem lido e que costuma dar boas dicas de textos relacionados com minha coluna do dia.

 

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