Blogs e Colunistas

Arquivo de março de 2012

30/03/2012

às 6:00 \ Mianmar, Uncategorized

Curtas & Finas (Primavera Asiática)

A tigresa da democracia Aung San Suu Kyi

Neste domingo, 1 de abril, tem eleição em Mianmar, o remoto e sofrido país asiático. É preciso acreditar que não será de mentira. A frágil tigresa da resistência democrática, Aung San Suu Kyi, uma favorita desta coluna, faz uma aposta que o voto será de verdade. Existe uma supreendente mudança no país, um exemplo de “primavera asiática”. Uma truculenta junta militar ficou mais civilizada e resolveu patrocinar uma abertura, algo no ritmo Ernesto Geisel de distensão lenta e gradual. Com a necessária cautela, Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz e sempre comparada a Nelson Mandela, é fiadora deste processo.

Neste domingo, estarão em jogo apenas 48 das 650 cadeiras do Parlamento até agora fantoche. Suu Kyi concorre a uma delas por seu partido, a Liga Nacional pela Democracia, que projeta ganhar 2/3 das cadeiras em disputa. Países ocidentais acompanham com atenção e caso concluam que teve lugar uma votação livre e limpa, devem começar a suspender sanções contra Mianmar. (atualização: esta coluna tão subjetiva dá os parabéns para o anúncio não oficial da eleição de Suu Kyi para deputada, por uma margem esmagadora, como se previa)

A abordagem mais flexível de Suu Kyi contribuiu para que ela costurasse coalizões com bolsões reformistas dentro deste regime brutal e corrupto, íntimo da ditadura chinesa, que está no poder desde 1962. O atual presidente, Thein Sein, hoje fardado de paletó e gravata, é o promotor destas mudanças que incluem medidas contra corrupção, reformas econômicas e libertação de presos políticos. A própria Suu Kyi teve revogada a prisão domiciliar. Há duas décadas, ela fez uma aposta em reformas e perdeu. A junta militar não reconheceu uma estrondosa vitória eleitoral do seu partido, não permitiu que assumisse o poder e empreendeu uma bárbara repressão.

Como nos tempos da abertura política brasileira, existem bolsões radicais nos meios militares de Mianmar. Um golpe nunca pode ser descartado para reverter os avanços, assim como impaciência na oposição com o cauteloso ritmo de Suu Kyi. Esta distensão política é precária e personalizada. É ilustrativo que os dois fiadores, Suu Kyi e o presidente Thein Sein, estejam em um frágil estado de saúde. Suu Kyi, 66 anos, não tem óbvios herdeiros políticos, ela que é uma figura icônica, filha do herói da independência nacional. Se o processo avançar, uma etapa posterior será Suu Kyi conquistar a presidência em eleições programadas para 2015. Até lá será necessária sua transformação de ícone dissidente em líder política com a mão na massa e propostas concretas. Antes, é claro, será o teste da verdade das reformas democráticas neste 1 de abril.

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Conversa desgalhou um pouco, mas colher de chá para Amauri e Maisvalia pelos comentários desta sexta-feira sobre democracia.

29/03/2012

às 6:00 \ Corte Suprema

Curtas & Finas (Presidentes & Supremos)

Os presidentes Roberts e Bush - Foto Andrew Councill/AFP

Qualquer decisão da Corte Suprema dos EUA sobre a constitucionalidade da lei de saúde do governo Obama, provavelmente no final de junho,  vai mobilizar democratas e republicanos ou, se preferirem,  liberais e conservadores. Vai esquentar ainda mais a temporada eleitoral. Será uma decisão histórica do tribunal, basicamente sobre a relação do estado com os cidadãos. E haverá muito mobilização, entre outras, coisas, pela lição óbvia da importância suprema do tribunal na vida nacional.  Com quase certeza, podemos dizer que o próximo presidente (de novo o democrata Barack Obama ou o seu oponente republicano) vai indicar pelo menos um juiz para a Corte Suprema,  voto em decisões que influenciarão a vida da nação por gerações ou para sempre.

O perfil da corte suprema hoje é mais conservador e em 2005 o então presidente republicano George W. Bush deu um golpe de mestre ao indicar um novo juiz para presidir a Corte Suprema. John Roberts fora inicialmente indicado para a vaga aberta com a aposentadoria da juíza Sandra Day O’Connor, mas Bush agilizou a promoção com a morte do presidente do tribunal, William Rehnquist, quando Roberts ainda não tivera o seu nome confirmado pelo Senado. Por que um golpe de mestre? Roberts é um garotão. Tem apenas 57 anos. Poderá presidir a corte por décadas. O cargo é vitalício (e um debate envolve limite de tempo para a permanência na função e aposentadoria compulsoria por idade). Aliás, sempre existe um interesse mórbido em relação aos integrantes da corte. E o foco agora é na juíza liberal Ruth Ginsburg. Ela é a vovó do tribunal, com 81 anos (está no cargo desde 1993). A caçula, indicada por Obama, é Elena Kagan, 51 anos e no cargo desde 2010.

Será um agonia para os democratas e para Ruth Ginsburg, com sua saúde combalida, se um republicano ocupar a Casa Branca com uma vitória na eleição de novembro. E, pior ainda, se os republicanos conquistarem o Senado. Dá para entender melhor agora um dos motivos para se mobilizar em novembro?

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Pessoal, colher de chá para mim mesmo, o supremo (hehehe), quebrando a cabeça com desafios técnicos aqui na coluna. Peço desculpas pela falta de interavidade nesta quinta-feira.

O regime podre de Assad e a doutrina da cebola

Kofi Annan e Bashar Assad em Damasco - Foto Reuters

Alarmes falsos (e eu já soei tantos) sobre a iminência do fim da ditadura de Bashar Assad e também sobre planos de paz quando a rebelião supera um ano (e a marca de nove mil mortos). Agora, é o anúncio do enviado especial das Nações Unidas, o seu ex-secretário-geral, Kofi Annan, de que Assad aceitou seu plano baseado em cessar-fogo, retiradas das falanges governistas dos centros urbanos, agilidade para ajuda humanitária, libertação de presos, diálogo e direito ao protesto pacífico (na visão do regime, este último ponto deve ser o direito de protestar contra a oposição).

Como sempre duro é duro acreditar na implementação de um plano de paz na Sïria de Assad (pai ou filho). O novo plano sequer estipula um prazo. Natural que as tropas de Assad prossigam na sua política de arrasa-cidade (com uma escalada que chegou à zona fronteiriça com o Líbano). Natural que o anúncio de Annan tenha sido recebido com ceticismo pela oposição e diplomatas ocidentais, pois a prática de Assad é ganhar tempo, discutindo modalidades de um plano de paz, enquanto tenta esmagar a rebelião. No roteiro habitual, depois basta repudiar o plano diante de falta de cooperação da oposição, que, de fato, é confusa e desarticulada, unindo-se para desconfiar da sinceridade do ditador.

Neste impasse em que a repressão não acaba com a rebelião e a rebelião não acaba com o regime, as coisas melhoraram para Assad de algumas semanas para cá (faz semanas que eu não falo de sua queda iminente).  Como diz Marc Lynch, professor da George Washington University, em Washington, “Assad está claramente ganhando em termos militares, mas estes ganhos são vitórias táticas vazias. Em termos mais amplos, ele está perdendo controle, perdendo legitimidade”. Em entrevista à BBC, a comissária de direitos  humanos da ONU, Navi Pillay, disse que o dirigente pode ser indiciado por crimes contra a humanidade, por responsabilidade em atos como tortura de crianças. Claro que Assad está isolado (por exemplo, a Síria está suspensa da Liga Árabe, reunida nesta quarta-feira em Bagdá) e sofre crescentes sanções, embora conte com o respaldo de Rússia, China e Irã. Existem também os vexames com o vazamento de e-mails privados do casal Assad, confirmando venalidade e futilidade no despotismo moderno da era de iTunes.

Mas o tom essencial é que Bashar sobrevive e, para expressar desafio, na terça-feira ele visitou Homs, cidade que por algumas semanas foi um símbolo da resistência ao regime. Ademais, existe esta amarga constatação de que sua remoção do poder (como exigem países ocidentais e árabes) foi removida deste plano de paz. Ficou mais fácil para russos e chineses abençoarem o plano de Kofi Annan, pois ele carece do conceito maldito de “mudança de regime”. É inimaginável, porém, uma solução a longo prazo na Síria que permita a permanência de Assad (ou de algum fantoche) no poder. O regime precisa mudar.

Para constatar o óbvio, cada caso é um caso na primavera árabe (e a estação está de volta na região). Demonstrações em massa no Egito, em particular na praça Tahrir, no Cairo, e o abandono do apoio militar a Hosni Mubarak levaram ao colapso o regime. Na Líbia, a brutal repressão do regime Kadafi radicalizou a oposição, que conseguiu se unir na guerra civil e só ganhou graças à intervenção militar estrangeira. No Iêmen, o ditador Ali Abdullah Saleh participou da transição, mas este país lá nos confins das Arábias não serve de modelo para nada.

Na Síria, existem manifestações populares contra o regime, mas não na escala egípcia. Além disso, Assad tem blocos de sustentação popular (entre alauítas, cristãos e também sunitas). O núcleo duro no aparato militar e de segurança não desintegrou e Assad não é um completo pária internacional, como Kadafi. Seus aliados internacionais estão aí para manter o status quo enquanto der. A oposição que mistura desolação com triunfalismo ainda acredita que o apoio ao regime irá descascar (na doutrina da cebola), com o abandono, camada após camada, de oficiais militares, empresários, funcionários do governo, do partido Baath e já ocorreu uma “deserção mental” da população mesmo nas duas grandes cidades, Damasco e Aleppo, onde nunca ocorreram protestos de grande magnitude.

Infelizmente, eu preciso concordar com o presidente russo Dmitry Medvedev de que a alternativa a este plano de paz de Annan é uma guerra civil sangrenta e prolongada, de ramificações sectárias e na qual haverá um incremento do jogo competitivo envolvendo atores regionais (e não só regionais, é claro). Mas a plena aceitação do plano de paz por Assad é conversa mole. Sua premissa é a de que os grupos de oposição deponham as armas (e não o regime) e como Assad irá aceitar manifestações pacíficas, ao estilo da praça Tahrir? Annan, por outro lado, foi costurando seu plano de paz, enquanto EUA e Turquia confirmavam o fornecimento de ajuda “não letal” à oposição síria.

O mais provável adiante é mesmo uma guerra civil. Eu espero que não seja prolongada, de alta intensidade e com crescente envolvimento de extremistas islâmicos (algo que alimentaria a narrativa de Assad). Bom mesmo seria o sucesso da doutrina da cebola, com as camadas de sustentação do regime sendo descascadas, até que ele caia de podre. Mas basta de alarmes falsos.

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Colher de chá para o Henrique por seus comentários (dia 28, 11:13 e 13:39) por lembrar a coisa boa que seria o regime Assad cair, apesar das ramificações incertas. E outra para a Vania (dia 28, 14:45), pelo depoimento pessoal e político.

27/03/2012

às 6:00 \ Cristãos, Cuba, Direitos Humanos, Papa

Curtas & Finas (Papa & Castro)

O papa e Raúl em Santiago de Cuba- Foto Desdmond Boylan/Reuters

Claro que o papa Bento 16 detesta o comunismo, mas lá está o sumo pontíficie na ilha governada por aqueles irmãos Castro, educados em colégio de jesuítas. Tal visita é um dilema e muita gente, que também detesta o comunismo tropical da dupla Castro, não abençoa esta visita. É verdade que João Paulo Segundo, o bravo papa polonês que encarou de frente a abominação comunista na Europa Oriental e visitou sua terra natal em 1979 já como sumo pontíficie, também esteve na ilha  caribenha (1998).

Fidel,  que então governava, não se curvou às pressões por mais liberdade. Raúl agora no comando, mais pragmático e mais pressionado pela realidade, tem até se apoiado discretamente na Igreja para aliviar a carga sobre o estado combalido. As Ongs ligadas à Igreja católica são cada vez mais importantes em um país que precisa enxugar a anacrônica máquina assistencialista estatal. Por esta razão, o dilema cresce. A Igreja tem mais influência hoje do que nos anos 90, inclusive ao incentivar reformas econômicas (também é contrária ao embargo econômico americano).

O interlocutor local do ditador é o cardeal Jaime Ortega, que assume um papel cauteloso e pragmático nas relações com o estado comunista. Dentro da própria Igreja, além é claro no movimento dissidente mais amplo, existem vozes mais assumidas e críticas do papel institucional. Estas vozes pregam uma oposição mais aberta ao regime. Algumas destas vozes, inclusive entre líderes anticastristas na Flórida, acusam a hierarquia católica com um termo que é uma mácula: colaboracionismo.

De um lado, o pragmatismo do cardeal Ortega traz dividendos. A Igreja se converte em um ator importante, mas, de outro, ela oferece ganhos políticos ao regime. O regime de Havana acaba recebendo um sopro de legitimidade e assim pode resistir a mudanças mais abrangentes, embora empreendendo algumas reformas, especialmente na economia. Em contrapartida, o regime do partido único acaba tendo um parceiro e precisa ouvir alguns sermões sobre suas transgressões. Há um outro dilema. Uma resistência linha-dura poderá levar o regime a recuar de medidas de liberalização (inclusive religiosas) e radicalizar a oposição, quem sabe até no caminho da violência.

O papa encarna os dilemas. Antes de chegar à ilha, ele disse que a estrutura marxista em Cuba “não corresponde à realidade” e pediu a adoção de “um novo modelo”. Mas assim que desembarcou, Bento 16 reconheceu os esforços deste anacrônico regime para “se renovar e ampliar seus horizontes”.  A peregrinação papal em Cuba é tortuosa. Ossos do ofício do pastor da reconciliação.

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Colher de chá para o Benedito (dia 27, 11:32) pelo comentário provocativo (mais longo do que minha própria coluna), que trata sem piedade o regime cubano e o Vaticano.

A saúde de Obama e a justiça americana

Maioria conservadora na Corte Suprema, mas... Foto Getty

Para quem está cansado de acompanhar a maratona das primárias presidenciais americanas, existe uma opção a partir desta segunda-feira. São três dias de extenuantes apresentações de argumentos orais na Corte Suprema, em Washington, sobre a lei de reforma de saúde do governo Obama, aprovada há dois anos por uma margem estreita no Congresso. Serão seis horas de argumentos, a favor e contra. Desde 1966, a Corte Suprema não dedicava tanto tempo a um tema individual. E, ilustríssimos leitores e leitoras, vou tratar do tema com a merecida aridez. Fiquem despertos!

A decisão dos nove juízes será em junho, quando -esta é a suposição- os republicanos já terão seu candidato presidencial e assim os desdobramentos da decisão judicial serão cruciais na campanha para as eleições de novembro. Em uma situação extrema, a suprema vitória legislativa de Barack Obama poderá resultar na sua derrota eleitoral (o triunfo no Congreso em março de 2010 já foi fugaz, pois contribuiu para os democratas perderem o controle da Câmara nas eleições de novembro daquele ano). A politização do tema é inevitável e a decisão será histórica, pois irá além da eleição, na medida em que envolve questões como o modelo de relação entre o estado e os cidadãos, a alocação de poder entre o governo federal e os estados e a autoridade do Congresso para lidar com os problemas nacionais.

Não estão em julgamento aspectos da reforma de saúde como a eficiência de serviços ou os custos econômicos, mas sua constitucionalidade. Em termos essenciais, os três dias de audiência vão examinar o desafio legal ao mandato individual da lei de 2010, que força quase todos os consumidores a terem seguro de saúde através de planos privados ou programas públicos (haverá subsídios para quem não puder pagar). Num país com seu DNA individualista, um argumento visceral do desafio é que este mandato universal é uma ameaça à própria liberdade individual. Revogar a reforma de saúde se converteu em uma cruzada conservadora.

Em termos técnicos, o desafio, que tem como ponta- de-lança duas dúzias de procuradores-gerais de vários estados governados pelos republicanos, argumenta que o governo federal excedeu de sua autoridade sob a cláusula de comércio interestadual da Constituição, ao exigir que os cidadãos comprem um produto, o seguro de saúde. Esta cláusula permite que o governo federal regule atividades que afetam atividades comerciais nacionais. Para os oponentes, não comprar um seguro de saúde é uma “inatividade’ e não uma “atividade”. Nas inevitáveis hipérboles, o argumento vai ao ponto de alertar que próximos passos serão o governo decidir quantas vezes um cidadão poderá ir ao médico por ano ou que deve comer brócolis para se manter saudável (esta verdura é sempre campeã de escárnio, uma injustiça, pois eu gosto dela).

Já os defensores lembram que o argumento funciona ao contrário. Se a Corte Suprema derrubar o mandato universal na saúde, poderá abrir um precedente, por exemplo, contra o seguro obrigatório de carro. Em termos mais básicos, os defensores dizem que não há como argumentar que o sistema de saúde nos EUA não seja um comércio interestadual.  Nos últimos 75 anos, a Corte Suprema expressou deferência à autoridade do Congresso na esfera sócio-econômica. Os defensores também argumentam que não há como diferenciar ação de inação. Decidir não ter um seguro de saúde é uma ação financeira ou, por exemplo, a inação de não pagar impostos é sujeita à regulamentação governamental e penalidades.

A Casa Branca se diz confiante na vitória judicial e não tem um plano alternativo (numa pesquisa do equivalente americano da OAB, 75% dos especialistas em Corte Suprema disseram acreditar que a maioria dos juizes irá concluir que a obrigatoriedade do seguro médico é constitucional). Ironicamente, nestes últimos dois anos, o governo fracassou na tarefa de “vender” a reforma de saúde para a opinião pública e o tema impulsionou o Tea Party, além de ter se tornado cavalo-de-batalha para os republicanos e munição para os adversários do favorito nas primárias, Mitt Romney, que, quando era governador de Massachusetts, implantou um programa estadual com mandato individual.

Os democratas não se cansam de lembrar que o Romneycare (a assistência Romney) inspirou o Obamacare, assim como propostas da conservadora Fundação Heritage, delineadas para trazer mais eficiência e menos custos para um sistema de saúde que consome quase 20% do PIB americano. Romney hoje insiste que seu objetivo é revogar o ObamaCare.

Existem um foguetório de lobies e mobilização popular em torno desta audiência na Corte Suprema. Para dizer o mínimo, a opinião pública está polarizada (com republicanos esmagadoramente contra a reforma da saúde nos moldes aprovados e democratas, a favor). Existem, porém nuances, com apoio a alguns componentes, caso da proibição para seguradoras descartarem pessoas com condições médicas pré-existentes, e rejeição a outros, caso do mandato individual.

A corte presidida pelo juiz John Roberts é conservadora (com frequentes votações de 5 x 4), Mas isto não significa que seja fácil prever como ela irá se comportar neste caso. Alguns dos juízes conservadores já defenderam a cláusula de comércio interestadual em decisões similares, embora não desta magnitude. Os juízes podem tanto ratificar a lei, rechaçá-la, acolher parte dela ou decidir que é cedo tomar uma decisão na medida em que a reforma da saúde apenas será plenamente implementada em 2014.

A expectativa é de que os juízes não atuem de forma partidária em uma decisão histórica no calor da campanha eleitoral e tendo como pano de fundo a decisão na Corte Suprema no ano 2000 que assegurou a vitória do republicano George W. Bush contra o democrata Al Gore, após uma controvertida recontagem de votos.

Melhor acreditar na isenção da Corte Suprema. Afinal, a independência do Judiciário é fiadora da saúde da democracia americana.

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Colher de chá matinal para o Rodolfo (dia 26, 9:54) e uma vespertina para o Pablo (dia 26, 14:06), pelos argumentos opostos apresentados aqui diante do Supremo (eu, hehehe). E mais uma para J.R. (dia 26, 14:59), pelo depoimento pessoal.

Curtas & Finas (Pobre Mali)

Amotinados em Mali - Foto AFP

No mês passado, este colunista tão idealista contou uma história edificante: O Mali, país de vasta maioria islâmica e um dos mais miseráveis do mundo (embora seja o terceiro maior produtor de ouro na África), ao menos, era uma democracia estável há duas décadas. E as eleições no mês que vem poderiam emplacar o primeiro mórmon na presidência de um país no mundo. Se eleito, Yeah Samaké ganharia a parada do republicano americano Mitt Romney (isto, é claro, se ele derrotar o democrata Barack Obama em novembro).

Mas hora de improvisar o roteiro. Temos más noticias sobre o Mali. Militares se amotinaram esta semana contra o governo de Amadou Toumani Touré, aliado dos EUA e da França, a ex-metrópole colonial.  Maior confusão no pobre Mali. O próprio presidente Touré fora um comandante militar que dera um golpe, mas supervisionou a transição para a democracia e se dispôs a cumprir as regras do jogo. Naquele roteiro bem familiar, os amotinados de agora prometem restaurar a ordem democrática, assim que der.  A fúria estava se avolumando desde janeiro na tropa quando uma rebelião de integrantes do grupo étnico tuaregue se disseminou por cidades no norte do Mali.

A rebelião resultou em mais de 200 mil refugiados e foi fortalecida pelo retorno de mercenários tuaregues que estavam na folha de pagamentos do ex-ditador líbio Muamar Kadafi (ganhavam dez mil dólares para topar o trabalho e mil por dia de serviço para o tirano morto e linchado em outubro passado). Os amotinados reclamavam há meses de falta de equipamentos e mesmo comida, acusando o governo de incompetente. Enfrentam insurgentes mais treinados e com armamento mais sofisticado que trouxeram da Líbia. Mais um motivo para lamentar as assombrações de Kadafi.

Ainda torço por estas eleições democráticas em Mali. Imagino que Mitt Romney esteja muito ocupado para se concentrar na crise naquelas bandas distantes, mas ela terá implicações históricas para ele. Repetindo o ponto, se as coisas não se normalizarem no país africano, Romney tem chances de ser o primeiro presidente mórmon no mundo. Só falta combinar com os eleitores americanos, que talvez não se amotinem (nas urnas) contra o status quo.

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Pessoal, a colher de chá vai mesmo para o pobre do Yeah Samaké.

22/03/2012

às 6:00 \ Eleições francesas, França, Nicolas Sarkozy

Curtas & Finas (Sarkozy & La Patrie)

Sarkozy no enterro do paraquedista- Foto AFP

C’est la vie. Nicolas Sarkozy é presidente-candidato em uma hora dramática. Uma crise como esta da chacina (das chacinas) em Toulouse coloca o inquilino do Palácio do Eliseu em campanha de reeleição intensamente no centro dos acontecimentos, ofuscando os demais candidatos. Sarkozy, o chefe da pátria, se enrola na bandeira em nome da união nacional. É o seu papel. Em um momento de extrema violência, de extrema comoção, como agora, o poder de plantão tem uma legitimidade acima da conta. Aconteceu com George W. Bush, depois dos atentados do 11 de setembro, aconteceu com Bill Clinton depois do atentado em Oklahoma City.

Claro que Sarkozy já desfraldou vária vezes a bandeira da demagogia contra imigrantes e muçulmanos, inclusive até dias atrás, para se resguardar dos avanços da extrema-direita e sua porta-bandeira Marine Le Pen (em terceiro lugar nas pesquisas, bem atrás de Sarkozy e do ainda favorito, o socialista François Hollande). Mas o incendiário Sarkozy agora se comporta como bombeiro e baixa a temperatura política. Comporta-se com dignidade. É o líder da nação. Hollande não tem como ocupar este espaço. Ele é apenas o líder da oposição, pretendente ao cargo de Sarkozy.

Já a moderna líder da extrema direita não se conteve, no seu papelão. Marine não consegue tirar o Le Pen da pele dela (filha daquele pére meio fascistão). Foi a primeira a romper a trégua na campanha eleitoral para denunciar que a ameaça dos fundamentalistas islâmicos está sendo subestimada. Está bem, debate legítimo sobre terrorismo doméstico, embora explosivo (menos de complacência, como ela acusa, e mais de incompetência das forças de seguranças nas chacinas de Toulouse), mas Marine estava quieta naquelas horas em que a especulação mais forte apontava para um neonazista como o responsável pela morte de quatro judeus e de três paraquedistas norte-africanos. Agora ela fala que é preciso “travar guerra” contra o fundamentalismo islâmico, enquanto Sarkozy recebe líderes muçulmanos e judeus no Eliseu.

Sarkozy precisa no segundo turno (6 de maio) dos votos de Marine Pen no primeiro (22 de abril). O desafo é garanti-los enquanto permanece postado no centro, como porta-bandeira da união nacional. Mas a dinâmica é ainda mais tortuosa. O candidato Sarkozy é o presidente que se protege com a bandeira, mas e se prevalecer junto à opinião pública a noção de fiasco da polícia, que sabia do fundamentalista islâmico, o francês de origem argelina Mohammed Merah, e não impediu o terceiro ataque (contra a escola judaica) depois dos dois primeiros contra os paraquedistas? E existe o pesadelo espanhol para Sarkozy. Em 2004, o primeiro-ministro conservador José Maria Aznar acusou primeiramente terroristas bascos pelos atentados aos trens praticados por terroristas islâmicos. Também foi vítima do terror. Dias depois, ele perdeu as eleições para os socialistas.

Sarkozy, ex-ministro do Interior que se movimenta bem em crises de segurança,  é um político muito habilidoso, mas o jogo da  bandeira é perigoso.

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Colher de chá bem matinal para os leitores Maisvalia (dia 22, 7:49) e Antonio (dia 22, 9:20), que apontaram um trecho realmente mal escrito nesta coluna, comparando a França de hoje com a Espanha de 2004. Primeiro pensei em remover o texto, mas como sou transparente, vou deixar.

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Pessoal, talvez eu leve algumas horas para começar a liberar comentários nesta sexta-feira por problemas logísticos. Mas escrevam, é claro.  

21/03/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, EUA, Irã, Israel

A liga dos “atacólogos” aposta, ora, no ataque ao Irã

Os "war games" de Netanyahu e Obama - Foto Getty

Adivinhar quando vai terminar, terminar, terminar a corrida das primárias republicanas é um dos esportes da temporada. Um outro é se e quando terá lugar o ataque israelense às instalações nucleares iranianas. Existe uma espécie de liga dos “atacólogos”. São repórteres com bom acesso ao círculo decisório israelense. Um deles é Jeffrey Goldberg, da revista Atlantic e que também tem uma coluna no site da Bloomberg. Ele se juntou com mais ênfase ao time que acredita ser muito provável um ataque neste ano.

Goldberg escreveu na Bloomberg que, “após entrevistar muita gente com conhecimento direito do pensamento interno do governo israelense, eu estou altamente confiante que Netanyahu não está blefando e, de fato, ele está na contagem regressiva para autorizar um ataque contra meia dúzia ou mais de instalações nucleares iranianas”. Um tom semelhante foi registrado no imenso artigo de janeiro de Ronen Bergman (que trabalha no jornal israelense Yedioth Ahronoth), publicado na revista do New York Times. Mesma coisa com Aluf Benn, editor-chefe do também diário israelense Haaretz, com o argumento de que Netanyahu já prepara a opinião pública do seu país para um ataque.

Em meio a este senso de inevitabilidade (termo que Mitt Romney voltou a arrebatar de forma ainda mais convincente ao vencer com folga as primárias de terça-feira no estado de Illinois), existe a narrativa de que o presidente Barack Obama está desesperado para não ser arrastado para uma guerra sobre este programa nuclear. Obama teria contido Netanyahu, por ora, com seu compromisso de que os EUA não irão permitir de jeito nenhum que os iranianos fabriquem a bomba. Como parte da barganha com os israelenses, Obama precisaria mostrar serviço nos próximos meses com diplomacia e sanções redobradas.

Nesta linha que Israel não está blefando, os “atacólogos” em geral esperam uma ação antes das eleições presidenciais americanas de novembro. Entre as razões: os avanços iranianos no seu programa nuclear e também a percepção de que o presidente Obama dará mais apoio a seu principal aliado na região antes do que depois da eleição. Há também a idéia de que, do ponto de vista israelense, Obama estará amarrado durante a campanha, incapaz de resistir ou condenar uma iniciativa contra os iranianos.

Uma zona de incerteza imensa existe em duas questões cruciais, caso ocorra o ataque: sua capacidade para reverter este programa nuclear e como o Irã responderia. Jeffrey Goldberg escreve que tanto Netanyahu, como o seu ministro da Defesa, Ehud Barak estão relativamente otimistas sobre o estrago que Israel poderia causar ao complexo nuclear iraniano e não se mostram alarmados sobre a magnitude de retaliações. Para Goldberg, algumas autoridades israelenses acreditam que a opção dos líderes iranianos será minimizar o golpe (como a Síria fez em 2007 quando sofreu um ataque `as suas incipientes instalações nucleares) e lançar apenas um punhado de foguetes em Tel Aviv, num gesto simbólico, ao invés de declarar guerra total.

Ademais, de acordo com Goldberg, fontes da segurança em Israel não acreditam que o Irá alvejará navios ou instalações americanas no Oriente Médio, em retaliação, como muitos americanos temem, na medida em que Teerã entende que uma retaliação dos EUA ameaçaria a própria sobrevivência do regime. Claro que existe aqui uma contradição com alegações feitas por Netanyahu de que os dirigentes iranianos integram um “culto apocalíptico e messiânico”, insensíveis a cálculos de autointeresse racional.

Já o New York Times, em reportagem na primeira página na terça feira, toma outra caminho e salienta que war games do Comando Central das Forças Armadas incrementaram a preocupação sobre retaliações iranianas, inclusive ataques com mísseis contra navios e instalações americanas no Golfo Pérsico. Deve-se levar em conta aqui que a liderança iraniana pode fazer erros de cálculo (seja messiânica, seja racional) e existem alguns centros difusos de poder.

Nunca se sabe é claro se o falatório em Teerã é para valer. Terça-feira, na sua mensagem do ano novo iraniano, o líder supremo, o aiatolá Khamenei disse: “Não temos armas nucleares e não vamos construí-las, mas diante da agressão dos inimigos, seja dos Estados Unidos ou do regime sionista, vamos atacar para nos defender no mesmo nível em que os inimigos nos atacarem”.

Golberg é pró-Israel e pró-Obama. Sempre manifestou dúvidas se um ataque é o melhor caminho. No entanto, ele arremata sua coluna, dizendo que, da “perspectiva de Netanyahu, um ataque contra o Irã, mesmo se apenas marginalmente bem-sucedido, compensa o risco e pode ser historicamente inevitável”. Palavra de “atacólogo”.

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Colher de chá ataca com Rodolfo (dia 21, 10:27), por argumentos bem fundamentados contra o ataque. E uma segunda colher de chá para o J.R. (dia 21, 13:15), por seu contra-ataque.

20/03/2012

às 6:00 \ Eleições francesas

Curtas & Finas (Dementes na França)

Mélenchon e Le Pen jogando pelas pontas- Fotos AFP

Nas primárias americanas, eleitores da base impõem o ritmo, jogando nas pontas. Como agora são disputas republicanas, o jogo é na ponta direita, o que deixa atarantados os Romneys da vida. Na França, o jogo mais pelas pontas em geral acontece no primeiro turno de eleições presidenciais. Uma história dos últimos dias, ofuscada é claro pela chacina na escola judaica de Toulouse na segunda-feira, que levou à suspensão da campanha,  é o avanço nas pesquisas do presidente conservador Nicolas Sarkozy, em busca de reeleição.

Por algumas pesquisas, Sarkozy até derrotaria o socialista François Hollande no primeiro turno em 22 de abril (não no segundo, em 6 de maio). Mas outra história é o avanço de Jean-Luc Mélenchon, o carismático e incendiário candidato da extrema-esquerda, falando em “insurreição cívica” (todo apoio aos gregos, nenhum apoio às políticas de austeridade em curso na Europa). Mélanchon considera Hollande uma espécie de suflê político. Ex-trotskista e ex-socialista (foi senador e ministro pelo partido), Mélanchon agora està à frente de uma coalizão de grupos esquerdistas, inclusive o velho partidão comunista.

Malandrão, Sarkozy elogia o discurso apimentado de Mélanchon em contraste à falta de sal no suflê Hollande. O apimentado já superou a marca de 10% nas pesquisas no primeiro turno, o que forçou Hollande a ter um cardápio mais de esquerda, como a proposta de um imposto de renda de 75% para os milionários. Sarkozy também cozinha mais para a direita, com uma retórica anti-imigrante mais picante,  devido à ameaça da candidata da extrema-direita Marine Le Pen, com 17% dos votos no primeiro turno, na pesquisa do Journal du Dimanche. Em quarto lugar na pesquisa ainda está, coitado, o bem-intencionado centrista François Bayrou.

A bronca mesmo de Mélanchon é com Marine Le Pen (os extremistas que se desentendam). Bom de debate na televisão, ele acusou Le Pen de ser semi-demente. Ela protestou contra o insulto e aí Mélanchon replicou que “você ainda tem uma boa metade”. Na verdade, Mélanchon é a outra metade da demência. Conversa louca (a minha) na semana em que um demente por inteiro praticou o assassinato de quatro seres humanos em Tolouse, meramente por serem judeus, entre eles três crianças.

É difícil ainda medir o impacto eleitoral desta chacina em Toulouse, mas será interessante ver como irá afetar Marine Le Pen, que tem o discurso mais xenofóbico e anti-imigrante na campanha, denunciando a “ditadura das minorias”. Em um primeiro momento da tragédia em Toulouse,  a suspeita caiu sobre islamistas, mas as indicações (e falo isto em meio à fluidez dos eventos)  conduzem agora para neonazistas, com a possibilidade de que tenha sido um ataque praticado pelo mesmo ex-paraquedista, que na semana passada matou e feriu soldados de origem árabe e caribenha.

A França está em estado de choque (com judeus, muçulmanos e negros, coisa rara, unidos na dor e no temor de mais ataques), a campanha eleitoral suspensa e o presidente-candidato Sarkozy e o candidato Hollande apareceram na escola judaica. É uma tragédia em meio a uma  campanha que, além da previsível discussão sobre a crise econômica e o futuro de programas sociais, acentua o debate sobre o papel de religião, minorias étnicas e identidade nacional, assuntos capazes de levar qualquer sociedade à loucura. As crianças mortas em Toulouse talvez levem os supostos adultos políticos a baixarem a temperatura,  já neste primeiro turno  da eleição.

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Colher de chá matinal para o Praetor (dia 20, 9:06) pelo conciso apanhado histórico de retórica inflamada na França. E uma rara colher de sopa, na hora do almoço, para o Ricardo (dia 20, 12:16). Leiam para entender o motivo da premiação.

 

 

19/03/2012

às 6:00 \ China, Eleições 2012, Republicanos, Romney

Fantasmas maoístas ainda circulam na China

A entrada de Xi Jinping e a saída de Bo Xilai

Na semana passada, David Pilling escreveu no jornal Financial Times que a eleição na China no final do ano será a mais importante no mundo em 2012 e não a nos EUA, com a disputa entre o democrata Barack Obama e o oponente republicano. O assunto de Pilling não é o declínio americano ou a ascensão chinesa, mas o fato de que a troca de guarda no comando do Partido Comunista na China (Xi Jinping no lugar de Hu Jintao) tem implicações mais importantes do que a reposição (ou manutenção) do inquilino na Casa Branca.  Em uma eleição que obviamente não é democrática, a China terá uma transição que supostamente deve consagrar uma liderança que ficará uma década no poder,  em meio a alertas de que são necessárias mudanças, não apenas econômicas, mas também sociopolíticas.

O plano do partidão é fazer uma transição suave (os chineses adoram o termo “harmonia”), em que o caminho da economia de mercado continue pavimentado pelo bulldozer do partido único (que suavidade!), com algumas reformas, basicamente econômicas ao longo da jornada. Terrível para o partidão perder o controle do processo político, inconcebível que a obra não esteja a cargo de uma cinzenta liderança coletiva.

Nada mais de culto a personalidade maoísta, expurgos e reabilitações. A meta é uma ditadura eficiente e profissional. Mas, surpresa, a orquestração tem desafinações. Eleição chinesa nem se compara ao espetáculo de uma primária eleitoral americana, mas tem suas emoções, especialmente quando revela, como escreve Pilling, que o drama do partido está longe de ser monolítico.

Tudo está aparentemente acertado para a coroação de Xi Jinping como secretário-geral do partidão e, na sequência, como presidente, fruto do acordo entre facções. Mas aí apareceu Bo Xilai no meio do caminho. Como Xi Jinping, Bo Xilai é filho de um herói da revolução comunista de 1949. No jargão do partido, é um príncipe, mas se mostrou um príncipe espalhafatoso demais para estes tempos cinzentos.

Bo Xilai acaba de ser expurgado da chefia de Chongqing, a cidade que mais cresce no mundo. Ele vagamente pode ser rotulado como integrante de uma “nova e velha” esquerda do partidão. Carismático e populista (sempre autoritário, é claro), Bo Xilai inclusive recorreu ao kitsch maoísta de slogans e cantorias (ele está mais para vermelho do que cinzento), em sua campanha de reformas para minorar desigualdades sociais que se agravaram com a abertura econômica (antes a penúria era mais igualitária). Ele também combateu o crime organizado (máfias de prostituição, jogo e negociatas de alguma forma associadas a funcionários do partido), num combate agilizado por métodos extrajudiciais e execuções.

Com seu estilo brusco e popular, Bo Xilai fazia campanha para ganhar uma das nove cadeiras do comitê permanente, a instância máxima do partidão. Ser tão popular já é um pecado, ainda por cima falando diretamente às massas. Quer dizer que a linha oficial ganhou? A linha que tenta abafar as rivalidades e assegurar que a única fonte de legitimidade seja a burocracia em si do partidão? Não necessariamente. O expurgo de Bo Xilai lembra que nada sobre a transição de liderança no final do ano está tão garantido como se estimara.

O establishment ganhou esta rodada dos insurgentes, mas Bo Xilai mostrou que os fantasmas maoístas ainda circulam pelos opacos corredores do poder, ameaçando a própria unidade (de fachada) do partido forjada desde a repressão ao movimento pró-democracia em 1989. O avanço das experiências de Bo Xilai em Chongqing confirma a dificuldade do sistema para conter, tanto experiências liberais mais ao agrado ocidental, como estas aventuras populistas que lembram os delírios ultraesquerdistas dos anos 60 e 70. Bo Xilai se apresentava como uma alternativa, talvez um big brother mais sofisticado, sem a túnica maoísta e os banhos de sangue.

Bo Xilai foi encostado, mas a China comunista tem esta marca registrada de reabilitações. Se o desempenho econômico nos próximos anos tiver um declínio mais acelerado e a instabilidade social se acentuar, talvez haja espaço para líderes carimáticos e autoritários como Bo Xilai, arautos da ação direta das massas, emergirem do ostracismo. Muito complicado e remoto acompanhar esta saga chinesa, né? Em breve, a gente volta a falar novamente das mais familiares primárias republicanas, onde está duro expurgar os concorrentes espalhafatosos de Mitt Romney, o homem cinzento de um dos dois partidões americanos.

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Colher de chá para o sinólogo Waldorf (dia 19, 13:56 e 14:28).

 

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