Blogs e Colunistas

Arquivo de janeiro de 2012

31/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, EUA, Obama, Republicanos

Curtas & Finas (Polarização)

Campeões da polarização - Foto Saul Loeb/AFP

A guerra civil das primárias republicanas (que nesta terça-feira tem batalha crucial na Flórida) é, well, apenas a preliminar do grande choque de novembro. Independentes, no fogo cruzado, podem decidir a parada num campo de batalha que nunca foi tão polarizado. Uma pesquisa Gallup dá a medida das acirradas divisões nacionais. O presidente Barack Obama começa seu terceiro ano de mandato com taxa de aprovação de 80% entre os democratas e apenas de 12% entre os republicanos. Este fosso partidário de 68 pontos é o maior da história quando um presidente inicia seu terceiro ano de governo. A diferença era de 59 pontos, em 2007, no caso do republicano George W. Bush. Uma conclusao óbvia é que Obama não cumpriu a meta de unir o país, uma razão de ser de sua meteórica ascensão política. Missão não cumprida, após ter se engajado na tarefa por ingenuidade, messianismo ou pura marotagem política. Existe uma conclusão mais histórica e mais preocupante. Os números Gallup mostram que parece ser praticamente impossível estreitar o fosso partidário, na medida em que se alarga rapidamente a polarização política no país.  Dos dez anos mais partidários em termos de aprovação do desempenho presidencial, sete foram registrados desde 2004 (governos Bush e Obama). Existe, portanto, esta realidade hiperpartidária. Republicanos repudiam um presidente democrata por princípio e em princípio. E vice-versa. Os Estados Unidos caíram no fosso.

***
Produtivo debate matutino sobre o tema da coluna. Colher de chá para o Ronaldo (dia 31, 10:04) e o Aurélio (dia 31, 10:24).

 

30/01/2012

às 11:18 \ Uncategorized

Curtas & Finas (Comentários II)

Pessoal, atenção!!!

Seção de comentários foi reativada. Boa sorte para os leitores, nem sempre para mim. Abraços, Caio

Governo Dilma e republicanos são anacrônicos sobre Cuba

A lenga-lenga do Raúl - Foto Ismael Francisco/AFP

A presidente Dilma Rousseff está para começar viagem oficial a Cuba  Não deveria fazer esta visita. O porta-voz do Itamaraty Tovar Nunes justifica em burocratês que o objetivo da viagem é “sistematizar o relacionamento econômico” entre Brasil e Cuba e que interesses mútuos não são movidos por solidariedade política. Claro que são. No mundo não dá para ignorar realpolitik ou interesses econômicos. Mas também não dá para ignorar a camaradagem do Brasil com a ditadura cubana.

Como ignorar uma China a caminho de ser superpotência governada pela ditadura comunista? É chato ver como os EUA  “sistematizam” uma relação estratégica com a ditadura saudita, mas é um constrangimento necessário. No caso do Brasil, não só existe solidariedade política em relação a Cuba, mas um orgulho do PT governante com os irmãos (no sentido literal e figurativo) que governam a ilha-presídio. Falta constrangimento.
 A visita da presidente Dilma Rousseff, portanto, é um oxigênio para o regime cubano. Exceto para os cubanos na ilha-presídio, cubanos na Flórida e correligionários continentais, Cuba não tem maior importância. É basicamente uma mancha na consciência mundial. Cuba está lá embaixo na lista global de opressão. Começa a perder o bonde da história até para Mianmar, o país da briosa dissidente Aung San Suu Kyi, que finalmente empreende reformas políticas. A prêmio Nobel da Paz, que passou 15 dos últimos 23 anos em prisão domiciliar, está agora fazendo campanha por uma cadeira no Parlamento. Dá para imaginar quando a dissidente cubana Yoani Sánchez poderá fazer o mesmo?

 Raúl Castro tem um projeto de reformas econômicas e administrativas. Empreende passos cautelosos para Cuba se converter em Vietnã do Norte e não acabar na história como uma Coreia do Norte. O projeto é liberalizar a economia e separar o aparato partidário da gestão governamental, ao estilo norte-vietnamita.. Claro que isto, em nenhuma hipótese, significa afrouxar o monopólio do poder político.

É aquela coisa atroz do artigo 5 da Constituição cubana, que “sistematiza” a ditadura: “O Partido Comunista de Cuba é vanguar­da organizada da nação cubana, é a força dirigente superior da sociedade e do Estado, que orga­niza e orienta os esforços co­muns na direção dos altos fins da construção do socialismo do progresso na direção da sociedade comunista”. Numa reunião do PC no fim de semana, Raúl Castro reiteirou o plano de mandatos limitados para os dirigentes, mas nada de limites para a ditadura, pois fez mais uma ode ao sistema de partido único.

Existe resistência a estas reformas econômicas de Raúl Castro nos bastiões stalinistas do partido e da parte do ”big brother” Fidel. Neste anacronismo, cubanos na ilha estão irmanados a bastiões da comunidade anticastrista na Flórida. Candidatos republicanos à presidência em campanha no estado – devido às primárias desta terça-feira – têm uma linguagem durona na questão cubana. Prometem reviver o embargo total e acusam o presidente democrata Barack Obama de “apaziguamento”" em sua política cubana (também de ser frouxo sobre a Venezuela de Hugo Chávez). Mas esta “frouxidão” em Washington reflete uma suavização da própria comunidade cubana na Flórida.
 A linha dura republicana destoa dos novos tempos. Ironicamente, os republicanos americanos e petistas brasileiros estão irmanados em uma visão atrasada de Cuba. O argumento desta linha dura americana é que suavizar o embargo – medidas como permitir visitas familiares ilimitadas a Cuba e transferência de dinheiro para parentes -  dá sobrevida à ditadura cubana. Mas e o contra-argumento? Meio século de embargo é munição para a lenga-lenga castrista contra o imperialismo ianque (expressão tão surrada como a ditadura de Havana).
 Cubanos da Flórida querem investir em Cuba (tirando proveito de estímulos a pequenos negócios privados e liberalização no mercado imobiliário). Evidentemente, muito mais estará em jogo caso haja descoberta generosa de petróleo na fatia cubana do golfo do México. Aí, gigantes empresariais americanos deverão fazer um lobby da pesada contra o embargo econômico, que para ser derrubado exige aprovação do Congresso. O fim do embargo seria também uma farra para a “nomenklatura” no poder em Havana, abrindo espaço para corrupção ao estilo Rússia pós-comunismo.
 Pesquisas mostram esta suavização das atitudes dos cubano-americanos, como a que foi feita pela empresa Bendixen & Associated, a mais respeitada na radiografia da comunidade hispânica nos EUA. Os cubano-americanos estão divididos sobre o embargo: 41% contra e 40% a favor. Na avaliação da Bendixen, existe uma “evolução do pensamento” na comunidade anticastrista. A divisão de hoje contrasta com o consenso de anos atrás e reflete um conflito de gerações, com os mais jovens da comunidade cubana da Flórida favoráveis a maiores laços com a ilha, ainda uma ilha-presídio.
O eleitor cubano-americano é mais conservador do que os demais latinos nos EUA,  mas ele conta cada vez menos na Flórida devido à crescente diversidade da minoria no estado (quase 1/4 da população). Em 2008,  Obama derrotou o republicano John McCain entre os eleitores latinos na Flórida  (57% a 42%) e teve uma avanço expressivo entre os cubano-americanos (McCain obteve 53% e o presidente ficou com 47%).
São novos tempos. Washington também precisa “sistematizar” suas relações com Havana de um modo diferente, mas não ao estilo de Brasília. O desafio é manter laços com Cuba, sem manter a camaradagem com a ditadura Castro e lhe conferir uma sobrevida.
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Colher de chá inevitável para o Ricardo (dia 30, 12:11), o primeiro a fazer comentários depois de uns dias de seca devido a problemas técnicos.

26/01/2012

às 23:35 \ Leitores

Curtas & Finas (Comentários)

Pessoal, por problemas técnicos, as áreas de comentários do site de VEJA estão temporariamente desativadas. Espero que os problemas sejam resolvidos muito em breve. Para leitores que não costumam dar uma olhada na área de comentários da coluna, eu aproveito para fazer propaganda. Ali está parte da adrenalina do meu trabalho. Pratico o debate, aprendo, sou flagrado em contradições, incoerências, faço autocrítica, aprimoro meus argumentos, reforço pontos da coluna e capto tendências. Conheço melhor com quem me comunico. Creio que o mesmo acontece com muitos leitores. Temos debates vigorosos, quase sempre civilizados, com pitadas de bom humor (é ótimo ver gente que começou travada no debate, agora mais relaxada). Há momentos em que a conversa desgalha (culpa dos leitores e deste escrevente nem sempre disciplinado). Há militantes da causa X ou da causa Y, mas, felizmente, também gente sem agenda definida, gente que não acorda preocupada em destruir ou salvar o vizinho, qualquer político ou o mundo. O fundamental é o exercício cívico do debate, além do prazer da conversa. Muitas vezes cansa,  mas é um tremendo estímulo para mim e sem dúvida para muitos leitores.  O escrevente aqui, claro, continua a escrever, carente de elogios, críticas e observações, mas isto por pouco tempo. Coluna fresca na segunda-feira. Bom fim de semana e abraços.

26/01/2012

às 6:00 \ Republicanos

Curtas & Finas (Narciso Gingrich)

O narcisismo de Barack Obama é mitológico. E na coluna de quarta-feira, eu (eu, eu) lembrei como o presidente americano tem a propensão de se espelhar de forma bipartidária em antecessores no cargo (os gigantes Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan). Mitt Romney é mais modesto. Quando olha para o espelho, ele se vê, vê o empresário brilhante, bem-sucedido, um modelo de americano que subiu na vida.
Romney, quem sabe, possa até ver um George Clooney. Já li num comentário maldoso que Romney tem cara de ator convocado para o papel de presidente em filme B quando o estúdio está com verba apertada. Bem, chega de papo furado. Eu quero realmente falar do narcisismo de Newt Gingrich. Imbatível. O narcisismo de Obama é piada corrente entre conservadores. Justo, mas nada mais ridículo do que o do pomposo Newt.
Numa entrevista, ele disse ser um político não convencional e arrematou a comparação com Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Já houve também as comparações com Thomas Edison e o Duke de Wellington. Historiador com PhD, Gingrich não resiste a analogias estapafúrdias entre episódios banais de sua campanha e eventos que mudaram o rumo da história como o ataque japonês a Pearl Harbor. Nenhuma hipérbole surpreende em alguém, que embora se espelhe em Reagan, tenha dito o seguinte sobre o encontro de 1985 do ex-presidente com o líder soviético Mikhail Gorbachev: “A mais perigosa cúpula para o Ocidente desde que Adolf Hitler se encontrou com Neville Chamberlain em 1938, em Munique”.
O potencial de humildade de Gingrich parece apenas ligeiramente abaixo do de Donald Trump. Mas nada se compara ao feito de Tony Blankley, que morreu neste mês e que era porta-voz de Gingrich nos anos 90, quando ele presidia a Câmara dos Deputados. Blankley sugeriu que o chefe, pelo destemor, visão e abnegação era uma mistura de Winston Churchill, Charles de Gaulle,  Anuar Sadat e Mohandas Gandhi. O volumoso e visionário Gingrich, de fato, tem a imagem autoinflada. Deve se ver inclusive na Lua, para onde promete base americana permanente ao final do seu segundo mandato, em 2020 (e, quando fez a promessa em comício na Flórida, ele se comparou a John Kennedy). Será mais um pequeno passo para a humanidade e um salto gigantesco para Newton Leroy Gingrich.
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Colher de chá precisa ser dada para o Newton Leroy Gingrich (por comentários ao longo de uma longa carreira).  Sem ele, não teria inspiração para a coluna e não quero ferir o seu ego.

O estado da união, de Obama e dos republicanos

Barack Obama discursa no Congresso americano - Foto: Reuters

O estado da união é de injustiça econômica e de privilégios aos mais ricos, assim falou o milionário Barack Obama no seu discurso na terça-feira, em sessão conjunta no Congresso. Assim, o estado de sua campanha de reeleição é de populismo. E o Congresso foi o cenário para um comercial de campanha, quando Obama precisa dividir o palco com os os republicanos na guerra civil das primárias para escolher o seu candidato.

Há um estado de frustração com o desemprego no país, O presidente acena com dias melhores para os desempregados e investe nos temas de desigualdade social e os impostos pagos (e não pagos) pelos milionários. Obama assume o papel de paladino de uma classe média no sufoco (a maioria dos americano se identifica como integrante da classe média).

O risco deste populismo é que se torne uma mensagem de inveja e de ressentimento. Não é à toa que os republicanos martelam que o negócio do presidente é insuflar a luta de classes, para esconder o fracasso de sua política econômica e porque tem pendores socialistas. Que nada. É mero oportunismo populista e Obama no discurso inclusive deu os ombros a esta acusação de luta de classes, rebatendo que cobrar mais impostos de milionários é, na opinião da maioria dos americanos (entre eles, Warren Buffett), bom senso.

Mas o maior adversário do presidente democrata não são os republicanos e seus slogans de campanha. É a economia, mas ela também pode ser camarada em novembro se estiver melhorando, mesmo aos trancos e barrancos (a destacar com uma diminuição do desemprego). Sei, sei, já falei isto algumas vezes por aqui. Meu estado parece ser de repetição.

Claro que a economia também pode despencar (e o desemprego voltar a subir). Aí não há discurso populista que salve Obama do povo frustrado. Quando o presidente fez seu discurso do gênero há um ano, ele sinalizou um otimismo prematuro. Vieram um tsunami no Japão, a degringolada na Europa, o impasse sobre a elevação do teto da dívida e alta do preços do petróleo. Em meados do ano passado, a conversa era sobre uma volta da recessão.

Hoje na narrativa mais otimista (muito otimista), existe a tênue esperança de que os EUA se descolem de uma Europa em recessão e resistam a um mundo emergente menos acelerado. Sem contar (literalmente) os monstros fiscais que continuam crescendo. Obama praticamente ignorou temas como déficit, dívida e o fardo dos programas sociais no seu discurso. Ele aposta na sorte (uma velha companheira desde que começou a carreira política no estado de Illinois). Sorte existirá se o calendário econômico corresponder ao calendário eleitoral.

Obama no seu narcisismo já recorreu a alguns dos mais importantes presidentes da história americana, como Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e Ronald Reagan (os republicanos, claro, fazem a conexão de Obama com o fracassado Jimmy Carter). Ultimamente os referenciais de Obama são o democrata Harry Truman que investiu contra um Congresso que “não fazia nada” na eleição de 1948 e o republicano Teddy Roosevelt, que no começo do século 20 cavalgou em uma missão populista contra uma plutocracia e a necessidade de mais regulamentação da economia

Mas nesta sincronização entre economia e eleição, talvez seja necessário trazer um outro presidente, um Bush, o primeiro (George H. W. Bush). É possível traçar alguns paralelos entre o momento de Obama e o da campanha de reeleição de Bush em 1992, quando a situação econômica era amarga (bem menos do que agora, evidentemente). Lembram-se do antológico slogan da vitoriosa campanha do democrata Bill Clinton? É a economia, estúpido!

A economia agora começa a ter um conserto. A questão é a velocidade. Bush tinha esta corrida contra o relógio há 20 anos e perdeu. A recuperação não aconteceu com rapidez suficiente para neutralizar a frustração dos eleitores (e quase 20% deles premiaram o independente Ross Perot). A recuperação foi apenas sentida no segundo e terceiros trimestres de 1993 e Clinton, já na Casa Branca, pôde assumir o cédito.

Bush pai, ainda por cima, teve o azar de encarar um bom candidato, Clinton, e houve a distração Perot. Obama comoveu na sua campanha inaugural em 2008 com sua narrativa pessoal e havia o impacto do simbolismo racial, mas ele não é bom de bola como Clinton no quesito empatia com o eleitor, especialmente para se conectar com a profunda ansiedade de uma classe média que se sente empobrecida (a pose populista deu, é verdade, uma melhorada).

Por enquanto, quem parece se conectar melhor com as ansiedades de um setor da população é o candidato republicano Newt Gingrich, mas explorando o ressentimento contra o “state of the union”. Bom para começo de campanha, mas complicado para finalizar. Gingrich carece do otimismo de um Ronald Reagan. Já Mitt Romney e empatia não rimam.

Na terça-feira, havia um texto ilustrativo no Wall Street Journal, de Bret Stephens, um dos mais cáusticos colunistas conservadores. Simplesmente exasperado, Stephens escreveu que os republicanos merecem perder as eleições. Ele simplesmente detonou o time dos quatro sobreviventes na maratona das primárias (Romney, Gingrich, Rick Santorum e Ron Paul). Para Stephens, Romney é só verniz. Carece de convicções. Sobre Gingrich, Stephens divagou que os eleitores nas primárias republicanas estão agora enamorados do candidato, não porque o visualizam na Casa Branca, mas pelo potencial de nocautear Obama num embate.

O estado de união é de campanha eleitoral,  o da economia, duvidoso, o de Obama já foi pior e o dos republicanos, por enquanto, de perdição.

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Colher de chá para o Rodrigo (dia 25, 10:53) pelo alerta contra as cansativas e despropositadas analogias entre Obama e Lula. E três colheres de café para o Pablo por três comentários em sequência (dia 25, 16:05, 16:19 e 16:36).  Assim, decreto falência. E  uma colher de sopa para o Henrique (dia 25, 17:09), pelo espírito cívico.

24/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, EUA, França, Uncategorized

Curtas & Finas (França & EUA)

Monsieur Maionese (François Hollande) - Foto Thomas Coex/AFP

Barack Obama é um democrata e Nicolas Sarkozy, um conservador. Em comum, são dois presidentes que. buscam a reeleição quando o terreno econômico é tão íngreme e amargam impopularidade. Dirigentes de países ricos foram ladeira abaixo nos últimos meses e perderam eleições ou o poder. Obama e Sarkozy são bons de campanha e querem reverter a tendência. A missão de Sarkozy é mais urgente. O primeiro turno da eleição francesa é agora em abril (nos EUA, em novembro).

Obama tem um Mitt Romney no meio do caminho que, por sua vez, tem agora um Newt Gingrich no meio do caminho. Sarkozy tem o socialista François Hollande no meio do seu caminho. Existem muitas diferenças na paisagem eleitoral e nos mecanismos partidários entre a França e os EUA. No país europeu, outros candidatos, além das figuras dos dois partidões, podem embolar o primeiro turno. Temos Marine Le Pen , que modera a mensagem de extrema direita da Frente Nacional, associada a seu pai Jean Marie Le Pen, e o centrista François Bayrou.
Mas como no caso dos republicanos nos EUA, os socialistas franceses têm tudo para ganhar. Existem as ressalvas. A liderança de Holllande nas pesquisas é mais atribuída à insatisfação com Sakrozy do que a seus méritos. Em comum com Mitt Romney, Hollande não comove, é travado na campanha, acusado de carecer de genuínas convicções e de pecar pelo estilo tecnocrático (embora, na atual crise europeia os tecnocratas como o italiano Mario Monti, estejam com melhor cotação do que as notas da dívida conferidas aos países).
Conservadores maldosos nos EUA dizem que Romney se contorce tanto nos seus posicionamentos que é o Mr. Pretzel. Já na França, alguns dos apelidos mais venenosos dados a Hollande são Monsieur Marshmallow e Monsieur Maionese. Com culinária francesa ambos pelo menos derrotam o pretzel americano.
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Colher de thé matutina para o Ícaro (dia 24, 10:19), pela panorâmica francesa.

23/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, Obama, Republicanos, Uncategorized

Tia doidinha, tio condescendente e sobrinhos confusos

o

Gingrich, Obama e as caricaturas

Newt Gingrich é caricatural e caricatura as coisas, justamente ele que agora ameaça com algum grau de seriedade, depois de sua espetacular vitória nas primárias da Carolina do Sul, a inevitabilidade de Mitt Romney como candidato republicano nas eleições de novembro. Na expressão de uma fiel leitora desta coluna, Gingrich é nossa “tia doidinha” (outras tias, perdão), por falar algumas verdades que poucos têm coragem de falar. Minha observação é que ele fala alto o que muita gente pensa (e nem sempre são as verdades). Mas política e em particular campanhas eleitorais são movidas por caricaturas.

Com intensidade, fúria e demagogia, Gingrich ataca os democratas e o presidente Obama como elitistas, socialistas e protetores de um bando de parasitas que não quer trabalhar e prefere viver às custas de uns trocados do governo e do vale-alimentação. Nesta caricatura, Obama nem professa os valores americanos e pode querer implantar, no segundo mandato, algo até pior do que um modelo europeu (Oh My God!) neste país excepcional, os EUA, o melhor país do mundo (USA, USA, USA). Gingrich vai na jugular. Na expressão em inglês, ele joga red meat, a carne sangrando, para a voraz base mais conservadora.
Já a demagogia de Obama é mais cool, coisa de personalidade. Mas o presidente caricatura os republicanos como plutocratas desalmados (o discurso ainda é mais direcionado a Mitt Romney, precisa ser ajustado a Gingrich), mais preocupados em zelar pelos privilégios dos ricos. Os republicanos são insensíveis às aflições da classe média espremida e de uma população mais empobrecida, tudo herança maldita da era Bush. Para Obama, existe o míope propósito republicano de sabotar o necessário papel do estado na vida nacional. E ainda por cima os republicanos são ingratos, pois não reconheceram seu esforço épico para impedir uma depressão economica.
A demagogia de Obama vem mesclada com condescendência. Ele faz um tremendo esforço para explicar as coisas e no, entanto, os cidadãos não entendem o fardo do cargo. Com seu habitual veneno, a colunista do New York Times, Maureen Dowd, escreve que, nós, o povo, decepcionamos Obama e sua mulher Michelle. Obama está mais para tio condescendente.
Caricaturas desenhadas por tias doidinhas ou tios condescendentes ilustram algumas verdades. Não há dúvida que uma batalha crucial nesta guerra eleitoral de 2012 envolve o papel do Estado em uma era tão deficitária. Em jogo está o desafio de dividir as contas dos encargos sociais e os sacrifícios. Existe uma batalha cultural para decidir se o estado é amigo ou inimigo da sociedade. Existe uma batalha ideológica se o estado minora injustiças ou é por si injusto, pois recompensa quem não merece e oprime com sua taxação quem trabalha e investe. Existe um grande duelo se o combate à desigualdade pode travar a prosperidade.
Os sobrinhos precisam decidir em novembro entre as caricaturas, mas antes os republicanos devem escolher entre a tia doidinha e o tio almofadinha.
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Hoje começo cedo com as premiações, pois estou na correria: colher de chá para o Samuel (dia 23, 11:20) pela observação interesssante sobre o Gingrich e de sopa para o Ivan (dia 23, 11:24), pela sacada. E que ingratidão da minha parte.  Colher de sopa também para a Betty, de quem roubei a idéia para esta coluna. E colher de chá noturna para o J.R. (dia 23, 22:38), que desmonta algumas balelas. 

22/01/2012

às 0:08 \ Eleições 2012, Obama, Republicanos

Gingrich altera trajetória da disputa republicana

Gingrich vence prévias na Carolina do Sul (21/01/2012)

E la nave va e não é o Costa Concordia do capitão Francesco Schettino. É o barco dos republicanos americanos. No sábado, os eleitores nas primárias da Carolina do Sul tomaram um rumo turbulento, um rota perigosa, dando o timão temporariamente a Newt Gingrich. Numa volta espetacular de um político que já afundou algumas vezes na carreira, Gingrich derrotou de forma retumbante Mitt Romney, o dono do iate de luxo.

Romney agora precisa urgentemente brecar este avanço de Gingrich (estão aí as primárias na Flórida no próximo dia 31). Para começo de conversa, fazendo algum anúncio taxativo (sic) sobre sua declaração de imposto de renda, com as suspeitas de que esteja escondendo algo (atualização: no domingo, Romney anunciou que  vai divulgar, antes de terça-feira, sua última declaração, a de 2010, e a estimativa de 2011) . Em contrapartida, mesmo o eleitorado ultraconservador (e evangélico) da Carolina do Sul foi indulgente e não deu muito bola para a entrevista da ex-mulher de Gingrich (a número 2), na qual ela alegou que nos anos 90, ele sugeriu um casamento aberto, enquanto tinha caso com a amante (sua atual primeira-dama).

Que eleitores conservadores cogitem de carregar alguém com a bagagem de Gingrich dá uma medida da aversão da base republicana a Romney. Evidencia também um difuso ressentimento com o estado de coisas. O terreno é propício para um beligerante e demagógico político como Gingrich, que deu uma espetacular arrancada na corrida das primárias da Carolina do Sul graças ao seu formidável desempenho em dois debates.

Neles, Gingrich recorreu a uma subliminar mensagem racista (Obama = carga pesada de subsídios alimentares, numa assistência em que a minoria negra tem um peso desproporcional) a atacou a midia (liberal e pró-Obama).  O segundo recado tem fundo de verdade, mas o primeiro é perigoso, com o potencial de rasgar o tecido social do país. A massa conservadora ovacionou. Posso até elaborar melhor outra hora esta codificação racial (num debate que precisa ser conduzido em outros termos sobre a cultura da dependência),  mas neste momento apenas lamento esta trajetória demagógica de um candidato presidencial que tenta tirar o emprego de Barack Obama.

Alguns dados impressionam na vitória de Gingrich na Carolina do Sul. Ele foi considerado o candidato republicano mais capaz de derrotar o presidente Obama em novembro (algo negado pelas pesquisas) e também como aquele em melhores condições de consertar a economia. Estes são (eram ) os dois grandes trunfos da narrativa de Romney. Tais percepções demonstram a vulnerabilidade de Romney e também o potencial de Gingrich para agitar a massa. Existe tanto ressentimento com o estado de coisas (e isto é personalizado em relação a Obama), que setores republicanos, como já disse, depositam suas fichas em alguém com a bagagem tão pesada como a de Gingrich.

Aliás, falando em bagagem pesada, feliz aniversário, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Gingrich triunfou na Carolina do Sul exatamente no décimo-quinto aniversário da única reprimenda por transgressões éticas imposta a um presidente da Câmara (395 contra 28 votos). Imagine, e no seu discurso de vitória na noite de sábado, o insider Gingrich denunciou as “elites de Washington” (e nós aqui, de Nova York).

Difícil dar parabéns aos eleitores republicanos da Carolina do Sul, embora os estrategistas da campanha de Obama estejam celebrando esta tumultuada jornada republicana. E os jornalistas também. Afinal, la nave va, muita notícia, sem calmaria no mar. Nunca se sabe, mas em questão dias poderemos estar falando da reviravolta de Mitt Romney.

***
Colher de chá para o Marcos (dia 22, 14:08). Ele expressa uma visão de mundo, da qual discordo, mas isto é irrelevante para mim. Conta o fato de ter elaborado sua posição sobre política americana e sem ofensas gratuitas. Colher de chá também para a Carmem (dia 22, 17:30), pelo contraponto, embora em tom exaltado. E,  num domingão generoso, mais uma para o Juca (dia 22, 19:12), que não meu deu colher de chá e corrigiu meu erro de português.

 

20/01/2012

às 6:00 \ Eleições 2012, Obama, Republicanos

O bombástico Gingrich ameaça Romney e a humanidade

Um Gingrich (dir.) no caminho de Romney - Foto Charles Dharapak/Reuters

Newt Gingrich é um perigo para Mitt Romney, para Barack Obama, para os EUA e para a humanidade. Vamos ser bombásticos, ao estilo do ex-presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, que se mostra um obstáculo eloquente, demagógico e hipócrita no caminho de Romney para cimentar a vitória na corrida das primárias presidenciais republicanas.

 
Dois dias antes das primárias na Carolina do Sul, Gingrich recorreu às suas diatribes habituais no debate de quinta-feira `noite. Foi um dia teatral, com o anúncio de que na verdade Rick Santorum e não Mitt Romney ganhou as prévias de Iowa e a desistência da corrida de Rick “Oops” Perry. Mas o grande drama foram as repercussões da entrevista da ex-mulher de Gingrich,  Marianne, de que ele propôs um “casamento aberto” quando tinha um caso com aquela que se tornou sua terceira mulher. No debate, Gingrich disse que a denúncia era “falsa”, mas sua saraivada foi basicamente desferida contra a imprensa, que ele acusou de se comportar de forma desprezível por trazer este assunto menor quando o pais precisa debater questões urgentes.
 
 
É o mesmo Gingrich, um dos artíficies da política de ataques pessoais , que não teve pudor para liderar a carga pelo impeachment do ex-presidente Bill Clinton quando ele tinha o seu caso com a estagiária Monica Lewinski. Sim, sim, vamos deixar claro que existe um festival de hipocrisia.
 
Os democratas achavam repelente o que os republicanos faziam com Clinton nos anos 90. Já gente como Gingrich achava que era uma questão privada vital e mostrava o caráter de uma pessoa pública. Hoje os papéis se inverteram. Gingrich acha desprezível agora que se levante a questão (com ele envolvido e se comportando como Madalena arrepoendida), enquanto a banda do outro lado considera a história do “casamento aberto” ilustrativa do caráter de um homem público, que na época do seu “affaire” (e de Clinton) era um paladino da causa conservadora.
 
 
O fato é que Gingrich é um debatedor formidável. A CNN, que patrocinou o debate, cometeu um erro primário ao permitir que o moderador John King iniciasse o debate com esta pergunta sobre o “casamento aberto”, ao invés de convocar um cidadão comum para a questão. O flanco ficou escandalosamente aberto para Gingrich lançar seu habitual ataque contra a mídia. Os adversários internos ficaram imobilizados. Atacar a mídia “liberal”  faz parte da narrativa de candidatos conservadores.
 
 
Assolado por questões sobre como fez fortuna e evasivo sobre sua declaração de imposto de renda, Mitt Romney prefere fazer já a campanha contra Barack Obama, mas ele ainda tem competidores internos que querem sequestrar este senso de inevitabilidade e antecipam uma linha de ataque democrata nas eleições gerais sobre o “plutocrata”. Gingrich é um formidável debatedor, mas é um “bully”, é pomposo e até meio louco, na insinuação do rival Rick Santorum. Gingrich, o formidável, também é vulnerável com uma bagagem pesada, que inclui não apenas esta questão de casamento aberto, mas transgressões éticas na Câmara, uma irritante propensão de se achar um Churchill da vida e com um pendor para a autoimplosão. Ao final do debate, o hiperbólico Gingrich disse que Obama é o “presidente mais perigoso da história americana”. Eu diria que até a presidência Gingrich.
 
 
A autoimplosão de Gingrich provavelmente não acontecerá neste sábado na Carolina do Sul, mas melhor que seja logo, para o bem de Romney. O resto da frase do primeira linha é apenas retórica bombástica. Gingrich não é um perigo para Barack Obama. É um favor.
***
Colher de chá para o Salvador (dia 20, 12:04), pela associação entre moralismo, hipocrisia e extremismo. Simples e direto.

 

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