Blogs e Colunistas

27/05/2015

às 9:08 \ Corrupção, Fifa

Fifão

Blatter, Marin (sentados) e o resto da seleção do Fifão no Mineirão

Blatter, Marin (sentados) e o resto da seleção do Fifão no Mineirão

Eu vou me policiar e tentar evitar qualquer metáfora futebolística sobre o megaescândalo na Fifa. Então, vamos chamá-lo de Fifão. Os cartolas, entre eles o canarinho José Maria Marin, foram empacotados em um hotel de Zurique. A pedido da Justiça americana, Marin e mais seis dirigentes da Fifa foram detidos como parte de uma investigação de 24 anos sobre corrupção na ONU do futebol da ordem de US$ 150 milhões com um total até agora de 14 indiciados.

Se tudo rolar como a Justiça americana planeja, os cartolas vão pendurar as chuteiras (sorry, pela metáfora) em prisão federal dos EUA. Existe também uma investigação criminal da Justiça suíça sobre as escolhas de Rússia e Catar para sediarem as copas em 2018 e 2022, respectivamente. Pelo visto, tudo reação em cadeia.

Na constatação melancólica de um cartola não indiciado, é um “dia triste” para a entidade, embora seja um dia alegre para quem considera aquilo (a entidade) uma sem-vergonhice. A cartolagem (detidos e soltos) se confinou em Zurique para o ritual de reeleição do suíço Joseph Blatter como presidente da Fifa.

Tudo embolado, mas a votação está mantida e a reeleição de Blatter, que não está entre os suspeitos, aparentemente assegurada para um quinto mandato. E o mandado de prisão? Imagine uma reversão das expectativas, uma virada do jogo a esta altura do campeonato? Blatter parece ser intocável, embora seja o poderoso chefão do Fifão. Na expressão de um jornal suíço, ele é o Don Blatterone.

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Colher de chá para os leitores que bolaram ou trouxeram outros apelidos para o Fifão. Alguns: Cartolão, Bolão e Operação Lava-Bola. 

 

27/05/2015

às 6:00 \ Irã

O Irã em julgamento

Jason Rezaian e a mulher Yeganeh Salehi em dias mais felizes em Teerã

Jason Rezaian e a mulher Yeganeh Salehi em dias mais felizes em Teerã

Iniciado na terça-feira a portas fechadas em Teerã, o julgamento com acusações que incluem “espionagem” do jornalista Jason Rezaian por si é inquietante. Correspondente do jornal The Washington Post no país e com dupla cidadania (americana e iraniana), Rezaian está preso há dez meses. Seu julgamento, conduzido em uma corte normalmente responsável por casos de segurança nacional, está sendo descrito como “vergonhoso” pelo Washington Post.

Rezaian foi detido sem acusação formal e levado para a infame prisão de Evin (que já era masmorra nos tempos da ditadura do xá Reza Pahlevi, anterior à revolução islâmica). Por um bom tempo da detenção, o jornalista ficou na solitária e teve assistência médica negada. Agora, ele é acusado de passar informações a “governos hostis” (como parte do seu trabalho, ele escreveu ao presidente Barack Obama).

Esta primeira audiência durou três horas e a data da próxima ainda será estabelecida. Se condenado, Rezaian pode pegar até 20 anos de prisão. Ainda em julgamento estão a mulher de Rezaian, Yeganeh Salehi, também jornalista, e uma repórter fotográfica.

O juiz no caso é Abolghassem Salavati, conhecido pelas sentenças draconianas contra jornalistas e ativistas dos direitos humanos. Ele foi apelidado de “juiz da morte” por impor a pena capital a líderes dos protestos de 2009 contra a reeleição fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad.

Não há dúvidas de que a farsa judicial em curso em Teerã está vinculada a disputas entre setores do regime sobre as negociações nucleares com a comunidade internacional, lideradas pelo governo americano. O julgamento de Jason Rezaian tem como pano de fundo o prazo de 30 de junho para que seja finalizado um acordo sobre o programa nuclear iraniano. As linhas gerais do acordo são o direito limitado do Irã ao enriquecimento de urânio, sob rigorosas inspeções, em troca da suspensão das sanções internacionais.

Uma figura-chave nas negociações do lado iraniano é o ministro das Relações Exteriores Johammad Javad Zarif. Ele qualificou Rezaian de “bom repórter” e disse esperar que ele seja inocentado. No entanto, o repórter é ficha de barganha dos setores conservadores na disputa com os pragmáticos liderados pelo presidente Hassan Rouhani, não apenas na questão nuclear, mas sobre a necessidade de reformas internas e abertura do Irã ao mundo.

Para a linha dura em Teerã, fazer uma provocação como o “vergonhoso” julgamento de um jornalista também serve para dar munição aos setores conservadores, especialmente no Congresso americano em Washington, contrários ao acordo nuclear.

O líder supremo da revolução islâmica, o aiatolá Khamenei, deu sinal verde para os pragmáticos negociarem com os EUA e mais cinco países. No entanto, ele atua para enfraquecer os termos do acordo, como nas objeções para inspeções internacionais de instalações militares.

O suspeito caso contra Rezaian reforça as dúvidas se o regime iraniano merece confiança na implementação do acordo nuclear. Quem está sendo julgado é este regime liderado pelo aiatolá Khamenei.

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Colher de chá para quem tenta exercer de forma livre e independente o trabalho jornalístico no Irã.

 

26/05/2015

às 6:00 \ Brasil, política externa

A província brasileira

Flagrante infame: Lula e Ahmadinejad. Melhor um Brasil provinciano

Flagrante infame: Lula e Ahmadinejad. Melhor um Brasil provinciano

Se mesmo a população de um país como os EUA – uma superpotência com tentáculos globais e interesses em todas as partes  - é desinformada sobre o mundo, imaginem os brasileiros? Sim, os americanos são provincianos. Para dar uma medida, raramente eleições presidenciais são travadas essencialmente sobre política externa. As exceções foram em 1940 e 1968 (Segunda Guerra e Vietnã). O que, portanto, esperar do Brasil, um país também de proporções continentais, mas no final das contas com mentalidade de uma ilha quase isolada?

Sergio Leo, do jornal Valor, é uma referência para mim em política externa brasileira. Ele acaba de antecipar os dados de uma pesquisa feita na USP, como parte de um projeto global, na qual foram entrevistados 1,8 mil brasileiros. Alguns dados para ilustrar: 1.7% dos brasileiros medianamente interessados em política externa tem uma identidade sul-americana. Há um pequeno salto na identificação latino-americana (6.7%). Mais de 70% têm uma identidade fortemente brasileira. Esta identidade é ainda mais vitaminada entre os desinformados sobre o mundo (82%).

Até aí nada que impressione. A tal da solidariedade latino-americana sempre foi uma fantasia política, em geral engessada por ideólogos esquerdistas. Existem inclusive sementes de xenofobia entre os brasileiros. A pesquisa mostra que 70% discordam total ou parcialmente da liberdade de trânsito de pessoas para incrementar a integração com o restante da América do Sul.

E a desinformação? Uns 80% dos brasileiros nem sabem quem é o presidente do México, país no qual a presidente Dilma Rousseff está neste momento em visita de estado. Ali na América do Norte, se eu tivesse uma pesquisa disponível, eu poderia confirmar que a imensa maioria da população dos EUA tampouco sabe que Enrique Peña Nieto governa o país vizinho.

No entanto, no caso do Brasil, 64.5% não sabiam que o midiático José Mujica era presidente da Província Cisplatina. Há mais informação sobre o midiático, espalhafatoso e perigoso Nicolás Maduro. A pesquisa revela que 50% dos brasileiros sabem que ele desgoverna a Venezuela. O consolo para Maduro é que alguns dos seus melhores amigos são bem conhecidos dos brasileiros. Apenas 27% não sabem que Cristina Kirchner preside a Argentina e 29.5% que Evo Morales está à frente da Bolívia.

No seu texto, aliás, Sergio Leo lembra que a Argentina (culpa de rivalidades futebolísticas?) é o único país visto como ameaça ou competição pela maioria dos brasileiros (57%). Nosso povo, cordial em geral, considera todo mundo sócio ou parceiro do país (a China é vista assim por 77% dos brasileiros).

O estudo ainda precisa ser complementado, mas uma das responsáveis, a professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, ressalta a ambiguidade dos brasileiros sobre seu relacionamento com os países vizinhos e sobre o papel do país no mundo. Há o argumento de que o Brasil já tem muitos problemas internos para se preocupar com o mundo ou atuar com mais intensidade lá fora.

Pelo contrário, quanto mais abertura, melhor para a província e para a cabeça dos brasileiros. Lamento que para informados e desinformados no Brasil, as prioridades na política externa devam ser América do Sul e África. Vital para o Brasil uma abertura mais ampla, multicontinental, especialmente de mais comércio e menos protecionismo (e menos antiamericanismo).

E para finalizar, o óbvio: abertura não deve ser sinônimo do protagonismo ao estilo lulista ou endosso da indecência de regimes como o narcochavismo.

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Colher de chá para Sergio Leo, do Valor e outra para Mack740 (dia 26, 9:09).

 

 

25/05/2015

às 6:00 \ Eleições EUA 2016

Eta mundo complicado; ora, culpa do Obama

As bandeiras e promessas fáceis de Marco Rubio e dos demais candidatos

As bandeiras e promessas fáceis de Marco Rubio e dos demais candidatos

Você ambiciona ser presidente do país mais poderoso do mundo em um mundo complexo e volátil, que não permite soluções fáceis e empacotadas para os seus desafios. Na verdade, você não entende muito do mundo e seu eleitor também não. Na verdade, tanto você como ele estão mais preocupados com as questões caseiras. O mundo, no entanto, chama a sua atenção e vagamente a do eleitor. E existem questões sobre a coerência e a liderança dos EUA que, como eu disse, é o país mais poderoso do mundo.

Então, o que você faz?  A resposta do batalhão de candidatos presidenciais republicanos, e mesmo com mais sutileza a da democrata Hillary Clinton, é usar o presidente Barack Obama como alvo fácil. Sua incoerência e falta de liderança estão na raiz do problema. Os terroristas do Estado Islâmico avançam no Siraque porque Obama recuou. O mundo não acata a liderança americana porque Obama é refratário e não apregoa que os EUA são um país simplesmente excepcional, o mais excepcional. No final das contas, Obama sequer é patriota, na caricatura de alguns candidatos mais caricatuais, como o senador texano Ted Cruz.

Ninguém se compara em vigor histriônico a outro candidato e senador neófito, Marco Rubio, o filho de cubanos da Flórida. Ele sobe no caixotinho para fazer um discurso prometendo que vai sair por aí para deter agressões. Em que planeta vive Marco Rubio? O guru Ian Bremmer, da consultoria de risco Eurasia, alerta contra os candidatos que falam das responsabilidades globais dos EUA sem mencionar o preço na etiqueta.

Sim, Obama é incoerente, mas há um bom tempo a política externa americana é incoerente e peca por promessas não cumpridas e execuções atabalhoadas dos planos. Vamos meramente ficar em três guerras nos últimos 50 anos: Vietnã, Afeganistão e Iraque. Os americanos foram à luta contra inimigos muito mais empenhados no desfecho do que eles.

De novo, vou citar Ian Bremmer: o próximo presidente (republicano ou democrata) terá ainda menos opções atraentes do que presidentes anteriores (republicanos e democratas), pois as guerras no Afeganistão e no Iraque deixaram a opinião pública americana profundamente relutante para empreitadas que exigem a presença de tropas a longo prazo. E sem a ameaça de um compromisso militar com credibilidade, as outras ferramentas de política externa tornam-se menos efetivas.

A realidade é um inimigo ferrenho. Melhor ficar na papagaiada e nas vagas promessas. Quem falou que os “EUA têm um profundo compromisso para que a causa dos direitos humanos seja uma realidade para milhões de pessoas oprimidas” no mundo? Foi a democrata Hillary Clinton, mas poderia ter sido qualquer candidato republicano.

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Está rolando um debate entre leitores agora na noite de segunda-feira. Colher de chá para os notívagos.

24/05/2015

às 6:00 \ Casamento gay

O casamento gay na Irlanda e o atraso republicano

Irlandeses festejam a vitória da igualdade

Irlandeses festejam a vitória da igualdade

O Instituto Blinder & Blainder obviamente está satisfeito com a decisão dos eleitores irlandeses que em referendo disseram sim ao casamento entre pessoas do mesmo sexo por 62% a 38%. Os principais partidos irlandeses se posicionaram a favor da emenda constitucional permitindo o casamento gay.

Decisão histórica, pois pela primeira vez isto aconteceu pelo voto e não via tribunais ou legislativo (em julho será a decisão a respeito da Corte Suprema dos EUA). A pequena Irlanda transmite uma grande mensagem ao mundo. O voto confirma a velocidade de aceitação do casamento gay. Na Irlanda, até 1993 ser homossexual era ser criminoso. Trata-se de uma decisão que vai muito além de tolerância (postura insuficiente), mas cristaliza igualdade e inclusão

Enquanto isso, impressiona o anacronismo do batalhão de candidatos presidenciais republicanos nos EUA. O que incomoda é que todos estejam irmanados, com algumas diferenças sutis, no repúdio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nenhum rebelde? Nenhuma voz corajosa para se insurgir contra o viés anacrônico e de certa forma politicamente correto dentro do partido? Os republicanos americanos em geral estão atrasados em questões sociais em relação a partidos equivalentes no mundo rico.

Em questões sociais, o Partido Republicano está muito atrasado em relação aos sentimentos da própria opinião pública americana. Os republicanos continuam no último vagão do bonde da história. A população jovem abre a cabeça nesta questão de casamento gay, enquanto o Partido Republicano enfia a dele na areia.

Para ilustrar o atraso republicano, basta ver o resultado da pesquisa Gallup da semana passada. Pela primeira vez em 15 anos neste tipo de pesquisa, a percentagem de americanos que se identificam com liberais em questões sociais é equivalente aos que se consideram socialmente conservadores. Entre os 1.024 entrevistados, 31% se definiram como socialmente liberais e 31% socialmente conservadores.

É ilustrativo o que se passa entre os republicanos. Em 2009, 67% se definiam como socialmente conservadores. O número caiu agora para 53%. É isto que me impressiona. Nada escandaloso que a visão comum entre os republicanos seja de tanto conservadorismo social, mas dentro da tenda deveria haver mais divergência e mais debate.

Com uma posição tão uniforme de sua liderança na questão do casamento gay, o Partido Republicano exibe o seu divórcio da realidade social americana.

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Colher de chá para Jose Luiz Capatano (dia 24, 15:50). E outra para o depoimento de Pedro Bouvetiano (dia 25, 15:03).

23/05/2015

às 6:00 \ Geopolítica

O estado do mundo

Geopolítica de boteco

Geopolítica de boteco

A coluna nesta semana foi devotada a assuntos áridos, de refugiados no sudeste asiático às ruínas no Oriente Médio. Então, vamos ser coerentes e terminar com a dica de um texto denso, mas importante, sobre o estado do mundo, no esforço pretensioso de George Friedman, o guru da empresa de consultoria geopolítica Stratfor.

No meu brevíssimo apanhado, eu destaco que Friedman desenha um cenário de desestabilização na vasta massa de terra eurasiana (entendida como Europa e Ásia juntas), enquanto o arquipélago asiático e o hemisfério ocidental se encontram em uma situação relativamente estável.

É possível fazer uma regressão infinita para tentar entender a causa da desestabilização. A opção de Friedman é começar com a última mudança sistêmica vivida pelo mundo: o fim da Guerra Fria. Os avessos a muito esforço sabático podem ir para os parágrafos finais do texto de Friedman. Ele arremata que o colapso da URSS colocou em movimento um processo em que as instituições da Guerra Fria não conseguiram dar conta.

Assim, a avaliação bruta é a de que a Guerra Fria adiara a ascensão de realidades enterradas sob o seu peso. Ademais, a prosperidade dos anos 90 escondeu os limites da Eurásia como um todo. Na verdade, realidades fundamentais estão reemergindo. A Europa está fragmentada, a China contém suas forças centrífugas através de um aparato repressivo e a Rússia não está nem em igualdade de condições com os EUA nem é uma aleijada que pode ser ignorada ou guiada. O mapa do Oriente Médio, desenhado pelos otomanos e pelos europeus, perdeu o prazo de validade.

Para Friedman, os EUA são de longe a nação mais poderosa do mundo. Isto, porém, não significa que o país possa ou tenha o interesse para resolver os problemas do mundo, conter as forças em atuação ou compelir estas forças a pararem.

Há muito conversa de boteco aqui na coluna e Friedman termina o seu texto com uma analogia de bar de que nem o sujeito mais durão seguraria as pontas (que na lógica geopolítica deveria o presidente americano). Boa conversa.

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Colher de chá para Clovis Ilha (dia 24, 11;34).

 

 

 

 

22/05/2015

às 6:00 \ EUA, Obama, Oriente Médio

Obama e a arte de evitar a guerra

Cautela ou capitulação?

Cautela ou capitulação?

Na coluna de quinta-feira, eu fiz o indiciamento da arruinada política externa americana no Siraque, no arco que vai da leviandade de Bush ao excesso de cautela de Obama. Um sacador heterodoxo, Robert D. Kaplan, num texto na revista The Atlantic, não vê ruínas na cautela de Obama para não se meter nos conflitos do Oriente Médio. Ele vê sólidos pilares.

Para Kaplan, existe a arte de evitar a guerra. Ele cita Sun Tzu, o sábio chinês da Antiguidade, para qual “o lado que sabe quando lutar e quando não lutar terá a vitória”. Existem estradas que não devem ser viajadas, exércitos que não devem ser atacados e cidades fortificadas que não devem ser assaltadas”.

Kaplan viaja na história com seus exemplos e alertas. No século 6 A.C. as tropas persas do imperador Dario foram ao encalço dos citas, um povo nômade que dominava vastos territórios ao norte do Mar Negro, e eram notáveis por sua crueldade e táticas nas guerras. Os citas liderados pelo rei Idanthyrsus travavam escaramuças com os persas e recuavam. No final das contas, Dario empreendeu a retirada. Foi derrotado sem a oportunidade de guerrear para valer.

Guerra assimétrica é uma velha história, lembra Kaplan. Seu inimigo estabelece os termos de combate. Estamos vendo isso no Oriente Médio. Kaplan compara os territoristas do Estado Islâmico aos citas. Em comum, a crueldade e os termos de combate. E em comum com impérios da antiguidade, os EUA têm poder limitado para determinar o desfecho de muitos conflitos.

Nas palavras de Kaplan, a superpotência americana está aprendendo uma irônica verdade imperial: você persevera ao não interferir em cada batalha. No exemplo histórico, no século 1 D.C. o imperador Tibério preservou Roma ao não interferir nos conflitos além da fronteira ao norte do império. Kaplan observa que Tibério praticava “paciência estratégica” (a expressão é usada hoje para justificar a cautela de Obama).

Hoje no Iêmen, os americanos não vão ao encalço de bandos guerreiros como Dario fez em Cita, mas de vez quando alvejam indivíduos com aviões não tripulados. O seu uso não é prova da força americana, mas das limitações do seu poder.  No alerta de Kaplan, Obama deve reconhecer estas limitações e não se envolver na Siria. Ele diz que a derrubada de Bashar Asssad em uma quarta-feira irá gerar um regime jihadista na quinta-feira ou uma limpeza étnica da minoria alauíta (da família Assad) na sexta-feira. Nada de emoções ou pendores humanitários, adverte o cerebral Kaplan.

Uma superpotência ainda tem responsabilidade moral. Para Kaplan, os EUA podem exercê-la ao usar terceiros em conflitos distantes. No Iêmen, os rebeldes houthis são apoiados pelo Irã, mas combatem a rede terrorista Al Qaeda. Eles que se matem. Se os iranianos se metem até o pescoço para apoiar milícias xiitas no Iraque nos combates contra o Estado Islâmico, melhor assistir ao espetáculo.

Diversos grupos de “citas” travam conflitos hoje no Oriente Médio. Turquia, Egito, Israel Arábia Saudita e Irã são empurrados para um desconfortável equilíbrio de poder. Cabe aos americanos ficarem com um pé atrás. Para Kaplan, cautela não é sinônimo de capitulação.

Quem capitula a este argumento? Ótima pergunta para o sucessor ou sucessora de Barack Obama. Quem sabe Kaplan exerça alguma influência no próximo governo, como aconteceu nos casos de Clinton, Bush e Obama

PS- Obama deu uma ampla entrevista para a revista The Atlantic, para o meu guru Jeffrey Goldberg (aqui um resumo ), na qual ele trata a vitória do Estado Islâmico em Ramadi, no Iraque, apenas como um “revés tático.”

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Colher de chá para Rodrigo (dia 22, 18:36).

 

21/05/2015

às 6:00 \ EUA, Siraque

As ruínas do Siraque e da política externa americana

O Estado Islâmico ameaça Palmira, patrimônio arqueológico da humanidade

O Estado Islâmico ameaça Palmira, patrimônio arqueológico da humanidade

As doutrinas Bush e Obama para o Siraque podem ser resumidas em uma palavra: desastre. Os americanos se enlamearam com a intervenção de Bush no Iraque em 2003, que trouxe o caos, dando o poder aos xiitas e fortalecendo o Irã (xiita). Obama quis lavar as mãos e sua glória política foi “acabar” a guerra americana no país e não se aventurar na Síria. Com o caos e devastação na Síria e no Iraque, temos agora este país chamado Siraque, onde florescem abominações como o grupo terrorista Estado Islâmico e genocidas como Bashar Assad podem praticar barbáries.

Obama correu do Siraque, mas o Siraque corre atrás dos americanos. E temos o triste espetáculo de candidatos presidenciais (republicanos e democratas) que escolhem uma fatia da crise para acusar o outro partido de fracasso, quando na verdade são dois governos consecutivos responsáveis por políticas incoerentes e desastrosas, na combinação da leviandade de Bush com o excesso de cautela de Obama.

O atual governo americano tem uma postura cirúrgica de lançar alguns ataques aéreos contra os terroristas do Estado Islâmico e de fazer onda com algumas operações cinematográficas de forças especiais que matam líderes extremistas. Na humilhante estratégia de Obama, a ideia era treinar e terceirizar o Exército iraquiano para a guerra de verdade. Os soldados do Exército fantoche não dão para o gasto.

A resistência fica a cargo de milícias xiitas, muitas sob o comando iraniano, em uma dinâmica que acelera a espiral sectária. Tribos sunitas ficam entre os diabos sunitas do Estado Islâmico e os diabos das milícias xiitas. O desastre em curso é na província de Anbar, a maior do país, onde o Estado Islâmico tomou a capital Ramadi e uma reversão somente irá ocorrer se as milícias xiitas botarem para quebrar. Com isso, o Iraque ficará mais perto de uma partição.

O cenário de partição é igualmente patente na Síria. Obama lavou as mãos depois de traçar a patética linha vermelha que a ditadura Assad não poderia cruzar com o uso de armas químicas. Assad continua cruzando e os americanos basicamente terceirizaram o combate contra o Estado Islâmico para países como a Arábia Saudita que patrocinam suas próprias milícias jihadistas que combatem tanto os jihadistas mais ensandecidos como a ditadura Assad.

Na Síria, basicamente é travada uma guerra de milícias e, após alguns meses em que a ditadura Assad parecia menos alquebrada, ela sofre golpes significativos como na vitória do Estado Islâmico na cidade de Palmira, patrimônio arqueológico da humanidade e com uma posição estratégica no mapa do país.

Como lembra Shadi Hamid, do Instituto Brookings, entre os tantos conflitos do Oriente Médio, a Síria é o mais trágico e o mais pedagógico. A opção americana de desengajamento não é uma política neutra. Não-intervenção é uma escolha política consciente. E tem efeitos e consequências, como uma intervenção militar. A guerra no Iraque foi um dos maiores fiascos estratégicos da politica externa americana, mas, na expressão de Hamid, é possível aprender “as lições erradas de uma guerra errada”.

A sequência de eventos na Síria foi quase o oposto do ocorrido no Iraque. Neste último caso, a intervenção militar americana abriu caminho para uma guerra civil. Na Síria, ela irrompeu devido à ausência de intervenção internacional. Fazer muito é um erro e fazer pouco também. E saber quando fazer é essencial. Neste momento, esforços redobrados de engajamento americano contra o Estado Islâmico serão vistos como um serviço para as milícias xiitas iraquianas, a ditadura Assad e o regime iraniano.

Agora, o patrimônio arqueológico de Palmira corre o risco de ser destruído pela barbárie do Estado Islâmico, enquanto o Siraque é devastado dia a dia e a política externa americana para a região está arruinada graças à obra de dois governos.

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Colher de chá para Ivan I (dia 21, 12:44).

 

 

20/05/2015

às 6:00 \ Ásia, China, EUA, Japão

Ainda dá para conter a China?

Obama e Abe estão diante do desafio estratégico chinês

Obama e Abe estão diante do desafio estratégico chinês

Os tentáculos econômicos chineses estão no Brasil, estão em todas as partes (leia coluna de terça-feira). Os políticos são menos vistosos. Os EUA tentam domar o vigor chinês com o seu próprio e ambicioso projeto comercial de um acordo de 12 países no Pacífico, que exclui o supermergente. Seu sucesso não está garantido diante de resistências protecionistas nos EUA, a destacar na base do Partido Democrata de Barack Obama, um ativo promotor deste acordo de livre comércio, ao lado de líderes republicanos.

Obama conta também com apoio do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, que igualmente enfrenta resistência protecionista dentro de casa. Obama e Abe compartilham a preocupação estratégica com o avanço chinês. Ao mesmo tempo, os dois países estão economicamente entrelaçados com o megaemergente. Obama prefere tratar o acordo, cujo nome formal é Parceria Transpacífica, em termos meramente econômicos, mas ele se insere em um grande jogo de poder geopolítico.

Gideon Rachman escreve no Financial Times que no final das contas o estímulo para a Parceria Transpacífica decorre do fracasso americano para “absorver a China na ordem internacional liberal”. O termo em aspas consta de um estudo de Robert Blackwill e Ashley Tellis, do Council on Foreign Relations. A China, com seu híbrido sistema comunocapitalista, joga o seu próprio jogo e seu poder ameaça a primazia americana na Ásia.

As motivações e preocupações estratégicas com a China são ainda mais intensas no Japão (que hoje é “apenas” a terceira economia mundial). No começo, o Japão se manteve ao largo das negociações sobre o acordo de livre comércio na Ásia diante do poder dos fazendeiros protecionistas do país. Mas, o temor com o poder chinês agora fala mais alto. Para Shinzo Abe, é crucial fortalecer a aliança Japão-EUA diante de tantas disputas territoriais e diplomáticas do seu país com a China (a disputa fica acirrada devido ao nacionalismo muscular do primeiro-ministro).

Com sua diplomacia mercantilista, o Japão nunca deu muita bola para a ética e o regime político dos seus parceiros comerciais, mas em recente discurso no Congresso americano, Shinzo Abe enfatiizou que a Parceria Transpacífica em última instância é sobre “democracia e liberdade”.

No Financial Times, Gideon Rachman joga uma ducha de água fria nos resolutos esforços de Obama e de Abe. Existem as resistências domésticas ao acordo de livre comércio. Ademais, fora das negociações estão países essenciais no Pacífico como a Coreia do Sul. A Índia também está ausente, enquanto tem um balé complicado com a China de parceria econômica e de encorajamento aos EUA para acelerarem sua presença militar no Pacífico.

Sem dúvida, por muito tempo os EUA ainda terão hegemonia militar no Pacífico e no resto do mundo. Mas, o argumento essencial de Gideon Rachman é a inevitabilidade do poderio econômico chinês. Tudo feito para domá-lo é pouco e tardio. O contraponto é que a China, com todo o seu aço, pujança e potencial, pode se revelar um gigante com pés de barro em um cenário no qual a superpotência americana está enferrujada.

Nada inevitável. Tudo incerto. As vulnerabilidades de um império ascendente e de um outro maduro podem levar à acomodação ou ao confronto.

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Colher de chá para Manhatan@ e Sandro EUA. 

19/05/2015

às 6:00 \ Brasil, China

Negócios do Brasil

Na visita de Li Keqiang, projetos e acenos simbólicos

Na visita de Li Keqiang, projetos e acenos simbólicos

O primeiro-ministro chinês Li Keqiang está no Brasil na primeira escala de uma viagem à América do Sul carregada de projetos e de simbolismo. As quatro escalas (Brasil, Peru, Colômbia e Chile) representam 57% das relações comerciais da China com a América Latina. O supergigante emergente desacelerou, mas o Brasil em estado recessivo topa qualquer negócio.

A China, na verdade, também, sem questionar a ética ou o regime político do freguês. No começo do ano, o presidente Xi Jinping falou em investimentos de US$ 250 bilhões na América Latina ao longo de uma década. Pequim trabalha a longo prazo (e tem US$ 4 trilhões de reservas), embora possua algumas preocupações imediatas para compensar sua capacidade excessiva na construção de obras de infraestrutura (o que não falta no país é elefante branco) e na produção de aço. Nada como construir alguns elefantes brancos também no exterior em meio a necessários burros de carga que cada país precisa para tocar as coisas.

Em entrevista ao jornal Valor, o veterano diplomata Sérgio Amaral (hoje presidente do Conselho Empresarial China-Brasil) observou que tanto interesse chinês no país é uma oportunidade para o Brasil substituir as construtoras envolvidas em projetos hoje ameaçados pelo envolvimento de grandes empreiteiras brasileiras em escândalos de corrupção. O governo brasileiro também busca ansiosamente novas fontes de financiamento para projetos ambiciosos, pois está em fase de ajuste e o BNDES está secando.

Cai sob medida neste contexto a construção de uma ferrovia transoceânica ligando o litoral atlântico brasileiro à costa peruana no Pacífico para escoar com mais agilidade as exportações de commodities brasileiras como soja, ferro e açúcar para a China, que ainda são as principais especiarias do Brasil no comércio bilateral (A China já superou os EUA como principal parceiro comercial brasileiro).

Com elegância de diplomata, o embaixador Sérgio Amaral disse que a visita ao Brasil (e ao resto da América do Sul) do primeiro-ministro Li Keqiang é um ato da “nova geopolítica da infraestrutura”. Sem maiores pudores, o jornal britânico The Independent ressaltou que com a visita do seu premiê a China “continua com sua colonização econômica” do Brasil. Com um pouco mais de educação, o Financial Times observou que o Brasil nunca soube capitalizar sua parceria comercial de forma tão lucrativa como a China, aumentando os temores de que se converta em uma “colônia econômica”.

O fato é que a “geopolítica da infraestrutura” é a alavanca para a China exercer mais influência na distante América Latina. O projeto da ferrovia transoceânica é uma forma da China evitar o Canal do Panamá, que Pequim considera um ponto de estrangulamento estratégico dos EUA.

Assim, a visita do primeiro-ministro chinês está carregada não apenas de projetos, mas de simbolismo, desafiando mais uma vez a noção de que a América Latina seja um “quintal americano” ou que uma atualização da Doutrina Monroe esteja em vigor. Há dois séculos, o propósito americano era desencorajar a influência e os negócios europeus na América Latina. Agora é a vez dos chineses se colocarem no seu devido lugar. Estrategistas de Pequim rebatem ser vital incrementar a influência na América Latina, pois os americanos estão fazendo o mesmo no “quintal” chinês na Ásia, reforçando seus laços econômicos e militares na região.

A China adora a conversa de “relações harmoniosas” e quer se livrar da imagem de novo colonizador. Em entrevista ao Valor, o embaixador chinês em Brasília, Li JInzhang, disse que existe um “novo normal” no relacionamento bilateral, no qual “a situação de demasiada dependência do comércio de commodities não podia continuar e precisa ser transformada”.

O “novo normal” do Brasil é topar qualquer negócio, da China ou de qualquer outro lugar. Imagine, o governo Dilma Rousseff se esforça até para melhorar as relações com os velhos colonizadores ianques.

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Colher de chá para ZelbertoZei (dia 19, 13:29).

 

 

 

 

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