Blogs e Colunistas

21/04/2014

às 6:00 \ Putin, Rússia, Ucrânia

De Moscou, para Paris ou para a Sibéria

Guriev (com o microfone), ao lado de Medvedev, nos tempos em que dava conselhos

Guriev (com o microfone), ao lado de Medvedev, nos tempos em que dava conselhos

Há um ano, Sergei Guriev, um dos mais respeitados economistas russos, renunciou ao cargo de diretor da Nova Escola de Economia, em Moscou, e fugiu para o exílio parisiense. Hoje, ele é professor do prestigiado Institut d’Études Politiques de Paris. Filosofou para um amigo que “Paris era melhor do que Krasnokamensk”, local de uma famosa prisão russa na Sibéria.

A vida teria sido tolerável para Guriev em Moscou se ele falasse apenas o que o imperador queria escutar. Conselheiro frequente de Vladimir Putin, no entanto, Guriev passou a dizer coisas desagradáveis, como a necessidade de reformas profundas no sistema econômico, baseado em exportações de petróleo e gás natural, além de benesses para os oligarcas amigos do rei. Desligaram o microfone do homem.

Por uns tempos, Guriev foi integrante do quixotesco setor liberal dentro do regime Putin, mas foi se distanciando do establishment. Ele apoiou protestos antigovernamentais em 2011/2012, quando Putin voltou à presidência após a farsa de Dmitri Medvedev na chefia, falou a favor do ex-oligarca Mikhail Khodorkovsky (libertado no final do ano passado após quase uma década na prisão, em Krasnokamensk) e endossou a cruzada anticorrupção do blogueiro Alexei Navalny, hoje em prisão domiciliar.

Nenhuma surpresa que com este espírito, primeiro independente e depois dissidente, Guriev passasse a ser submetido a interrogatórios, mandados de busca e intimidação na Rússia que faz a transição de autoritarismos para estado totalitário. Guriev se tornou um inconfidente russo, apropriado falar dele no Dia de Tiradentes. A perda para a Rússia de alguém como Guriev é priceless, mas um preço tolerável para o aparato de poder de Putin (o texto aqui dá o contexto do que aconteceu com Guriev e como a Rússia é reincidente na estupidez).

Guriev agora alerta sobre o esgotamento do modelo Putin baseado em exportações de commodities, corrupção, renacionalização e falta de transparência. Conselhos de gente como Guriev são fora de ordem no Kremlin. Para ele, a ocupação da Crimeia, as manobras de desestabilização na leste da Ucrânia e o hipernacionalismo são parte de diversionismo, que a curto prazo deve funcionar. Basta ver o salto da taxa de aprovação de Putin, hoje na faixa dos 80%. A longo prazo, porém, os lances deverão terminar em um beco sem saída.

Além da história pessoal de Guriev, tudo o que esta escrito acima não é uma novidade para quem acompanha a melancólica saga russo-ucraniana. No entanto, o que realmente me chamou a atenção nesta entrevista de Guriev à revista New Yorker, foi a tipologia abaixo.

Guriev diz que para os menos sofisticados, Putin recorre à lavagem cerebral. Para os mais sofisticados, mas menos honestos, são os subornos. Para as pessoas honestas e sofisticadas, é o uso da repressão. O melhor da Rússia vai acabar em Paris ou em Krasnokamensk.

18/04/2014

às 6:00 \ Ucrânia

Trocentas e trolhentas colunas ucranianas

Um mapa da crise

Um mapa da crise: onde fica a Ucrânia?

Um leitor aqui na coluna, João de Oliveira, comentou sobre as “trocentas e trolhentas” colunas publicadas sobre a Ucrânia. De fato, é isto mesmo. Quando um assunto desta magnitude abala o mundo, o Instituto Blinder & Blainder sofre tremores sísmicos. Será que ele precisa ampliar seus quadros e contratar algum Blinderukovich para assessorá-lo? A coluna tem suas obsessões e mergulha no seu mundo interior. Ela já passou temporadas na Primavera Árabe e nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi.

Eu dei uma checada nos arquivos e constatei que antes da crise que explodiu em Kiev no final do ano passado, a Ucrânia fora simplesmente ignorada na coluna, exceto por um texto leve, de geopolítica futebolística em julho de 2012. Não escrevo este comentário para pedir desculpas pela obsessão. Pelo contrário, o objetivo é reforçá-la com convicção. Acho ótimo que exista um espaço como este na imprensa brasileira fanaticamente devotado à política internacional (e fico feliz em ter comparsas como o meu amigo Guga Chacra na mesma área, obcecado com o Clube Sírio-Libanês), onde a missão é explorar os temas e cuidar de alguns de forma extenuante.

O tratamento claro que nem sempre é o samba de uma nota só (do árabe doido, do americano doido, do russo doido, do ucraniano doido), mas nada errado em ficar grudado em um assunto por uns tempos, especialmente quando ele é game changer no tabuleiro global, como é o caso da Ucrânia. Muitos colunas são flagrantemente editorializadas (falo isto sem vergonha, pois Vladimir Putin me envergonha) e outras são mais realistas (resignação com o rumo dos acontecimentos).

Não pode faltar um compromisso com o debate. Por este motivo, trago pontos de vista divergentes e, ao contrário de outros espaços, não existe filtro ideológico para os leitores interessados em comentar ou fazer a sua agitprop. Nos últimos dias, foram críticas de alguns leitores com a obsessão ucraniana (samba do colunista doido).

E, finalmente, existe o já lendário “com fins educacionais”, não apenas como alerta ao leitor que atravessa as linhas vermelhas da coluna, mas pela mera obrigação (e com prazer) de oferecer subsídios aos profundamente interessados no tema desconhecido ou aos desejosos em aprofundar seu conhecimento a respeito. Serviço de utilidade pública. E de pensar que apenas 1 em seis americanos identifica a Ucrânia no mapa.

Rastreando informações sobre a Ucrânia, encontrei um site que é uma mina de informações sobre tudo o que você não queria saber sobre o país e sua crise. É uma compilação de informações feita pela George Washington University, a Johnson’s Russia List. Ali tem assunto para trocentas e trolhentas colunas ucranianas.

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Colher de chá evidentemente vai para o João de Oliveira, cujo comentário (dia 15, 16:07) inspirou esta coluna.

17/04/2014

às 15:12 \ Ucrânia

Quem compra um acordo de Vladimir Putin?

O americano Kerry e o russo Lavrov apertam as mãos depois do acordo. Duro será apertar o acordo.

O americano Kerry e o russo Lavrov apertam as mãos depois do acordo. Duro será apertar o acordo.

Diplomacia é um refúgio necessário para impedir uma colisão mais forte entre atores políticos ou um intervalo para que estes atores possam se posicionar para os próximos passos. O acordo acertado nesta quinta-feira em Genebra entre EUA, Rússia, União Europeia e Ucrânia dá um tempo na crise ucraniana. Ele já surpreende, pois as partes envolvidas chegaram para a conversa anunciando expectativas muito baixas. Assim, os ganhos imediatos ficam flagrantes. Para a Rússia, isto significa que por um tempinho (quanto?) novas sanções não serão adotadas, para os ocidentais serve para mostrar que diplomacia é a saída quando estão cansados de guerra e para os ucranianos, sei lá, na medida em que a situação está fora de controle.

O plano é desescalar a crise que entre os piores cenários incluem guerra civil e invasão russa do leste ucraniano. O acordo estipula anistia a integrantes de milícias que concordarem em deixar edifícios públicos ocupados (e praças), desarmamento destas milícias, compromisso para que sejam evitadas ações violentas, intimidatórias e provocadoras, além de condenação de extremisno, racismo e intolerância religiosa, inclusive antissemitismo. Os termos valem para grupos pró-russos e para nacionalistas ucranianos.

Vamos deixar que até um relatório da ONU qualificou de falsas ou exageradas as denúncias de ataques contra russos étnicos. E um incidente de antissemitismo na cidade de Donetsk, no leste do país, mencionado pelo secretário de Estado americano John Kerry em Genebra, leva todo jeito de provocação pró-russa para reforçar a narrativa de que o governo interino em Kiev é fascista e blá blá blá .

Claro que é muito cedo para saber se o acordo terá pernas para caminhar e quando isto irá acontecer. Horas antes do acordo, Vladimir Putin deu um show com o uso de linguagem agressiva para reiterar os direitos históricos russos no leste da Ucrânia. Ele garantiu que os manifestantes pró-russos são independentes e não marionetes de Moscou. Toda incredulidade é necessária com o presidente russo.

E aqui está a ironia: se houver a implementação do acordo ficará provado o poder de Putin sobre os eventos ucranianos e sua decisão de se contentar com os ganhos conseguidos até agora (como a anexação da Crimeia e o recado para o mundo de que com ele não se brinca). John Kerry enfatizou que é responsabilidade do governo de Moscou controlar os grupos separatistas no leste ucraniano. Se o acordo fracassar, ficará patente que, como na ilustração da capa da edição corrente da revista The Economist, Putin é o urso insaciável que quer abocanhar a Ucrânia.

Será que a fome será saciada por um tempo?

Será que a fome será saciada por um tempo?

 

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Colher de chá para Jordan (dia 17, 17:14).

 

 

17/04/2014

às 6:00 \ Ucrânia

Pitacos ucranianos

Manifestantes em Odessa exigem referendo sobre adesão à Rússia

Manifestantes em Odessa exigem referendo sobre adesão à Rússia

Na véspera de um feriadão, eu vou poupar os leitores de uma trolha, mas não de Ucrânia. Somente alguns pitacos. O jornalista americano Christian Caryl foi para Odessa, a cosmopolita e estratégica cidade no Mar Negro. Odessa fica no sul do país, 90% dos seus  habitantes preferem falar russo, mas estão profundamente divididos na crise. Em comum, apreensivos com a perspectiva de uma guerra e uma invasão russa quando acompanham a encrenca no leste ucraniano.

Um dos pitacos são as sardônicas declarações do poeta Boris Hersonsky. Ele não acredita que Vladimir Putin invadirá o seu país, mas obviamente não descarta a possiblidade e fica apreensivo com ela. Embora apegado emocionalmente à língua russa (é poeta, afinal), Hersonsky diz que, apesar de todos os problemas ucranianos, ele não trocaria o país pela Rússia: “As contradições ucranianas ainda são melhores do que a completa falta de contradições na Rússia”.

E à beira do Mar Negro, um pouco de humor negro do poeta: melhor viver na disfuncional mas relativamente democrática Ucrânia do que na Rússia autoritária de Putin. Hersonsky arremata que as “forças pró-Rússia fazem comícios a favor de um referendo para que possam se juntar a um país onde não há referendos”.

Já o meu guru estratégico Walter Russell Mead não tem linguagem de poeta nem humor negro. No entanto, escreveu um afiado ensaio (ok, trolha), recomendando como o mundo deve reagir ao jogo de Vladimir Putin. Apenas uma pitada aqui, com a conclusão de Mead: Barack Obama quer tirar o time de campo nestas responsabilidades globais da superpotência americana, mas esta sentindo que não pode escapar da Europa, embora as opções não sejam atraentes. Nas palavras de Mead, “apaziguar Putin não funciona, fazer oposição será difícil e caro, mas ignorá-lo será impossível.”.

Obama achou que podia fazer uma tremenda jogada global: abandonar uma Europa que não precisava dos americanos e um Oriente Médio que não os deseja, dando uma virada para a Ásia, que precisa e quer a presença dos EUA. Por estes dias, a Casa Branca encara uma verdade mais dura, porém mais duradoura: os EUA precisam se virar para o mundo. No meu arremate, o mundo não se vira sem os EUA.

PS- Não resisto e preciso mostrar a capa da edição corrente da Economist. Incrível!

CAPA

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Colher de chá para Rey Cintra pelo contraponto (dia 17, 12:20).

 

16/04/2014

às 6:00 \ Ucrânia

Cinco cenários ucranianos

Tropas ucranianas na lama

Tropas ucranianas na lama

Ainda antes do início das operações militares do governo ucraniano contra separatistas pró-russos na terça-feira, o tarimbado Ian Black, do jornal britânico The Guardian, traçou cinco cenários da crise. Material didático entregue de bandeja para o Instituto Blinder & Blainder, que passa aos leitores com alguns ajustes. Então, lá vai:

Uso de força pelo governo ucraniano

Com a concretização da ameaça do uso de força pelo governo ucraniano (finalmente) contra os separatistas pró-russos, agora existe o risco de violência em larga escala e, no cínico alerta de Moscou, de guerra civil. Com a escalada de violência, podem ocorrer a suspensão da Constituição e o adiamento das eleições presidenciais de 26 de maio. Confirma-se assim o quadro de desestabilização do país, algo que não deve deixar ninguém chocado, apesar do lamento hipócrita em Moscou.

Intervenção direta russa

Com a anexação da região ucraniana da Crimeia em março, a Rússia tem garantido que não intenciona mandar tropas para a Ucrânia. Não convém a Vladimir Putin iniciar uma guerra, embora o Parlamento em Moscou o tenha autorizado a intervir militarmente caso os interesses russos sejam ameaçados. Putin antecipou que estes interesses incluem proteger quem fala russo na Ucrânia, embora a maioria dos falantes sejam ucranianos étnicos.

A intervenção pode seguir o figurino familiar de responder a um apelo fabricado por ajuda de “compatriotas” em nome de “federalização”. No entanto, uma plena invasão parece problemática. Forças ucranianas estão em melhor posição do que na Crimeia, onde as unidades russas já estavam estacionadas. Ademais, no leste o entusiasmo por uma intervenção russa é bem menos intenso do que na Crimeia. Há até 40 mil soldados russos na fronteira, mas até onde for possível a opção preferencial de Moscou será por ações clandestinas, embora as negativas de envolvimento sejam cada vez menos plausíveis. O objetivo essencial russo ainda é impedir a realização ou a legitimidade das eleições de 26 de maio.

Sanções ocidentais mais duras

Este cenário é altamente provável. Os EUA deixaram claro que as sanções serão incrementadas contra Moscou se as ações militares pró-russas continuarem. Sanções em energia, mineração e setor bancário estão na mesa. O Banco Central russo já admitiu uma saída de US$ 63 bilhões de capital no primeiro trimestre. O problema são as divisões europeias: a Alemanha depende de gás russo, a França tem contratos militares com Moscou e há pesados investimentos russos na indústria financeira britânica. Se a Rússia não for pega em flagrante com sua intervenção militar, será difícil uma resposta europeia mais vigorosa.

Intervenção da Otan

Extremamente improvável. A aliança militar ocidental tem expressado de forma intensa sua preocupação com a crise ucraniana, definida por seu secretário-geral, Anders Rasmussen, como o “maior desafio à segurança europeia em uma geração”. Ele não cessa de advertir sobre as “graves consequências” se houver uma invasão russa. Muito teatro. A Otan precisa falar grosso após ter fracassado para impedir a anexação da Crimeia. E, muito importante, precisa reassegurar seus integrantes na Europa Oriental, especialmente os três pequenos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) sobre os compromissos para defendê-los. Aliás, medidas neste sentido foram anunciadas na quarta-feira por Rasmussen. A cooperação com a Rússia foi suspensa, mas não há perspectiva da Otan iniciar  uma guerra de forma deliberada.

Opções diplomáticas

Ian Black admite que numa situação complexa e volátil é difícil prever o day after. De qualquer forma, negociações estão programadas para quinta-feira, em Genebra, com a participação de Rússia, EUA, União Europeia e Ucrânia. Black avalia que a desestabilização no leste ucraniano fortalece a agenda russa por uma solução política palatável a seus interesses nestas negociações em Genebra, assim como aos interesses dos grupos pró-russos na Ucrânia por mais autonomia.

Vamos ver. Um day after do outro e os dias no momento são de opções militares, de extensões ainda indefinidas.

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Colher de chá matinal para Marcelo Henrique Gonçalves (dia 16, 9:10) pela sacada de Putin, pretérito. Vespertina para as dicas de leitura do Rubem.

 

 

 

15/04/2014

às 6:00 \ Putin, Rússia, Ucrânia

Cálculos ucranianos (V)

Não está claro para onde vão as tropas russas

Não está claro para onde vão as tropas russas

A credibilidade de Vladimir Putin é um farrapo. Eu não tenho motivos para acreditar nas suas palavras quando garante não ter planos de invadir, anexar parte da Ucrânia ou desmembrar o país. Mas, quem sabe, não haja uma meticulosa estratégia de longo prazo. A crise é volátil, oportunidades se apresentam, assim como os perigos. Dizem que o Afeganistão foi o Vietnã dos soviéticos no final dos anos 70, enquanto a Ucrânia pode ser agora o Iraque dos russos. Ocupação é um cenário penoso. Nem na sua suprema fantasia, Putin acredita que os tanques serão recebidos apenas com flores.

O custo de ocupação é muito alto. Nem dá para comparar com o que aconteceu na Crimeia, que realmente foi um passeio para os russos. Portanto, ocupar o leste da Ucrânia não é plano C, pois não irão se repetir as condições da Crimeia e está ausente o fator surpresa. Pode ser o B? Sim, desde que Putin não consiga garantir alguns interesses estratégicos básicos, como manter a Ucrânia fraca, dividida e incapaz de pender definitivamente para o lado ocidental (aliás, por si, o país consegue esta façanha). Não interessa ao Kremlin uma degringolada ucraniana ou uma guerra civil. Aliás, a quem interessa? Apenas a grupos ultranacionalistas ucranianos ou russos.

Algo mais plausível é uma intervenção militar cirúrgica para conseguir objetivos limitados, como dar um recado, testar o Ocidente ou assegurar os setores mais inquietos da minoria étnica russa no país. A possiblidade desta intervenção ganhou um senso de urgência com o anúncio das autoridades interinas ucranianas nesta terça-feira do início de operações militares contra militantes pró-russos que ocuparam edifícios públicos e delegacias policiais em cidades do leste do país. Até onde for possível, os russos irão operar em uma área cinzenta de intervenção, permitindo ao Ocidente, especialmente a relutante União Europeia, se eximir de uma resposta vigorosa.

Para Moscou melhor concretizar os objetivos com uma campanha de desestabilização, embora seja hilário os russos tentarem convencer o mundo de que não estão envolvidos diretamente na agitação e tomada de edifícios públicos em cidades do leste ucraniano, como Putin fez na segunda-feira em mais uma conversa telefônica com Barack Obama.

O essencial para Putin é influenciar o processo antes das eleições gerais de 26 de maio, tendo poder de veto sobre alguns desfechos ou condições de dissuadir politicos, como a veterana e ladina candidata Yulia Tymoshenko, a ter uma postura mais palatável aos interesses do Kremlin. A ocupação de setores urbanos no leste do país empreendida por ativistas pró-russos, que podemos chamar de informal, embora orquestrada por Moscou, aumenta o poder de barganha de Putin com qualquer governo que emergir em Kiev das eleições de maio (e esperamos que haja este governo).

A ideia de mais autonomia para o leste ucraniano (assim como para o sul) em tese é razoável diante da complexidade étnica do país e a profunda afinidade da região com a Rússia. O problema é se esta dinâmica não é conduzida pelo governo central em Kiev. Não cabe a Moscou ditar regras sobre a “federalização” do país vizinho. A situação é tão frágil e desesperadora para as autoridades de Kiev que o presidente interino Oleksandr Turchynov jogou um balão de ensaio para um referendo nacional sobre maior autonomia regional.

A ironia é que Putin fala agora em projeto de federalização na Ucrânia, mas sua gestão tem sido marcada pelo tarefa ferrenha de desmantelar a estrutura federal russa para centralizar o poder em Moscou. Desde que assumiu o comando há 14 anos, Putin canalizou a arrecadação tributária para Moscou, limitou a autoridade local ao escolher candidatos para governos  regionais e recorreu a métodos brutais para conter rebeliões separatistas no Cáucaso.

Para Putin, o que é bom para a Ucrânia não é bom para a Rússia.

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Colher de chá na saideira de terça-feira para Olavo Mata, Nehemias, Ronado C e Lord keynes do seculo XXI.

 

14/04/2014

às 7:44 \ Putin, Rússia, Ucrânia

Em Putingrado,1984 em 2014

Nostalgia sinistra em comício perto da Praça Vermelha, em Moscou

Nostalgia sinistra em comício perto da Praça Vermelha, em Moscou

A Rússia deu ao mundo Leon Tolstoy, do romance épico Guerra e Paz. Deu ao mundo também os Vladimirs (Lênin e Putin). E existe ainda Vladimir Tolstoy, tataraneto do escritor e assessor cultural do Kremlin cada vez mais orwelliano que converte o estado autoritário do pós-comunismo no estado totalitário do putinismo. A novilíngua do épico 1984 diz presente em 2014.

Na narrativa azeitada pelo rolo compressor de propaganda, desinformação e mentiras que é a televisão russa, guerra é paz. Os separatistas russos são vítimas de cerco na Ucrânia e haverá uma carnificina se os ucranianos atacarem as vítimas que apenas desejam liberdade. São estas vítimas que, armadas, mascaradas e em uma ação orquestrada, tomaram edifícios públicos no leste do país. A responsabilidade por uma banho de sangue será do governo ilegítimo de Kiev, sustentado pelo Ocidente decadente e devasso. A Rússia tem tropas na fronteira. Ataque é defesa.

Parece paródia, mas Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo (ministro da Verdade?), emitiu um comunicado no domingo advertindo que “agora é responsabilidade do Ocidente impedir uma guerra civil na Ucrânia”. O mesmo tom foi emitido horas mais tarde por Vitaly Churkin, embaixador russo nas Nações Unidas, em pronunciamento feito na reunião de emergência do Conselho de Segurança. Churkin eximiu seu país de qualquer responsabilidade na crise, simplesmente ignorou as ações orquestradas por setores pró-russos no leste ucraniano e denunciou a “russofobia grotesca” no Parlamento em Kiev.

No relato do New York Times, no pós-comunismo russo são dias de um sinistro jingoísmo, exacerbado pela invasão e anexação da região ucraniana da Crimeia. Existem os alertas de um país atacado de fora e por dentro por fascistas e traidores. Cuidado com a quinta coluna. Mas, haverá resistência, como na Segunda Guerra Mundial: Putingrado.

Na nova política cultural do estado, este Tolstoy,  o Vladimir, está encarregado de rechaçar os conceitos de tolerância e de multiculturalismo. A ênfase é o caráter singular da civilização russa. Rússia não é Europa. Existe o triunfo do kitsch com bandeiras soviéticas sendo desfraldadas e a nostalgia sinistra da foice e o martelo, que trouxe coletivização forçada, os filhos que delatavam os pais, o Gulag e o ritual de tanques rolando pela Europa Oriental para proteger as democracias populares.

A xenofobia russa em 2014 é acompanhada de uma operação-arrastão com prisão e amordaçamento de dissidentes. Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição, que é denunciado nominalmente como um traidor na propaganda oficial, escreveu no Facebook que a situação parece pior do que na Guerra Fria. “Na minha opinião, nem na União Soviética era assim”, disse Nemtsov. Exagero aqui, oposição também tem a sua novilíngua.

Mas, nem de longe a diatribe de Nemtsov se compara à novilíngua do governo (regime, na verdade) russo. O ataque é insidioso. O Grande Irmão precisa ficar vigilante. O novo filme do Capitão América explodiu nas bilheterias russas. Abaixo a tolerância e o multiculturalismo. Foice e martelo contra os fascistas ucranianos e a quinta coluna doméstica. Putingrado resistirá!

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Colher de chá para os valorosos leitores que teimaram em comentar apesar dos problemas técnicos. A coluna resistirá!

 

 

 

Os passos de Tito Mainardi em São Paulo

Tito, Diogo e Nico (Foto Ruy Teixeira/Divulgação)

Pessoal, estou colocando na praça novamente meu texto sobre o Tito, o filho do Diogo Mainardi. Quem acabou de assistir ao Manhattan Connection deste domingo, entende este passo. Boa leitura ou releitura. O Tito merece.

 

Estou em São Paulo. No sábado à noite, eu acompanhei os passos de Tito Mainardi pelas ruas dos Jardins. Por alguns minutos fiz o que Diogo, meu amigo e colega de serviço no Manhattan Connection, no canal GloboNews, faz de sua vida. Diogo faz e conta de forma arrebatadora (qualquer adjetivo emocional positivo envolvendo Diogo me deixa intimidado, pois ele é arredio para tal). Ok, ok, mas Diogo sendo Diogo, também é duro, duríssimo.

Seu livro A Queda: As Memórias de um Pai em 424 Passos (editora Record) é uma obra (e que obra literária) sobre a caminhada de Diogo e de Tito, o filho que nasceu com paralisia cerebral, numa narrativa enredada na história familiar (na caminhada que tem também a mulher Anna e o filho mais novo Nico), na literatura, na arte e nas ideias. Tudo enredado, mas meu amigo se solta na sua catarse.

Sei, sei, amigo, melhor foi a indenização devido ao crime cometido no hospital de Veneza no nascimento do Tito. Mas agora, nós, leitores, também somos recompensados com este livro sobre os passos cambaleantes de Tito e as rasteiras que Diogo dá na vaidade humana (e bem típico dele, num autogolpe).

Não estou aqui para fazer resenha do livro (para isto recomendo o detalhado e decodificante texto de Mario Sabino na edição corrente de VEJA e publicada no site). Estou aqui para dizer que gosto muito da família Mainardi e recomendar a leitura para todos (sei, sei, os detratores panacas do Diogo vão denunciar o golpe do veneziano para se humanizar e gerar compaixão). Meu amigo deveria processar quem o denuncia por autocomiseração.

Diogo talvez possa ser processado por excesso de resmungos. Além de nossas divergências políticas e sobre qual é a melhor água mineral do mundo, discordamos sobre São Paulo. Ele até me acusa de hipócrita por cantar uma ode à nossa cidade natal (argumenta que eu gosto, mas estou fora há quase 25 anos). Eu realmente gosto de visitar São Paulo. Diogo nem isso.

A gente conversava sobre o assunto (que falta de assunto) andando na rua Bela Cintra, ao lado de Anna, Nico e Tito. No livro. Diogo fulmina que “saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar”. Coitado do Tito e de todos nós. Nas ruas de São Paulo, tem muito valor saber caminhar nas ruas. Aqui o resmungo do Diogo é inacatável. As ruas de nossa cidade natal são muito esburacadas.

Diogo, perdão se esta coluna está muito pedestre. 

PS – e por que Diogo e eu viemos para São Paulo? Ele para lançar o livro e também para a participação ontem, no domingo à noite, ao lado do nosso Reinaldo Azevedo (feliz aniversário!), do “Papo de Redação”, promovido pela Federação Israelita do Estado de São Paulo e A Hebraica (foi lá, claro, no clube onde bati muita bola de moleque) sobre Israel, Primavera Árabe, antissemitismo e eleição americana (go Obama?). No papo, dei meus passos familiares, sempre em defesa de Israel e bem menos do governo de plantão. Naquelas bandas do Oriente Médio, está tudo mais esburacado do que nas calçadas de São Paulo.

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Pessoal, hoje está fácil. Colher de sopa, pela vida e pela obra, para Tito, Diogo, Anna e Nico.

 


13/04/2014

às 9:37 \ Rússia, Ucrânia

Cálculos ucranianos (IV)

"Soldados" pró-russos em Slaviansk, leste da Ucrânia

“Soldados”pró-russos em Slavyansk, leste da Ucrânia

“Eu farei uma oferta que ele não poderá recusar” (Don Vito Corleone)

 

Palavra final na coluna no final da semana sobre a crise ucraniana não cabe a Julia Ioffe, destacada no sábado. No domingão, cabe à novilíngua com sotaque mafioso do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Ele advertiu as autoridades do governo interino ucraniano para se comportarem e assim não minarem os esforços de paz no país. Paz no caso é divisão, o fim da Ucrânia como país unido.

O alerta de Lavrov foi feito em meio às reações de forças de segurança ucranianas contra separatistas pró-russos, armados e coordenados, que tomaram edifícios governamentais e delegacias policiais no leste da Ucrânia (existem as acusações de que forças especiais russas estão na verdade engajadas nas operações). Na sua linguagem orwelliana, Lavrov acusou o governo de Kiev de ser incapaz de decidir o destino ucraniano. Com isto, ele quer dizer que os termos de Moscou não são aceitos por um país supostamente soberano.

Sei que não adianta ficar exasperado com a novilíngua, desfaçatez e atitude mafiosa do governo russo. O jogo é perigoso, como ficou flagrante neste domingo. As forças de segurança ucranianas foram à carga neste drama que tem muito de uma encenação teatral. Há um fogo cruzado de palavras sobre o grau de envolvimento direto de Moscou nesta fase da crise.

O governo ucraniano diz que tudo está sendo orquestrado por Moscou, o que é negado pelos russos. Do lado do governo Putin, sempre paira a ameaça de uma intervenção na Ucrânia para “proteger” os setores pró-russos. Conversa mafiosa de oferta de proteção. O poderoso chefão de Moscou irá agir caso haja ataques contra seus “soldados” no leste ucraniano

Está aí a montagem (no sentido de farsa) do cenário semelhante ao da anexação da Crimeia no mês passado. Irrompem manifestações no leste da Ucrânia, com exigências de referendo e de independência. A situação fica tensa e a Rússia é forçada a intervir. Até 6 de abril, as coisas estavam relativamente mais calmas, com os comícios separatistas perdendo o vigor, mas aí ocorreu a revitalização do clamor separatista com estes vários focos de agitação, provocação armada e confronto.

Como na Crimeia antes da anexação e do referendo, estão em ação no leste ucraniano homens fortemente armados, de formação militar, mas sem insígnias. No entanto, não há indicações de apoio em larga escala por separação no leste (e sim por mais autonomia da parte da população pró-russa). Alerta novilíngua: é fácil manipular os sentimentos populares.

O que quer o governo de Moscou? Pela lógica, fomentar a instabilidade e ameaçar com intervenção militar têm o objetivo de forçar a “federalização” da Ucrânia, o que também é novilíngua russa. Em última instância, “federalização” significa a partilha da Ucrânia. Por este cálculo, é o menor dos males. O maior seria a guerra civil, com intervenção russa. Imagino que em Washington e nas capitais europeias, estejam feitos cálculos sobre as ofertas mafiosas de Moscou.

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Colher de chá para Carmem e Victor M Costa pela assessoria em armas.

12/04/2014

às 6:00 \ Putin, Rússia, Ucrânia

Cálculos ucranianos (III)

O que farei?

O que farei?

Final de semana, palavra final (assim, espero) na crise ucraniana para a musa da coluna. Invasão? É uma das cartas na mesa para Vladimir Putin, escreve Julia Ioffe no seu artigo na New Republic. Invadir é fácil, mas os custos seriam imensos para a Rússia. Outro custo imenso é simplesmente tentar prever as ações de Putin. Analistas se desdobram para explicar as ações do presidente russo depois que ele agiu. Tentam encaixá-las dentro de um parâmetro lógico.

Masha Lipman, um nome obrigatório para decodificar a Rússia, observa que Putin age de acordo com seus próprios termos e ele gosta especialmente de nos supreender. Façam o seu jogo, tudo é possível com Putin, diz Masha Lipman. E como diz o título do artigo de Julia Ioffe, “Putin não precisa invadir a Ucrânia para desestabilizá-la, mas pode fazê-lo de qualquer forma”. Como prever as ações do imprevisível Putin? Este dilema analítico confirma a vitória de Putin sobre Ocidente.

Não foi apenas a anexação da Crimeia que mostrou que o presidente russo faz o que bem entende sem que os EUA e a Europa sejam capazes de impedir, mas tudo o que Ocidente pode fazer é reagir. Julia Ioffe escreve que a promessa de Putin aos russos é restaurar a grandeza geopolítica que a Rússia perdeu com o colapso da União Soviética. Agora, 23 anos mais tarde, a Rússia está dando as cartas. Putin cumpriu a palavra. Palavra final?

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Colher de chá para Leonardo Gav, pela premonição (dia 13, 9:35).

 

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