Blogs e Colunistas

25/10/2014

às 10:18 \ Eleições Brasil

É a classe C, estúpido!

Saldão eleitoral

Saldão eleitoral

O título desta coluneta é uma paráfrase de uma frase antológica de marketing político. James Carville, o marqueteiro do presidente americano Bill Clinton cunhou a frase “é a economia, estúpido”!, na vitoriosa campanha eleitoral de 1992. João Santana, o marqueteiro de Dilma Rousseff agora apela para a classe C. E não vou esconder meu desejo para que o sucesso não se repita.

Esta aposta de João Santana poderá até ser um sucesso em termos eleitorais, mas prenuncia o fracasso do projeto PT de governo (nem estou adicionando aqui a questão institucional na esteira do Petrogate). Trata-se de um  fracassso já levado às últimas consequências na Venezuela e na Argentina. Não queremos ser eles amanhã. Para ser mais preciso, na segunda-feira, o day after eleitoral.

Ao longo da campanha eleitoral brasileira, eu citei muito o El País. Na véspera da votação, eu quero prestar uma homenagem ao jornal espanhol, trazendo um texto a respeito dos perigos estúpidos que rondam o Brasil em função desta aposta eleitoral de João Santana. O texto é de um jornalista argentino do La Nación (que, por sinal, endossou Aécio Neves). Aqui, a íntegra em português do texto de Carlos Pagni.

Em um texto com o bom título A Esquizofrenia Populista, Pagni ressalta que “a  campanha eleitoral do Brasil exibe uma dualidade que é constitutiva do populismo em toda a América Latina”. Houve uma rápida mobilidade social no Brasil e a propaganda do PT se dirige a este segmento, o fiel da balança na votação deste domingo. É o aqui e agora do consumismo e da preservação a qualquer preço da baixa taxa de desemprego. Ótima estratégia de campanha eleitoral, mas aqui vai alerta de Pagni:

“No Brasil aparece atenuada uma deformação que na Argentina e na Venezuela é caricatural. Em seu afã por sacralizar o presente, o populismo se desliga do futuro. Premia o consumo, não a poupança. O gasto, em vez do investimento. E se empenha mais em ampliar subsídios do que em criar trabalho genuíno. Nessas prioridades estão as sementes de sua decadência”.

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Colher de chá para o jornal espanhol El País, por sua cobertura da eleição brasileira.  E outra colher de chá para o ex-indeciso Felipe (dia 25, 11:47). Vejam o motivo!

 

24/10/2014

às 15:41 \ Dilma Rousseff, Eleições Brasil, Lula, Nixon, Watergate

“Eu não sou um escroque”

Em 17 de junho de 1973, a garantia: I am not a crook

Em 17 de junho de 1973, a garantia: I am not a crook

CAPA VEJAEm 17 de junho de 1972, a sede do Partido Democrata foi arrombada no edifício Watergate, em Washington. Investigações jornalísticas do Washington Post e trabalho judicial ao longo do tempo vincularam o assalto e outros crimes ao governo Nixon.

Os primeiro meses do escândalo Watergate foram insuficientes para impedir a vitória arrasadora de Nixon nas eleições de 7 de novembro de 1972. Ele, no entanto, não terminou o segundo mandato. Renunciou em 9 de agosto de 1974 para escapar do impeachment.

Estes são fatos, fatos da história dos EUA. Como será o desfecho do nosso Petrogate é outra história. São outras cronologias, outros contextos, outros personagens, outros escândalos (aliás, nem sabemos o que vai acontecer na eleição deste domingo).

No entanto, eu me dou ao direito de especular. Será que a história irá permitir os paralelos: VEJA = Washington Post e Dilma Rousseff = Richard Nixon?

Lula é um caso à parte, sem paralelos. Afinal, nunca na história deste país…..

 

 

 

Em 24 de outubro de 2014, a garantia: eu também não

Em 24 de outubro de 2014, a garantia: eu também não

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Colher de chá para o humor aguado de Mauro Martins (dia 24, 18:59).

24/10/2014

às 6:00 \ Eleições Brasil

Da Tonga da Mironga para a Banânia

Sorry, Mr. Lula!

Ilustração de uma revista imbecil, segundo Mr. Lula

Eu devo desculpas aos leitores. Estou faltando ao serviço. Há dias que não falo do mundo aqui na coluna, enfronhado no Brasil. Houve ataque terrorista no Canadá e não compareci com um texto ao estilo “Somos Todos Canadenses”, como fizeram os torcedores de hóquei em Pittsburgh, para expressar solidariedade a um país que adoro (A Escandinávia da América do Norte, o mais civilizado estado americano, se o Ted Cruz vencer as eleições americanas em 2016 eu vou para lá, O Canadá!). Em 4 de novembro, teremos eleições no país ao sul do Canadá e eu ignoro a história (é verdade que na semana passada escrevi uma coluna sobre a apatia eleitoral dos americanos).

E por que este desleixo? Não estou apático sobre as eleições no país bem ao sul dos EUA. Estou obcecado como jornalista e como cidadão. Há dias, eu me contorço para sacar colunas conectadas com as eleições. Minha rotina mudou. Semanas atrás, assim que eu acordava, costumava fuçar o noticiário para saber o que se passava em alguma distante Tonga da Mironga. Por estes dias, estou entretido na nossa Banânia e nas nossas tungadas.

Minha obsessão com o urso Putin está hibernando (e teremos eleições parlamentares neste domingo na Ucrânia). Deixei de acompanhar religiosamente os sites que cobrem o Oriente Médio. Minha ansiedade é canalizada para a guerra eleitoral brasileira. Checo a todo momento o noticiário para saber se saiu alguma nova pesquisa. Leio com avidez meus colegas de VEJA.com, colunistas dos jornalões (maior lobby entre alguns dos meus leitores para investir na Dora Kramer) e devoro tudo o que a imprensa global publica sobre o Brasil. Viva El País!

E para o desprazer do inimigo dos tucanos nazistas (o Lula), sempre que posso destaco alguma coisa da Economist aqui na coluna, no Twitter e no Facebook. Com imenso prazer, estampo pela terceira vez a ilustração da Banânia podre da Economist, esta revista a serviço da democracia e do livre mercado e simpática ao nazismo, pois endossou Aécio Neves  (horror, horror, horror). Revista imbecil, de acordo com o Lula. Recomendo que o ex-presidente a leia ou, melhor dizendo, que alguém faça isto para ele.

Eu converso com “minhas fontes” (entre elas, Mrs. Blinder, minha mãe) para sentir o pulso das elites e das massas, dos informados, dos desinformados e dos indecisos (algum ainda?). Em nome do jornalismo e para saciar minha compulsão eleitoral, tenho feito coisas atrozes. Esta semana estive no meu dentista (verdade, escutar piada contada por dentista é algo penoso), mas há coisas muito mais dolorosas na vida. Imagine, todo dia ultimamente tenho dado uma espiada no site do Paulo Henrique Amorim para saber das infâmias publicadas no covil. Mil vezes a conversa fiada, as piadas e a cadeira do meu dentista.

Sei que o o clima eleitoral brasileiro está bíblico, na base do olho por olho, dente por dente (clima ótimo para os oftalmologistas e para os meus queridos dentistas), mas na semana que vem espero estar de volta ás minhas paragens habituais, algumas, de fato, bíblicas.

PS- Eu enfatizo que “espero” voltar para minhas Tongas das Mirongas na semana que vem, mas muito vai depender da chamada evolução dos acontecimentos na Banânia, também conhecida como Petroland.

 

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Colher de chá para A. (dia 24, 11:32), um leitor de visão.

De Paulistana a São Paulo, passando por Além Paraíba

Foto que ilustra a reportagem do Wall Street Journal

Foto que ilustra a reportagem do Wall Street Journal

Na quarta-feira, eu publiquei coluna avaliando o que conta e o que falta na cobertura da imprensa estrangeira da eleição brasileira. Citei jornalões como The New York Times, The Wall Street Journal e El País. Ignorei o Washington Post, que já teve dias mais gloriosos e hoje tenta se reerguer com o empurrão do novo proprietário, Jeff “Amazon” Bezos. Em homenagem ao lendário Ben Bradlee, que morreu aos 93 anos na terça-feira e que comandou o jornal em coberturas antológicas, como o escândalo Watergate, vamos dar uma colher de chá ao Washington Post.

O jornal despachou seu correspondente no Brasil, Dom Phillips, para o interiorzão, para mostrar como o país é em Além Paraíba, Minas Gerais. Ali, embora seja o estado do “azul” Aécio Neves, também se realça o país “vermelho” de Dilma Rousseff, pobre e rural. Phillips explica aos leitores gringos que a campanha está muito mais centrada na avaliação do desempenho passado dos dois candidatos do que nas propostas para o futuro.

O chamado “povo fala” da reportagem fica inicialmente a cargo de Cinthia Medeiros, de 39 anos, que, como os brasileiros mais pobres, vota no PT que a ajudou a escapar da miséria com o Bolsa-Família. Cinthia diz que “cada um pensa que é melhor que Dilma fique”. O outro “povo fala” cabe ao ferroviário aposentado João Lucindo, de 72 anos. Ele diz que votou no avô de Aécio, Tancredo Neves, e que a gestão do neto como governador não foi ruim.

Já o balanço mais técnico da gestão Aécio em Minas é feito por Gustavo Morelli, diretor da empresa de consultoria Macroplan (boas notas para o desempenho fiscal e educação, mais baixas para saúde). No entanto, a palavra final na reportagem do jornal de Mr. Bezos é dada para o motorista de van escolar Paulo Dias, para o qual os tucanos de Aécio estão aí para ajudar mais os ricos do que os pobres. Por esta razão, ele vai votar em Dilma.

O repórter do Wall Street Journal, John Lyons também viajou para o interiorzão. Ele foi ainda mais longe do que Dom Phillips. Esteve em Paulistana, no Piauí cenário de sua reportagem sobre o papel principal do Bolsa-Família no drama eleitoral brasileiro. Lyons entrevista Bartolomeu Francisco, grato ao governo Dilma Rousseff pela assistência social (no primeiro turno, 70% dos piauienses votaram na presidente).

De Paulistana, o repórter Lyons se desloca para São Paulo, onde, nas sua expressão, existe “desprezo” por Dilma Rousseff. A entrevista técnica na reportagem do Wall Street Journal fica a cargo de Mauro Paulino, o diretor do Datafolha. Ele observa que existe mais do que polarização no Brasil.”É um cisma”.

Já o outro “povo fala” da reportagem fica com outro motorista profissional. Luiz Carlos Coutinho faz entregas de van na periferia de São Paulo. Ganha o suficiente para não ter acesso ao Bolsa-Família. Votou em Dilma em 2010, mas diz que agora votará em Aécio, pois “é hora de mudança”.

Saberemos no domingo como o Brasil votou, se chegou a hora da mudança ou não, de Paulistana a São Paulo, passando por Além Paraíba.

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Eu vou ser corporativo. Colher de chá para os repórteres Dom Phillips (The Washington Post) e John Lyons (The Wall Street Journal).

 

22/10/2014

às 6:00 \ Eleições Brasil

Enquanto isso na Banânia…

Põe podre nisso!

Põe podre nisso!

Na coluna de terça-feira, eu dei um puxãozinha de orelhas em Michael Shifter, do Diálogo Interamericano, por sua ilusão de ótica. Não espero que os chamados observadores internacionais fiquem de olhos arregalados diante do espetáculo nacional. Um pouco de distanciamento é saudável. No entanto, nem tanto.

Melhor ver as coisas com muita atenção para não escorregar na Banânia. Eu nem acho que a imprensa global que acompanha o Brasil e os tais observadores internacionais estejam escorregando de forma escandalosa. O que falta mesmo é descascar a banana, mexer nela para ver como está podre.

Está tudo muito asseado no New York Times e nos outros jornalões. O eficiente correspondente Simon Romero toma nota do Petrolão em reportagem de destaque na segunda-feira. No mesmo dia, o Wall Street Journal  foi perspicaz em reportagem de alto de página sobre o impacto eleitoral da seca em São Paulo e como isto pode chover na roseira de Mrs. Rousseff. Bom jornalismo. O espanhol El Pais, com edição inclusive em português, faz cobertura infatigável, despachando repórteres para diversos rincões brasileiros.

A venerável revista The Economist foi bacana com a ampla reportagem e o editorial à la Carmem Miranda dizendo que Mr. Neves merece ganhar a eleição (veja ilustração acima). Yes, nós temos banana e, como eu já disse, os gringos devem descascá-la, desnudá-la e desmascará-la. Para dar um exemplo direto, eu gostaria de ver além da Banânia observações afiadas como as feitas em tantas reportagens de VEJA e por sua equipe de colunistas (não que eu concorde com tudo o que é escrito por alguns dos colunistas, hehehe). E para não parecer chapa branca, cito aqui o texto do Josias de Souza, no seu blog no UOL.

Ele escreve que os “os brasileiros do futuro talvez elejam 2014 como um ano histórico. Dirão que foi o ano em que a política ingressou de vez na Idade Mídia, tornando-se um mero ramo da publicidade”. E eu complemento que se trata de publicidade criminosa. Josias de Souza observa que a pesquisa Datafolha de segunda-feira, mostrando avanço de Mrs. Rousseff sobre Mr. Neves, “reforça a sensação de que o principal fenômeno político da atual sucessão presidencial tem sido, até o momento, o triunfo da ideologia da desconstrução. Depois de triturar Marina Silva, expurgando-a do segundo turno, a usina de demolição em que se converteu o comitê de Dilma Rousseff passa no moedor a imagem de Aécio Neves”.

Josias de Souza ressalva que “Aécio não desabou como Marina. Porém, a campanha de Dilma, a mais marquetada da temporada, vai transformando-o, devagarinho, numa paçoca em que se misturam a apelação do bafômetro à merecida cobrança por atos como a construção do agora célebre aeroporto de Cláudio. Tudo isso recoberto com um creme demofóbico que gruda no candidato tucano as pechas de ameaça aos mais pobres e amigo dos muito ricos. Nessa caricatura de segundo turno, Armínio Fraga faz o papel de Neca Setúbal”.

Tecnicamente falando, é uma campanha de demonização impecável, eficiente para manipular o voto crucial de uma aflita classe média emergente, preocupada com o seu bolso no presente e cuja postura funcional mostra os limites eleitorais da exibição do prontuário de escândalos e crimes do regime PT. Este eleitorado aflito, como escreve Josias de Souza, é suscetível ao discurso petista da mudança “com segurança’, não como “um tiro no escuro”.

Como prêmio de consolação, Josias de Souza lembra que “o jogo continua aberto. Há um derradeiro debate pela frente, na tevê Globo”. Eu espero que até lá os observadores internacionais descasquem a banana podre. Que a cobertura externa amadureça.

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Colher de chá para Josias de Souza, que foi minha referência na Banânia para esta coluna.  E colher de chá cívica para o Emerson (dia 22, 22:50).

 

Ilusões brasileiras (e americanas)

O que podemos observar?

O que podemos observar?

Quando a gente vê o bordão “para-observadores-internacionais-o-cenário-é…., podemos inserir Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, um centro de estudos de Washington. Ele é observador de primeira classe dos cenários na América Latina, invariável referência da imprensa americana quando ela precisa de uma citação abalizada. Eu, por exemplo, leio atentamente as observações dele sobre o cenário venezuelano. E Shifter obviamente não pode faltar ao serviço na reta final da eleição presidencial brasileira.

Seu texto é evidentemente educacional sobre o contexto e o quem é quem na eleição brasileira. Quem quiser as minúcias, aqui estão. Mas, afinal, o que Shifter observa no essencial? Não muito que machuque os olhos. Ele não se mostra muito impressionado. Já que ovo se tornou um componente eleitoral no Brasil, podemos dizer que, no frigir dos ovos, Shifter não observa grandes diferenças entre Mrs. Rousseff e Mr. Neves.

A campanha pode ser eletrizante e imprevisível, na expressão de Mr. Shifter. Existem as farpas, as baixarias e os contrastes, mas o nosso observador não se surpreende. Ele argumenta que não existe um afiado choque ideológico entre petistas e tucanos. Shifter traça um paralelo com a esquerda britânica nos anos 90, quando o New Labour de Tony Blair destronou o Old Labour dominado pelos sindicatos.

Na minha observação, estas batalhas na esquerda que remontam ao final do século 19 são históricas e não devem ser minimizadas. Elas sinalizam mudanças de rumo. E o pessoal do Old Labour está morrendo de velho e não na cadeia, enquanto companheiros do Old PT estão na Papuda, que um dia poderá se tornar QG partidário.

No entanto, Shifter  insiste nas afinidades e não nas bicadas entre tucanos e petistas. Ele escreve que Mrs. Rousseff e Mr. Neves querem “crescimento e estabilidade, redução de pobreza, melhores serviços públicos e mais infraestrutura. Ambos desejam melhores relações com Washington”. Shifter é tão insistente que observa que nesta reta final os dois candidatos “quase que convergiram” nas propostas para reforçar os programas sociais, ceifar a corrupção, proteger o meio ambiente e estimular o crescimento econômico. E tudo isto reduzindo a inflação.

Com uma ironia condescendente (ok, eleitores muitas vezes merecem), Shifter observa que os “eleitores têm exibido um desejo razoável para  ter tudo: continuidade dos programas sociais associados ao PT (ele não menciona que muitos programas nasceram antes do governo Lula), casada com o fim da política usual e práticas corruptas correspondentes que não são apropriadas em uma sociedade democrática moderna.

Shifter toma nota da questão de corrupção e reconhece ser uma das “principais vulnerabilidades” de Mrs. Rousseff. Ele também nota o processo de aparelhamento da burocracia estatal empreendido pelo PT, mas observa tudo isto sem maiores solavancos cerebrais ou sensibilidade. Há uma falha essencial nas observações de Shifter. Ele insiste que o duelo eleitoral é basicamente uma disputa entre projetos gerenciais em um país no qual existe um amplo consenso sobre o caminho que deve ser seguido.

Em inglês, o título do texto é Brazil’s Election Illusion. Eu gosto muito de Michael Shifter, mas neste caso o nosso observador está com ilusão de ótica.

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Colher de chá bem matinal para Andrea no País das Maravilhas (dia 21, 8:11). 

 

20/10/2014

às 6:00 \ Brasil, Índia, Indonésia

Cresça, Brasil, seja uma Indonésia!

Para Jokowi, não será fácil usar a vitória para mudar o seu país

Para Jokowi, não será fácil usar a vitória para mudar o seu país

Em menos de uma semana, no Brasil, teremos a terceira rodada eleitoral. Terceira? Sim, isto mesmo. A decisão Dilma x Aécio no próximo domingo é a terceira eleição em 2014 nas grandes democracias no universo dos países emergentes. Já tivemos na Índia, governada desde maio por Narendra Modi, e esta segunda-feira é dia da posse de Joko Widodo, conhecido como Jokowi, na Indonésia.

São grandes, caóticas e corruptas democracias de países emergentes. Obviamente, há profundas diferenças entre estas três nações. Em comum na Índia e na Indonésia, tivemos o triunfo de políticos de origem bem humilde (Jokowi nasceu em favela), ex-eficientes governadores de estados importantes em seus países e que decolaram na política nacional com a proposta de competência, combate à corrupção, dinamismo e derrocada de velhas elites entrincheiradas no poder (aliás, quem ainda duvida que o PT seja uma velha e corrupta elite entrincheirada no poder?).

E como no Brasil, existe um processo de desaceleração econômica na Índia e na Indonésia (embora os parâmetros sejam de dar muito inveja, pois lentidão nos dois países asiáticos ainda significa expansão acima de 5% ao ano). Sem dúvida, por origem social e pelo espírito ascético, Modi e Jokowi diferem do neto de Tancredo Neves, mas há nos três países cansaço e indignação com o estado das coisas.

Modi é uma figura muito complicada. Ele encarna o nacionalismo hindu e tem um prontuário de hostilidade antimuçulmana. São atributos que ele habilmente abafou na campanha eleitoral e mesmo agora nos primeiros meses de governo faz o possível para que não aflorem. Suas prioridades são literalmente varrer a corrupção e o mofo burocrático (Modi tem obsessão para estar munido com a vassoura). As reformas não acontecem a toque de caixa (ou de vassoura), como alguns esperavam, mas as coisas parecem caminhar na Índia. Ousadamente para um país com profundas desigualdades sociais, Modi acena com mais incentivos ao empreendendorismo e menos assistencialismo social.

O contexto da Indonésia é diferente. Ao contrário de Jokowi, Modi era um veterano militante partidário antes de chegar ao poder nacional.  Jokowi é o primeiro presidente da Indonésia que não pertence às elites políticas e militares pós-independência. A democracia é mais jovem  do que na Índia (a ditadura militar caiu em 1998) e a transição é mais frágil. Jokowi foi alvo de uma incrível campanha de difamação na campanha eleitoral empreendida pela velha guarda que tem à frente seu poderoso rival nas eleições de julho, o ex-general Prabowo Subianto, que foi genro do ditador Suharto, e cuja coalizão tem o controle no Parlamento.

Nada será fácil para o afável e despretensioso Jokowi (de 53 anos). Nobremente, o novo presidente não é chegado no esquema fedido de trocar ministérios por apoio parlamentar, embora haja sinais de que muitos partidos da oposição acenem com a promessa de se alinharem ao novo governo por serem visceralmente da situação. É difícil não nutrir simpatia por Jokowi, especialmente quando a gente o compara com o outro lado, o truculento ex-general Subianto e sua curriola.

Aliás, nada é fácil na Indonésia, apesar do potencial econômico (riquezas naturais e planejamento nacional a longo prazo). Nada fácil por se tratar de um país com 18 mil ilhas e 300 etnias. Com a quarta população mundial (terceira maior democracia) e uma experiência em curso de conciliação de democracia com islamismo (tem a maior população muçulmana do planeta), a Indonésia terá um teste histórico com Jokowi, assim como a Índia está tendo com Narendra Modi. Resta saber se o mesmo vai acontecer no Brasil no próximo domingo.

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Colher de chá para Estevan Natolo Junior (dia 20, 10:11). Com o comentário, debate pode crescer na coluna.

 

18/10/2014

às 23:14 \ Eleições Brasil, Lula

O sucesso de Lula

No comício em BH: onde está o fundo do poço?

No comício em BH: onde está o fundo do poço?

Na coluna O Fracasso de FHC, republicada no sábado, eu abri espaço para o leitor Joventino F. Souza. Agora, eu abro espaço para o comentário da leitora Vânia Cavalcanti (dia 18, 22:42) neste coluneta/contraponto que leva o título óbvio/irônico de O Sucesso de Lula. Por isto, entenda-se o sucesso da degradação da atuação pública de um ex-presidente da República, como a de Lula no comício deste sábado em Belo Horizonte (aqui a reportagem de VEJA.com). No bordão lulista, foi um espetáculo degradante, como raras vezes vimos na história deste país. OMG, o que nos espera na última semana de campanha?

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Oportuníssima reprise, caríssimo Caio. Por favor, deixar um recado para o Carlos Cezar: caro, a denúncia a que você se refere é de uma CPI de 2009 cujo objeto era a Petrobrás, com 11 integrantes, dos quais 3 (três!) eram da oposição, entre os quais, o falecido (hoje) Sérgio Guerra. Pois bem, a comissão estava nas mãos do governo que fez dela o que bem quis e os três votos dos oposicionistas nada podiam. Que tudo se apure, é claro, mas é de se perguntar qual poder de barganha de Sérgio Guerra para exigir 10 milhões (não 20) naquela CPI condenada a pó. Não conheço nem nunca ouvi falar de um peessedebista fanático. Fui filiada ao PT (ah!, a juventude), tive a ficha de filiação rasgada na minha saída, mas era isso ou atar-me a um fanatismo brega-fascistoide com dízimo inegociável de 10%. Hoje sou fanática por um país menos primitivo, menos sujeito a um jeca que se eviscera em palanques acusando adversários do que faz exatamente a súcia que comanda. O jeca saiu da presidência como titular anunciando que ensinaria ao digno FHC como ser um ex-presidente e, hoje, invadiu MG alertando as mulheres contra um suposto Aécio Neves que as espanca, quando a única mulher que apanhou nesta campanha foi Marina Silva, surrada pelo lulopetista marqueteiro-que-se-acha. Pois bem, dia 18 de outubro passará à história como aquele da aula magna da degradação. A patuleia que a tudo assistia gozava entoando xingamentos extras. Assim, sou fanática pelo sonho de que minha filha cresça, estude, ame, viva a vida dela num país em que vermes não pretendam ensinar, acuar e substituir homens dignos. O jeca e sua metafísica fascitoide, apostando na clivagem artificial entre “nós” e “eles”, vêm semeando ódios num país que, ainda que fragmentado por desigualdades dramáticas nas quais o jeca aposta para se perenizar no poder, sempre foi um só. Finalmente poliram um espelho em que muitos brasileiros começam a se mirar. Assim, uma dona vestindo camiseta com a foto de Dilma atacou ontem estudantes que portavam bandeiras do PSDB no DF; vejo discussões envenanadas mesmo entre amigos sobre as eleições nas rede sociais; escuto na rua, no metrô e por aí fragmentos de conversas agressivas sobre o tema, na comprovação lastimável de que muitos de nós nos esquecemos de que, no dia 27 de outubro, estaremos convivendo com os mesmos amigos e vizinhos, que teremos os mesmos colegas de trabalho, que os pais e os colegas dos nossos filhos serão os mesmos, enfim, que o país continua no day after. É o extravasamento do palanque. Então, sou fanática pela ideia de que alguma sobriedade se restaure no país, coisa que o lulopetismo veta por questão de sobrevivência, confortabilíssima sobrevivência.

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Colher de chá para a “migrante” do Twitter Maria Tereza (dia 19, 10:34).

O fracasso do FHC

Um de saco cheio; uma com o voto do porteiro; e outro, fracasso como cabo eleitoral

Um de saco cheio; uma com o voto do porteiro; outro, fracasso de cabo eleitoral (o quarto, bicão na foto)

A coluna abaixo foi publicada inicialmente na última segunda-feira. Sempre viajará na primeira classe da coluna. Nos mais de quatro anos de labuta aqui, ela está enquadrada na galeria das minhas favoritas. Ficará no alto de página provavelmente todo o fim de semana. Está mais para crônica. Por esta razão, lá embaixo, eu transcrevo o perspicaz comentário do leitor Joventino F. Souza. Boa leitura ou releitura a uma semana da eleição.

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O ex-presidente Lula disse estar de “saco cheio” das denúncias sobre corrupção envolvendo o PT. Com outros termos, também se disse cansado do elitismo e do preconceito contra os nordestinos expressado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC disse que Lula não se emenda com estas “pegadinhas”. E, apesar de elogiar a emenda do FHC, eu vou confessar que estou de saco cheio de ser denunciado como puxa-saco do ex-presidente.

Não vou mentir: adoro as participações do FHC no final do ano no Manhattan Connection, da Globo News, todo fim de ano. É um ritual, é um presente aos espectadores. Puxa vida (não sou puxa-saco), mas ainda bem que o FHC é elitista e sofisticado. Ele consegue viajar, na vertical e na horizontal, falando de tudo sobre o Brasil e o mundo, sobre política, economia, cultura e comportamento. Fácil para nós criar a pauta com um convidado como ele. E nos livramos da chatice que é fazer programas de retrospectiva e perspectiva, algo que assola a mídia no final de ano.

Desgalhei. Quero apenas provar aqui que não sou puxa-saco do FHC. Então, eu vou fazer a denúncia bombástica: ele é um fracasso como cabo eleitoral. A prova foi no sábado passado. Eu tenho minhas fontes. FHC veio almoçar no São Paulo Athletic Club (também conhecido como Clube Inglês) em São Paulo, no bairro da Consolação.  Já vão dizer que o FHC é mesmo elitista e chegado nos ex-colonizadores (hoje decadentes).

No entanto, o clube deixou de ser inglês há muito tempo e não tem nada mais de elitista. Verdade que sua localização é um privilégio, um luxo: na área central de São Paulo, com suas piscinas, quadras de tênis e meu amado squash (três quadras!). Como sei de tudo isso? Fui criado ao lado do clube (desde os 10 anos de idade), onde bati muita bola e aprendi a jogar squash. Minha família mora no prédio adjacente em quatro apartamentos (mãe, irmão da mãe, minha irmã e sobrinha). Prédio de nome elitista e colonizado: Queen Mary. E tenho amigos de toda vida no prédio e no clube. Portanto, várias fontes me relataram a história.

FHC foi almoçar no restaurante do São Paulo Athletic Club e na saída fez campanha eleitoral com o Cícero, um dos porteiros do clube (nem é nordestino, é goiano). Tentou convencê-lo a votar no Aécio. Um fiasco político. O porteiro não foi dissuadido pelo sociólogo/presidente. Vai cravar Dilma no dia 26. Muitos sócios souberam do fracasso do nobre cabo eleitoral da oposição e agora estão na luta para convencer o Cícero a votar no Aécio (ele deve estar de saco cheio do assédio). Sabem como é São Paulo: bastião tucano, vanguarda do elitismo.

No entanto, o Cícero não precisa se preocupar com o FHC caso o Aécio vença. Ele não terá problemas com o ex-presidente na sua próxima visita ao clube. FHC vai tratar o eleitor da Dilma com sua nobreza cívica. Tem político que acha normal que o outro lado vença uma eleição (não é golpismo). Será que isto é elitismo? Pronto, sou incorrigível. Cá estou puxando o saco do FHC.

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Colher de chá é do Cícero, o porteiro do clube, boa gente, velho conhecido. Sem ele, meu começo de semana seria um fracasso de inspiração. A ideia era não socializar a colher,  mas preciso dar uma para o Joventino F. Souza (dia 13, 14:56 ). Leiam!

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Deliciosa crônica Caio. A propósito vejam, leitores e militantes deste espaço democrático algumas anotações de Marina Cabral:
A crônica é um gênero que tem relação com a ideia de tempo e consiste no registro de fatos do cotidiano em linguagem literária, conotativa.
A origem da palavra crônica é grega, vem de chronos (tempo), é por isso que uma das características desse tipo de texto é o caráter contemporâneo.
A crônica pode receber diferentes classificações:

- a lírica, em que o autor relata com nostalgia e sentimentalismo;
- a humorística, em que o autor faz graça com o cotidiano;
- a crônica-ensaio, em que o cronista, ironicamente, tece uma crítica ao que acontece nas relações sociais e de poder;
- a filosófica, reflexão a partir de um fato ou evento;
- e jornalística, que apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos, pode ser policial, esportiva, política etc.
Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura.
Assim Caio está tua crônica é atual, tem fino humor – basta ler nas entrelinhas; é um ensaio crítico-filosófico; e é principalmente relevante como fato jornalístico. A foto não poderia ser melhor escolhida; com Sarnei na retaguarda, Lula com cara de Santo e sua pupila com um sorriso de malandra. Hoje ganhei o dia, ou melhor ganhamos, seus leitores.

Joventino, que bacana, adorei seu comentário, por ai mesmo, RECOMENDO aos demais leitores, meu compromisso era apenas com o Cicero na colher de chá, mas nao resisto diante de um comentario tao bacana, out of the box, colher de cha, valeu! Abs, Caio

17/10/2014

às 6:00 \ China, Rússia

O medo de mais caos (fora do Brasil)

O Curso do Império- Destruição (Thomas Cole)

O Curso do Império- Destruição (Thomas Cole)

No imenso primeiro parágrafo de sua pensata, o guru geopolítico Robert Kaplan pinta um quadro aterrorizante e eu vou apenas resumir: colapso de países no Oriente Médio; Afeganistão e Paquistão nunca longe do abismo; a Ucrânia é um estado fraco ameaçado por mais agressão militar russa; países da África que padeceram em atrozes guerras civis nos anos 90 agora são vítimas do Ebola e em outros são as mazelas habituais de genocídios e estados falidos. Em terras latino-americanas, a única menção de Kaplan é para a Venezuela, onde ele vislumbra cada vez mais instabilidade.

Já deu para assustar? Kaplan está apenas começando. Ele matuta: e se o caos que existe em países de porte pequeno e médio acontecer nos grandes? Ele diz não está prevendo o pior, mas especula que Rússia e China podem ser mostrar incapazes, ao longo do século 21, de serem governadas por meios centralizados (vamos traduzir por meios autoritários). Afinal, Kaplan, lembra que o medo sempre existiu na história russa, assim como o perene temor de invasão.

Na verdade, a Rússia é um poder terrestre com poucas defesas naturais para qualquer lado (embora o General Inverno sempre tenha ajudado). E regimes opressivos e autocráticos têm uma tendência para fomentar instituições fracas e personalistas. Na expressão de Kaplan, “Vladimir Putin é a culminação de como a Rússia tem sido governada por mais de um milênio”. Recursos naturais como petróleo e gás natural são as ferramentas para o exercício do seu poder personalista. Trata-se de um país de intimidação, do estilo sabe-com-quem-você-está-falando?, e não de regras estáveis e impessoais.

Então, o que acontecerá com a Rússia depois que o “imortal” Putin partir ou for apeado do poder? Um cenário neste sentido poderá se concretizar nos próximos anos em função dos erros de cálculo do presidente russo com sua intervenção militar na Ucrânia. Melhor não celebrar, alerta Kaplan .O day after poderá ser caos ou a ascensão de um ditador ainda mais brutal para debelar este caos. Para o sombrio guru, sem Putin será mais provável o desmembramento parcial da Rússia do que o estabelecimento de uma democracia ao estilo ocidental.

Na China, o medo do caos também tem prevalecido ao longo da história. As dinastias se sucederam no poder e na transição periodicamente havia caos. O Partido Comunista é apenas a mais recente dinastia, que emergiu após um longo período de guerra e caos. Agora esta dinastia enfrenta a tumultuada transição econômica da Idade Industrial, movida por poluição, salários baixos e exportação, para economia pós-industrial mais limpa, mais sofisticada, de salários mais altos e menos exportações. Na avaliação de Robert Kaplan, o presidente Xi Jinping está usando uma campanha anticorrupção para realizar um grande expurgo e enrijecer o seu controle, preparando o partidão e o país para rigores econômicos.

Em caso de fracasso desta tarefa de Xi Jinping, haverá a possiblidade de constantes distúrbios étnicos entre a população muçulmana no oeste do país e no Tibete, no sudoeste (na sua pensata, Kaplan não menciona a recente mobilização pró-democracia em Hong Kong). Ele aposta que a China não será tão estável nos próximos 30 anos, como nos últimos 30.

Nada esfuziante, Kaplan arremata que a queda de autocracias não significa a ascensão de democracia. E que o enfraquecimento tumultuado do controle central em grandes estados não é uma coisa implausível. Depois de Putin e do partidão chinês, o dilúvio? Tenho medo do caos e também de Robert Kaplan.

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Colher de chá para Ivan I e Burt.

 

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