Blogs e Colunistas

22/10/2014

às 6:00 \ Eleições Brasil

Enquanto isso na Banânia…

Põe podre nisso!

Põe podre nisso!

Na coluna de terça-feira, eu dei um puxãozinha de orelhas em Michael Shifter, do Diálogo Interamericano, por sua ilusão de ótica. Não espero que os chamados observadores internacionais fiquem de olhos arregalados diante do espetáculo nacional. Um pouco de distanciamento é saudável. No entanto, nem tanto.

Melhor ver as coisas com muita atenção para não escorregar na Banânia. Eu nem acho que a imprensa global que acompanha o Brasil e os tais observadores internacionais estejam escorregando de forma escandalosa. O que falta mesmo é descascar a banana, mexer nela para ver como está podre.

Está tudo muito asseado no New York Times e nos outros jornalões. O eficiente correspondente Simon Romero toma nota do Petrolão em reportagem de destaque na segunda-feira. No mesmo dia, o Wall Street Journal  foi perspicaz em reportagem de alto de página sobre o impacto eleitoral da seca em São Paulo e como isto pode chover na roseira de Mrs. Rousseff. Bom jornalismo. O espanhol El Pais, com edição inclusive em português, faz cobertura infatigável, despachando repórteres para diversos rincões brasileiros.

A venerável revista The Economist foi bacana com a ampla reportagem e o editorial à la Carmem Miranda dizendo que Mr. Neves merece ganhar a eleição (veja ilustração acima). Yes, nós temos banana e, como eu já disse, os gringos devem descascá-la, desnudá-la e desmascará-la. Para dar um exemplo direto, eu gostaria de ver além da Banânia observações afiadas como as feitas em tantas reportagens de VEJA e por sua equipe de colunistas (não que eu concorde com tudo o que é escrito por alguns dos colunistas, hehehe). E para não parecer chapa branca, cito aqui o texto do Josias de Souza, no seu blog no UOL.

Ele escreve que os “os brasileiros do futuro talvez elejam 2014 como um ano histórico. Dirão que foi o ano em que a política ingressou de vez na Idade Mídia, tornando-se um mero ramo da publicidade”. E eu complemento que se trata de publicidade criminosa. Josias de Souza observa que a pesquisa Datafolha de segunda-feira, mostrando avanço de Mrs. Rousseff sobre Mr. Neves, “reforça a sensação de que o principal fenômeno político da atual sucessão presidencial tem sido, até o momento, o triunfo da ideologia da desconstrução. Depois de triturar Marina Silva, expurgando-a do segundo turno, a usina de demolição em que se converteu o comitê de Dilma Rousseff passa no moedor a imagem de Aécio Neves”.

Josias de Souza ressalva que “Aécio não desabou como Marina. Porém, a campanha de Dilma, a mais marquetada da temporada, vai transformando-o, devagarinho, numa paçoca em que se misturam a apelação do bafômetro à merecida cobrança por atos como a construção do agora célebre aeroporto de Cláudio. Tudo isso recoberto com um creme demofóbico que gruda no candidato tucano as pechas de ameaça aos mais pobres e amigo dos muito ricos. Nessa caricatura de segundo turno, Armínio Fraga faz o papel de Neca Setúbal”.

Tecnicamente falando, é uma campanha de demonização impecável, eficiente para manipular o voto crucial de uma aflita classe média emergente, preocupada com o seu bolso no presente e cuja postura funcional mostra os limites eleitorais da exibição do prontuário de escândalos e crimes do regime PT. Este eleitorado aflito, como escreve Josias de Souza, é suscetível ao discurso petista da mudança “com segurança’, não como “um tiro no escuro”.

Como prêmio de consolação, Josias de Souza lembra que “o jogo continua aberto. Há um derradeiro debate pela frente, na tevê Globo”. Eu espero que até lá os observadores internacionais descasquem a banana podre. Que a cobertura externa amadureça.

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Colher de chá para Josias de Souza, que foi minha referência na Banânia para esta coluna. 

 

Ilusões brasileiras (e americanas)

O que podemos observar?

O que podemos observar?

Quando a gente vê o bordão “para-observadores-internacionais-o-cenário-é…., podemos inserir Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, um centro de estudos de Washington. Ele é observador de primeira classe dos cenários na América Latina, invariável referência da imprensa americana quando ela precisa de uma citação abalizada. Eu, por exemplo, leio atentamente as observações dele sobre o cenário venezuelano. E Shifter obviamente não pode faltar ao serviço na reta final da eleição presidencial brasileira.

Seu texto é evidentemente educacional sobre o contexto e o quem é quem na eleição brasileira. Quem quiser as minúcias, aqui estão. Mas, afinal, o que Shifter observa no essencial? Não muito que machuque os olhos. Ele não se mostra muito impressionado. Já que ovo se tornou um componente eleitoral no Brasil, podemos dizer que, no frigir dos ovos, Shifter não observa grandes diferenças entre Mrs. Rousseff e Mr. Neves.

A campanha pode ser eletrizante e imprevisível, na expressão de Mr. Shifter. Existem as farpas, as baixarias e os contrastes, mas o nosso observador não se surpreende. Ele argumenta que não existe um afiado choque ideológico entre petistas e tucanos. Shifter traça um paralelo com a esquerda britânica nos anos 90, quando o New Labour de Tony Blair destronou o Old Labour dominado pelos sindicatos.

Na minha observação, estas batalhas na esquerda que remontam ao final do século 19 são históricas e não devem ser minimizadas. Elas sinalizam mudanças de rumo. E o pessoal do Old Labour está morrendo de velho e não na cadeia, enquanto companheiros do Old PT estão na Papuda, que um dia poderá se tornar QG partidário.

No entanto, Shifter  insiste nas afinidades e não nas bicadas entre tucanos e petistas. Ele escreve que Mrs. Rousseff e Mr. Neves querem “crescimento e estabilidade, redução de pobreza, melhores serviços públicos e mais infraestrutura. Ambos desejam melhores relações com Washington”. Shifter é tão insistente que observa que nesta reta final os dois candidatos “quase que convergiram” nas propostas para reforçar os programas sociais, ceifar a corrupção, proteger o meio ambiente e estimular o crescimento econômico. E tudo isto reduzindo a inflação.

Com uma ironia condescendente (ok, eleitores muitas vezes merecem), Shifter observa que os “eleitores têm exibido um desejo razoável para  ter tudo: continuidade dos programas sociais associados ao PT (ele não menciona que muitos programas nasceram antes do governo Lula), casada com o fim da política usual e práticas corruptas correspondentes que não são apropriadas em uma sociedade democrática moderna.

Shifter toma nota da questão de corrupção e reconhece ser uma das “principais vulnerabilidades” de Mrs. Rousseff. Ele também nota o processo de aparelhamento da burocracia estatal empreendido pelo PT, mas observa tudo isto sem maiores solavancos cerebrais ou sensibilidade. Há uma falha essencial nas observações de Shifter. Ele insiste que o duelo eleitoral é basicamente uma disputa entre projetos gerenciais em um país no qual existe um amplo consenso sobre o caminho que deve ser seguido.

Em inglês, o título do texto é Brazil’s Election Illusion. Eu gosto muito de Michael Shifter, mas neste caso o nosso observador está com ilusão de ótica.

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Colher de chá bem matinal para Andrea no País das Maravilhas (dia 21, 8:11). 

 

20/10/2014

às 6:00 \ Brasil, Índia, Indonésia

Cresça, Brasil, seja uma Indonésia!

Para Jokowi, não será fácil usar a vitória para mudar o seu país

Para Jokowi, não será fácil usar a vitória para mudar o seu país

Em menos de uma semana, no Brasil, teremos a terceira rodada eleitoral. Terceira? Sim, isto mesmo. A decisão Dilma x Aécio no próximo domingo é a terceira eleição em 2014 nas grandes democracias no universo dos países emergentes. Já tivemos na Índia, governada desde maio por Narendra Modi, e esta segunda-feira é dia da posse de Joko Widodo, conhecido como Jokowi, na Indonésia.

São grandes, caóticas e corruptas democracias de países emergentes. Obviamente, há profundas diferenças entre estas três nações. Em comum na Índia e na Indonésia, tivemos o triunfo de políticos de origem bem humilde (Jokowi nasceu em favela), ex-eficientes governadores de estados importantes em seus países e que decolaram na política nacional com a proposta de competência, combate à corrupção, dinamismo e derrocada de velhas elites entrincheiradas no poder (aliás, quem ainda duvida que o PT seja uma velha e corrupta elite entrincheirada no poder?).

E como no Brasil, existe um processo de desaceleração econômica na Índia e na Indonésia (embora os parâmetros sejam de dar muito inveja, pois lentidão nos dois países asiáticos ainda significa expansão acima de 5% ao ano). Sem dúvida, por origem social e pelo espírito ascético, Modi e Jokowi diferem do neto de Tancredo Neves, mas há nos três países cansaço e indignação com o estado das coisas.

Modi é uma figura muito complicada. Ele encarna o nacionalismo hindu e tem um prontuário de hostilidade antimuçulmana. São atributos que ele habilmente abafou na campanha eleitoral e mesmo agora nos primeiros meses de governo faz o possível para que não aflorem. Suas prioridades são literalmente varrer a corrupção e o mofo burocrático (Modi tem obsessão para estar munido com a vassoura). As reformas não acontecem a toque de caixa (ou de vassoura), como alguns esperavam, mas as coisas parecem caminhar na Índia. Ousadamente para um país com profundas desigualdades sociais, Modi acena com mais incentivos ao empreendendorismo e menos assistencialismo social.

O contexto da Indonésia é diferente. Ao contrário de Jokowi, Modi era um veterano militante partidário antes de chegar ao poder nacional.  Jokowi é o primeiro presidente da Indonésia que não pertence às elites políticas e militares pós-independência. A democracia é mais jovem  do que na Índia (a ditadura militar caiu em 1998) e a transição é mais frágil. Jokowi foi alvo de uma incrível campanha de difamação na campanha eleitoral empreendida pela velha guarda que tem à frente seu poderoso rival nas eleições de julho, o ex-general Prabowo Subianto, que foi genro do ditador Suharto, e cuja coalizão tem o controle no Parlamento.

Nada será fácil para o afável e despretensioso Jokowi (de 53 anos). Nobremente, o novo presidente não é chegado no esquema fedido de trocar ministérios por apoio parlamentar, embora haja sinais de que muitos partidos da oposição acenem com a promessa de se alinharem ao novo governo por serem visceralmente da situação. É difícil não nutrir simpatia por Jokowi, especialmente quando a gente o compara com o outro lado, o truculento ex-general Subianto e sua curriola.

Aliás, nada é fácil na Indonésia, apesar do potencial econômico (riquezas naturais e planejamento nacional a longo prazo). Nada fácil por se tratar de um país com 18 mil ilhas e 300 etnias. Com a quarta população mundial (terceira maior democracia) e uma experiência em curso de conciliação de democracia com islamismo (tem a maior população muçulmana do planeta), a Indonésia terá um teste histórico com Jokowi, assim como a Índia está tendo com Narendra Modi. Resta saber se o mesmo vai acontecer no Brasil no próximo domingo.

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Colher de chá para Estevan Natolo Junior (dia 20, 10:11). Com o comentário, debate pode crescer na coluna.

 

18/10/2014

às 23:14 \ Eleições Brasil, Lula

O sucesso de Lula

No comício em BH: onde está o fundo do poço?

No comício em BH: onde está o fundo do poço?

Na coluna O Fracasso de FHC, republicada no sábado, eu abri espaço para o leitor Joventino F. Souza. Agora, eu abro espaço para o comentário da leitora Vânia Cavalcanti (dia 18, 22:42) neste coluneta/contraponto que leva o título óbvio/irônico de O Sucesso de Lula. Por isto, entenda-se o sucesso da degradação da atuação pública de um ex-presidente da República, como a de Lula no comício deste sábado em Belo Horizonte (aqui a reportagem de VEJA.com). No bordão lulista, foi um espetáculo degradante, como raras vezes vimos na história deste país. OMG, o que nos espera na última semana de campanha?

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Oportuníssima reprise, caríssimo Caio. Por favor, deixar um recado para o Carlos Cezar: caro, a denúncia a que você se refere é de uma CPI de 2009 cujo objeto era a Petrobrás, com 11 integrantes, dos quais 3 (três!) eram da oposição, entre os quais, o falecido (hoje) Sérgio Guerra. Pois bem, a comissão estava nas mãos do governo que fez dela o que bem quis e os três votos dos oposicionistas nada podiam. Que tudo se apure, é claro, mas é de se perguntar qual poder de barganha de Sérgio Guerra para exigir 10 milhões (não 20) naquela CPI condenada a pó. Não conheço nem nunca ouvi falar de um peessedebista fanático. Fui filiada ao PT (ah!, a juventude), tive a ficha de filiação rasgada na minha saída, mas era isso ou atar-me a um fanatismo brega-fascistoide com dízimo inegociável de 10%. Hoje sou fanática por um país menos primitivo, menos sujeito a um jeca que se eviscera em palanques acusando adversários do que faz exatamente a súcia que comanda. O jeca saiu da presidência como titular anunciando que ensinaria ao digno FHC como ser um ex-presidente e, hoje, invadiu MG alertando as mulheres contra um suposto Aécio Neves que as espanca, quando a única mulher que apanhou nesta campanha foi Marina Silva, surrada pelo lulopetista marqueteiro-que-se-acha. Pois bem, dia 18 de outubro passará à história como aquele da aula magna da degradação. A patuleia que a tudo assistia gozava entoando xingamentos extras. Assim, sou fanática pelo sonho de que minha filha cresça, estude, ame, viva a vida dela num país em que vermes não pretendam ensinar, acuar e substituir homens dignos. O jeca e sua metafísica fascitoide, apostando na clivagem artificial entre “nós” e “eles”, vêm semeando ódios num país que, ainda que fragmentado por desigualdades dramáticas nas quais o jeca aposta para se perenizar no poder, sempre foi um só. Finalmente poliram um espelho em que muitos brasileiros começam a se mirar. Assim, uma dona vestindo camiseta com a foto de Dilma atacou ontem estudantes que portavam bandeiras do PSDB no DF; vejo discussões envenanadas mesmo entre amigos sobre as eleições nas rede sociais; escuto na rua, no metrô e por aí fragmentos de conversas agressivas sobre o tema, na comprovação lastimável de que muitos de nós nos esquecemos de que, no dia 27 de outubro, estaremos convivendo com os mesmos amigos e vizinhos, que teremos os mesmos colegas de trabalho, que os pais e os colegas dos nossos filhos serão os mesmos, enfim, que o país continua no day after. É o extravasamento do palanque. Então, sou fanática pela ideia de que alguma sobriedade se restaure no país, coisa que o lulopetismo veta por questão de sobrevivência, confortabilíssima sobrevivência.

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Colher de chá para a “migrante” do Twitter Maria Tereza (dia 19, 10:34).

O fracasso do FHC

Um de saco cheio; uma com o voto do porteiro; e outro, fracasso como cabo eleitoral

Um de saco cheio; uma com o voto do porteiro; outro, fracasso de cabo eleitoral (o quarto, bicão na foto)

A coluna abaixo foi publicada inicialmente na última segunda-feira. Sempre viajará na primeira classe da coluna. Nos mais de quatro anos de labuta aqui, ela está enquadrada na galeria das minhas favoritas. Ficará no alto de página provavelmente todo o fim de semana. Está mais para crônica. Por esta razão, lá embaixo, eu transcrevo o perspicaz comentário do leitor Joventino F. Souza. Boa leitura ou releitura a uma semana da eleição.

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O ex-presidente Lula disse estar de “saco cheio” das denúncias sobre corrupção envolvendo o PT. Com outros termos, também se disse cansado do elitismo e do preconceito contra os nordestinos expressado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC disse que Lula não se emenda com estas “pegadinhas”. E, apesar de elogiar a emenda do FHC, eu vou confessar que estou de saco cheio de ser denunciado como puxa-saco do ex-presidente.

Não vou mentir: adoro as participações do FHC no final do ano no Manhattan Connection, da Globo News, todo fim de ano. É um ritual, é um presente aos espectadores. Puxa vida (não sou puxa-saco), mas ainda bem que o FHC é elitista e sofisticado. Ele consegue viajar, na vertical e na horizontal, falando de tudo sobre o Brasil e o mundo, sobre política, economia, cultura e comportamento. Fácil para nós criar a pauta com um convidado como ele. E nos livramos da chatice que é fazer programas de retrospectiva e perspectiva, algo que assola a mídia no final de ano.

Desgalhei. Quero apenas provar aqui que não sou puxa-saco do FHC. Então, eu vou fazer a denúncia bombástica: ele é um fracasso como cabo eleitoral. A prova foi no sábado passado. Eu tenho minhas fontes. FHC veio almoçar no São Paulo Athletic Club (também conhecido como Clube Inglês) em São Paulo, no bairro da Consolação.  Já vão dizer que o FHC é mesmo elitista e chegado nos ex-colonizadores (hoje decadentes).

No entanto, o clube deixou de ser inglês há muito tempo e não tem nada mais de elitista. Verdade que sua localização é um privilégio, um luxo: na área central de São Paulo, com suas piscinas, quadras de tênis e meu amado squash (três quadras!). Como sei de tudo isso? Fui criado ao lado do clube (desde os 10 anos de idade), onde bati muita bola e aprendi a jogar squash. Minha família mora no prédio adjacente em quatro apartamentos (mãe, irmão da mãe, minha irmã e sobrinha). Prédio de nome elitista e colonizado: Queen Mary. E tenho amigos de toda vida no prédio e no clube. Portanto, várias fontes me relataram a história.

FHC foi almoçar no restaurante do São Paulo Athletic Club e na saída fez campanha eleitoral com o Cícero, um dos porteiros do clube (nem é nordestino, é goiano). Tentou convencê-lo a votar no Aécio. Um fiasco político. O porteiro não foi dissuadido pelo sociólogo/presidente. Vai cravar Dilma no dia 26. Muitos sócios souberam do fracasso do nobre cabo eleitoral da oposição e agora estão na luta para convencer o Cícero a votar no Aécio (ele deve estar de saco cheio do assédio). Sabem como é São Paulo: bastião tucano, vanguarda do elitismo.

No entanto, o Cícero não precisa se preocupar com o FHC caso o Aécio vença. Ele não terá problemas com o ex-presidente na sua próxima visita ao clube. FHC vai tratar o eleitor da Dilma com sua nobreza cívica. Tem político que acha normal que o outro lado vença uma eleição (não é golpismo). Será que isto é elitismo? Pronto, sou incorrigível. Cá estou puxando o saco do FHC.

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Colher de chá é do Cícero, o porteiro do clube, boa gente, velho conhecido. Sem ele, meu começo de semana seria um fracasso de inspiração. A ideia era não socializar a colher,  mas preciso dar uma para o Joventino F. Souza (dia 13, 14:56 ). Leiam!

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Deliciosa crônica Caio. A propósito vejam, leitores e militantes deste espaço democrático algumas anotações de Marina Cabral:
A crônica é um gênero que tem relação com a ideia de tempo e consiste no registro de fatos do cotidiano em linguagem literária, conotativa.
A origem da palavra crônica é grega, vem de chronos (tempo), é por isso que uma das características desse tipo de texto é o caráter contemporâneo.
A crônica pode receber diferentes classificações:

- a lírica, em que o autor relata com nostalgia e sentimentalismo;
- a humorística, em que o autor faz graça com o cotidiano;
- a crônica-ensaio, em que o cronista, ironicamente, tece uma crítica ao que acontece nas relações sociais e de poder;
- a filosófica, reflexão a partir de um fato ou evento;
- e jornalística, que apresenta aspectos particulares de notícias ou fatos, pode ser policial, esportiva, política etc.
Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura.
Assim Caio está tua crônica é atual, tem fino humor – basta ler nas entrelinhas; é um ensaio crítico-filosófico; e é principalmente relevante como fato jornalístico. A foto não poderia ser melhor escolhida; com Sarnei na retaguarda, Lula com cara de Santo e sua pupila com um sorriso de malandra. Hoje ganhei o dia, ou melhor ganhamos, seus leitores.

Joventino, que bacana, adorei seu comentário, por ai mesmo, RECOMENDO aos demais leitores, meu compromisso era apenas com o Cicero na colher de chá, mas nao resisto diante de um comentario tao bacana, out of the box, colher de cha, valeu! Abs, Caio

17/10/2014

às 6:00 \ China, Rússia

O medo de mais caos (fora do Brasil)

O Curso do Império- Destruição (Thomas Cole)

O Curso do Império- Destruição (Thomas Cole)

No imenso primeiro parágrafo de sua pensata, o guru geopolítico Robert Kaplan pinta um quadro aterrorizante e eu vou apenas resumir: colapso de países no Oriente Médio; Afeganistão e Paquistão nunca longe do abismo; a Ucrânia é um estado fraco ameaçado por mais agressão militar russa; países da África que padeceram em atrozes guerras civis nos anos 90 agora são vítimas do Ebola e em outros são as mazelas habituais de genocídios e estados falidos. Em terras latino-americanas, a única menção de Kaplan é para a Venezuela, onde ele vislumbra cada vez mais instabilidade.

Já deu para assustar? Kaplan está apenas começando. Ele matuta: e se o caos que existe em países de porte pequeno e médio acontecer nos grandes? Ele diz não está prevendo o pior, mas especula que Rússia e China podem ser mostrar incapazes, ao longo do século 21, de serem governadas por meios centralizados (vamos traduzir por meios autoritários). Afinal, Kaplan, lembra que o medo sempre existiu na história russa, assim como o perene temor de invasão.

Na verdade, a Rússia é um poder terrestre com poucas defesas naturais para qualquer lado (embora o General Inverno sempre tenha ajudado). E regimes opressivos e autocráticos têm uma tendência para fomentar instituições fracas e personalistas. Na expressão de Kaplan, “Vladimir Putin é a culminação de como a Rússia tem sido governada por mais de um milênio”. Recursos naturais como petróleo e gás natural são as ferramentas para o exercício do seu poder personalista. Trata-se de um país de intimidação, do estilo sabe-com-quem-você-está-falando?, e não de regras estáveis e impessoais.

Então, o que acontecerá com a Rússia depois que o “imortal” Putin partir ou for apeado do poder? Um cenário neste sentido poderá se concretizar nos próximos anos em função dos erros de cálculo do presidente russo com sua intervenção militar na Ucrânia. Melhor não celebrar, alerta Kaplan .O day after poderá ser caos ou a ascensão de um ditador ainda mais brutal para debelar este caos. Para o sombrio guru, sem Putin será mais provável o desmembramento parcial da Rússia do que o estabelecimento de uma democracia ao estilo ocidental.

Na China, o medo do caos também tem prevalecido ao longo da história. As dinastias se sucederam no poder e na transição periodicamente havia caos. O Partido Comunista é apenas a mais recente dinastia, que emergiu após um longo período de guerra e caos. Agora esta dinastia enfrenta a tumultuada transição econômica da Idade Industrial, movida por poluição, salários baixos e exportação, para economia pós-industrial mais limpa, mais sofisticada, de salários mais altos e menos exportações. Na avaliação de Robert Kaplan, o presidente Xi Jinping está usando uma campanha anticorrupção para realizar um grande expurgo e enrijecer o seu controle, preparando o partidão e o país para rigores econômicos.

Em caso de fracasso desta tarefa de Xi Jinping, haverá a possiblidade de constantes distúrbios étnicos entre a população muçulmana no oeste do país e no Tibete, no sudoeste (na sua pensata, Kaplan não menciona a recente mobilização pró-democracia em Hong Kong). Ele aposta que a China não será tão estável nos próximos 30 anos, como nos últimos 30.

Nada esfuziante, Kaplan arremata que a queda de autocracias não significa a ascensão de democracia. E que o enfraquecimento tumultuado do controle central em grandes estados não é uma coisa implausível. Depois de Putin e do partidão chinês, o dilúvio? Tenho medo do caos e também de Robert Kaplan.

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Colher de chá para Ivan I e Burt.

16/10/2014

às 11:10 \ Aécio Neves, Dilma Rousseff, Eleições Brasil

Mr. Neves merece ganhar

Que desolação!

Que desolação!

Yes, nós temos Dilma Rousseff. Hora de dar uma banana podre para a presidente. A revista The Economist na sua tradição de se meter nos assuntos internos de outros países (faz muito bem) acaba de endossar a oposição em editorial. Na expressão da publicação, Mr. Neves merece ganhar.  Na tradição do meu Twitter (@caioblinder), eu uso a expressão Manchete Brazil. Está lá o meu tuíte, mas na verdade uma manchete sensacionalista seria a contrária: Mrs. Rousseff merece ganhar. Imagine, The Economist é revista da elite, não é “desinformada”. O mínimo que ela poderia fazer era este endosso de Mr. Neves. O resto cabe ao candidato.

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Colher de chá econômica para Victor M. Costa (dia 16, 13:18).

16/10/2014

às 6:00 \ Barbárie, Ebola, Siraque, Terror

Ebola e Estado Islâmico

Vítimas na LIbéria

Vítimas na LIbéria

O que existe em comum entre Ebola e Estado Islâmico? Um ponto óbvio: são vírus que devem ser combatidos sem fronteiras. Richard Gowan, professor da New York University, vai além no diagnóstico. Governos e organizações internacionais estão pagando um preço muito alto pela lentidão nas respostas a estas epidemias.

No caso do Ebola, a epidemia talvez não tivesse se alastrado como aconteceu, gerando tanto pânico global, caso um esforço médico mais vigoroso tivesse sido colocado em marcha no começo do ano para conter o vírus quando ele apareceu na Libéria e em Serra Leoa. Gowan faz o parelelo com o terror. Uma ação militar de países ocidentais e árabes meses atrás, além de um venal mas necessário acordo com a ditadura síria, para combater um inimigo comum talvez tivesse contido o avanço do Estado Islâmico no Iraque. No meu diagnóstico, epidemia no Oriente Médio não é debelada com os préstimos de doutores como Bashar Assad (desvendando o trocadilho, ele é oftalmologista).

No entanto, vale o paralelo essencial de Richard Gowan. Com os dois vírus, por muito tempo tivemos o jogo da culpa. Por exemplo, a ONG Médicos sem Fronteiras, que inicialmente levantou o alarme sobre o Ebola, acusou a Organização Mundial de Saúde (OMS) de ter atuado com lentidão. Nos EUA, prossegue o jogo de culpa e existe a sensação de que o governo Obama não sabe exatamente como atuar. De um lado, acusado de ineficácia e, de outro, de exagerar o perigo.

Vítimas no Iraque

Vítimas no Iraque

Por ossos do ofício, estou mais à vontade para discutir o vírus terrorista. Aqui também tivemos o jogo de culpa (Obama finalmente reconheceu que a inteligência americana falhou para detectar o tamanho do perigo) e a resposta global ao Estado Islâmico, para dizer o mínimo, é sofrível. Fala-se que será uma longa campanha e a sinalização é de que a meta, apesar da retórica beligerante, não é dar cabo do vírus, mas contê-lo.

Nos dois casos, falta foco estratégico. Richard Gowan diz que no caso dos países mais ricos e poderosos existe uma aversão ao risco. E isto está patente na agonia da cidade de Kobani, na Síria, acossada pelos terroristas do Estado Islâmico. A resposta da coalizão liderada pelos EUA é cautelosa. Existe uma estratégia limitada para enfrentar o inimigo.

No caso geopolítico, é até possível argumentar que a cautela faz sentido. Afinal, uma intervenção da pesada no Siraque (Síria + Iraque) pode gerar mais mutações terroristas e trazer ainda mais instabilidade (será possível?). No entanto, tal argumento não é persuasivo no caso do Ebola, no raciocínio de Richard Gowan. A resposta global é inadequada ao ponto de inquietação e governos prometeram quantias módicas (cerca de US$ 250 milhões) para enfrentar a crise. Compreensível que cada país esteja mais preocupado com o problema dentro de suas fronteiras, mas o foco deve ser na África Ocidental.

São dias bicudos de austeridade econômica, volatilidade nos mercados e de um acúmulo de tensões geopolíticas, mas em esferas nacionais e multilaterais são necessárias ações mais efetivas para enfrentar emergências e vírus de todos os tipos.

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Colher de chá para Aislan (dia 16, 7:45).

 

 

 

15/10/2014

às 6:00 \ Eleições Brasil, Eleições EUA

Apatia eleitoral…nos EUA

Jovens não despertaram para a votação de novembro

Jovens não despertaram para a votação de novembro

Política é uma droga e os junkies, especialmente os jornalistas viciados no assunto, estão desolados com a falta de dependência da maioria dos eleitores e a votação acontece em menos de três semanas. A apatia no caso é a dos americanos. Nas eleições de 4 de novembro, estará em jogo o destino do Congresso, onde os republicanos irão manter o controle da Câmara e têm boas chances de tomar o Senado.

Mais para frente, este junkie que aqui escreve irá explicar a importância desta eleição, mas por ora registra como as veias dos eleitores americanos parecem fechadas para injetar a droga. Pesquisa do Pew Research Center (eu confio nessa) salienta que apenas 15% dos americanos estão acompanhando com atenção a campanha para as eleições de novembro. Muito mais interesse existe com as andanças do vírus Ebola e as barbaridades terroristas do Estado Islâmico.

O dado mais preocupante para os democratas é a espetacular apatia dos jovens (base de sustentação da onda Obama). Apenas 5% estão ligados na eleição de novembro. Semanas atrás, havia mais interesse entre os jovens americanos nas manifestações pró-democracia em Hong Kong, impulsionadas por estudantes. E como é de se esperar, os eleitores mais velhos (mais alinhados com os republicanos) estão mais antenados.

Em geral, o interesse e o comparecimento às urnas caem nas chamadas eleições de meio de mandato (quando a Casa Branca não está em jogo). A mobilização é maior entre as bases republicanas e democratas, o que permite o espetáculo do discurso mais radical e este ano se revela intensa a batalha entre mensagens populistas (ao contrário de outros ciclos, isto também está mais acentuado na esquerda, ou seja, entre os democratas e não apenas no já venerável Tea Party).

Como eu disse, eu voltarei a falar da droga política americana. Nas próximas semanas, porém, estarei mais dependente do Brasil, picado na veia por nossa eleição.

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Nota A para A. (o nick mais conciso nesta coluna), colher de chá (dia 15, 11:26).

14/10/2014

às 6:00 \ Ebola

Ebola, o vírus político



Como alertar sem gerar alarmismo?

Como alertar sem gerar alarmismo?

Ebola é um vírus que mata e assusta. Sempre difícil calibrar a necessidade de prevenir e alertar sobre uma epidemia e a tarefa de prevenção do alarmismo. Para ficar apenas nos EUA, está aí o vírus do histerismo, do oportunismo político e da leviandade.

John Cassidy, da revista The New Yorker, relata o papo de duas pessoas em uma loja de ferragens no Brooklyn. Um vendedor, ecoando a sabedoria dos demagogos do talk radio, disse que a solução era fechar o país para a entrada de estrangeiros e recorrer à eutanásia dos doentes. Excessivo? A outra sábia proposta no papo da loja era jogar uma bomba atômica na Libéria, um dos focos da epidemia.

No ritual americano da desconfiança populista das instituições, existem ataques aloprados contra o governo e contra os “chamados especialistas” (aqui um artigo com os especialistas para conter as especulações e o alarmismo).  Temos a doença da polarização. Republicanos desconfiam do governo Obama e a palavra-de-ordem é investir contra sua incompetência para combater de tudo, do terror do Estado Islâmico ao terror da epidemia Ebola. Dá para imaginar se um republicano fosse o presidente. Ele seria o alvo de ataques do gênero.

No entanto, são seis anos de Obama na Casa Branca, algo irresistível para os demagogos do circuito talk radio/Fox News irem à carga com fúria e ignorância. O suspeito habitual Rush Limbaugh pede que as fronteiras sejam completamente fechadas. Presidenciáveis republicanos como o doutor Rand Paul estão infatigáveis no alarmismo, acusando o governo de minimizar a gravidade Ebola em função do “politicamente correto” (precisa fazer média com os negros e imigrantes).

Teorias conspiratórias são epidêmicas. O bom senso indica que medidas de precaução e de quarentena pontual devem ser adotadas, mas não faz sentido e nem é possível isolar o país. Deve haver uma estratégia de abertura controlada e uma luta global para combater o vírus na fonte, na África.

Haja paciência para esta conversa picareta na loja de ferragens do Brooklyn. Barack Obama é um presidente frágil e a tentação de soluções fáceis e insensatas é devastadora. Se tivermos mais casos de Ebola nos EUA, o presidente será de vez tratado como um vírus por muita gente.

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Colher de chá para o receituário de Yes, We Scam (dia 14, 11:43).

 

 

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