Blogs e Colunistas

23/11/2014

às 6:00 \ China

O fim do milagre chinês?

Implosão do modelo?

Implosão do modelo?

Eu conheci Bob Davis, um veterano jornalista do The Wall Street Journal na década passada em Nova York em um painel sobre imprensa e a imagem da América Latina. Pessoa finíssima. Na época, ele era encarregado, baseado em Nova York, da cobertura de países emergentes. Eram dias de deslumbramento com o Brasil e os demais integrantes dos Brics, eram tempos em que crise era considerada “marolinha”.

Em 2010, o Wall Street Journal deslocou Bob Davis para a China. No sábado, ele publicou um ensaio reflexivo agora que chegou ao final de quatro anos de trabalho em Pequim. O título é este que eu apropriei para esta coluneta dominical: O fim do milagre chinês? Infelizmente, acesso apenas para assinantes do jornal. Quando Davis chegou, a China crescia anualmente a quase 10% ao ano, por três décadas, um feito sem precedentes na história econômica moderna. Agora, existe desaceleração, com crescimento na faixa de 7%.

Bob Davis está pessimista sobre o futuro econômico chinês. Ele atribui a desaceleração a dois fatores básicos: O primeiro é a dívida, que criou uma bolha imobiliária. O guindaste de construção nem sempre é símbolo de vitalidade econômica. Pode ser também de uma economia que desgalhou. E o segundo fator é corrupção. O todo-poderoso presidente Xi Jinping quer reverter a desaceleração e uma pedra-de-toque é uma cruzada contra a corrupção, que é arbitrária e inescrupulosa em uma ditadura como a chinesa.

Entre as “historinhas” no ensaio de Bob Davis, eu destaco a seguinte: ele entrevistou um estudante de engenharia e ficou impressionado com os planos de vida do rapaz. Os pais tinham ficado ricos ao construírem uma fábrica de sapatos. No entanto, o filho não queria seguir o o mesmo caminho de empreendendorismo. Tampouco, este era o desejo dos pais. E qual conselho eles deram para o filho? Trabalhar para o estado. O emprego seria estável e quem sabe ele descolaria um posto governamental através do qual pudesse ajudar os negócios da família. Sem conexões (guanxi), não há milagre na China.

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Nada de clima deprê no domingão. Colher de chá para o humor de Daniela de Lima e Iuri (dia 23, 17:43).

22/11/2014

às 6:00 \ Imprensa, Israel, Palestinos

Israel, a obsessão

Assunto não falta, mas...

Assunto não falta, mas…

Um Obama, um Putin, uma crise na Ucrânia, uma decapitação no Siraque, uma bobagem emanada da cabeça de algum político agitam os leitores da coluna. No entanto, nada se compara a Israel/palestinos. Esta semana, mais uma vez, imperou a obsessão entre os leitores com minhas duas colunas sobre o atentado terrorista palestino em Jerusalém. O assunto ocupou o espaço, com um debate passional a favor ou contra de um lado ou de outro. Não surpreende. O tema, aliás, é obsessão na imprensa. Eu sou obcecado desde que tinha calça curta e muito cabelo. Desde sempre colaboro em jornais da imprensa judaica brasileira. Estou fincado na Tribuna Judaica do meu querido amigo Joel Rechtman. Aproveito o sábadão (o shabat) para republicar uma recente coluna que escrevi na Tribuna sobre esta obsessão da imprensa. Boa leitura!

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O nome deste jornal é Tribuna Judaica. Seu papel é publicar material sobre judaísmo, a comunidade judaica no Brasil e no mundo, temas relativos a Israel e ao Oriente Médio. São, aliás, são as pautas no meu trabalho de colunista no jornal. Caso não agisse desta maneira, eu não estaria fazendo o meu trabalho, não seria profissional. Meu foco é na medida.

No entanto, este interesse com a pauta israelense e por extensão do conflito do estado de Israel com o mundo árabe (reduzido à questão palestina) é uma obsessão da mídia global. Isto acontece em todas as partes, Basta ver a ênfase no noticiário da imprensa brasileira. Esta imprensa é provinciana e dá pouca atenção aos complexos temas internacionais, exceto quando envolvem diretamente o Brasil, surgem notícias espetaculares ou falta notícia local. Nos idos de julho/agosto foi possível flagrar a intensidade desta obsessão no mundo e no Brasil com o conflito em Gaza. Merece? E qual é o viés?

As respostas pontuais e afiadas foram dadas em um texto obrigatório do veterano jornalista americano Matti Friedman, com duas décadas de experiência de cobertura do Oriente Médio, a destacar seus tempos a serviço da agência de notícias Associated Press, baseado em Jerusalém. A partir do ensaio que Friedman publicou em agosto no site judaico norte-americano Tablet, a conversa rendeu e ele deu várias entrevistas. Nada como um insider para contar como as coisas funcionam. Aliás, o título irônico e crítico do ensaio de Friedman é: An Insider’s Guide to the Most Important Story on Earth.

Histeria

O ensaio de Friedman, no estilo de guerreiro cansado de guerra, tem um tom melancólico. Ele define tanto interesse no conflito de Gaza como “histérico” e quando a histeria desvanecer (ele escreveu antes do cessar-fogo mediado pelo Egito) os eventos não serão lembrados como particularmente importantes. Afinal, não foi o primeiro e nem será último duelo entre israelenses e árabes. O ponto martelado por Friedman é na maneira como esta guerra em Gaza foi descrita no exterior, confirmando como nestas horas ressurge o padrão distorcido no exterior. Na expressão de Friedman: “Uma obsessão hostil com os judeus”. Existe uma “mania global” com Israel e isto é responsabilidade da indústria da mídia.

Há trechos no ensaio de Friedman que devem ser parte do currículo de qualquer faculdade de jornalismo, devem ser motivo de debates em conferências e de conversas nas redações (ou pelo menos do que sobrou delas devido à crise de proporções bíblicas na imprensa). Como escreve Friedman, esta obsessão com Israel evidencia uma grave disfunção no exercício da profissão jornalística. E como ele sabe do que está falando. Friedman foi repórter e editor no escritório da Associated Press em Jerusalém entre 2006 e 2011. E para quem não sabe, a AP e a Reuters são as duas maiores provedoras de notícias no mundo. Além disso, Friedman vive em Israel desde 1995 e começou a trabalhar como jornalista na região em 1997.

A estrutura de uma organização jornalística é a melhor medida da importância de uma história para ela. Pois bem, quando Friedman era correspondente da AP, a agência tinha mais de 40 profissionais cobrindo Israel e os territórios palestinos. Era uma equipe maior do que a AP tinha na China, na Rússia ou em mais de 50 países da África Negra.

Antes da guerra civil na Síria que irrompeu em 2011, a AP tinha no país apenas um stringer, um colaborador fixo, ou seja, o país possuía uma importância 40 vezes menor do que a de Israel e os palestinos. Desde então, é claro, com os eventos gerados pela Primavera Árabe e conflitos na área que eu rotulo de Siraque (Síria + Iraque), diminuiu o nível do “staff” das empresas jornalísticas em Israel e aumentou nos demais países da região. No entanto, quando acontece um evento como Gaza, é o estouro da boiada.

Insanidade

O texto de Friedman é lapidar. O volume de cobertura de Israel é insano. Em todo ano de 2013, o conflito entre Israel e os palestinos ceifou 42 vidas. Esta é a taxa mensal de homicídios em Chicago. Jerusalém é uma cidade de conflitos e tensa. Isto ficou patente quando os terroristas do Hamas dispararam foguetes em julho/agosto. No entanto, Jerusalém é uma cidade mais segura do que Portland, no estado americano de Oregon, na comparação feita por Friedman. Minha filha mais velha vive em Portland. Será que devo aconselhá-la a mudar para Jerusalém? Mas o que fazer? Para a imprensa global, Israel é mais importante história na face da Terra ou perto disso.

Creio que o mais importante neste debate sobre obsessão e disfunção da imprensa quando o assunto é Israel é o aspecto qualitativo (embora os números apresentados por Friedman sejam ilustrativos e sintomáticos). O ponto essencial é o empenho para analisar e criticar as ações de Israel. Cada defeito do governo de Israel ou da sua sociedade israelense é agressivamente noticiado pela imprensa mundial. E aqui de novo, é importante contar com os préstimos e os números do insider Matti Friedman.

Ele relata que em um periodo de sete semanas no final de 2011, contou as histórias produzidas pela sucursal da AP em Israel sobre as várias “falhas morais” da sociedade de Israel. Temas como legislação para cercear a imprensa, a crescente influência dos ortodoxos, assentamentos ilegais sendo fincados na Cisjordânia, segregação sexual e vai por aí. Foram 27 artigos, muito mais do que reportagens críticas sobre o governo e a sociedade palestinas, incluindo o totalitarismo islâmico do Hamas publicadas pela AP nos três anos anteriores.

Fundamental é entender a moldura das história. Ela está sendo emoldurada da mesma forma desde o início dos anos 90, da busca da solução dos dois estados, ou seja no contexto do conflito entre Israel e os palestinos, de maioria dos poderosos judeus e da minoria das vítimas palestinas. No entanto, a moldura correta seria de um conflito Israel-árabes ou judeus-árabes, ou seja, de um conflito entre seis milhões de judeus e 300 milhões de árabes (nem vamos colocar a moldura de judeus e muçulmanos, englobando ainda, por exemplo, a Turquia e e o Irã).

Quando nos limitamos a um conflito entre Israel e palestinos, além da questão dos agressores versus vítimas, existe o equívoco de achar que se o problema palestino for resolvido, muito mais será resolvido. E sabemos das complexidades na região para não se iludir com isto. A definição limitada permite que o projeto de assentamentos judaicos, que Friedman (assim como eu) considera um “sério erro estratégico e moral” da parte de Israel, seja definido como causa e não como sintoma.

Sobressalto

Na disfunção e na overdose da imprensa global com Israel estamos de volta à obsessão de séculos com os judeus. O povo judeu é o símbolo do que existe errado. Os judeus são sovinas, os judeus são covardes, os judeus querem mandar no mundo, os judeus são líderes de uma confraria capitalista, os judeus são líderes de uma uma confraria comunista. O defeito moral está no DNA judaico. Esta visão está encravada na tradição cristã, agora estendida de forma virulenta ao mundo muçulmano. Um complexo de culpa europeu pós-Holocausto está sendo abafado e dá lugar um um tom mais despojado sobre Israel.

Com saudável paranoia, Matti Friedman assume o seu judaísmo sobressaltado. Ele diz que como tantos judeus que cresceram no seguro e civilizado mundo ocidental do final do século 20, ele descartava a inquietação dos seus avós sobre antissemitismo. No entanto, a obsessão com Gaza nos idos de julho/agosto confirmou a sabedoria dos avós.

No Ocidente (nem precisamos colocar o mundo árabe-islâmico no contexto), existe intolerância com Israel. O único país judaico do mundo tem feito mais bem do que mal do que a imensa maioria de países na Terra. Mesmo assim, acaba sendo o foco desproporcional dos males, simbolizando os pecados de um mundo pós-colonial, pós-militarista e pós-étnico. No arremate de Matti Friedman, os judeus são símbolos dos males que a sociedade civilizada renega, num papel teatral propagado pela imprensa global, um papel familiar de vilão.

Desolador, pois Israel, terra do povo judeu, deveria ser um sideshow, em uma parte do mundo que assusta e que deve assustar cada vez mais com o espetáculo da vilania.

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Colher de chá para os leitores Renato Aguirre e CC, que com assiduidade confirmam a tese de Matti Friedman.

Ave, Obama, alea jacta est

O presidente imperial anuncia suas decisões sobre imigração

O presidente imperial anuncia suas decisões sobre imigração

A sorte está lançada para Barack Obama, para os republicanos e para a república americana. O presidente não é Júlio César, mas ele é culpado por ter concedido a si o título de imperador nesta cartada altamente arriscada de recorrer à ordem executiva para empreender a reforma da imigração.

O presidente atravessou o Rubicão (Júlio César, aliás, era general, não imperador, quando cruzou o rio em 49 A.C.)  com o discurso à nação que fez na noite de quinta-feira, anunciando que através de ordem executiva mais de quatro milhões de imigrantes ilegais estarão protegidos de deportação ou terão vistos de trabalho. Os benefícios são temporários e condicionais, com o presidente se desdobrando para dizer que não se trata de anistia.

O Obama que discursou na quinta-feira foi o mesmo que dissera em janeiro de 2013 que caso agisse de forma unilateral na questão da imigração estaria se convertendo em um imperador. No mês seguinte, ele repetiu: “Não sou imperador. Meu trabalho é executar as leis aprovadas e até agora o Congresso não atuou para mudar o que considero um sistema de imigração quebrado”.

Os republicanos não atuaram como o presidente gostaria. Mas, a realidade política é que, embora eles sejam alvo de mais antipatia popular do que os democratas, ampliaram seu poder nas eleições do começo do mês e agora controlam plenamente o Congresso. Existe a realidade de um Congresso disfuncional que merece ser tratado com exasperação.

Algo é preciso ser feito para ajustar a situação de milhões de ilegais, mas não na escala e da forma peremptória feita por Obama. Na expressão fulminante da revista The Economist, “a coisa certa feita de forma errada”. Ademais, a ordem executiva é um band-aid em uma crise espinhosa e o próximo presidente, caso seja republicano, pode simplesmente revogá-la.

Portanto, a sorte está lançada. Os republicanos acusam o presidente de abuso de poder e vozes mais estridentes do partido pedem o impeachment de Obama. Cabe agora à liderança partidária calibrar sua resposta agressiva ao gesto do presidente com o controle de sua base que ficará mais agitada do que nunca com um presidente que nunca engoliu.

Reações mais “moderadas” vão do fechamento parcial do governo em um novo duelo fiscal a congelamento de indicações presidenciais que devem ser aprovadas pelo Senado, passando por processos ou uma moção de censura. Errar na reação pode ser um tiro pela culatra para os republicanos.

Cálculos eleitorais precisam ser feitos. Como cativar o crescente eleitorado latino tão distante dos republicanos? Como desfazer a imagem de um partido meramente obstrucionista? O risco mais amplo é o Partido Republicano parecer hostil à noção dos EUA como uma terra de imigrantes.

Quanto ao cálculo de Obama, no mínimo, o presidente parece disposto nos seus dois últimos anos de mandato a explorar as fronteiras do Poder Executivo. Cartada muito arriscada. Os partidários de Obama recorrem à história. Ele é o presidente que firmou menos ordens executivas desde William McKinley (1897-1901). Assinou 193 em comparação a 291 de George W. Bush e 364 de Bill Clinton (estes dois últimos ficaram oito anos no poder).

Há também os casos solenes de ações executivas: Abraham Lincoln com a Proclamação da Emancipação que libertou os escravos e Harry Truman para acabar com a segregação racial no Exército. Claro que há hipocrisia republicana (como existe a de Obama). Basta ver a desenvoltura imperial de Bush em segurança nacional, apenas para ficar em um caso recente.

No entanto, o momento é outro, é este (and Mr. Obama, you are no Lincoln). Os americanos querem cooperação entre os poderes, entre os partidos. Eles querem o fim do cenário disfuncional em Washington e apostaram que isto deva ser feito com uma Casa Branca democrata e um Congresso republicano. Esta é a realidade.

A pesquisa de quinta-feira do Wall Street Journal/NBC News mostra que os americanos concordam com a necessidade de ajuste no status dos ilegais, mas discordam como o rio foi cruzado por Obama, remando sozinho. O ideal seria o Congresso, que toma posse em janeiro, trabalhar por uma legislação abrangente em imigração. No discurso de quinta-feira, ele desafiou os republicanos que questionam sua autoridade a forjarem uma lei a respeito. I have a dream (mais um).

O presidente se diz frustrado com a inoperância do Congresso, mas se revela um mau operador político, um presidente petulante. Agora, ele vai agravar a disfunção em Washington e talvez provoque uma grave crise constitucional.

A sorte foi lançada, para o azar dos americanos. Ilustrativo que Obama dará sequência à sua cartada nesta sexta-feira em um discurso em Las Vegas, a cidade dos cassinos.

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Não fiquem frustrados com Caius Blinder, mas colher de chá genérica. Bons debates sobre a decisão de Barack Júlio César Obama.

20/11/2014

às 6:00 \ Israel, Palestinos

Deprê, crise palestina deprê

Netanyahu e Abbas: terapia de casal?

Netanyahu e Abbas: ainda dá tempo e existe divã para fazer terapia de casal?

A única análise que faço na coluna é a de geopolítica. O Instituto Blinder & Blainder não oferece divã para terapia nas suas vastas instalações. No entanto, alguns assuntos me deixam simplesmente deprê (ainda se usa o termo?). Na semana passada, eu falei em Ucrânia, desolada Ucrânia. E o que sobra para Israel e os palestinos? Seguramente não há terapia de casal, não há divã que comporte os problemas crônicos entre as duas partes e que hoje em dia podemos qualificar de insolúveis.

Está aí a onda de terrorismo em Jerusalém. Estão aí as imagens do atentado à sinagoga na terça-feira. Avi Issacharoff, do site The Times of Israel, um bom analista (político), já citado aqui na coluna, se aventura a entrar “delicadamente” na busca de soluções. Existe é claro a necessidade urgente de impedir a escalada, em uma espiral de ataques terroristas e retaliações da pesada de Israel (como o Hamas gosta e pela qual clamam extremistas israelenses). Issacharoff diz ser fundamental discutir uma ideia deixada de lado por ser ousada na sua obviedade: retomar o processo de paz, negociações de Israel com os palestinos.

E por que tomar esta camimho? Os outros falharam, entre eles rejeitar Mahmoud Abbas como interlocutor. Sei que este líder moderado e presidente da Autoridade Nacional Palestina é uma figura complicada com sua dupla linguagem, sempre na corda bamba, acenando para o Ocidente e para Israel, mas também flertando com a postura incendiária do dane-se e vamos peitar Israel. Há também um problema: qual é a autoridade do presidente da Autoridade Nacional Palestina a esta altura do campeonato? Aliás, qual é a autoridade do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, na sua corda bamba (a coalizão de governo) e que nunca se aventurou a negociar para valer. O negócio dele é o processo de paz e não a busca efetiva dela.

O fato, porém, de acordo com Issacharoff, é que a cooperação de Israel com Abbas na Cisjordânia impediu que até agora o fogo se alastrasse de Jerusalém para lá. E quem confirma isto? O comando de segurança de Israel, nas palavras de Yoram Cohen, o chefe do Shin Beth (órgão encarregado da segurança interna). No Parlamento, na terça-feira, ele contradisse Netanyahu e vários ministros, enunciando explicitamente que Mahmoud Abbas não encoraja o terrorismo. E Abbas se esforça para impedi-lo na Cisjordânia.

Issacharoff quer ser delicado, mas, no final das contas, à la israelense, fala de forma brutal. Ele diz que os dirigentes governamentais deveriam ser mais honestos com a população e explicar que ataques como o da sinagoga são o preço que o país paga por “administrar o conflito” com os palestinos, ao invés de sequer tentar resolvê-lo. Issacharoff reconhece que Abbas não interrompe o incitamento contra Israel na própria imprensa que ele controla. No entanto, não há outras escolhas. O resto é paliativo, como demolir as casas dos familiares dos terroristas, uma represália que  sequer se revela como um potente dissuasivo.

O incitamento bem mais virulento está nas redes sociais e mesmo na rede de televisão Al Jazeera. Está na mídia controlada pelo grupo terrorista Hamas, que manda em Gaza e conclama os palestinos da Cisjordânia e de Jerusalém a praticarem atentados. E o incitamento usa e abusa das imagens de políticos israelenses de extrema direita que promovem o direito de orações judaicas no complexo da Montanha do Templo (onde está a mesquita Al Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos, depois de Meca e Medina).

Adiante, está o cenário de uma terceira Intifada (insurreição) com força total. A mídia controlada pelo Hamas já arranjou o nome: Intifada Al-Aqsa. Melhor negociar com Abbas antes de uma onda de violência ainda mais mortal. O momento é sombrio, de análise deprê.

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Colher de chá para o analista meio deprê Avi Issacharoff

 

 

 

 

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19/11/2014

às 6:00 \ Israel, Palestinos

Por que mataram judeus em uma sinagoga de Jerusalém?

A cena do crime

A cena do crime

Atacar um templo é assaltar o endereço de uma religião, a sua identidade. Como a mesquita no caso dos muçulmanos, a sinagoga é o coração de qualquer comunidade judaica. Assim, o atentado terrorista de terça-feira em ums sinagoga de Jerusalém, no qual morreram cinco pessoas, entre elas quatro rabinos, é um atentado contra o judaísmo. Mais do que incitamento e barbárie contra Israel, existe incitamento e barbárie contra judeus.

Este é o cenário de uma horrorosa espiral de violência no crônico conflito entre Israel e palestinos e, sendo mais preciso, entre judeus e muçulmanos. Um conflito nacionalista e imobiliário tem cada vez mais uma explosiva vertente religiosa. O pano de fundo é a controvérsia sobre o acesso a lugares santos em Jerusalém. Fervor é inevitável em religião e extrapola quando há mentiras e manipulação política.

Parentes dos dois primos palestinos que realizaram o bárbaro ataque à sinagoga disseram que ambos acreditavam que judeus terão permissão para rezar e não apenas visitar o lado de fora do complexo onde está a mesquita Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos, e que os judeus chamam de Montanha do Templo. E as mentiras pipocam mesmo com as repetidas garantias do governo de Israel de que não haverá mudanças na política, apesar da pressão de extremistas judeus.

Há gente terrível e intolerante em qualquer país, em qualquer religião, em qualquer esquina. No entanto, vamos direto ao ponto: no dia em que terroristas palestinos decidem alvejar e massacrar judeus durante a reza em uma sinagoga fica patente a noção de que os judeus não têm direito a uma conexão com seu lugar mais sagrado, a Montanha do Templo, e por extensão a Jerusalém e a Israel.

Existem muitos fatores para explicar a nova espiral de violência. Vamos destacar dois: 1) não existe um horizonte diplomático no conflito israelo/palestino e 2): o Hamas e grupelhos similares. O Hamas, que controla Gaza, semeia ventos (foguetes e incitamento ao terror) e está ansioso para colher tempestades. Para o Hamas, quanto mais represália israelense, melhor. Quando mais martírio, melhor.

Outros atores palestinos e também israelenses têm culpa no cartório, mas a maior culpabilidade é do Hamas, E aqui está o paradoxo. O Hamas vai continuar a encorajar ataques terroristas enquanto Israel evitar outra grande reação. E Israel, apesar de carecer de um genuíno ímpeto diplomático, vai evitar ao máximo um confronto com o Hamas.

Políticos têm dupla linguagem. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu faz média com a extrema-direita israelense e pede calma. O líder moderado palestino Mahamoud Abbas fala em “contaminação” judaica nos lugares santos de Jerusalém e pede calma. Nada que se compare ao Hamas, que não pede calma. O grupo endossa o terror no atacado e celebra a morte de civis mortos em atentados. Jeffrey Goldberg, guru desta coluna, diz que o Hamas deve ser visto pelo o que é: um grupo com genuínas intenções genocidas.

O Hamas qualificou o massacre de judeus que rezavam em uma sinagoga como uma “reação natural e heróica”. Há 20 anos, um judeu fanático, Baruch Goldstein, assassinou 29 fiéis palestinos que rezavam em Hebron. Na ocasião, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, assassinado no ano seguinte por um judeu fanático, disse sobre Goldstein: “Você não é parte da comunidade de Israel. Você é uma erva daninha”. O Hamas cultiva as ervas daninhas. O endosso da morte de judeus rezando na sua cidade santa confirma que seu objetivo é a erradicação de Israel e dos judeus.

Como arremata Jeffrey Goldberg, a raiz do conflito continua sendo a indisposição de muitos muçulmanos palestinos para aceitarem a ideia de que os judeus têm direitos na terra dos seus ancestrais. E no caso do Hamas e de grupos similares, que os judeus têm o direito de viver.

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Como de hábito, os ânimos fervem quando o assunto é Israel/palestinos. Colher de chá para Pedro Lemos (dia 19, 13:14).

18/11/2014

às 6:00 \ Barbárie, Imprensa, Mundo islâmico, Terror

O terroristão islâmico fechado para a imprensa

O repórter Jeffrey Goldberg (o barbudinho ao fundo) não circula mais entre extremistas islâmicos

O repórter Jeffrey Goldberg (o barbudinho ao fundo) não circula mais entre extremistas islâmicos

A coluna de segunda-feira questionou se a barbárie do Estado Islâmico está para brincadeiras ou não. Hoje, vamos dar a palavra para Jeffrey Goldberg, referência na coluna e que tem reflexões seríssimas sobre o tema. Antes, um pouco de contexto. Dos cinco reféns ocidentais executados pelo grupo Estado Islâmico, dois eram jornalistas americanos. E poucos jornalistas americanos sabem tanto dos perigos de andanças no terroristão como Goldberg, que, além de tudo, é judeu. Podemos, portanto, chamá-lo de judeu errante.

A pensata de Goldberg é sobre os tempos em que os extremistas islâmicos tentavam persuadir repórteres e não executá-los. Velho de guerra, Goldberg conta que ele viveu um mês no ano 2000 em uma madrassa (seminário religioso) do Taliban no Paquistão. Dizia-se que o diretor do seminário era confidente do mulá Omar, o lider caolho do Taliban. E deste “educador”, Goldberg escutou que o problema dos muçulmanos não era com os cristãos, mas com os “judeus, que tinham crucificado Cristo”. Goldberg lembrou que era judeu e ouviu que era bem-vindo na madrassa.

Naqueles tempos, Goldberg (o nome diz tudo, não?) circulava nos buracos quentes do extremismo islâmico e a atmosfera de antissemitismo, além de ódio a Israel, era palpável. Nada era para brincadeira. Repórter ousado, Goldberg tinha acesso até ao Hezbollah, o grupo terrorista xiita do Líbano, com tentáculos em todas as partes, inclusive no Brasil. Sobre os contatos com líderes religiosos extremistas, Goldberg relembra que o antissemitismo era impessoal. O ódio abstrato era derrotado pela curiosidade prática para conhecê-lo. A transação funcionava para os dois lados. O repórter Goldberg queria fuçar o outro lado.

A mudança na relação entre jihadistas e jornalistas não ocorreu no 11 de setembro de 2001 em si, mas na decisão de extremistas no Paquistão de sequestrarem Daniel Pearl, repórter do Wall Street Journal, americano e judeu, em janeiro de 2002. Nas palavras de Goldberg, Pearl “não era para os sequestradores o mensageiro para o mundo externo, mas um bode expiatório para ser sacrificado pelos pecados dos seus companheiros infiéis. O assassinato se tornou a mensagem deles”.

Por um tempo, Goldberg estimou que a degola de Daniel Pearl fora uma exceção e jornalistas não judeus tinham a ilusão de que ele fora decapitado por sua religião e não por sua profissão. Hoje, obviamente, jornalistas ocidentais que procuram jihadistas estão flertando com a morte. Como observa acidamente Goldberg, a degola de James Foley e Steven Sotloff pelo Estado Islâmico é argumento persuasivo a favor da prudência.

Extremistas são ainda mais extremistas (a rede Al Qaeda é mais “moderada” do que o Estado Islâmico, para dar uma medida) e na era da Internet o terror não precisa mais de intermediários. Jornalistas foram substituídos pelo YouTube e pelo Twitter. Sem uso para o terror, “nós nos tornamos alvos”, escreve Godlberg.

As regras são flexíveis. No Irã, repórteres ocidentais são geralmente bem-vindos e algumas vezes são presos enquanto exercem o seu trabalho. Em Gaza, o Hamas é ansioso para ajudar repórteres a inspecionar os danos causados por ataques israelenses e rigoroso para negar acesso a seus locais de lançamento de foguetes que alvejam civis israelenses. No Líbano, o Hezbollah tem uma sofisticada operação de relações públicas que abafa o jornalismo independente.

Nós não veremos mais fotos de Jeffrey Goldberg como a que ilustra esta coluna. Ele deixou de circular entre grupos extremistas islâmicos e não aconselha jovens e intrépidos repórteres ocidentais a se aventurarem em muitas partes do mundo islâmico (como fez no caso do degolado Steven Sotloff).

O perigo para o exercício da profissão de jornalista no mundo islâmico, como reflete Goldberg, é uma faceta pequena de uma calamidade mais ampla, mas tem consequências. Circunscreve de forma progressiva nossa capacidade de ver o que se passa na calamidade.

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Colher de chá para Jeffrey Goldberg. Na cabeça. 

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17/11/2014

às 6:00 \ Barbárie, Estado Islâmico, Humor

O terror islâmico está para brincadeiras (ou não?)

Paródia curda do Estado Islâmico. Muito pra cabeça?

Paródia curda do Estado Islâmico. Muito pra cabeça?

Sabemos que a barbárie terrorista do grupo Estado Islâmico não está para brincadeira. No domingo, os terroristas divulgaram mais um vídeo macabro para anunciar ao mundo a decapitação do refém americano Peter Kassig (que se converteu ao islamismo com o nome Abdul-Rahman). Foi o quinto refém ocidental decapitado.

Frank Gardner, o sóbrio especialista em segurança e terror da BBC de Londres, disse que foi o mais elaborado e visualmente chocante dos vídeos postados na Internet pelo Estado Islâmico, pois no final há imagens com requintes repugnantes da decapitação de pelo  menos 16 militares do regime sírio, que tinham sido capturados.

O Estado Islâmico não brinca em serviço (seu serviço é a barbárie), mas em várias partes do Oriente Médio há uma ofensiva midiática para colocar o grupo no ridiculo. O Estado Islâmico usa de forma nauseante as ferramentas mais modernas da comunicação como parte de sua campanha. Então, por que não usar os mesmos instrumentos contra a barbárie? E uma arma de combate é a paródia. Os exemplos estão no Twitter, nos vídeos do YouTube e na televisão.

Para mim, porém, é difícil achar graça quando a sátira é produzida pela TV iraquiana, o que apenas fomenta o sectarismo da maioria xiita contra os sunitas (os quais o Estado Islâmico se arroga representar). Entendo que a paródia seja uma legítima e necessária válvula de escape contra a barbárie, o terror, as ditaduras mais ignóbeis e as ideologias mais infames. Viva O Grande Ditador, de Charles Chaplin, ou a produtividade maníaca de Mel Brooks em Os Produtores.

Claro que não é pecado tratar o infame na base da chacota. No entanto, precisa ser engraçada, né? E outra coisa: é preciso tomar cuidado com o mensageiro no caso do Estado Islâmico. Não achei tão engraçado assim o vídeo musical curdo sobre o terror, mas a fonte pelo menos é não oficial (uma televisão independente). E os curdos, que sonham com sua independência, são um oásis de esperança no meio daquele deserto que é o Siraque (Síria + Iraque). Já a paródia produzida por palestinos é infeliz. Bebe na fonte das teorias conspiratórias. Basta acompanhar o vídeo. A sandice é apontar o Estado Islâmico como uma armação dos americanos ou dos israelenses. A mesma bizarrice está na TV oficial iraquiana.

Não há dúvida que existe gente criativa e corajosa neste esforço para diminuir o Estado Islâmico. No entanto, não podemos esquecer o óbvio. Está aí um vilão fácil, um grupo que praticamente todos odeiam. O problema é se a obsessão para denunciar o Estado Islâmico (no drama e na paródia) faz estes bárbaros parecerem mais importantes do que são. Eles crescem. Sempre querem estar no palco ou no cadafalso.

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Eu perdi o humor com alguns comentários simplesmente idiotas, mas no geral há bons debates sobre o papel da paródia em situações atrozes. Colher de chá genérica. Não fiquem zangados ou muito alegres com uma morna premiação. 

 

 

 

O Lava Jato ucraniano de Dilma

Com Putin, Dilma não repete as palavras do primeiro-ministro canadense Harper

Com Putin, Dilma não repete as palavras do primeiro-ministro canadense Harper (foto de julho de 2014)

Nenhuma surpresa na atitude ucraniana da presidente Dilma Rousseff. A agressão russa no país vizinho é um escândalo geopolítico. No entanto, a presidente do Brasil lava as mãos. Ela considera prioridade denunciar bombardeios americanos contra os terroristas do Estado Islâmico (precisamos de diálogo, minha gente, vamos colocar a cabeça no lugar).

Já na reunião do G-20, na Austrália, onde Vladimir Putin foi alvo de merecida hostilidade ocidental, Dilma foi pacata, foi anódina, foi omissa, foi uma anestesia quando deveria tocar na ferida.

Como assim, presidente? A senhora não tem posição sobre uma crise crucial no mundo atual? Em entrevista, Dilma afirmou: “O Brasil, no caso da Ucrânia, não tem e nunca definiu uma posição. Nunca nos manifestamos e evitamos sistematicamente nos envolver em assuntos internos.” Pelo menos desta vez, a presidente não denunciou as ações de Israel em Gaza, como é praxe na sua política de  “não intromissão nos assuntos internos” de outros países.

No jargão dilmista, na crise ucraniana, o Brasil não está “nem de um lado nem de outro”. Está, sim senhora. Ao lavar as mãos, o Brasil se posiciona a favor da agressão russa, em função de uma parceria estratégica com Moscou como integrante dos Brics. Outros países, a destacar na Europa, também têm negócios com a Rússia, mas, pelo menos, marcam posição sobre a Ucrânia. Presidente, não precisa adotar sanções contra o Kremlin, mas sancioná-lo?

Falando em mão, o contraste com a atitude de Dilma Roussef, foi a do primeiro-ministro canadense Stephen Harper. Ele cumprimentou o nosso homem em Moscou, mas desferiu o golpe diplomaticamente correto para a ocasião. “Bom, acho que vou apertar sua mão, mas só tenho uma coisa para te dizer: caia fora da Ucrânia.”

Valeu, Mr./Monsieur Harper! Na típica agitprop russa, um porta-voz do Kremlin disse que a resposta de Putin foi: “Impossível, já que nunca estivemos lá.”

Dilma lavou as mãos. Stephen Harper quem sabe tenha feito o mesmo….após apertar a mão do nosso homem em Moscou.

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Colher de chá para Mr./Monsieur Stephen Harper. 

15/11/2014

às 19:19 \ Rússia, Ucrânia

No piloto automático de mentiras da agitprop russa

Destroços do avião malaio na Ucrânia

Destroços do avião malaio na Ucrânia

Enquanto na reunião do G-20 na Austrália, o nosso homem em Moscou voltava a negar qualquer envolvimento a favor dos separatistas ucranianos, sua máquina de agitprop dava um show de cinismo, de desinformação e de provocações, em uma afronta ao primeiro-ministro australiano Tony Abbott,  anfitrião do encontro.

Abbott tem sido infatigável para denunciar Moscou pela derrubada do avião malaio em território controlado pelos rebeldes ucranianos em 17 de julho passado. Morreram os 298 passageiros e tripulantes, entre eles 28 australianos. No entanto, as mentiras em Moscou voam no piloto automático.

Enquanto transcorria a cúpula na Austrália, a TV estatal russa exibia o que qualificava de “fotografias sensacionais”, corroborando a teoria de Moscou de que o voo MH17 foi derrubado por um jato das forças governistas ucranianas. Autoridades ocidentais insistem que as evidências sugerem que o avião comercial foi abatido por um míssil terra-ar russo disparado por separatistas por engano, pois eles acreditavam que se tratava de um aparelho militar ucraniano.

As fotografias exibidas pelo Canal Um foram recebidas com ceticismo generalizado fora do aparato de agitprop. O Belligncat, um respeitado site britânico de jornalismo investigativo, descreveu as fotografias como “fabricação tosca”, destacando sinais de que as imagem foram em parte compiladas de um arquivo do Google Earth de 2012.

A agitprop tem um bem sucedido plano de voo. Uma pesquisa do independente centro Levada, de Moscou, mostra que apenas 3% dos russos acreditam que o avião malaio tenha sido derrubado pelos rebeldes separatistas, enquanto 82% atribuem a culpa às forças governistas de Kiev. A névoa da guerra digital, com as mais alopradas teorias conspiratórias, faz parte da chamada guerra híbrida do regime Putin, que inclui operações militares por tropas sem insígnia, negação de fatos óbvios e promoção de tensões nacionalistas.

No exterior, a guerra de desinformação do Kremlin é travada pela TV Russia Today. A emissora e seu site integram um agressivo esforço de mídia em contínua expansão. RT transmite em inglês, árabe e espanhol. E acabe de lançar o canal em alemão. A arma de propaganda tem o potencial para alvejar 600 milhões de pessoas no mundo, com acesso maciço no YouTube. A nova plataforma da agitrop acaba de ir para o espaço “jornalístico”. É a agência noticiosa internacional Sputnik.

Um estudo de Peter Pomeranstev e Michael Weiss ressalta que, ao contrário dos tempos da Guerra Fria, quando tinha consistência com a arenga comunista, a agitprop do Kremlin hoje é promíscua, hibrida. O canal Russia Today pode dar palanque, tanto para um negador do Holocausto de extrema-direita, como para um militante de extrema-esquerda. O plano não é tanto persuadir, mas confundir, construindo uma realidade paralela para gente no Ocidente e em outras partes cética sobre a narrativa dos seus próprios governos.

Nada surpreende no “conteúdo” RT. Lá estão as teorias de que o próprio governo americano executou os atentados de 11 de setembro de 2001 ou que criou o vírus Ebola. Diante destas bizarrices, fabricar imagens no Canal Um, garantindo que as forças governistas ucranianas derrubaram o avião malaio, é voo sem ousadia, não está à altura da agitprop, cinismo sem lugar na primeira classe,

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Colher de chá para Victor M Costa (dia 16, 12:15), o czar dos trocadilhos. 

 

 

15/11/2014

às 6:00 \ Ciência, Missão Rosetta

Touchdown!

O robô e o cometa

O robô e o cometa

O Instituto Blinder & Blainder continua na sua jornada por novas sacadas, por novos espaços. Neste sábado, a coluna gira na órbita de uma leitora que conhece sua rota. Veteranos da coluna lembram da brincadeira que a Carmem é a nossa assessora científica, pois nestes assuntos o B & B vive num buraco negro. Física de formação e com alma de astrônoma, a Carmem se animou tanto com a odisséia Rosetta que resolveu encorpar um comentário e assim dar uma folguinha para o comandante da nave no sábado. Um pequeno passo para a coluna e um salto gigantesco para os leitores. Boa leitura!

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Carmem 

Esqueçam a NASA. Ela não é a responsável pelo feito científico do ano.

A European Space Agency (ESA) deixou todos os outros programas espaciais comendo poeira quando conseguiu, após dez anos de odisséia, colocar sua sonda Rosetta orbitando um cometa, feito inédito, e também pousar com sucesso e segurança o robozinho Philae na superfície do 67P.

Bazinga! NASA! Yes, ESA can!

Tá bom, tá bom, a NASA teve seus dias de glória com o pouso e as estrepolias do Curiosity em Marte em 2012. Longe de mim diminuir o feito de mandar um robozinho a Marte mas, convenhamos, Marte fica ali na esquina, cerca de 60 milhões de quilômetros da Terra, é um planetão (a gravidade ajuda no pouso) e esta todo mapeado, já tem até terreno a venda em alguns sites. E para quem colocou homens passeando na Lua em 1969…

O 67P tem cerca 4 km de extensão mas é quase todo um pedregulho irregular. O Philae tinha que pousar num terreno plano, então foi demarcada uma área equivalente a um campo de futebol. A ESA fez esse gol pousando (depois de quicar 2 vezes) o robô num campo se movendo a 65 mil km/h a uma distância de 500 milhões de quilômetros da Terra, quer dizer, só se soube o resultado após 30 minutos.
Eu sei que é duro, mas não dá para omitir que o centro de controle da missão fica na Alemanha, hehehe

A União Europeia rules!!!! Como se não bastasse a descoberta do bóson de Higgs (2012) pelo CERN, outro consórcio europeu, ou o desenvolvimento do WWW que permitiu que pessoas como eu, viciadas em astronomia, pudessem acompanhar em tempo real toda a operação, agora através das análises que serão feitas pelo valente Philae. Talvez sejam desvendados mistérios sobre a formação do nosso sistema solar, quem sabe até sobre o aparecimento da vida e dos oceanos no nosso planeta.

Eu fico em transe com essas coisas, me dá uma fé no ser humano, na nossa capacidade de realizar coisas incríveis, de solucionar problemas, de aprender mais e numa vontade de aço de ir sempre mais longe.

O SER HUMANO É O CARA!!!

Ao custo de 1.4 bilhão de euros, o homem fez história novamente, uma contribuição gigantesca para a expansão do nosso conhecimento, das nossas habilidades e dos nossos limites de transformação de sonhos em realidade.

ESA, prepare to beam me up!

Como fã de números grandes, eu reuni abaixo aqueles que achei mais legais nessa missão.

A escala cósmica dos números e fatos:

6.4 bilhões de quilômetros percorridos durante 10 anos pela Rosetta
Rosetta (@ESA_Rosetta) foi a primeira nave a orbitar um cometa
800 milhões de quilômetros foi a maior distância que Rosetta ficou da Terra
1 bilhão de quilômetros foi a maior distância que Rosetta ficou do Sol
1.4 bilhão de euros foram gastos no projeto (metade do preço de um submarino moderno)
10 anos de viagem para alcançar o cometa
de 180 negativos a 150 graus são as temperaturas suportadas pelos equipamentos
3 toneladas é o peso da nave mãe Rosetta
32 metros é o comprimento dos painéis solares de borda a bordo (Rosetta)
100 kg é o peso do robô Philae (@Philae2014)
10 são os instrumentos que o Philae carrega para fazer suas análises e tirar fotos(HD)
4km é a extensão do cometa 67P que visita o Sol a cada 6.6 anos
135.000 km/h é a velocidade máxima que o cometa alcança
1079 milhões de quilômetros/hora é a velocidade da luz
6727 km é a distância Rio-Miami
Dezembro de 2015 é quando a missão termina. Philae será destruído ainda no cometa quando este se tornar ativo ao se aproximar do Sol e Rosetta continuará a vagar pelo espaço (a NASA que seria responsável pelo mecanismo de retorno da sonda a Terra roeu a corda)

Para maiores informações, visite este site.

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Colher de chá para a própria Carmem e para o Philae. Viva o robozinho! 

 

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