Blogs e Colunistas

29/07/2014

às 2:04 \ Férias

Estou de férias, não precisam segurar o mundo para mim

Pessoal, eu vou tirar alguns dias de férias a partir de agora, NOW! Leitores, não precisam segurar o mundo para mim até 6 de agosto, quando volto ao batente. Estou nas bandas asiáticas (Family Connection nas Filipinas). Marotamente (ok, ok, podem chamar de preguiça), republico o que já considero o meu texto clássico de anúncio de férias (saiu inicialmente em julho de 2011; divido as férias anuais em duas partes).

Bem, tenho alguns compromissos com os leitores e assim tentarei liberar comentários o mais cedo possível, com assessoria (para isto servem filhas, né?). Há leitores cativos por aqui e que deverão trazer manifestos e material relativo a diferentes causas e assuntos. Peço duas coisas: vamos evitar trolhas e manter um debate cordial. Comentários nesta coluna repetitiva ficaram preservados. Espero que os novos não sejam repetitivos

Abaixo, uma variação condensada do texto original, que explica o título e a ilustração. Até breve (infelizmente, muito em breve, pois adoro férias).
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Férias! O trabalho cansa e o descanso dignifica o homem (este que escreve). Estarei de férias por alguns dias. Não vou para Marte, mas espero me desligar um pouco dos problemas terrestres. Estes problemas podem piorar ou até serem suavizados sem meus palpites. Aqui me lembro de uma história que preciso confirmar com meu amigo e mestre Carlinhos Brickmann. Paulo Francis, senhor do universo, estava acompanhando alguma reunião de cúpula na época da Guerra Fria. Um outro jornalista brasileiro pediu um favor: “Francis, segure o mundo, enquanto eu vou ao banheiro”.

Pessoal, eu vou por aí, planejando a dolce vita, pois sou um planejador. Posso mudar de planos. Férias têm estas vantagens. Há outras, como menos ansiedade para acompanhar o noticiário. Posso ignorar os jogos de palavras nas colunas do Thomas Friedman, no New York Times, mas não sei se terei coragem de não passar os olhos na sabedoria de alguns dos meus gurus como David Brooks, também do NYT. Outro guru, este de economia, o Martin Wolf, do Financial Times, também terá minha atenção. As reviravoltas na economia sempre preocupam. Nunca tiram férias.

Espero resistir à tentação das breaking news. Afinal, não sou senhor do universo. O mundo quebra ou tem conserto sem minhas pensatas.

 

 

27/07/2014

às 6:08 \ Gaza

Quem tem mais culpa em Gaza?

Soldados israelenses em patrulha na fronteira com Gaza

Soldados israelenses em patrulha na fronteira com Gaza

Leitores veteranos da coluna sabem da minha “queda” pela publicação norte-americana The New Republic, onde escreve a musa Julia Ioffe. Falando em musa, os debates sobre Gaza são previsivelmente passionais. Existem comentários aqui na coluna previsivelmente alucinados, marcados por uma retórica retrógrada contra Israel e em alguns casos de caráter assumidamente antissemita. No entanto, a coluna acolhe o debate transparente e por este motivo abre espaço para o ensaio de John B. Judis, da New Republic, no qual ele faz malabarismos para não cair na rede de apoio ao terror do Hamas, mas dispara seus foguetes contra Israel de forma indiscriminada.

Judis inclusive trata a população palestina da Cisjordânia e de Gaza (este último território não está mais submetido à ocupação) como súdita de Israel, um dos “últimos poderes coloniais” do mundo. Judis observa que o Hamas e o mais moderado Fatah são “profundamente falhos”, como tantos outros movimentos anticolonialistas. No entanto, para ele, o pano de fundo para os eventos que têm lugar agora na região são a contínua expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, a dura repressão inflingida à população palestina e o bloqueio de Gaza.

A análise é “profundamente falha”, mas merece destaque na medida em que respeito John B. Judis e para motivar um debate que nem sempre é civilizado na coluna. Porém, tudo é imperfeito e complicado naquelas bandas.Tudo alvo de polêmicas passionais, como a mera pergunta que está no título desta coluneta e no ensaio de Judis.

PS: Como bem lembrou o leitor Nehemias (dia 27, 10:02), este colunista deveria entrar nos Blogueiros Anônimos, pois não larga a cachaça (mais apropriado falar em droga), mesmo nas suas férias. E para quem é igualmente viciado nesta droga, um texto crítico de Israel, mais fulminante do que o de John B Judis, é o de Jonathan Freedland, do jornal britânico The Guardian, alertando que Israel dispara o tiro pela culatra. O tom de Freedland é de desalento, assim como o de David Remnick, da revista The New Yorker. Tudo uma droga, da qual não conseguimos nos privar.

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A colher de chá está suspensa durante minhas “férias”, mas nos comentários desta coluna destaco e confiro menção honrosa para o Ernesto (dia 27, 14:19).

Pessoal, este integrante da associação dos Blogueiros Anônimos (viciados no trabalho) fará um esforço para não ter uma recaída e tentará ser fiel ao seu projeto de férias até a volta formal ao trabalho em 6 de agosto. A promessa carece de credibilidade.

 

 

 

24/07/2014

às 23:17 \ Brasil, Geopolítica, ONU, Oriente Médio

Dilma circula com o fantasma de Oswaldo Aranha

Foto do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha

Foto do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha

 

Há quase três anos (19 de setembro de 2011), eu publiquei o texto abaixo, um texto didático, explicando os motivos para o Brasil estar no centro do palanque das Nações Unidas. O texto também apresentava um quadro desolador da crise entre Israel e palestinos. Em julho de 2014, está patente como as coisas afundaram ainda mais no poço do Oriente Médio e da diplomacia brasileira. Está ainda mais difícil  enxergar o anão diplomático brasileiro devido a mais este vexame oportunista de condenar Israel por suas ações em Gaza, enquanto o governo (este e o anterior) é pródigo para ser cúmplice de gigantes ditatoriais pelo mundo afora, enxergar de forma complacente grupos terroristas como o Hamas e atuar de forma venal no seu próprio quintal latino-americano. O fantasma de Oswaldo Aranha deve estar mais assustado do que nunca.

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Nesta quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff será a primeira mulher a abrir a assembléia-geral das Nações Unidas, em Nova York. Bacana! Ela deve o privilégio não por ser mulher, mas por ser brasileira. Deve ao então chefe da delegação brasileira, Oswaldo Aranha, que foi o primeiro orador na assembléia especial de 1947. A tradição de outorgar a primeira palavra ao Brasil foi mantida. Dilma dará o apoio explícito ao lance do presidente palestino Mahmoud Abbas de pedir o reconhecimento do estado palestino nas Nações Unidas. A questão palestina dará o tom explosivo desta assembléia-geral.

Quem sabe toda esta confusão palestina (e toda esta discurseira) poderia ter sido evitado. Mais bacana foi o que fez Oswaldo Aranha na presidência da assembléia especial de 1947. Aranha conduziu a assembléia com maestria para que fosse aprovada a resolução 181, em 29 de novembro, por 33 votos a favor (inclusive o do Brasil,), 13 contra (com todos os países islâmicos e árabes que votavam na ocasião) e 10 abstenções. A expressão-chave da resolução 181 é PARTILHA do território que estava sob mandato britânico em um estado judeu e um estado árabe. Os sionistas aceitaram. E os árabes, num erro estratégico (mais um), rechaçaram.

Os judeus tinham representatividade através da Agência Judaica que já forjara as instituições de um estado. Os árabes sintomaticamente optaram por não criar um órgão governamental palestino de caráter autônomo. Os palestinos eram representados pelo Alto Comitê Árabe que rejeitou a partilha junto com os países árabes com a promessa de afogar o estado judeu “nos rios de sangue”. Nada de partilha, nada de judeus naquelas terras. Os árabes, por outro lado, no mesmo 1947, não tiveram problemas para aceitar a partilha do subcontinente indiano entre a Índia e o Paquistão muçulmano.

Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou a independência de Israel e os árabes foram à guerra. Guerra é guerra e os palestinos perderam parte do território original do estado alocado pelo plano de partilha das Nações Unidas. Qualquer acordo diplomático terá por base as linhas pós-armistício de 1949 ou pré-guerra de 1967. Aliás, cuidado, se o presidente palestino Mahmoud Abbas, como fez dias atrás, denunciar no seu discurso na ONU nesta sexta-feira os 63 anos de ocupação israelense. Neste caso, o pecado original é a própria criação de Israel em 1948.

Alguns podem perguntar o motivo de toda esta lenga-lenga histórica. Mais importante, afinal, é discutir o presente e o futuro. Mas é vital ver de onde os palestinos (e os árabes, por extensão) vieram e sua história de fracassos. Eles não derrotaram Israel pela guerra ou pelo terror. Na diplomacia, foram os erros estratégicos. Além da recusa da partilha em 1947, houve a perda de mais territórios, em 1967. São décadas de recusa de aceitação da fórmula de troca de paz por terra.

Sim, o estado de Israel é mal servido pela atual coalizão de governo, chefiada por Benjamin Netanyahu. Dá para aceitar em certa medida a exasperação palestina e árabe com o obstrucionismo israelense. Mas a enrolação de Netanyhau (que no processo de paz prefere o processo à paz), no final das contas, é a desculpa para árabes e palestinos não aceitaram o que é possível fazer em termos de partilha territorial.

Vamos além: ainda não aceitaram que Israel e os judeus pertencem ao Oriente Médio, apesar de acordos como os firmados pelo Egito e Jordânia. Antecessores de Netanyahu, como Ehud Barak e Ehud Olmert, um trabalhista e o outro de direita, foram até onde era possível nas concessões israelenses. Yasser Arafat e Mahmoud Abbas rejeitaram os planos. Aliás, nem se quisesse, Abbas, acantonado na Cisjordânia, poderia cumprir qualquer acordo enquanto os terroristas do Hamas controlarem Gaza.

Agora é esta jogada desesperada de Abbas nas Nações Unidas. Ela altera a dinâmica diplomática. Para quem é muito otimista, o solavanco poderá romper o imobilismo nas negociações. Mas nunca subestime o potencial de desastres no Oriente Médio. Ideal seria alguma costura ao longo da semana envolvendo europeus e americanos para impedir um estrago incalculável do tecido diplomático. Saudades da habilidade de Oswaldo Aranha. Difícil partilhar hoje o sentimento dos otimistas.
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PS- Oi, pessoal, mesmo no batente teria sido penoso entrar no debate de sempre sobre a questão palestina. Conforme se esperava, o assunto “comove” mais do que deveria (o mundo é tão grande e fica todo mundo entalado neste tema palestino). Quero destacar, de qualquer forma, o comentário de Rober (dia 25, 10:43), boa crítica. Menção honrosa para os vários comentários de Bruno Gama. Prezo muito a educação pessoal de leitores. Valeu, caro Bruno. E para arrematar, lamentável o amontoado de clichês de Carlos Bulhões, a mistura fatal e caricatural de militância política com ignorância histórica.

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A colher de chá (bem amargo) vai para o Hercilio (dia 19, 13:51), por sua distorcida narrativa histórica. Leitores estão convidados a refletir e debater.

23/07/2014

às 23:23 \ Vietnã

Nos ares vietnamitas

Na guerra do trânsito em Ho Chi Minh

Na guerra do trânsito em Ho Chi Minh

Sonho concretizado: pousei no Vietnã, o Vietnã da guerra que acompanhei com tanta intensidade nos meus anos de formação política e jornalística. O Vietnã dos anos 60 e 70 foi minha guerra pela televisão, além, é claro dos filmes, dos livros e das letrinhas de tantas reportagens. Apocalipse, ontem! Estou no lendário hotel Caravelle, em Ho Chi Minh, hoje totalmente modernizado e que nos anos 60 era o QG dos correspondentes estrangeiros na então Saigon.

As redes de televisão americanas, tão influentes para conquistar os corações e mentes da sociedade na aversão à guerra, tinham seus escritórios no Caravelle. O mais influente e confiável jornalista americano de uma geração, o âncora da rede CBS, Walter Cronkite, após uma visita ao Vietnã em 1968, disse que não dava para os EUA ganharem a guerra. A coisa mais honrosa a fazer era negociar.

Velha história (como o debate infindável se a mídia americana “derrotista” contribuiu para a vitória comunista). A reunificação vietnamita aconteceu em 1975. Assim como os franceses há 60 anos, os americanos partiram. Será? O Vietnã não gosta da China, mas hoje segue seu modelo de ditadura comunista e de vibração econômica capitalista. Da janela do meu quarto no Caravelle, vejo as lojas Louis Vuitton e Hermés. Os franceses voltaram e as brands americanas (e japonesas) (re) conquistaram o Vietnã.

Perdão pelo meu comentário de turista de primeira viagem, mas pouca coisa fascina tanto em Ho Chi Minh como o enxame de motos e lambretas. Honda e Yamaha conquistaram os corações, mentes e o cotidiano dos “nativos”, que para minha incompreensão e falta de traquejo motor sabem trafegar de forma esguia (como as lindas vietnamitas) no caos urbano, carregando bebês ou mercadorias nas suas lambretas e motos. O hotel Caravelle fica a uma quadra do flagrante acima.

CB bombardeado pelas "verdades históricas" no Museu das Memórias da Guerra

CB bombardeado pelas “verdades históricas” no Museu das Memórias da Guerra

Sinal vermelho parece existir apenas para a liberdade política. O culto à personalidade de Ho Chi Minh, o herói da pátria e da revolução, prospera. Aliás, “tio” Ho é tão valioso que sua efígie está em todas as notas de dinheiro, em todos os valores (imagem inflacionada com nota de até 500 mil dongs). O negócio é gastar Ho Chi Minh.

Visita obrigatória em Ho Chi Minh é o Museu das Memórias da Guerra. As imagens dos crimes americanos são estarrecedoras. Lá estão para dar e vender as memórias das atrocidades e das mutilações. Justa esta cobrança. E faz mal para o coração, mente e estômago ver o efeito do agente laranja, o herbicida e desfolhante usado pelos americanos na guerra. No entanto, igualmente estarrecedora é a tosca propaganda das “verdades históricas” do regime vietnamita. Sua versão da guerra é simplesmente unidimensional, abominável, um bombardeio de clichês. O país se moderniza na economia, mas o jargão político é jurássico. Pela barbicha de Ho Chi Minh!

No dia da minha visita, o museu estava com sua frequência habitual de turistas estrangeiros, mas também cheio de crianças, capitaneadas por seus professores. “As verdades históricas” não pareciam interessar demais à molecada vietnamita. Talvez os corações, mentes e estômagos das crianças estivessem mais concentrados em uma imensa filial da cadeia americana Pizza Hut pertinho do museu. O triunfo do capitalismo e da junk food é uma verdade histórica que deve ser engolida.

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Caros leitores, por obrigação profissional e também por prazer, eu tenho interrompido as férias para escrever alguns textos. No entanto, seria demais manter a tradição da colher de chá na minha dolce vita asiática. O ritual retorna com a volta formal ao trabalho em 6 de agosto.

22/07/2014

às 20:35 \ Gaza, Ucrânia

Nos ares ucranianos (e de Gaza) III

Na ratoeira de Gaza

Na ratoeira de Gaza

São duas semanas de guerra e conhecemos o roteiro do filme. Israel exerce o seu inquestionável direito à autodefesa contra o terror do movimento islâmico Hamas em meio ao debate familiar sobre o uso desproporcional de força com suas operações militares em Gaza. Já o Hamas reforça o seu papel de resistente à “entidade sionista”, vestindo a camisa do Foguete Futebol Clube.  Em termos estratégicos, é um exercício de futilidade para ambos os lados, enquanto prossegue a contabilidade macabra.

Em Israel, o governo Netanyahu carece de um grande plano para lidar com a questão palestina, embora tenha galvanizado um justo senso de solidaridade nacional devido a um adversário meramente inescrupuloso como o Hamas. A ignomínia terrorista, porém, mais uma vez, é insuficiente para Israel vencer a guerra gobal de propaganda. Gente anestesiada diante do genocida Bashar Assad (nas ruas de Londres ou no bazar desta coluna) está apoplética com os “fascistas sionistas”.

A operação em Gaza é uma lance da tática periódica de Israel para “aparar a grama”, sem destruir a erva daninha que é o Hamas. O atual establishment israelense não está interessado em cultivar uma firme liderança palestina com a qual possa negociar. A fraqueza e as tergiversações do mais moderado Mahmoud Abbas são a desculpa para as tergiversações israelenses.

Distantes estão os tempos do brutal realismo de incontestáveis líderes israelenses. Yitzhak Rabin lembrava que a negociação é travada com o inimigo e em 1993 ele apertou a mão do terorrista Yasser Arafat. Na década seguinte, Ariel Sharon empreendeu a retirada unilateral de Gaza. Manter a ocupação do território tornara-se intolerável. Decisão correta, embora haja o atroz “custo Hamas”, com o grupo terrorista no poder em Gaza.

Já o Hamas, como eu disse, reforça o papel de resistente, mas está enfraquecido. O Hamas montou mais esta armadilha,  trazendo Israel para Gaza. O grupo, no entanto, não passa de um rato no sentido mais pejorativo do termo com seu jogo de vitimização, glorificando o uso de escudos humanos. Em termos estratégicos, o Hamas também está na ratoeira. Para uma população em Gaza cansada de guerra (e sem apreço por Israel), o Hamas tem a oferecer 600 mortos, quase quatro mil feridos e 120 mil refugiados, além das mortes de 30 israelenses.

Um cessar-fogo agora seria um atestado da derrota do Hamas. O martírio deve continuar por mais alguns dias, enquanto Israel apara a grama no jardim da futilidade. Vamos falar de Ucrânia?

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Caros leitores, por obrigação profissional e também por prazer, eu tenho interrompido as férias para escrever alguns textos. No entanto, seria demais manter a tradição da colher de chá na minha dolce vita asiática. O ritual retorna com a volta formal ao trabalho em 6 de agosto.

21/07/2014

às 23:05 \ Gaza, Ucrânia

Nos ares ucranianos (e de Gaza) II

Unidimensional

Unidimensional

Ucrânia e Gaza são conflitos marcados por agitprop de alta intensidade. Obviamente atores de diversas agendas estão envolvidos em guerra de propaganda. A causa palestina há décadas possui ativistas ardorosos para defendê-la e hoje a intifada retórica esmaga a defesa de Israel. Nada se compara, porém, ao que acontece na frente russa. Que longo inverno de desinformazia. Neste ano da crise ucraniana, a máquina de propaganda do império Putin realiza um trabalho fenomenal que me deixa simplesmente perplexo devido ao plano de voo para viajar até uma relativa alternativa. Aqui mais um texto de Julio Ioffe para dar um gostinho amargo da agitprop. A segunda parte deste despacho de Neil MacFarquar, um competente jornalista do New York Times, também é ilustrativa sobre a desinformazia, que segue a todo vapor enquanto Putin dá indicações de que busca sair do buraco no qual ele se enfiou, com os préstimos de trogloditas fantasiados de separatistas pró-russos.

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Caros leitores, por obrigação profissional e também por prazer, eu tenho interrompido as férias para escrever alguns textos. No entanto, seria demais manter a tradição da colher de chá na minha dolce vita asiática. O ritual retorna com a volta formal ao trabalho em 6 de agosto.

19/07/2014

às 19:44 \ Gaza, Ucrânia

Nos ares ucranianos (e de Gaza)

No manejo da crise?

No manejo da crise?

No meio das minhas férias, duas crises dão um trabalhão: Ucrânia e Gaza. Escrevi textos nos últimos dias a respeito de ambas. Faço mais um pouso forçado durante minhas férias apenas para registrar a comoção e os desatinos que as duas crises geram entre leitores, especialmente alguns profissionais da provocação que aparecem na coluna basicamente para fazer agitprop. Alguns são sofisticados e nutro por eles um respeito técnico Caso não estivesse de férias, eu travaria com alguns desses leitores um debate intelectual. No entanto, eles não merecem o meu suor nas férias. Basta o do calor filipino. Outros leitores são simplesmente…. (podem preencher a lacuna com elegância. Nos idos de março, época de carnaval e da presença de muitos foliões ideológicos na coluna num momento da pesada da crise ucraniana, um leitor habitual (Henrique) teve a sacada e popularizou o termo putralha. Está consagrado. As situações (Ucrânia e Gaza) clamam pela republicação de um textinho clássico da coluna.

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Estou carnavalescamente impressionado com a quantidade de leitores que embarcam na narrativa russa. Talvez apenas quando o assunto é Israel haja tantos viajantes perdidos como nesta série O samba do russo doido.

Defino a grande maioria destes viajantes como: inocentes úteis, desinformados, crentes deste projeto putinesco, viúvas do comunismo, militantes do antiamericanismo obsessivo, advogados das falsas equivalências ou seguidores da falsa objetividade de que existem as duas versões equânimes em uma crise.

Claro que este colunista se pauta pela análise dos fatos e tem escoras analíticas. Entende que nações são guiadas por seus interesses políticos e econômicos. E nacionalismo é uma doença incurável. Assim, faz o possível para entender a lógica de Putin ou de qualquer dirigente.

Também acolhe contribuições de “dissidentes”, pois elas realmente enriquecem o entendimento de uma crise complexa. Este imenso PS tem objetivo de enfatizar que Putin é vanguarda de um projeto retrógrado e desestabilizador em uma Europa que tanto fez para superar guerras, o nacionalismo tacanho, a folia (e tolice) geopolítica em nome do interesse nacional e cimentar a democracia e o respeito aos direitos humanos.

Putin está na contra-mão.

E tudo isto no centenário do início da Primeira Guerra Mundial.  Para arrematar, reitero também que a coluna é aberta ao debate. Se fosse em Moscou…

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PS- Aproveito o embalo para recomendar dois textos de duas referências do Instituto Blinder & Blainder. O texto de Anne Applebaum é sobre a Ucrânia. O de Jeffrey Goldberg é sobre Gaza. Boas leituras!

18/07/2014

às 2:38 \ Ucrânia

Nos ares ucranianos (II)

A prova no solo de uma crise fora de controle

A prova no solo de uma crise fora de controle

O desastre com o Boeing malaio é uma virada no jogo, mas para que lado? Tudo é muito confuso. Basta ver que a encrenca envolve a queda na Ucrânia de um avião de um país do sudeste asiático, em que metade dos mortos são holandeses. Hora de buscar os préstimos, no meio no meu veraneio filipino, de Julia Yoffe, guru de assuntos russo-ucranianos do Instituto Blinder & Blainder.

Julia Ioffe por princípio é alarmista na crise ucraniana, como tudo o que envolve nosso homem em Moscou. Ela (nenhuma surpresa) aponta os separatistas pró-russos como responsáveis pela tragédia. No entanto, Julia Ioffe dispara uma bateria de perguntas: como o Ocidente poderá punir os rebeldes? O que pode ser feito para punir os russos por fornecerem capacidade militar para os rebeldes? O que pode ser feito para dar um fim ao conflito ucraniano? Mais sanções? Uma missão internacional de paz? Ela mesmo responde que não existe apetite para o envio de tropas e a Rússia ainda tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Após tantas perguntas, Julia Ioffe arremata que o conflito ucraniano está agora “oficialmente fora de controle”. Ela enfatiza que Putin começou algo que não pode terminar, soltando uma força perigosa (os separatistas) que ele não mais controla plenamente e parece não ligar muito, mesmo quando a crise custa cada vez mais vidas, inclusive as de 298 civis sem nenhuma relação com a Rússia ou a Ucrânia.

17/07/2014

às 17:57 \ Ucrânia

Nos ares ucranianos

Os destroços do avião

Os destroços do avião que voava entre Amsterdã e Kuala Lumpur

Evidentemente algo gravíssimo aconteceu nos ares ucranianos e as consequências em terra muito em breve poderão se revelar históricas. Caso o desastre com o voo MH-17 da Malaysia Airlines tenha sido um mero acidente (algo extremamente improvável), por si estamos falando de um episódio tenebroso por sua dimensão e pelo fato de ser o segundo com um Boeing 777  da companhia desde março (o outro ocorrido no Pacífico continua envolto em mistério). Eu de férias nas bandas asiáticas, programado para em questão de dias viajar para o Vietnã das Filipinas, não me vejo pegando tão cedo um avião da Malaysia Airlines (o vôo MH-370 ia de Kuala Lumpur para Pequim).

A conversa obviamente tem sua dimensão geopolítica. O voo MH-17 perdeu contato quando estava prestes a entrar no espaço aéreo russo. É uma denúncia plausível que o Boeing 777 tenha sido abatido pelos separatistas pró-russos. Afinal, nos últimos dias foram registradas as preocupações entre governos ocidentais de que a Rússia de Vladimir Putin está acelerando o fornecimento de equipamento militar mais sofisticado aos rebeldes, agora acuados pelas forças governamentais ucranianas. Na guerra de agitprop, Moscou garante ser “estúpida” a acusação do seu envolvimento e os separatistas rebatem que o desastre foi obra do governo de Kiev. Estúpido, porém, é o envolvimento russo nas questões ucranianas.

Não sou especialista em acidentes aéreos, mas neste caso não me parece que será algo tortuoso chegar às conclusões técnicas sobre o que aconteceu. Sem dúvida que não será simples, na medida em que o avião caiu em território controlado por rebeldes, que já estão de posse de evidências e tudo isso tendo uma guerra de narrativas como pano de fundo.

Se as investigações provarem que houve uma mão russa na tragédia, será difícil para o nosso homem em Moscou se evadir com o seu jogo duplo de controlar a temperatura da crise, com a intervenção para desestabilizar o governo pró-ocidental de Petro Poroshenko, mas não ao ponto de se aventurar a uma invasão aberta e ao risco de sanções americanas e europeias da pesada.

A questão é o que acontece doravante. São razoáveis que tenham tido lugar contatos imediatos de primeiro grau entre Putin e o presidente americano Barack Obama, que acabou de adotar mais uma rodada de sanções, para impedir uma degringolada ou mal entendidos. Estamos no meio das celebrações e reflexões sobre o início da Primeira Guerra Mundial há cem anos, um caso clássico de estudo em que acidentes ou incidentes têm desdobramentos que alteram o curso da história. Vamos ver agora, assim que as coisas se clarearem nos ares ucranianos e tivermos uma noção melhor da rota da crise.

14/07/2014

às 6:00 \ Abbas, Gaza, Israel, Palestinos

Israel quer minimizar mortes civis, já o Hamas…(II)

Funeral de membro da família Al-Batsh, morto em ataque aéreo israelense

Funeral de membro da família Al-Batsh, morto em ataque aéreo israelense em Gaza

Aqui na coluna, quando o assunto é Ucrânia, o técnico do Instituto Blinder & Blainder (seu nome não tem superlativo e nada de xingá-lo com palavrão) convoca Julia Ioffe. Quando é o jogo atroz do conflito entre Israel e palestinos não dá para deixar Jeffrey Goldberg fora de campo. Goldberg define Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, como uma figura algumas vezes moderada e geralmente ineficaz. Ele deve ser, porém, levado em conta.

Abbas surpreende e algumas vezes mostra liderança. Na sexta-feira, ele deu entrevista a uma televisão afilialda ao grupo terrorista libanês Hezbollah, na qual não hesitou em criticar o Hamas por seu foguetório literal e retórico. O Hamas ainda está na fase de rotular Israel como “entidade sionista”, negando assim sua legitimidade como estado. Abbas disse que os palestinos estão perdendo a cada minuto “desta guerra” com Israel, marcada pelo uso indiscriminado de foguetes do Hamas contra cidades israelenses e os bombardeios israelenses na densamente povoada Gaza.

Uma claque no mundo árabe e pelo mundo afora (em Londres não faltou a inevitável manifestação de apoio aos oprimidos palestinos e de denúncias ao “fascismo sionista”, em contraste à apatia em relação a genocídios no mundo árabe) felicita o Hamas por sua heróica determinação para enfrentar Israel. Abbas, no entanto, perguntou: “O que o Hamas está tentando conquistar ao lançar seus foguetes”? Eles causam poucas vítimas em Israel, mas muito pânico e estorvo. Como o Hamas bem sabe, o papel do terror é aterrorizar.

A pergunta de Mahmoud Abbas é respondida por Jeffrey Goldberg. Os foguetes geraram as retaliações israelenses, que não são indiscriminadas (o alvo preferencial não é “o palestino”, como no caso do Hamas, que quer alvejar “o israelense”), porém bem mais potentes e mortíferas. Palestinos mortos representam, na expressão de Goldberg, “uma crucial vitória de propaganda para os niilistas do Hamas. É perverso, mas é verdadeiro. É também a melhor explicação para o comportamento do Hamas, pois o Hamas não tem outro plausível objetivo estratégico aqui”.

Goldberg observa que a nova rodada de voleios na guerra sem fim entre Israel e Gaza é, de muitas maneiras, um equívoco. Israel não tinha interesse na escalada neste momento, enquanto o grupo palestino, mal equipado para enfrentar Israel , apesar dos foguetes, sente-se acossado por grupos ainda mais radicais e niilistas. Tanto niilismo contrasta com a atitude dos curdos no Iraque, que parecem estar em condições de conseguir sua independência devido à degringolada no país. Assim como os palestinos, os curdos merecem um estado e sua liderança joga um jogo esperto e paciente. Os curdos no Iraque não se engajam em terror (na Turquia é uma história mais complexa) e na sua região autônoma passaram os últimos 10 anos construindo uma sociedade secular e democrática, ao contrário da teocracia do Hamas em Gaza. É verdade que a riqueza petrolífera ajuda a concretizar o sonho viável da independência curda.

Goldberg observa que em 2005, depois da retirada unilateral de Israel, os palestinos em Gaza poderiam ter aprendido lições dos curdos do Iraque e também de David Ben-Gurion, o pai fundador de Israel, criando a necessária infraestrutura para a eventual liberdade. No entanto, a preferência é por construir a infraestrutura para o lançamento de foguetes e seus ganhos de propaganda, concretizados com a contagem macabra dos mortos nos bombardeios israelenses.

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CB, chairman do Instituto Blinder & Blainder, em trânsito nas águas do Pacífico, ficará devendo a colher de chá nesta coluna.

 

 

 

 

 

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