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31/01/2015

às 21:43 \ Barbárie, Japão, Terror

O terror islâmico e o resgate japonês

A solidariedade foi em vão

A solidariedade foi em vão

O vídeo no sábado mostrando a decapitação do jornalista Kenji Goto é mais um ato do ritual de barbárie do movimento terrorista Estado Islâmico e pode ser um ponto de virada na política externa japonesa, algo histórico no cenário global.

De acordo com o Estado Islâmico, Kenji Goto era mantido cativo com um piloto jordaniano e estão em curso esforços para trocá-lo por uma terrorista iraquiana condenada na Jordânia há dez anos após fracassar no seu atentado suicida com a detonação de explosivos.

Os japoneses ficaram estarrecidos com os sequestros de Haruna Yukawa (decapitado quando o Japão se recusou a pagar US$ 200 mihões de resgate) e do experiente e respeitado jornalista Kenji Goto, capturado pelo terror quando foi para a Síria tentar salvar o refém, de quem era amigo. A palavra de ordem no Japão se tornou Eu Sou Kenji em alusão ao icônico Je Suis Charlie

A execução de Kenji Goto (que não mostrarei aqui) apenas reforça o dilema japonês. O Estado Islâmico alega que a barbárie foi uma represália à decisão japonesa de justamente oferecer US$ 200 milhões de ajuda humanitária a países oponentes do terror islâmico.

A ajuda foi mais um gesto que confirmou o empenho do primeiro-minsitro Shinzo Abe de se distanciar do pacifismo e neutralidade do seu país em questões internacionais, uma herança da derrota na Segunda Guerra Mundial.

O lado negativo de Abe é o revisionismo histórico, quando quer dourar as coisas atrozes feitas por seu país na Segunda Guerra Mundial. O lado positivo é tentar empurrar o Japão a abandonar a postura marcada por mercantilismo, uma diplomacia anódina de querer ser amigo de todo mundo e o comodismo da proteção militar americana.

O crescente conflito geopolítico com a China mostra o anacronismo desta postura e a agressividade de Abe alimenta a mudança da cultura diplomática japonesa. Resta saber agora qual será o impacto desta barbárie do terror islâmico na cultura política da sociedade japonesa.

De um lado, pode servir de argumento de que não dá mais para o país se esconder atrás da “neutralidade camuflada”, na expressão de Yukio Okamoto, um especialista em defesa que respalda a postura mais agressiva de Abe, citado pelo jornal Financial Times. A barbárie expõe a opinião pública japonesa diante das verdades inconvenientes do mundo. Não dá mais para ficar em cima do muro.

De outro lado, os japoneses podem ficar ainda mais reticentes, buscando com mais determinação o conforto do distanciamento e do isolamento, com o alerta pacifista de que não devem ser sugados para aventuras externas.

É provável que a curto prazo a tragédia das mortes dos dois reféns pelos bárbaros do terror islâmico seja um revés político para o primeiro-ministro Shinzo Abe. No entanto, as pressões internacionais (a destacar o expansionismo chinês) não deverão permitir que o Japão fique escondido na sua “neutralidade camuflada”. O país irá se resgatar de sua própria história.

 

 

31/01/2015

às 6:00 \ Venezuela

O fim iminente da revolução bolivariana

Crônica de uma morte anunciada (clichê verdadeiro)

Crônica de uma morte anunciada (clichê verdadeiro)

Óscar Arias Sánchez é uma liderança política decente na América Latina (sim, a espécie existe). Para todos, uma boa leitura do texto do ex-presidente da Costa Rica e prêmio Nobel da Paz, publicado no essencial jornal espanhol El País.

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Óscar Arias Sánchez

Não sei quantas vezes acreditamos, ao longo dos últimos 15 anos, que a Venezuela está à beira da mudança, que já não pode suportar mais, que algo precisa ceder. O regime chavista, entretanto, persistiu apesar dos augúrios que desde seu começo vaticinam o fim iminente da revolução bolivariana. O que explica essa resiliência? Como é possível entender que um sistema claramente antidemocrático tenha conseguido resistir a tantas pressões e continue, pelo menos até agora, recebendo o apoio do eleitorado?

Sobre isso foram escritos volumes e ainda se escreverá muito mais. A Venezuela do começo do século XXI ainda continuará fascinando os acadêmicos e os analistas por décadas. Mas é inegável que duas pedras angulares da sobrevivência do regime chavista foram o desempenho econômico, sustentado pelo comércio do petróleo, e a popularidade de seu líder (Hugo Chávez em sua época e depois, em menor escala, Nicolás Maduro). Acredito que todos podemos concordar que estas duas forças encontram-se hoje no pior estado registrado desde 1999.

A acelerada queda no preço internacional do petróleo, e a consequente deterioração das condições fiscais de um governo que monopoliza quase a totalidade dos serviços essenciais, impactaram a vida cotidiana dos venezuelanos de uma forma que, agora sim, parece insustentável.

É um clichê dizer que o dilema atual do chavismo é a “crônica de uma morte anunciada”. Mas é a verdade. Maduro pode fazer todas as contorções retóricas possíveis, chamando a situação de “guerra do petróleo” e de tentativa de “colonização mediante o colapso econômico”, mas nenhum outro país em anos recentes dispôs de maiores recursos com resultados piores.

Nenhum outro governo dilapidou sua renda de maneira tão temerária. Ninguém além do regime chavista é responsável por isso. Não existe conspiração internacional que explique porque as filas para comprar farinha ou sabão duram dois dias. Isso só se explica pela existência de um governo corrupto, ineficiente, dedicado ao culto da personalidade e obcecado em ocultar o fracasso de um modelo que já não há como subvencionar.

Amartya Sen demonstrou celebremente que nunca se registrou fome em uma democracia consolidada. De certa forma, a situação pela qual a Venezuela atravessa atualmente não só demonstra seu déficit fiscal, como também seu déficit democrático. As instituições que foram socavadas ao longo dos anos, a iniciativa empresarial que foi obstruída, a oposição que foi suprimida, a separação de poderes que foi anulada, são forças que poderiam ter evitado que o país se aproximasse tanto da beira do abismo.

Uma democracia canaliza o descontentamento popular com eficácia. Uma democracia corrige erros com prontidão. Chávez e Maduro se encarregaram de acabar com essa capacidade de resposta. Agora, Maduro aperta o punho com maior força, tentando calar quem levanta a voz. Que Leopoldo López esteja na prisão, que María Corina Machado enfrente um julgamento digno de um romance de Arthur Koestler, não faz nada além de confirmar que o governo perdeu o controle.

Não devemos cometer o erro de dar por certo o fim de uma era. Antes, é a responsabilidade de todo democrata, e não só dos venezuelanos, ajudar para que a Venezuela consiga fazer uma transição democrática. A crise de legitimidade do regime chavista deve ter como oposição a legitimidade da oposição. Estamos diante de uma verdadeira conjuntura histórica. Cabe a todos nós colaborar para que aconteça uma mudança, e aconteça de forma pacífica.

A prioridade não deve ser remover uma pessoa específica. Isso é um erro que outros países cometeram, derrubando líderes cuja saída não teve efeito sobre a situação real. A prioridade deve ser a institucionalidade democrática.

É indispensável restabelecer o Estado de Direito e a separação de poderes. É indispensável abandonar a perversa intromissão das forças armadas na vida civil. A legitimidade da oposição deve derivar-se de sua adesão a certos princípios, não de seu ataque a certas pessoas. Deve derivar-se de seu compromisso com o respeito à institucionalidade e de sua negativa em utilizar a violência como moeda de troca. Nesse momento, nada é mais urgente do que a situação de desabastecimento e racionamento. Quanto trata-se das necessidades mais básicas, o risco de violência aumenta. Por isso, hoje quero realizar um pedido à oposição para que exerça uma liderança responsável.

E faço também um pedido à comunidade internacional para que volte seus olhos sobre a Venezuela. Conheço bem a dinâmica das relações internacionais. Sei que existe uma competição pela atenção a nível global, e que a Venezuela divide o cenário com regimes que apresentam risco mais próximo para as potências mundiais.

Quero frisar, entretanto, que estamos em um ponto de inflexão: em uma Venezuela prostrada economicamente, e isolada politicamente, a pressão internacional pode gerar resultados positivos. A primeira condição dever ser, como eu disse muitas vezes, a libertação de todos os presos políticos. Cada dia a mais que Leopoldo López passa na cadeia, a cada dia que políticos eleitos ou estudantes são presos, é uma violação dos direitos humanos, à Carta das Nações Unidas e à Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos.

A libertação dos presos políticos deve ser o primeiro passo de uma estratégia que leve a um pleno restabelecimento da democracia na Venezuela. Mesmo que eu compreenda as diferenças da situação atual na Venezuela com outras transições na história mundial, também acredito que existem lições que não deveríamos esquecer. Mandela não teria nunca conseguido o fim do apartheid se não tivesse pensado no próprio de Klerk, no Partido Nacional e no papel que deveriam ter na transição sul-africana para a democracia.

Não é a divisão nem a vingança que levará a Venezuela a um futuro melhor, mas a inclusão pacífica e inteligente. Eu acredito que a hora chegou. Acredito que os venezuelanos conseguirão reconhecer que o regime chavista pode ter tido, no começo, intenções nobres, mas seu fracasso é indiscutível. O modelo econômico que talvez em algum momento esteve inspirado na justiça social, desembocou na escassez e na necessidade. Não é preciso ser de direita ou de esquerda para admitir que não vale a pena preservar algo por sua promessa. As coisas são preservadas ou descartadas por seus resultados.

É hora de avaliar uma experiência política que, como tantas outras, sustentou-se sobre a miragem da bonança econômica que trouxe um boom nos preços de produtos primários. É hora de adotar um regime que se sustente, de uma vez e para sempre, sobre valores democráticos.

* Oscar Arias Sánchez foi presidente da Costa Rica de 1986 a 1990 e de 2006 a 2010 e Prêmio Nobel da Paz 1987. Arias enviou esta carta ao foro “Poder Cidadão e a Democracia de hoje”, realizado em 26 de janeiro em Caracas e ao qual não pôde comparecer, mesmo tendo sido convidado, junto com os ex-mandatários Sebastián Piñera, do Chile, Felipe Calderón, do México, e Andrés Pastrana, da Colômbia.

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Colher de chá para todos os leitores que comentaram (inclusive aqueles que fizeram críticas respeitosas) as palavras de Óscar Arias Sánchez. 

 

 

 

30/01/2015

às 12:11 \ Venezuela

A Venezuela, um caso de polícia (e de Exército)

Maduro dá sinal verde para os milicos atirarem

Maduro dá sinal verde para os milicos atirarem

A imprensa espanhola, de esquerda e de direita, está sempre atenta para cobrir o desgoverno, os desmandos e o desatino chavista. Esta semana já escrevi a respeito da revelação do jornal ABC (conservador) sobre a deserção de Leamsy Salazar (que foi chefe da segurança do próprio Hugo Chávez), implicando a alto cúpula do regime no narcotráfico. Não é a primeira denúncia do gênero, mas Salazar, que está agora nos EUA sob proteção judicial, é o rato mais importante a saltar do navio criminoso fazendo este tipo de acusação.

O regime é capaz de ir às últimas consequências para se manter no poder, apesar de sua criminalidade e implosão. O esquerdista El País tem reportagem inquietante sobre o decreto do governo Nicolás Maduro autorizando o Exército a usar armas de fogo em manifestações e comícios, não diferenciando entre atos pacíficos e violentos.

Nos EUA, tampouco há carestia de bom material sobre a implosão do chavismo, agravada pela baixa dos preços do petróleo. Na capa de sua edição impressa nesta sexta-feira, o New York Times detalha a situação de um país em que a população carece do básico. O resultado são as filas imensas, com milhares de pessoas, para a compra de gêneros subsidiados. E lá está o Exército patrulhando a multidão que se estende por quarteirões. Os soldados vão atirar contra o pueblo insatisfeito?

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Pessoal, dia longo, não pude ler com atenção os comentários. Então, colher de chá ensaboada (sabão falta em Caracas) ao debate democrático (e não bolivariano)!

 

30/01/2015

às 6:00 \ Europa, Grécia, Merkel

Quem é o João sem braço na crise grega?

capa economistTemos acima mais uma das capas sedutoras da Economist sobre um assunto tão solene: o futuro da Europa. A princípio, o novo primeiro-ministro grego Alexis Tsipras é um João sem braço, mas ele se revela capaz de dar uma pernada na frau Austeridade, a primeira-ministra alemã Angela Merkel, não apenas revertendo reformas austeras, mas insistindo em perdão da dívida.

Imagine, Tsipras desafia a frau até ao namorar nosso homem em Moscou, deixando claro ser contrário às sanções europeias contra a Rússia por sua agressão na Ucrânia. Na quinta-feira, ele criou caso e forçou a União Europeia (que toma decisões por unanimidade) a diluir ainda mais o comunicado aguado sobre novas sanções. Não é à toa que se diz que Merkel foi uma grande perdedora nas eleições gregas, enquanto Vladimir Putin foi um um dos vencedores.

Muito já se falou, inclusive aqui, sobre o dilema de Merkel. Se joga mole com Tsipras, ela estimula outros partidos populistas na Europa, de esquerda e de direita, a pedirem o fim da austeridade. Se joga duro, ela também enfurece e acaba sendo um fortificante para estes partidos populistas.

Nos dilemas, a Europa dos compromissos gosta de empurrar com a barriga, chutar a latinha para a frente, com se diz em inglês. Tudo ficou mais complicado, pois a chantagem de Tsipras é o maior desafio já enfrentado pelo euro. Ninguém quer o desfecho dramático, mas as coisas podem caminhar para a saída grega da zona do euro. Será menos traumático do que seria anos atrás, mas ainda assim um golpe pesado.

Na fantasia da Economist, o ideal seria Angela Merkel reconhecer que a austeridade foi longe demais na Europa (a economia não cresce) e a dívida grega de 240 bilhões de euros é impagável. Em troca, Tsipras deveria reconhecer que seu plano econômico é aloprado. É preciso fazer reformas, avançar nas privatizações e não recontratar funcionários públicos e bancar o papai Noel para os gregos.

No mundo real, há pouca margem para compromissos e não será possivel empurrar com a barriga por muito tempo. Tsipras irá forçar Merkel e o establishment europeu a fazerem duras escolhas, como despachar a Grécia da zona do euro

O alerta da Economist é mais amplo. Sem políticas agora que engatilhem o crescimento, com o foco obsessivo em austeridade e reformas que demoram para amadurecer, Angela Merkel pode condenar a Europa a uma década perdida que irá debilitar mais do que a japonesa.

Este cenário irá gerar um avanço populista na Europa ainda maior do que o em curso na Grécia. No alerta catastrófico da Economist, o euro não irá sobreviver nestas circunstâncias e a Alemanha será a grande perdedora e não o seu desafiante grego.

Eu vou dar uma de João sem braço e não comprar esta capa da Economist. Os grandes perdedores serão os gregos. Sairão ainda mais arruinados do duelo.

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Colher de chá bem matinal para o General Failure que deve ser criticado por…longas ausências na coluna (dia 30, 7:32).

29/01/2015

às 6:00 \ Ucrânia

A Ucrânia e o estado Mickey Mouse de Putin

Cenário desolador na guerra civil no leste do país

Cenário desolador na guerra civil no leste do país

Na sua coluna no New York Times, Thomas Friedman faz um apelo para que nós não nos esqueçamos da Ucrânia. Tom, não se preocupe. Eu estou sempre ligado naquela crise e nos lances do nosso homem em Moscou.

E Thomas Friedman tem razão:  a Ucrânia importa mais do que a guerra contra o terror islâmico no Siraque, onde o Ocidente tem aliados árabes nebulosos em um cenário tribal e sectário. Na Ucrânia, é uma luta clara para um país se livrar da órbita russa e integrar a esfera ocidental de valores democráticos e do livre mercado.

Os conflitos voltaram a se intensificar nos últimos dias na guerra civil ucraniana, que já deixou 5 mil mortos. Esta escalada redobra as questões sobre a estratégia dos rebeldes pró-russos e obviamente a do seu domador em Moscou. Em longa reportagem, o Financial Times ressalta que cresce o alarme de que Vladimir Putin esteja mudando o jogo. Até agora, seus lances táticos eram oportunistas e pragmáticos, destinados a manter abertas as opções de escalar ou refrear o conflito. As metas agora parecem mais fixas.

A intensificação dos combates -em meio à habitual fuzilaria de mentiras da agitprop moscovita, que inclui agora até o absurdo de denunciar a presença de tropas da Otan na luta enquanto nega a de russas- mostra o empenho dos rebeldes para capturar cidades estratégicas para a economia ucraniana e expandir o território separatista.

Assim, é possível que Putin não esteja mais meramente tentando consolidar uma região semiautônoma dentro da Ucrânia. Seu cálculo é o de que Kiev está para sempre perdida para Moscou. O plano seria criar um estado-marionete economicamente viável. Jonatha Eyal, diretor do Royal United Services Institute, em Londres, observa que a anexação da Crimeia há quase um ano foi uma retaliação à derrubada do presidente pró-russo Viktor Yanukovich.

Na sequência, foi a criação de enclaves no leste ucraniano para chantagear o governo central de Kiev para aceitar algum tipo de federação. Isto fracassou, a um preço sangrento. Agora, é este lance para estabelecer uma situação mais permanente. Na expressão de Eyal, consolidar um “estado Mickey Mouse controlado pela Rússia”, como acontece na Abkhazia (na Geórgia) e na Transnistria (Moldávia).

Como lembra Thomas Friedman, do New York Times, a meta suprema de Putin na Ucrânia é destruir qualquer projeto reformista no país antes que amadureça um modelo próspero e democrático que seduza os russos mais do que sua cleptocracia que começa a pedir água devido à baixa dos preços do petróleo.

Esta meta do nosso homem em Moscou é o mais vergonhoso asssalto geopolítico em curso no mundo atual.

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Colher de chá para o cerebral Nehemias (dia 28, 15:28).

28/01/2015

às 23:13 \ Venezuela

A Venezuela, um caso de polícia

Maduro e Cabello: tráfico de influências e outras mercadorias

Maduro e Cabello: tráfico de influências e de outras mercadorias

Nós não sabemos o grau de veracidade de tudo o que está sendo atribuído a Leamsy Salazar, que fez suas transações com as autoridades americanas e está em Washington após anos de serviços prestados ao chavismo para ser testemunha-chave no caso para incriminar o regime de Caracas. Tudo, porém, picante.

Salazar foi chefe da segurança do próprio caudilho Hugo Chávez e depois de Diosdado Cabello, presidente do Congresso e líder da ala militar do regime hoje desgovernado por Nicolás Maduro, acusado de ser o grande operador do narcotráfico numa conexão com os narcoterroristas das FARC, da Colômbia.

O jornal espanhol ABC revelou a trama de páginas político-policiais. Nesta reportagem, estão vários detalhes da sórdida saga. Pelas versões que circulam agora também em jornais como Miami Herald, a responsabilidade criminal remonta a Hugo Chávez, que enlameou a estrutura do estado venezuelano com o narcotráfico com a justificativa de que assim seria possível auxiliar as FARC na “guerra assimétrica” contra os ianques.

Ainda de acordo com as versões, Maduro também estaria metido no negócio, além de muitos figurões do chavismo. Nenhuma surpresa nestes tempos de Operação Lava Jato que a estatal de petróleo PDVSA seja o “oleoduto” para a lavagem do dinheiro.

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Colher de chá para Clovis Ilha (dia 28, 18: 39). 

28/01/2015

às 20:04 \ Hezbollah, Irã, Israel, Libano, Síria

Na frente libanesa

Alvos israelenses do Hezbollah

Alvos israelenses do Hezbollah

O acirramento de tensões e confrontos era esperado entre Israel e a milícia terrorista libanesa Hezbollah (aliada do regime xiita de Teerã e da ditadura Assad na Síria) desde que os israelenses mataram um general iraniano e um comandante do Hezbollah em um ataque aéreo na Síria no último dia 18.

Pois bem, nesta quarta-feira veio a retaliação. Em um ataque de artilharia, o Hezbollah matou dois soldados israelenses e feriu outros sete,que estavam em patrulha na área das colinas de Golã controlada por Israel. Não está claro se o ataque em uma tripla fronteira foi lançado do Líbano ou da Síria. Na espiral habitual, aconteceram as represálias israelenses e no ataque contra o sul do Líbano ocorreu a morte de um soldado espanhol das forças de paz da ONU.

A questão é se pela frente vem algo mais profundo na frente libanesa ou mesmo na síria, onde o Hezbollah e a Guarda Revolucionária iraniana lutam ao lado das forças de Assad na guerra civil tridimensional, envolvendo rebeldes apoiados pelo Ocidente e países árabes e também jihadistas realmente da pesada do movimento Estado Islâmico e da Frente Nusra.

Uma possibilidade é o Hezbollah provocar Israel para que lance incursões terrestres na Síria, especialmente se disparar de forma contínua foguetes contra comunidades do lado israelense das colinas de Golã. É um momento apropriado para a provocação. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que concorre nas eleições gerais de 17 de março, prometeu nesta quarta-feira uma resposta vigorosa “em todas as frentes”. Israel e o Hezbollah travaram uma guerra em 2006.

A ideia seria jogar a opinião pública no mundo árabe contra o invasor israelense e colocar governos árabes em uma saia justa, retratando terroristas do Estado Islâmico e da Frente Nusra como colaboradores dos sionistas contra o regime Assad e seus aliados libaneses.

Soa bizarro? O que não é bizarro e bárbaro naqueles bandas?

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Coluna sempre estimula leitores que não raramente ou nunca comentam a fazer isso. Colher de chá para Gustavo Morais (dia 28,15:15).

 

 

 

 

28/01/2015

às 6:00 \ Bill de Blasio, Neve, Nova York

Geopolítica da neve

O general Bill de Blasio e suas armas

O general Bill de Blasio e suas armas

Eu não sou fã de Bill de Blasio, o prefeito democrata de Nova York, um varapau de 1.96 m que verga perigosamente para a esquerda. No entanto, da minha parte, nada a reclamar, como estão fazendo tantos por aqui, contra seu excesso de zelo na nevasca épica que não aconteceu na cidade esta semana (outras áreas do nordeste americano foram assoladas com muita intensidade).

No bordão em inglês, Bill de Blasio disse better safe than sorry (o menos frequente é melhor prevenir do que remediar das autoridades brasileiras). Meteorologistas estão dizendo sorry por terem errado na previsão sobre o snowpocalipse na área metropolitana de Nova York.

Para o prefeito foi mais na base do sorry há um ano, com apenas um mês no cargo, quando manteve as escolas abertas durante uma nevasca. De Blasio aprendeu a lição. A maior reclamação agora com  excesso de zelo envolveu o fechamento do metrô, algo que nunca tinha ocorrido com tempestade de neve nos 110 anos do serviço na cidade. Um detalhe: a decisão foi do governador de Nova York, Andrew Cuomo, pois o metrô integra uma agência metropolitana de transportes.

No entanto, políticos devem temer mais os pecados da omissão, da negligência e da incompetência (estou falando de Nova York e não de São Paulo, minha cidade natal, com os excessos de omissão , de negligência e de incompetência e não de zelo). Este texto do site da revista The Atlantic tem sacadas interessantes a respeito. Lembra que o moderno prefeito americano nasceu em uma tempestade, a de 1888, quando 400 pessoas morreram na costa leste.

Foi naquele cenário de devastação que os eleitores das vibrantes e vulneráveis cidades americanas ficaram convencidos de que elas só poderiam funcionar se os governos locais assumissem um papel mais amplo e mais pró-ativo.

Antes de 1888, a população esperava pouco de seus prefeitos. Eles distribuíam favores (em troca de votos) e participavam de solenidades. Naquela tempestade de 1888, o prefeito de Nova York, Abram Hewitt, tolerou a intempérie no aconchego de sua mansão na Avenida Lexington. Ele divulgou um comunicado quatro dias mais tarde, fazendo um pedido para que os proprietários privados limpassem a neve de suas sarjetas e calhas.

O grande prefeito La Guardia

O grande prefeito La Guardia

A tempestade de 1888 alterou as expectativas. A população de qualquer cidade americana exige mais dos serviços de utilidade pública, de sua infraestrutura pública e dos seus servidores públicos. Tempestades hoje são os parâmetros pelos quais os eleitores medem seus prefeitos (crime também, é claro), avaliando sua habilidade para operar a complicada máquina de administração municipal.

Para políticos, um desempenho eficiente em tragédias naturais é um trampolim para saltos mais altos, até presidenciais. O caso do meu governador de Nova Jersey, Chris Christie, é familiar. Ele foi um bulldozer na supertempestade Sandy em 2012. Christie estava com a corda toda nesta nevasca de 2015. Mesma coisa com Cuomo, o governador democrata de Nova York, que pode arriscar um salto presidencial na próxima década. Antes disso, ele não pode ser soterrado por uma nevasca.

Michael Bloomberg, o antecessor de Bill de Blasio, queria ser julgado por seu viés tecnocrático. De Blasio é um prefeito mais tradicional, com seu viés ideológico de esquerda. No entanto, arremato com uma frase de um grande e lendário prefeito de Nova York, Fiorello La Guardia (1.57 m). Ele disse que não existe um “modo republicano ou democrata de varrer as ruas da cidade”. O mesmo vale na guerra para enfrentar a neve.

Até a próxima nevasca em Nova York. O Instituto de Meteorologia Blinder & Blainder garante que mais dia, menos dia ela virá neste inverno ou no próximo.

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Eu vou dar a colher de chá para meu amigo e colega Guga Chacra, via comentário do Maisvalia (dia 28, 13:55). Sacada foi boa. Eu também recebi e mails de amigos, aí do Brasil varonil, seco e apagadão, preocupados com minha situação na neve. Incroyable!

 

 

 

 

27/01/2015

às 11:52 \ Neve, Nova York

Nova York, cidade fantasma

Times Square, Manhattan

Times Square, Manhattan

Foi uma avalanche de preparativos e de superlativos. Somente por volta das 5 da manhã desta terça-feira, o Serviço Nacional de Meteorologia (dos EUA) confirmou que a nevasca épica não iria se materializar na área metropolitana de Nova York (embora o castigo seja bravo em outras partes, como Long Island e Boston). No comunicado dos cientistas do tempo, “a ciência de prever tempestades, embora melhore continuamente, ainda pode ser sujeita a erro”.

Ao contrário de tantos resmungões por aqui na manhã desta terça-feira, eu não tenho nada contra o excesso de zelo das autoridades municipais e estaduais na parte que me toca (Nova York e Nova Jersey), nos confinando por algumas horas. Melhor se preparar para o pior. E se o pior acontece, políticos não querem ser soterrados devido aos pecados de negligência e incompetência. A avalanche de imagens, comentários, piadas e reclamações continua nas redes sociais e na imprensa. Inescapável.

Afinal, Nova York é capital do mundo e da mídia. Para ilustrar este floco de coluna, eu selecionei a imagem da agência Getty, um flagrante de algumas horas atrás que obviamente já pertence ao passado remoto desta cidade frenética a qualquer momento.

De resto, para quem acha a neve um charme, lembro que para nós, entre outras coisas, vai sobrar um mar de lama. O nosso aqui ao norte é literal, pisamos nele. O mar de lama aí ao sul….Bem, vocês já entenderam.

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Colher de chá para as autoridades. Melhor o excesso de zelo. E outra para Marcel Felipe (dia 27, 16:26). Roubei a piada dele na minha falação nesta terça-feira com o Reinaldão na Jovem Pan.

 

 

27/01/2015

às 6:05 \ Auschwitz

Auschwitz (1940-1945)

Marion Majerowicz, 88 anos, sobrevivente

Marian Majerowicz, 88 anos, sobrevivente

Nesta semana, eu já escrevi dois textos sobre a Grécia e a Europa na encruzilhada, que tem a Alemanha de Angela Merkel como âncora. Apropriado, portanto, lembrar neste 27 de janeiro os 70 anos da libertação de Auschwitz, a rede de campos nazistas de concentração e de extermínio na Polônia, epicentro do genocídio industrial, onde foram assassinadas 1.1 milhão de pessoas (90% eram judeus). A Europa dos extenuantes compromissos, da ojeriza ao extremismo e do combate ao totalitarismo também celebra 70 anos neste 2015. Longa vida para esta Europa e, como judeu, eu digo: nunca mais.

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Colher de chá para Pedro Bouvetiano (dia 27, 7:58), pela correção.

 

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