Blogs e Colunistas

20/12/2014

às 6:00 \ 2014, Primeira Impressão

Livros do ano (2014)

Paradoxos do poder

Paradoxos do poder

Coluna tem seus rituais e nesta saideira do ano, o Instituto Blinder & Blainder publica sua lista de livros do ano. A lista é malandra, pois o instituto novamente surrupia o material do Financial Times, uma das suas fontes essenciais de informação. Priceless! O meu querido FT saiu na frente e sua lista de “required reading” foi divulgada no finalzinho de novembro, mas eu a compartiho apenas agora.  É uma trolha de cinco páginas, mas no meu ritual eu destaco apenas alguns livros das áreas de concentração da coluna, que são política e história.

O ano de 2014 não foi grande coisa para mim, de derrotas esportivas e políticas no meu Brasil, e de desempenho acima da conta de coisas horrorosas como o Estado Islâmico e aquilo que em colunas no começo do ano rotulei de Putinadas & Patinadas. Também foi um ano frustrante de poucas leituras densas, ou seja, de material além do jornalismo nosso de cada dia. Espero que tudo tenha um desempenho melhor em 2015.

Vamos ao que interessa, listando alguns dos livros destacados pelo Financial Times:

* Contest of the Century: The New Era of Competition with China, de Geoff Dyer.

O autor atualmente é correspondente do próprio FT em Washington, mas já esteve baseado em Pequim. Seu livro justamente trata das rivalidades entre EUA e China, examinando os variados aspectos da competição e os formidáveis desafios domésticos enfrentados pelos dois países.

* No Place to Hide: Edward Snowden, the NSA and the Surveillance State, por Glenn Greenwald

O jornalista-ativista americano que mora no Rio de Janeiro colaborou com Edward Snowden, hoje asilado na Rússia. Greenwald conta sua versão do maior vazamento de informações secretas da história dos EUA. Lembrando o óbvio: para alguns, Greenwald é um herói; para outros, um ególatra irresponsável. No entanto, como lembra o FT, seu relato em primeira mão é valioso.

* World Order, por Henry Kissinger

O bruxo da “realpolitik” já passou dos 90 anos, mas continua sendo um dos mais instigantes pensadores no ofício da geopolítica. A mensagem do livro é um apelo para que seja obtida um equilíbrio gobal de poder, com base na “acomodação prática à realidade”. Como todos sabem, moralidade nunca foi o forte do Dr. K.

* Stalin, Volume 1: Paradoxes of Power, 1878-1928, por Stephen Kotkin

Podem confiar neste historiador do stalinismo. Sempre existe alguma coisa nova a ser escrita sobre um dos maiores monstros da história da humanidade. E este é apenas o primeiro de três volumes. Obra para ser levada para uma ilha deserta, embora seja masoquismo ler tanto sobre Stálin.

Minha bíblia, a Economist, também tem o seu listão e alguns dos livros são os mesmos da compilação do Financial Times. Por exemplo, The Collapse: The Accidental Opening of the Berlin Wall, por Mary Elise Sarote; e Age of Ambition: Chasing Fortune, Truth and Faith in the New China.

E um destaque da Economist merece o meu destaque. Como o tour de force de Henry Kissinger, eu destaco o de Francis Fukuyama, a megaestrela acadêmica que tem cadeira cativa na coluna. O honesto Fukuyama refaz ideias sobre o fim da história em Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy. Ele admite que as coisas são mais complicadas do que imaginara. A China adotou uma mistura de capitalismo de estado e autoritarismo; a democratização fracassou na Rússia e em boa parte do Oriente Médio. Na conclusão de Fukuyama, são necessárias instituições políticas de alta qualidade. Sabemos como é penoso forjá-las.

PS- Leitores estão encorajados a darem suas recomendações de livros do ano.

19/12/2014

às 6:00 \ Cuba, EUA, Venezuela

Curtas & Finas (Cuba & Venezuela)

Nicolás e Raúl confabulando

Nicolás e Raúl confabulando

O regime castrista por si é um equívoco, uma perdição, mas ele aprendeu com seus erros, com alguns dos seus maiores desastres. A gerontocracia de Havana está consciente dos riscos da dependência, especialmente depois que a economia sofreu um colapso no começo dos anos 90 com a implosão da União Soviética. A Rússia de Vladimir Putin ainda é um benfeitor de Cuba, mas está aí amargando seus graves problemas devido aos preços mais baixos do petróleo e às sanções ocidentais como punição contra a agressão na Ucrânia.

No entanto, o cordão umbilical de Havana hoje é com Caracas. No começo, Fidel Castro exercia um fascínio paternal sobre Hugo Chávez. Velhos tempos. Agora, é o regime castrista que tenta se desgarrar um pouco do chavismo conduzido por Nicolás Maduro. Um dos motivos para Cuba buscar o degelo com os EUA, após mais de meio século de um conflito geriátrico, é a fria na qual se encontra a Venezuela.

O regime castrista precisa suavizar o embargo e conseguir dólares para compensar o cenário realista de uma Venezuela que pode quebrar, sofrendo barbaridades com o equívoco em si que é o chavismo e a baixa dos preços do petróleo. Havana corre para diversificar sua economia, distanciando-se do afago do chavismo, que proporciona cerca de 100 mil barris de petróleo por dia (60%  de suas necessidades energéticas) em troca de Mais Médicos e otras cositas más, como agentes de segurança. O escambo não pode durar muito tempo.

O petróleo representa 95% das exportações da Venezuela e desde junho os preços do barril caíram 40%. O cenário é de desestabilização, com muita gente discutindo quando e como o regime chavista irá implodir, com temores de caos. Na avaliação da Eurasia, a empresa de estratégia de risco, a possibilidade de um calote chavista na sua dívida externa no segundo semestre de 2015 é de 60% caso não ocorra uma recuperação dos preços do petróleo. A Cuba da penúria não pode se dar ao luxo de esperar e com a benção do papa Francisco estendeu a mão para os ianques.

A histórica normalização de relações diplomáticas entre Cuba e EUA deve baixar um pouco o volume do discurso boquirroto do castrismo contra o imperialismo ianque. Havana perdeu munição retórica, mas Caracas se engaja com gosto na fuzilaria verbal, especialmente agora que o Congresso em Washington adotou sanções, assinadas pelo presidente Obama na quinta-feira, em represália à repressão contra opositores em protestos em abril que deixaram mais de 40 mortos.

Nicolás Maduro trata a normalização das relações diplomáticas entre Washington e Havana como uma capitulação do império americano, mas na verdade ele se sente incomodado e ameaça se converter em um aríete quase isolado para a investida de clichês. Na quinta-feira, o governo chavista reagiu contra a ratificação das sanções por Obama, fulminando que se trata de “uma nova etapa de agressões contra a pátria de Bolívar”.

Resta saber se, como o castrismo, o chavismo irá capitular à realidade ou se mostrar ainda mais retrógado do que o mentor.

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Curta & Fina: hoje estou fora de sintonia, hehehe, colher de chá para os fiéis leitores que comentam aqui.
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18/12/2014

às 6:00 \ Petróleo

O choque do petróleo (mais um)

Os preços baixaram ainda mais

Os preços baixaram ainda mais

Na minha ignorância econômica e autointeresse de consumidor, é suficiente dirigir meu Honda Civic por algumas quadras até o posto de gasolina aqui na minha pacata Glen Rock, New Jersey, e achar ótimo o choque do petróleo. Dá para encher o tanque com 30 dólares (galão a US$ 2,45, da gasolina mais vagabunda, pagando cash). Meses atrás, eu investia 40 dólares (não fiquem chocados no Brasil, preço da gasolina não enche tanto a nossa paciência nos EUA.

No entanto, uma leitura do material do afiado Chris Giles no Financial Times me ensinou como é complexo este choque do petróleo, como é complicado alinhar os perdedores e ganhadores neste jogo econômico e geopolítico. Giles alerta que uma queda de 40% no preço do barril de petróleo desde junho normalmente seria um aditivo na economia global.

Desta vez, no entanto, pode ser diferente. Em tempos normais, o efeito mais amplo de uma queda do preço do petróleo deveria significar uma redistribuição de renda de países produtores para países consumidores. As ressalvas são que outros componentes da máquina global, como deflação e o dólar forte, podem jogar areia nas expectativas convencionais.

Chris Giles se concentra na Europa e diz que a política monetária na União Europeia não pode se fiar na ideia de que preços mais baixos do petróleo irão estimular gastos dos consumidores e aumento de renda. O problema é que com a queda dos preços, consumidores podem ficar em compasso de espera, aguardando que haja um declínio ainda maior dos preços.

E sobre o dólar forte, o ponto óbvio, além do posto de gasolina perto de casa, é que ele não beneficia os consumidores tanto assim, como no caso dos americanos. Chris Giles é cauteloso, argumentando que pela lógica convencional, petróleo mais barato é um estímulo para a economia global, mas nada garante que desta vez será a poção mágica.

O texto de Giles é uma trolha de duas páginas (no entanto, didático, com gráficos e quadros sobre o impacto em específicos países). Eu recomendo a leitura e quero destacar uma observação que ele faz no começo. Esta queda dos preços do barril foi o maior choque na economia global neste ano e pegou analistas de surpresa. Eles estavam obcecados com crescentes tensões geopolíticas (na Ucrânia e Oriente Médio) e lances de bancos centrais, deixando de atentar como deveriam para as poderosas forças no mercado de petróleo.

Imagine, no final do outubro, uma “preocupação chave” do FMI era que tensões geopolíticas causariam uma alta do preço do petróleo. Por ora, estamos vendo o contrário. É a economia do petróleo que afeta o jogo político, de Moscou a Caracas. O Brasil do Petrolão claro que é um barril à parte de encrencas.

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Colher de chá para os motoristas brasileiros que não têm a minha moleza no posto de gasolina. E outra, é claro, para o Chris Giles, do Financial Times.

17/12/2014

às 14:25 \ Cuba, EUA

Cuba (ainda) não libre, mas…

Barack e Raúl no funeral de Mandela em dezembro de 2013

Barack e Raúl no funeral de Mandela em dezembro de 2013

Com a libertação do ativista humanitário Alan Gross das masmorras cubanas, agora é possível restaurar as relações diplomáticas entre os EUA e Cuba. As negociações para a normalização das relações bilaterais serão agilizadas em meio a obstáculos do velho lobby anticastrista. Obviamente, eu não gosto da ditadura cubana. Não gosto daquele regime castrista retrógado, paparicado na América Latina. No entanto, a política americana para a ilha caribenha é retrógada e contraproducente, resquício da Guerra Fria.

O isolamento diplomático e o embargo econômico em vigor há mais de meio século servem de oxigênio para os octogenários irmãos Castro, que já sobreviveram a dez presidentes americanos. Em um evento histórico, Barack Obama e o ditador Raúl Castro tiveram um conversa telefônica de 45 minutos na terça-feira.

Tal tipo de diálogo não acontecia desde a Revolução Cubana no remoto ano de 1959 e as negociações em curso foram mediadas pelo Canadá (cujo primeiro-ministro é conservador) e o Vaticano. Aliás, o presidente americano tem 53 anos e as primeiras sanções contra o castrismo foram adotadas dois anos antes do seu nascimento.

Obama espera ter um pouco de vigor político e relevância com sua iniciativa para normalizar as relações com Cuba. Na praxe americana, um presidente no final do segundo mandato arrisca jogadas no cenário internacional. E é jogada de alto risco para a Casa Branca. Obama não era louco de orquestrar esta aproximação com Havana antes das eleições no Congresso de novembro. Mesmo democratas são críticos de sua política externa confusa e da sofreguidão para costurar um acordo nuclear com o Irã. O lobby anticastrista já foi mais poderoso no Congresso e na Flórida. No entanto, ainda tem muito peso.

A gritaria bipartidária contra o lance de Obama já começou e apenas não é maior devido ao espírito natalino, com os distintos parlamentares já fora de Washington para o recesso de fim de ano. O risco óbvio nesta normalização é se apenas a ditadura cubana faturar muito. Raúl Castro quer transformar Cuba em uma China Chica do Caribe, com reformas econômicas e manutenção do sufoco político, mandando o mundo calar a boca e não se meter nos assuntos internos do país. Será um revés para Obama se o relaxamento do embargo econômico não trouxer nada de afrouxamento político (algo remoto).

E sobre o relaxamento do embargo, a Casa Branca pode atuar apenas nas suas bordas. Mudanças substanciais dependem de aprovação do Congresso, que a partir de janeiro terá maioria republicana na Câmara e no Senado. Este Congresso não promete ser muito camarada com Obama nesta questão de política externa.

Pessoalmente, eu acho um erro. O status quo da política americana para Cuba é tão geriátrico como os irmãos que mandam na ilha. Se os EUA têm plenas relações com o execrável e geriátrico regime da Arábia Saudita (aliado estratégico), não faz sentido alienar a ilha a 130 quilômetros da Flórida, tão perto dos EUA e ainda tão longe da liberdade.

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Colher de chá para Alan Gross e para todos que já estiveram e ainda estão nas masmorras políticas cubanas.

17/12/2014

às 6:00 \ Putin, Rússia, URSS

Curtas & Finas (Rússia & URSS)

O ex-major da KGB não aprendeu as lições soviéticas

O ex-major da KGB não aprendeu as lições soviéticas

Fazer metáfora com ônibus desgovernado na Venezuela (como fiz na semana passada) é fácil. Afinal, o condutor é Nicolás Maduro, o ex-motorista de transporte coletivo. E na Rússia? Como o país ainda tem peso global, conduz uma política externa truculenta e  o condutor é o ex-major da KGB Vladimir Putin, quem sabe podemos arriscar que se trata de um jamanta que ameaça se desgovernar.

Não precisamos repetir tudo o que está acontecendo com a jamanta russa. Ela enfrenta uma tempestade perfeita. Faz o que pode para frear o risco, como implementar uma draconiana alta dos juros para estancar a hemorragia do rublo. A Rússia de Vladimir Putin está desesperada, apesar do vago semblante de negação da realidade do nosso homem em Moscou.

O grande drama é que a Rússia não tem exatamente uma economia, mas um negócio de exportação de gás e de petróleo, que subsidia de tudo, desde a assistência social aos sonhos de restauração de glórias imperiais. A tempestade perfeita existe devido à combinação de queda dos preços do petróleo com fatores mais geopolíticos como as sanções ocidentais adotadas em represália à agressão russa na Ucrânia.

Putin sonha em restaurar as glórias passadas. No entanto, é muito mais provável que repita o desastre soviético da época do esclerosado Leonid Brehznev. A Rússia de hoje tem algumas semelhanças com a URSS do final dos anos 70. Quando ocorreu a invasão soviética do Afeganistão em 1979, houve uma sensação de pânico e de desalento em muitas paragens ocidentais. Havia a ideia equivocada de que se tratava de um momento de triunfalismo soviético, com o Ocidente acuado. Os mais alarmistas achavam que a Guerra Fria estava perdida.

Sem dúvida, o Ocidente hoje está em uma condição estrutural mais frágil do que no final dos anos 70 (basta ver a União Europeia e o Japão). No entanto, a situação russa agora, em comparação à do Ocidente, é de mais vulnerabilidade (nenhum consolo para ninguém e nem estou colocando no cenário os países emergentes). Na época da invasão do Afeganistão, o cenário era igualmente desastroso. No Afeganistão, a jamanta soviética despencou no seu Vietnã.

O desastre soviético se consumou com a queda dos preços do petróleo, que lubrificava a máquina de guerra, a miragem econômica e a farsa do modelo ideológico comunista. As coisas se esfarelaram como o muro de Berlim.

Putin invadiu a Ucrânia (e antes a Geórgia) quando o preço do barril de petróleo estava nos três dígitos. O preço despencou para a metade disso. Vamos ver quando e como vai despencar a jamanta conduzida por nosso homem em Moscou.

***
Vou dar a colher de chá para a turma do wishful thinking, mas vou traduzir de outra forma a consagrada expressão. Não são os “sonháticos”, mas leitores da coluna que realmente torcem pelo melhor na Rússia, ou seja, o fim desta corruptela soviética do Putin, mas sabem como será difícil mudar o esquemão do nosso homem em Moscou.  De resto, ainda me espanta ler na coluna os apologistas de regime do Putin e outras excrescências  do planeta.

 

 

16/12/2014

às 11:11 \ Austrália, Paquistão

Como é que pode? (Paquistão)

Vítima do terror no Paquistão

Vítima do terror no Paquistão

Eu conheço variações da história clássica sobre arrogância ocidental (muitas vezes traduzida com a ideia de que os ocidentais dão menos valor às vidas dos outros) estampada em uma manchete do vetusto The Times, de Londres: “Ônibus cai em desfiladeiro, um britânico ferido e 30 paquistaneses mortos”.

Vale esta referência diante dos fatos horrorosos desta terça-feira no Paquistão, na sequência do desfecho do atentado de segunda-feira em Sydney, na Austrália (três mortos, entre eles o sequestrador). Em uma escola de Peshawar, mais de 135 pessoas morreram, em sua maioria crianças, em um ataque do Talibã.

Não vou aqui discutir política interna ou jogos geopolíticos naquela região ingrata do mundo. Este ato de barbárie obviamente é destaque na imprensa global, mas não é uma sensação midiática, como o caso do atentado em Sydney, uma das mais espetaculares metrópoles do mundo. Mídia sempre é seletiva. Basta mencionar que no caso de Sydney o destaque na imprensa brasileira foi o fato de haver uma brasileira entre os reféns.

Não preciso de aulas de jornalismo ou de ética jornalística para debater o assunto. Claro que um atentado no coração de uma cidade como Sydney em geral será um “espetáculo midiático” mais intenso do que um ocorrido em Peshawar. Não se trata de arrogância ocidental ou pouco valor às vidas dos outros. São regras elementares de como funciona a imprensa (comercial). Dito isto, o que aconteceu nesta terça-feira foi demais até para o Paquistão, condenado até por outros fundamentalistas islâmicos.

Não elaborei nesta rápida pensata a política interna ou os jogos geopolíticos no Paquistão, mas como foi demais até para aquela terra ingrata existe uma tênue possiblidade de que haja uma mudança no jogo duplo do venal aparato de segurança do país, que combate e acoberta o Talibã.

PS- Dentro do assunto sobre critérios informativos, uma informação pertinente. Adivinhe qual foi o top trending topic no Google em 2014? Foi o suicidio do ator Robin Williams, seguido pela Copa do Mundo, Ebola e os dois desastres com aviões da Malaysia Airlines (Pacífico e Ucrânia).

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Colher de chá para Alexandre FG (dia 16, 12:21)

 

 

16/12/2014

às 6:00 \ Japão, Shinzo Abe

Se Oriente, Japão (II)

Shinzo Abe, National Kid, no colo do avô, o então primeiro-ministro Nobosuke Kishi

Shinzo Abe, o novo National Kid, no colo do avô, o então primeiro-ministro Nobusuke Kishi

Com a reafirmação do seu mandato nas eleições parlamentares de domingo, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe espera impulsionar suas reformas econômicas, removendo a terceira economia mundial do seu status de estagnação. O mandato também amplia a margem de manobra para Abe atuar em um tema muito passional e familiar para ele: alterar o status pacifista do Japão, herança de sua derrota na Segunda Guerra Mundial.

Abe já deu mostras do seu vigor nacionalista em um primeiro e fracassado mandato de um ano (2006/2007) e no segundo iniciado em 2012.  Abe irrita bastante a China e a Coreia do Sul por provocações como visitar o santuário de Yasukuni, onde se veneram as almas de militares, inclusive de condenados por crimes de guerra. Ele quer revisar a Constituição para que o mandato das Forças Armadas não seja meramente o de autodefesa. O nacionalismo sem constrangimento está no sangue e a referência inevitável é o avô materno, o ex-primeiro-ministro Nobusuke Kishi.

A meta de Abe para reconstruir o poder militar japonês ecoa o desejo do avô para restaurar o Japão como poder global (e também sua honra) já nos anos 50, um punhado de anos depois da derrota na Segunda Guerra. Kishi foi acusado, mas não indiciado, por crimes de guerra, por seu papel de supervisão no sistema de trabalhos forçados na Manchúria, a região no nordeste chinês, rica em carvão e com terras férteis, ocupada pelos japoneses nos anos 30. Os chineses, obviamente, não perdoam Kishi e ficam irritados com as frequentes referências que Abe faz ao avô.

A conversa no Japão tem mais nuances. Muitos acreditam que as acusações chinesas sobre os crimes de guerra na Manchúria são falsas ou exageradas. Em geral, historiadores internacionais dizem ser improvável que Kishi tivesse tido um papel direto nas piores atrocidades. No entanto, não há como eximi-lo de responsabilidade, pois ele era o principal planejador industrial em um território ocupado. Sua resposta sempre foi culpar oficiais militares pela conduta japonesa na região. A saída de Abe: insistir na inocência do avô com o argumento de que ele nunca foi indiciado por crimes de guerra, após ser preso pelos americanos em 1945. Kishi ficou na prisão por três anos e uma de suas leituras era Crime e Castigo, de Dostoiévski.

Oito anos após sair da prisão, Kishi era primeiro-ministro, aliado indispensável dos EUA na Guerra Fria e figura decisiva no modelo japonês de reerguimento econômico, graças às exportações industriais respaldadas pelo governo. Em 1957, 16 anos depois do ataque em Pearl Harbor, Kishi foi recebido calorosamente nos EUA, falou no Congresso, enfatizando a necessidade de combater o comunismo, e atirou a bola cerimonial de beisebol em um jogo no estádio dos Yankees, em Nova York.

Kishi, no entanto, queria mais nas relações com os americanos, a destacar alterar a Constituição imposta pelos vitoriosos de guerra. Isto ele não conseguiu. O neto Abe espera concretizar o desejo do avô, favorecido pela resignação dos americanos cansados de guerra e preocupados com a expansão geopolítica da China no Pacífico.

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Colher de chá para Burt (dia 16, 11:41)

 

15/12/2014

às 16:03 \ Austrália, Terror

Como é que pode?

Escapando do terror em Sidney

Escapando do terror em Sydney

O mundo ainda está tentando entender melhor o ato terrorista em Sydney, na Austrália, um caso de “baixa tecnologia e alto impacto”. De antemão, o que não dá para entender é a desenvoltura com a qual agia o identificado responsável pela tomada de reféns no café Lindt. E mesmo sobre ele, as informações ainda são confusas.

Na Austrália, no entanto, este Man Haron Monis era uma figura famliar, um autoproclamado líder muçulmano iraniano, ativista da paz, conselheiro espritual e também alvo de dúzias de acusações de agressões sexuais, cumplicidade na morte da ex-mulher e autor de cartas horrorosas e ameaçadoras enviadas a pais e parentes de soldados australianos mortos no Afeganistão. Imagine, estava solto sob fiança.

São dias assustadores e assustados na Austrália, com o temor de radicalização islâmica (cerca de 70 pessoas tiveram passaportes confiscados, com o temor de que viajassem para a Síria e Iraque  (o Siraque) para aderir à Internacional Terrorista do grupo Estado Islâmico. Outros 70 australianos já combatem em nome da barbárie islâmica no Siraque (jatos australianos participam de bombardeios no Iraque). As autoridades australianas já desbarataram alguns complôs e endureceram as leis antiterroristas.

E como em outras sociedades ocidentais, a comunidade islâmica na Austrália teme ser alvo de hostilidade popular (aqui um bom material sobre o esforço para que não seja rasgado o tecido da sociedade australiana). De novo: trata-se da tarefa colossal de calibrar a luta rigorosa contra o terror sem alienar as comunidades islâmicas nas várias sociedades ocidentais.

Tudo leva a crer que estamos diante de um “lobo solitário” do terror, mais para um maluco que infelizmente conseguiu ter 16 horas de fama global. Perguntas pertinentes estão sendo feitas na imprensa australiana às autoridades: como este sujeito podia circular? Por que ele recebeu asilo político em 1996?

Lideres da comunidade xiita em Sydney repetidamente pediram que a polícia federal da Austrália investigasse Monis, que se proclamara um aiatolá. No entanto, no seu próprio site havia a informação de que ele se convertera ao sunismo e repudiava a “nova religião” do islamismo moderado. No seu site, Monis disparava arengas denunciando a opressão americana, e de aliados como a Austrália, contra muçulmanos

Monis era ativíssimo nas redes sociais. Como é que um sujeito deste gênero podia se manter tão conectado? Somente na segunda-feira, com a tragédia em curso, sua página no Facebook foi fechada. Quando isto aconteceu, ela tinha “14.725″ likes.

Este ato terrorista de “baixa tecnologia e alto impacto” paralisou Sydney. Em outubro, foi a vez de Ottawa, quando um soldado foi morto em um ataque no Memorial Nacional de Guerra, com o atacante morto depois dentro do próprio Parlamento canadense. Este é o nada admirável mundo novo do terror.

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Colher de chá para o comentário pontual de Jorge Silva (dia 15, 16:27). 

 

15/12/2014

às 6:00 \ Japão, Shinzo Abe

Se oriente, Japão!

O que fará Shinzo Abe com sua terceira vitória eleitoral?

O que fará Shinzo Abe com sua terceira vitória eleitoral?

E o Japão? Como está o Japão? A gente fica na conversa interminável (e amarga) sobre a América Latina no fundo do poço, o poço de sempre que é o Oriente Médio, o poço de lama que é a agressão russa na Ucrânia, o poço disfuncional de Washington e a China expandindo o seu poço. Assim, parece que condenamos a terceira economia mundial a uma irrelevância global, um poço esquecido.

Claro que não, o Japão não parece, mas é vital. Tem até um raro caso de líder do mundo maduro e democrático que é vigoroso e consegue ser reeleito em um cenário de estagnação. Os japoneses deram no domingo uma terceira chance a Shinzo Abe, 60 anos, com as eleições parlamentares que ele convocou às pressas, justamente para ter um mandato mais assertivo. A eleição foi um referendo sobre o programa de revitalização econômica de Abe (“Abenomics”), no cargo há dois anos (ele teve uma primeira, fugaz e frustrante experiência de um ano em 2006/2007).

O desfecho é discutível, apesar das aparências de triunfo. Abe é vigoroso, mas não a sociedade que lidera. O seu partido conservador, o Liberal Democrata, e o aliado budista Komeiro conseguiram manter a supermaioria de 2/3 das cadeiras na Câmara Baixa do Parlamento (e desta forma podem passar legislação sem a Câmara Alta). No entanto, foi o mais baixo índice de comparecimento às urnas na história democrática do Japão: 52.4%. O. Os eleitores não se motivaram com a alternativa, os desmoralizados oposicionistas um pouco à esquerda do Partido Democrático do Japão.

Os japoneses estão desanimados, o que condiz com duas décadas de estagnação de uma economia famosa por milagres. Abe gostaria de ser o santo milagreiro, tirando o Japão de sua deflação e impulsionando o crescimento (no terceiro trimestre a economia contraiu acima das expectativas). Ele colocou em prática uma política econômica ambiciosa das três flechas, mas nem tudo foi certeiro. As duas primeiras foram afrouxamento monetário e estímulos fiscais.

Agora com este novo mandato, ele precisa mostrar coragem (e não ser “complacente”, como alertou no domingo) para disparar a terceira flecha: as reformas estruturais. Os dois obstáculos clássicos são: acabar com o protecionismo do setor agrário e desregulamentar o mercado de trabalho, em um país geriátrico e no qual os jovens estão desmotivados para trabalhar.

Abe tem ainda uma quarta flecha, bem afiada: uma política externa mais agressiva que rechaça o pacifismo japonês do pós-guerra. Tal postura traz um certo alívio para os aliados americanos cansados de guerra, mas inquieta muito a vizinhança no Pacífico, a destacar China e Coreia do Sul, furiosos com o revisionismo histórico japonês.

O Shinzo Abe mais assertivo com este novo capital político deverá intensificar as tensões geopolíticas no Pacífico. E basta olhar o calendário: 2015 está aí, 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial. É um momento de muito dilema para Shinzo Abe, com seu vigor mais nacionalista. Ele desafia as exigências chinesas por mais desculpas pelo comportamento atroz do Japão na Segunda Guerra, mas precisa se ajustar à realidade econômica que é garantir o mercado chinês para as empresas japonesas, especialmente no setor de serviços.

O samurai Shinzo Abe dá muita flechada. Sua tradição é acertar muito (como convocar estas eleições), mas também errar muito o alvo.

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Colher de chá para o comentário bem articulado de Bruno Barreto (dia 15, 15:56). E outra para o depoimento de JC Uehara (dia 16, 1:17).

14/12/2014

às 6:00 \ Venezuela

Poxa, querido Caio, mais Venezuela & Cia?

Dilma, Nicolás e Cristina: quem sai pior na foto?

Dilma, Nicolás e Cristina: quem sai pior na foto?

A leitora Teresa Batista (cansada de guerra?) disparou um comentário bem humorado na coluna sobre a desgovernada Venezuela conduzida por Nicolás Maduro: “Poxa, querido Caio, chutando cachorro morto? Gastando bits com a Venezuela? Use o seu repertório intelectual para temas mais importantes”.

Vou seguir o conselho da querida Teresa Batista e ampliar o repertório, colocando a Venezuela no contexto da vizinhança. Faço isto com ajuda de Juan Cristóbal Nagel, do site Caracas Chronicles. Ele começa o seu texto, relembrando a situação soturna do cachorro morto. Explica que Nicolás Maduro precisa se adaptar para sobreviver, o que é improvável.

E não me tratem como cachorro quando trago o argumento de Nagel de que os vizinhos, entre eles Dilma Rousseff, estão fazendo um trabalho melhor do que o de Maduro para sair do buraco graças a uma combinação de medidas pragmáticas e deslocamentos para o centro político. Achei tudo muito elástico no raciocínio de Nagel. No entanto, vamos lá.

Nagel elabora que no Brasil, Dilma Rousseff faz o deslocamento para o centro, após ser reeleita no sufoco, escolhendo um ministro da Economia “conservador” (Joaquim Levy). Poxa, Juan Cristóbal, o Brasil é mais complicado do que uma troca de cadeiras no convés do Titanic. O Brasil hoje é o Brasilbrás.

Vamos a outros vizinhos. Os companheiros bolivarianos de Maduro, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa, ainda são populares, pois o desempenho econômico em seus respectivos países ainda é melhor na região. Eles abusam da lenga-lenga esquerdista, mas suas políticas econômicas têm sido notavelmente ortodoxas e nos dois países o setor privado está se saindo bem.

Na Argentina, a impopular Cristina Kirchner não tem boas relações com o setor privado. Os resultados são recessão e inflação. Rainha Cristina, no entanto, está saindo de cena no ano que vem com as eleições presidenciais. Não podemos chamar isto de pragmatismo. Está mais para final desolador.

Dá para concordar com Juan Cristóbal Nagel que a resposta de Maduro para a crise tem sido negar os problemas e rechaçar mudanças substantivas. As bravatas chavistas são cada vez menos escutadas no mundo. O lobby de Caracas na OPEP fracassou para que a produção de petróleo do cartel fosse reduzida para conter a queda dos preços e o ministro da Economia Roldofo Marco retornou de Pequim sem conseguir mais empréstimos.

Não há muito para fazer a não ser que seja removida a essência do chavismo, que são distorções dos preços e abusos cada vez mais além da conta para injetar as receitas petrolíferas nos programas assistencialistas. O cenário de distorções de preços, com múltiplas conversões cambiais, favorece setores militares que estão profundamente envolvidos no mercado negro. Existem os bolsões chavistas sinceros (a linha dura que leva a sério os devaneios ideológicos do socialismo no século 21), mas o risco para Maduro seria mexer com os interesses destas alas militares “mais pragmáticas”.

Juan Cristóbal Nagel também bate no cachorro morto. Ele diz que profundas crises econômicas conduzem a mudanças políticas. Na Venezuela, pode significar violência. O suspense, portanto, não é se haverá mudanças, mas quando e como.

Poxa, querida Teresa Batista, mais decepção com o meu repertório?

***
Bem, cedinho no domingoão e duas colheres de chá. Obviamente, a primeira vai para a Teresa Batista, que inspirou a coluna. E a segunda, para o humor e a lei de Daniel M (dia 14, 10:32).

 

 

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