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02/07/2015

às 6:00 \ Europa, Grécia

Grécia na imaginação

Campanha pelo "sim" no referendo de domingo

Campanha pelo “sim” no referendo de domingo

Dilma terminou sua visita aos EUA e cá estou de volta no meu mundinho, no qual a pequena Grécia é uma grande preocupação. A crise é exasperante para gregos, troianos, europeus, humanos em geral e até para jornalistas. Nada fácil acompanhar as marchas e contramarchas.

Como diz o filósofo Sócrates Blinder, se apropriando de pensata clássica, a crise grega só termina quando acaba.Vi uma pesquisa interessante, revelando o que a opinião pública alemã acha da encrenca. Perdão pelo nome do instituto que fez a pesquisa (Forschungsgruppen Whalen). Apenas 24% dos alemães são as favor da diluição das condições para a Grécia (que já deu um calote na terça-feira no FMI) receber mais socorro, enquanto 70% defendem a linha dura.

No entanto, a visão dos alemães fica mais embaçada quando perguntados se os gregos deveriam abandonar o euro. Aqui é a pesquisa de um instituto de nome que eu consigo soletrar: Infratest Dimap. A pesquisa mostra que 48% dos alemães são favoráveis à saída da Grécia da zona do euro (eu acho a expressão mais respeitável do que eurozona), enquanto 43% querem que o país. O racha reflete as preocupações de frau Angela Merkel sobre a estabilidade e coesão da Europa, indo além das consequências econômicas da degringolada do pequeno país.

Frau Merkel é frugal e cerebral, mas a Grécia conta mais do que meros cálculos econômicos ou mesmo políticos. Existe uma simbiose entre a identidade grega e os sonhos europeus. Simon Nixon escreveu no Wall Street Journal que para o resto da Europa a Grécia é mais do que um país: ela representa uma ideia, um reflexo de raízes comuns de  uma civilização compartilhada.

O destrambelhado primeiro-ministro grego Alex Tsripas engabelou os gregos e os europeus com seus subterfúgios: ele quer ficar na zona do euro com os privilégios, mas não as responsabilidades. Com cara de pau, o primeiro-ministro disse na quarta-feira que apoiar o “não” no referendo do próximo domingo não envolve a questão de permanência grega na zona do euro, mas reforça a posição do país nas negociações com os credores.

O resto do coro europeu diz “não” para mais uma cascata de Tsipras. Usando a palavra da semana no Brasil: vamos delatar Tsipras por vender produto falsificado e danificar ainda um projeto por si defeituoso, mas bem intencionado, como é o caso da zona do euro (união monetária, mas não fiscal).

Houve um empenho grego e europeu para que país que emergiu da ditadura militar dos anos 70 fizesse parte da congregação mais ampla da União Europeia e da mais restrita da zona do euro. Sem dúvida, a adesão grega ao euro foi uma leviandade, mas não deu para conter a ambição. Com a Grécia fora da congregação (qualquer uma delas), a Europa de fato ficará menor.

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01/07/2015

às 6:00 \ Dilma Rousseff, Lula

Dilma, Lula e o assalto da realidade

Dilma e Obama em Washington...

Dilma e Obama em Washington…

O Brasil, em que as palavras frequentes esta semana são do noticiário policial como delação e extorsão, me inspirou para cravar o título da coluna desta quarta-feira. A viagem da presidente Dilma Rousseff aos EUA é um flagrante (opa, outra palavra policial) do assalto da realidade da qual ela foi vítima.

Para ficar preso nas conclusões insuspeitas, este é um governo agora desesperado para atrair investidores estrangeiros depois dos crimes econômicos que praticou e das mentiras disparadas na campanha eleitoral de 2014. Dilma agora se curva às elites neoliberais que achincalhava no ano passado. Acabaram as bravatas sobre as lições que o Brasil emergente pode dar ao decadentes impérios.

A visita de Dilma a Washington não selou acordos espetaculares, mas revigora o relacionamento com o tradicional parceiro americano e sinaliza o empenho brasileiro para liberalizar sua política comercial e de investimentos. Existe uma ironia que Dilma, tão indignada com a espionagem americana que a levou a cancelar a visita de Estado em 2013, agora seja consolada pelas palavras charmosas de Barack Obama. Imagine, o presidente americano disse confiar “completamente” em Dilma. Os americanos também estão interessados em revigorar as relações, embora com menos ansiedade do que os brasileiros.

Existe esta sofreguidão pragmática do governo brasileiro, não apenas para atrair investidores, especialmente em infraestrutura, mas para convencê-los que o país é maior e mais sólido do que a República do Pixuleco. Nas conversas com investidores em Nova York e Washington, havia a blitz retórica de que o ajuste fiscal é para valer, que uma nova Petrobras vai jorrar do fundo do mar de lama e que os escândalos não devem impedir o país de manter o seu grau de investimento.

***
Dia enrolado para ler com atenção os comentários. Então colher de chá para o título que Mr. Blinder deu para a coluna.

e Lula com Renan em Brasília

…e Lula com Renan em Brasília

Falando em grau de investimento, meus gurus da empresa de consultoria de risco Eurasia dão o devido valor para a visita de Dilma. O essencial não está no quantitativo, mas na mudança de visão. Os agudos problemas domésticos forçam o governo a adotar uma política externa (em política e em economia) menos “ancorada” nos princípios da era Lula, como a cooperação Sul-Sul e o distanciamento dos EUA em favor de regimes esquerdistas e/ou deliquentes. Claro que existe uma ironia em tudo isso. Afinal, o governo Obama normalizou as relações com Cuba e busca um acordo nuclear com o Irã.

O pessoal da Eurasia vai longe, avaliando que mesmo o setor privado brasileiro, um tradicional defensor do protecionismo, se tornou crescentemente favorável ao livre comércio. E aqui está outra ironia do lado americano. Obama agora colide com os setores protecionistas do seu Partido Democrata para batalhar por acordos de livre comércio no Pacífico e na Europa.

Um assalto da realidade sempre é saudável.  Pena que no Brasil continue sendo um caso de polícia, em tantos sentidos.

 

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30/06/2015

às 14:15 \ Brasil, Dilma Rousseff, Obama

O charme Obama e a confiança “completa” em Dilma

A coletiva da confiança excessiva

A coletiva da confiança excessiva

A vantagem de acompanhar declarações da presidente Dilma Rousseff pela CNN é escutar a tradução em inglês, o que machuca menos o ouvido do que o original em dilmês. Agora no começo da tarde, diante da imprensa, ao lado de Barack Obama, na Casa Branca, a presidente despejou um monte de cifras em dilmês sobre perspectivas comerciais de investimentos americanos no Brasil, além da defesa habitual da lisura do seu governo. A historiadora especialista em Inconfidência Mineira disse que este negócio de delação é um “tanto Idade Média”.

Obama, é claro, falou em charmês e foi bom anfitrião para quem estava ali na sua casa, ressaltando inclusive os sacrifícios pessoais da presidente (tradução: tortura) na luta contra a ditadura militar.

O charmês faz sentido, pois interessa aos EUA um upgrade nas relações com o Brasil, como parte de um engajamento mais resoluto do país com a América Latina (área não prioritária na estratégia global dos EUA. Obama obviamente não iria se meter no vespeiro político e econômico brasileiro (ele observou não estar “familiarizado” com os detalhes dos processos contra a Petrobras nos EUA, repetindo que não comenta investigações em curso).

Obama disse que o Brasil é um “poder global” e sequer poupou uma pérola: ele confia “completamente” em Dilma. Um charme um pouco menos efusivo já teria dado para o gasto. Maior lucro para a Dilma Prejuízo. Nossa presidente desculpou o charmoso Obama pela espionagem que engendrou o cancelamento de sua visita em 2013, embora o presidente americano nunca tenha pedido desculpas formais pela bisbilhotagem. Lucro para Obama.

De resto, muito chatas, na verdade lamentáveis, as observações de Obama no tópico democracia e direitos humanos. Ele elogiou o engajamento brasileiro na reconciliação dos EUA com Cuba. No entanto, ignorou Venezuela na declaração. Claro que Obama não iria criticar o papel vexaminoso do Brasil, que resulta em cumplicidade com o regime chavista de Nicolás Maduro e suas violações dos direitos humanos, mas nenhuma palavra sobre estas violações?

Presidente, como o senhor sabe muito bem, a Venezuela chavista não é um país charmoso.

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Colher de chá para tradutor de dilmês para inglês na coletiva da Casa Branca.

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A kombi republicana

Lotação esgotada de candidatos?

Lotação esgotada de candidatos?

Parem as máquinas!!! O mundo ansioso acompanha minuto a minuto a saga grega, o mundo ansioso acompanha a saga nuclear iraniana (esta dura pelo menos até 7 de julho, com as negociações estendidas) e o mundo não acompanha ansiososamente a visita de Dilma Rousseff aos EUA e meu governador de New Jersey decide realmente entrar na corrida das primárias republicanas.

Christ Christie não escutou o conselho deste morador da cidadezinha de Glen Rock, dado na segunda-feira. Se manca, governador! Christie é o décimo quarto pretendente republicano à vaga de Barack Obama. Nunca na história desse país aconteceu este tipo de espetáculo, esta ego trip.

Lanço um quiz aos leitores: quantos candidatos republicanos cabem em uma kombi?

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Colher de chá para a Kombi, coitada.

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30/06/2015

às 6:00 \ Dilma Rousseff

Dilma e a reputação dos políticos

Para Kissinger, será que Dilma está entre os 90%?

Para Kissinger, será que Dilma está entre os 90%?

Foi uma segunda-feira em Nova York de encontros com pesos-pesados das finanças e do mundo industrial dos EUA para garantir compromisso com o ajuste fiscal, discurso em seminário para convencer investidores a apostarem na infraestrutura brasileira e bate-papo com o mago geopolítico Henry Kissinger. Depois a viagem para Washington, com visita ao memorial de Martin Luther King e jantar na Casa Branca oferecido por Barack Obama. Nesta terça-feira, mais do mesmo.

Dilma Roussef vai aos EUA no esforço para exibir gravitas, ou seja, uma alta seriedade de propósitos. Tenta provar que o Brasil vale mais do que a República do Pixuleco do delator que a presidente não respeita, pois o considera versão moderna de Joaquim Silvério dos Reis. Ela quer mostrar que finamente vislumbra a necessidade estratégica de reaproximação com os EUA e as elites neoliberais. Sim, as elites que Dilma achincalhou na sua campanha eleitoral de “doações legais”. Teve encontro até com o magnata das comunicações Rupert Murdoch, bicho-papão conservador.

Em entrevista ao Wall Street Journal, do conglomerado de Murdoch, a presidente refletiu que “é preciso reduzir os riscos para negócios no Brasil”, mas e se o governo é sinônimo de risco Brasil? O mais liberal The Washington Post, no editorial de domingo, ressaltou que o desafio de Dilma é “sobreviver” no Palácio do Planalto. E com rara candidez, o presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer, disse em entrevista à Folha na semana passada que o “Brasil perdeu a previsiblidade com as mudanças nas premissas da política econômica. Voltamos uns 20 anos no tempo”.

De novo, nada errado com a visita em si de Dilma ao EUA e que ela consiga seduzir os investidores e convencer o presidente da Mercedes que o Brasil pode voltar a ser previsível (no bom sentido). No entanto, tudo parece muito previsível com esta viagem, nada de espetacular a ser selado.

Meu bom guru João Augusto de Castro Neves, da empresa de consultoria Eurasia, disse que não são aguardados os chamados “deliverables”, grandes anúncios, do périplo de Dilma (que inclui também San Francisco).

Na expressão caridosa de Castro Neves, o único “deliverable” é a presença da presidente com sua agenda positiva. Por aí, está difícil. Após o encontro com a presidente brasileira, Kissinger disse que tivera uma impressão “positiva”. Então, vamos arrematar com uma citação do bruxo geopolítico de reputação duvidosa. Nas palavras do Doktor K, “90% dos políticos dão aos 10% restantes uma péssima reputação”.

Conforme pesquisa Datafolha de junho, Dilma Rousseff, porta-voz do risco Brasil dentro e fora de casa, tem 10% de boa ou ótima reputação entre brasileiros. O bruxo Kissinger sabe das coisas, quem sabe privadamente tenha dado um bom conselho para Dilma sapiens, mineira orgulhosa, incapaz de respeitar delatores, pois aprendeu na escola as lições sobre o homem que traiu os inconfidentes.

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Colher de chá para Estevan Natolo Junior (dia 30, 11:01).

 

 

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29/06/2015

às 6:00 \ Brasil, Dilma Rousseff, EUA, Obama

O pato manco e a presidente que não se manca

Dilma com Obama na Casa Branca em abril de 1912. Tempos mais leves para a presidente

Dilma com Obama na Casa Branca em abril de 2012. Tempos mais leves para a presidente

Barack Obama e Dilma Rousseff jantam nesta segunda-feira na Casa Branca e na terça-feira haverá reunião de trabalho. Ótimo jantar e bons negócios. Falo isso sabendo de todas as dificuldades objetivas, do desconforto que este governo da República do Pixuleco significa para mim pessoalmente e com o noticiário sobre o Brasil mais para página policial do que de geopolítica ou de negócios.

No entanto, torço pelo Brasil. Espero que nesta ofensiva desesperada, o governo consiga atrair investimentos estrangeiros e de fato recalibre seus laços com o parceiro tradicional.

Eu quero o Brasil no lado certo da história, sem discurseira antiamericana chulé. Eu quero o Brasil integrado com os setores de ponta da economia global. Tudo bem exportar commodities para a China, mas o Brasil realmente precisa dinamizar suas parcerias quando existem lances históricos para a concretização de acordos comerciais dos EUA na área do Pacífico e com a Europa. Espero que se concretize a meta chutada por funcionários americanos e brasileiros de dobrar o comércio entre os dois países em dez anos.

Estou aqui fazendo muita torcida estratégica num cenário inglório e incerto. Não é mole ter alguém como Dilma Rousseff para tentar vender o peixe na forma e no conteúdo, vender a tal agenda positiva. Imaginem se o ministro Joaquim Levy não conseguisse estar presente nas conversas e seminários em Nova York, Washington e San Francisco para falar em português, inglês e sensatês?

Meu título lá em cima é meio apelativo (no caso do Obama, hehehe). Sobre Dilma é mais pertinente. Claro que a leitura está aberta. E vou manter a charada. No entanto, não quero desgalhar demais e vou focar. Dilma não se manca, pois ela tem uma visão errada das coisas.

Foi preciso o país chafurdar no lodaçal em todos os sentidos para que a presidente aparentemente abandonasse ideias e planos, dignos de um projeto desenvolvimentista estatizante e anacrônico (nem estou discutindo mera incompetência ou pedaladas fiscais). Hora de buscar investimentos em infraestrutura com mais flexibilidade lá fora (aqui).

Claro que existem oportunidades no Brasil. O país está mais barato e isso por “obra” deste governo que aos trancos e barrancos tenta sair do fundo do poço, topando qualquer negócio. No entanto, como confiar nesse governo? E como alertou aquele que deveria ser o ministro da Fazenda, Arminio Fraga, em entrevista à Folha, “infelizmente não chegamos ao fundo do poço”.

Sobre o interlocutor de Dilma, quem sabe ele até tenha começado um caminho de volta, do fundo do poço. Barack Obama, o pato manco (presidente americano em final de mandato), caminha com mais firmeza. Ele conseguiu na semana passada vitórias históricas no Congresso e na Corte Suprema, ao ganhar autoridade forte para negociar acordos comerciais no mundo, a ratificação do seu programa de saúde e a aprovação do casamento gay.

A polarização segue ácida, mas houve provas de cooperação bipartidária (na questão comercial), sem falar do espírito de união nacional depois da chacina racista em Charleston.

Muita piada foi feita semanas atrás com uma pesquisa mostrando que George W. Bush era mais popular do que Obama. Comparação boba, sem parâmetro (a pesquisa mostrou que Jimmy Carter era mais popular que Obama e também Bush). Na mais recente pesquisa Wall Street Journal/NBC News, aprovação de 48% e rejeição de 48% para Obama (em setembro passado, a rejeição era de 54%). No mesmo momento do segundo mandato, a aprovação de Bush era de 29%.

Claro que até entregar as chaves da Casa Branca em janeiro de 2017, o pato manco Obama pode tropeçar bastante. Em termos imediatos (agora mesmo), vamos esperar os desdobramentos globais da crise da pequena Grécia. Ademais, a penosa negociação nuclear iraniana pode estar finalmente chegando nos conformes (Obama considera a finalização do acordo um dos pilares do seu legado).

Não está garantido o acordo e se acontecer pode ser o estouro da boiada de setores contrários no Congresso e de aliados dos EUA no Oriente Médio (Israel e Arábia Saudita). Tudo isso rolando enquanto dona Dilma tenta vender o Brasil nos States. Duro para os americanos manterem o foco no Brasil esta semana.

E para arrematar, uma nota leve. Nesta terça-feira, enquanto Obama e Dilma têm a reunião de trabalho, Chris Christie, o meu governador (New Jersey), talvez anuncie sua entrada na corrida para tentar pegar a vaga de Obama. Será o pretendente de número 13 nas primárias republicanas. Chris Christie nega as informações vazadas de que esteja pronto para anunciar a decisão. Governador, se manca.

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Colher de chá para Diogo (dia 29, 16:23).

 

 

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28/06/2015

às 6:00 \ Brasil, Dilma Rousseff, Nixon

Dilma, leia sobre aquele presidente

"Eu não sou um escroque" (17/11/1973)

“Eu não sou um escroque” (17/11/1973)

Dilma Rousseff está nos EUA, aqui em Nova York. Ela embarcou sábado com atraso, pois precisou ter uma reunião de emergência lá na República do Pixuleco, envolvendo algumas questões de financiamento de campanha eleitoral.

Na verdade, a viagem é realizada com atraso, pois a presidente estava indignada com as revelações de que era espionada pelos ianques e cancelou a visita de estado programada para outubro de 2013. Bons tempos aqueles para a presidente da República do Pixuleco.

Hoje seu governo está em estado comatoso. Nada contra as razões de estado para a viagem, o esforço para dar uma recalibrada nas relações com os EUA e o encontro na Casa Branca com Barack Obama, mas sabemos que depois do cancelamento em 2013, Dilma apressou a visita para este final de junho, com o formato de mera reunião de trabalho, sem esperar uma data mais adiante para uma viagem cheia de pompa. O futuro é incerto para a presidente, né?

A ideia com esta apressada viagem de trabalho é descolar algum prestígio no exterior junto ao público interno e convencer investidores que o Brasil ainda é valioso apesar da República do Pixuleco. Não poderia haver pior timing para esta visita e de qualquer forma, na expressão sóbria do jornal Valor, “não são esperados anúncios extremamente ambiciosos”.

Sei que neste domingo a agenda pública de Dilma Rousseff não está carregada. Coitada, com o atraso da partida de Brasília, ela perdeu espetáculo na Broadway sábado à noite, The Audience, com Helen Mirren.

No entanto, hoje dá para Dilma ir ao MoMa (Museu de Arte Moderna) e ao Lincoln Center. Já olhei a previsão do tempo. Dia chuvoso em Nova York, difícil pedalar no Central Park, cidade agitada com a parada gay, haverá o assédio da imprensa em cima da presidente (o Aloizio Mercadante disse que ela está “com muita vontade de falar” ) e as incertas na rua de brasileiros furiosos com a situação na República do Pixuleco.

No entanto, minha dica para Dilma Rousseff, se houver a oportunidade, é passar em alguma livraria e comprar dois livros que acabaram de sair sobre um ex-presidente americano. Os autores são Evan Thomas e Tim Weiner. O nome do ex-presidente é Richard Nixon, aquele que renunciou antes do impeachment.

Ler pode ser um remédio para alguém com fama de ávida leitora e ajudar nas reflexões sobre o que fazer de sua vida.

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Colher de chá para a transparente Neusa de Oliveira (dia 28, 12:05).

 

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27/06/2015

às 6:00 \ Brasil, Lula

O plano oculto de Lula para voltar ao poder

Lula, o resistente: sempre o próprio umbigo

Lula, o resistente: sempre o próprio umbigo

Juan Arias, do jornal espanhol El País, sempre gera bons debates na coluna quando aqui comparece no ritual sabático. Creio que não deverá decepcionar com suas sacadas abaixo, que refletem seu conhecimento literário e religiosa. Mantive o chamativo titulo original. Boa leitura.

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Juan Arias

Nas últimas manifestações populares brasileiras, um humorista desenhou Lula escondido no meio do povo, gritando “Fora Lula!”. Uma charge simbólica e emblemática do que Lula está vivendo desde suas críticas inesperadas a Dilma e ao seu partido, o PT, que ele fustigou tão enfaticamente quanto poderiam fazê-lo os indignados da sociedade.

Por essa razão, é grande a curiosidade em saber se Lula prepara alguma nova estratégia, já que, como diz no jornal O Globo o catedrático Eugenio Giglio, especialista em marketing político, “ninguém pode acusá-lo de ingenuidade”.

Os meios de comunicação estão convidando analistas políticos a tentar desvendar um possível plano oculto de Lula, o político com a maior capacidade de se metamorfosear e tirar proveito dos tropeços e triunfos alheios, além de seus próprios.

Para entender a possível estratégia secreta de Lula é preciso destacar que, como chamou à atenção o senador Cristovam Buarque, suas duras críticas ao Governo e ao PT não encerraram um mea culpa dele. A culpa seria de quem traiu suas ideias e não seguiu seus conselhos.

Quando lhe foi útil, Lula soube engolir a oposição, que ficou muda e paralisada enquanto ele governou como rei seguro de sua força popular e seu prestígio internacional.

Hoje, porém, está nascendo uma oposição nova que não é a oposição institucional dos partidos, mas a da sociedade e das ruas. É uma oposição que, desta vez, ameaça a força política de Lula e do PT e que pode criar problemas para os sonhos de Lula de voltar ao poder em 2018.

O que fazer? Há quem assegure que a manobra mais astuta de Lula em toda sua trajetória política pode ser a de voltar à oposição e até de colocar-se à frente desse novo protesto social para metabolizá-lo, apresentando-se como seu líder. Com isso ele voltaria às suas origens de opositor implacável, papel que exerceu durante a maior parte de sua vida.

Lula possui um faro especial para detectar os humores da rua. Ele sabe que está desgastado mas não morto; continua a acreditar que essa nova oposição, que deseja e reivindica um país menos corrupto e corroído pela crise econômica, ainda não tem um líder indiscutível com força suficiente para hastear uma nova bandeira que desaloje a sua.

Que solução melhor que apresentar-se como o novo Moisés, disposto a arrancar seu povo das garras da crise para conduzi-lo a um novo período de bonança? Com suas críticas a Dilma e ao Governo dela e as flechas lançadas contra seu próprio partido, desse modo Lula se uniria à nova oposição que critica os políticos tradicionais e corruptos.

Desta vez Lula não precisaria combater a oposição, já que teria decidido metamorfosear-se em opositor. Assim, é possível pensar que em 2018 os brasileiros insatisfeitos, aqueles que participaram das manifestações contra Dilma e o PT, dificilmente encontrarão outro líder melhor que esse que começou a gritar como eles: “Fora Dilma!” e “Fora PT!”.

Tudo isso é o que se comenta neste momento entre os profetas que tentam interpretar o novo Lula insatisfeito e irritado com os seus e que adverte que está começando a perder sua força original, como o Sansão da Bíblia. Claro que ninguém sabe ainda o que a opinião pública contestatária, que já convocou uma nova manifestação nacional de protesto para o dia 16 de agosto, poderá pensar dessa possível estratégia maquiavélica de Lula.

Sem contar com a caixinha de surpresas do enigmático e severo juiz Moro, em cujas teias Lula já deixou entrever que pode acabar enredado.

Em meio à glória que o rodeava, um dia Lula chegou a comparar-se a Jesus, defensor dos pobres. Mas há nos Evangelhos uma cena significativa que tem relação com isso. Vendo que alguns começavam a abandoná-lo, Jesus perguntou aos apóstolos, que eram seu proletariado ambulante, em sua maioria analfabetos: “Quereis vós também retirar-vos?”. O fogoso Pedro se adiantou e respondeu por todos: “Não, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”. (João, 6, 67)

Entretanto, na hora em que o Mestre foi condenado à cruz, quando mais precisava de seu apoio, os apóstolos fugiram, mortos de medo. Pedro chegou a dizer: “Eu nem conheço tal homem”. (Mateus 26,72)

A história, até a religiosa e literária, pode às vezes ser mestra e profeta.

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Há um debate entre alguns leitores se Juan Arias é “safado” de direita ou de esquerda (sobrou para mim, também, hehehe), mas no geral um sabadão de argumentos interessantes. Colher de chá genérica, mas não oculta.

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26/06/2015

às 12:33 \ Casamento gay, EUA

Finalmente!

Justa comemoração

Justa comemoração

A legalização do casamento gay pela Corte Suprema americana era esperada, um avanço justo e politicamente correto (no sentido puro da expressã0) dos direitos civis. “A dignidade igual aos olhos da lei”, na expressão da maioria dos juízes. A rejeição teria sido um evento espetacular.

Eu lamento que a aprovação tenha sido pela margem apertada de 5 x 4. De qualquer forma, a decisão mostra o Supremo americano antenado com uma das mais vertiginosas mudanças sociais em uma década nos EUA, com apoio agora de 2/3 da população para o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Crucial para a virada popular e o voto decisivo do juiz Anthony Kennedy, que oscila entre conservadores e liberais no Supremo, é a adesão de gays a uma instituição tão tradicional como o casamento e o cenário de centenas de milhares de crianças em familias com pais e mães do mesmo sexo. Como deixar estas famílias no limbo?

O casamento gay está consagrado nos EUA, nunca será aceito por alguns segmentos da população e enfrenta a resistência de todos os candidatos presidenciais republicanos. No entanto, a derrota agora em junho de 2015 é um alívio para o partido, pois remove o tema da fase quente da corrida eleitoral em 2016. Para que o desgate em torno de uma causa perdida? Os republicanos hoje estão divorciados da realidade social americana em boa parte das chamadas guerras culturais, que agora funcionam para a eficiente mobilização democrata.

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Colher de chá para os cinco juízes do Supremo americano que votaram pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Publiquei alguns comentários homofóbicos com fins educacionais.

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26/06/2015

às 6:00 \ Brasil, Dilma Rousseff, EUA, Obama

No Brasil e no resto do mundo, os EUA (e Obama) por cima

Antiamericanismo é um produto surrado

Antiamericanismo é um produto surrado

Dilma Rousseff chega neste domingo aos EUA. Na terça-feira, ela vai se encontrar com Barack Obama com atraso de quase dois anos, pois a visita de estado foi cancelada em 2013 devido às revelações de Edward Snowden de que os americanos espionavam a presidente brasileira. Muita indignação! Grampos passados. Dilma quer consertar as relações com Washington e durante a viagem ela pode dar  uma espiada na recém-publicada pesquisa do Centro Pew, confirmando como o mundo e em particular os brasileiros gostam dos EUA e de Barack Obama.

Antiamericanismo é um produto surrado e contraproducente. Na pesquisa feita em 40 países, desgosto popular com os americanos apenas em um punhado deles, a destacar a Rússia de Vladimir Putin, onde apenas 15% dos entrevistados têm uma imagem positiva dos EUA, consequência da crise ucraniana. No bom gosto, os brasileiros estão acima da média de aprovação de 69% (24% de desaprovação). No Brasil, 73% são positivos e 24% negativos. Outra boa notícia: os brasileiros são os mais simpáticos entre os seis países latino-americanos examinados. Maior antipatia entre os argentinos.

Na média global, um progresso de cinco pontos em relação ao ano passado. No caso brasileiro, um salto de oito pontos em um ano. O Brasil foi incluído na pesquisa em 2010, quando a imagem favorável dos EUA existia entre 62%. Desde então, alguns altos e baixos até a marca atual de 73%.Houve em um ano um salto espetacular da aprovação americana na Índia (de 55% para 70%), o que comprova o sucesso do esforço dos EUA para se aproximar do gigante emergente.

Quisera o presidente americano ter em casa a sua taxa de aprovação global (65%). Na pesquisa Gallup, apenas 35% dos americanos aprovam sua política externa. Dilma nem se fala. A imagem americana melhorou bastante desde a pesquisa de 2008, ainda no governo Bush e sob e impacto da guerra do Iraque. Eram menos países na pesquisa de oito anos atrás. De qualquer forma, hoje é esta satisfação disseminada com a política externa americana no exterior, com amplo apoio ao combate ao terror do movimento Estado Islâmico.

A pesquisa oferece uma lição essencial para Dilma Rousseff. Investir em melhores relações com os EUA não deve ser uma mera questão de negócios. A imensa maioria dos brasileiros vê os EUA como um modelo. Obviamente há críticas globais como o uso de tortura como método de interrogatório depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, mas os EUA recebem notas sólidas do mundo pelo respeito às liberdades individuais dos seus próprios cidadãos (63% contra 22%).

Informei lá em cima sobre a imagem favorável dos EUA entre os brasileiros (73%). É impressionante quando dividimos por faixa etária: 60% entre pessoas com mais de 50 anos;74% entre 30 e 49 anos e 84% entre 18 e 29 anos. Antiamericanismo já era.

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Colher de chá para o Centro Pew.

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