Blogs e Colunistas

01/03/2015

às 6:00 \ Venezuela

Radicalização na Venezuela

Como se libertar do chavismo?

Como se libertar do chavismo?

O sábado foi um dia de duelo na Venezuela: o protesto antichavista em San Cristóbal, onde foi assassinado na terça-feira um adolescente de 14 anos durante um protesto antigovernamental contra  a mobilização oficialesca em Caracas alcunhada de Grande Marcha Antiimperialista. Neste domingo, ao contrário do tradicional sábado, a coluna publica um texto sabático sobre a Venezuela que saiu na edição em português do jornal espanhol El Pais.

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M. A. BASTENIER 

O oficialismo chama de aprofundamento revolucionário e a oposição, de repressão, mas seu ponto de encontro é a radicalização do sistema, com severas limitações de liberdades, cujo último evento foi a detenção de Antonio Ledezma, prefeito de Caracas, acusado de golpista ativo.

Nem neste caso, nem no de Leopoldo López, que já cumpre um ano na prisão, foram apresentadas provas além das frequentes desclassificações que o presidente Maduro profere contra eles. Por que esta aceleração do autoritarismo chavista?

Uma data pode ser a destituição, em outubro passado, do general Miguel Rodríguez Torres como ministro do Interior, com a qual o presidente parecia se afastar da fórmula “cívico-militar” para apoiar-se principalmente no partido (PSUV), ao mesmo tempo em que dava mais espaço aos coletivos de esquerda como Marea Socialista e a Frente Francisco de Miranda.

Em dezembro mandava Rafael Ramírez para a ONU, o suposto contato com o capitalismo internacional, que já havia perdido a presidência da PDVSA, o antigo maná petroleiro, para ocupar o posto inócuo de ministro de Relações Exteriores, já que a política exterior é feita pelo próprio Maduro através de declarações, normalmente acusado o “imperialismo” de querer derrubá-lo.

No ano passado, também aconteceu a venda do grande jornal de Caracas, El Universal para uma entidade ou pessoa desconhecida, mas que significou o fim das críticas, e na próxima semana desaparecerá das bancas Tal Cual, o jornal do intelectual da oposição Teodoro Petkoff.

O chavismo já estava tentando, há tempos, moldar o futuro com a aplicação do que considera o remédio de seus adversários capitalistas: a compra e colonização dos organismos intermediários da sociedade para que, chegada a data eleitoral, dezembro como limite, a situação seja ainda mais difícil para a oposição.

Este podia ser a base do plano, mas a inflação, a escassez, a insegurança e uma política de atirar no escuro, como a intervenção de uma rede de supermercados para combater os monopólios, reduziu drasticamente, segundo as pesquisas, a popularidade presidencial.

Essa radicalização venezuelana amplia-se igualmente com protestos de parte da opinião pública latino-americana, além de ser incômoda para Governos e instituições. O Brasil e o Chile, de esquerda, e a Colômbia, de direita, limitam-se a pedir respeito e diálogo, porque ninguém quer, por seus próprios motivos, afastar-se de Caracas; e a própria Unasul, muito longe de ser uma força de atuação rápida, só pode convocar reuniões ministeriais de mero apaziguamento.

E as ondas podem chegar até ao espanhol partido da esquerda espanhola Podemos, que o chavismo considera um filho ilegítimo, mas que não se sente confortável com os acontecimentos.

Maduro repete incessantemente que havia uma tentativa de golpe em marcha e, embora Washington possa favorecer a desestabilização — o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper fala de “ingerências estrangeiras” — os golpes não acontecem sem a anuência ativa do Exército.

O presidente venezuelano desconfia de seus chefes e comandantes intermediários? Enquanto isso, a via do diálogo, que todos aconselham, sofre com uma tensão que só vai crescer daqui até as eleições do fim do ano.

28/02/2015

às 10:29 \ Rússia

Boris Nemtsov e o inverno russo

O líder oposicionista temia que fosse morte pelo regime Putin

O líder oposicionista temia que fosse morto pelo regime Putin

Boris Nemtsov foi assassinado na sexta-feira à noite em Moscou, com quatro tiros nas costas quando caminhava em uma ponte pertinho do Kremlin, em um dia inusitadamente quente no inverno russo, em um dos locais mais bem protegidos da cidade.

Ex-governador reformista e ex-vice-primeiro-ministro nos tempos turbulentos de Boris Ieltsin que se seguiram ao fim da União Soviética na década de 90, Nemtsov, que era deputado por um partido liberal, foi a esperança de uma primavera russa, de um país democrático e aberto ao Ocidente. Até se falava que poderia ter sido o sucessor de Ieltsin. No entanto, o poder acabou nas mãos de Vladimir Putin e como sabemos a estação permanente na Rússia é o inverno político.

Nemtsov, que tinha 55 anos, era uma figura conhecida, mas com o espaço político cada vez mais reduzido tinha pouca influência. Mesmo assim, corajoso e persistente, era linha de frente do que sobrou de oposição no pais e coordenava uma manifestação programada para este domingo contra o regime Putin por sua agressão na Ucrânia. O último tuíte de Nemtsov era uma exortação por uma oposição unida. Putin sendo Putin, lamentou o assassinato, anunciou que vai comandar pessoalmente as investigações, mas disparou que pode ter sido uma “provocação” contra o seu regime.

A morte de Nemtsov provavelmente foi um “ato de terrorismo político, como denunciou Sergei Mitrokhin, líder do pequeno partido oposicionista Yabloko. Quem matou Nemtsov? Não dá para imaginar o envolvimento direto do regime, embora em um artigo publicado no último dia 10, ele tivesse expressado este temor, mas é razoável especular que a responsabilidade caiba ao ambiente político de xenofobia e de patriotismo exacerbado no país.

Podemos especular que tenha sido um atentado praticado por setores ultranacionalistas que pipocam hoje na Rússia de Putin e que estão enebriados com o fervor de restauração imperial, na qual o intervenção ucraniana é epicentro. Nemtsov, aliás, trabalhava em um relatório, alegando que tropas russas estão combatendo ao lado de separatistas no leste ucraniano, o que é negado pelo Kremlin.

O aparato investigativo do Kremlin e a agitprop foram rapidamente à carga, cometendo suas diatribes, denunciando um esforço para desestabilizar o regime Putin e apontando os suspeitos habituais: extremistas islâmicos e o governo ucraniano apoiado pelo Ocidente.

Em janeiro e fevereiro, ao sul e ao norte, duas mortes de figuras decentes e corajosas, atuando em ambientes políticos ingratos. Primeiro, o promotor Alberto Nisman, na Argentina, e agora Boris Nemstov.

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Colher de chá para Katia L (dia 28, 12:01).

 

28/02/2015

às 6:00 \ Sabático

Civilização contra barbárie

Manifestação em Paris depois dos atentados de janeiro

Manifestação em Paris depois dos atentados de janeiro

O Instituto Blinder & Blainder cede o espaço sabático a um leitor querido e respeitado na coluna. Ivan I é um leitor carioca de primeira hora da coluna. Está passando uma temporada sabática em Londres, com muito para ver, ler, refletir e compartilhar conosco. Boa leitura

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Ivan I

A humanidade penou milênios até chegar, com muito sacrifício de vidas, perseguições e torturas, a um estágio em que reconhecemos nossas diferenças, concordamos em resolvê-las por meios pacíficos e legais e garantimos ao indivíduo a sua liberdade de expressão e de iniciativa econômica, sem ter que pedir permissão a ninguém. Mas estamos testemunhando agora uma luta contra este estágio de civilização em diversas frentes e de diferentes modos. Uma espécie de tempestade perfeita.

Terroristas islâmicos, regimes totalitários de diversos graus e demagogos corruptos teimam em ressurgir das cinzas e desafiar este modo de vida ainda tão recente na história da humanidade e  enganosamente frágil. Eles confundem tolerância e diversidade com fraqueza, oposição com traição.  Só entendem regimes “fortes” e pensamento único.  Alguns afirmam defender tradições mas estão, na verdade, defendendo o atraso.

EI, Al-Qaeda, Hezbollah, Hamas, repúblicas islâmicas, ditaduras como tantas na África, em Cuba e na Coréia do Norte, lideranças neofascistas como Le Pen e Putin, populistas autoritários sul-americanos como os da Venezuela e Argentina ou simplesmente corruptos stalinistas como os petistas no nosso Brasil mostram suas garras contra a civilização. De diversos modos e em diferentes graus.

Há uma simultaneidade nestes movimentos que possuem uma carcaterística comum: a aversão aos valores republicanos, democráticos e libertários que encontram nos Estados Unidos e na União Européia seus maiores símbolos.

No caso do Brasil, o PT corrompe e estupra os valores republicanos, tão duramente conquistados e tão recentemente estabelecidos, com uma violência, um cinismo e uma impostura absurdas e totalmente aviltantes, incompatíveis com os valores mais claros e insofismáveis da honradez, da inteligência e da lei.

Liberais, conservadores, social-democratas, ateus, religiosos, homossexuais, heterossexuais, pessoas de qualquer cor de pele, membros que somos da única raça que existe – a raça humana – e que apreciamos as conquistas que nos permitem esta imperfeita civilização mas que, justamente por entender que somos imperfeitos, reflete a nossa humanidade de maneira clara, precisamos parar de brigar por um momento entre nós e encarar esta ameaça real, cruel, bárbara a todos nós e que assombra o mundo civilizado.

Na América Latina, em especial no Brasil, esta ameaça se apresenta de forma insidiosa e covarde. Vem travestida de defesa dos pobres quando na verdade aprofunda a pobreza e corrói a sociedade com seu deboche e sua apologia da impunidade e da incompetência, tentando reescrever a história, invertendo-a despudoradamente.

Há uma expressão muitos usada pelos conservacionistas que diz: pense globalmente, aja localmente. Eis uma boa prática para ser seguida na defesa da civilização contra a barbárie.

No Brasil, no dia 15 de março, podemos fazer a nossa parte.

BASTA!

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Colher de chá para Daniel M (dia 28, 19:30), pelo educado contraponto ao Ivan I.

27/02/2015

às 13:00 \ Brasil, Dilma Rousseff

Dilma 20% (II)

Cobertos de gosma

Cobertos de gosma

Semana terrível para a imagem do Brasil no exterior, para o atoleiro brasileiro, conforme a Economist e sua passista de samba no pântano, coberta de gosma verde. Esta é a aquarela do Brasil, meu Brasil brasileiro. Então, vamos dar mais uma pincelada com o novo relatório da consultoria de risco Eurasia.

A quantas anda o impeachment da presidente Dilma Rousseff na bolsa de probabilidades da Eurasia? Em coluna na sexta-feira 13 (de fevereiro), eu informei que para a consultoria de risco, a probabilidade era de 20%. Duas semanas mais tarde, Dilma continua na mesma, nos mesmos 20%.

A Eurasia alerta que desdobramentos políticos no Brasil na próxima semana terão peso importante na avaliação. E a consultoria lista quatro condições para que o impeachment da presidente se torne viável:

1) Evidência que vincule a presidente diretamente à corrupção.

2) Um racha irreparável entre Dilma e Lula.

3) O cálculo da oposição de que o impeachment aumenta sua chance de capturar a presidência.

4) Um período prolongado da baixa taxa de aprovação da presidente.

Para a Eurasia, as revelações por procuradores de nomes envolvidos no Petrolão terão impacto direto nos dois primeiros pontos. O cálculo da oposição pode mudar se revelações enfraquecerem o PMDB. Quanto à opinião pública, para a Eurasia, sua indignação tem vida própria.

Capa da Economist

Capa da Economist

Dia de premiar leitores de primeira viagem ou que raramente escrevem. Colher de chá para Antonio Jorge de Castro (dia 27, 14:20).

 

 

27/02/2015

às 6:00 \ Barbárie, Siraque

Não somos todos cristãos, yazidis, curdos…

Protesto de cristãos iraquianos na Austrália

Protesto de cristãos iraquianos na Austrália

Esta é a semana de mais flagelos dos cristãos assírios, em um começo do século 21 em que pessoas são massacradas, sequestradas e escravizadas pelos terroristas do Estado Islâmico na Síria.

Estamos no século 21, mas o Estado Islâmico é arauto do século 7. Os cristãos assírios (lembram-se das aulas de história sobre Mesopotâmia na escola?) se somam a outras minorias vítimas de genocídio na região.

Pessoas morrem no Oriente Médio pela razão exclusiva de pertencerem a uma religião, a uma minoria, a uma seita, a uma etnia. São cristãos assírios, são cristãos coptas, são yazidis, são xiitas e são curdos (judeus escapam, pois fora de Israel hoje em dia há poucos deles no Oriente Médio e África do Norte). São também sunitas, inclusive pelas mãos (e pelas espadas) dos “puristas” sunitas do Estado Islâmico.

O Estado Islâmico pratica o massacre dos “infiéis”, ou seja, daqueles que discordam do seu jihadismo ensandecido. Enquanto isso na Síria, prossegue o massacre em larga escala de sunitas pelo regime de Bashar Assad, que pertence à minoria alauíta e que massacra com o apoio do regime xiita iraniano e da milícia terrorista libanesa Hezbollah (também xiita).

Esta semana, o relatório da Anistia Internacional sobre violações de direitos humanos foi especialmente “generoso” com a ditadura Assad, por seu uso de bombas de barril e de agentes químicos contra a população civil em uma guerra civil multidimensional que já deixou mais de 200 mil mortos desde 2011.

Neste conflito multidimensional na Síria e também no Iraque (naquele território tenebroso que eu chamo de Siraque, cristãos assírios criaram sua própria milícia e combatem ao lado dos curdos, tanto contra o Estado Islâmico, como contra a ditadura Assad para preservar o seu povo, sua identidade religiosa e seu acervo cultural.

Não estou trazendo notícias bombásticas. Estou aqui para registrar o meu estado de indignação com a opinião pública internacional, especialmente europeia. Bacana marchar pelas vítimas do terror islâmico. Em janeiro, milhões marcharam em Paris depois do atentado no jornal Charlie Hebdo. Em fevereiro, dezenas de milhares marcharam em Copenhague, depois dos atentados no café e na sinagoga.

No entanto, europeus marcharam por europeus e também em nome dos direitos adquiridos pela civilização. Quero marchas também por estas pobres vítimas no fim do mundo (vamos incluir aqui a Nigéria empesteada pelo Boko Haram)

Temos marchas de solidariedade em várias partes do mundo, mas são encenadas pelos afortunados das próprias minorias que escaparam do inferno, caso da foto acima no ano passado, quando milhares de cristãos iraquianos refugiados na Austrália marcharam em Sydney.

Multidões marcham na Europa para protestar contra Israel quando o país vai à guerra em Gaza ou contra os EUA, como nas grandes mobilizações contra a invasão do Iraque. Mas, cadê a marcha pelos cristãos e outras minorias deste desolado território chamado Siraque e de outras terras ingratas? A esquerda europeia é obcecada com a questão palestina e a direita americana (inclusive a evangélica) com a defesa de Israel.

E vamos desgalhar: cadê as marchas pelos venezuelanos que marcham contra o chavismo e tomam bala?

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Dia de premiar leitores de primeira viagem ou que raramente escrevem. Colher de chá para Gustavo Morais (dia 27, 10:20).

26/02/2015

às 15:36 \ Brasil, Rússia

Manchete Brazil! Situação não tá russa

Atoleiro brasileiro

Atoleiro brasileiro

Assim que vi a capa na edição latino-americana da Economist e o editorial, já fiquei desolado. Pronto! Mais notícias sobre o nosso atoleiro e veja que a revista não foi lá no fundo para listar as mazelas de um país em que é difícil separar o noticiário político e econômico do policial.

Estou, no entanto, empenhado na caçada de boas notícias. Negativismo é um atoleiro. E achei o positivo lá no final do editorial da Economist (aqui em português os detalhes do texto). A revista lembra que o Brasil não é o único integrante do famigerado bloco BRICS (camarada, a publicação ainda inclui o S, de South Africa) em uma enrascada.

A economia russa, em particular, sofre com a guerra ucraniana, as sanções ocidentais e a baixa dos preços do petróleo. Assim, apesar de todos os seus problemas, a enrascada brasileira é menor do que a russa. Isto graças a um setor privado extenso e diversificado e robustas instituições democráticas.

Este é nosso consolo, brasileiros e brasileiras: a situação está ruim, mas não tá russa.

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Colher de chá para Marcelo Rosa Melo (dia 26, 16:02), tá ruim, não tá russo. E outra para Alexandre FG (dia 26, 16: 14) pelo contraponto.

26/02/2015

às 6:00 \ Venezuela

Desalento em Caracas

Protesto contra a repressão chavista em Caracas

Protesto contra a repressão chavista em Caracas

Esta semana, eu já trouxe a lanterninha de Francisco Toro, em um esforço para iluminar o caminho das trevas na Venezuela. Toro fundou o site Caracas Chronicles (a rigor, uma coleção de blogs). O projeto agora tem à frente Juan Cristóbal Nagel, que publicou suas reflexões no site da revista americana Foreign Policy.

Para ele, a prisão na semana passada do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, marca um “novo e perigoso divisor de águas” na Venezuela. A polarização no país causada pelo tratamento truculento infligido pelo chavismo à oposição torna praticamente impossível que os próprios venezuelanos enfrentem sozinhos os desafios nacionais.

Nagel, porém, constata que não parecem existir mais “intermediários honestos” para conduzir a crise rumo a uma solução pacífica.

Com a deterioração econômica e a escalada da violência e da repressão, não dá para vislumbrar uma saída. Nagel escreve que a conversa em Caracas não é se haverá um golpe, mas quando. E neste caso, seria um tremor interno do chavismo.

O ideal para conter a espiral de violência seria o diálogo, um com resultados tangíveis. O chavismo precisa conseguir algum tipo de arranjo de partilha de poder com a oposição. Isto implica a reformulação de instituições aparelhadas como os sistemas judicial e eleitoral.

Este cenário de diálogo se mostra cada vez mais distante. Alguns setores moderados do chavismo acenaram com a ideia, mas é tarde, é pouco. Tal caminho exige árbitros independentes e de confiança. Aqui estamos falando de governos estrangeiros, estamos falando do Brasil.

No entanto, como lembra Nagel, a reação internacional à recente onda de repressão doméstica tem sido frouxa ou de mera cumplicidade com o chavismo. A oposição não confia em governos estrangeiros, em particular os latino-americanos.

Uma nova espiral de violência ganha força desde a morte de um adolescente de 14 anos durante protestos na terça-feira na cidade de San Cristóbal, no Estado de Táchira. Uma solução pacífica para a crise da Venezuela é uma perspectiva cada mais exígua.

Os venezuelanos, é claro, vão pagar por isso e por extensão uma vizinhança de postura frouxa e míope.

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Colher de chá para Juan Cristóbal Nagel.

 

 

25/02/2015

às 15:31 \ Primavera Árabe

Mordaça literal e digital no mundo árabe

Wael Ghonim na praça Tahrir em 8 de fevereiro de 2011

Wael Ghonim na praça Tahrir em 8 de fevereiro de 2011

Onde está a Geração Facebook da Primavera Árabe? Onde está o ativista egípcio pró-democracia Wael Ghonim? Está geração está sendo amordaçada e esmagada em termos literais e digitais pelos dois lados: pela restauração de velhos regimes (como o do marechal Sisi no Egito) e pelo jihadismo.

Basta ver o que aconteceu na paisagem das redes sociais que por um tempo foi dominada pelos ativistas liberais e seculares. Agora, é um deserto controlado por clérigos conservadores e jihadistas simplesmente ensandecidos, que recrutam jovens nos países ocidentais. A conta no Twitter de Wael Ghonin, com 1.4 milhão de seguidores, está silenciosa.

Outros influentes ativistas liberais e esquerdistas da Primavera Árabe egípcia em 2011 calaram a boca ou estão na prisão. Está semana, um tribunal no Cairo condenou a cinco anos de prisão o blogueiro Alaa Abdel Fattah, uma pedra no sapato dos militares e da Irmandade Muçulmana.

Enquanto isso, a conta do clérigo saudita Mohamed al Arefe está bombando com mais de 10 milhões de seguidores.

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Colher de chá para Marcio de Araujo Pereira (dia 25, 16:48). 

 

25/02/2015

às 6:00 \ Chile

Chile é casa da nora

A nora Natalia (de vermelho) e o filho Sebastián estão com Bachelet

A nora Natalia (de vermelho) e o filho Sebastián estão com Bachelet

Quando pousa na América Latina, el Instituto Blinder & Blainder faz conexões frequentes para Caracas e Buenos Aires. Hora de dar uma passadinha em Santiago, cenário do Nueragate. Nuera significa nora em espanhol e gate quer dizer escândalo em qualquer língua.

Em parte por culpa da nora (e não do FHC), a popularidade da presidente socialista Michelle Bachelet despencou para o nível mais baixo desde sua segunda posse no Palácio de la Moneda em março de 2014. Na pesquisa Cadem, a aprovação da presidente caiu para 31%, queda de nove pontos desde a última aferição.

A situação econômica ajuda a explicar a queda de popularidade do governo. Existe uma desaceleração motivada pela baixa dos preços do cobre, o principal produto de exportação do Chile. No entanto, está patente que a credibilidade de Bachelet não é de ferro. Está derretendo. Ela fez campanha eleitoral, investindo contra os privilégios. No entanto…

No day after à vitória em dezembro de 2013, foi aprovado um empréstimo de US$ 10.4 milhoes de dólares a uma pequena empresa, cuja metade pertence a Natalia Compagnon, nora da presidente, que é mãe solteira.

Este mês surgiram as revelações, acusando Sebastián Dávalos, filho de Michelle Bachelet, de ter usado sua influência para descolar o empréstimo para sua mulher, numa transação envolvendo uma soma respeitável para uma pequena empresa.

Na semana passada, Dávalos foi forçado a renunciar da chefia de uma fundação de caridade, que costuma ser dirigida pela “primeira-dama”, mas precisamos levar em conta que o apelido do primeiro filho é Primer Damo.

Controvertidas reformas governamentais já estavam sendo diluídas pela democracia-cristã, companheira dos socialistas na coalizão de governo. Com o Nueragate, aumentou o vigor da oposição conservadora, que assim consegue ofuscar o seu próprio escândalo de financiamento de campanha.

Tudo isto é constrangedor, mas um pouco de perspectiva. No índice da Transparência Internacional, Chile e Uruguai (empatados na posição 21 entre 175 países) são o que existe de menos indecente na América Latina. No mapa, entre estas duas superpotências de transparência, está a Argentina (posição 107). O Brasil está na colocação 69 e a Venezuela é manchada com a posição 161 entre 175 países.

O Chile de Michelle Bachelet é apenas a casa da nora. A gente sabe onde fica a da sogra.

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Em alguns momentos, o debate desgalhou, mas foi produtivo. Colher de chá com jabón, genérica.

 

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24/02/2015

às 6:00 \ Venezuela

A adaptação chavista

A prisão de Ledezma é prova de desespero ou um show de força?

A prisão de Ledezma é prova de desespero ou um show de força?

A coisa enrosca na Venezuela e el Instituto Blinder & Blainder recorre ao site Caracas Chronicles, que está com o time reforçado desde 2014, embora seu fundador, Francisco Toro, tenha saído do dia-a-dia do projeto. Toro, no entanto, colabora ocasionalmente e funciona como guru do Caracas Chronicles.

Vamos, portanto, seguir a sua lanterninha. Ele pergunta qual é o significado da prisão na quinta-feira passada do prefeito de Caracas e líder oposicionista Antonio Ledezma. Será sinal de desespero do desgoverno Maduro? Estará o regime chavista nos últimos estertores?

As perguntas de Francisco Toro vão também para o outro lado: a prisão arbitrária, sob acusação de golpismo, é um show de força, uma exibição do chavismo de fazer o que bem entender sem medo das consequências?

Toro descarta as duas opções. Ele diz que o regime não está desmoronando, mas está fraco, incapaz de comandar uma maioria eleitoral. Nas suas palavras, o chavismo “está se adaptando a uma radicalmente nova realidade”.

A taxa de aprovação de Nicolás Maduro despencou, fruto podre da crise econômica. Sete em dez venezuelanos desaprovam a condução do ex-motorista de ônibus. O chavismo não tem como conseguir a maioria nas eleições para a Assembléia Nacional em dezembro caso a disputa seja limpa.

Assim, o projeto é gerar uma nova dinâmica política, na qual o regime suspende de forma indefinida a eleição ou impede a participação da oposição.

O fato essencial para Francisco Toro é que terminou a era em que o chavismo se sujeitava a uma competição eleitoral. A prisão de líderes oposicionistas é apenas um dos aspectos da adaptação a esta nova realidade.

Na expressão preciosa de Toro, é uma estratégia que carrega pesadamente na “conspiranoia” e repressão e minimiza ao máximo a tolerância e a normalidade democrática.

A rigor, o chavismo nunca deu muita bola para eleições democráticas. Dará muito menos agora diante da perspectiva de derrota.

Este é o cenário desenhado por Toro. Ele arremata que se trata de algo “desesperadamente triste”.  O regime chavista mergulha de forma cada vez mais profunda na convicção de que não cederá nunca o poder, exceto através de um golpe. Assim, se torna cada vez mais paranoico  sobre as perspectivas de um golpe.

Eu gosto muito da precisão analítica e da concisão de Francisco Toro. No entanto, fiquei frustrado com suas pinceladas. Faltou avaliar como a oposição vai se adaptar à nova realidade. Melhor dizendo: como ela irá desafiar esta nova realidade.

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Colher de chá para Rod (dia 24, 13:47). Curto & Fino, ufa!

 

 

 

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