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25/05/2012

às 6:00 \ Bush, Eleições 2012, Obama, Romney

Curtas & Finas (Obama & Bush)

Herança maldita ou bendita? Foto/Reuters

Para o presidente democrata Barack Obama, o predecessor republicano George W. Bush representa uma herança maldita. No entanto, as lições da campanha de reeleição de Bush em 2004 podem ser uma benção para Obama, que não quer ser amaldiçoado pela história como presidente de um mandato só. Antes de tudo, existem algumas similaridades no ambiente politico: a esta altura do primeiro mandato, Obama tem uma taxa sofrível de aprovação, para os padrões americanos, semelhante a de Bush na mesma época (algo como 47%). A intensa polarização política em torno de Bush e Obama contrasta com sentimentos pessoais mais positivos do que negativos sobre os dois. A tal história: os americanos topariam tomar uma cerveja com Bush (com Obama, um vinho).

E as similaridades vão adiante. Na campanha de reeleição, do outro lado, candidatos de Massachussetts, Mitt Romney e John Kerry, experientes, inteligentes, milionários, mas com dificuldades para se conectar com o eleitor zé mané. O ponto essencial está em uma análise do especialista eleitoral Willliam Galston, do centro de estudos Brookings, em Washington. Existem eleições em que, no ponto essencial da campanha, o candidato precisa persuadir os indecisos, oscilantes ou independentes. Em outras, crucialmente, trata-se de mobilização da base, ou seja,  levar para votar quem já está inclinado por um determinado candidato.

Bush prevaleceu sobre Kerry em 2004 ao moblizar a base republicana (a destacar brancos evangélicos),  em parte com uma campanha muito negativa e personalizada sobre o oponente. Agora para Obama será crucial animar seu núcleo eleitoral formado por jovens, hispânicos, negros e mulheres, em parte tratando Romney como um vampiro capitalista, que, por sua vez, precisa mobilizar a base composta de evangélicos e uma classe média branca empobrecida e de menor nível educacional. Para Obama, será o desafio maior,  com sinais de menor entusiasmo da base em relação à campanha de 2008. Mas funcionou em 2004 para Bush. Herança bendita?

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Pessoal, muito bolão eleitoral, análises da economia e torcida por Obama ou Romney nos comentários da sexta-feira.  A colher de chá vai mesmo para o William Galston, do centro de estudos Brookings, por destacar a variável da mobilização da base para sinalizar o rumo da eleição. 

Curtas & Finas (Sobras Egípcias)

O candidato Amr Moussa votando- Foto EFE

Moussa vagamente lembra nome de sobremesa, mas é o sobrenome de um dos candidatos com chance de garfar a eleição presidencial egípcia. Foram dois dias de votação no primeiro turno (quarta e nesta quinta-feira) e os resultados serão anunciados na semana que vem. Quem sabe Amr Moussa esteja lá, concorrendo no segundo turno em junho. E, na metáfora gastronômica, o site da publicação Foreign Policy tem um perfil saboroso, que aqui eu cozinho, deste ex-ministro das Relações Exteriores da ditadura Mubarak concorrendo nas primeiras eleições democráticas para presidente no país.

O título do perfil escrito por David Kenner é The Good Felool. O termo pejorativo felool significa no Egito “sobras” da ditadura Mubarak. E Moussa é visto por muitos como uma sobra digerível do velho regime. Ele não integrou a ala mais podre (foi inclusive espirrado do centro do poder) e agora se apresenta como uma ponte entre o passado desacreditado o futuro incerto. Moussa é o candidato enfaticamente não-islamista, posa de estadista experiente (75 anos) e sabe circular pelo mundo (chefiou a desmoralizada Liga Árabe). Apesar de sua virulência antiIsrael, tem relações cordiais com o presidente israelense Shimon Peres.

O texto da Foreign Policy não engole Moussa com facilidade. Diz que seu potencial presidenciável mostra a leviandade de se falar de uma revolução no Egito. Na expressão do texto, “Moussa, para o melhor ou para o pior, não é a culminação de nada se aproximando de revolução”. Fica a critério do gosto político de cada, decidir o que seria o melhor ou o pior para o Egito da primavera árabe. Mas deixo bem claro aqui neste espaço que gosto se discute.

Moussa hoje se refaz como um crítico da ditadura Mubarak e se apresenta como uma alternativa ao bloco islamista, que já controla o Parlamento e tem dois candidatos presidenciais (será inacreditável se um deles não estiver no segundo turno da eleição). O fato é que o futuro presidente egípcio precisará realmente construir uma ponte entre um poderoso establishment militar (felool da ditadura) e um Parlamento dominado por islamistas. Para a tarefa se apresenta o bom felool, um mestre-cuca da receita do compromisso político. Nas devidas proporções, Moussa é um José Sarney. Cada país tem as sobras que merece, para o melhor ou para o pior.

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Colher de chá para o Felipe (dia 24, 11:38), pelas comparações, nas devidas proporções, entre a transição democrática no Egito e no Brasil.

Uma eleição egípcia caótica e incerta (tudo poderia ser pior)

Sem carisma, Morsi tem a máquina da Irmandade Muçulmana

Os egípcios estão votando nas primeiras eleições presidenciais relativamente abertas na história do país. Mal termino a primeira linha do texto e já está difícil saudar algo mais. Que doideira! Antes de tudo, as pesquisas são incrivelmente voláteis e incertas. Não dá para confiar nelas. São 13 candidatos e, nas últimas semanas, nomes improváveis despontaram na liderança.

Exemplos são o nasserista (que podemos traduzir como nacionalista, esquerdista e secular) Hamdeen Sabahi. e uma sobra da ditadura Mubarak, o ex-primeiro-ministro e ex-comandante da Força Aérea Ahmad Shafik, abertamente contrário à revolução que permitiu a realização desta eleição presidencial. Na piada de um blogueiro liberal do Cairo, é preciso ser muito pateta para votar neste Shafik, afinal ele foi incompetente para completar o serviço e massacrar a massa na rua. De qualquer forma, seu eleitorado tem saudades de lei e ordem (nos critérios de uma ditadura corrupta e ossificada como a de Mubarak). Shafik representa a continuidade (e, desde a queda da monarquia em 1952,  todos os presidentes são militares)

Já o eleitorado de Sabahi é nostálgico (e igualmente retrógado) de um regime ainda anterior, aquele da mensagem nacionalista, estatizante e populista da ditadura Nasser. Sintomaticamente, o discurso de Sabahi é bem virulento contra Israel (padrão entre os candidatos). Para quem não sabe, Nasser era aquele militar que prometia jogar os judeus no mar e ficou banhado de vergonha com a derrota na guerra contra Israel em 1967.

De volta a 2012. Em muitas pesquisas, dois nomes são considerados os mais prováveis para avançarem para o segundo turno em junho: um deles é outra sobra do regime Mubarak (apesar da vestimenta de desertor), o ex-ministro das Relações Exteriores, Amr Moussa, também virulento na sua posição contra Israel, mas que se posiciona como aceitável para o Ocidente, por seu distanciamento da virulência islâmica e por vestir roupagens de secular liberal para os padrões locais.

O segundo é o candidato mais intrigante na eleição, para não dizer bizarro: o ex-dirigente da Irmandade Muçulmana (outro desertor), o médico Abdel Moneim Aboul Fotouh. Ele congrega apoio em um espectro que vai de islamistas barra pesada (os salafistas) a liberais da geração Facebook. Para uns, Fotouh promete a sharia (a lei islâmica). Para outros, o estado civil. Para Fotouh, amigo de todos, com suas mil promessas, sobrou o trocadilho de homem de duas faces.

E, finalmente, temos o homem da máquina islâmica (a Irmandade Muçulmana). Ele é o engenheiro Mohamed Morsi. Num perfil do jornal francês Le Monde, a definição está bem aparada: Morsi é cinzento como sua barba e quadrado como seus óculos. Ele também é conhecido como “pneu estepe”, pois só concorre devido à desqualificação de Khairat al-Shater, pelo fato de ter estado na prisão durante a ditadura Mubarak.

Algumas pesquisas mostram que Morsi não irá ao segundo turno. É uma possiblidade que devemos acolher com incredulidade e se acontecer será uma tremenda surpresa neste Egito já com tantas reviravoltas. Afinal, a falta de carisma de Morsi é compensada por disciplina e organização da Irmandade Muçulmana, que está aí há 80 anos, esperando sua vez de chegar ao poder, após sobreviver à repressão da monarquia e sucessivas ditaduras. Seria um terremoto político se Fotouh avançar para o segundo turno e não Morsi.

É verdade que a Irmandade Muçulmana (que já manda no Parlamento, secundada pelos salafistas) decepcionou muita gente com suas maquinações na caótica transição pós-ditadura Mubarak. Ora, se acomoda com os militares (que ainda dão as cartas no país), ora, parte para o confronto. A Irmandade, que prometera não concorrer à presidência, quer convencer sua base que a renascença vem aí (renascença é o nome do seu projeto de governo), enquanto garante para investidores estrangeiros que uma teocracia infernal não será implantada no país.

Rebeldes de primeira hora na praça Tahrir alertam contra o empenho manipulador da Irmandade Muçulmana, enquanto muitos dizem que o grupo subestima o que é conhecido como “estado profundo” no Egito, ou seja, o aparato militar que irá continuar a manipular as coisas, não importando quem vença a eleição presidencial ou controle o Parlamento.

Mas vamos acabar também com um toque positivo. Tudo caótico, volátil e incerto no Egito (inclusive sobre os poderes do futuro presidente), mas poderia ser pior, como nos tempos do museu de cera de Mubarak. E há suspense: pela primeira vez, não sabemos quem irá vencer eleições presidenciais no país,  em um teste crucial na turbulenta transição democrática.

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Colher de chá para Abdel e Betty (e Ricardo Platero e Carmem) pela saída dos temas habituais da crise egípcia e sinalizando o potencial econômico do país (potencial, potencial, potencial). Que celeiro de premiações hoje aos leitores!

22/05/2012

às 6:00 \ Crise nuclear, Egito, EUA, Europa, Irã, Israel, Uncategorized

Curtas & Finas (Gritos & Sussurros)

Os cochichos de Netanyahu e Barak

Eu tenho revelações bombásticas nesta terça-feira. Prontos? Quarta-feira vem aí. Será um dia agitado no mundo e aqui me limito a eventos programados: reunião de cúpula, em Bruxelas, dos dirigentes da União Europeia (mais pressão para a austera Angela Merkel amolecer), o primeiro dia do primeiro turno de históricas eleições presidenciais egípcias e uma intrigante rodada de negociações nucleares, em Bagdá, entre seis potências mundiais e o Irã.

No primeiro assunto (Europa), é previsível a capacidade europeia de empurrar com a barriga, no segundo (Egito) é imprevisível garantir quais candidatos irão sobreviver para o segundo turno (numa disputa em que ressurgiu até o nasserismo e na qual liberais e islâmicos da linha-dura salafista respaldam o mesmo candidato). Vou me concentrar um pouco mais no terceiro evento (Irã nuclear).

Existe no jargão diplomático, o chamado otimismo cauteloso de que seja possível romper o impasse. Por esta narrativa, o Irã sente o peso das sanções e todo falatório estridente não passaria de preparação para anunciar concessões (como aceitação de inspeções rigorosas de suas instalações nucleares e diminuição drástica da produção de urânio enriquecido). O tom otimista já foi manifestado nesta terça-feira pelo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, acenando com um acordo pelo qual o Irã permitiria investigações de uma instalação suspeita de realizar testes para o desenvolvimento de uma ogiva nuclear.

Mas não posso passar batido pela estridência abjeta, como na declaração esta semana do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, general Hassan Firouzabadi, de solidariedade à causa palestina de “total aniquilação de Israel”. Do outro lado (a destacar os EUA de Barack Obama em campanha de reeleição), interessa algum tipo de compromisso para afastar o cenário de um ataque às instalações nucleares iranianas.

Falta sempre combinar com Israel  (aquele país que deve ser “aniquilado”) e aqui está a informação interessante: na imprensa israelense, há especulações, que para mim soam muito otimistas, de que o governo estaria mais flexível (ou resignado) na questão de enriquecimento de urânio iraniano. Tal disposição teria sido manifestada aos americanos pelo ministro da Defesa Ehud Barak, enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantém a postura pública de inflexibilidade.

Na segunda-feira, Netanyahu voltou a advertir o Ocidente para não mostrar fraqueza. E mesmo em público, também na segunda-feira Barak é durão. Ele alertou os países ocidentais que o Irã está apenas fingindo disposição para fazer concessões nas negociações. Alertas `a parte, Israel toparia que o Irã continuasse o enriquecimento de urânio no nível baixo de 3.5% (a partir dos 20%, o que já acontece, fica mais fácil saltar rapidamente para o nível que possibilita a construção da bomba).

Um cenário nestas negociações em Bagdá seria pavimentar o caminho para um acordo interino, pelo qual o Irã interromperia o enriquecimento de urânio a 20% e abriria mão de 100 quilos de material neste nível. Em troca, as seis potências mundias (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia e China) suspenderiam os esforços para impor novas sanções. No entanto, o embargo europeu de petróleo ainda entraria em vigor em julho, assim como as sanções americanas contra o Banco Central iraniano. Entenda-se por resignação em Israel o fato de que avanços efetivos em negociações inviabilizariam um ataque militar por uns tempos (bom para os EUA, bom para o Irã).

Vamos aguardar os desdobramentos nesta quarta-feira em Bruxelas, Cairo e Bagdá, além de ficar na escuta dos cochichos em Jerusalém.

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Colher de chá para os comentários (concisos, algo que é uma benção para mim) desta terça-feira do João Felipe sobre as sutilezas da história, guerra e da diplomacia. 

Da Grécia ao Afeganistão, fadiga e frustração

Como organizar e pagar a estratégia de saída ocidental do Afeganistão?

Pelo menos os líderes ocidentais se movimentam. Eles foram de Camp David para Chicago, onde está em curso a reunião da Otan para discutir o futuro (que futuro?) do Afeganistão. Tudo melancólico, a começar pelo encontro da liderança do G-8 em Camp David, concentrado na crise europeia. Saiu o esperado comunicado, onde até as vírgulas são negociadas, sobre a guerra austeridade x novo pacto de crescimento.

Foi o cerco liderado pelo novo presidente francês François Hollande contra a primeira-ministra alemã Angela Merkel para suavizar, abrir a carteira e bancar o novo pacto de crescimento, mas ela move poucas vírgulas e poucos euros. O resultado foi o comunicado frouxo do G-8, fazendo média entre o compromisso formal para manter a Grécia na zona do Europa e a insistência alemã de que um apoio entusiasmo seria o recado errado, confundido com uma tábua de salvação a qualquer preço, não apenas para os gregos, mas outros países da zona do euro em uma situação de sufoco. O duelo tem nova rodada na cúpula da União Europeia (dirigentes sempre se movimentando) nesta próxima quarta-feira.

O presidente americano Barack Obama, morrendo de medo de uma bancarrota europeia durante sua campanha de reeleição, apenas bota banca, mas não assistência aos aliados do outro lado do Atlântico, enquanto tenta sugar alguma ajuda dos europeus às voltas com os seus buracos afegãos (Grécia e demais) para o Afeganistão original, assunto principal da agenda da cúpula da Otan.

Tanto na crise europeia, como na afegã, existem fadiga e frustração. A Grécia é um símbolo dos erros na construção do projeto europeu. Foi aceita no clube quando não deveria ter sido e agora se teme que, caso seja espirrada, gere tamanha encrenca que talvez não haja condições de fazer as reformas na associação, para que seja realmente mais unida, mas com menos autonomia para os sócios. No cenário mais aterrador, o clube com planos tão grandiosos talvez seja fechado e no seu lugar seja aberto um outro menor e mais elitista.

Existe justificável irritação com o Grécia dentro da Europa e estes dilemas estratégicos e táticos sobre até que ponto compensa salvar o país e se remédios tão dolorosos, como a austeridade, podem agravar a situação do paciente. Mas é inegável que não dá para escapar da dor. A Europa empreendeu uma jornada visionária no pós-guerra e os planos de união colidem com as realidades de países em graus diferentes de solidez e potencial. E obviamente uma crise econômica é um desafio para quem está em uma situação menos pior,  se comportou como formiga e agora precisa ajudar quem sempre foi metido a cigarra. Como se fala formiga em alemão e cigarra em grego?

A Europa foi maravilhosa com o sucesso de sua reconstrução pós-guerra e agora tem esta dificuldade para ampliar a obra ou impedir que desabe. Já no caso afegão, é a constatação sobre a mera inviabilidade de construção de um país sólido, democrático e próspero (no jargão em inglês a expressão é nation-building). No caso europeu, o debate é em torno do jargão conhecido como Grexit (como será a eventual saída da Grécia da zona do euro?). No Afeganistão, é uma estratégia mais ampla de saída dos países ocidentais, liderados pelos EUA (até 2014).

O projeto bem mais modesto é se contentar com um mínimo de segurança, sem retorno da rede Al Qaeda que teve santuário no pais até a derrubada do Taliban em 2001, um nível tolerável de corrupção e de ineficácia do governo local e mesmo um modus-vivendi com o Taliban. O problema é evitar a percepção de uma fuga atabalhoada, que apenas iria encorajar o Taliban a ser maximalista e levar atores regionais como o Paquistão, um dos parceiros mais turbulentos e menos confiáveis que os EUA já tiveram na história,  a fazer seus próprios cálculos, pois os americanos vão cair fora do buraco de qualquer forma. Já o cálculo americano é que um Paquistão nuclear e instável merece mais atenção do que a busca de estabilidade no vizinho Afeganistão.

Por esta razão, existe esta mensagem ambígua do governo Obama: vamos sair e vamos ficar no Afeganistão. A mensagem é caríssima. Significa um compromisso de respaldar o governo local a um preço de US$ 4 bilhões anuais, por dez anos, nesta tarefa inglória de afeganistização da guerra. Existe um desejo entre praticamente todos os membros da Otan de uma saída com dignidade do Afeganistão. E para o governo Obama, ainda sobrou a tarefa ingrata de achacar o que for possível dos aliados em termos de compromissos financeiros e cronograma de retirada de tropas. Basta ver que François Hollande, contra a austeridade na Europa, é  bem austero no Afeganistão, pois promete antecipar em dois anos a retirada das tropas francesas do país.

Esta reunião em Chicago, portanto, se destina a organizar uma saida com dignidade e ver como rachar a conta afegã. Quem prefere falar de Grécia? Tanta movimentação, de Camp David a Chicago, para isto.

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Colher de chá para o Aurélio (dia 21, 12:26) e sua doutrina das melancias.  E uma noturna para o Mauricio (dia 21, 19:2o), por colocar a fadiga e a frustração no seu devido contexto.

Primeira Impressão (Islamistas)

Na semana que vem, teremos o primeiro turno das eleições presidenciais egípcias, mais uma fase de uma turbulenta transição pós-ditadura Mubarak, parte do turbulento processo que é a primavera árabe. Este processo não foi iniciado por partidos islamistas, mas agora eles tiram proveito de oportunidades democráticas ou de rachaduras na velha ordem em diversos países do Oriente Médio e norte da África para adquirir poder.
Portanto, vamos saudar a chegada do livro The Islamists Are Coming, editado por Robin Wright, uma veterana jornalista americana, muito chegada no Oriente Médio e que hoje está no Wilson Center, em Washington. São mais de 50 partidos islamistas no mundo árabe e o livro, com uma introdução de Robin Wright e ensaios de 10 especialistas, rastreia o que está acontecendo na Argélia, Egito, Jordânia, Líbano, Líbia, Marrocos, terrritórios palestinos, Síria e Tunísia.
Rótulos são complicados, mas algumas tendências são detectadas. Exceto Hezbollah, no Líbano, e Hamas (territórios palestinos), estes partidos islamistas não possuem braços armados e não pregam um conflito frontal contra Israel, embora hostilidade ao estado judeu e antissemitismo sejam componentes flagrantes. Ademais, existem condenações da rede Al-Qaeda e de jihadistas armados. que também tentam atuar no meio da encrenca. Basta ver o que está acontecendo na Sïria.
Importantes eventos históricos influenciam a atuação destes partidos, a destacar a revolução iraniana de 1979, a guerra contra os soviéticos no Afeganistão (1979-1989) e a guerra civil na Argélia (1992-1999). São eventos como triunfo de revoltas populares contra ditadores pró-ocidentais (Irã), de resistência à invasão de terras islâmicas (Afeganistão) e da possiblidade de vencer eleições parlamentares (Argélia).
Mas a experiência da Frente Islâmica de Salvação, na Argélia, que venceu o pleito mas foi derrotada por um golpe, mostrou a necesidade de um jogo político astuto e gradualista para permitir a ascendência do conservadorismo religioso. Variantes da Irmandade Muçulmana (Tunísia e Egito, por exemplo) exercem este jogo cauteloso.
A ascensão de partidos islamistas pelo voto gera uma conversa interminável sobre o que significa usar a liberdade para coibir a liberdade. Afinal, eleitos, partidos islâmicos podem reprimir liberdades individuais e perseguir minorias. Podem ser partidos democráticos (refletem a vontade da maioria), o que não é o mesmo que liberalismo.
No paradigma-alerta de Fareed Zakaria,  existem também democracias iliberais. E um corolário interminável desta conversa interminável é se islamismo é compatível com liberalismo, mesmo em países fora da esfera da primavera árabe, onde a democracia já está supostamente consolidada, como o caso da Turquia.
No livro editado por Robin Wright, as variáveis de desempenho econômico e de governança são trazidas para tentar entender vislumbrar o desfecho da primavera árabe. Os partidos islamistas que eventualmente irão adquirir e exercer o poder terão legitimidade através de bem-sucedidas políticas econômicas e governança de resultados. Não basta implementar a lei de sharia ou sonhar com um califato.
Discutir moralidade pode mobilizar a massa e desviar as atenções mas, no final das contas, os islamistas precisarão propor modelos de geração de empregos, baixar a inflação e atrair capital estrangeiro. Bastar que já existe um pouco de fadiga com a Irmandade Muçulmana no Egito, que comanda o Parlamento, e que as eleições presidenciais podem resultar na vitória de Amr Moussa, uma figura proveniente da velha ordem ditatorial.
Há um consenso no livro que desempenho econômico irá determinar o futuro político destes partidos. Mas sempre está aí o exemplo iraniano em que preservação no poder também é devida a outros fatores como repressão, fervor religioso, inimigos externos que desviam as atenções dos problemas internos e nacionalismo.
Também é importante lembrar como nesta primavera árabe, com o foco na Irmandade Muçulmana (vista como mais inclinada à cautela e ao pragmatismo), foi subestimado o avanço de grupos mais fundamentalistas, como os salafistas. São grupos que expressam posições rígidas em questões sociais e oposição ao sistema democrático de governo, embora participem de eleições.
Os ensaios no livro deixam em aberto questões como se os partidos islamistas estão realmente dedicados ao compromisso democrático e à tolerância, embora a prática será o teste (esperamos que não fatal). A linguagem ambígua, vaga e contraditória de partidos islamistas alimenta o ceticismo e o temor de seus opositores, como minorias religiosas, mulheres e liberais, além de integrantes da velha ordem ditatorial.
A história ainda está sendo rascunhada, mas os islamistas já chegaram para participar dela.
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Colher de chá para o Lexikon.

17/05/2012

às 6:00 \ Alemanha, Europa, Merkel

Curtas & Finas (Merkel & Europa)

Merkel indicando o caminho para Hollande (e o resto da Europa - Foto Odd Andersen/AFP

Claro que somente a história dirá se Angela Merkel indicou o melhor caminho para uma Europa em crise ou se a conduziu para o precipício com suas receitas de austeridade e disciplina fiscal. Uma boa contribuição no debate para entender a agenda da primeira-ministra alemã está neste ensaio de Harold James, professor de Estudos Europeus na Universidade de Princeton, nos EUA.

James destaca que a Alemanha de Merkel está cada vez mais à vontade para assumir seu papel hegemônico na Europa (François Hollande, pardon!). A desenvoltura está patente inclusive na linguagem direta e até brusca da primeira-ministra e James não resiste a associações com Otto von Bismarck, o estadista que unificou a Alemanha no século 19 e que num discurso clássico no Parlamento ainda prussiano em 1862 falou da necessidade (orçamentária e muito mais) de “ferro e sangue”.

Com a história de infâmias e agressões da Alemanha falar em “ferro e sangue” cria desconfortos. Nenhuma surpresa que a Alemanha moderna use instrumentos multilaterais (como a União Europeia) para assegurar sua dominação, domar seus próprios demônios e apaziguar os preocupados. Neste caso em curso da crise na zona do euro, a imposição de sacrifícios evidentemente gera as inevitáveis analogias e na Grécia, que tanto sofreu com a ocupação nazista, existem aquelas referências automáticas: Merkel = Hitler.

Curiosamente, nem todos países europeus consideram que seja tão problemático uma Alemanha assertiva e estamos falando de países que sofreram bastante na Segunda Guerra Mundial. O eixo (sic) de países mais dinâmicos na Europa Central e Oriental se inspira no modelo alemão de eficiência e produtividade. Indo além, estes países consideram o caminho alemão o único para uma Europa vigorosa. Uma das grandes surpresas nos últimos meses foi o apelo do ministro das Relações Exteriores da Polônia para uma Alemanha mais forte e assertiva e não fraca e constrangida com o seu poder.

Mas no seu ensaio, o professor Harold James lembra que a Alemanha, na condição de âncora da Europa moderna, sabe que precisa calibrar as coisas, por autointeresse e pelos interesses mais amplos do continente. Partes do ensaio têm complexidades históricas (comparações, por exemplo, com os EUA da época da sua independência) legais e financeiras que eu vou saltar. Mas em termos essenciais, James aposta que no final das contas a Alemanha irá aceitar alguma medida de redistribuição fiscal na Europa, federalizar a dívida e absorver desequilíbrios regionais.

James define a rigidez alemã como uma postura inicial de negociação com os parceiros mais fracos e até capengas na zona do euro. Basta ver que agora que a Grécia chegou na beira do precipício, Merkel suaviza o tom. Em uma entrevista na quarta-feira ao canal financeiro de televisão americano CNBC, ela sinalizou que haverá pacotes de estímulos ao país e reafirmou seu empenho para que permaneça na zona do euro.

Harold James é simpático a Angela Merkel. Ele escreve que a “Alemanha é poderosa e Frau Merkel sabe disso”. Ademais, James reconhece que a primeira-ministra quer refazer a Europa de certa forma à imagem alemã, mas arremata que estas ações não devem ser confundidas com imperialismo São prova de liderança, forjada a ferro, mas não com sangue, Isto foi coisa de dirigentes alemães do passado.

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Colher de chá para Ricardo Platero, pela bateria de comentários sólidos e em tom educado em um debate incessante sobre economia europeia,  

16/05/2012

às 6:00 \ Europa, Grécia

A Grécia caminha do caos para o caos

Votando, de novo

A Grécia, berço da democracia, gosta de votar. As eleições do último dia 6 foram inconclusivas e agora teremos mais um exercício em junho. O medo de muitos, que eu não compartilho, é que o berço da democracia seja o túmulo do projeto europeu se viver uma definitiva degringolada econômica, saída do euro e caos político ainda mais acentuado. Existe incoerência política de uma população que rechaça a austeridade imposta para sua permanência na zona do euro e quer ficar no seu aconchego.

Noriel Roubini, o economista também conhecido como Doutor Apocalipse, é coerente com a fama. Foi rápido para prever que as próximas eleições serão vencidas pela Coalizão da Esquerda Radical, que se opõe ao programa de austeridade e isto levará ao abandono grego da zona da euro. É verdade que as mais recentes pequisas de opinião indicam que este partido de extrema esquerda (que ficou em segundo lugar nas eleições de 6 de maio) ampliará seu apoio em junho. No entanto, a nova eleição terá lugar em um ambiente diferente, num referendo sobre a permanência do país na zona do euro. Péssimo se ficar, pior se sair. A velha Grécia precisa decidir se quer crescer ou continuar com suas molecagens. Mas seria conveniente a babá alemã misturar vigilância com alguns afagos.

Sempre difícil prever o futuro, então vamos prever o passado. Bem que avisaram que seria uma fria a Grécia entrar no clube europeu. Antes da Segunda Guerra Mundial, o país era integrante do briguento clube dos Balcãs, como Bulgária e Iugoslávia. O desfecho da guerra fez da Grécia um país ocidental (o negócio de berço da civilização ocidental era remoto), enquanto os outros dois países entraram no clube comunista.

A história andou e em 1981, contra as recomendações da Comissão Europeia e por cálculos relacionados com a política da Guerra Fria (e o fato de que a Grécia, assim como Espanha e Portugal, deixara de ser uma ditadura), ela foi aceita na União Europeia. Andamos mais 20 anos e a Grécia entrou na zona do euro. Aceitação igualmente prematura. Agora é pagar para ver e ver quanto a Europa irá pagar.

Com o colapso da ditadura militar (1967-74), a Grécia, sem suar muito, depositou as esperanças na aquisição de uma moderna identidade europeia. Não abandonou sua cultura clientelista, em que grandes partidos de esquerda e de direita têm culpa no cartório. A Grécia agora pode perder ou rasgar a carteirinha de sócio do clube do euro. Enquanto isto, integrantes do briguento clube dos Balcãs (que há 20 anos travavam guerras e empreendiam limpeza étnica), caminham na direção oposta. A Croácia está chegando para ser admitida como o vigésimo-oitavo estado-membro da União Europeia e o bloco vai abraçando Sérbia e Montenegro.

Nesta coluna trágica que começou com a Grécia, só falta terminar, para relaxar, com a sabedoria já clássica de Groucho Marx que desconfiava do clube que o aceitava como sócio. Mas o problema com a Grécia é que deveria ter havido mais desconfiaça mesmo sobre o sócio.

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Colher de chá bem matutina para o Pedro I (dia 16, 8:04), por seu depoimento.  Meu toque de Midas, nesta manhã: uma segunda colher de chá, esta para o clássico Amauri (dia 16, 8:39). Conversa grega esquentou ao longo da tarde. Colher de chá para o Reynaldo, que trava uma batalha praticamente solitária contra uma aguerrida tropa espartana.

15/05/2012

às 6:00 \ Israel, Mundo Árabe, Palestinos

Rabiscos Estratégicos (Israel & palestinos)

Expectativas frustradas

No plano formal, as perspectivas diplomáticas no diálogo entre israelenses e palestinos são desoladoras. Para mais detalhes, os leitores podem dar uma comedida olhada na coluna anterior. É inquietante que isto também esteja acontecendo no plano informal. O israelense Yossi Alpher está azedo, como raramente esteve. Ao lado do palestino Ghassan Khatib, Alpher edita o site bitterlemons.net, que promove a troca civilizada de idéias e busca de soluções para o conflito. O título do seu último texto  é sintomático: “Tristemente, nada mais para conversar”.

Quase 20 anos depois dos acordos de Oslo, consagrado pelo aperto de mão entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, com a benção de Bill Clinton, que estabeleceram as bases para acordos definitivos entre israelenses e palestinos, as expectativas são muito baixas sobre o que pode ser alcançado. Existe inclusive crescente pessimismo sobre a perspectiva da solução dos dois estados.

Neste seu comentário azedo, Alpher observa que interlocutores dos dois lados estão simplesmente cansados diante do cenário pouco promissor. Entre o alastramento das colônias israelenses na Cisjordânia e a insistência palestina em exigências inaceitáveis, como o direito de retorno dos refugiados, está duro ver alguma luz no fim do túnel.

Mas, na advertência de Alpher, nada mais escuro do que a inclinação para se admitir a solução de apenas um estado, que resultaria no apartheid (a minoria israelense dominando a maioria palestina sem plenos direitos) ou em um estado árabe (com uma minoria judaica discriminada). Alpher joga um limão verde, dizendo que é preciso uma direção mais ousada nas conversações informais, com mais contatos entre israelenses e o Hamas, o que pavimentaria o caminho para contatos israelenses com islamistas adicionais do mundo árabe.

Quebra do tabu? Alpher lembra que antes dos acordos de Oslo em 1993 era ilegal o contato de israelenses com a Organização de Libertação da Palestina. Alpher lança o desafio. Diz que israelenses corajosos estão prontos para o diálogo. E quem se habilita do lado do Hamas?

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O leitor “Seu Madruga” chegou apenas no início da tarde de terça-feira com vários argumentos interesssantes e dados históricos. Colher de chá.  E horas antes da madrugada de quarta-feira, colher de chá para o Magno e Amauri, por vários comentários ao longo do dia. Destaco o tom civilizado dos três leitores.  Para mim é um prazer este tipo de debate.

14/05/2012

às 6:00 \ Irã, Israel, Mundo Árabe, Oriente Médio, Palestinos

Em defesa de Israel (de novo) e até de Netanyahu

Netranyahu, por cima, com seu novo parceiro Mofaz

Que coisa! Governos são derrubados por crise econômica (Europa, num jogo de dominó) ou são derrubados porque o prazo de validade expirou (Oriente Médio, como no Egito) ou se aguentam no poder porque expiram a oposição com força bruta (também no Oriente Médio, como na Sïria). E lá em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mostra que o país está sólido, em uma recado aos inimigos externos e também aos amigos de Israel que temem pela coesão interna do país.

Netanyahu, do partido de direita Likud, deu um golpe de mestre na semana passada, ao aliciar o partido de centro Kadima para a coalizão de governo. Assim, ele não antecipou as eleições gerais de outubro de 2013 para o próximo setembro como estava praticamente decidido e costurou uma supermaioria no Parlamento (3/4 das cadeiras). A jogada maquiavélica de Netanyahu atraiu muita atenção e especulações sobre as ramificações externas.

Uma leitura é a de que o país se uniu como não se unia desde a guerra de 1967. Logo, o terreno está sendo preparado para um ataque às instalações nucleares iranianas. Possível. Há uma leitura também que a incorporação do Kadima, um partido com uma posição mais aberta e sensível à questão palestina, pode movimentar as coisas naquela frente diplomática após tantos anos de paralisia. Menos possível. Basta ver que Israel e palestinos sequer conseguem retomar negociações substantivas, como mostrou a mais recente troca de correspondência entre os dois lados.

As considerações urgentes para o lance de Netanyahu foram mais domésticas e aqui manifesto um pouco de alívio. Nas considerações externas, eu persisto nas dúvidas sobre a sabedoria deste ataque ao Irã (em particular se for uma iniciativa unilateral de Israel) e no caso palestino não vislumbro avanços significativos tão cedo, o que a longo prazo é uma dano ao direito palestino a um estado, à legitimidade de Israel e à busca de um modus-vivendi entre judeus e árabes no Oriente Médio. É  um cenário inquietante e que continua se agravando.

Ao menos, porém, existe uma frente mais sólida internamente (a noção de solidez, é verdade,  deve ser encarada com ceticismo em Israel e sua classe de políticos tão oportunistas, fisiológicos e corruptos). País mais sólido internamente fica mais preparado para enfrentar desafios externos. E porque o alívio? O Likud nunca foi minha praia, mas o consolo para mim é o fato de ser um partido relativamente secular, como é o caso do Kadima (que é filhote do próprio Likud). Este casamento de conveniência entre pai e filho aumenta a margem de manobra para diminuir o espaço que já é desproporcional de pequenos partidos ultrarreligiosos, que converteram o país em refém de suas causas (ao lado de partidos ultranacionalistas de direita, outro dano para a saúde e o futuro do país).

Com esta nova coalizão, ficou mais fácil a aprovação de reformas nos próximos meses, a destacar a exigência de algum tipo de serviço nacional para os jovens religiosos (hoje isentos do serviço militar obrigatório) e também de reformas do sistema político para reduzir o poder destes partidecos. Eu considero uma maravilha uma freada na aceleração religiosa em Israel, um belo exemplo quando vemos o avanço do fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, no lugar de infames ditaduras seculares.

O poder desproporcional destes pequenos partidos religiosos é uma distorção que ameaça a própria coesão da sociedade israelense (muitos destes cidadãos ultrarreligiosos recebem benefícios sociais ou têm isenções e sequer reconhecem o próprio estado). Curiosamente, reformas exigindo algum tipo de serviço nacional, ao invés de militar, para milhares de estudantes de escolas religiosas, tambem terão implicações para os cidadãos árabe-israelenses do país (cerca de 20% da população), hoje também isentos do serviço militar. Se estes cidadãos são parte da sociedade e querem plena igualdade também devem servir ao país, numa dinâmica de mais direitos e deveres.

Na verdade, estas dinâmicas internas e externas Israel devem ser enfrentadas simultaneamente, num desafio que garanta pontos essenciais: um estado judaico, democrático e seguro (e um dia em paz com seus vizinhos). Será um teste histórico para Netanyahu, alguém que eu considero mais hábil para estes lances táticos (como costurar esta surpreendente coalizão) do que uma visão estratégica (no caso palestino, ele foi arrastado ao longo dos anos para aceitar o mero direito palestino a um estado).

Para dar uma medida, o compromisso do Kadima com o cenário de dois estados é mais determinado. Seu líder Shaul Mofaz propôs em 2009 a criação imediata de um estado palestino em 60% da Cisjordânia e aceita, ao contrário de Netanyahu, as fronteiras anteriores à guerra de 1967 como base para um acordo de paz, com entrega de algumas terras israelenses para compensar a perda aos palestinos de blocos de assentamentos judaicos dentro da Cisjordânia. Mas hoje em dia, Netanyahu reflete o país. Ele é um político cauteloso. O seu passo é o passo nacional. Se eleições tivessem sido antecipadas para setembro, o Kadima teria levado uma rasteira do eleitorado.

Não há dúvida que Netanyahu tem agora inquestionável legitimidade política para pressionar os EUA contra arrastadas negociações com o Irã sobre suas ambições nucleares, enquanto ameaça com o ataque preventivo. Vale lembrar que as divergências dentro de Israel sobre o Irã são muito mais sobre quando seria o momento mais adequado para o ataque e se isto deve ser feito sem o apoio ou, pior, contra a vontade americana.

Mas na dinâmica externa, as coisas não estão, é claro, exclusivamente nas mãos de Netanyahu. No caso iraniano, ele não poderá fazer nada até que haja um desfecho das negociações nucleares entre a comunidade internacional e o Irã (a solidez da coalizão de Netanyahu aumenta a urgência destas conversacões).

O dilema para Netanyahu será um acordo com Teerã que ainda permita algum tipo de enriquecimento de urânio. Como ele poderá realizar um ataque num contexto em que existe um acordo indesejável para Israel, mas aceitável para grande parte da comunidade internacional? O primeiro-ministro de Israel também precisa medir se lança um ataque enquanto Barack Obama está no poder ou se arrisca a uma espera eleitoral (nos EUA), no qual poderá ou não assumir o seu amigão, o republicano Mitt Romney, em janeiro próximo.

No caso palestino, resta ver qual será a resposta à nova dinâmica interna em Israel pelas lideranças palestinas (O Fatah do ainda presidente Mahomud Abbas, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, que manda em Gaza). As apostas de Abbas não funcionaram (como buscar o reconhecimento unilateral palestino na ONU e não através das tortuosas negociações com Israel).

Como Obama em Washington, Abbas também apostava (e perdeu) que Netanyahu seria em algum momento espirrado do poder em Jerusalém. Agora precisa aceitar a realidade de um adversário mais forte e decidir se irá se engajar. Quanto ao Hamas, não há muita diferença na sua postura, além de uma suavização da retórica antiIsrael por alguns setores do grupo fundamentalista islâmico. O Hamas se sente mais fortalecido com o avanço da Irmandade Muçulmana no Egito, da qual é filial, e não se dobra aos esforços de Abbas para colocar Gaza sob o seu controle. Nenhum dos três atores tem muito a oferecer para se sair do lodaçal diplomático.

Esta união em Israel é um desafio para os inimigos do país, mas ainda resta saber exatamente o que fará Netanyahu com os frutos de sua vitória, além de ter menos dor-de-cabeça com a caótica política interna israelense.

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Colher de chá para o Caio Blinder, ele merece por ser tão paciente. 


 

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