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18/09/2014

às 6:00 \ Escócia

Escoceses, naw, naw, naw ! (II)

Se o "sim" vencer, muita coisa pode se esfarelar

Se o “sim” vencer, muita coisa pode se esfarelar

A Escócia com seus 5.3 milhões de habitantes não é o centro do universo, apesar de sua importância essencial para a civilização ocidental (David Hume, Adam Smith, Alexander Graham Bell, Alexander Fleming, Arthur Conan Doyle e Sean Connery), mas o referendo sobre a independência desta quinta-feira não tem impacto meramente local nem meramente britânico. Existe uma ansiedade global (embora, felizmente, não seja tema dos debates eleitorais no Brasil).

Como escreve Philip Stephens no Financial Times, o “mundo está dizendo não à separação escocesa”. Nas principais capitais mundiais existe perplexidade (por que desfazer uma das mais bem sucedidas uniões da história?) e alarme sobre o que isto significará para o futuro da Grã-Bretanha e da União Europeia. Há também questões sobre a eventual presença de uma Escócia independente na Otan, a aliança militar ocidental.

Para o nosso homem em Moscou, o jogo é complexo. De um lado, é bom para ele ver encrenca na Europa. De outro, clamores separatistas para Vladimir Putin são bons entre os rebeldes que ele patrocina na Ucrânia, mas não dentro das fronteiras formais da Rússia. E lá não existe esta coisa de referendo democrático. Desejo por autonomia, como na Chechênia, resultou em terra arrasada. O nosso homem em Moscou investe na identidade atávica (a dos russos é legítima, não a daqueles que querem o divórcio deles). O presidente russo hoje é um campeão da xenofobia, um inspirador de vários movimentos populistas e extremistas na Europa, em geral de direita.

O líder nacionalista escocês Alex Salmond obviamente não está na faixa de Putin, embora tenha sido um pavor seu elogio ao nosso homem em Moscou por ter restaurado o orgulho russo. Salmond corre pela esquerda e líderes nacionalistas na Europa são muito mais xenófobos do que ele. Sua ascensão se deve a um desencanto e a uma desconfiança com o establishment (no caso dele, com Londres, no resto da Europa, com Bruxelas, capital da União Europeia).

No entanto, como lembra Stephens, Salmond é criatura do establishment, mas ele se reinventou como líder de uma insurgência.  Salmond removeu a roupagem do nacionalismo cívico para atuar em um sombrio jogo da política de identidade. Um contraponto à tese está neste texto do El País, já traduzido para o português, que bate na tecla do componente ideológico (de esquerda).

Sem dúvida, o prolongado mal-estar econômico na Europa, no lugar da panaceia do estado do bem-estar social, é terreno fértil para diferentes intensidades de nacionalismo (que também funciona como panaceia). No entanto, não é apenas o cenário econômico do momento, que aflige tanto os jovens europeus, que ajuda a explicar o appeal de mensagens menos tradicionais, seja da extrema-direita na Suécia, seja do nacionalismo de esquerda na Escócia.

As aspirações nacionalistas, étnicas, religiosas e tribais estão em alta no mundo. Com o fim da Guerra Fria, os solavancos gerados pela globalização e o ritmo vertiginoso da modernização, a identidade substitui o primado da ideologia. Ela dá uma sensação de aconchego. Queremos ser protegidos pelo familiar e pelo primário. O universo difuso, transanacional, das fronteiras abertas, dos mercados globais, das grandes burocracias e da padronização assusta muita gente.

Além da dose, esta política da identidade se torna perigosa, explosiva. No caso do Oriente Medio, temos desdobramentos ensandecidos, com a barbárie de extremistas islâmicos. Na Europa civilizada do pós-guerra, vemos a ascensão de partidos de extrema-direita, até na tolerante Suécia. No caso específico da Escócia, um eventual triunfo do sim (a independência) irá nutrir o nacionalismo inglês e acelerar a saída do que sobrou da Grã-Bretanha da União Europeia. Com a Escócia sozinha, muito mais ficará menor. Um problema maior. Melhor dizer não. Better together, como martelou a campanha do naw.

***
Aye para os escoceses. Eles merecem colher de chá pelo espetáculo democrático e de civismo, a favor ou contra, no referendo sobre independência.

 

17/09/2014

às 6:00 \ Escócia

Escoceses, naw, naw, naw!

O primeiro-ministro Alex Salmond na padaria na campanha pelo "aye"

O padeiro e primeiro-ministro Alex Salmond na campanha pelo “aye”

Há um ano, eu não acordava pensando na Ucrânia (com todo respeito por meus avós que nasceram naquelas bandas). Agora, tenho pesadelos diários (geopolíticos) por causa do belicismo de Vladimir Putin. Esta semana até a Suécia, aquele paraíso nórdico da tolerância, me deixou sobressaltado devido ao avanço da extrema-direita com raízes neonazistas nas eleições de domingo. E ainda por cima tem este referendo sobre independência na Escócia na quinta-feira para nos assustar.

É para assustar mesmo. O referendo dá uma medida de convulsões na velha Europa. Por que desfazer uma união tão bem sucedida e civilizada de 307 anos entre Inglaterra e Escócia, no casamento dentro da Grã-Bretanha? Pelas pesquisas, metade dos escoceses não pensam assim e acham que chegou a hora do divórcio, que, no final das contas, não será tão amigável, tão fleumaticamente britânico.  Hora de dizer “sim” pela independência? Pelas pesquisas, o resultado de quinta-feira vai ser no sufoco, embora haja alertas de que os números finais podem enganar pela margem mais folgada, a favor ou contra.

Já li tantas teorias que a crise no casamento é culpa do tédio, da arrogância inglesa e do desejo de aventura dos escoceses (que tiveram esta tradição na expansão do império britânico). Outros fatores: nacionalismos e tribalismo estão em alta. Há também uma explicação ideológica. Os escoceses estão à esquerda dos ingleses e não gostam do governo conservador em Londres (no Parlamento britânico, dos 59 deputados escoceses, apenas um é conservador).

No entanto, nada disso me convence muito, embora haja uma dose de cada explicação no drink. A Escócia não é colônia do império e preserva sua identidade nacional dentro do Reino Unido. Pelas contas, já foram onze primeiros-ministros escoceses a serviço de sua majestade. O ex-primeiro-ministro trabalhista (e escocês) Gordon Brown se tornou figura indispensável e infatigável na campanha pelo “não” no referendo.

Houve, aliás, muito descaso, na campanha do “não” e agora é este desespero para recuperar o tempo perdido. Semanas atrás, parecia conversa de bêbado achar que o “sim” venceria o referendo. Agora, é uma campanha movida pelo medo, com o objetivo de aterrorizar os escoceses sobre o preço que irão pagar pelo divórcio. Será um acerto litigioso sobre moeda, dívida, receitas, petróleo no mar do Norte e adesão à União Europeia. A retórica é apocalíptica: será o fim da Escócia, o fim da Grã-Bretanha, o fim da União Europeia. Haverá o efeito cascata de movimentos separatistas na Espanha, Itália e Bélgica. Meu Deus, até no Texas.

Alguns têm medo que esta campanha de medo irrite os teimosos escoceses e muitos decidam votar aye de pirraça. É verdade que este terror eleitoral da campanha do “better together”, melhor juntos, é acompanhada de promessas de mais poderes e controle de recursos pelo  Parlamento escocês, conforme o documento firmado na terça-feira pelo primeiro-ministro conservador David Cameron e pelos líderes trabalhista, Ed Miliband, e liberal democrata, Nick Clegg.

Eu reitero minha aposta. Para o Instituto Blinder & Blainder, este esforço que mescla terror e ternura irá funcionar a favor do naw na quinta-feira. Já o líder separatista, o primeiro-ministro escocês Alex Salmond, promete demais, a destacar que com o petróleo do mar do Norte, a Escócia independente será uma Noruega rica e igualiatária. A maldade de chamar Salmond de Hugo Chávez do Norte é saborosa, mas mentirosa (ele não tem os delírios messiânicos e autoritários do finado). O risco é que não haja tanta petróleo assim para as próximas décadas para pagar os generosos gastos sociais. Assim, a Escócia independente termina, não como uma Noruega, e sim como uma Grécia.

Espero que na hora E, os escoceses votem com sobriedade e decidam manter o casamento de 307 anos.  Se optarem pelo porre, só me resta repetir a minha piadinha de balcão de pub. O nome da nova moeda poderia ser scotch.

***
Colher de chá matinal (nada de álcool a esta altura do dia) para os legítimos depoimentos escoceses de Pedro Bouvetiano (dia 17, 7:47) e Roberval (dia 17, 8:34).

 

 

 

 

16/09/2014

às 6:00 \ Suécia

Enquanto isso na Suécia…

Jimmie Akesson, o jovem líder da extrema direita contra a velha Suécia

Jimmie Akesson, o jovem líder da extrema direita, contra a velha Suécia

O que deu na Suécia? Destacar que o Partido Social-Democrata volta ao poder depois de oito anos, encerrando sua mais longa estadia na oposição em um século não é uma manchete sensacional. A manchete sobre as eleições de domingo é o espetacular avanço da extrema- direita, com raízes no neonazismo e seus componentes islamofóbicos e racistas. O partido Democratas Suecos arrebatou o coração de 1 em 8 suecos no país lendário pela generosidade e tolerância.

A mensagem contra os imigrantes e os custos que sua absorção acarretam ao sistema de bem-estar social conferiram o terceiro lugar ao partido extremista. Ele dobrou sua votação para 13%, roubando votos do Partido Moderado, o principal de centro-direita, que dominava a coalizão de governo. Fredrik Reinfeldt, na melhor tradição da democracia parlamentar, foi imediato para renunciar ao cargo de primeiro-ministro e o comando do seu partido.

No seu governo, Reinfeldt, aliado importante de líderes conservadores como a alemã Angela Merkel e o britânico David Cameron, soube conduzir a Suécia em meio às tempestades da crise econômica europeia, enxugou programas sociais e privatizou serviços públicos. No entanto, ele se negou a alterar a generosa política de acolher imigrantes e refugiados (vítimas da guerra civil síria encontraram um porto seguro no país). Neste ano, a expectativa é de concessão de asilo para 80 mil refugiados, o maior número desde 1992.

Ao contrários de outros partidos do establishment conservador na Europa, a centro-direita sueca não embarcou em projetos para fixar cotas de imigração ou debates sobre sua integracão. No governo, Reinfeldt não aceitou a cooperação da extrema-direita, que mesmo assim votava quase sempre a favor de seus projetos.

É sintomático que o carismático lider da extrema-direita seja o jovem Jimmie Akesson, de 35 anos, com seu discurso contra imigrantes, o multiculturalismo e o pós-moderno. Um discurso contra a velha Suécia que cativou especialmente jovens, entre os quais a taxa de desemprego está três vezes acima da média nacional.

O social-democrata Stefan Lofven, com raízes no movimento sindical, irá suar agora para forjar uma coalizão de governo, pois os partidos de centro-esquerda não conseguiram maioria absoluta nas eleições. Lofven poderá negociar com algum partido de centro-direita ou com os verdes (que tiveram votação abaixo das expectativas). A perspectiva é de um governo fraco. No entanto, cuidado com a ideia de que os social-democratas suecos sejam perdulários. Tornaram-se mais realistas e agora possuem uma agenda fiscal prudente. Mesmo assim, a Suécia (quem diria) poderá ter dias instáveis, um clima propício para extremistas.

Eu realmente não sou generoso com partidos de extrema-direita com raízes no neonazismo e que espalham o veneno islamofóbico. Não dou colher de chá, por exemplo, para a francesa Frente Nacional, de Marine Le Pen, apesar do seu esforço de maquiagem para esconder as rugas antissemitas (saem judeus, entram muçulmanos como os novos alvos de alguns setores da extrema-direita).

No entanto, diante do descrédito dos partidos tradicionais na França (de esquerda e de direita), a Frente Nacional desponta em primeiro lugar nas pesquisas se as eleições gerais fossem hoje (felizmente não triunfaria em um segundo turno). Meu temor é que partidos conservadores civilizados, como o Moderado na Suécia, agora se desloquem para posições menos “moderadas” para recuperar o eleitorado perdido para os extremistas.

A Suécia e os outros nórdicos chegaram perto do paraíso. O negócio agora é encontrar uma fórmula sensata para retornar para baixo, pois custa muito ficar lá em cima. Estes nórdicos são muito civilizados. Vão encontrar o caminho.

***
No paraíso da coluna, colher de chá para Jorge Silva (dia 16, 12:41) e Pedro Lemos (dia 16, 13:40).

15/09/2014

às 6:00 \ Arábia Saudita

A Arábia Saudita e o fedor da realpolitik

O secretário de Estado Kerry roga apoio contra o terror do príncipe Faisal no último dia 11 de setembro (bem neste dia?)

Com lata de lixo, Kerry roga apoio contra o terror do príncipe Faisal em 11 de setembro (neste dia?)

No começo do ano, o presidente americano Barack Obama deu uma extensa entrevista à revista The New Yorker, divagando sobre sua ideia de uma “equilíbrio competitivo” no Oriente Médio. Em uma bruxaria geopolítica ao estilo Henry Kissinger, seria uma especie de balança do poder autorregulatória para substituir a espiral de violência entre sunitas e xiitas e as guerras de procuração empreendidas por Arábia Saudita e Irã.

David Gardner escreveu no Financial Times que a ideia se dissolveu no “coquetetel ácido” de falência de estados no Siraque, da barbárie e da blitz jihadista. Obama foi sugado para este coquetel ácido e agora tenta montar a coalizão para combater o grupo terrorista Estado Islâmico.  E qual é uma peça-chave nesta coalizão? A Arábia Saudita. Antes do discurso da quarta-feira passada sobre a nova fase da guerra ao terror, o presidente telefonou para o rei Abdullah e despachou em seguida o secretário de Estado John Kerry para o deserto para fazer os acertos. A raposa foi convocada para colocar um pouco de ordem no galinheiro.

Entre as tarefas atribuídas à Arábia Saudita está a de treinar rebeldes sírios no país, como parte do malabarismo americano de inventar ou reiventar uma terceira via, em contraste ao açougueiro Bashar Assad e aos decapitadores do Estado Islâmico. Não há dúvida sobre o empenho saudita para decapitar o regime de Bashar Assad (afilhado do regime xiita de Teerã) e também de sua inquietação com o Estado Islâmico. Isto, porém, não serve de consolo. O foco saudita é sua competição com o Irã xiita e o regime apoia outros grupos jihadistas.

Em um dos seus primorosos textos no Financial Times, David Gardner também escreveu que os “sauditas perderam o direito à liderança dos sunitas”. A espinha dorsal ideológica do reino saudita é o wahabismo, uma interpretação fundamentalista e puritana do islamismo sunita. Os sauditas exportam petróleo e também esta doutrina com a construção de mesquitas e de escolas religiosas em todas as partes.

Nunca podemos esquecer que os sauditas também foram convocados pelos americanos para colaborar no enxotamento dos soviéticos do Afeganistão há pouco mais de 30 anos. Rebeldes foram treinados e usaram o know-how para fortalecer a rede Al Qaeda (mais tarde, os sauditas reconheceram o Taleban). Dos 19 terroristas no 11 de setembro, 15 eram sauditas.

O reino saudita abomina o Estado Islâmico, assim como o islamismo político da Irmandade Muçulmana (Riad apoiou o golpe militar que derrubou o governo de Mohamed Mursi no Egito). No entanto, na expressão de Gardner, o Estado Islâmico é o “wahabismo com anabolizantes”. Os decapitadores de cabeça consideram a Casa de Saud (o regime que manda em Riad) um desvio teológico. Mas, estes jihadistas são herdeiros do zelo wahabista, que esmagou a diversidade religiosa na península arábica no século 20. Na Arábia Saudita, não existem igrejas (nem sinagogas, é claro) e a autorização para a construção de mesquitas xiitas é coisa rara.

A ofensiva wahabista teve um novo alento com a revolução xiita no Irã em 1979 e desde então os sauditas patrocinam seus próprios grupos jihadistas e no jogo geopolítico combatem os movimentos patrocinados por Teerã. Quem é pior? Parece aquele debate estéril sobre Hitler e Stálin na competição sobre o mal supremo. A posição saudita como maior exportador mundial de petróleo, o status do país como aliado preferencial dos EUA desde os tempos de Franklin Roosevelt e o fato de ser contrapeso ao Irã geraram complacência ou resignação com o reino de Riad no Ocidente. Até os judeus “infiéis” de Israel têm uma aliança de conveniência com os sauditas devido a inimigos comuns como o Irã.

O cenario é simplesmente desolador. De fato, um país como a Arábia Saudita não tem crediblidade para estar na linha de frente do combate ao extremismo islâmico. O absolutismo wahabista, como escreve David Gardner, faz parte do código genético de grupos como o Estado Islâmico. Eu confesso não ter resposta, além de expressar meu desencanto e conformismo com a necessidade de aliança ocidental com um regime abjeto como o saudita.

Renegar os sauditas teria um resultado meramente desestabilizador em uma região do mundo convulsionada. Não se trata apenas da importância do seu petróleo (embora haja um pouco menos de dependência), mas do seu peso geopolítico. O preço a pagar por atribuir um papel respeitável aos sauditas na luta contra a barbárie islâmica é a desmoralização da causa, uma menor chance de êxito e a constatação de que a realpolitik fede. No meu ensaio de criatividade à la Kissinger, é a doutrina da lata do lixo.

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Um pouco fora do contexto, mas colher de chá para George 84 pela ideia de lançar o bordão “publicado com fins caducacionais”, que será usado de forma vigorosa na coluna. Dia de bons debates na coluna. Confiro outra colher de chá para Marcelo Henrique Gonçalves, General Failure e Helio. 

13/09/2014

às 20:12 \ Blinder & Blainder, Joice Hasselmann, TVEJA

Mr. Blinder no TVEJA

Gente simpática

Gente simpática

Dias atrás, eu estive em São Paulo e como parte da maratona passei na redação de VEJA.com, onde conversei com Joice Hasselmann no TVEJA sobre política externa brasileira e seus descaminhos nos governos Lula/Dilma. O CEO do Instituto Blinder & Blainder desgovernou um pouco na etiqueta (sem a tradicional gravata com a qual comparece no Manhattan Connection) e por escorregar durante a conversa no “sabe” e no “né”. No entanto, vocês sabem que o coloquial traz o risco destes ranços de linguagem, né? Muito mais grave é desgovernar em política externa, tema, aliás, ausente na corrida eleitoral.

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Já apareceram os primeiros comentários dominicais inspirados e ácidos sobre a entrevista (aliás, no meu Twitter, há um pequeno ataque dos Mavs. Coisas da vida). No entanto, a colher de chá é da Joice Hasselmann.

13/09/2014

às 6:00 \ Barbárie, EUA, Irã, Iraque, Israel, Obama, Siraque

O Estado Islâmico no Siraque e o estado islâmico iraniano

O "Toyota Army" do Estado Islâmico

O “Toyota Army” do Estado Islâmico

Avi Issacharoff, do site The Times of Israel, não perdoa Barack Obama. Ele lembra que há pouco mais de duas semanas o presidente americano não tinha uma estratégia para lidar com os jihadistas ensandecidos do Estado Islâmico. Agora combater o grupo é sua prioridade. Obama finalmente encontrou um  inimigo: terroristas que barbarizam o Siraque, circulando nas suas camionetes, o “Toyota Army”, e, com frequência, crucificando e decapitando suas vítimas, como agora fizeram com o britânico David Haines.

Sem dúvida, é o espetáculo da barbárie. No entanto, Avi Issacharoff pergunta: como este “Toyota Army” pode representar um perigo maior no Oriente Médio do que o Irã das centrífugas e do urânio enriquecido, o país a caminho da bomba atômica e que opera células terroristas em todas as partes do globo, inclusive no quintal do Brasil?

David Sanger, o influente repórter global do New York Times alinha melhor o cenário de prioridades equivocadas do governo Obama. Ele lembra que até agora a prioridade número dos EUA no Oriente Médio era impedir o Irã de obter armas nucleares. Israel adverte que o foco no Estado Islâmico é uma distração desta prioridade. O regime xiita de Teerã pode achar que está no mesmo lado dos EUA neste combate ao terror sunita. Afinal, até agora Bashar Assad, o ditador sírio, protegido, financiado e armado pelos aiatolás, é o dirigente árabe que expressou mais entusiasmo com os planos de Obama de bombardear os terroristas do Estado Islâmico dentro do seu próprio país.

Autoridades israelenses advertem que o Estado Islâmico é um problema gravíssimo para os próximos cinco anos, enquanto o Irã é pesadelo para os próximos 50. O foco americano no terror sunita pode reforçar as ambições iranianas por domínio regional. Esta aí a história: quando o governo Bush há 11 anos decidiu alvejar o Iraque de Saddam Hussein se distraiu de muitas coisas, como a guerra do Afeganistão. Enquanto os americanos se exauriam em duas guerras, o Irã aproveitou para expandir a produção de combustível nuclear. A queda do sunita Saddam Hussein foi um ganho estratégico para os aiatolás de Teerã.

No discurso da última quarta-feira sobre a estratégia para combater o Estado Islâmico, Obama não mencionou o Irã. No entanto, seus assessores insistem que é possivel manter a guarda em várias frentes e argumentam que os EUA não planejam atuar como força aérea de Assad ou do Irã. Contudo, os iranianos estão testando os imperativos americanos. Eles esperam ter mais margem de manobra nas negociações nucleares multilaterais, acenando com acordos energéticos e comerciais com a Rússia para rachar a coalizão de seis países que travam as negociações com Teerã,

David Sanger lembra que os iranianos têm desrespeitado prazos para entregar material de suspeitas dimensões militares e deixam claro que não farão concessões no essencial até o prazo de 24 de novembro nas negociações: a habilidade para enriquecer urânio. A expectativa iraniana talvez seja arrancar mais compromissos ocidentais nas negociações nucleares.

Obama se diz empenhado em combater o terror do Estado Isâmico, mas não podemos esquecer que já existe um estado islâmico constituído e perigoso na regiao: o Irã dominado pela teocracia xiita do aiatolá Khamenei.

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Colher de chá para Patrick, pelo contraponto (dia 14, 11:09).

12/09/2014

às 6:00 \ George H. W. Bush, Obama

Um ar de Bush (o pai)

Tapete vermelho para um velho e realista guerreiro

Tapete vermelho para um velho e realista guerreiro

O Obama do discurso de quarta-feira da estratégia do combate ao grupo terrorista Estado Islâmico não é mais o velho Obama que subiu na vida pontificando contra “guerras estúpidas”. Ele desceu para a realidade e como predecessores “vai estender o legado da guerra”, na expressão do New York Times. No discurso, o presidente manteve distância do caubói George W. Bush, mas ele tinha o tom, a retórica e a estratégia Bush, do Bush pai.

Marc Bassets, do jornal espanhol El País, traça um bom paralelo entre o empenho do democrata Obama para forjar uma coalizão internacional em 2014 contra o terror com o paciente trabalho do ex-presidente republicano George H.W. Bush contra Saddam Hussein em 1991, na primeira guerra do Golfo Pérsico. Bom lance de Obama. Afinal, como regressar ao Oriente Médio sem parecer George W. Bush? Inspirando-se no pai dele, que governou apenas entre 1989 e 1993, pois teve negado um segundo mandato ao ser derrotado pelo democrata Bill Clinton.

Como lembra Bassets, Bush pai costurou uma das maiores coalizões da história para enxotar Saddam Hussein do Kuwait. No entanto, ele deixou o ditador iraquiano escapar vivo. Saddam apenas encontrou a morte depois da invasão americana do Iraque, desfechada pelo filho. George W. exerceu o poder de forma mais impaciente e menos cerebral do que o pai. Ele  dividia o mundo entre amigos e inimigos e vislumbrava os EUA como capazes de mudar o eixo da história do Oriente Médio. Bush pai foi cauteloso até no processo de desmanche do comunismo soviético no final da Guerra Fria.

Bush filho era impulsionado por neoconservadores que esposavam o idealismo da política externa americana, com o uso de força para promover a democracia e os direitos humanos. Já o pai cauteloso era avesso ao aventureirismo e adepto da escola do realismo, a Realpolitik. O papel americano era zelar por seus interesses e participar de um jogo de equilíbrio de poderes. Obama fala em equilíbrio estratégico no Oriente Médio e cogita até de trazer o Irã dos aiatolás para o cenário desde que regulem o seu programa nuclear.

Bush pai não era avesso à guerra (e para ele não se tratava de algo abstrato, pois combateu na Segunda Guerra Mundial). A mesma coisa com Obama (sem experiência militar), que nunca deve ser confundido com um pacifista. Bush pai, no entanto, sempre foi mais internacionalista do que Obama, que teve a ilusão de que poderia colocar as coisas na mochila e voltar para casa, com o projeto de fazer reformas domésticas.

Nada garante que a armação de Obama funcione agora. As coisas hoje são mais incertas do que nos tempos em que Bush pai armou a sua coalizão, com o objetivo limitado de punir Saddam por sua invasão do Kuwait. O inimigo terrorista hoje em dia é mais difuso e há ambiguidades na postura dos aliados árabes que começam a cerrar fileiras. Os sauditas, por exemplo, parecem mais empenhados em enxotar o ditador Bashar Assad do poder do que, por exemplo, enviar tropas para a Síria para derrotar o Estado Islâmico. Em comum, Bush pai e Obama prezam a aliança com os sauditas.

No entanto, como observa Bassetts, a sombra de Bush filho persegue Obama. O terror islâmico agora é assumidamente seu grande inimigo  como foi no caso do seu antecessor. O presidente atual nunca escondeu sua admiração pelo estilo cerebral e realista de Bush pai. E agora existe a conveniência política de regressar ao Oriente Médio, recorrendo ao seu estilo e evocando as suas ideias. Quem diria, um filho político. E, é claro, se tudo der errado, sempre haverá um Bush para ser culpado.

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Colher de chá para J.R. Monteiro por seu ângulo saudita (dia 12,15:04).

11/09/2014

às 6:48 \ Barbárie, EUA, Obama, Oriente Médio

O homem que lidera de trás de frente para o mundo

Um bom discurso, mas só o começo

Um bom discurso, mas só o começo

Três horas antes do décimo-terceiro aniversário dos atentados do 11 de setembro, em que os EUA foram atacados pelo jihadismo ensandecido da rede Al-Qaeda, o presidente Barack Obama fez discurso solene na quarta-feira à noite sobre seus planos para enfraquecer e, por fim, destruir o Estado Islâmico, outra onda de jihadistas ensandecidos que com seus métodos fazem a rede Al-Qaeda parece um grupo de escoteiros. Foi um bom discurso para um presidente que há duas semanas confessou que ainda não tinha uma estratégia para lidar com o Estado Islâmico.

Na quarta-feira, de frente aos americanos e ao mundo estava Obama, o presidente que lidera de trás. Pelo menos era assim que ele gostaria de ser. Mas, não, ele não pode, (no, he can’t!). Era a ilusão do desengajamento, apesar da exaustão das guerras do Afeganistão e do Iraque, que resultaram dos atentados do 11 de setembro.

No caso do Iraque, foi fruto de uma má leitura, uma leitura fajuta do governo Bush, uma leitura ignorante de que as coisas poderiam ser mudadas a toque de caixa no Oriente Médio e a mudança foi para pior com o fortalecimento do Irã dos aiatolás e da mutação do terror sunita para algo ainda mais horrendo na forma do Estado Islâmico, que migrou do Iraque para a Síria e agora criou o monstrengo chamado Siraque.

Na sua excessiva cautela, Obama se revelava até agora um mau leitor das oscilações do estado de espírito dos americanos. Ele é um mau líder. Na frase de Robert Kagan, Obama entregou aos americanos a política externa que eles queriam e os americanos não gostaram. O Estado Islâmico, ironicamente, se mostra um melhor leitor do espírito americano.

Os artíficies da barbárie entregaram as cabeças decapitadas de dois jornalistas americanos e liberaram os americanos do seu torpor, de sua mentalidade de avestruz. As bestas do Estado Islâmico, como a rede Al Qaeda, querem atrair os americanos e demais ocidentais para o seu terreno. Deliram com a ideia do seu califado combatendo os cruzados infiéis (e eventualmente cometendo algumas barbáries no terreno dos inféis, Europa e EUA).

Tropas americanas no Iraque em 2007

Tropas americanas no Iraque em 2007

O jogo é selvagem e ardiloso. Obama, depois do seu torpor, promete uma reação mais esperta do que a de Bush, nada de estilo da guerra iraquiana. Nada de tropas de combate, com a promessa de arregimentar aliados árabes para o trabalho pesado. E sem ilusões. Alguém vai precisar despachar tropas e forças especiais americanas serão cada vez mais necessárias no solo, tanto no Iraque, como na Síria, teatro de operacões e de barbárie do Estado Islâmico. Não será fácil obviamente diante das rivalidades entre estes aliados e a desconfiança dos americanos no Oriente Médio. No trabalho pesado, para valer, os americanos parecem por ora contar com os tradicionais aliados curdos.

Existem reclamações sobre o papel diminuto dos EUA na região e um clamor por liderança. No entanto, os americanos sempre perdem. Frustram quando mandam a cavalaria (ou os aviões não tripulados) e frustram quando vacilam. Na avaliação de uma boa antena no mundo árabe, o libanês Rami Khouri, a combinação de militarismo ocidental (mesmo quando cauteloso) e ações de regimes autocráticos pró-Ocidente alimenta o terror.

No entanto, Rami Khouri antecipa as coisas. Obama, o homem que lidera de trás, chega atrasado e atrapalhado. Há um ano, ele quase lançou ações militares contra a ditadura de Bashar Assad por seu uso de armas químicas contra civis na guerra civil síria. A barbárie de Assad não comoveu a opinião pública americana e o Congresso disfuncional. Agora sim. Existe comoção com a decapitação de dois jornalistas americanos pelos jihadistas.

No entanto, o jogo é selvagem e ardiloso. Não dá para atacar o Estado Islâmico na Síria e, ao mesmo tempo, dar colher de chá para Assad. Eventualmente serão realizados bombardeios aéreos contra o Estado Islâmico na Síria. Mas, para o meu alívio, no discurso de quarta-feira, o presidente se distanciou do carniceiro Assad, que, como o Estado Islâmico, aterroriza a população civil. Obama quer agora, com três anos de atraso, ajudar o que sobrou de rebeldes de confiança na guerra civil síria.

Na fria avaliação de Richard Haass, do Council on Foreign Relations, este é o calcanhar de Aquiles da estratégia. Como contar com estes rebeldes de confiança a esta altura do campeonato?  Ao mesmo tempo, ele espera que aliados como Arábia Saudita e Turquia deixem de ajudar os jihadistas de sua preferência que não são afinados com o Estado Islâmico. Sintomático que horas antes do discurso solene, Obama tenha telefonado para o rei Abdullah, da Arábia Saudita, país campeão do fundamentalismo islâmico. E em uma base saudita, “rebeldes” sírios moderados serão treinados. Doutrina da quadratura do círculo.

É muita sutileza para a cabeça dos eleitores americanos (e provavelmente para muitos dos meus leitores). Os americanos querem providências contra os decapitadores. A contragosto, Obama é arrastado para uma encrenca sem fim. Ele achou que teria a ganhar caindo fora dos atoleiros do Oriente Médio. E, de fato, Obama ganhou duas eleições, entre outras coisas, com a promessa de desengajamento do Iraque e Afeganistão.

O jogo, porém, mudou e 2/3 dos americanos desaprovam a política externa de Obama. Por uma pesquisa Wall Street Journal/NBC News, 58% dos eleitores confiam mais nos republicanos para lidar com os desafios de segurança nacional e defesa. Apenas 16% nos democratas. No entanto, este novo ardor ativista dos impacientes americanos pode se evaporar rapidamente caso a expansão das ações de Obama no Oriente Médio não apresente resultados relativamente rápidos ou as coisas derrapem (algo que costuma acontecer rapidamente na região).

Aleppo, um dos maiores cenários de destruição na Síria

Aleppo, 2013, um dos maiores cenários de destruição na Síria

Neste cenário político e com um vácuo de liderança no Oriente Médio (na hora do maior sufoco, há o clamor pelos americanos), não dá mais para Obama liderar de trás. Tampouco adianta choramingar. Meu guru Jeffrey Goldberg, fã de Obama, observa que caos e colapso no Oriente Médio não podem ser somente ou até mesmo em muitas situações em grande parte atribuídos às estratégias, aos discursos e às ideias mal concebidas ou equivocadas de presidentes americanos. No entanto, existe o fardo de superpotência e Obama neste final de mandato vai precisar carregá-lo.

E Goldberg tem mais uma observação: a presidência de Obama será julgada um fracasso no âmbito de segurança nacional se a Al-Qaeda, o Estado Islâmico e outros grupos jihadistas ainda forem capazes de manterem santuários no Oriente Médio e adjacências quando ele deixar a Casa Branca em janeiro de 2017 e tambem se o Irã continuar rumo ao limiar para fabricar a bomba atômica.

No  caso específico desta expansão do combate ao terror islâmico no Siraque (Siria + Iraque), o desafio é ir adiante sem dar oxigênio a aliados dos iranianos como a ditadura de Bashar Assad e esquemas xiitas no Iraque. De trás ou de frente, a missão de Barack Obama é penosa.

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Hoje é 11 de setembro. Colher de chá para as vítimas dos atentados de 13 anos atrás.

 

11/09/2014

às 6:05 \ Civilização

Onze de setembro (V)

As torres antes daquele dia – Foto Peter J. Eckel/ AP

 

Há exatamente quatro anos, 11 de setembro de 2010, eu inaugurei meu trabalho em VEJA.com. Data solene e triste, mas estou muito feliz com esta oportunidade. O tema da primeira coluna, obviamente, foi aquele 11 de setembro. A data foi sugestão de Eurípedes Alcântara, diretor de redação de VEJA (sim, chefe pode ter ótimas ideias). Quero ficar muitos anos neste emprego. E o ritual será republicar, a cada 11 de setembro, a coluna de inauguração. Leia ou releia.

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Eu fui atacado em 11 de setembro de 2001 pelos homicidas de Osama Bin Laden. E você também. Além de derrubar aquelas torres horrendas do World Trade Center, em Manhattan, e matar muita gente, a ideia era destruir uma babel de conceitos como tolerância, diversidade, dinamismo econômico, vulgaridade, promiscuidade e balbúrdia. Em suma, a nossa civilização, com seus altos e baixos.

No caso específico dos EUA, o cálculo estratégico de Bin Laden era testar a determinação do país, sua autoconfiança e coesão. O tranco foi da pesada, mas os pilares estão aí. Sete anos depois dos atentados praticados em nome da restauração de um califado, os americanos elegeram presidente um tal de Barack Hussein Obama. Hoje, a maioria dos americanos está desiludida com o seu presidente. Alguns incautos, é verdade, por causa do seu nome do meio.

Sim, a civilização tem seus idiotas. Não é que uma pesquisa revelou que 18% dos americanos acreditam que Obama seja muçulmano? País de direitistas ignorantes e conspiratórios. E não é que 1/3 dos democratas acreditavam, em pesquisa em 2007, que o maligno George W. Bush sabia de antemão dos atentados do 11 de setembro? País de esquerdistas ignorantes e conspiratórios. Juntando todas as pesquisas com resultados bizarros, a gente chega lá: a maioria dos americanos é idiota, mas a civilização aguenta o tranco.

Há duas semanas, a revista Time, publicada no país de Barack Hussein Obama e próspero em histerismos instantâneos, perguntou soturnamente na capa: “Is America Islamophobic?” Um influente idiota de direita, o radialista Rush Limbaugh, com humor chulo, respondeu que não pode haver islamofobia num país com um presidente muçulmano. Liberais estão histéricos com a resistência (que une idiotas e outros nem tanto) ao projeto de um centro islâmico (megamesquita, no histerismo da outra banda), a duas quadras do Ground Zero, o local onde estavam as torres destruídas em 11 de setembro de 2001.

Não compartilho nenhum dos histerismos. Meu histerismo é motivado por islamofascismo e não islamofobia. Queria ver na mídia americana mais destaque para a suposta adúltera iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, com a sentença de apedrejamento apenas suspensa. Queria ver mais muçulmanos marcharem por Sakineh e não apenas para protestar contra o pastor americano Terry Jones, que acha religiosamente correto queimar o Corão e ganhou um picadeiro da mídia (nós) para sua palhaçada incendiária, que, felizmente, não foi consumada.

É chato, no “grand opening” desta coluna, citar outros colunistas. Mas o Thomas Friedman, do The New York Times tem razão. A controvérsia sobre a tal mesquita no Ground Zero é um sideshow. A questão-chave não é se as diferentes seitas muçulmanas podem viver harmonicamente com os americanos, mas se elas podem conviver entre elas. Houve ultraje nas bandas islâmicas com este pastor fundamentalista da Flórida, mas muçulmanos explodem mesquitas no Oriente Médio e, de fato, algumas páginas do Corão (e de livros sagrados de outras religiões) deveriam ser simbolicamente queimadas devido à sua brutalidade. Quem pratica islamofobia (e homofobia e “mulherfobia”) é o regime iraniano de Mahmoud Ahmadinejad e do aiatolá Khamenei.

A nossa civilização em terras norte-americanas trata seus muçulmanos com altos e baixos (muito mais altos). Existem espamos nativistas, arroubos de ignorância e alguns lances de violência. Mas os nipo-americanos sofreram mais depois do ataque a Pearl Harbor e sucessivas levas raciais, étnicas e religiosas levaram suas pancadas, foram submetidas a linchamentos e tiveram portas fechadas até as coisas se acomodarem no melting pot.

O imã Rauf, deste projeto islâmico no Ground Zero, parece que sabe como as coisas derretem neste país. Por esta razão, ele deveria ter tido um pouco mais de jogo de cintura, deveria ter sido menos ambíguo nas suas digressões sobre o Hamas (finalmente disse à rede CNN que o grupo pratica terrorismo) e parasse de falar bobagem que os EUA foram cúmplices dos atentados do 11 de setembro porque inventaram Osama bin Laden. Este megaterrorista é obra saudita. E vamos rezar (e apurar) para que os fundos deste projeto não venham destes bilionários sauditas que investem tanto em bancos ocidentais e na rede Fox, como em madrassas fundamentalistas.

John Locke

O imã mexeu com as sensibilidades de vítimas dos atentados, mas não fez provocação ou se meteu a triunfalista com seu projeto. As vítimas merecem irrestrita solidariedade e conforto. Mas, a quantas quadras do Ground Zero seria apropriado construir o centro islâmico? O imã não deveria ter ido onde foi. No entanto, já foi e ele e nós precisamos tolerar as consequências. Este negócio de direito constitucional é coisa séria. Isto aqui não é banana republic. Basta ver que 2/3 dos americanos são contra o projeto, mas em geral eles estão dispostos a tolerá-lo. Está aí a lição do pai do liberalismo, John Locke. O que ele chamava de “toleration” não é o mesmo que aprovação. Nós, aqui na civilização, toleramos (aturamos) coisas que consideramos nada aceitáveis. Nao se trata de ser bonzinho. Há circunstâncias em que não temos condições de suprimir o que não toleramos ou a supressão vai resultar em um mal ainda maior.

O acordo religioso e político nos EUA teve alguns momentos negros (sic) como a guerra civil e aparecem pastores malucos como este Terry Jones ou sicofantas como Pat Robertson, mas funciona. O acordo vai incorporar os muçulmanos (aliás o processo aqui é bem mais suave do que na Europa) desde que eles aceitem as regras do jogo. E, voltando a Locke, significa acatar a separação Estado-Igreja (ou Mesquita).

O historiador Bernard Lewis escreveu que uma forma de moderação foi uma parte central do islamismo desde o começo. Os muçulmanos não eram comandados a amar os seus vizinhos, mas a aceitar a diversidade. Basta ver que o princípio criou um nível de tolerância entre os muçulmanos e coexistência entre muçulmanos e os outros que era desconhecida na Cristandade até o triunfo do secularismo. No entanto, no período moderno, uma versão mais radical e violenta do islamismo ganhou força. E grupos como Al Qaeda e o Taliban, que eram menores e marginais, ganharam uma posição mais poderosa e até dominante.

E hoje em dia, por circunstâncias complexas, mesmo em capitais da civilização ocidental, existem partidários destes princípios. Por isto mesmo, no nosso liberalismo, precisamos evitar a condescendência e manter a vigilância sobre algumas mesquitas (e também sobre algumas congregações alopradas, como a deste pastor da Flórida). Contra o fundamentalismo religioso não dá para marcar passo com um fundamentalismo liberal. Não somos todos idiotas na nossa civilização. Precisamos manter as outras torres de pé.

 

10/09/2014

às 6:00 \ EUA, Obama, Oriente Médio, Siraque

A morte dos velhos sonhos e a nova realidade de Obama

Na segunda posse em 2013, Obama anunciou o fim de uma década de guerras americanas

Na segunda posse em 2013, Obama anunciou o fim de uma década de guerras americanas

Em seu segundo discurso de posse presidencial, em 21 de janeiro de 2013, Barack Obama pontificou: “Uma década de guerra está terminando”. A promessa de Obama era a retirada americana do Iraque e do Afeganistão. Na verdade, uma retirada dos atoleiros externos. Na sequência daquele discurso de segunda posse, o presidente listou seus planos e aspirações, centradas em um projeto de ativismo governamental. Na lista, estavam o combate à desigualdade de renda, reformas tributária, educacional e na imigração;  e ênfase em mudanças climáticas.

O imprescindível (para mim) Gerald Seib, do Wall Street Journal, mostra como esta agenda doméstica está à deriva, enquanto Obama está sendo sugado pelos atoleiros do Oriente Médio e de outras crises internacionais (para quem puder acessar, aqui está o texto de Gerald Seib). Nada mais irônico que o presidente tenha escolhido esta quarta-feira, véspera do décimo-terceiro aniversário dos atentados do 11 de setembro para tentar vender ao país e ao mundo, em noturno pronunciamento solene, seus planos para lidar com o terror do grupo Estado Islâmico. Afinal foram aqueles atentados em 2001 que impeliram os EUA para as guerras que o presidente decidiu remover da agenda americana. No seu segundo mandato, Obama queria cuidar das questões domésticas.

Como lembra Seib, Obama é apenas mais um presidente forçado a constatar que não pode se dar ao luxo de escolher o tipo de presidência que gostaria de conduzir. O presidente tem poderes, mas não o controle das marés da história. Acaba respondendo às ondas e Obama foi especialmente acusado de comportamento passivo ou vacilante ou excessivamente cauteloso quando a maré surgiu, em especial no Oriente Médio.

Imagine! Há duas semanas, o presidente disse que “ainda não tinha uma estratégia” para cuidar do Estado Islâmico”. Ela acaba de ser arranjada quando pesquisas de opinião pública mostram os americanos com um pouco mais de apetite, em comparação há meses atrás, para ativismo dos EUA no exterior, especialmente na questão do terror islâmico. No entanto, persiste a aversão ao envio de tropas ao Oriente Médio.

No primeiro mandato, Obama foi consumido por crises que ele não gerara, como o colapso financeiro de 2008 e as invasões do Afeganistão e Iraque. Precisava lidar com estes desafios e sua marca registrada doméstica foi a reforma de saúde. Ironicamente, seu governo foi consumido por esta controvertida reforma, que ficou conhecida como Obamacare, cujo resultado foi a perda da maioria democrata na Câmara dos Deputados nas eleições de 2010.

Franklin Roosevelt estava destinado a ser associado basicamente ao novo contrato social e econômico, o New Deal, mas com o monstro fascista ele se tornou no presidente da guerra. Lyndon Johnson estava a caminho para ser o presidente das grandes reformas sociais, Great Society, mas foi devorado pela guerra do Vietnã. O provinciano George W. Bush assumiu com a ambição de ser o campeão de um conservadorismo da compaixão e sua presidência foi forjada pelos atentados do 11 de setembro e por guerras.

Na linha de pensamento de Gerald Seib, no discurso desta quarta-feira, o presidente Barack Obama estará em linhas gerais reconhecendo a morte do seu sonho e muito de sua agenda. O pronunciamento vai sublinhar aos americanos e ao mundo como as prioridades da ainda única superpotência do planeta estão mudando. O foco do discurso não será a expansão da agenda doméstica, mas da expansão do combate ao terror islâmico no recém-inventado Siraque (Síria + Iraque).

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Colher de chá para o ativismo esta semana de Thiago Augusto. 

 

 

 

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