Blogs e Colunistas

21/04/2015

às 6:00 \ África do Sul

O que diria e o que faria Mandela?

O sonho da nação arco-íris está mais distante

O sonho da nação arco-íris está mais distante

O mundo acompanha o drama humanitário e os dilemas europeus sobre acolher e/ou conter migrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo da África do Norte para a Europa. São desastres constantes nas embarcações com seus passageiros, nas transações encetadas por traficantes do desespero e da esperança. No último fim-de-semana foi o naufrágio de um barco pesqueiro na costa líbia que deixou centenas de mortos. No entanto, outra drama humanitário se desenrola no sul da África, com a violência e a xenofobia dos últimos dias justamente na nação arco-íris que Nelson Mandela se propôs a construir no lugar do apartheid há pouco mais de 20 anos.

Este tipo de violência não é novidade no país e em 2008 foi pior com mais de 60 mortos na hostilidade dirigida contra imigrantes de outros países africanos e do subcontinente indiano. Mesmo nos estertores da mobilização contra o regime de minoria branca no começo dos anos 90 houve uma impressionante onda de conflitos tribais, centralizados nos zulus, o maior grupo étnico da África do Sul, que vivem basicamente na província de Kwazulu-Natal.

Na segunda-feira, o rei zulu que tem o implausível nome de Goodwill (Boa Vontade) Zwetlithini fez um apelo por calma. Trata-se do mesmo rei que em março disse que os imigrantes estrangeiros deveriam fazer as malas e abandonar a Africa do Sul. Desta vez, falando para milhares de pessoas em um estádio em Durban, ele alegou que a imprensa distorcera suas palavras.

No entanto, não dá para ter muita boa vontade com o rei. Ele insuflou os ataques recentes, que deixaram pelo menos sete mortos, quase todos em Durban, mais de 300 presos e um cenário de destruição motivada por vandalismo. Com medo de serem atacados, milhares de estrangeiros deixaram o país nas últimas semanas. Entre eles, muitos donos de pequenos negócios que observaram que a África do Sul ainda é um bom lugar para ganhar a vida, mas não para viver.

A mais recente onda de violência mistura xenofobia e mera criminalidade em um país em crescente crise econômica, taxa de desemprego de 24%, chefiado pelo desacreditado presidente Jacob Zuma e marcado pela percepção, especialmente em comunidades pobres, de que estrangeiros estão roubando os empregos. No entanto, o catalisador da violência (xenofobia)) se diluiu em meio à escalada, pois muitos dos mortos e donos de negócios saqueados eram sul-africanos.

Nelson Mandela nunca teve sucessores à altura e sempre se soube que seria uma tarefa descomunal construir uma nação arco-íris. O desafio se tornou mais ingrato e o arco-íris está ainda mais distante no horizonte.

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Colher de chá para José Luiz Capatano (dia 21, 9:26).

 

Z

20/04/2015

às 6:00 \ Eleições EUA 2016, Hillary Clinton

O voto com os ovários

Ela merece o voto das mulheres meramente por ser mulher?

Ela merece o voto das mulheres meramente por ser mulher?

 

Kathleen Parker é uma das minhas colunistas conservadoras favoritas nos EUA. Ela representa um agradável contraste a figuras histriônicas e apelativas no seu desespero por atenção como Ann Coulter. A premiada Parker acaba de publicar um texto sobre ela, Hillary Clinton. Já começou a onda da solidariedade sexual automática. Mulher que é mulher deve votar na candidata democrata nas eleições presidenciais americanas de 2016. Mulher que não fizer isso, é traidora.

Ao contrário da desagradável Ann Coulter, Kathelen Parker oferece picardia na dose certa. Diz que, caso a gente assuma que a democrata Hillary seja a melhor opção para o país, “seus ovários importam tanto quanto os testículos” de outros candidatos. Ela lembra que, junto “com meus ovários”, escreveu muitas colunas favoráveis à ex-primeira dama, ex-senadora e ex-candidata derrotada por Barack Obama nas primárias democratas de 2008, inclusive por suas contribuições para a causa global das mulheres.

Sim, Kathleen gostaria de ver uma mulher na Casa Branca e não apenas como primeira-dama, mas observa que ela não votaria em uma, ao invés de alguém com testículos que seja mais qualificado para o cargo, apenas prazer de ver uma mulher pela primeira no comando do país mais poderoso do mundo.

Quem tiver paciência que leia a coluna inteira de Kathleen Parker para entender sua apelação para o uso de expressões como ovários e testículos. Uso no contexto correto. Que contraste com a infelicidade de Carly Fiorina, a executiva do mundo corporativo, que ensaia candidatura pelos republicanos, num batalhão que tenha talvez até uns 20 pretendentes com testículos (sendo ela a única com ovários). Num evento para a base republicana no estado de Nova Hampshire, no fim-de-semana, este batalhão de pretendentes praticou tiro ao alvo Hillary,  esporte fácil.

Como mulher, Carly Fiorina achou que tinha prerrogativa para o mau gosto quando houve alusão a um programa de TV que debateu se mulheres tinham capacidade hormonal para servirem como presidente. Carly Fiorina ressuscitou o escândalo da estagiária Monica Lewinsky, que teve um caso nos anos 90 com Bill Clinton, lembrando que a Casa Branca já teve no comando um homem cuja capacidade decisória foi atrapalhada pelo hormônios, num ataque sarcástico pueril contra Hillary Clinton.

Apelação republicana por aí na campanha presidencial poderá levar muitas mulheres a votarem com seus ovários em 2016.

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Colher de chá para o jovem (mas veterano na coluna) Ricardo Platero (dia 20, 10:55).

 

 

 

19/04/2015

às 10:54 \ Mediterrâneo, Refugiados

O vasto cemitério no nosso Mare Nostrum

Sobreviventes desembarcam em Palermo

Sobreviventes desembarcam em Palermo

Em termos puramente humanitários, não existe dilema. Com esta novo naufrágio de um barco pesqueiro a 96 quilômetros da costa líbia com mais de 700 refugiados, é preciso intensificar a operação de resgate no Mediterrâneo. O mar conhecido como Mare Nostrum pelos antigos romanos se converteu em um “vasto cemitério”, na expressão do papa Francisco. Se o pior se confirmar, serão cerca de 1.500 refugiados mortos até agora em 2015 no Mediterrâneo, 30 vezes mais do que em igual período em 2014.

O papa e grupos humanitários pedem mais da humanidade e com urgência. Porém, existem os dilemas. No momento, há uma tempestade perfeita no Mediterrâneo. Os pobres passageiros destas embarcações podem ser divididos em migrantes e refugiados, de zonas de guerra e de mazelas sócioeconômicas na África do Norte e Oriente Médio, a destacar Líbia, Sudão, Somália e Síria.

Na tentativa de sair dos seus círculos do inferno, os aventureiros enfrentam uma Europa assolada por seus problemas sócioeconômicos e o vigor de partidos xenófobos, que resistem à acolhida de gente de fora por motivos e em escalas diferentes de estridência. A Itália, que por sua proximidade geográfica da Libia, tem na linha de frente de resistência a Liga Norte.

De um lado, existem clamores pela restauração da defunta Operação Mare Nostrum, coordenada pela Marinha italiana, que salvou milhares de vidas em 2013. Foi substituída no ano passado por uma iniciativa europeia bem mais modesta, a Operação Triton. O desafio maior obviamente não é orçamentário. Existe o argumento maquiavélico de que um maior resgate humanitário irá atrair mais migrantes e mais refugiados.

Em contrapartida, em 1994, quando o governo Clinton nos EUA implantou  uma política de “prevenção através de dissuasão”, esperando que clandestinos seriam convencidos a não arriscar os perigos de cruzar por terra a fronteira com o México. No entanto, em questão de anos, o número de mortos aumentou, pois os migrantes passaram a buscar entrada por locais remotos e mais perigosos, como as áreas mais inclementes e áridas no estado do Arizona.

Burocratas europeus, como presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, falam em “apropriadas estruturas políticas”, como dividir o sacrifício, afinal 50% de todos os refugiados vão para cinco dos 28 países membros da União Europeia. Schulz fala em facilitar a legalização de imigrantes para diminuir o número de ilegais e de mortos na perigosa jornada. No entanto, tente vender este “projeto adequado” para cada pais europeu? E não podemos esquecer o risco de terrorismo. Não sabemos quantos jihadistas dementes estão infiltrados entre os pobres refugiados.

Por gentileza, não há necessidade de lembrar que paz e prosperidade na África do Norte e Oriente Médio irão diminuir o fluxo de migrantes rumo à Europa. Bom debate acadêmico eventualmente por gerações. A tragédia no Mare Nostrum é de toda a humanidade. Os dilemas para resolvê-la são mais específicos e cada vez mais urgentes na primavera/verão no Mediterrâneo, com as condições mais apropriadas para arriscar a travessia.

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Colher de chá para Luís (dia 19, 14;42) e Maria Júlia (dia 19, 14:43).

 

18/04/2015

às 6:00 \ Espanha, Venezuela

Maduro, por qué no te callas?

Um retrato piorado de Chávez

Um retrato piorado de Chávez

Nicolás Maduro agride. Quanto mais a Venezuela afunda, mais o seu presidente sai por aí disparando. O boquirroto busca encrenca fora do país para desviar as atenções do imenso buraco cavado pelo chavismo. O alvo preferencial do falastrão é o império ianque, mas agora ele insulta com fúria o ex-império colonial espanhol.

O editorial abaixo do jornal El País, publicado esta semana, dá o contexto da pantomina encenada pelo homem que desgoverna a Venezuela  Maduro aprendeu com o mentor Hugo Chávez, embora careça do seu carisma e tom picaresco. No entanto, merece o mesmo pito dado pelo ex-rei Juan Carlos. O monarca que renunciou em 2014 prestou dois grandes serviços ao seu país e à humanidade.

O primeiro por ter contribuído para a transição para a democracia da ditadura franquista nos anos 70. E o segundo em uma cúpula ibero-americana em Santiago do Chile em 2007. Hugo Chávez insultava a Espanha de forma ecumênica, interrompendo o discurso do então primeiro-ministro socialista José Luiz Zapatero para ofender o antecessor conservador José María Aznar. Juan Carlos não aguentou e proferiu a frase antológica: “Por qué no te callas?”.

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El País

A aproximação entre Washington e Havana, que aconteceu na Cúpula das Américas, deixou completamente deslocado o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, cujo discurso populista precisa de um inimigo externo que justifique e oculte os problemas internos. Por isso, a grave crise diplomática aberta entre Venezuela e Espanha, com grande carga agressiva por parte do regime chavista, apresenta importantes diferenças em relação a situações anteriores.

Ao contrário do que sustenta o mandatário venezuelano, o Parlamento espanhol não aprovou nenhuma resolução contra seu país. O que fez foi se unir ao coro de reputadas vozes internacionais que pedem a libertação dos presos políticos na Venezuela, indispensável para sair da profunda crise em que se encontra. O Parlamento não se imiscuiu na soberania venezuelana.

Maduro reagiu em duas frentes: por um lado, o insulto pessoal contra o chefe de Governo espanhol, Mariano Rajoy, assim como contra a instituição do Congresso, inaceitável em um marco internacional civilizado, e a ameaça de castigar os interesses espanhóis na Venezuela sob o eufemismo de “revisar exaustivamente” as relações com a Espanha. Além disso, o ex-chefe de governo Felipe González foi difamado pelo presidente do Parlamento venezuelano, Diosdado Cabello. Desde modo, Rajoy, González e o Parlamento espanhol ocuparam neste momento o posto de Bush, Obama e o Congresso dos EUA na retórica oficialista bolivariana.

A linguagem de Maduro não é nova. Seguindo o caminho de Hugo Chávez, as expressões “racista” e “conspirador”, entre outras, abundam em ataques. O que mudou é que – ao contrário do que acontecia há poucas semanas – não aplica mais essa linguagem contra os EUA. A reação espanhola se ajustou ao manual das relações diplomáticas. O protesto verbal feito ao embaixador venezuelano em Madri não é uma resposta com o objetivo de aumentar a tensão. Ao contrário. As relações com a Venezuela são importantes, mas isso não quer dizer ignorar que importantes líderes opositores venezuelanos estejam presos de forma arbitrária. Como afirmou muitas vezes o jornalista Teodoro Petkoff – que ganhou ontem o Prêmio Ortega y Gasset – são presos “sem sentido e sem justificativa”. E o Congresso espanhol acertou ao denunciar isso.

Colher de chá para Victor M Costa, que não se cala com suas boas tiradas.

 

 

 

17/04/2015

às 6:00 \ Genocídio

“Celebração” de genocídios

O fruto da utopia no Camboja

O fruto da utopia no Camboja

No domingo passado, o papa Francisco foi certeiro ao fulminar a Turquia por negar o inegável: a morte de 1.5 milhão de cristãos armênios na Primeira Guerra Mundial ainda no Império Otomano “não foi apenas qualquer genocídio, mas o primeiro genocídio do século 20″. Até sexta-feira que vem, eu falo mais do genocídio armênio (a data redonda da “celebração” do centenário é 24 de abril). Esta semana ainda é de data redonda de outra “celebração”: os 40 anos dos campos da morte do Khmer Vermelho no Camboja.

As palavras do papa demonstram o fracasso sistemático do mundo para impedir genocídios desde o que ocorreu há um século. Há quarenta anos, os soldados do Khmer Rouge, um movimento comunista para lá de radical, ocuparam a capital Phom Penh e forçaram dois milhões de moradores a se deslocarem para o campo para criar uma utopia agrária.

No mundo real, os EUA tinham fracassado no projeto de patrocinar governos corruptos pró-ocidentais no sudeste asiático e caíram fora do Vietnã e Camboja, que caíram nas mãos de regimes comunistas. O que veio depois foi além da imaginação. No Camboja, entre abril de 1975 e janeiro de 1979, dois milhões de habitantes – mais de 1/4 da população – morreram de fome, executados ou trabalhando nas fazendas que ficaram conhecidas como “campos da morte”.

Como observa Michael Abramovitz, do Programa de Prevenção de Genocídio, do Museu do Holocausto em Washington, o genocídio em Camboja aconteceu diante dos olhos do mundo, como o de Ruanda em 1994. Nada de um clamor indignado do Congresso americano ou das Nações Unidas. O horror que tinha lugar não ameaçava os interesses de segurança dos EUA. No final dos anos 70, o foco de Washington era normalizar as relações com o regime comunista de Pequim, o grande patrocinador do Khmer Vermelho, e não havia interesse em confrontar os chineses.

O massacre acabou devido a um acerto de contas local, com a intervenção do Vietnã em uma guerra contra o Camboja. Os “campos da morte” no Camboja foram fincados apenas três décadas depois do Holocausto e da adoção da Convenção do Genocídio, marcada pelo comprometimento mundial na “prevenção e castigo” do novo crime definido como genocídio. Pela convenção de 1948, “entende-se por genocídio atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Com base nesta convenção e outros instrumentos judiciais, vários julgamentos internacionais foram realizados nas últimas décadas (mais um está em curso no Camboja).

Depois do Camboja, Bósnia, Ruanda e Sudão, agora é a vez de cristãos e de outras minorias (e de maiorias como os sunitas) no Oriente Médios serem vítimas de genocídio praticado por movimentos terroristas como o Estado Islâmico e regimes ditatoriais como o do sírio Bashar Assad. Em agosto de 1941, ao se referir às carnificinas nazistas que começavam a ser conhecidas, Winston Churchill disse que “nós estamos na presença de um crime sem nome”. Hoje, com este tipo de crime ainda em marcha já sabemos o seu nome com todas as letras e números: genocídio.

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Colher de chá para Marcelo Dashoian (dia 17, 10:20).

 

 

16/04/2015

às 6:00 \ Cuba, EUA, Irã

Delinquência & realpolitik (Irã & Cuba)

Protesto anacrônico

Protesto anacrônico

Os regimes que governam o Irã e Cuba são delinquentes e cometem gravíssimas violações dos direitos humanos, mas o prontuário não é motivo suficiente para impedir avanços nas relações dos EUA com ambos. Se fosse assim, como sabemos, Washington deveria virar as costas para uma penca de aliados. Vou destacar apenas Arábia Saudita, onde nesta semana foi decapitada uma empregada doméstica indonésia sentenciada à morte por homicídio.

A delinquência política do Irã e de Cuba, no entanto, é o pretexto para os esforços de setores conservadores nos EUA para 1) tentar torpedear o acordo nuclear e 2) reverter a aproximação com Cuba. Nas frentes das duas batalhas estão Marco Rubio e Ted Cruz, dois senadores republicanos, de origem cubana e pretendentes à presidência. São políticos com suas convicções, mas eles também estão jogando para a plateia que vota nas primárias republicanas.

Houve um ensaio no Senado americano para condicionar o acordo nuclear ao comprometimento do regime xiita de Teerã de não se envolver diretamente em terrorismo contra os EUA e ao reconhecimento de Israel. Vale lembrar que os aliados sauditas dos EUA têm uma tradição de apoiar grupos jihadistas. Felizmente, estes esforços sobre o Irã não decolaram, fruto de um acordo bipartidário, apoiado de forma relutante pela Casa Branca, ainda conferindo ao Congresso poder para revisar um acordo final sobre o programa nuclear.

Eram exigências de conservadores que fugiam aos parâmetros das negociações nucleares. A resistência ao acordo é válida quando se questiona a sua efetividade. Aqui temos um dilema da pesada. Eu pessoalmente questiono sua efetividade, mas creio que entre as opções na mesa é a mais tolerável. Caso seja aprovado em junho, a margem de erro ainda será imensa, mas a margem de acerto em outras opções (ataque militar, insistência em mais sanções ou abandono das negociações) é menor.

Sobre a questão cubana, não vejo dilemas. A mera discussão sobre a reaproximação com o regime castrista é anacrônica. Não vejo sentido em espernear diante da esperada decisão do governo Obama, anunciada na terça-feira, de retirar Cuba da lista de países patrocinadores de terrorismo. Havana estava na lista desde 1982 por seu apoio a grupos insurgentes de extrema esquerda na América Central e teve um prontuário de exportação de revolução depois que Fidel Castro tomou o poder em 1959. Cuba investiu muita energia, fundos e fantasia para exportar a revolução. Hoje está mais interessada em investimentos americanos e inclusive faz trabalho de intermediação entre o governo colombiano e os narcoterroristas das FARC (a trégua, aliás, acaba de ser rompida, depois que rebeldes mataram dez soldados em uma emboscada, de acordo com as autoridades de Bogotá).

Como já escrevi aqui, a disposição do ditador Raúl Castro agora é se comportar como um gângster semiaposentado. Meu conselho também é que sejam aposentadas as diatribes conservadoras dos tempos da Guerra Fria. O governo Obama está correto com esta política de reaproximação com Cuba para murchar o antiamericanismo e construir uma ponte para a América Latina.

A avaliação no caso do acordo nuclear é mais tortuosa. No entanto, deve ser feita com critérios geopolíticos, de realpolitik. De resto, vale reiterar que Irã e Cuba são regimes delinquentes, infelizmente como tantos por aí no cenário global. Protestos e denúncias contra Irã, Cuba e Arábia Saudita devem continuar, mas com realismo político e idealmente esperando dias melhores nos dois países.

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Confesso não ter balançado com nenhum argumento contrário à reaproximação EUA/Cuba (sobre o Irã, eu balanço). De qualquer forma, honra ao mérito e colher de chá para os leitores que questionaram a posição do Instituto Blinder & Blainder.

 

 

 

15/04/2015

às 15:44 \ Brasil

Jeitinho made in Brazil

Foto que ilustra a reportagem do Financial Times

Foto que ilustra a reportagem do Financial Times

O antenado Financial Times está histórico, pedagógico, criminalista e antropológico em uma reportagem sobre Brasil, corrupção e Petrobras. Antes de mais nada, as boas notícias: a corrupção está mais sofisticada, pois o Judiciário e a Polícia Federal ganharam mais autonomia e influência desde o fim da ditadura militar em 1985. Isto quer dizer que corrupção teve um upgrade como método, pois os riscos cresceram.

Embora a Operação Carwash possa ser considerada uma vitória na batalha contra a impunidade no Brasil, ela também serve de sinal de alerta para as multinacionais operando no país e em outros mercados emergentes. O conselho do advogado e consultor Edward Jenkins é para as empresas estrangeiras não participarem da dança da quadrilha. Nada fácil, porém, seguir o conselho.

Um executivo de uma companhia europeia no Brasil filosofa que a corrupção está incrustada na cultura brasileira e é muito difícil mudá-la. “I’ts the Brazilian jeitinho”, na sua expressão. O “little way” na sua forma mais inócua é a locomoção no labirinto. Brasileiro precisa ser engenhoso e apelar para a informalidade, mas a prática acabou se tornando uma razão de ser no país, adotada por pais que subornam instrutores de autoescola para os filhos descolarem a carteira de habilitação ou multinacionais que ajeitaram as coisas com a Petrobras.

A onda de escândalos que assola o Brasil é um divisor de águas. Multinacionais calculam que não compensa pegar os atalhos para os negócios. O preço é manchar a marca. Será que o Brasil tem jeitinho?

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Colher de chá para Ronaldo, que corrigiu minha rota errada.

 

 

 

 

15/04/2015

às 6:00 \ Eleições EUA 2016, Hillary Clinton

São as mulheres, estúpido!

Eu quero merecer o seu voto

Eu quero merecer o seu voto

Em 1992, um governador quarentão do estado do Arkansas trilhou seu caminho para a Casa Branca, batendo na tecla de que era a “economia, estúpido”!, o slogan interno de campanha cunhado pelo marqueteiro James Carville. Agora, a sexagenária mulher do ex-presidente democrata Bill Clinton busca sua própria trilha de retorno para a Casa Branca, deste vez como presidente.

Edward Luce tem escrito textos no Financial Times lamentando o cenário de uma disputa dinástica em 2016 entre as casas Clinton e Bush (Hillary x Jeb), mas ele reconhece que a eleição é favorável para a ex-primeira-dama. Nada inevitável ou direito adquirido, mas está aí o pote de ouro que é o eleitorado feminino. Não pode ser demagogia escancarada da política de identidade: mulheres, votem em mim, eu sou mulher, serei a primeira mulher na presidência. Este tipo de manipulação de alguém com a bagagem de manipulação de Hillary Clinton pode ser um desastre eleitoral.

No entanto, Hillary tem o potencial de mobilizar o voto feminino como ninguém. No ciclo eleitoral de 2008, quando foi derrotada nas primárias democratas por Barack Obama, Hillary não investiu no seu próprio sexo, talvez por arrogância, pois ela entrou na corrida achando que estava ganha. Bastava ser quem era e ser mulher, sem enunciar explicitamente.

Desta vez, ela reconhece que precisa “merecer” o voto e mulheres votam em maior número do que homens (63.7% contra 59.8% na eleição presidencial de 2012). Ademais, mulheres são mais inclinadas a votar nos democratas. Hillary precisará ser hábil para, como escreve Edward Luce, “incitar as esperanças das mulheres sem alienar os homens”.

E incitar como? Ilustrando os parcos benefícios sociais das mulheres americanas em relação aos demais países desenvolvidos. Entre as democracias ricas, apenas nos EUA as mulheres não possuem licença-maternidade paga, dinheiro federal para creches e poucas proteções trabalhistas caso engravidem. A fraqueza dos benefícios sociais ajuda a explicar a diminuição da participação da mulher no mercado de trabalho.

Há um consenso bipartidário nos EUA de que a classe média estagnou e suas aspirações são o motor do sonho americano. Uma tentação democrata, inclusive de sua candidata presidencial, é investir contra os republicanos por sua chamada “guerra contra as mulheres” (questões como aborto e anticoncepcionais). No entanto, Edward Luce diz que o foco de Hillary Clinton deveria ser no papel econômico da mulher e seu status de benefícios sociais.

Ele diz que um remédio contra a estagnação da classe média americana é trazer mais mulheres para o mercado de trabalho e mantê-las lá. Meu contraponto óbvio é lembrar o quadro de estagnação europeia em parte devido aos benefícios sociais. No entanto, estou destacando aqui as provocações de Edward Luce para incitar um bom debate eleitoral.

Luce, aliás, começa seu texto com uma provocação estranha. Existem poucos lugares no mundo tão atrozes para mulheres como a Arábia Saudita. No entanto, o governo de Riad acaba de adotar a licença-maternidade paga de quatro semanas. Isto significa que as mulheres sauditas têm mais benefícios do que as americanas neste setor. Isto serve de consolo para uma mulher americana?

Na Arábia Saudita, as mulheres sequer têm licença para dirigir carro. A propósito, nem sei se a carteira de habilitação de Hillary está em dia. Numa conferência para vendedores de carro (quando ganhou mais uma baba de dinheiro), ela confessou que não dirige desde 1996. Com esta distância do cotidiano dos americanos, ela pretende guiar os destinos do país.

De qualquer forma, esta semana Hillary entrou numa van e foi para o interior escutar as aflições dos eleitores, em uma patética encenação populista. É assim que ela quer trilhar o caminho para a Casa Branca? Que caminho estúpido!

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Colher de chá para Vânia Cavalcanti (dia 15, 10:47).  E outra para Carmem (dia 15, 15:24).

14/04/2015

às 6:00 \ Eleições EUA 2016, Marco Rubio

O Obama republicano (ou será Kennedy?)

Perdón, padrinho, mas vou concorrer também

Perdón, padrinho, mas vou concorrer também

Desde que veio de trás para vencer a eleição para senador na Flórida em 2010, Marco Rubio estampa o rótulo de Obama republicano. Com a formalização de sua candidatura nas primárias presidenciais republicanas na segunda-feira, ele quer investir no que considera a boa parte do rótulo: o político jovem, de origem humilde, filho de imigrantes cubanos que derrota as expectativas e os favoritos dinásticos. O salto para a Casa Branca em uma geração é a prova da grandeza do American Dream.

No caso de Obama, do outro lado, nas primárias democratas em 2008, estava a rainha Hillary Clinton. No caso de Rubio, antes, no meio do caminho, está o príncipe Jeb Bush, que também está para oficializar a candidatura. Ironicamente, antes da eleição em 2010, Bush, ex-governador da Flórida, incentivou seu afilhado político a apressar o passo e concorrer ao Senado. Agora, existe esta trama shakesperiana do filho que trai o pai ao assumir suas ambições ao trono.

Marco Rubio quer entrar para a história como o primeiro latino na Casa Branca, triunfando nas eleições de novembro de 2016. Ao contrário de Mitt Romney em 2012 e Jeb Bush agora, ele é um dos favoritos do Tea Party e acabou contendo o necessário pragmatismo em nome da pureza ideológica do movimento ultraconservador, se distanciando de apoio a uma reforma da imigração, que abre um caminho para 11 milhões de ilegais formalizarem seu status no país. Ganha assim alguma força nas primárias, mas perde o seu appeal como um candidato republicano capaz de seduzir o crescente eleitorado de origem latina ou meramente ajustado a um quadro de diversidade étnica nos EUA.

Rubio espera compensar sua guinada em imigração com as mensagens que têm polido sobre a necessidade de politicas socioeconômicas que reduzam as desigualdades de renda no país (mais através de oportunidades do que de distributivismo). Sem dúvida, ele tem mais carisma do que Romney e ainda por cima é desprovido da grife de plutocrata.

Ao contrário do candidato Rand Paul, mas como Ted Cruz, o outro filho de cubano igualmente queridinho do Tea Party, Rubio assume uma posição de falcão em politica externa. Como era de se esperar, ele dispara de forma incessante contra o acordo sobre o programa nuclear iraniano e a reaproximação entre  EUA e Cuba, embora 2/3 dos americanos sejam a favor da iniciativa, assim como o eleitorado mais jovem de origem cubana na Flórida.

Para mim, é difícil ver Marco Rubio com muita chance na corrida das primárias republicanas. No entanto, reconheço que seus atributos, como carisma, juventude e capacidade de atuar fora da bolha demográfica do partido (apesar do recuo em imigração) podem contar pontos, além de sua capacidade de ultrapasssar competidores, vindo lá de trás. Outro ponto positivo é sua disposição para manter pontes abertas para o establishment republicano, ao contrário dos irascíveis Rand Paul e Ted Cruz. E, apesar de conservador de carteirinha impulsionado pela Tea Party, ele sabe que na política de Washington é preciso costurar compromissos. Seus desafios imediatos são ganhar reconhecimento nacional e correr com habilidade entre as várias facções republicanas na maratona das primárias.

Charles Krauthammer, um guru conservador que eu respeito bastante, tem o prognóstico de que Marco Rubio, 43 anos, pode ser o azarão no páreo republicano, um excelente contraste à sexagenária rainha Hillary Clinton. Uma recente pesquisa Wall Street Journal/NBC News revelou que 56% de prováveis eleitores nas primárias republicanas considerariam votar em Rubio, o melhor desempenho na multidão de pretendentes. Krauthammer nem faz o paralelo com Obama. Diz que Marco Rubio tem o vigor e a energia de um John Kennedy, aquele jovem senador e príncipe plutocrata dos democratas que venceu as eleições em 1960 quando tinha 43 anos.

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Colher de chá para Kassiano Fraga (dia 14, 12:36).

13/04/2015

às 6:00 \ Eleições EUA 2016, Hillary Clinton

A hora e a vez de Hillary Clinton (de novo)

A confirmação, finalmente

A confirmação, finalmente

Manchete espetacular seria o anúncio de Hillary Clinton de que não vai concorrer à presidência dos EUA em 2016. Está aí, no entanto, a formalização do óbvio, com imenso senso de antecipação e pouco drama, através de anúncio no domingo nas redes sociais. A ex-primeira-dama, ex-presidenciável derrotada em 2008 e ex-secretária de Estado está na parada.

Hillary se reapresenta e se reinventa. A revista The Economist pede que ela simplesmente esclareça qual é a dela, envolta em triangulações políticas, malabarismos ideológicos, escândalos, evasivas e paranoias. Para mim, o que mais incomoda são as doações de governos estrangeiros para a fundação Clinton.

E qual é a dela? Ora, retornar para a Casa Branca. Hillary fará o de praxe. Nas primárias, democratas dão uma deslocada para a esquerda, enquanto republicanos dão uma para a direita. Um cenário são as duas dinastias (Clinton e Bush) trombarem no centro no grande duelo de 2016. Haverá mais emoções entre os republicanos, com um espetáculo mais circense e uma disputa mais suada pelo fato de o partido estar rachado entre alas e tantos egos.

No caso democrata, alerta-se contra o perigo de coroação antecipada de Hillary, mas quem realmente pode desafiá-la? Sua campanha vai girar em torno de pragmatismo, política de resultados, defesa dos difusos interesses da classe média (mesmo quem desceu degraus ainda se considera classe média nos EUA) e busca da dose certa entre lealdade e distanciamento do presidente Obama. Entre os fatores dramáticos que podem melar a narrativa bem costurada, uma montanha de dinheiro e uma sólida máquina eleitoral está o praticamente improvável cenário de recessão econômica.

Não quero, porém, soar blasé. Hillary desafia a história. Em primeiro lugar, na medida em que desde que o limite de dois mandatos presidenciais foi estabelecido em 1951, somente o primeiro George Bush conseguiu suceder a um presidente do mesmo partido (o republicano Ronald Reagan). O segundo ponto: com muito mais vigor do que no ciclo eleitoral de 2008 (quando foi derrotada por Barack Obama nas primárias democratas), Hillary vai neutralizar um desafio à história com outro desafio: uma mulher nunca foi presidente dos EUA. Não foi sequer candidata por um dos dois partidões.

Por aí, Hillary deverá inclusive combater a sensação de fadiga que cerca o seu nome, assim como outras vulnerabilidades. Um jornalista e político bem conservador, Pat Buchanan, tem uma boa sacada: Hillary não é uma atleta política, não é alguém da categoria do maridão Bill Clinton, de Ronald Reagan ou sequer de Barack Obama. Hillary é diligente. Isto talvez compense a falta de empatia. A favor dela, há também o capital de experiência (vovó Hillary tem 67 anos). Será que o país quer outro senador inexperiente na Casa Branca? E sobre dinastias, no rodízio é a vez de um Clinton e não de um Bush.

Mais para frente, haverá oportunidades para falar de um presidenciável republicano que foge ao padrão de senador inexperiente e carece do sobrenome Bush. Trata-se de Scott Walker, governador do estado de Wisconsin. Nome interessante: de origem humilde e implacável inimigo das máfias sindicais (de funcionários públicos) atreladas ao Partido Democrata. No entanto, creio que Walker desponta no ciclo eleitoral errado.

Cedo para apregoar o inevitável, mas o alinhamento das estrelas sinaliza que de fato é hora e vez de Hillary Rodham Clinton.

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Colher de chá para nosso crível Samuel. 

 

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