Blogs e Colunistas

31/10/2014

às 6:00 \ Eleições EUA 2014

É o Obama, estúpido!

O presidente não transmite confiança

O presidente não transmite confiança

Barack Obama, com sua fama de narcisista, conseguiu: é o centro das atenções quando sua popularidade é anêmica e os democratas estão no sufoco eleitoral. Não deveria ser assim nas eleições americanas que acontecem no meio de um mandato do presidente em que estão em jogo o Congresso e governos estaduais (36  dos 50). A Casa Branca não deveria ser o grande foco. Na campanha em um punhado de estados em que os democratas estão mais vulneráveis, há um esforço para se distanciar do presidente. Há candidato que sequer assume que votou no presidente, caso de Alison Lundergan Grimes, no estado de Kentucky.

Na próxima terça-feira, apenas 1/3 das cadeiras do Senado (100 no total) está em disputa. A maioria democrata (55 a 45) está ameaçada porque a disputa para valer acontece em estados nos quais o partido está acossados (na Câmara, a projeção é de um ligeiro aumento da maioria republicana). A ameaça cresceu pois este ciclo eleitoral se moldou em parte como um referendo sobre o estilo de administração de Obama.

Na nova narrativa republicana, Obama deixou de ser um tirano e passou a ser um presidente inoperante, um pedestre perdido na esquina vendo os problemas passarem. Para a maleável e implacável agitprop republicana, Obama é sempre o alvo preferencial, ainda por cima por ele ter se mostrado mau de briga, como se estivesse acima da política. Eleitores, portanto, têm a oportunidade para canalizar suas frustrações e ansiedades para a forma com a qual o presidente lida com desafios como a ameaça terrorista, a epidemia Ebola, o quebrado sistema de imigração e ironicamente mesmo uma economia que está em situação melhor do que a dos demais países ricos.

Obama não transmite confiança e uma economia que no terceiro trimestre cresceu 3.5% é insuficiente para aplacar a frustração popular. Não dá pé para os democratas adaptarem o clássico bordão do marqueteiro James Carville na vitoriosa eleição de Bill Clinton em 1992, exclamando “a economia melhorou, estúpido”! E o sentimento popular de frustração é devidamente explorado pelos republicanos em ritmo populista A economia cresce e a bolsa está bombando, mas há uma sensação de meia bomba na população com os salários estagnados, as crescentes desigualdades sociais e um número recordista de americanos que conseguem apenas empregos temporários. O mesmo Obama que já foi acusado de socialista, ganha a pecha de elitista.

Assim, apesar de meses de tendências positivas na economia americana, os democratas estão ameaçados no Congresso. Estariam ameaçados de qualquer forma pois nas eleições de meio do mandato presidencial a base republicana comparece com mais entusiasmo com seu perfil de votante branco e mais velho.

Para as democratas, preocupados com a apatia de sua base (mulheres solteiras, jovens e minorias), o negócio é investir mais em uma campanha do medo do que da esperança sobre o cenário de uma hegemonia republicana no Congresso. Até agora, a mensagem não parece ter surtido efeito, pois a expectativa maior é sobre o grande embate de 2016 quando também estará em jogo a casa hoje ocupada por Barack Obama, cansado de guerra. Em parte, o presidente está abandonado por seu próprio partido, até pela coalizão que o consagrou em duas eleições.

A mensagem que se forja parece ser: é 2016, estúpido!

30/10/2014

às 20:17 \ Eleições Brasil

Cabeças de brasileiros

Imagem de Mrs. Rousseff no editorial da Economist

Imagem de Mrs. Rousseff no editorial da Economist

O editorial da venerável The Economist sobre a reeleição de Dilma Rousseff concorda com o óbvio, que gerou uma polêmica que eu considero estéril sobre preconceitos contra nordestinos que votam de forma significativa no PT. Existem, de fato, várias cabeças de brasileiros, cabeças inclusive regionais. A Economist, como foi enfatizado aqui, endossou Aécio Neves domingo passado, mas não considera surpreendente a vitória de Dilma Rousseff.

A revista observa no editorial que o Brasil continua sendo um país de severas desigualdades sociais e os eleitores mais pobres (e, aqui, eu acrescento, nordestinos) são gratos ao PT pela melhoria de seu padrão de vida e às oportunidades que tiveram em 12 anos de poder petista (oito de Lula e quatro de Dilma).

As vantagens de ser poder, a formidável máquina do PT , seu dinheiro (algum, na expressão do editorial, “parece que roubado da Petrobrás”) e a química de Lula com o povo combinaram para virar a campanha a favor de Dilma. Eu apenas arremato que os erros estratégicos da campanha de Aécio Neves na sua terra natal foram um fator essencial para sua derrota. Cabeça de mineiro!

PS- Parece que, como Lobão, eu não cumpri a palavra e cá estou de volta ao Brasil, do qual prometera partir (apenas uma ligeira recaída).

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Colher de chá para o ágil Pedro Lemos. 

30/10/2014

às 6:00 \ Egito, Líbia, Primavera Árabe, Síria, Tunísia

Enquanto isso…na Primavera Árabe

Na Tunísia, um raro motivo para alegria democrática e secular

Na Tunísia, um raro motivo para alegria democrática e secular

Conversa sobre Primavera Árabe? Será que a divisão sonhática do Instituto Blinder & Blainder está impondo a pauta da coluna? Como falar em Primavera Árabe após tantos pesadelos? Sem dúvida, a Síria é hors concours, além de qualquer pesadelo, além da imaginação. No entanto, a Primavera Árabe é um processo, um rebento. É um broto que nem completou quatro anos.

Já falei aqui das boas notícias da Tunísia, berço da Primavera Árabe, onde no domingo o partido islâmico Ennahda (o melhorzinho das irmandades muçulmanas) foi derrotado pela partido secular Nidaa Tounes nas eleições parlamentares. E é justamente ali na África do Norte que podemos ver o melhor e o pior produzido até agora pela Primavera Árabe (de novo, Síria é hors concours).

Na sacada de Paul Pillar, comparar as experiências de Tunísia, Líbia e Egito é uma lição para entender o que ajuda um país a caminhar rumo a algo que leva jeito de uma democracia estável e o que o leva na direção oposta.

Na Tunísia, a queda da ditadura Ben Ali não foi suave, mas os sinais são positivos. O país teve no domingo a segunda eleição democrática desde a revolução de 2011. Já o país vizinho, a Líbia, está uma meleca, com a guerra entre milícias. Apenas a meleca síria é pior entre os países que foram palco da Primavera Árabe.

Paul Pillar observa que o quadro é menos caótico no Egito. No entanto, pouco consolo. O regime do general Sisi, que tomou o poder com o golpe que derrubou o governo da Irmandade Muçulmana, lembra a ditadura Mubarak e se mostra ainda mais autoritário. Com a ausência de canais pacíficos para expressar resistência, o risco é de mais violência e o terrorismo está em alta.

A jornada na Tunísia em parte é explicada pela vantagem de ser um país relativamente pequeno e homogêneo, mais próximo de hábitos culturais europeus. A desvantagem líbia foi ter amargado quatro décadas da brutal e excêntrica ditadura Kafadi. O país emergiu das trevas sem instituições independentes.

E no caso egípcio, mesmo com a rebelião popular, os militares nunca deixaram o poder, mesmo com ascensão da Irmandade Muçulmana. Hoje, o regime Sisi faz o que pode para esmagar o movimento islâmico, enquanto na Tunísia o partido Ennahda é tratado como um ator legítimo e ele se comporta de forma responsável e pragmática, ao contrário da Irmandade Muçulmana no Egito.

Em uma região do mundo povoada por ditaduras (seculares, teocráticas e militares) e assolada por guerras civis e terroristas completamente ensandecidos, a Tunísia exibe um precário e ainda promissor caminho democrático de desafio ao desalentador conceito de “uma pessoa, um voto, uma vez”.

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Colher de chá para as intervenções de Paulo Vitor sobre religião. 

 

29/10/2014

às 6:00 \ Putin, Rússia, Ucrânia

Adeus, Lênin! (na Ucrânia). Pena que Putin fique

Muitas estátuas dele ainda de pé

No entanto, muita estátua dele ainda na praça

Está chegando aí a comemoração dos 25 anos da queda do Muro de Berlim (9 de novembro). Desde a queda do muro, especialmente nos últimos meses, muitas estátuas de Lênin foram derrubadas na Ucrânia. Pena que muitas ainda estão solidamente de pé (tudo bem manter algumas em nome da estética kitsch). A precária Ucrânia faz o que o pode para forjar o seu futuro, apesar da agressão russa. As eleições parlamentares de domingo trouxeram boas notícias. Avançaram os partidos que olham adiante… para a Europa, para as reformas e para a modernidade.

Pela primeira vez na história da Ucrânia (o país já foi, entre outras coisas, república soviética), não haverá nenhum deputado comunista no Parlamento. Isto nunca tinha acontecido em 96 anos. Vale reconhecer que foi muito baixo o comparecimento às urnas nas regiões separatistas do leste do país. Partidos de extrema direita também se deram mal na eleição de domingo, o que prejudica a narrativa russa de que a Ucrânia seja dominada por uma junta golpista, fascista e antissemita desde que Viktor Yanukovich, o dirigente pró-Moscou e pró muita corrupção, foi derrubado pela rebelião de fevereiro.

O vizinho Vladimir Putin não é leninista. Nosso homem em Moscou é meramente putinista, o que obviamente não é um elogio. Ele tem seus interesses nacionalistas, xenofóbicos e nostálgicos do império russo a defender. Entre eles, está negar a independência na Ucrânia. A chamada guerra híbrida é infatigável. Ela é travada em várias frentes e em várias dimensões (militar, econômica, diplomática e na desinformação).

Na terça-feira, por exemplo, Moscou anunciou que vai reconhecer os resultados de eleições ilegítimas que serão realizadas no próximo domingo em áreas separatistas no leste do país. Com cara de pau, o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov disse que estas eleições “vão legitimar as autoridades” locais. Trarão, isto sim, mais desestabilização do país em meio a um precário cessar-fogo na guerra civil, em vigor desde 5 de setembro.

Os rebeldes sobreviveram graças a uma intervenção direta de tropas russas no conflito, o que obviamente é negado por nosso homem em Moscou, apesar dos caixões que retornaram com soldados russos mortos em combate. Moscou não sinaliza apoio à adesão dos rebeldes a um acordo de paz e cortou os suprimentos de gás à Ucrânia em meio a uma disputa sobre pagamentos (o inverno está chegando).

Além de combater os rebeldes separatistas e os russos, a nova Ucrânia luta contra sua disfunção política, uma economia que deve despencar 10% neste ano e uma colossal corrupção. Entre as boas notícias das eleições de domingo, também está a surpreendente votação de um novo partido, fundado por Andre Sadovi, prefeito liberal da cidade de Lviv, no oeste ucraniano, a parte mais pró-Europa do país. Este partido terá um papel vital para monitorar as promessas de reformas e de combate à corrupção dos dois principais partidos da coalizão de governo, o do presidente Petro Poroshenko e o do primeiro-minstro Arseniuy Yatseniuk (ambos pró-Europa).

O nome deste novo partido é Samopomich, que pode ser traduzido como Autoajuda. Tudo importante, mas essencial para a Ucrânia forjar o seu futuro será a ajuda ocidental.

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Muitos leitores ainda com ressaca da eleição brasileira. Confesso minha parcialidade ao conferir a colher de chá para o sucinto comentário de Angelo Costa (dia 29, 13:11), fazendo a connection entre as eleições na Ucrânia e no Brasil.

 

28/10/2014

às 6:00 \ Eleições EUA, EUA, Tunísia, Ucrânia, Uruguai

O Fico do Lobão e o meu Parto

A dupla de branco na capa do Wall Street Journal

A dupla de branco na capa do Wall Street Journal

Lobão, a celebridade, anunciou o seu “Fico”. Ele não vai deixar o Brasil, conforme prometera em caso da reeleição de Dilma Rousseff. Eu, que nem fui lobinho na vida, anuncio o meu “Parto”. Após semanas enfronhado na Banânia (país que gostaria de ser Finlândia, com programas sociais generosos, serviços públicos perfeitos e transparência total, mas ainda prefere a paladina anticorrupção Dilma Rousseff no palácio), eu estou retornando às minha paragens habituais, algumas bíblicas, outras não. OMG! Estado Islâmico, Siraque, Obama e Putin, lá vou eu.

Na verdade, a imprensa internacional nem se enfronhou como se imagina na eleição brasileira. Houve expressiva e inquietante cobertura em jornalões econômicos, no estimado espanhol El País e na The Economist (a revista imbecil, na sóbria avaliação do ex-presidente Lula). No entanto, nada se compara ao investimento jornalístico conferido às eleições na Índia em maio, outro grande país emergente, onde a oposição emplacou e agora tem Narendra Modi à frente.

Para dar uma medida, as eleições parlamentares ucranianas receberam mais destaque do que as presidenciais brasileiras no New York Times no domingo e na segunda-feira. É verdade que na edição impressa do Wall Street Journal de segunda-feira, está a dupla de branco. No entanto, lá dentro da edição, destaque similar foi dado às eleições brasileiras e às ucranianas.

Aliás, foi um domingão eleitoral no mundo. Na Ucrânia, o nosso homem em Moscou não tem motivos para ficar satisfeito. Os partidos pró-ocidentais, o do presidente Petro Poroshenko e o do primeiro-ministro Arseny Yatsenyuk foram os vencedores, confirmando que aos trancos e barrancos (guerra civil e economia aos frangalhos), o país caminha para ser mais democrático, mais moderno e mais europeu. Quem diria que a Ucrânia dos meus avós fosse um prêmio de consolação depois da vitória da dupla de branco no embate entre o moderno e o arcaico no Brasil.

Outro consolo foram as eleições parlamentares na Tunísia, aquela luzinha da Primavera Árabe. O partido islâmico Ennahda, que já é mais moderado na sua irmandade e que fora o primeiro do gênero a ganhar no voto após as rebeliões de 2011, reconheceu sua derrota na segunda feira. O partido mais forte no novo Parlamento será o secular Nidaa Tounes.

E, aí mais perto do Brasil, houve o primeiro turno das eleições presidenciais uruguaias. Para o segundo turno em novembro vão Tabaré Vasquez, candidato da coalizão esquerdista do presidente José Mujica, e o conservador Luis Lacalle Pou. Sobre o pequeno Uruguai, só a tenho a dizer que por lá até o arcaico é mais moderno do que no Brasil.

E claro que termino falando do Bananão americano. Dentro de exatamente uma semana, terão lugar as eleições que podem conferir aos republicanos o controle do Congresso (a disputa é sobre o Senado, pois os republicanos já são maioria na Câmara). Vou escrever a respeito nos próximos dias. Eleições presidenciais americanas somente em 2016, mas, no parto prematuro, debate quente sobre a disputa com a montagem do cenário da democrata Hillary Clinton contra o republicano Jeb Bush. Briga de dinastias é coisa arcaica. Portanto, consolo, o arcaico não é apenas coisa nossa.

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As colunas sobre as eleições brasileiras trouxeram novos leitores para esta terra cívica e democrática conhecida como buteco, bazar de ideias, centro de debates Blinder & Blainder, o que seja. Colher de chá para estes leitores. Fiquem, não partam! 

26/10/2014

às 21:54 \ Eleições Brasil

Estarrecido!

E a senhora, presidente, está?

E a senhora, presidente, está?

Eu estou estarrecido e dou mão à palmatória. Agora entendo a presidente Dilma Rousseff (parabéns pela vitória). Ela virou amiga do estado de estarrecimento, falando de forma desapropriada a respeito. Estarrecedor, mas a presidente reeleita reflete o meu estado de espírito. Como assim, Brasil? Claro que consigo racionalizar o que aconteceu no domingo: é o Bolsa-Família, estúpido! É o conservadorismo da classe C, estúpido! São as gritantes divisões regionais, estúpido! É Minas, estúpido! É a marquetagem do medo, estúpido! É a campanha infame, estúpido! É a máquina pública, estúpido! É o desejo de 51,64% dos votantes de Dilma Rousseff, estúpido!

Obviamente eu não estou aqui para brigar contra 51,64% conferidos a Dilma Rousseff, meramente por estar estarrecido. Quero trazê-los para o meu lado. Não vou insultá-los. E para quem não entendeu até agora o uso abusivo da expressão “estúpido!, trata-se do bordão de marquetagem “é a economia, estúpido!”, da vitória de Bill Clinton na eleição de 1992. No entanto, usando um termo básico de antropologia, o Brasil arcaico derrotou o Brasil moderno (virou uma tradição). Estou aqui para brigar pelo Brasil, por sua modernização, por sua transparência e por seu justo ajuste de contas.

Podemos prenunciar um terceiro turno institucional em função do tsunami de escândalos (o clichê tsunami deve ser usado em circunstâncias excepcionais). O que vai jorrar com o Petrolão? Eu o tenho chamado de Petrogate, por ter crescido no acompanhamento do “gate” original, o Watergate, e por ter feito já em coluna associações entre o Washington Post e VEJA, entre Dilma e Nixon. Ficarei estarrecido se o jorro for mixuruco em Brasília.

Eu vejo o Brasil de fora, assim como João Augusto de Castro Neves, da empresa de consultoria de risco Eurasia. Ele foi achincalhado por muitos espectadores do Manhattan Connection no Twitter por meramente fazer sua análise e concluir que Dilma provavelmente venceria as eleições. Estarrecedor. E agora, João? Ele sinaliza que pode haver uma tempestade perfeita no Brasil em 2015: um presidente fraco, condições externas desfavoráveis, um governo indisposto para comprar sua credibilidade na gestão econômica e um escândalo que pode prender a atenção da classe política”. E arremato que o escândalo pode levar à prisão de integrantes da classe política.

Estou estarrecido e a senhora, presidente Dilma Rousseff, realmente está?

Colher de chá para as comentaristas de primeira viagem Katia (dia 27, 4:14) e Cristina (dia 27, 10:16). Um estímulo para este colunista “estarrecido”, mas não vergado.

PS-Refleti e decidi fazer uma correção no texto. Leitores fizeram a observação sobre 51,64% dos conferidos a Dilma Rousseff e não dos brasileiros. Tecnicamente está correto e assim fiz a correção, embora reitere a legitimidade democrática da reeleição da presidente Dilma Rousseff.

 

26/10/2014

às 15:44 \ Eleições Brasil

Roendo as unhas

O país da onicofagia

O país da onicofagia

Em dia de eleição incerta, apuração rapidíssima e disseminação instantânea de informação (e boataria), jornalismo pode ser uma commodity ainda mais fugaz. Eu escrevo esta coluneta pouco antes das 16 horas, horário de Brasília. Não sei o que nos espera nas próximas horas. Em termos metafóricos ou reais, para muitos é aquilo definido no mais recente post da minha querida The Economist (revista imbecil para o Lula) como roendo as unhas.

Radical, o comentário observa que restam poucos unhas para roer. Os dedos das pesquisas estão em todas as partes, sugerindo um final de corrida photo finish. Aécio Neves suando ladeira acima, mas a Economist (que o endossou) diz que ele tem o momentum, além de um talento para confundir as expectativas. Não vou especular a partir daí.  Na eleição olho por olho, dente por dente, podemos acrescentar que é unha por unha. É a política da onicofagia.

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Colher de chá para o sempre confiável Samuel (dia 26, 21:51) pelo acerto do resultado eleitoral.

 

“Eu não sou um escroque”

Em 17 de junho de 1973, a garantia: I am not a crook

Em 17 de junho de 1973, a garantia: I am not a crook

CAPA VEJAEm 17 de junho de 1972, a sede do Partido Democrata foi arrombada no edifício Watergate, em Washington. Investigações jornalísticas do Washington Post e trabalho judicial ao longo do tempo vincularam o assalto e outros crimes ao governo Nixon.

Os primeiro meses do escândalo Watergate foram insuficientes para impedir a vitória arrasadora de Nixon nas eleições de 7 de novembro de 1972. Ele, no entanto, não terminou o segundo mandato. Renunciou em 9 de agosto de 1974 para escapar do impeachment.

Estes são fatos, fatos da história dos EUA. Como será o desfecho do nosso Petrogate é outra história. São outras cronologias, outros contextos, outros personagens, outros escândalos (aliás, nem sabemos o que vai acontecer na eleição deste domingo).

No entanto, eu me dou ao direito de especular. Será que a história irá permitir os paralelos: VEJA = Washington Post e Dilma Rousseff = Richard Nixon?

Lula é um caso à parte, sem paralelos. Afinal, nunca na história deste país…..

 

 

 

Em 24 de outubro de 2014, a garantia: eu também não

Em 24 de outubro de 2014, a garantia: eu também não

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Colher de chá para o humor aguado de Mauro Martins (dia 24, 18:59).

25/10/2014

às 10:18 \ Eleições Brasil

É a classe C, estúpido!

Saldão eleitoral

Saldão eleitoral

O título desta coluneta é uma paráfrase de uma frase antológica de marketing político. James Carville, o marqueteiro do presidente americano Bill Clinton cunhou a frase “é a economia, estúpido”!, na vitoriosa campanha eleitoral de 1992. João Santana, o marqueteiro de Dilma Rousseff agora apela para a classe C. E não vou esconder meu desejo para que o sucesso não se repita.

Esta aposta de João Santana poderá até ser um sucesso em termos eleitorais, mas prenuncia o fracasso do projeto PT de governo (nem estou adicionando aqui a questão institucional na esteira do Petrogate). Trata-se de um  fracassso já levado às últimas consequências na Venezuela e na Argentina. Não queremos ser eles amanhã. Para ser mais preciso, na segunda-feira, o day after eleitoral.

Ao longo da campanha eleitoral brasileira, eu citei muito o El País. Na véspera da votação, eu quero prestar uma homenagem ao jornal espanhol, trazendo um texto a respeito dos perigos estúpidos que rondam o Brasil em função desta aposta eleitoral de João Santana. O texto é de um jornalista argentino do La Nación (que, por sinal, endossou Aécio Neves). Aqui, a íntegra em português do texto de Carlos Pagni.

Em um texto com o bom título A Esquizofrenia Populista, Pagni ressalta que “a  campanha eleitoral do Brasil exibe uma dualidade que é constitutiva do populismo em toda a América Latina”. Houve uma rápida mobilidade social no Brasil e a propaganda do PT se dirige a este segmento, o fiel da balança na votação deste domingo. É o aqui e agora do consumismo e da preservação a qualquer preço da baixa taxa de desemprego. Ótima estratégia de campanha eleitoral, mas aqui vai alerta de Pagni:

“No Brasil aparece atenuada uma deformação que na Argentina e na Venezuela é caricatural. Em seu afã por sacralizar o presente, o populismo se desliga do futuro. Premia o consumo, não a poupança. O gasto, em vez do investimento. E se empenha mais em ampliar subsídios do que em criar trabalho genuíno. Nessas prioridades estão as sementes de sua decadência”.

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Colher de chá para o jornal espanhol El País, por sua cobertura da eleição brasileira.  E outra colher de chá para o ex-indeciso Felipe (dia 25, 11:47). Vejam o motivo!

 

24/10/2014

às 6:00 \ Eleições Brasil

Da Tonga da Mironga para a Banânia

Sorry, Mr. Lula!

Ilustração de uma revista imbecil, segundo Mr. Lula

Eu devo desculpas aos leitores. Estou faltando ao serviço. Há dias que não falo do mundo aqui na coluna, enfronhado no Brasil. Houve ataque terrorista no Canadá e não compareci com um texto ao estilo “Somos Todos Canadenses”, como fizeram os torcedores de hóquei em Pittsburgh, para expressar solidariedade a um país que adoro (A Escandinávia da América do Norte, o mais civilizado estado americano, se o Ted Cruz vencer as eleições americanas em 2016 eu vou para lá, O Canadá!). Em 4 de novembro, teremos eleições no país ao sul do Canadá e eu ignoro a história (é verdade que na semana passada escrevi uma coluna sobre a apatia eleitoral dos americanos).

E por que este desleixo? Não estou apático sobre as eleições no país bem ao sul dos EUA. Estou obcecado como jornalista e como cidadão. Há dias, eu me contorço para sacar colunas conectadas com as eleições. Minha rotina mudou. Semanas atrás, assim que eu acordava, costumava fuçar o noticiário para saber o que se passava em alguma distante Tonga da Mironga. Por estes dias, estou entretido na nossa Banânia e nas nossas tungadas.

Minha obsessão com o urso Putin está hibernando (e teremos eleições parlamentares neste domingo na Ucrânia). Deixei de acompanhar religiosamente os sites que cobrem o Oriente Médio. Minha ansiedade é canalizada para a guerra eleitoral brasileira. Checo a todo momento o noticiário para saber se saiu alguma nova pesquisa. Leio com avidez meus colegas de VEJA.com, colunistas dos jornalões (maior lobby entre alguns dos meus leitores para investir na Dora Kramer) e devoro tudo o que a imprensa global publica sobre o Brasil. Viva El País!

E para o desprazer do inimigo dos tucanos nazistas (o Lula), sempre que posso destaco alguma coisa da Economist aqui na coluna, no Twitter e no Facebook. Com imenso prazer, estampo pela terceira vez a ilustração da Banânia podre da Economist, esta revista a serviço da democracia e do livre mercado e simpática ao nazismo, pois endossou Aécio Neves  (horror, horror, horror). Revista imbecil, de acordo com o Lula. Recomendo que o ex-presidente a leia ou, melhor dizendo, que alguém faça isto para ele.

Eu converso com “minhas fontes” (entre elas, Mrs. Blinder, minha mãe) para sentir o pulso das elites e das massas, dos informados, dos desinformados e dos indecisos (algum ainda?). Em nome do jornalismo e para saciar minha compulsão eleitoral, tenho feito coisas atrozes. Esta semana estive no meu dentista (verdade, escutar piada contada por dentista é algo penoso), mas há coisas muito mais dolorosas na vida. Imagine, todo dia ultimamente tenho dado uma espiada no site do Paulo Henrique Amorim para saber das infâmias publicadas no covil. Mil vezes a conversa fiada, as piadas e a cadeira do meu dentista.

Sei que o o clima eleitoral brasileiro está bíblico, na base do olho por olho, dente por dente (clima ótimo para os oftalmologistas e para os meus queridos dentistas), mas na semana que vem espero estar de volta ás minhas paragens habituais, algumas, de fato, bíblicas.

PS- Eu enfatizo que “espero” voltar para minhas Tongas das Mirongas na semana que vem, mas muito vai depender da chamada evolução dos acontecimentos na Banânia, também conhecida como Petroland.

 

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Colher de chá para A. (dia 24, 11:32), um leitor de visão.

 

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