Blogs e Colunistas

29/08/2014

às 6:00 \ Otan, Putin, Rússia, Ucrânia

Putin, o acidental

As cores da crise

Rússia é só no vermelhinho (falta combinar com os russos)

A situação na frente ucraniana atingiu um tal estágio de gravidade que fazer brincadeira não pega bem. No entanto, o festival de mentiras do governo Putin sobre sua escancarada intervenção militar na Ucrânia permite uma barragem de sarcasmo. Na novilíngua do ex-agente da KGB, não existem tropas russas no país vizinho, não existe o envio de armas, não existe envolvimento. A Rússia não existe na Ucrânia.

Trata-se de uma crise interna e Moscou está interessada apenas em prestar assistência humanitária e gostaria que o governo ucraniano interrompesse sua agressão contra esta gente boa que se insurgiu no leste ucraniana contra o fascismo, ajudada por voluntários que vieram da Rússia. Existem soldados russos que preferem dar uma forcinha para seus “irmãos” do outro lado da fronteira, ao invés de passarem suas férias na praia. Nada compulsório. Moscou lava as mãos diante de tanta abnegação e não pode obrigá-los a tomar sol e não bala. E há os soldados que se perdem na fronteira durante manobras militares e sem querer aparecem do outro lado. Tudo acidental.

A resposta precisa ser o sarcasmo no que já é conhecido como a Guerra do Twitter. A delegação canadense na Otan, a aliança militar ocidental, tuitou em forma de mapa, agora viral, a mensagem para os soldados russos que estão entrando “acidentalmente” na Ucrânia, como está mostrado acima. Está dito com todas as cores onde estão as fronteiras de cada país. A Crimeia, anexada pelos russos em março, não está no vermelhinho, como no contramapa que Moscou estampou na agitprop contra os bravos canadenses.

As coisas estão fluidas e no jogo semântico existe uma preferência em muitas partes em falar em “incursão” e não em “invasão” (e, para russos, é uma “excursão, na sacada do leitor Ronaldo). Uma definição semântica em torno da expressão invasão exige respostas mais definitivas ao desafio da agressão russa. Barack Obama se esquivou de utilizar o termo em entrevista na quinta-feira, assim como seus principais aliados ocidentais. Obama foi incisivo apenas para reafirmar que não haverá uma resposta militar dos EUA contra a “incursão” russa no país-irmão, que insiste em desertar para a família europeia.

A “incursão” de Putin é um desafio espinhoso para o Ocidente, especialmente para a União Europeia, que prefere agir em uma zona cinzenta, avançando nas sanções contra a Rússia devido à sua escalada ucraniana, mas sem encarar o urso frontalmente. E como fazer isso? A Europa é o pós-guerra (embora comece a admitir que havia um falso senso de segurança). O problema é que o urso segue provocando. E vai continuar, pois arriscar na Ucrânia é muito mais crucial para Putin (para assim manter o país na órbita russa) do que para o Ocidente trazê-la para a sua área de influência.

A Otan, da qual participa a delegação canadense do tuíte sarcástico, prefere esta zona cinzenta. Também trata a desenvoltura russa não como invasão e sim como incursão. E aqui em meio ao diversionismo semântico de alguns países da Otan (não todos, pois os vizinhos de Moscou não medem palavras), é preciso reconhecer o alcance ainda limitado das mentiras e agressões russas. O objetivo de Moscou, por ora, é impedir que as forças do governo ucraniano derrotem os rebeldes separatistas. A ambição não é um assalto em larga escala. A derrota dos rebeldes significaria um sério revés doméstico para nosso homem em Moscou. Afinal, ele se enrolou na bandeira nacionalista e prometeu mais do que pode cumprir.

Eu ainda acredito ser inviável uma vigorosa invasão russa, mas meio que por acidente as coisas acontecem. Não adianta mostrar o mapa e suas cores.

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Leitores trouxeram bons comentários e bons trocadilhos, mas a colher de chá vai para o Canadá, que inspirou esta coluna.

 

 

28/08/2014

às 6:00 \ Abbas, Cisjordânia, Gaza, Israel, Netanyahu

A derrota hoje do Hamas e amanhã de Israel

A triste celebração infantil em Gaza

A triste celebração infantil em Gaza

Na coluna de quarta-feira, eu lancei a aposta: quanto tempo vai durar a trégua de Gaza? Pobre de mim, viciado no assunto, não consegui dar uma trégua e cá estou na mesmice. Culpa de Avi Issacharoff, do site Times of Israel, do qual eu sou dependente. Para mim, ele vai no ponto com sua análise sobre a derrota do Hamas e a derrota que se avizinha também para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Issacharoff argmenta que a derrota para os radicais islâmicos do Hamas foi “humilhante”. Não podemos ser enganados pelas imagens manufaturadas de celebração em Gaza, que se seguiram ao anúncio de cessar-fogo na terça-feira. O grupo terrorista que controla Gaza pode arrotar algumas vitórias: capacidade de disparar foguetes até o último momento, assim como de perseverança (ao preço de convidar Israel para empreender maciça destruição, além do custo humano).

No entanto, como lembra Issacharoff, Israel não quer destruir o Hamas. Quer, isto sim,  enfraquecê-lo e manter uma política de dissuasão (conhecida como “aparar a grama”). O plano de Israel é manter o Hamas vivo para que sirva como um endereço de liderança em Gaza. E aqui está outra vitória do Hamas. Com as negociações indiretas com Israel, o grupo confirma ser um “player” político.

Agora, para a derrota. O Hamas faz promessas que não pode cumprir. Exige o fim do bloqueio de Gaza (com abertura de porto e aeroporto) e a libertação dos prisioneiros trocados pelo soldado israelense Gilad Shalit que voltaram a ser presos. Basicamente, o Hamas aceitou na terça-feira os mesmos termos de cessar-fogo da guerra de 2012, mostrando-se incapaz de alterar o cenário político e de cerco por Israel e Egito, embora a guerra tenha causado tanta morte e destruição. Na expressão de Issacharoff, o Hamas capitulou. Nada mais deprimente do que treinar novas gerações para o engodo, o martírio e o niilismo, como mostra a foto acima da crianças armadas celebrando a trégua.

E sobre a derrota de Israel, é o seguinte: Os mediadores egípcios (que detestam o Hamas e seus patronos da Irmandade Muçulmana) trabalharam com afinco ao lado de Mahmoud Abbas, líder palestino acampado na Cisjordânia, para costurar o cessar-fogo. Para Abbas, é uma forma de voltar ao centro do cenário, assim como com o seu plano de retomar negociações com Israel nos parâmetros conhecidos de penosas barganhas com vistas à criação de um estado palestino baseado nas linhas fronteiriças anteriores à Guerra de 1967.

E Abbas é a expressão da futura derrota de Israel, o começo da derrota, como escreve Issacharoff. O Hamas não derrotou Israel e não tem como fazê-lo. É verdade que se os ataques com foguetes tivessem causado um pandemônio em Tel Aviv (e não apenas no sul do país), as tropas israelenses teriam avançado para o coração de Gaza. No entanto, aqui vai o alerta de Issacharoff. Caso não ocorra uma guinada da política israelense em relação a Abbas, o cessar-fogo será basicamente isso: uma pausa até a próxima escalada, uma questão tempo.

Netanyahu e o ministro da Defesa Moshe Ya’alon gostam da ideia do Hamas controlando Gaza. Eles não querem reconquistar Gaza ou esmagar o Hamas. Netanyahu prefere o controle do Hamas em Gaza a efetivas negociações de paz com Abbas. O revide poderá acontecer com gestos unilaterais de Abbas para formalizar um estado palestino, o que será inviável na prática, mas renderá pontos diplomáticos. No geral, Israel  faz vista grossa às aberrações do Hamas (“aparando a grama” e assassinando seus dirigentes de tempos em tempos), enquanto trabalha de forma infatigável para minar Abbas. A extrema direita de Israel trata Abbas como um terrorista, enquanto emissários do governo negociam de forma indireta com o Hamas.

O grupo terrorista tem suas fantasias no sentido de que haverá o fim do bloqueio de Gaza nos seus termos. No entanto, Israel também tem as suas, como a exigência de desmilitarização do território. Na conclusão de Issacharoff, Abbas a única pessoa que pode começar a mudar as coisas em Gaza, e para melhor. No entanto, Israel não concede uma oportunidade para ele.  O resultado será mais deterioração econômica em Gaza, o rearmamento do Hamas e uma nova rodada de conflito.

PS- Há informações do jornal jordaniano Al Ghad de que Netanyahu e Abbas tiveram um encontro secreto dias atrás em Amã, patrocinado pelo rei Abdullah. Foi  o primeiro encontro entre os dois em quatro anos. A confirmar, trata-se de uma boa notícia.

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O leitor Pedro Lucas (dia 28, 7:42) madrugou para me denunciar como agente da “propaganda sionista”, por publicar a foto “fake” acima. A colher de chá vai para o fotógrafo Mahmud Hams (AFP/Getty), autor da foto.

 

 

27/08/2014

às 17:09 \ Antissemitismo

Hamas, Hamas; Jews to the gas (II)

Paralelo infame

Paralelo infame

Em sua resposta a um artigo no New York Times sobre antissemitismo na Europa, o capelão da Igreja espiscopal na Universidade de Yale, o reverendo Bruce Shipman, escreveu um carta ao editor, argumentando que o “melhor antídoto” ao antissemitismo é uma nova política de Israel na questão palestina.

Meu guru Walter Russell Mead foi no alvo. Ele rebateu que o “melhor antídoto ao antissemitismo é a constatação entre cretinos que Os Judeus são um grupo de pessoas com opiniões e desejos diferentes, que eles não agem em concerto e que específicos estudantes de Yale, de origem judaica e cidadãos americanos, têm responsablidade zero pela política do governo de Israel”.

Como lembrou Mead (puxa vida, ainda precisamos lembrar), antissemitismo é como racismo: a maioria dos racistas não se consideram racistas. A mesma coisa com os antissemitas. São sintomas de antissemitismo a obsessão com Israel e a denúncia maníaca de violações dos direitos palestinos, enquanto se ignora tanta barbaridade pelo mundo afora.

Mead disse esperar que o capelão tenha escrito cartas ao New York Times denunciando violações muito mais graves e reflita sobre tormentos de cristãos no mundo árabe, de rohingyas em Mianmar, dos tamis em Sri Lanka e vai por aí.

PS- Para quem está confuso com o título, leia a coluna original sobre o tema.

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Claro que a colher de chá é do Walter Russell Mead. 

 

 

27/08/2014

às 6:00 \ Gaza

Quanto tempo vai durar a nova trégua em Gaza?

Celebração palestina não será duradoura

Celebração palestina não será duradoura

Depois de 50 dias de guerra em Gaza e oito tréguas temporárias (nem sempre cumpridas), Israel e os palestinos, sob mediação egípcia, aceitaram uma trégua por tempo indefinido. Digamos que o cessar-fogo persista por dias, semanas, meses ou até por um par de anos. E daí?

Claro que cada dia é um dia sem foguetes palestinos em cidades israelenses ou sem bombardeios israelenses em Gaza. No entanto, continuamos sem luz no fim do túnel. Dificuldades ficarão ainda mais claras em programadas negociações que envolvem exigências palestinas para a suavização do bloqueio de Gaza (como um porto e um aeroporto) e as de Israel relativas à desmilitarização do território.

Na guerra de narrativas, existe o habitual triunfalismo do Hamas, apregoando vitória em mais esta guerra, em meio à sua indiferença pelos danos causados em Gaza, danos causados pela decisão do grupo de sequestrar e assassinar três adolescentes judeus na Cisjordânia, o estopim desta espiral de violência. Com o Hamas no comando, Gaza está condenada às trevas. No entanto, morte e destruição dão sobrevida ao grupo.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, acossado por gente à sua direita por não ter terminado o serviço e por uma população inquieta com o foguetório e terroristas saindo pelos túneis, precisa vender a ideia de que os bombardeios e os assassinatos de dirigentes do Hamas foram golpes devastadores. Já escutamos esta narrativa. A taxa de aprovação de Netanyahu, aliás, despencou nas últimas semanas.

O fundamental é que não existe um farol diplomático no conflito, enquanto soluções militares são ineficazes. O Hamas e outros grupos não vão destruir Israel. Nada disso impede os arrotos retóricos como os do seu porta-voz Sami Abu Zuhri de que os acordos alcançados nas negociações foram uma grande vitória e esta última batalha em Gaza foi “a introdução para a libertação de Jerusalém”. De sua parte, apesar de algumas fantasias da extrema direita, Israel não irá reocupar Gaza e “terminar o serviço”. Temos a persistência do que ficou conhecida como a política de “aparar a grama” no território palestino.

O fato é que qualquer serviço diplomático (diante da impossibilidade de um desfecho militar) exige a participação de Mahamoud Abbas, o desmoralizado líder palestino acampado na Cisjordânia. Abbas é instrumento do presidente egípcio Abdel Fattah al-Sissi (que detesta o Hamas) para projetar propostas diplomáticas mais abrangentes para a crise palestina. Abbas é necessário para enfraquecer o poder do Hamas em Gaza, mas ele tem um preço.

O jornal israelense Yedioth Ahronoth informou na terça-feira que Abbas “deixou claro a todos os lados envolvidos na crise que ele não tem a intenção de assumir responsabilidades em Gaza a não ser que exista um simultâneao processo diplomático que culmine na solução de dois estados baseada nas linhas fronteiriças anteriores à Guerra de 1967″.

David Horovitz, do site The Times of Israel, a quem recorro desde o início desta terceira guerra em Gaza em seis anos, observa que Israel vê como uma oportunidade algum tipo de retorno da facção de Abbas para Gaza, de onde foi enxotada pelo Hamas, e o potencial de alguns progressos diplomáticos na Cisjordânia, mas estima que o líder palestino está exagerando o seu papel. Israel não deve dar uma guinada e e aceitar o que recusou até agora em negociações com Abbas.

Para dar uma medida de como as coisas estão desoladoras, na expressão de Horovitz, enquanto Abbas se considera central para a solução da crise em Gaza, o governo Netanyahu não vê as coisas desta forma. E para os leitores da coluna, esta é a aposta desoladora: quanto tempo vai demorar para aparecer o texto sobre o fim de mais uma trégua em Gaza?

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Merecidíssima colher de chá para o CEO do Instituto Blinder & Blainder. Tem um pessoal que não dá trégua para ele. 

 

 

26/08/2014

às 6:00 \ Antissemitismo, Barbárie, Gaza

Hamas, Hamas; Jews to the gas

Na Alemanha (na Alemanha)

Na Alemanha (na Alemanha)

A coluna de segunda-feira termina com meu I have a dream, meu sonho de mais denúncias contra o antissemitismo, enquanto setores da opinião pública europeia estão mais entretidos em denunciar Israel na guerra de Gaza, tratando com descaso a barbárie do terror islâmico, o genocídio praticado pelo ditador Bashar Assad e as atrocidades cometidas por milícias xiitas no Siraque. Hora de trazer para a conversa o meu afiado guru Jeffrey Goldberg, que alerta para a “lenta rendição da Europa para a intolerância”.

Calejado no seu cinismo sobre antissemitismo europeu (hoje o foco de atividade está entre imigrantes muçulmanos, mas a inspiração está na linguagem e nas tradições do antissemitismo europeu), Goldberg ainda sim confessa sua surpresa com a intensidade e a velocidade da hostilidade. Ela inclui desde o infame slogan que rima Hamas e gás para os judeus em manifestações na Alemanha (eu repito, na Alemanha) a pressões em um supermercado de Londres para que não sejam vendidos produtos made in Israel. Em um primeiro gesto, o gerente retirou alimentos casher das prateleiras. Mais tarde, a direção do supermercado pediu desculpas à clientela judaica.

Existe esta confluência entre judaísmo e Israel. Na expressão de Goldberg, atacar um judeu francês com o solidéu é um sucedâneo para atacar Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel. Os dois são judeus, correto? Goldberg toca num ponto muito inquietante no comentário sobre este movimento global contra Israel. A guerra em Gaza é vista por muitos como uma continuação da Guerra de Independência de Israel em 1948 e não a dos Seis Dias em 1967 (que resultou na ocupação de Gaza e Cisjordânia). Na tradução: muitos manifestantes estão desafiando o mero direito de existência de Israel e não sua política nos territórios (Gaza, aliás, foi devolvida aos palestinos em 2005).

O segundo ponto inquietante: praticamente desapareceu a linha que separa antissionismo (a crença que os judeus não têm o direito a um estado independente na sua terra ancestral) do antijudaísmo. Como diz a historiadora Deborah Lipstadt, “70 anos depois do Holocausto, os judeus não se sentem seguros na Europa”. Recomendo aqui a leitura do seu texto. Aliás, poucas coisas são tão insuportáveis para mim como judeus antissionistas desfilando com a fantasia de descendentes de vítimas do Holocausto.

Lá pelas tantas, Goldberg volta ao incidente no supermercado em Londres, a mesma cidade onde prospera o recrutamento de militantes (os adeptos do jihadismo cool) para o grupo Estado Islâmico, que está cometendo as barbaridades no Siraque. Por alguns cálculos, há mais jovens muçulmanos britânicos combatendo em nome do Estado Islâmico do que no Exército da rainha Elizabeth. Para Goldberg, tem sido lenta a resposta na Europa ao ódio e à intolerância.

A horrenda cena da decapitação do jornalista americano James Foley provavelmente por um jihadista britânico a serviço do Estado Islâmico acelera o tom de alerta e as providências contra o perigo de uma juventude radicalizada na Europa. Sobre as denúncias e a conteção do antissemitismo, eu volto à primeira linha da coluna: I have a dream.

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Pelo acalorado debate matutino na terça-feira, hehehe, colher de chá para General Failure, Rubem e Ronaldo.

 

25/08/2014

às 6:00 \ Barbárie

Muçulmanos protestam contra o terror. Mais, mais, mais.

Protesto contra o terror islámico no Irã. No Irã?

Protesto de iraquianos contra o terror islâmico no Irã. No Irã?

No domingo, VEJA.com destacou uma reportagem sobre uma subcultura jihadista na Grã-Bretanha que seduz os jovens e engrossa as fileiras do grupo terrorista Estado Islâmico. Reportagem pertinente devido ao sotaque britânico do carrasco do jornalista americano James Foley  (o suspeito-chave pelas informações é o rapper Abdel Majed Abdel Bary, de 23 anos) e ao temor do retorno destes jovens para casa para a missão terrorista, depois do estágio no Oriente Médio. É uma subcultura que prospera na Internet, nas redes sociais, vergando-se ao “jihadismo cool”. Ser terrorista no deserto se tornou uma coisa bacana e cosmopolista. E como deve ser combatido o “jihadismo cool”? Para começo de conversa, dentro da própria Internet, das redes sociais. Moçada, it’s not cool!

Sites e blogueiros islamofóbicos na sequência da decapitação de Foley pelo Estado Islâmico, do qual ele era refém, se esbaldaram para despejar suas diatribes, inclusive questionando a integridade do “pobre” jornalista. O tom geral nesta subcultura islamofóbica é apontar a perdição total de uma religião e o estado de negação de dirigentes ocidentais diante do problema.

Sem dúvida, comunidades islâmicas precisam se posicionar vigorosamente contra ensandecidos que falam, decapitam e praticam genocídio em nome de uma religião. Trata-se uma tarefa mais urgente do que nunca para neutralizar a diatribe islamofóbica de que o islamismo é uma causa perdida. Afinal, onde está a maioria moderada, em contraponto ao jihadismo e sua celebração tão cool?

A reportagem de VEJA.com traz as palavras de alerta de lideranças da comunidade islâmica na Grã-Bretanha e o veterano jornalista Bobby Gosh, agora no promissor site Quartz, observa que extremistas -e alguns dos mais sofisticados terroristas – têm usado plataformas da mídia social, mas o Twitter e o Facebook também estão mais sofisticados para se desfazer das ervas daninhas.

É vital que a mídia social também sirva de plataforma para muçulmanos rejeitarem a visão niilista do fundamentalismo islâmico e dos grupos terroristas. Bobby Gosh diz que a ascensão de um culto da morte como o Estado Islâmico foi saudada por um coro de condenação entre muçulmanos no mundo inteiro, que ficou mais barulhento com suas recentes atrocidades no Siraque (Síria + Iraque). O drama é que estas recentes atrocidades também serviram de alavanca para o recrutamento de militantes na Europa. Por este motivo, é preciso ágil convicção de comunidades islâmicas no combate a esta Internacional Jihadista.

Bobby Gosh termina seu texto, dizendo que jamais iremos nos livrar de pessoas que colocam todos os muçulmanos na mesma categoria dos sádicos do Estado Islâmico, mas que a Internet se tornou um espaço vigoroso de condenação islâmica ao radicalismo e ao terrorismo praticado por muçulmanos em nome da religião. Gosto do Bobby Gosh desde os tempos em que ele escrevia na revista Time, mas a foto que ilustra seu texto (e o meu) é enganosa, é constrangedora. Ela mostra iraquianos protestando no Irã contra o terror do Estado Islâmico. No Irã, Bobby, e com os manifestantes carregando fotos do aiatolá Khamenei? No Irã, Bobby, país dominado por uma teocracia que sustenta o terror global, o regime genocida do ditador sírio Bashar Assad e milícias xiitas no Iraque metidas na espiral de violência sectária.

Da minha parte, eu quero um coro ainda muito mais barulhento de denúncia ao “jihadismo cool” (e ao terror islâmico, em geral), assim como de condenação do anti-semitismo que está em alta na Europa.

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Colher de chá para Pablo Vilarnovo (dia 25,10:06), um leitor valioso que some por longos períodos. Vamos ver se fica estimulado a comparecer mais!

 

24/08/2014

às 6:00 \ Hamas

A resistência do Hamas

Na capa dos jornais

Aos olhos do mundo

É a tal sabedoria confuciana: uma imagem vale mais que mil palavras. No entanto, eu vou preencher com algumas centenas de palavras. Está aí em cima a imagem dos verdugos do Hamas em Gaza executando na sexta-feira passada pessoas acusadas de colaborarem com Israel. Algumas das execuções, após “breves interrogatórios e procedimentos da justiça revolucionária”, foram realizadas diante da multidão no meio do dia. Execuções públicas obviamente servem para aterrorizar, saciar a sede de vingança e passar o recado de que a luta continua.

O Hamas se considera um movimento de resistência (e não terrorista). Desta vez, eu vou concordar. O movimento palestino resiste à civilização, resiste à modernidade, resiste à realidade de que o estado de Israel não será destruído por um grupo que nega o direito de um lar ao povo judeu, resiste à esperança de um Oriente Médio melhor e resiste à luz no fim do túnel desde que não seja o sinal de um judeu do outro lado que deve ser morto por ser judeu.

A resistência do Hamas, portanto, é uma escuridão (como os últimos momentos da vida dos três encapuzados na foto acima). Não devemos, porém, cair em duas armadilhas. A primeira: está vendo? Não dá com estes palestinos, com estes árabes, com esta gente no Oriente Médio. Eles são uns bárbaros. Talvez sejam necessários uns mil anos para eles atingirem um estágio decente de  civilização. A segunda armadilha: Israel precisa de carta branca para agir com estes selvagens.

Deve continuar a busca da luz no fim do túnel de gente sem o capuz para negociar, de gente que não resiste à civilização, de gente que não resiste à realidade. Judeus e palestinos estão naquelas terras para ficar para sempre, que não seja até que a morte os separe.

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Coluna não resiste ao espírito família. Colher de chá para Rubem, Orlando e Bastião (dia 24, 16:01).

 

 

23/08/2014

às 6:00 \ Assad, Barbárie, Siraque

No labirinto do Siraque (III)

Vítima do ataque químico em 21 de agosto de 2013

Vítima do ataque químico em 21 de agosto de 2013

Na semana em que os jihadistas ensandecidos do Estado Islâmico ofereceram ao mundo as imagens do decapitado jornalista americano James Foley, é bom lembrar de outras barbáries no Siraque, desoladora mistura de Síria e Iraque. Esta semana foi o primeiro aniversário do uso de armas químicas pelo ditador Bashar Assad contra sua própria população nos subúrbios de Damasco, em um dos momentos mais lancinantes de uma guerra civil, que em três anos deixou quase 200 mil mortos.

Em um texto escrito no site da revista Foreign Policy, Qusay Zakarya escreveu: “Eu sou um sobrevivente dos ataques de armas químicas do ditador sírio Bashar Assad em 21 de agosto de 2013. Há um ano, meu coração parou por 30 minutos depois que eu inalei o gás sarin lançado pelas forças do regime de Assad na minha cidade de Moadamiya, um subúrbio de Damasco”.

Zakarya continua que, um ano mais tarde, ele se lembra dos amigos com tristeza (por algumas estimativas foram 1.500 mortes naqueles ataques com armas químicas), sabendo que o homem que os matou foi poupado do castigo apesar da atrocidade que cometeu. Zakarya avança dizendo que o dia mais triste de sua vida, no entanto, teve lugar três semanas mais tarde, assistindo ao pronunciamento do presidente americano Barack Obama, com o anúncio do acordo dos EUA com a Rússia para despojar a Síria do seu arsenal de armas químicas, ao invés de atacar Assad por suas atrocidades (nennhuma surpresa que Assad negue a responsabilidade e acuse os rebeldes).

De fato, Assad entregou boa parte do seu arsenal, mas, como Zakarya escreve, o ditador encontrou uma nova arma para substituir o gás, que também mata de forma invisível em larga escala. O mundo reconhece esta arma pois os jihadistas ensandecidos do Estado Islâmico a utilizaram na campanha de genocídio da minoria yazidi no monte Sinjar, no norte do Iraque. “Esta arma é a fome”, escreve Zakarya.

Assim como o regime Assad, Qusay Zakarya é um sobrevivente e hoje vive no exílio americano. Ele escreve que desde que chegou aos EUA ficou chocado com o desinteresse da população para discutir assuntos internacionais. Zakarya está correto. O desinteresse significa falta apoio para engajamento em buracos como Siraque. Existe agora uma campanha para conquistar corações e mentes, com o argumento de que o terror do Estado Islâmico representa uma ameaça a americanos e não apenas a aflitos yazidis ou a outros habitantes de paragens distantes.

Qusay poderá ficar ainda mais triste caso os EUA e seus aliados ocidentais concluam que chegou a hora de um pacto com o diabo chamado Bashar Assad para combater os demônios do Estado Islâmico. Reportagens neste fim de semana nos mais importantes jornais americanos dão os detalhes do maquiavélico jogo de Assad. O ditador optou por não combater os militantes do Estado Islâmico, deixando que eles canibalizassem os grupos rebeldes apoiados pelo Ocidente e países árabes, para assim reforçar sua narrativa de que dia menos dia o mundo teria que escolher entre ele e os mais ensandecidos dos jihadistas.

De novo, penosamente, é preciso lembrar que o Siraque não é para principiantes…nem para profissionais.

PS- Os dois textos recomendados sobre o maquiavélico e longo jogo de Bashar Assad são “longos”. Aqui está uma explicação mais abreviada.

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Sábado família: colher de chá para o Victor M Costa e seu neto Erick, garoto vivo do alto dos seus 8 anos (dia 23, 14:18).

22/08/2014

às 6:00 \ Barbárie

Pagar ou não ao terror? Eis o dilema

James Foley (1973-2014)

James Foley (1973-2014)

Dilema e agonia: um governo deve negociar com terorristas a libertação de reféns? Pagar o resgate encoraja mais terrorismo; a recusa pode resultar na morte do refém, como acaba de acontecer com o jornalista americano James Foley, assassinado com requintes de barbaridade e exibicionismo pelos jihadistas ensandecidos do grupo Estado Islâmico (aliás, minha leitora Andrea só escreve o nome desta facção em letras minúsculas).

A política oficial do governo americano é não negociar nem pagar resgate. E se uma empresa privada entra neste jogo para conseguir a liberdade de um funcionário, é processada por financiar terrorismo. De acordo com as informações do ex-empregador de Foley, o site americano Global Post, o Estado Islâmico exigia US$ 132 milhões pela libertação do refém.

Nos porões da vida, tudo é mais complicado. Em maio passado, o governo Obama trocou cinco membros do Taliban pelo soldado Bowe Berghdal, que esteve cativo por cinco anos. E houve o malabarismo do governo Reagan nos anos 80, envolto em profunda crise política e constitucional no escândalo Irã-Contras. O escândalo envolveu o financiamento ilegal e fornecimento de armas aos rebeldes anti-sandinistas da Nicarágua (os “Contras”), assim como a venda ilegal de armas ao Irã dos aiatolás, para conseguir a libertação de sete reféns americanos capturados no Líbano por terroristas patrocinados pelo regime iraniano. O dinheiro obtido com a venda de armas ao Irã foi usado para comprar as armas para os “Contras”.

O esquema rachou o governo Reagan. Entre as figuras contrárias estava o secretário de Estado, George Schultz, que se referiu ao “bazar dos reféns”, quando três que tinham sido libertados foram substituídos por outros três. Leis foram violadas e a imagem de Reagan manchada (com o cenário até de impeachment). O presidente se safou, sua popularidade se recuperou e ele deixou a Casa Branca em 1989 com o índice de aprovação mais alto desde Franklin Roosevelt. A taxa de aprovação de Barack Obama hoje está em baixa e não há notícia de nenhuma tentativa de barganhar pelo jornalista James Foley. A opção do governo americano foi lançar uma operação de resgate que fracassou.

A postura britânica em princípio é igual a dos EUA. O governo de Londres não negocia nem paga resgate. No entanto, faz vista grossa quando empresas privadas e pessoas se mobilizam para conseguir a libertação de reféns. Isto aconteceu, por exemplo, em 2012 no caso de Judith Tebutt que estava nas mãos de terroristas na Somália. Nunca houve um processo.

Outros países europeus são mais desenvoltos para negociar abertamente com terroristas, como França, Itália e Espanha. Basta ver que dois jornalistas franceses que estiveram no cativeiro com James Foley foram libertados. Uma recente reportagem do New York Times revela que a rede Al Qaeda faturou pelo menos US$ 125 milhões desde 2008 com pagamento de resgate.

Israel, como de hábito, age em faixa própria. Seu governo negocia a libertação de seus cidadãos e é capaz de fazer concessões espetaculares. Basta ver que 1.027 prisioneiros palestinos foram trocados por apenas um soldado (Gilad Shalit) em 2011. Israel barganha até a recuperação de restos mortais de seus soldados. Existe o fulminante porém. Israel vai à carga contra quem sequestra seus cidadãos mesmo depois do acordo consumado. Na quinta-feira, o alvo foi Raed al-Attar, em cujo prontuário esteve o sequestro de Shalit. Ele e mais dois comandantes militares do Hamas morreram em um ataque aéreo israelense em Gaza.

Se eu tiver que barganhar entre estas quatro políticas de relacionamento com terroristas, eu me rendo à israelense.

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Colher de chá para Andrea (dia 22, 11:18), uma das leitoras mais queridas do Instituto Blinder & Blainder e dos leitores da coluna.

21/08/2014

às 6:00 \ Barbárie

O espetáculo da barbárie e a dignidade humana

James Foley (1973-2014)

James Foley (1973-2014)

Pouco mais de 12 anos separam dois espetáculos da barbárie do terror islâmico, dois jornalistas americanos, duas decapitações, dois vídeos. Em 22 de fevereiro de 2002, o consulado americano em Karachi, no Paquistão, recebeu o vídeo da execução de Daniel Pearl, o repórter do Wall Street Journal, que fora sequestrado um mês antes por militantes locais e entregue para a rede Al Qaeda. Seu executor foi o superterrorista Khalid Sheikh Mohammed, mais tarde capturado e hoje sob custódia militar americana em Guantánamo.

Um vídeo hoje não precisa ser entregue fisicamente. Na terça-feira, militantes do Estado Islâmico divulgaram no YouTube a execução do jornalista americano James Foley, que estava desaparecido na Síria desde novembro de 2012. Leitores podem perceber como estou evitando adjetivos, hipérboles ou brados de indignação. Será realmente preciso escrever um editorial denunciando a barbárie do terror islâmico?

A situação é tão absurda que existe um debate sobre métodos de barbárie. Divulgações de  decapitações e crucificações são componentes proeminentes na atuação do Estado Islâmico, não apenas como intimidação, mas para o recrutamento de militantes. Trata-se de um corte (sorry, pelo trocadiho) com os métodos da Al Qaeda, que hoje parece um grupo de escoteiros diante dos novos astros da barbárie (meu temor é que a Al Qaeda agora tente recuperar o tempo perdido).

Em 2005, Ayman al-Zawahiri, o então vice da Al Qaeda e hoje chefão da gangue, enviou uma carta a Abu Musab al-Zarqawi, líder do grupo no Iraque (que na sua mutação deu no atual Estado Islâmico), dizendo que não deveriam mais ser divulgadas imagens de execuções de reféns. Nas palavras de Zawahiri: “Muçulmanos nunca vão considerar as imagens palatáveis”. E os não muçulmanos? “Grupos de escoteiros” como Hamas e Hezbollah também evitam a degola.

 

Daniel Pearl (1963-2002)

Daniel Pearl (1963-2002)

Muitos recrutas do Estado Islâmico são jovens criados no Ocidente, que provavelmente assistiram na Internet a vídeos de degola e a outros atos de violência exacerbada antes de se juntarem a grupos extremistas. O assassino que aparece no vídeo com a vítima James Foley tem um sotaque britânico.

Da minha parte, jamais divulgarei imagens de execuções que promovam a causa de terroristas. Sou a favor do blecaute (quixotesco) nas mídias sociais do material de ódio, glorificação da desumanização e propaganda do Estado Islâmico e similares. Aqui um debate sobre a questão da divulgação do espetáculo da barbárie. Minha opção foi pela publicação na coluna de fotos dignas dos dois jornalistas, não sendo atormentados e executados pelos verdugos. Foley e Pearl são símbolos da prática da barbárie, mas não podemos ficar nisso.

Especialmente vulnerável ao terror islâmico por ser judeu, antes de ser ceifado, Daniel Pearl disse: “Em Bnai Brak, em Israel, existe uma rua chamada Haim Pearl, o nome do meu bisavô”. Haim, que, por sinal é o meu nome judaico de batismo, significa vida (tem também a grafia “chaim”). Em um livro sobre Pearl, Bernard-Henri Lévy observou que a frase fora um resgate deliberado de um específico e orgulhoso passado que impediu seus algozes de o reduzirem a um mero símbolo.

Já Foley cresceu em uma família profundamente católica no estado de Nova Hampshire. Em 2011, quando cobria a insurreição na Líbia, ele passou 44 dias no cativeiro, após ser sequestrado por soldados do regime Khadafi. Foley disse que sua fé permitiu que tolerasse a agonia, ao lado de Clare Morgana Gillis, que também era refém. No ano seguinte, Foley foi para a Síria cobrir a guerra civil, sendo novamente sequestrado. No entanto, desta vez…

O jornalista francês Nicolas Hénin, libertado em abril e que foi companheiro de Foley por um tempo no cativeiro, disse que ele foi submetido a um tratamento particularmente brutal pelos terroristas por ser americano.

Que em todas as partes do mundo, além de meramente viverem, jornalistas como Daniel Pearl e James Foley possam trabalhar com segurança, liberdade e dignidade.

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Colher de chá antecipada para jornalistas que trabalham em condições perigosas, especialmente na Síria, ameaçados por jihadistas e pelo regime Assad. De acordo com o Comitê de Proteção dos Jornalistas, desde 2011 morreram 69 jornalistas na Síria em razão do conflito. Pelo menos 20 estão desaparecidos.

 

 

 

 

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