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Final infeliz para todos: Espanha e Catalunha batem cabeça

Aos olhos do mundo e dos envolvidos diretos, o racha se consumou com um plebiscito ilegal, mas legitimado, e repressão legal, mas repudiada

Por enquanto, o pior dos mundos prevaleceu. Senhoras de idade agredidas, cidadãos ensanguentados e jovens arrastadas pelos cabelos levaram a quem chegou de repente no debate sobre a independência da Catalunha a imagem de um povo que só queria depositar seu voto e exercer o direito à autodeterminação, mas levou pancada da polícia.

Não importa que as três palavras-chave acima mencionadas – independência, voto e autodeterminação – não se enquadrem nas regras do jogo tais como definidas pela constituição, o tribunal encarregado de dar a interpretação final e mesmo as instituições internacionais.

Não importa que a polícia tenha agido com amparo legal para impedir um referendo ilegal. O uso da força contra cidadãos desarmados que não estão praticando agressões provoca repúdio automático.

Não importa que a própria votação tenha sido feita sem nenhum tipo de controle sobre cédulas, listas de eleitores, circunscrições específicas e fiscalização. A declaração de independência já estava decidida muito antes da votação.

O “monólogo patético de uma minoria cega e surda à racionalidade”, na definição de Mario Vargas Llosa, o fenomenal escritor peruano que se tornou espanhol e conhece Barcelona desde o tempo em que a secessão era coisa de “nacionalistas reacionários”, ganhou vida própria e uma manto de legitimidade.

Aos olhos do mundo e de si mesmos, os catalães separatistas se tornaram a encarnação real de uma narrativa que exagera a vitimização com base nas tragédias do passado. E a Espanha, uma democracia avançada, reencarnou como sinistra entidade repressora.

“Franquismo” e “fascismo” ressurgiram nos discursos, com assustadora facilidade. Comentaristas de esquerda lamentaram o uso abusivo da palavra “fascista”, jogada como uma pedra qualquer por muitos independentistas contra qualquer manifestação de divergência.

Há apenas alguns meses, numa triste ironia, a mesma palavra era empunhada com facilidade contra Donald Trump nos mesmos jornais que agora ficam horrorizados, com razão, quando se descobrem no papel de telhado.

Dois milhões de catalães votaram pela independência, a maioria esmagadora dos 43% que participaram do referendo. Ainda assim, uma minoria em relação aos 3,3 milhões que não foram votar.

Todos terão que conviver sob as novas regras. Quem paga os funcionários públicos? Emite passaportes? Libera exportações? Honra contratos? Tem representação na ONU e na União Europeia?

Quanto ao restante da Espanha, como num dos mais alucinantes episódios da conquista do império asteca, os navios foram afundados.

Qualquer tentativa de acomodação, como a convocação de eleições reconhecidas, soa como fazer um curativo num paciente com politraumatismo. Cabeças quebradas substituíram cabeças frias, se é que estas ainda existiam.

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