William Shakespeare: o poeta dos fragmentos

As frases mais famosas de William Shakespeare já fazem parte do cotidiano de quase todo usuário da internet. Presença garantida em redes sociais como Facebook e Twitter, o bardo deve se revirar no túmulo toda vez que vê uma parte de sua obra estampada como frase de efeito. Em uma proposta que provavelmente seria mais agradável a Shakespeare, o poeta e roteirista Geraldo Carneiro lança O Discurso do Amor Rasgado (Nova Fronteira, 136 páginas, 39,90 reais), que tenta contar uma história de amor com fragmentos de textos do inglês: o começo da relação, com a devida sublimação da pessoa amada, os desenvolvimentos problemáticos e o fim trágico.

A ideia, ousada por deslocar e rearranjar trechos de um dos maiores escritores da literatura mundial, acaba se tornando problemática. A história criada pelo tradutor não fica clara, o que dá margens a questionamentos sobre os critérios para seleção dos fragmentos. A impressão é a de que Carneiro escolheu as partes mais impactantes, com a intenção de apresentar aos leitores apenas os momentos-chave na obra do bardo. O processo que culminou com esses momentos — e que é igualmente importante numa história — não ganha espaço no livro.

Carneiro, roteirista do remake de O Astro, novela de Janete Clair, traduz Shakespeare há 30 anos e tenta fugir de palavras complicadas e da erudição. Para ele, alguns tradutores até se valiam de vocabulário difícil de ser compreendido 20 ou 30 anos atrás, mas os profissionais agora procuram ser mais claros e o país vem avançando nas versões brasileiras de Shakespeare. “Eu tenho a impressão de que daqui dez ou vinte anos o Brasil terá um acervo de boas traduções. Estamos no meio do caminho”, disse.

O poeta figura dentre os nomes da poesia marginal, movimento dos anos 1970 que defendia uma linguagem mais espontânea, como a predominante durante o primeiro momento do Modernismo brasileiro, levado adiante por escritores como Oswald de Andrade e Mario de Andrade. Mas, de acordo com Carneiro, as limitações da poesia marginal foram responsáveis por sua tentativa de “esconder a métrica” de suas traduções de Shakespeare. “Não era muito chique o camarada gostar de métrica. São essas modas literárias, a cada quinze anos tudo muda.”

Confira a entrevista de Geraldo Carneiro ao blog VEJA Meus Livros.

 

De onde veio a ideia do livro? Há 30 anos eu traduzo Shakespeare. O primeiro texto que trabalhei foi A Tempestade, a última peça que ele escreveu e que foi encenada em 1982, no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Depois disso, me encomendaram a tradução de muitas outras peças dele, como Trabalhos de Amor Perdidos, Antonio e Cleópatra, Romeu e Julieta e, recentemente, o Juca de Oliveira me pediu para verter para o português O Rei Lear. Desse trabalho, eu tive a ideia de reunir em livro os fragmentos amorosos extraídos de textos do Shakespeare. Sou poeta também, então seria praticamente impossível não traduzir as coisas dele, que são tão poéticas.

Qual recorte o livro traz para a temática amorosa de Shakespeare? O livro fala do começo das relações amorosas e vai seguindo até chegar ao final trágico dos amores. É um roteiro que imita uma paixão verdadeira, com os diversos protagonistas shakespearianos. Eu sempre soube que iniciaria a publicação pelo Soneto 76 e terminaria com o Soneto 116; queria também inserir trechos de Romeu e Julieta e Antonio e Cleópatra. Traduzi alguns fragmentos novos e fiz grandes alterações em textos que já havia trabalhado, muitas delas sugeridas pela professora de literatura inglesa e especialista em poemas de Shakespeare Fernanda Medeiros.

Por que o título contém o termo ‘amor rasgado’? Amor rasgado é aquele que ousa se expor sem subterfúgios. O título talvez ecoe um pouco o livro do Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso.

Na nota introdutória do livro, o senhor diz que a permanência de Shakespeare se dá pela força de suas palavras, sobretudo as de amor. Por que esse discurso se tornou inesquecível? Ele tem uma visão muito rica do ser humano, multifacetada. O crítico literário Harold Bloom diz que Shakespeare praticamente inventou o ser humano moderno e, embora eu ache isso um pouco exagerado, considero que ele realmente sintetizou diversos tipos humanos através de seus personagens. É um dramaturgo que nos representa no que temos de melhor, de pior, de pitoresco, de mais grotesco, de mais ridículo. Tudo isso faz dele um retratista espetacular, talvez inigualável.

O que acha das traduções que são feitas de Shakespeare para o português? Se uma pessoa fosse procurar uma tradução boa há 30 anos, seria difícil encontrar. Eu comecei nessa área por causa disso, os grupos de teatro me pediam encarecidamente para traduzir porque não havia texto de qualidade para as montagens. Atualmente, existem versões muito boas, como as do Millôr Fernandes. Hoje tem cada vez mais gente no Brasil que se dedica a estudar academicamente a tradução shakespeariana. Eu tenho a impressão de que daqui dez ou vinte anos o Brasil terá um acervo de boas traduções. Estamos no meio do caminho.

No livro, o senhor afirma que quer passar longe de termos eruditos demais. Qual o problema que o senhor enxerga nisso? Shakespeare usava um vocabulário muito vasto com palavras que nem ele próprio sabia direito o que significavam. Então, é uma tentação para o tradutor metido a erudito usar palavras raras, difíceis de serem compreendidas, e isso aconteceu muito há 20 ou 30 anos. Eu sempre procuro o entendimento, sem baratear o texto nem torná-lo simplório ou pobre. Essa é minha estratégia como tradutor. Seria um crime complicar Romeu ou Marco Antônio, por exemplo, personagens praticamente transparentes na sua fala sobre o amor.

Há algum aspecto do texto que deve ser privilegiado ao traduzir uma obra? Tudo, tem que ter tudo. Métrica (medida do verso), rima, o sentido, a beleza. Nas primeiras traduções, eu tinha vergonha de escrever com métrica, eu fingia que era prosa, com os decassílabos escondidos. Depois fui perdendo a vergonha e, hoje, eu tenho vergonha do contrário.

Por que tinha vergonha? Era um tempo em que os decassílabos (versos com dez sílabas poéticas) ou os pentâmetros iâmbicos (versos decassílabos com ênfase nas sílabas pares) não eram muito bem vistos, era a época da poesia marginal. Não era muito chique o camarada gostar de métrica. São essas modas literárias, a cada quinze anos tudo muda.

Nesse sentido, o senhor acha que a poesia brasileira está em um bom momento? Acho que sim. Algo que me agrada muito é não ter a dominância de certa poética sobre as outras. Por exemplo, no concretismo, tudo deve ser concreto, na geração de 45, tem que predominar um tipo de formalismo, no modernismo, tudo tem que ser transgressor. Acho esses momentos muito limitadores, porque cada poeta tem a sua dicção, a sua voz e, por mais que a gente tenha sido influenciado pelas escolas, acho que essa voz se forma exatamente pelas diferenças e não pelas semelhanças com essas predominâncias.

Meire Kusumoto

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