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Quadrinhos na Cia.

10/03/2011

às 17:37 \ Quadrinhos

Cotidiano inspira romances gráficos recém-lançados

Em 'Ordinário', Rafael Sica explora o insólito do cotidiano. Clique para ampliar

Como ocorre em boa parte das melhores graphic novels – os romances gráficos, histórias em quadrinhos com tonalidade literária – o cotidiano, em vez de mundos fantasiosos ou extraordinários, é materia-prima para dois belos lançamentos: 676 Aparições de Killoffer (Leya Cult) e Ordinário (Quadrinhos na Cia.), o primeiro do francês Patrice Killoffer, o segundo do gaúcho Rafael Sica.

Caos – Na história de Killofer, o protagonista passa uma temporada no Canadá, de onde lembra da pilha de pratos deixada suja na pia de seu apartamento, em Paris. A lembrança dá início a uma torrente de solilóquios sobre a vida adulta, com reflexões sobre as responsabilidades profissionais e a dificuldade no relacionamento com as mulheres.

A partir de desenhos dispostos fora da seqüência tradicional das HQs, mendigos, bêbados e garçons, além das já citadas mulheres, se cruzam pela diagonal ou em quadros dispostos de cima para baixo, compondo o cenário de uma cidade labiríntica. Traços e textos se somam e atropelam num discurso loquaz. Há muito de literatura beatnik na obra de Kiloffer, que em 1990, sem ter onde publicar os seus quadrinhos, fundou uma pequena editora na França e hoje é considerado um dos principais nomes das HQs francesas.

Silêncio – Em Ordinário, de Rafael Sica, dá-se o oposto. Sem nenhuma palavra e com força de concisão incrível, o quadrinista gaúcho organiza um enredo sobre tristeza e solidão numa metrópole sem nome, permeado por um tipo de humor – a ironia melancólica e auto-depreciativa – que o aproxima do argentino Liniers, de Macanudo.

Há o personagem abatido em pleno ar quando salta para um vôo livre e surrealista; outro que a todos destrata com grunhidos caninos e que chora sozinho como um filhote em casa à noite. Há também telhados, ruas e bueiros da cidade vistos como partes vivas e em interação com as pessoas.

Esmerado em síntese, Sica consegue criar narrativas tão complexas quanto pequenos contos em sequências curtas de dois a cinco quadros, onde se reconhecem tipos literários como o louco, o deprimido e o carente. São elementos de força expressiva condensados em tirinhas que, apesar de diversas das de Kiloffer, guardam em comum com elas o olhar aguçado sobre o cotidiano.

Histórico – A demanda por quadrinhos literário, iniciada muito antes na Europa e nos Estados Unidos, surgiu no Brasil nos anos 80, mas apenas nos últimos anos atingiu números respeitáveis de publicação e venda.

'676 Aparições de Killoffer': Brasil recebe título badalado no exterior. Clique para ampliar

Em 2010, os dois volumes da série Scott Pilgrim Contra o Mundo (Quadrinhos na Cia.), que foi adaptada para o cinema, venderam 20.000 exemplares em aproximadamente seis meses. Para efeito de comparação, livros de escritores laureados com importantes prêmios literários não raro são lançados no mercado em tiragens de 5.000 cópias, esgotadas apenas ao fim de anos de exaustiva exposição nas lojas. Em termos numéricos, pode-se ver, os quadrinistas já não devem nada aos escritores. Em termos de qualidade, também, uma vez que a produção nacional, incentivada pelo interesse cada vez maior das editoras e acompanhada da importação de obras de valor reconhecido, ganha solidez.

Foi-se o tempo, como aconteceu a Killoffer, em que os quadrinistas precisavam criar as suas próprias casas editoriais para publicar as obras. Os romances gráficos viraram mainstream.

Rodrigo Levino

10/03/2011

às 17:29 \ Entrevista

Killoffer: o Brasil é um país de possibilidades para as HQs

O francês Patrice Killoffer, autor de 676 Aparições de Killofer, fala a VEJA Meus Livros.
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Em 676 Aparições de Killoffer, tudo é vertiginoso: os quadrinhos não seguem uma ordem-padrão, são livres. Isso foi algo previamente pensado ou esse ritmo se impôs à medida que a criação avançou?
Para dizer a verdade, esse é um livro apaixonado. Não apaixonado por mim. O princípio da “desmultiplicação” e da supressão de histórias vem do fato de que, um dia, eu me apaixonei por uma garota. Eu lhe enviei cinco páginas baseadas nesse princípio. Cinco páginas até então inéditas. Acredito que esse livro fale sobre a vontade de se apaixonar.

Atualmente, há muitos quadrinhos com elementos autobiográficos, principalmente no mercado americano. 676 Aparições de Killoffer faz parte dessa tendência?
(O quadrinista holandês) Willem, no ano em que este livro nasceu, fez uma crítica sobre a obra no (jornal) Libération. Eu me lembro bem, pois Willem é alguém importante para mim e porque sua crítica foi bastante concisa. Ele dizia: “Um livro para acabar com a autobiografia. E já estava na hora”. Foi principalmente o asco pela autobiografia que me levou a esse resultado – a lassidão de ser, contrariamente ao que uma primeira leitura superficial possa nos fazer crer.

Este é um momento importante para os quadrinhos no Brasil. Os autores encontraram seu espaço na imprensa e nas grandes editoras. Porém, muitos deles permaneceram anos à margem do mercado editorial, com um público muito restrito. Como acontece na França? O senhor encontrou dificuldades para publicar suas obras?
Para publicar meu trabalho, eu simplesmente criei minha própria editora, ao lado de alguns amigos. Foi numa época em que, na França, isso se tornou uma necessidade diante do estado do mercado e do espírito dos editores. Não acredito que eu teria continuado a tentar fazer quadrinhos se o grupo não tivesse sido criado.

O senhor já visitou o Brasil e conheceu aqui alguns quadrinistas. Que impressão teve do trabalho deles?
O Brasil me pareceu um país de possibilidades. Os autores brasileiros, também. E isso me traz uma mensagem de esperança e otimismo – o que é raro nos tempos atuais. Todos aqueles com quem cruzei me deixaram esse sentimento de potencialidade: não me pareceram “consumados”, mas, sim, cheios de vida.

Rodrigo Levino

02/07/2010

às 17:08 \ Livros da Semana, Quadrinhos

Daniel Galera, ‘Cachalote’ e a prosa em quadrinhos

A recém-chegada Cachalote (Quadrinhos na Cia., 280 páginas, 45 reais) é a estreia em HQs do escritor Daniel Galera, nome que vem se firmando na estante de frente da literatura nacional. E se beneficia do lastro literário do autor. Em parceria com o cartunista Rafael Coutinho, que se distancia da sombra do pai Laerte com um traço dotado de personalidade, Galera faz de Cachalote uma prosa em quadrinhos. Em suas páginas não numeradas, o livro conta seis histórias – uma delas apenas abre e fecha o livro – que não se cruzam, mas têm em comum presonagens densos em momentos de crise e lacunas capazes de sugerir sentidos ao leitor. A experiência já anima Galera a arriscar novo projeto na área. “Provavelmente com o Rafa”, diz ao blog VEJA Meus Livros em conversa que você confere abaixo. Vale lembrar: já lançada em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, Cachalote terá lançamento em Curitiba no próximo dia 14, a partir das 19h, no Itiban Comic Shop.


É possível traçar semelhanças entre a narrativa do romance e a da graphic novel?

O romance e a graphic novel representam coisas muitos parecidas nos domínios da prosa e dos quadrinhos, respectivamente – histórias de maior fôlego, com personagens e cenários bem variados, mutas vezes com vários protagonistas, permitindo uma construção lenta e elaborada da narrativa, e também abrindo espaço para experiências com a linguagem. A tradução literal de graphic novel é romance gráfico, então, a semelhança já nasceu com o próprio termo.

De que recursos vocês lançaram mão para construir personagens com densidade?
O enfoque é exatamente o mesmo: procurar imaginar personagens ambíguos, redondos, que enfrentam algum conflito interessante para o leitor, e que ganham vida aos poucos. Os personagens crescem melhor a partir do que eles próprios fazem e dizem, não do que o autor ou narrador diz sobre eles. Isso vale para qualquer gênero narrativo.

Acredito que, nesse momento, o ilustrador também entre em ação. O que cabe ao escritor e o que cabe ao ilustrador, na construção de um personagem?
Cada profissional e dupla deve ter seus próprios métodos de trabalhar em conjunto. No caso meu e do Rafa, a criação dos personagens e dos enredos foi totalmente colaborativa. A gente colocou as ideias de cada um na mesa de bar e fomos trabalhando em cima dessas faíscas iniciais em várias reuniões, desenvolvendo os personagens que os dois acreditavam ter mais potencial, descartando os que não pareciam tão promissores. A diferença é que, no caso de uma HQ, a concepção visual do personagem pesa bem mais, uma vez que ele estará visível graficamente ao leitor quase o tempo todo, enquanto na literatura essa aparência pode ser apenas insinuada ou até mesmo omitida, deixando muita coisa para a imaginação do leitor. Muita coisa de que o texto precisaria dar conta num romance já foi resolvida pela ilustração na HQ, e o elemento visual precisa ser explorado o tempo todo do ponto de vista do roteiro. Não há necessidade de criar texto para mostrar que um personagem é um ator decadente, por exemplo: uma ou duas ilustrações bem pensadas transmitem essa mensagem de forma contundente.

Como foi o processo criativo, neste caso, você escreveu o roteiro e depois os diálogos ou fez uso de uma story-line?
Depois de várias reuniões com muitas anotações e esboços, nas quais criamos os personagens e as histórias, eu escrevi uma primeira versão literária do roteiro, colocando as histórias em detalhes no papel. Depois fomos formatando isso num roteiro mais técnico, apropriado às HQs, com separação por páginas e quadrinhos etc., e com isso fomos também reinventando as histórias e acrescentando coisas. A partir do roteiro técnico, o Rafa desenhou storyboards de todo o livro, e nesssa etapa também modificamos muito o material, o que me forçou a mexer o tempo todo no roteiro. Por fim, com storyboards de todo o livro e um roteiro definitivo, as páginas foram sendo finalizadas pelo Rafa.

Você pretende fazer mais trabalhos em quadrinhos?
Adoraria. Provavelmente com o Rafa, de novo.

E um novo romance, há algum projeto em vista?
Sim, já estou trabalhando num novo romance desde outubro de 2009, mas ainda está numa fase muito inicial e não posso dizer muita coisa. Deve ficar pronto só em meados de 2011.

Diz-se que um bom escritor precisa ser um bom leitor. O mesmo é válido para um escritor de quadrinhos?
Certamente. Acho que vale pra qualquer tipo de criação artística.

Você sempre leu quadrinhos?
Li desde criança, e gostava muito de Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, desde os 8 ou 9 anos, e depois Calvin e Haroldo, Groo, revista Mad. Não acompanhava muito as séries de heróis, mas comprava todas as graphic novels, como O Cavaleiro das Trevas e Elektra Assassina, do Frank Miller, ou Skreemer etc. Adorava também o Will Eisner e o Robert Crumb. A partir de meados da década de 1990, me liguei mais nas graphic novels europeias e americanas de recorte mais alternativo, caras como Charles Burns, David B., Daniel Clowes, Christophe Blain… alguns asiáticos, como Yoshihiro Tasumi… e por aí vai.

O ator decadente que Daniel Galera cita na entrevista


Maria Carolina Maia

 

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