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A Canção de Aquiles

15/06/2013

às 8:57 \ Livros da Semana

Aquiles sai do armário em romance baseado na ‘Ilíada’

Por Raquel Carneiro

Perene e fascinante, a mitologia grega e seus personagens que combinam características divinas e humanas são um prato abundante de referências e inspirações que os mais diferentes autores não cansam de usar em livros e filmes. Algumas dessas obras inspiradas nas obras de outrora são tão bem produzidas que fariam Homero chorar de orgulho. Já outras, infelizmente, o fariam revirar no túmulo – se é que Homero realmente existiu, assim como a sua tumba. A Canção de Aquiles (tradução de Gilson César Cardoso de Souza, Jangada, 390 páginas, 39,90 reais), romance de estreia da americana Madeline Miller que chegou há pouco ao Brasil, pode ser encaixado com tranquilidade no primeiro bloco. O livro, que entrou na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times e ganhou o prêmio Orange de literatura em 2012, traz uma narrativa moderna baseada no poema Ilíada, atribuído a Homero.

Na epopeia, gregos de diversos reinos, unidos por um antigo juramento, precisam proteger Helena, a mulher mais bonita do mundo, princesa de Esparta e filha de Zeus com uma mortal. Toda a história é contada pela ótica de Pátroclo, amigo íntimo do guerreiro e semideus Aquiles. Antes de assumir tal posto, Pátroclo viveu dias difíceis. Foi preterido na infância pelo pai, o rei Menécio, e deserdado do posto de príncipe após matar um garoto em um acidente. Exilado, foi acolhido por Peleu, pai de Aquiles, no reino de Fítia.

É nesse novo lar que ele desenvolve uma profunda e confusa admiração por Aquiles, que mais tarde se torna uma intensa paixão. Para descrever as emoções do narrador, Madeline Miller se vale dos mais variados sentidos. Sentimentos passam a ter cor, gosto, cheiro. É fácil perceber pela leitura o amor que Pátroclo sente por Aquiles. Cada detalhe do corpo, das feições e das atitudes do guerreiro são detalhadas ao longo das páginas pelo ponto de vista do observador apaixonado, que enxerga até mesmo uma aura de luz em volta de seu objeto de desejo.

Após anos de amizade, do fim infância ao início da adolescência, a paixão é finalmente correspondida. No entanto, manter o namoro em segredo se torna uma tarefa impossível, já que a mãe de Aquiles é a deusa e ninfa do mar Tétis, que tudo vê e que não gosta nada da relação homoafetiva do filho. Em seu histórico, Tétis foi desejada até mesmo por Zeus, mas quando recebe a profecia de que o filho que geraria seria maior que o pai, Zeus prefere que ela se envolva com um mortal, para evitar concorrência no Olimpo. A deusa então engravida, contra a sua vontade, do rei Peleu e gera Aquiles, que estava destinado a ser o maior entre os gregos e por isso venceria a Guerra de Troia.

Liberdade na adaptação – A Canção de Aquiles não é totalmente fiel à Ilíada, mas mantém grande parte da história intacta. A autora se dá até mesmo o direito de fazer referências irônicas à epopeia original, como quando comenta que canções estão sendo feitas para falar sobre a guerra e que mais de mil navios são descritos no poema, enquanto na realidade as naus não passam de algumas centenas, o que não soaria épico o suficiente. No mais, as principais mudanças são a reformulação da história por um novo ponto de vista – lembrando que Pátroclo é um personagem secundário no texto de Homero –, e a revelação da relação homossexual entre ele e Aquiles, algo que já provocava desconfianças no texto original.

Ao longo das quase 400 páginas, a autora recupera dezenas de personagens e trabalha suas histórias com mais detalhes, dentro da importância que cada um merece e a partir do ponto de vista do novo narrador. Alguns que ganham destaque são o professor centauro Quíron, o rei e sábio Odisseu e a escrava Briseida.

Além de escritora, Madeline Miller é professora de latim e grego, e atuou no departamento de dramaturgia da Yale School of Drama, onde adaptava textos clássicos para formatos mais modernos. Com esse know-how, aliado a um amplo conhecimento e pesquisa, não só de Ilíada, mas também das obras que fazem parte do mesmo universo, e um processo de escrita que levou dez anos para ser concluído, é a combinação que faz de A Canção de Aquiles um livro que vale a pena ser lido, tanto pelos fãs de mitologia grega quanto pelos que mal a conhecem.

A atualização da linguagem não diminui a importância da obra, só a torna mais envolvente. E antes de categorizá-lo como um livro de guerra, seria mais adequado chamá-lo de uma ode ao amor, que mistura a luta emocional e social pela necessidade de ficar junto a quem se ama, com a luta sangrenta de uma fria e desnecessária guerra.

“Aquiles estava deitado de lado, olhando para mim. Eu não o ouvira se mexer. Nunca o ouço. Permanecia completamente imóvel, naquela imobilidade que era só dele. Respirei fundo e senti a superfície lisa do travesseiro entre nós.

Ele se inclinou para mim.

Nossas bocas se aproximaram, entreabertas, e a doçura tépida de sua garganta invadiu a minha. Eu não conseguia pensar, não conseguia fazer nada exceto sorver cada alento seu, cada movimento suave de seus lábios. Era o êxtase.

Eu tremia receoso de afugentá-lo. Ignorava o que ele queria que eu fizesse. Beijei-lhe o pescoço e toda a extensão do peito, que tinha gosto de sal. Aquiles se intumescia, parecendo amadurecer como um fruto ao meu toque. Cheirava a amêndoas e terra. Apertou-se contra mim, esmagando-me os lábios.”

 

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