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1922 – A Semana que Ainda Não Terminou

10/02/2012

às 22:02 \ Entrevista, Livros da Semana

‘Semana de 22, o mito fundador da cultura moderna nacional’

Foto de Renato Parada

 

No próximo dia 13, se completam 90 anos da Semana de Arte Moderna que sacudiu o cenário cultural paulista e, em ondas concêntricas, deu uma boa mexida em toda a cultura nacional. Para lembrar o evento e pontuar com exatidão que fatores permitiram a sua eclosão, bem como os efeitos que ele teve sobre o restante do país, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves levou três anos pesquisando e escrevendo 1922 – A Semana que Não Terminou, cujo título faz referência a 1968 – O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Mas uma referência brincalhona, aliás bem ao gosto de Oswald Andrade, que se valia das blagues para desconstruir os academicismos que ainda dominavam os meios culturais no começo do século XX. Embora, como mostra Gonçalves neste livro, já houvesse outros intelectuais antes da Semana de 1922 interessados em buscar caminhos alternativos aos rígidos rumos apontados pela academia. A Semana de 1922 não foi totalmente original em suas propostas, mas sem dúvida deixou uma forte contribuição para o país. A do mito de fundação capaz de insuflar e produzir a história. Confira abaixo a entrevista do autor a VEJA Meus Livros.

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O título 1922 – A Semana que Não Terminou é similar ao do livro 1968 – O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura. É de propósito? Sim, foi de propósito. O título veio à minha cabeça como um chiste. Comentei com o pessoal da editora e ele ficou como uma brincadeira, um título provisório que depois seria substituído. No final, acabou ficando. Ele também ecoa o 1822, do Laurentino Gomes… Zuenir foi meu mestre e primeiro chefe numa redação. A Semana, um pouco como os acontecimentos de 1968, manteve-se viva como mito e como influência real sobre a cultura brasileira ao longo desse tempo.

Pensando na Semana de 1922 como um mito, ela pode ser considerado o mito de fundação da cultura nacional como se configurou a partir da década de 1920? Sim, o mito da criação da cultura moderna brasileira.

De que maneira a Semana de 1922 mudou a cultura nacional? Eu não diria que a Semana mudou a cultura nacional. Acho que aquelas noites que aconteceram no Teatro Municipal de São Paulo na realidade refletiam um processo de mudança que vinha já de alguns anos antes, tanto na São Paulo de Anita Malfatti e Mário de Andrade como no Rio de Villa-Lobos ou no Recife de onde nos veio Manuel Bandeira. Mas não há dúvida de que o modernismo deixou um legado importante. Tanto de liberdade de pesquisa e ampliação dos horizontes da arte quanto na concepção antopófaga de uma cultura que é ao mesmo tempo brasileira e internacional.

Chama a atenção, na leitura do livro, as contradições da Semana de 1922, como o desejo de investir em algo brasileiro versus a importação das novidades europeias, o desejo de romper com o passado versus o patrocínio dos barões do café, e mesmo o retorno de Anita Malfatti às formas clássicas, logo após a Semana. As contradições são a grande característica do evento? Sim, há muitas contradições na Semana, que não foi tão moderna assim, e na formação de nosso modernismo. No livro, usei a expressão “modernismo de compromisso”, ao falar da Semana, justamente para ressaltar essa característica tão brasileira que estava presente no evento, que é romper sem romper e buscar conciliar extremos nem sempre conciliáveis. E eram muitos os compromissos – ou as contradições. O novo convivendo com o velho, o elemento transformador com o conservador, o futuro com a tradição.

A que podemos atribuir o patrocínio dos barões do café à Semana de 1922, ao descompasso entre o crescimento econômico e a ainda pouca ilustração de São Paulo? Havia um desejo de dar verniz cultural ao estado? São Paulo já detinha considerável parcela do poder econômico e político no Brasil. Era o estado mais próspero e sua elite também tinha ambições de liderança intelectual. A chamada metrópole do café era a cidade emergente do país. Tinha, em 1922, 600.000 habitantes, metade da população do Rio, que era o grande centro. A nova geração, em sintonia com setores da elite cafeeira, queria afirmar a importância histórica e cultural da Pauliceia, relativizar o poder da Corte (como Mário de Andrade se referia ao Rio), tomar a frente no debate. Esse projeto paulista acabou quebrando em 1930.

No livro, o senhor lembra que pouco se conhecia, no Brasil, dos novos ismos europeus. O sucesso da Semana de 1922 se deve mais às ações promocionais de seus integrantes que a seu conteúdo? Não há dúvida que os modernistas se encarregaram de propagandear a Semana e mantê-la viva no imaginário nacional. Mas isso não quer dizer que o evento tenha sido pouco importante, como sugerem alguns, muitas vezes contaminados pelo bairrismo e pelo rancor. A Semana não é uma fraude da intelectualidade paulista. É um marco histórico — e foi concebida para isso.

Quanto tempo levou a pesquisa para o livro e qual o senhor considera a principal descoberta de seu levantamento? Entre leitruras, entrevistas, pesquisas em arquivos e redação foram cerca de três anos. A principal descoberta foi perceber que aquela história já hiper pesquisada poderia ser contada de maneira diferente. Procurei “descascar” o mito, contextualizar o evento e dar vida aos personagens em linguagem jornalística, sem hermetismos acadêmicos.

Maria Carolina Maia

 

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