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Arquivo da categoria resenhas finalistas

18/08/2010

às 20:06 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Cem Anos de Solidão’)

Quando, em abril de 2009, Gabriel Garcia Márquez (laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1982) declarou que não mais se iria prestar à publicação, muitos interpretaram que o escritor havia desistido das palavras e declararam-no aposentado. O colombiano, porém, rapidamente voltou à imprensa para dizer que das palavras ele nunca se desvincularia, pois escritor ele era e o seria até o fim de seus dias. Para aqueles que acreditaram que, depois desse episódio, Gabo, como é conhecido pelos amigos, não mais frequentaria as páginas de nossa imprensa, a biografia Gabriel Garcia Márquez: Uma Vida do inglês Gerald Martin provou o contrário. Para alguns, essa biografia veio para mostrar o lado obscuro da vida pública do escritor e a polêmica amizade com o ditador Fidel Castro. Ainda que esse tema tenha sido o que apareceu com destaque na maioria das revistas, sempre vinha acompanhado de uma citação, ou referência a Cem Anos de Solidão (livro lançado em 1967), tamanha é a sua influência para a literatura.

Comparada em importância para a língua espanhola a Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, a obra máxima de Gabo consolidou o autor e o estilo conhecido como realismo mágico, ou realismo fantástico. Ao lado de nomes como Jorge Luiz Borges, Julio Cortazar, Carlos Fuentes e Izabel Allende, Gabriel Garcia Márquez explorou em alguns de seus romances e contos elementos como misticismo, religiosidade, folclore e magia, mostrando o estranho como algo cotidiano e comum. A pretensão desses autores era dar verossimilhança interna ao fantástico e ao irreal, objetivo que podemos dizer ter sido atingido em Cem Anos de Solidão. Nessa obra, a descoberta do gelo é, para os personagens, tão possível quanto os fantasmas que rondam a casa e o cheiro de morte que escapa de uma cova concretada, ainda que os surpreenda.

Cem Anos de Solidão narra, ao longo das quase 500 páginas, a trágica história da família Buendía-Iguarán e dos habitantes de Macondo. O nome da aldeia fundada pelo patriarca num tempo tão antigo que muitas coisas ainda careciam de nome é um dos vários dados biográficos que permeiam a obra. Macondo era uma antiga fazenda que Garcia Márquez nunca visitou, mas cuja placa esteve presente durante muito tempo nos caminhos pelos quais ele passava. Porém, para os personagens, mais do que uma vila, Macondo era o símbolo da tragédia que assombrava a família Buendía. Desde que José Arcádio Buendía, contra todos os avisos, desposou sua prima Úrsula Iguarán, as sete gerações da estirpe, como nos dramas que frequentavam os teatros da Grécia Antiga, atravessam suas existências em constante conflito com o destino a que foram condenados e que dá título à obra. A solidão com que vivenciam o desamparo é um dos aspectos do mundo contemporâneo que permite a identificação do leitor com os personagens. Esses, apesar de lutarem, parecem incorrer em erros e repetições que os trazem, a suas maneiras, ao caminho da solidão.

Na família Buendía, não só os nomes se repetem, a personalidade de cada José Arcádio e cada Aureliano é também passada para a geração seguinte, dando-nos a sensação de um tempo cíclico. Porém, todo personagem vivencia de forma diferenciada as várias faces do desamparo e a angústia dele advinda. E a cada geração um ciclo que se fecha ante as previsões de um fim anunciado. Se podemos chamar de uma obra-prima, é pela quantidade de detalhes que aparecem toda vez que é visitada.

Detalhes que sempre estiveram lá, mas que se fazem mais visíveis a depender da maturidade do leitor, do humor em que se encontra e do grau de identificação com os personagens. A cada leitura, um personagem surge como mais frágil, ou trágico, mas todos impregnados pela dor de existir. É por abordar de forma tão poética esse tema tão caro à contemporaneidade que Cem Anos de Solidão ainda há de resistir a várias visitas.

“O Coronel Aureliano Buendía arranhou durante muitas horas, tentando rompê-la, a dura casca da sua solidão. Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade”.

Hugo César

18/08/2010

às 20:03 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Amanhecer’)

Apesar da devoção incondicional dos fãs de Stephenie Meyer, os críticos em geral não sentem um pingo de pena ao açoitar a pobre (ex-pobre, em outro sentido) autora em suas resenhas cruéis. Não faltam críticas à superficialidade dos livros, ao suposto machismo permeando a obra, à alegada falta de personalidade dos personagens e até ao questionável desrespeito ao consagrado mito dos vampiros apontado pelos mais puristas.

Esqueça o machismo. Lembre-se de que vampiros não existem e não exija muito dos traços de personalidade dos personagens. O objetivo desta resenha não é julgar o mérito das acusações anteriores, mas apontar, com um mínimo de presunção, que essas são questões menores. Sim, menores.

A verdade é que, querendo ou não, Stephenie Meyer fez um retrato perfeito da juventude atual em sua obra.

Os órfãos da literatura infantojuvenil

Órfãos têm uma presença constante no universo da literatura infanto-juvenil. A ausência dos pais é explicada por razões simples: qual criança ou adolescente se meteria numa aventura digna de um Best-seller sob a supervisão dos pais?

Enquanto em outros tempos a autoridade familiar mantinha os filhos sob controle, os pais da atualidade, assim como os pais de Bella Swan, são apenas coadjuvantes na vida dos filhos.

Renée, a mãe de Bella, aparece em pouquíssimas páginas nos quatro livros da saga. As raríssimas aparições – justificadas pela carreira esportiva do novo marido – são suficientes para deixar claro que ela deixa a desejar no papel de mãe. Imatura e atrapalhada, Renée tem uma relação invertida com Bella: é a filha quem se preocupa com o bem-estar da mãe.

Charlie, o policial bigodudo que faz as vezes de pai-de-fim-de-semana de Bella, é um homem duplamente rejeitado. Largado pela esposa, o pobre xerife de Forks é praticamente uma sombra que se esgueira pela casa ocupada por ele e pela filha. Ainda que Charlie se preocupe com a filha e tenha procurado impor sua autoridade em vãs tentativas, sua influência parece ser mais justificada pelo fato de ser ele a autoridade policial da cidade, e não pelas relações familiares dos dois. Assim como acontece com Renée, é Bella quem cuida das refeições e da rotina do pai. A preocupação que toma às vezes a atenção de Bella em algumas páginas pode ser confundida com afeto pelo leitor mais otimista, mas uma mensagem é clara: o homem é tão patético que não conseguiria nem mesmo sobreviver sozinho.

Neste esquema de relações horizontalizadas, os pais de Bella precisam disputar sua atenção e respeito com os amigos da menina. Alguém se lembra do velho argumento “Sou mais velho e sei do que estou falando”? Ele simplesmente não tem vez na saga. Que pai ou mãe conseguiria sair com a razão numa disputa em que os amigos da filha não são apenas imensamente mais ricos e inteligentes, mas também mais velhos e mais vividos?

O poder do grupo

É claro que o romance entre Bella e Edward (e, às vezes, o triângulo amoroso formado pelos dois e pelo lobisomem Jacob) é o grande fio condutor da história. Existe, no entanto, uma fórmula conhecida dos enredos infantis norte-americanos que foi muito bem reciclada por Stephenie Meyer: a velha dinâmica do colegial, a rígida divisão de classes das High Schools estadunidenses.

Em vez da mesa dos populares, massacrada nos filmes adolescentes dos anos 90, uma mesa de vampiros. Bonitos, ricos e descolados.

Por mais que Bella seja tudo o que suas leitoras gostariam de ser – bela (com o perdão do trocadilho), livre de pais pegajosos e desejada por praticamente todos os garotos de sua escola nova, a menina não supera a mudança de ambiente e se sente uma eterna deslocada na chuvosa cidadezinha de Forks. A solução para seus problemas aparece quando surge a possibilidade dela fazer parte deste grupo – mais uma prova de que a menina não enxerga a sorte que tem, já que nenhum outro pobre mortal da Forks High School merecera a honra antes.

Contrariando aqueles que acusam a jovem Bella de manipulável, a menina sabe o que quer: mesmo parecendo não se importar com isso, Isabella Swan consegue passar para o time dos ricos e descolados, encher seu guarda-roupa de peças caríssimas e ainda manter os carros mais cobiçados na garagem. E por falar em carros…

Diz-me no que andas e te direi quem és

Não são poucos os que reclamam da pouca profundidade psicológica dos personagens da saga. Questão de estilo, diriam alguns, mas o leitor mais atento há de perceber que em Amanhecer, assim como em grande parte da atualidade, o ser não é lá tão importante. Stephenie Meyer não entra em detalhes quando o assunto é a personalidade, mas não economiza comentários às roupas e aos carros utilizados pelos personagens.

Emmett, o grandalhão da família Cullen circula num truculento Jeep pelas ruas de Forks. Aproveitando a oportunidade, vale salientar que nenhum dos personagens do livro vai a lugar algum sem utilizar seu próprio meio de transporte. A delicada e estilosa Alice dirige seu Porsche vintage, enquanto a delicada e patricinha Rosalie tem seu BMW conversível, e por aí vai.

Vampiros do bem?

Aqueles que criticam Stephenie Meyer por ter tirado de seus vampiros o inato pendão para a maldade podem ficar despreocupados: salvo algumas bizarrices perfeitamente aceitáveis numa releitura, os chupadores de sangue de Steph são tão cruéis quanto qualquer um de seus antecessores.

Em vez de criticá-los por seu regime “vegetariano”, deveriam lembrar que não se julga alguém apenas pelo que se faz, mas também pelo que se deixa de fazer.

Os vampiros da família Cullen vivem num mar de dinheiro graças aos frutos colhidos dos investimentos de longo prazo dos quais só alguém imortal poderia usufruir e à capacidade bizarra que um de seus membros tem de prever os números da loteria.

Sendo assim, é de se esperar que o abastado clã leve uma vida sem preocupações ao longo dos séculos. Voltando à questão da índole dos vampiros de Steph, vale observar que, salvo o nobre trabalho voluntário prestado pelo patriarca da família no hospital local, nenhum dos membros da família Cullen faz nada para tornar este mundo um lugar melhor. Talvez seja o efeito Brad e Angelina, mas é inaceitável imaginar uma família de pessoas belíssimas e milionárias que não mantenha ao menos um projeto social na África Subsaariana nos dias de hoje.

Enquanto seus membros mais “jovens” vivem suas vidas gastando horrores em produtos de luxo e depois freqüentando a escola local para esnobar os patéticos colegas humanos, a apagada matriarca Esme, ao que tudo indica, passa seus dias enfurnada em sua mansão de vidro nos limites de Forks. Esme Cullen é uma dona-de-casa extremamente desesperada.

Felizes para sempre

Apesar de tudo, Bella e Edward superam todas as dificuldades (?) para viver seu romance. Não são poucos os que alegam ter se afogado no mar de açúcar que banha o livro, mas as meninas que suspiraram ao lê-lo são mais ainda. Prova de que as incontáveis declarações de amor que infestam o livro são questão de gosto.

Depois de um fim que parece murchar depois de um clímax duvidoso, fica a dúvida de qual será o futuro do casal apaixonado.

Aquele que ousar acusar Bella de interesseira deve admitir que o sentimento de Edward por ela beira o amor doentio, tornando a relação virtualmente recíproca. A imortalidade e a paixão sem fim são apenas mais uma metáfora que reflete o apetite insaciável da geração atual.

Contrariando as palavras do Poeta, que uma vez disse: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”, Bella Swan deseja, sim, a imortalidade e seu amor eterno. Resta saber se a relação entre os dois resistirá ao passar dos séculos no fútil estilo de vida da família Cullen. Ainda no início do livro, o pastor que celebra a união dos dois aceita, a pedido dos noivos, mudar o clássico “Até que a morte os separe” por “Enquanto estiverem vivos”. Escolha sábia. Que sejam felizes, Bella e Edward, enquanto estiverem vivos. Ou até que o tédio os separe.

Eduardo Mesquita Cabrini

18/08/2010

às 19:59 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Ensaio sobre a Cegueira’)

Uma doença que repentinamente acomete um homem no trânsito, e que aos poucos se espalha pelo país. À medida que a população afetada vira ameaça de contágio, todos são colocados em quarentena até que o Estado em sua ordem começa a falhar, instituindo-se o caos.

Em meio ao colapso de uma sociedade cega dominada pelos que se determinam mais fortes, uma mulher mantém seu segredo, de ser a única testemunha ocular desse colapso, e assim, com abnegação e determinação, mantêm-se no propósito de minimizar os efeitos do flagelo guiando os demais em busca da sua liberdade.

A obra de Saramago (1991) traz aos olhos do leitor toda a miséria humana que pode surgir de situações limites. Uma reflexão à sociedade em que vivemos.

A teia de contágio entre os personagens e sua busca, primeiro pela cura, e, depois pela sobrevivência, nos coloca a frente da degradação social e moral. Com uma narrativa que ao nosso imaginário pode às veze, causar repulsa, o autor retrata a desordem e descreve cena a cena, como se estivéssemos perante a uma tela.

Seus personagens não têm nome, podem ser qualquer um de nós. Sua história é atemporal. Pode ter sido há muito tempo e pode estar por vir, até mesmo agora.

A cegueira de Saramago é controversa até na cor. Branca e leitosa, nos intriga a desconstruir o óbvio da escuridão.

A dualidade do bem e do mal pode ser limiar quando somos colocados a prova. E ao final quando a ordem se restabelece só lhes resta o árduo trabalho de reconstruir.

Daniela Correia de Almeida Hespanha

18/08/2010

às 19:57 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘O Código Da Vinci’)

Resumo da ópera: a trama começa com um assassinato e nas próximas 24 horas o herói: auxilia a polícia, é perseguido pela polícia (depois de se tornar suspeito do crime), vive várias peripécias e, por fim, resolve o mistério.

Não, caro leitor, não se trata de Jack Bauer, mas do best-seller O Código Da Vinci, de Dan Brown.

O simbologista Robert Langdon é chamado para ajudar nas investigações do assassinato de Jacques Saunière (curador do Museu do Louvre) e é auxiliado por Sophie Neveu, neta da vítima. Após a descoberta da primeira pista, ambos passam a ser tratados como suspeitos pela polícia francesa. O que se segue é uma gincana por Paris e Londres para encontrar mais pistas que os levem ao assassino do curador e ao segredo do Santo Graal. A aventura tem locais históricos, cartões postais, citações aos merovíngios, templários, Priorado de Sião, Opus Dei e, claro, Leonardo Da Vinci (sem o qual não haveria livro).

Em respeito àqueles que estavam em outra dimensão nos últimos anos e ainda não leram, assistiram ou ouviram algo sobre a obra, não vou contar o final; basta dizer que Dan Brown sabe como entreter seu público. A trama bem construída, com doses exatas de mistério e ação, torna a leitura bem agradável e envolvente (dá vontade de ler em uma sentada). Outro ponto legal é a presença de alguns fatos históricos salpicados no enredo que nos faz crer que toda a conspiração sobre o cálice sagrado é verdadeira (só para lembrar, não é – essa é uma obra de ficção).

Como nem tudo são flores, o livro apresenta algumas deficiências: o antagonista não é muito convincente (é difícil engolir Silas – muito caricatural), há imprecisões históricas (se bem que, na boa vontade, poderíamos computar esse último como licença poética – afinal é um livro de ficção) e o texto não prima pela originalidade pois, apesar de bem escrito, apresenta o formato pasteurizado dos best-sellers americanos.

Somando os prós e os contras, para quem quer uma leitura divertida e descompromissada, O Código Da Vinci tem tudo para agradar. Não é nenhuma obra-prima, mas serve para desanuviar a mente. E antes que alguém venha dizer que estou menosprezando o autor, gostaria de dizer que dou muito valor a um escritor como Dan Brown, que traz novas pessoas para o mundo da leitura. A partir destas obras o leitor pode se sentir tentado a alçar voos mais altos, o que é muito bom.

Para finalizar um comentário sobre Jack Bauer: li na internet que o criador de 24 horas queria utilizar o enredo do livro para a terceira temporada da série, mas Dan Brown não aceitou. Já imaginaram a cena com Jack Bauer atrás do Santo Graal? Talvez fosse preferível a ver Tom Hanks com aquele cabelo estranho…

Eduardo Hernandes

18/08/2010

às 19:55 \ resenhas finalistas

Palavras vivas: uma ladra de livros, um acordeão e um judeu no porão

Uma história extraordinária. Assim a Morte inicia o conto da menina roubadora de livros. Algumas pessoas vivem tão intensamente que encontram sem medo a narradora encapuzada. E conseguem fugir para novas aventuras. O romance de Markus Zusak, A Menina que Roubava Livros, se passa entre os anos de 1939 e 1943. Hitler era o grande maestro da Segunda Guerra Mundial. Conquistava multidões com a melodia das palavras.

Enquanto a vida na Alemanha seguia regras da ideologia nazista, Liesel Meminger considerava outros princípios. As músicas do velho acordeão de seu pai. O cheiro de cigarros e tinta. A emoção de roubar de livros.

A Morte conta a história de Liesel a partir de sensações. As cores do céu. A neve em Stalingrado. O Danúbio Azul: música preferida de um judeu morto. A delícia de roubar frutas. O medo da guerra. O calor de confidências no porão.

Como se sabe o que está vivo? Depende da importância que se dá aos objetos. Hans Hubermann, pai da roubadora de livros, transformava o acordeão em um ser vivo. Max Vandenburg, o judeu escondido no porão, fazia dos sonhos imagens vivas. Rudy Steiner, melhor amigo de Liesel, vencia olimpíadas imaginárias. Cada um carregava as próprias verdades.

O poder das palavras é o fio condutor da história. Para os nazistas, leituras proibidas eram combustível para a fogueira. Para uma garota, palavras salvam a vida. A trajetória da personagem principal – uma menina alemã de nove anos de idade – é sempre acompanhada de sua relação com os livros.

Liesel realiza seu primeiro furto no sepultamento de seu irmão. Ela ainda não sabia ler. As palavras apenas representavam um dia de sua vida. A garota aprende a ler com o pai. Escreve palavras desconhecidas na parede do porão. Frequenta a biblioteca do prefeito. Rouba mais alguns livros. Conta histórias no abrigo antiaéreo. Escreve sobre a própria vida.

As palavras constituem um universo particular. Possuem densidade, momentos específicos de uso. Liesel passou a conhecer tantas palavras que tinha dificuldade em escolher a certa. A roubadora de livros mergulhava no universo das palavras: era a atração irrefreável pelas páginas, as quais resultavam em histórias. Os livros faziam parte de seu mundo, misturando ficção e realidade.

Todos os acontecimentos resultam das palavras. Elas constroem imagens e mantêm viva a memória do mundo. E com elas, a história da roubadora de livros alcança os leitores curiosos, ávidos por um bom romance.

Giovana Montes Celinski

18/08/2010

às 19:53 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Ensaio sobre a Cegueira’)

Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, narra a história de uma repentina cegueira branca e contagiosa que avança inexplicavelmente por uma cidade, levando o governo a confinar as vítimas em um manicômio desativado. Saramago dá destaque a um grupo de sete, aqueles conduzidos inicialmente ao isolamento, e entre eles, uma mulher que não cegou. A exemplo dos mais atrozes relatos históricos sobre a lepra, o convívio torna-se sucessivamente selvagem pelo medo que suscitam e pelas deploráveis condições de sobrevivência aos quais são submetidos os cegos encarcerados. Mais que isso. Pela lente realista do primoroso escritor português, temos acesso à face sombria do homem: as mais sórdidas expressões de violência são detalhadamente conhecidas nesse enredo.

Este não é apenas um livro sobre a cegueira, trata-se especialmente de um livro sobre o sofrimento de testemunhar com os próprios olhos a dissolução da cultura. A personagem que vê sofre a cada dilema com o qual se depara: deve ou não intervir na desordem que a cerca; deve ou não deixar entornar a raiva apinhada dentro de si; deve ou não matar. Na companhia do olhar atormentado dessa mulher, nota-se no ensaio a progressiva primazia dos instintos sobre a consciência, representada em seu auge pelo incêndio no manicômio. Até então, com caráter austero frente ao cenário aterrorizante, Saramago nos revela como é precária a organização sobre a qual está edificada a sociedade.

Daí em diante o curso é invertido. A destruição do cárcere não encerra a nefasta desventura dos cegos, que se encontram então livres e soltos pela cidade devastada, porém os conduz pelos olhos da mulher-guia à restituição dos valores perdidos. Mediante um grande número de reminiscências e a introdução de um cão solidário na história, que toma para si a tarefa de cuidar da mulher que vê, Saramago recompõe o espírito de cada personagem. E todos reunidos, dessa vez por vontade própria, tomam a identidade de grupo e se confortam na esperança de reaver aquilo que deixaram para trás. Sendo assim, não são necessários olhos para ver, do mesmo modo que é possível estar cego com a visão perfeita.

Afinal, para que cegueira o autor nos chama a atenção? Através de vários provérbios, ele nos faz acreditar que cego já somos, apenas não o sabemos. Estaria Saramago nos falando do inconsciente? Pois, se por um lado preservamos a visão, talvez nos tenha acontecido de nunca querer saber de fato quem somos, como denuncia a única mulher que vê, mas apesar disso prefere estar cega a assistir o que a natureza humana é capaz. A responsabilidade de guiar também é uma tarefa penosa e que amiúde se aproxima do intolerável, pois, ao contrário do que tantos sustentam, não somos autenticamente altruístas.

Temos no belo ensaio de Saramago uma alegoria da embaraçosa revelação freudiana, uma vez que somos mais motivados pelos instintos de vida e de morte do que nos permitimos admitir. Portanto, podemos depreender desse brilhante ensaio que a convicção do homem iluminista de se haver desvencilhado dos instintos o atraiu a uma espécie de cegueira reluzente.

Vladimir Melo

18/08/2010

às 19:50 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Amanhecer’)

Stephenie Meyer, autora dos três livros anteriores da saga Crepúsculo (Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse), no quarto livro, que traz o desfecho da série, tem a importante missão de atender à expectativa de milhões de leitores que anseiam pelo final da história de amor entre o vampiro Edward Cullen e sua namorada humana, Bella Swan.

Em Amanhecer, chega o momento de Bella tomar sua decisão mais importante, tornar-se imortal ou permanecer humana. Mas a trama se desenrola de tal forma que não caberá a ela tomar essa decisão, e sim a Edward, que precisará da autorização de Jacob, até então, seu rival.

Após o casamento de Bella e Edward, os problemas começam com a inesperada gravidez de Bella, que põe em risco sua vida, deixando todos aflitos. Após o parto, Edward é obrigado a transformar Bella em vampira para salvá-la. O nascimento de Renesmee muda completamente o rumo da história. O foco da narrativa deixa de ser a decisão de Bella, em se tornar ou não imortal, presente nos três primeiros livros, e passa a ser a luta pela salvação da família Cullen e dos seus amigos lobos. Em meio às descobertas de sua nova vida como vampira, Bella se vê diante da missão de proteger sua filha Renesmee do implacável julgamento dos Volturi, que a consideram uma ameaça e pretendem destruí-la. Será necessária a união entre vampiros e lobos para defender a quem amam e a si próprios.

Amanhecer consegue ser mais envolvente que os três primeiros livros da saga dos vampiros, pois surpreende o leitor a cada capítulo, com acontecimentos impossíveis de prever. Tudo o que os leitores e fãs da série esperavam desde Crepúsculo, finalmente se realiza: Bella e Edward se casam, tem sua primeira noite de amor, e, no desenrolar da trama, Bella finalmente se torna imortal. Mas, em meio a estes acontecimentos já esperados, ocorrem muitos outros fatos surpreendentes, que mudam o rumo da história para um desfecho emocionante.

A autora conseguiu atender à grande expectativa deixada pelos outros livros da série. Os leitores vão encontrar em Amanhecer tudo o que esperavam e muito mais.

Leila Claudete Schmitz

18/08/2010

às 19:47 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Amanhecer’)

Amanhecer é o quarto e último livro da saga Crepúsculo, o fenômeno mundial que Stephenie Meyer, uma dona de casa americana, mãe de três filhos, que nunca havia escrito nem mesmo um conto em sua vida, trouxe ao mundo a partir de um sonho numa noite de verão. Sendo a fantasia noturna real ou mais uma invenção da autora, verdade é que os frutos da imaginação multimilionária de Stephenie – Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse e Amanhecer – marcaram uma geração de leitores ávidos pelo mundo sobrenatural onde habitam criaturas fascinantes, o cenário perfeito onde a mera mortal Bella se divide entre o charmoso vampiro Edward e o lobisomem-camarada Jacob.

Embora Stephenie tenha prometido lançar Midnight Sun, a história de Crepúsculo narrada sob o ponto de vista de Edward, Amanhecer põe fim à saga contada por Bella. Com ela, enfrentamos amores, desamores e experiências de quase-morte nos três primeiros livros, mas é no quarto que a narrativa se amarra e tem seu ponto final. A maior diferença é que, neste, há uma seção no meio do livro onde a história é narrada sob a perspectiva de Jacob, mas isso não modifica o fio condutor da história, que continua sendo Bella, o objeto de desejo não necessariamente de gregos e troianos, mas definitivamente de vampiros e lobisomens.

Amanhecer começa com a protagonista às voltas com os preparativos para seu casamento com Edward. Nervosa, a noiva não enxerga a necessidade de oficializar o matrimônio, uma vez que em pouco tempo se tornará, também, uma imortal, e nem mesmo a eternidade parece suficiente para suportar seu amor quase suicida. Entretanto, esta é a exigência de Edward, o virgem de cem anos, um cavalheiro, literalmente, a moda antiga, para que pudesse desvirginar Bella. O que acaba acontecendo, na lua de mel que os dois passam em uma ilha na costa do Rio de Janeiro – um lugar, aparentemente, mais quente do que até um vampiro pode suportar, e que guarda lendas e mitos de tribos indígenas que ainda habitam por lá. De início, Edward fica chateado por deixar Bella cheia de hematomas, devido a sua força sobre-humana, mas logo encontram uma maneira para amarem-se perfeitamente. Até que o improvável acontece. Improvável mesmo, contando que, quando virou vampiro, Edward teve todo sangue de seu corpo substituído por veneno, tornando-se um morto-vivo livre de quaisquer fluidos humanos. Mas vá lá, entremos na fantasia: Bella fica grávida. Uma gravidez complicada, na qual o feto cresce e nasce em um mês e mostra, ainda dentro da barriga de mamãe, afeição por sangue e dotes mágicos especiais. O nascimento de Renesmee (sim, Bella é criativa no que diz respeito a nomes) abala as estruturas do mundo sobrenatural. Enquanto acompanhamos, também, a transformação de Bella em uma vampira super poderosa, lobisomens e vampiros unem-se para salvar a ingênua e adorável bebê das garras dos Volturi, os vilões aos olhos de Bella, que consideram as crianças imortais a escória dos dois mundos, e vão mais uma vez à pacata Forks para certificarem-se de que a lei será cumprida.

A crueza literária de Stephenie faz com que a autora apele para soluções fáceis durante todo o livro. É quase como se ela se visse obrigada a todo custo a solucionar o que ainda estava em aberto, afinal, não haverá outro livro no qual ela poderá explicar as pendências, e o faz de qualquer maneira, sem muito compromisso, forçando as peças a se encaixarem. Não é uma narrativa fluida, enfim. Dessa forma, com passagens baratas como “-Eu não fora muito observadora nas últimas semanas, mas nesse momento foi como se eu soubesse o tempo todo”, nas últimas páginas do livro, e “-E você nunca falou isso por que? – Porque o assunto nunca surgiu”, quando confronta-se no final com uma solução instantânea para um problema, deixando-nos na dúvida se o tal “assunto” não poderia mesmo ter surgido antes, em três livros antecedentes, Stephenie cambaleia pelos acontecimentos, agarrando-se no sucesso já conquistado para garantir o grand finale. Poderia, entretanto, poupar-nos do verdadeiro show de horrores que é o nascimento de Renesmee quando, depois de a pequena monstrinha quebrar a bacia e a coluna de sua mãe, um desesperado Edward realiza uma cesariana com seus dentes, dá uma injeção no coração de Bella e lambe as feridas da amada para manter o veneno dentro de seu corpo e garantir sua transformação vampiresca, num banho de sangue desnecessário que é preciso ter estômago forte pra ler. Além disso, Bella torna-se uma vampira com poderes super especiais, para compensar uma vida mortal sem graça, e salvar todos os demais vampiros muito mais experientes no que deveria ser o clímax do livro, mas que conta, também, com uma solução arrastada, fácil e pouco convincente. Entretanto, Stephenie manteve em Amanhecer a mesma leitura fácil e a narrativa intrigante sobre um mundo desconhecido e fantástico que tanta curiosidade desperta. Além disso, os leitores da saga estão curiosos para saber os finais de seus personagens preferidos, e mais um ponto positivo para autora quando nos oferece uma perspectiva diferente ao deixar Jacob contar um pouco da história que sempre foi de Bella. No fim, Amanhecer não se pretende um primor literário, mas o fechamento com chave de ouro de um fenômeno mundial, e consegue atender às expectativas de fãs que, anos antes, já se apaixonaram pelos Cullen, pelos Black, e por um mundo sobrenatural por si só suscetível de encantar.

Carolina Pavanelli

18/08/2010

às 19:44 \ resenhas finalistas

(Sem título. Sobre ‘Ensaio sobre a Cegueira’)

É difícil elaborar um comentário a respeito de Ensaio sobre a Cegueira sem criar um paralelo entre a obra e a intenção do seu escritor de nos passar uma mensagem. E o que José Saramago faz não é somente moralizar seu conto, mas refletir sobre as diversas arestas da sociedade contemporânea em um livro único e, não obstante, memorável.

Um dos romances de língua portuguesa mais conhecidos e aclamados pelo público, Ensaio… é a publicação onde mais – com o perdão da palavra – se enxerga o estilo de escrita de Saramago. Composto de frases eloquentes e longas e da ausência de pontos finais, o modo saramaguiano também se enfatiza por raros discursos e uma leitura veloz, que se contrapõem com os textos. É ainda a obra onde essas características estão mais harmonicamente lapidadas, e seu estilo, mais cru.

E crueza é o que não falta nas mais de trezentas páginas do livro. O romance segue durante e após os desdobramentos de uma estranha cegueira que assola uma cidade. Tal cegueira, descrita como “treva branca”, se espalha como uma epidemia, contaminando em pouco tempo todos os habitantes da cidade. Á medida que ficam cegas, essas pessoas são mantidas à distância em quarentena, e a desordem, que crescia progressivamente no início, toma conta de toda a estrutura social. O foco do romance se amplia nas consequências desse caos, e tenta se particularizar em um grupo de pessoas que lutam para sobreviver em um mundo tátil e animalesco, onde as pessoas se despem da moral e da ordem para serem guiadas pela instintiva sede de sobrevivência. Esse grupo, à despeito de sua situação, é liderado pela mulher de um médico, a única pessoa que não fica cega. É através dela que Saramago registra, através de seu estilo de escrita magistral, um mundo naturalista que, marcado pela zoomorfização de seus habitantes, possui cenários de crueldade e perturbação, vistos pela mulher e sentidos pelos outros integrantes desse grupo, como o Médico, o Homem da Venda Preta no Olho e a Moça de Óculos Escuros.

A utilização de personagens-tipo, trabalhadas de forma memorável por Gil Vicente em O Auto da Barca do Inferno séculos atrás, ganha repercussões profundas em Ensaio... E Saramago, um mestre da alegoria, que nos mostrou sua temática em obras como O Homem Duplicado e A Caverna, consolida seu domínio sobre os diferentes níveis da sociedade (sob todas as suas vertentes) em uma singular tentativa de “brincar” de Deus.

A Magnum-Opus do escritor português se fixa sobre uma imagem em especial: a dos homens que, privados da visão, se desapegam da razão e do controle sobre si mesmos e mostram todo o instinto de supervivência, que foi mantido dormente por anos de civilidade. E a lição que o Prêmio Nobel de Literatura arquiteta nos faz reavaliar o que é importante durante a nossa existência. E, acima de tudo, nos faz pensar tanto sobre a lucidez de nossos atos como as consequências que eles provocam, de forma cega ou não, em nós e nos que estão ao nosso redor.

Rodrigo Ferrarezi

18/08/2010

às 19:41 \ resenhas finalistas

Ensaio sobre a bárbarie

Não se pode dizer que Ensaio sobre a Cegueira seja o melhor livro de José Saramago. No entanto a obra pode ser considerada especial, porque é uma critica ao egoísmo, ao desprezo humano pela sua própria humanidade, à falta de solidariedade e, principalmente, ao medo humano.

Saramago trata do sentimento de pavor com extrema ironia – todos os personagens no decorrer da história agem por medo, transformando suas atitudes em ações primitivas. O medo é gerado pela cegueira branca, matáfora inédita, que significa o absoluto, o valor no seu limite e a mudança de condição. Essa brancura coloca em exposição a pequenez do homem, à mercê de sua mesquinhês escondida sob a capa da civilidade.

Existe um ditado que diz “em terra de cego quem tem olho é rei”. Na história essa ideia se concretiza de forma assustadora, pois existe uma única pessoa que pode enxergar: a mulher do médico. Mas, ao contrário do que reza o dito, nada há de confortável ou de privilégio em ser o monarca: ela, ao mesmo tempo em que vira uma válvula de escape para seu grupo, sofre exatamente porque vê as piores e inimagináveis cenas e fatos que alguém poderia ver. Com maior clareza ela enxerga a brutalidade, a zoomorfização das pessoas, a bárbarie humana em pleno século XX.

Essa bárbarie humana não é algo novo na história da humanidade: ela já esteve presente cotidianamente, desde o Egito Antigo, quando Faraós escravizavam pessoas e as tratavam como animais. Desde então, a situação vem piorando, e um dos exemplos mais recentes disso é a guerra do Iraque, na qual os Estados Unidos criou e mantém o conflito por interesses individuais e na qual ações primitivas se mostram quase que sem constrangimentos pela mídia – estupros, torturas fisícas e psicológicas recorrentes. Ensaio sobre a Cegueira trata desse assunto de uma forma drámatica e aterrorizante: o narrador expõe a animalidade humana sem deixar uma fresta de conforto ao leitor: a cegueira, súbita e branca, contagia primeiro um homem que espera um sinal vermelho abrir. Depois dele, aos poucos, outras pessoas vão ficando cegas e a ”treva branca” se alastra. Para prevenir que outras pessoas se contagiem, o governo manda um grupo de cegos para quarentena num manicômio, onde elas sofrem com a falta de higiene, com a fome, com a humilhação, com os conflitos internos e externos: de seres civilizados, passam a seres brutalizados.

Ensaio sobre a Cegueira é uma obra literária que precisa ser lida por reunir a linguagem filosófica e ao mesmo tempo irônica de José Saramago, que, ao desmascarar o caráter brutal humano, esse a grande desgraça da humanidade, o faz, de forma tocante, levando o leitor a refletir sobre sua atuação no mundo.

Joana Saar


 

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