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Arquivo da categoria poesia

16/11/2011

às 19:27 \ Eventos, poesia

Balada Literária homenageia Augusto de Campos com MPB

A 6ª edição da Balada Literária, que começa nesta quarta-feira, em São Paulo, faz homenagem aos 80 anos do poeta concretista Augusto de Campos, irmão de Haroldo de Campos (1929-2003). Organizado pelo escritor pernambucano Marcelino Freire, o evento traz grandes nomes da MPB, como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso e Tom Zé, além de escritores e jornalistas. A programação, que vai até domingo, conta com debates sobre literatura, TV e música, shows, teatros e exposições.

A abertura da Balada acontece nesta quarta, às 21h, no Sesc Pinheiros, com Poemúsica, uma conversa e apresentação musical de Augusto de Campos, seu filho e músico, Cid Campos, e a cantora gaúcha Adriana Calcanhotto. Os ingressos já estão esgotados.

O destaque do segundo dia do evento é o debate entre Augusto de Campos e Caetano Veloso sobre concretismo e tropicalismo, movimentos que, respectivamente, os dois encabeçaram. E sobre a relação entre eles. Na década de 1970, Caetano musicou dois poemas de Augusto de Campos, Dias Dias Dias e O Pulsar, que dá o nome à conversa entre os dois.

httpv://www.youtube.com/watch?v=LgE0UuWTtas

Ainda na quinta, o poeta Glauco Mattoso, homenageado pela primeira Balada Literária, em 2006, fala sobre movimentos artísticos. O dia continua com o encontro entre Adriana Falcão, roteirista do programa humorístico A Grande Família, e o jornalista e roteirista de cinema Marçal Aquino, para debater sobre TV, cinema e literatura.

Na sexta-feira, as principais atividades são as mesas literárias sobre criações e adaptações com Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, e sobre música e poesia, com o músico Tom Zé.

No sábado, o escritor João Gilberto Noll, ganhador de cinco prêmios Jabutis, conversa com o jornalista Claudiney Ferreira e o escritor Daniel Galera. Em seguida, ele atua na peça Solidão Continental, de sua autoria.

Para fechar a Balada de 2011, no domingo, Augusto de Campos volta a participar de uma conversa sobre palavra, com o poeta visual André Vallias, o escritor Cadão Volpato, o crítico argentino Gonzalo Aguilar e o editor Vanderley Mendonça.

Durante os cinco dias de balada, a programação ainda trará lançamentos de livros, shows e abertura de exposições. A entrada na 6ª Balada Literária é gratuita, mas é necessário retirar os ingressos uma hora antes de cada atividade. As regiões de Pinheiros, Vila Madalena e Avenida Paulista sediam as atividades do evento. Confira a programação completa em www.baladaliteraria.zip.net.

httpv://www.youtube.com/watch?v=MpXwgmMQu5c

26/03/2011

às 8:38 \ Entrevista, Livros da Semana, poesia

‘Pessoa não tinha imaginação’, diz biógrafo brasileiro

O primeiro poema que o advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti leu de Fernando Pessoa foi 'Tabacaria', em 1966

Tem lançamento oficial na próxima terça-feira Fernando Pessoa: uma (Quase) Biografia (Record, 736 páginas, 79,90 reais), livro em que o advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti trata sem cerimônias de um clássico das letras portuguesas. Fernando Pessoa (1888-1935) é mostrado como um beberrão, um homossexual enrustido e, ainda, um escritor de rala criatividade. “Pessoa não tinha imaginação”, diz Cavalcanti, que descobriu 55 novos heterônimos do poeta – além dos 72 já catalogados pela especialista Teresa Rita Lopes – entre conhecidos seus e em jornais e textos escritos por ele, entre outras fontes. “Boa parte deles vêm de gente que existia mesmo, de admirações literárias ou lugares caros a Pessoa”, conta.

A tese de um Fernando Pessoa não muito criativo já nasce polêmica, em se considerando que é rotina na literatura escritores retrabalharem estímulos reais – observados ou vividos por eles – em suas obras. O próprio Cavalcanti parece ter consciência disso, pois prevê reações pouco amistosas. “Será normal que apareça algum Cristo”, afirma. Mas tem confiança no resultado do trabalho, que levou consumiu dez anos e contou com apoio de um historiador e um jornalista, em Portugal.

Durante os dez anos dedicados ao livro, o quarto de caráter biográfico sobre o poeta, o advogado reuniu documentos e peças do acervo de Fernando Pessoa, algumas cedidas por parentes – inclui-se aí uma sobrinha de Ofélia Queirós, a grande paixão do poeta. Da pesquisa, brotou, além das já citadas, a conclusão de que o escritor, apesar de afeito à bebida, não morreu de cirrose, como se pensava.

Às vésperas do lançamento nacional do livro, o (quase) biógrafo de Fernando Pessoa fala a VEJA.
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O senhor descobriu que Fernando Pessoa tinha um total de 127 heterônimos. Em que fontes o poeta se pautou para criar seus outros “eus”?
De fato, até bem pouco, o número consensual de heterônimos era aquele dado por Teresa Rita Lopes: 72. No livro, mostro que o poeta usou, pela vida, 202 nomes, dos quais 127 seriam heterônimos, que agora são descritos com suas biografias possíveis. Apesar do número enorme de heterônimos, no final da vida, Pessoa decidiu abandonar todos para reunir o melhor do que escreveu num livro de 300, 400 páginas em seu próprio nome. Apenas lhe faltou tempo, para isso, pois logo lhe veio a “mater dolorosa da angústia dos oprimidos” (morte).

Como foram descobertos os novos heterônimos?
O livro começou em um momento mágico, quando percebi que Pessoa não tinha imaginação. Diferentemente do que se pensa, ele preferia usar o que tinha à mão – sua vida, amigos, admirações literárias, mitologia. Fui descobrindo os heterônimos à medida que apareciam. E iam aparecendo por toda parte, em livros de sua biblioteca, nos pequenos jornais que escrevia, nos textos que analisei. Estavam ali, às ordens, esperando, até que alguma mão os resgatasse desse limbo. É como quem pela vida escreve um diário secreto, nem tão secreto assim, que, depois de ter a chave, tudo fica claro. Em Tabacaria, por exemplo, ele diz, “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira, talvez fosse feliz”. Uma frase como essa bem poderia ser metáfora, claro. Mas, conhecendo seu estilo, já sabia que havia uma lavadeira, havia uma filha dessa lavadeira, e terá havido um romance entre eles. Quando fala em um Esteves conversando com o dono da Tabacaria, o “Esteves sem metafísica”, claro que havia mesmo um Esteves. Era um vizinho da família, que a pedido dela, por ironia, se dirigiu à Conservatória do Registro Civil para declarar o óbito do poeta.

Para entender melhor a questão: como se define um heterônimo?
Em um primeiro momento, heterônimos são, ou deveriam ser, aqueles que escrevem com estilo autônomo em relação ao do autor real. Não só isso. E que escreveriam sobre temas específicos, diferentes dos usualmente tratados pelo autor. Aos poucos, entre especialistas de Pessoa, esse conceito foi se alargando, até chegar ao ponto atual, em que Pessoa escreve como se fosse outro. Claro que sem demonstrar, nem de longe, a autonomia que tinha aquela primeira classificação. Mantido o primeiro critério, bem visto, heterônimos seriam apenas três – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Se fôssemos estender um pouco mais, para considerar também aqueles que deixaram obra vasta, teríamos que incorporar mais cinco, a saber: Search, Mora, Baldaya, Teive e Bernardo Soares (admitindo que seja este o mesmo que Vicente Guedes, com o qual seriam então mais seis). No total, portanto, oito heterônimos (ou nove, como já visto). Mas a tese consensual é de que todos os nomes usados por Pessoa – para assinar traduções, prefácios, charadas, serviços diversos – constituem heterônimos. Inclusive o próprio Pessoa.

Então, os heterônimos não são todos poetas?
A maioria dos heterônimos assina textos, mas para outros foi destinada alguma função específica: escrever livros que não de poesia, entre eles um de luta livre (que seria a capoeira de Angola), de sucesso em Bahia e arredores, traduzir obras de ocultismo, por exemplo, ou prefaciar obras – do próprio Pessoa e de terceiros. Alguns foram companheiros de viagem, que de certa maneira viveram com ele. Outros assinaram livros de sua estante. Ou fizeram charadas em jornais. É claro que, no fundo, era sempre Pessoa escrevendo. Álvaro de Campos, por exemplo, só escreveu poemas homossexuais até fins de 1919, quando Pessoa conheceu Ophelia Queiroz (que namorou o poeta em dois momentos). E, no fim da vida, vemos Campos casado, ao lado de uma esposa.

Que espaço é dedicado à sexualidade do poeta?
No livro, o tema ocupa um capítulo inteiro. Em resumo, Pessoa tinha uma natureza homossexual, mas nunca foi além disso (nunca concretizou sua opção). Não há um depoimento de amigo, um texto, uma foto em posição suspeita.

Pessoa bebia bastante. Com que evidência o senhor diz que ele não morreu de cirrose?
Sim, ele bebia muito, muito além do que era razoável. A arte de beber, que no livro ganha todo um capítulo, lhe foi ensinada pelo tio Henrique Rosa. Quanto à morte, convidei um grupo grande de professores doutores para discutir as causas de sua morte. E restou consensual não ter sido por cirrose. Apesar de Pessoa ter bebido sempre além da conta, não foi cirrose, com certeza. Ele não apresentou nenhum dos sintomas clássicos das fases finais da doença – icterícia, ascite, distúrbios neuropsíquicos, hemorragia digestiva alta, coma –, sem contar que cirrose não dá a dor abdominal aguda que ele teve, às vésperas da morte. A causa mortis provável terá sido pancreatite. O livro dedica um capítulo aos estudos que levam a essa conclusão.

Que outras revelações o livro traz, e de que modo essas descobertas mudam a visão que se tem de Pessoa?
No livro, busco saber quem é o homem por trás da obra. Sua obra já está bem estudada, faltava saber como era ele. E, pouco a pouco, das sombras, emerge um homem vaidoso e discreto. O livro fala de seus hábitos – suas rotinas e manias, como o sentar sempre sobre as mãos, a cabeça levemente pendida para a esquerda, o falar baixo – e também de um livro de poesias que escreveu e vendeu a um russo, que o publicou. Fala também do último encontro de Ophelia Queiroz, implausível amor, com seu corpo, no Hospital São Luís dos Franceses. Um estudo mais amplo sobre sua sexualidade, suas angústias, a arte de beber.

Suas páginas já irritaram alguém?
Ainda não. Mas penso que será normal que apareça mesmo algum Cristo. Mas eu contratei um historiador e um jornalista, em Portugal, para revisar cada página. A geografia de Lisboa, a história de Portugal, nomes, tudo foi conferido. Há dois tipos de pessoas, os felizes e os desesperados. Os felizes, homens sensatos que são, marcam data para acabar e acabam suas tarefas. E seus livros. Os desesperados, enquanto sentem que pode ficar melhor, não terminam nunca. Infelizmente, para mim, pertenço a este segundo grupo. Há suor e sangue, no livro, que escrevi em pelo menos quatro horas por dia, durante quase oito anos, indo em média quatro vezes por ano a Lisboa, conversando com todo mundo, inclusive anônimos que o conheceram. Escrevi um livro que ainda não existia, mas que eu queria ler. Sem nenhuma ideia de que seja aquele que os outros quererão mesmo ler. Espero que sim. Ardentemente.

Maria Carolina Maia

27/02/2011

às 8:39 \ poesia

Paulista acolhe a poesia concreta de Haroldo de Campos

Frederico Barbosa interrompeu um compromisso na agenda para receber a reportagem de VEJA na Casa das Rosas, em São Paulo. Ali, o poeta e professor de literatura, que é também diretor da instituição, iniciaria uma visita guiada por H Láxia, exposição em homenagem ao concretista Haroldo de Campos da qual é um dos curadores. Com um figurino que lhe é pouco familiar – terno e gravata herdados da reunião anterior -, Barbosa traçou um roteiro pela mostra, que se estende ao Itaú Cultural, na mesma avenida Paulista, em São Paulo, e lembrou a pertinência de ter um pé do projeto na Casa das Rosas, lugar que conserva o acervo do “mais barroco dos concretos”. E que dá agora vitrine a 300 poemas do autor, um destaque raro no meio.

Um gole de água para rebater o calor paulistano e Frederico Barbosa segue para o hall do antigo casarão da Paulista. A primeira obra no caminho é a reprodução do poema Servidão de Passagem, dividida em triângulos de concreto entre a entrada do centro cultural e o café Haroldo de Campos, já dentro da Casa das Rosas. “nomeio o nome / nomeio o homem/ no meio a fome”, diz um trecho do poema, assim mesmo, em caixa baixa. “poesia em tempo de fome/ fome em tempo de poesia / poesia em lugar do homem/ pronome em lugar do nome / homem em lugar de poesia/ nome em lugar do pronome.” Barbosa destacou o paradoxo da instalação, que, apesar do suporte concreto da pedra, expõe uma das poesias mais abstratas de Campos. “Estamos estudando a viabilidade dessa obra continuar aqui, mesmo após o término da exposição”, conta.

A exposição sobre a vida e a obra de Haroldo de Campos foi inaugurada em 17 de fevereiro e faz parte da série Ocupação, um projeto do Itaú Cultural que tem por objetivo proporcionar encontros entre as novas gerações e alguns dos principais nomes da literatura. A primeira edição aconteceu em 2009 e teve como foco a obra do curitibano Paulo Leminski. Haroldo de Campos, o homenageado deste ano, é outro nome fundamental da poesia brasileira, expoente do movimento concreto que ganhou corpo nas décadas de 1950 e 60, ao lado do irmão Augusto e do paulista Décio Pignatari, além de responsável por verter para o português do Brasil textos de clássicos como Joyce, Dante e Homero.

No saguão interno, há uma sala escura, onde, escrito e reescrito em tinta branca sobre fundos pretos, o poema âmago do ômega (vide ao lado) é iluminado em suas diferentes versões por uma luz negra. A técnica de exposição, usada por poucos na época, deixava trechos com falhas. “A Carmem, esposa do Haroldo de Campos, me contou que corrigiu com esmalte de unha algumas falhas que fatalmente aconteciam”, diz Barbosa. Na sala contígua, é possível penetrar a vida pessoal do poeta por meio de fotografias cedidas pela viúva do escritor. “Não foi fácil convencer Carmem a nos ceder isso, mas, como eu conheço a família desde pequeno por causa dos meus pais, a fui convencendo aos poucos. Montar esta exposição me deu saudade dele e de meu pai, consequentemente.” Barbosa é filho do também poeta João Alexandre Barbosa, amigo pessoal de Haroldo de Campos.

Para quem planeja visitar exposição, um bom roteiro é este aqui sugerido: começar pela Casa das Rosas e explorar um pouco do universo de Haroldo de Campos — não deixando de visitar o extenso acervo do escritor, que se encontra no subsolo do centro cultural. Daí, passar ao Itaú Cultural. Os dois imóveis são próximos. Ao seguir a pé pela ruidosa avenida Paulista, o visitante já se dará conta de que a exposição vai mudar radicalmente. O prédio moderno do Itaú Cultural, seu ar condicionado e os artifícios tecnológicos ali utilizados servem de símbolo para a modernidade e o alcance da obra de Haroldo de Campos, ao mesmo tempo em que contrastam com seu universo particular de criação, recriado na aconchegante Casa das Rosas.

H Láxia
, obra que dá nome à exposição, chama a atenção do visitante do Itaú Cultural, onde Haroldo de Campos ocupa o nível térreo. Concebido por Lívio Tragtenberg — também curador da mostra, ao lado de Barbosa, Gênese de Andrade e Marcelo Tápia —, o túnel branco reúne projeções em espelhos e permite que a voz dos passantes seja reproduzida por um áudio quase perturbador. Um caos capaz de explorar diferentes sentidos – como a boa poesia concreta.

No final do túnel, o visitante encontra o tradutor Haroldo de Campos – uma das facetas de um intelectual que colaborou para o enriquecimento nacional do país. Manuscritos e rabiscos feitos a caneta retratam seu modo de trabalho e os recursos utilizados no período em que passou para o português, com cuidado de amante das letras, os grandes clássicos da literatura universal. Em fones de ouvido, pode-se ouvir o poema Circulado de Fulô, musicado por Caetano Veloso ou recitado pelo próprio autor.

“circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie / porque eu não posso guiá e viva quem já me deu circuladô / de fulô e ainda quem falta me dá / soando como um shamisen e feito apenas com um arame / tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no /pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não / canta não é popular se não afina não tintina não tarantina / e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física / e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol.”

A impressão é mesmo de submersão no ambiente e na intimidade de um dos grandes poetas brasileiros. Não à toa, a generosidade é uma das palavras que mais aparecem na seção da mostra, em que figuras importantes do cenário cultural descrevem Haroldo de Campos. Um homem que ajudou a forrar de letras as prateleiras nacionais.
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Serviço Itaú Cultural: de terça a sexta, das 9h as 20h. Sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h. Na av. Paulista, 149 Telefone : (11) 2168-1777. Casa das Rosas: segunda a sábado, das 10h às 22h. Domingo e feriado, das 10h às 18h. Telefone: (11) 3285-6986

Renata Megale

19/12/2010

às 9:05 \ Entrevista, Livros da Semana, poesia

Entrevista: “A poesia tem se de ser livre para se criar dentro da tradição e romper com elas”, diz Bonvicino

A estrutura do livro é semelhante à de um blog: ela vai dos textos mais recentes aos mais antigos. Há alguma referência à internet?
Gozado, eu não tinha pensado nisso. Lembra mesmo um blog. Na verdade, eu me baseei no jeito como o João Cabral de Melo Neto organizou as suas Poesias Completas (livro lançado pela primeira vez em 1968, pela editora Sabiá). Ele ia da produção mais recente para a mais antiga, porque o presente fala do passado. Eu acho inovador esse jeito de estruturar o livro usado pelo João Cabral, que é talvez o maior poeta brasileiro de todos os tempos, juntamente com o Drummond e o Murilo Mendes. Mas a referência ao blog é interessante. Eu acho a internet a coisa mais espetacular que eu já vi acontecer, mais até que a chegada do homem à Lua. Nós estamos vivendo um período revolucionário, embora as pessoas nem se deem conta disso. Há muitas plataformas e possibilidades.

Qual influência o movimento concreto teve sobre a sua poesia?
Se eu tiver que falar em influência, minha poesia não valeu nada. Minha poesia é diferente disso tudo. Um autor deve trabalhar com a ideia de diálogo. Influência é submissão. Eu nunca fui submisso a nada. Tenho afinidades ideológicas, mas não de resultado com os concretistas. Não gosto de fazer aquelas coisas que eles fazem, poema visual, multimídia, esse não é o meu campo. Gosto do diálogo que eles tiveram, nos anos 1950 e 60, com o mundo. Eles traduziram bastante coisa e colocaram a literatura brasileira no mapa internacional. O Brasil é provinciano, os escritores queimam o capital da tradição, ficam repetindo Drummond, Cabral, Bandeira e hoje em dia nem isso mais. Os concretistas ergueram a cabeça para fora do Brasil, e isso foi de fato importante. Eu também gosto de textos deles, mas o que posso dizer é apenas que tive um diálogo com a poesia concreta no meu começo de produção, mais nada. Do mesmo modo que tive diálogos com Caetano Veloso, com a Tropicália, Bob Dylan (cujos versos “But you’re gonna have to serve somebody, yes indeed” abrem Até Agora), John Lennon, Jimmy Hendrix. Eu gostava de rock, mas não tinha vontade de escrever letra de música. Tinha vontade de criar uma poesia minha, no papel. Não tinha vontade de trabalhar multimídia.

Que diálogos foram mais relevantes para a sua produção?
No primeiro momento, há tropicalismo com concretismo. Depois, Régis só, e por fim um Régis mais avant-garde, fora dos costumes avant-garde daqui. A fase atual, que considero a mais rica em inovações e experimentações fora do alcance da tradição brasileira, é marcada por diálogos com a poesia de Black Mountain College (Robert Creeley), com o objetivismo americano de um George Oppen (primeira metade do século) e com poetas como Creeley, Michael Palmer, Charles Bernstei, Claude Royet-Journoud, Arkadii Dragomoshenko (Rússia) e Yao Feng (China). Um dos meus livros de que eu mais gosto foi feito com Yao Feng, Um Barco Remenda o Mar, que e reúne a produção de dez poetas contemporâneos chineses.

E a produção brasileira atual, como o senhor a vê?
A cultura brasileira, de modo geral, me desanima. Eu não gosto desse tempo atual, acho muito medíocre. O Brasil cantado por Lula só existe na cabeça dele. O Brasil é um país precário, sem cultura. Os artistas estão cooptados pela Lei Rouanet, tanto que tem esse manifesto Fica Juca (referente ao ministro da Cultura, Juca Ferreira). Para mim, artista deve ser independente, não pode estar vinculado a nenhum governo, para poder ser crítico do mundo e da situação brasileira, que é muito mediana. No Brasil, faz sucesso quem dá o seu pior. É uma regra que vale para toda a cultura brasileira: ela está estagnada e cooptada. E prêmios como o Portugal Telecom também cooptam artistas, que ficam bajulando a empresa e promovendo a sua marca. Eu prefiro o Prêmio São Paulo de Literatura e o Jabuti.

O que o senhor achou da polêmica em torno do Jabuti entregue a Chico Buarque?
Acho que Chico Buarque ganhar prêmio literário no Brasil fala da decadência da cultura nacional. Ele é um péssimo narrador. Eu não consigo ouvir suas músicas há trinta anos. Ele teve um papel importante com a canção de protesto na época da ditadura. Mas só venceu o Portugal Telecom, por exemplo, porque é uma forma de a empresa ampliar o alcance da marca.

Não há ninguém que se salve no cenário literário atual?
Há, sim. Embora a prosa brasileira esteja caída, tem gente legal, como Reinaldo Moraes e Pornopopeia. Ele é o cara que melhor domina hoje o fluxo narrativo. Ele tem um domínio do idioma e uma clareza no texto que me lembra a maestria do Nelson Rodrigues. Ele, sim, merecia ganhar um prêmio. Eu digo isso apesar de me lixar para prêmios. Prêmio faz bem para premiador, não para a literatura. Precisamos resolver questões culturais do país, como a precariedade da educação, sem isso não há literatura.

Como o senhor vê a crítica literária que se faz no Brasil?
Não há crítica literária no Brasil. Ela é praticamente feita de resenhas-release, de 3.000 toques, um espaço em que não é possível analisar coisa nenhuma.

No prefácio do seu livro, o professor de literatura da USP João Adolfo Hansen diz que não é possível fazer uma gramática própria da poesia. O senhor concorda?
Sim, porque, se você quer inventar, você não pode ter uma poesia dedutível. A poesia tem se de ser livre para poder se criar dentro de concepções da tradição, até para poder romper com elas.

Maria Carolina Maia

21/09/2010

às 19:39 \ Eventos, poesia

Hilda Hilst: o gesto, o grito, o verso

Chega a Porto Alegre esta semana o espetáculo Hilda Hilst, o Espírito da Coisa, monólogo em que a atriz Rosaly Papadopol dá vida, gestos e gritos à escritora Hilda Hilst. A peça rendeu a Rosaly o prêmio de melhor atriz de teatro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2009. Com um texto que combina passagens da vida de Hilda – como a sua relação com o pai esquizofrênico, que também escrevia, e sua opção por morar apartada do mundo em um sítio em Campinas – e trechos de seus trabalhos, o espetáculo serve de introdução à obra orgânica da escritora, que chegou a ser definida, certa vez, como uma “tábua etrusca”.

“Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum, meu filho, tu podes ir e, ainda que te movas o trem, tu não te moves de ti”, de Tu Não te Moves de ti, são alguns dos versos que estampam a peça.

O enigma não é, contudo, a chave para acessar Hilda Hilst. Ela é tão enigmática quanto qualquer poeta, como a própria lembra em uma de suas crônicas: “É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida”.

É também violenta, visceral e virulenta – vês que estão no espetáculo criado e encenado por Rosaly. “Que te devolvam a alma / Homem do nosso tempo / Pede isso a Deus / Ou às coisas que acreditas / À terra, às águas, à noite / Desmedida, / Uiva se quiseres, / Ao teu próprio ventre”, escreve em Poemas aos Homens do Nosso Tempo, outro texto incluído em Hilda Hilst, o Espírito da Coisa.

Hilda é poeta: se anuncia, mas não se deixa apanhar. No poema Do Desejo, também incluído no espetáculo, dá uma pista fugidia sobre si mesma: “Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.” Capte quem desejar.

O monólogo de Rosaly Papadopol esteve em cartaz em São Paulo por mais de um ano. Na capital gaúcha, participa do Festival Porto Alegre em Cena, nos dias 24, 25 e 26, no Sesc. A atriz ainda pretende levar o espetáculo a outras cidades do país.

Maria Carolina Maia

10/09/2010

às 8:46 \ Livros da Semana, poesia

Ferreira Gullar, 80 anos

Walter Craveiro / Divulgação Flip

O poeta maranhense Ferreira Gullar, durante a sua participação na Flip 2010

“Estou rodeado de mortes / Defuntos caminham comigo na saída do cinema”, escreve Ferreira Gullar em Reencontro, um dos poemas de Em Alguma Parte Alguma (José Olympio, 144 páginas), livro que chega quebrando um silêncio de 11 anos. Silêncio e morte são, aliás, temas recorrentes numa obra que se pode chamar de madura – principalmente no dia que o poeta maranhense faz 80 anos, 10 de setembro.

Considerado o maior poeta brasileiro em atividade, Gullar, ao contrário da impressão que pode criar a recorrência da morte em seus versos, emite sinais claros de vitalidade. Além de um novo livro de poemas, o maranhense, que se dedica também à pintura – as plásticas são sua segunda arte –, lança uma obra de colagens, Zoologia Bizarra (Casa da Palavra, 88 páginas). Um livro povoado de animais gerados por acaso, no ano em que conquistou o Prêmio Camões.

Nos dois casos, está presente o espanto, motor criativo do poeta (“estou eterno”), além das possibilidades de significados multiformes (“estou num tempo branco”), da contemplação do caos (“só o que não se sabe é poesia”) e de resvalos constantes na filosofia (“o homem tenta / livrar-se do fim / que o atormenta / e se inventa”). Elementos que podem ser vistos nos dois poemas abaixo, extraídos de Em Alguma Parte Alguma.

E vem mais Gullar por aí: uma peça sua, o monólogo O Homem como Invenção de si Mesmo, deve ganhar em breve os palcos paulistanos – leia mais aqui. Neste outro link, você também pode ouvir Gullar recitar dois de seus novos poemas.
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Anoitecer em Outubro
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A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira

Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois

para ouvir

nesta sala

a chuva que eventualmente caia

sobre as calçadas da rua Duvivier

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Flagrante

o meu gato
na cadeira
se coça

corto papéis coloridos na sala

e os colo num caderno

a manhã clara canta na janela

estou eterno
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Maria Carolina Maia

15/07/2010

às 15:48 \ Entrevista, poesia

Ferreira Gullar: a segunda parte da entrevista ou o velho poeta, seus mestres e a relação com o novo

Na estreia do atual site de VEJA, o poeta Ferreira Gullar – vencedor do Prêmio Camões 2010 e uma das atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano – concendeu uma entrevista exclusiva sobre seus novos projetos: o livro Em Alguma Parte Alguma, com lançamento previsto para setembro, e a peça O Homem como Invenção de si Mesmo, que deve entrar em cartaz em São Paulo ainda em 2010, sob a direção de Robson Phoenix. Generoso, Gullar dedicou mais de hora a uma bem-humorada conversa, que contou com a leitura de dois poemas do novo livro. Aqui, você lê a entrevista já publicada. Abaixo, você confere a segunda e última parte dessa entrevista, em que o velho poeta – considerado o maior entre entre os vivos do país – fala da relação com seus mestres e com os iniciantes que procuram a sua bênção.
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Quem o senhor lê hoje?
Hoje, eu mais releio do que leio. Eu releio meus poetas e romancistas prediletos. Muitos livros, pego ao acaso. Eu não sou sistemático. Outro dia, comprei na banca um CD de uma série lançada pela Folha sobre música popular brasileira. Era um disco do Noel Rosa, que eu botei no meu carro e fiquei ouvindo. É lindo. Eu me maravilhei, e eu conheço o Noel Rosa de trás para adiante. Mas, depois de algum tempo sem ouvir, fiquei maravilhado. Que beleza, que talento extraordinário, que humor, que inteligência. Aí, eu descobri que eu tinha em casa um livro que foi publicado há uns dez anos pelo João Máximo junto com Carlos Didier, sobre a vida do Noel. Eu já tinha lido por alto alguns capítulos, mas, como eu estou sempre ocupado com tanta coisa, não me detive nele. Agora, estou lendo vagarosamente. É um livro substancioso. Conta tudo sobre ele, sobre a Vila Isabel. É uma maravilha. Eu estou envolvido naquilo. Veja bem, eu não planejei, foi por acaso, mas eu estou lendo esse livro e curtindo a vida do Noel Rosa e as maluquices que ele fazia e a relação dele com uma enorme quantidade de compositores e artistas como Ismael Silva e Francisco Alves, o grande intérprete da época, que era um espertalhão da época – ele se apropriava da criação dos caras de quem só aceitava gravar composições se figurasse como autor. Então, eu estou lendo esse livro. Mas ao mesmo tempo leio outros. Releio João Cabral, Drummond, Rilke.

Rilke é uma citação freqüente sua. Ele foi um dos seus mestres?
Ah, foi. Ele foi um dos poetas que me revelaram o que deve ser a poesia foi ele. Houve outros, como Drummond, Murilo Mendes, Rimbaud, Mallarmé, Jorge Luís Borges. Quando eu era garoto, eu tinha de ler para aprender as coisas, certo? Eu dizia, preciso ler a Odisseia, a Divina Comédia. Eu tinha de ler para conhecer. Hoje, não tenho mais essa obrigação, leio o que me dá vontade.

No Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, uma garota lhe entregou o livro dela, na esperança de ter a sua opinião. O senhor procura dar retorno aos poetas iniciantes que o procuram?
Eu, em geral, digo logo que prefiro não fazer isso. Pode me dar, eu leio, e, se eu quiser opinar, eu opino. Não gosto de me comprometer a opinar porque, se eu não gostar, como fica? A experiência que eu tenho de dar opinião contrária é muito ruim. Algumas pessoas aceitam, outras ficam revoltadas. Eu já quase fui agredido por causa disso. A sorte é que estava falando com o cara por telefone. Ele não podia me bater, mas me insultou (risos). Eu não vou dizer que eu gosto de uma coisa que eu não gosto. Eu não vou fazer isso de maneira alguma, até porque não vou estar ajudando a pessoa. Mas, quando eu gosto, fico muito contente e em geral escrevo para o poeta, uma cartinha ou e-mail. Porque descobrir um novo poeta é uma coisa que me dá muita alegria.

Então, os autores que o procuram podem entender o seu silêncio como uma resposta.
Mas eu não quero mesmo ter essa tarefa. Não é a minha função ficar dizendo para as pessoas se está bom ou ruim, certo ou errado. Eu não quero assumir essa responsabilidade. Então, quando me pedem, eu leio, mas não me comprometo a dar opinião. Só dou quando gosto. Às vezes, é uma mocinha, que está soando em ser poeta e me entrega o poema dela com toda a simpatia, com toda a confiança, tal, e eu vou ter de dizer que não é bom? Quando tem alguma qualidade, tudo bem, você pode dizer algo. Como quando eu vejo que a pessoa é um poeta, mas ainda não sabe fazer, ótimo, eu digo, vai fazendo. Mas e quando eu vejo que a pessoa não vai conseguir? Porque, com a experiência que eu tenho, fica evidente que a pessoa jamais vai ser poeta. Ela não nasceu com essa qualidade.

O que distingue o poeta do não-poeta?
Ah, isso eu não sei dizer. É pelo feeling que você percebe se é ou não é. Você vê pela maneira como o cara lida com as palavras. O modo de tratar as palavras de um poeta não é igual à maneira de tratar as palavras de um jornalista, de um escriturário. Um jornalista escreve bem, mas o modo de tratar a palavra que ele tem não é o que tem o poeta. É outra maneira. Isso você percebe quando o poema está bem escrito, mas não é poesia. Aquela não é a maneira de tratar a linguagem. É claro que não é uma questão puramente de linguagem. A linguagem é um instrumento. Ali, há uma relação entre a linguagem e a visão de mundo, a sensibilidade. É toda uma maneira de ver a realidade. Ser poeta é ter uma atitude específica diante do mundo que não é a do filósofo, não é a do cientista. O poeta não é filósofo. A filosofia é diferente da poesia, ela tem um sistema, ela quer buscar coerência etc. etc. O cientista quer a verdade comprovada, é outra coisa. O poeta, não. Ele não quer ser coerente e, se for, ele não está preocupado com isso. Ele vive de descobertas e de espantos a cada momento. O poeta não cria sistemas. O poema que ele faz hoje não precisa ser coerente com o poema que ele fez há um ano. Ele não tem esse tipo de preocupação ou de compromisso. Ele também não tem por objetivo explicar o mundo e, ao mesmo tempo, ele tem liberdade para descobrir um mundo que o cientista e o filósofo não veem. Ele está a fim de revelar para as pessoas o seu espanto, o mistério e a beleza da vida, o que ela tem de incompreensível, de transcendente e de inexplicável. É claro que eu não vou buscar todas essas coisas no poema que um jovem me pede para ler. O que importa é que o modo do poeta se relacionar com as palavras é outro. Isso eu não sei explicar, mas eu sinto quando um cara tem um relacionamento com as palavras – e com o pensamento, consequentemente – que é próprio do poeta. Eu posso me enganar também, evidentemente, mas eu suponho perceber isso. E raramente me engano.


Maria Carolina Maia


 

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