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Arquivo da categoria Páginas estrangeiras

24/04/2012

às 12:34 \ Páginas estrangeiras

Livro adulto da ‘mãe’ de Harry Potter sai pela Nova Fronteira

A escritora britânica JK Rowling, autora de Harry Potter (Jeff J Mitchell/Getty Images)

A estreia da britânica J. K. Rowling na literatura adulta sairá, no Brasil, pela Nova Fronteira, selo da editora Agir. O anúncio foi feito nesta terça-feira pela empresa. Rowling é autora da série best-seller Harry Potter, que no país foi publicada pela Rocco.

“A editora Nova Fronteira acaba de fechar contrato para a publicação do novo livro de J.K. Rowling, The Casual Vacancy, primeiro romance adulto da autora da série Harry Potter, cujos títulos já venderam mais de 400 milhões de exemplares em todo o mundo”, diz comunicado da Ediouro. “A obra tem lançamento mundial previsto para setembro.”

 

08/02/2011

às 17:49 \ Páginas estrangeiras

Centenário de Bishop tem comemoração tímida no Brasil

É tímida a comemoração por parte do mercado editorial, mas, nesta terça-feira, a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) completaria cem anos. Considerada um dos maiores poetas do século XX, com presença forte no Brasil, onde viveu cerca de vinte anos, Bishop não tem nenhum livro em vias de reedição. A ausência de relançamento neste momento se justifica por uma triste razão: o público leitor do país, se já é pequeno em volta da prosa, é ainda menor ao redor da poesia.

Atualmente, os livros encontram-se esgotados no Brasil. A Companhia das Letras, editora que detém os direitos das obras de Bishop no país, estuda relançar títulos da poeta, mas ainda não tem data prevista. O único lançamento relacionado à americana já confirmado é o do romance The More I Owe You, de Michael Sledge, pela editora Leya, em junho. O livro é baseado no relacionamento da poeta com a brasileira Lota de Macedo Soares, relação que deu alguma estabilidade à tumultuada vida da poeta.

Marcada pela perda – O fim do relacionamento, no entanto, não foi dos mais fáceis, e entraria para a galeria de tragédias que marcaram a vida de Bishop. Lota cometeu suicídio em 1967. A experiência da perda já acompanhava, então, Bishop há muito tempo. A americana nasicda em Worcester, Massachusetts, perdeu o pai com oito meses de idade e, quando tinha 4 anos, sua mãe apresentou sinais de insanidade.

A escritora foi criada por familiares no Canadá e Estados Unidos. Formou-se na Faculdade de Arte de Nova York – Vassar College – em 1934 e publicou seu primeiro livro, North & South, em 1946. Entre os títulos da poeta lançados pela Companhia das Letras, estão Poemas do BrasilO Iceberg Imaginário e Outros Poemas (antologia bilíngüe), Esforço do Afeto e Uma Arte – Cartas de E. Bishop.

A menção às tragédias não é, porém, escancarada nessas obras, como era de se esperar. Bishop nega-se a si mesma qualquer sentimento de auto-compaixão, recusa-se a aceitar o papel de vítima. Para extrapolar suas emoções, adota uma série de disfarces poéticos. E, como bem definiu T.S.Eliot, “a poesia não é um soltar de emoções, mas uma fuga da emoção; não é a expressão de personalidade, mas uma fuga da personalidade. E só os que têm personalidade e emoções sabem o que significa querer escapar dessas coisas”.

Outras homenagens – Se o centenário de Bishop não tem a festa merecida no mercado editorial, ele é celebrado no cinema e no teatro. O cineasta Bruno Barreto começa a rodar no segundo semestre deste ano o longa A Arte de Perder, também sobre o romance da poeta com Lota. O elenco já conta com Glória Pires e há boatos de que Jodie Foster seria uma das atrizes americanas cotadas para interpretar a escritora.

No teatro, a peça Um Porto para Elizabeth Bishop, monólogo da jornalista e escritora Marta Góes e encenada pela atriz Regina Braga, também tem reestreia prevista para este ano.

Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contém em si o acidente

de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subseqüente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império

que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)

não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser um mistério

por muito que pareça (escreve) muito sério.

(Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Britto)

Renata Megale

21/01/2011

às 19:56 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Vale a pena ressuscitar Sherlock Holmes?

Colocar no mercado, ao alcance dos leitores, livros que um escritor não quis lançar em vida é uma prática bastante questionável – pode ser entendida tanto como um favor aos fãs carentes de uma nova publicação do autor como um golpe comercial da editora. E o que se diz de um escritor retomar um personagem clássico criado décadas antes por um autor já morto? A pergunta é coerente no momento em que corre a notícia de que a editora britânica Orion prepara para setembro o lançamento de uma nova história de Sherlock Holmes,  o clássico detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle.

O autor responsável pelo livro, o inglês Anthony Horowitz, promete não “tomar liberdades” com Sherlock e apenas inseri-lo em uma nova trama policial. Em se levando em consideração a opacidade inerente ao personagem do gênero policial, que pouco transparece de si mesmo para não entregar pistas em excesso ao leitor, é possível que cumpra o que diz. Mas herdeiros e fãs puristas devem coçar a cabeça de apreensão de qualquer modo. Nunca se sabe o que pode resultar desses arriscados enxertos.

O bom currículo do substituto de Conan Doyle, que a Orion tem tratado de divulgar, não dirime os riscos. Autor de livros infantis como Alex Rider e roteirista de televisão, Horowitz, que se diz fã de Sherlock Holmes desde a adolescência, já teria adaptado para a TV histórias de outro detetive clássico: Hercule Poirot, de Agatha Christie.

Qualquer que seja a qualidade do novo trabalho, é possível que Sherlock Holmes, desde o início um grande vendedor de livros – O Cão dos Baskerville é tido um dos primeiros bestsellers do século XX -, volte a dar lucros nesta empreitada. Originalmente publicado na revista inglesa Strand Magazine, o personagem foi salvo pelos leitores da publicação quando Conan Doyle, cansado de movê-lo em cenários diversos, decidiu aposentá-lo. Um número recorde de cancelamento de assinaturas fez o escritor mudar de ideia.

Para quem é fã do detetive, uma dica de leitura é a coleção completa de Sherlock Holmes que a editora Zahar está lançando. Publicada originalmente nos Estados Unidos pela Norton, a coleção reúne toda a obra de Sir Arthur Conan Doyle, acompanhada de textos informativos, ilustrações e notas de rodapé.

Maria Carolina Maia

13/01/2011

às 15:30 \ Páginas estrangeiras

Joyce e Proust ganham novas edições nacionais em 2012

Ulysses, a obra indecifrável do irlandês James Joyce, vai ganhar uma nova edição brasileira em 2012. A Companhia das Letras acaba de incluir o livro no catálogo de lançamentos do selo Penguin-Companhia de 2012. O anúncio pela editora é feito no dia em que se completam 70 anos da morte de Joyce (1882-1941).

A nova versão da obra que é considerada o primeiro “clássico moderno” da história – e que chegou a ser censurada por suas transgressões literárias - sai com tradução de Caetano Galindo e coordenação editorial do Paulo Henriques Britto.

Selo criado em parceria com a britânica Penguin e dedicado aos clássicos, o Penguin-Companhia prepara o lançamento de outro gigante da literatura: a série Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, que inspirou a escrita de, entre outros, Gilberto Freyre. A obra ganhará edição em sete volumes. O primeiro deve sair no 2° semestre de 2012.

Joyce e Proust são, para boa parte da crítica, os grandes nomes da literatura no século XX.

05/01/2011

às 20:02 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Nos EUA, Mark Twain sofre censura que enquadrou Lobato

Nem só na terra da mítica democracia racial se censuram clássicos da literatura por termos julgados preconceituosos. As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910), obras que serão lançadas num único volume nos Estados Unidos em fevereiro, terão seus textos alterados pela editora NewSouth Book. A companhia quer suprimir os termos nigger e injun, considerados sinônimos de teor negativo para negro e índio e, portanto, pedras para leitores e censores escolares politicamente corretos.  Algo semelhante ao que aconteceu no fim de 2010 com Monteiro Lobato, que teve o livro Caçadas de Pedrinho desaconselhado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

Em parecer publicado no Diário Oficial da União em outubro, o CNE recriminava a adoção da obra de Lobato por chamar a personagem Tia Nastácia de “negra” e compará-la a uma macaca, como na frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”. Como alternativa, o CNE recomendava o uso de Caçadas de Pedrinho apenas por professores que dominassem a história do racismo no Brasil e que pudessem, assim, impedir leituras nocivas por parte de seus alunos.

No caso de Twain, a opção da NewSouth é substituir as expressões tidas como racistas por outras como slave (escravo) e indian (índio) e evitar polêmicas já de saída. Objetivo que, se percebe, não foi atingido: revelada pela publicação especializada Publishers Weekly, a estratégia pôs a editora no centro de uma discussão acalorada e a levou a se justificar. “Em um movimento ousado defendido pelo estudioso de Twain Alan Gribben, substituímos duas palavras dolorosas que aparecem centenas de vezes nos textos do escritor”, diz comunicado da NewSouth. “Isso diminui possibilidade de os livros serem vetados nas listas escolares.”

Para o curador do prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb, intervir numa obra não é a solução. “Há peças de Shakespeare em que o judeu é apresentado como vilão. Eu sou judeu e não vou deixar de ler Shakespeare por isso”, diz. “É polêmico, mas o caminho não é mutilar uma obra de arte.” Para além da questão artística, ele analisa uma razão histórica: obras como a de Twain e Lobato foram escritas em sociedades caracterizadas por políticas e relações raciais distintas das de hoje. A presença de expressões de teor pejorativo como nigger ou injun, no caso de Twain, revela algo sobre o mundo em que os textos surgiram. Os livros se tornam documentos históricos.

Para além das questões artística e histórica, porém, está em jogo a questão comercial. É aí que a polêmica se inicia. Com jeito de não ter fim.

Maria Carolina Maia

04/01/2011

às 21:07 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Anjos, os novos vampiros do mercado literário

O flanco de mercado aberto por Harry Potter no Brasil, há mais de dez anos, vem sendo dominado por personagens com características sobrenaturais, cujo poder principal é o de arregimentar leitores entre o público jovem. O nicho já foi protagonizado por bruxos, por seres mitológicos e por vampiros, os atuais mandatários do pedaço. E tudo indica que em breve será tomado por criaturas celestiais. “Os anjos são o filão do momento”, diz Gabriela Nascimento, editora de títulos juvenis da Agir/Ediouro, que acaba de lançar no Brasil a trilogia Halo, da australiana Alexandra Adornetto.

Nos últimos meses, livros como Halo (472 páginas, 39,90 reais), que inaugura série homônima, e Beijada por um Anjo, da Novo Conceito, figuraram na lista dos mais vendidos de VEJA, com milhares de exemplares comercializados. Halo, quando chegou ao ranking, encontrou aliás outro best-seller do segmento: Fallen, inglês para “caído” (Record, 406 páginas, 39,90 reais), da americana Lauren Kate. Desde que foi publicado por aqui, no final de julho, o título vendeu mais de 50.000 cópias, reprisando o bom desempenho alcançado nos Estados Unidos, onde entrou para a lista de best-sellers do New York Times e teve seus direitos para o cinema comprados pela Disney. E selou de vez a aposta da robusta Record no segmento. Em outubro, a editora carioca daria partida a uma segunda série de anjos, com o lançamento de Cidade dos Ossos (462 páginas, 39,90 reais), de Cassandra Clare, famosa por seus fanfictions (derivações livres) de Harry Potter. Cidade dos Ossos, que nos EUA inspirou até uma linha de joias, teve 10.000 cópias comercializadas por aqui.

“De fato, depois da linha de Harry Potter, que une magia e fantasia, passamos pelos vampiros da Stephenie Meyer e agora há uma movimentação para o lado dos anjos”, diz Fabio Herz, diretor de marketing e relacionamento da Livraria Cultura. “Esse filão pode não atingir a força do nicho vampiresco, mas certamente vai continuar crescendo, porque há um interesse claro do público e porque o segmento dos vampiros uma hora vai saturar.”

Se é o interesse do público quem dita os rumos do mercado, não faltam indícios de que os anjos têm um céu aberto pela frente. Sussurro (264 páginas, 29,90 reais), pontapé inicial da saga americana Hush Hush, de Becca Fitzpatrick, foi lançado em junho pela Intrínseca, a mesma editora dos hits Crepúsculo e Percy Jackson, e, de acordo com a empresa, já contabiliza quase 41.000 exemplares vendidos. Sussurro foi tão bem recebido pelos leitores que sua tiragem inicial de 30.000 exemplares precisou ser repetida e agora a Intrínseca planeja uma tiragem duas vezes maior para Crescendo, o segundo título da série. O livro sai em janeiro com 60.000 cópias.

Outra saga angelical bem sucedida lá fora e importada pelo mercado nacional é Beijada por um Anjo, da americana Elizabeth Chandler, sobre um casal metade humano metade anjo. A trilogia teve seus dois primeiros livros, Uma Inesquecível História de Amor e Suspense (Novo Conceito, 263 páginas, 29,90 reais) e A Força do Amor (Novo Conceito, 263 páginas, 29,90 reais), entregues às lojas em outubro. Desde então, segundo Milla Baracchini, vice-presidente da editora Novo Conceito, de Ribeirão Preto, venderam, cada um, dezenas de milhares de exemplares.

O poder dos anjos – A publicação de um livro não se faz do dia para a noite. Os editores estão sempre visitando feiras no Brasil e no exterior, acompanhando os lançamentos e planejando o que vão pôr no mercado com um ano de antecedência, em média. Na Novo Conceito, a revoada dos anjos vinha sendo armada desde o início de 2009. “Os anjos despontaram como tendência há mais de um ano. Na época, já havia muita coisa de vampiro, nós sentíamos que esse filão estava se esgotando. Buscando algo novo para lançar, encontramos a série da Elizabeth Chandler, que nos EUA foi lançada ainda no final dos anos 1990, e deve ganhar uma continuação em 2011”, diz Milla. “O leitor brasileiro de modo geral ainda é um jovem leitor, então, se o livro for fácil, tem boa aceitação. No caso dos anjos, contribui o fato de eles não serem tão diferentes dos vampiros, que estão em alta: são personagens com poderes especiais, vivendo histórias de amor.”

Para Gabriela Nascimento, da Ediouro, além de envolvidos em histórias românticas, os anjos estão imersos em crises que permitem ao leitor, ainda mais adolescente, se identificar com eles. “Os anjos atraem pela dicotomia entre o bem e o mal, especialmente os caídos, que fazem bobagens e enfrentam dilemas. Na adolescência, os questionamentos éticos são mais acentuados e a identificação é maior com esses personagens de dois lados, que precisam escolher entre agir bem ou mal, assim como o vampiro bonzinho de Crepúsculo deseja, mas tem pudor de morder a amada.”

O tipo de discussão presente nesses livros, diz Gabriela, é capaz de atrair leitores do campo da autoajuda. “Há uma migração clara de um segmento para o outro”, conta. Não se trata, portanto, de uma literatura apenas para adolescentes. “Leitores de até 30 anos, e às vezes de mais idade, também podem se interessar.”

Leia mais aqui.

Leia também:

Na literatura, os anjos são vários, mas são todos humanos

Entrevistas com as autoras de Fallen e Sussurro

07/12/2010

às 9:29 \ Páginas estrangeiras

Piglia que se prepare: Vargas Llosa não quer se aposentar

(Kai Försterling/EFE)

O Nobel peruano Mario Vargas Llosa (Kai Försterling/EFE)

O argentino Ricardo Piglia, para quem Mario Vargas Llosa foi um bom escritor até 1966, apenas, deve se preparar. O peruano afirmou que não vai deixar de escrever depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura. A cerimônia de entrega do Nobel acontece na próxima sexta, em Estocolmo. Mais: Vargas Llosa disse que pretende se ocupar com projetos literários até o final da vida.

O escritor peruano de 74 anos conversou com a imprensa durante coletiva na Academia Sueca. ”Não vou me transformar em uma estátua”, declarou aos jornalistas, aproveitando para falar também sobre o atual cenário político e social – conversa de que fez parte o WikiLeaks, convertido a fenômeno da internet após o vazamento de segredos diplomáticos na semana passada.

Para o autor de Pantaleão e as Visitadoras, o WikiLeaks é tanto “formidável” pela transparência que proporciona, quanto “perigoso”, por derespeitar a confidencialidade de um estado. ”O caso demonstra que os estados democráticos são mais vulneráveis a essa exposição.”

Clique aqui para ver a entrevista em vídeo de Mario Vargas Llosa ao site de VEJA.

02/11/2010

às 8:39 \ Páginas estrangeiras

Livro descerra o horror da vida privada na Rússia stalinista

Quem se impressionou com a opressão da liberdade individual vista no filme A Vida dos Outros, retrato da Alemanha comunista dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck e premiado em 2007 com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, vai se interessar igualmente por Sussurros (editora Record, 826 páginas, 84,90 reais). O tijolão do historiador londrino Orlando Figes é pesado não apenas pelo volume das páginas, mas pelas histórias e cenas que descreve. Refazendo a trajetória de famílias que viveram sob o domínio de Josef Stalin, um dos mais sanguinários ditadores do século XX, Sussurros mostra que a crueldade stalinista não se limitava à perseguição política dos inimigos do regime ou à coletivização forçada da terra – ela estava muito presente dentro de cada casa, alimentando desconfianças entre vizinhos e até entre casais, incutindo medo nas crianças e criando seres de vida dupla, que precisavam esconder no mais fundo da alma valores que destoassem do regime.

Stalin assumiu a liderança do Partido Comunista em 1928, quatro anos após a morte de Lênin. Sua influência sobre a União Soviética, porém, já se fazia sentir há muito, pois desde o início ocupou cargos de poder dentro do partido, do qual se tornou secretário-geral em 1922. Seu plano era de forjar o verdadeiro homem comunista, com mente e espírito permeados pela doutrina do regime, obediência absoluta às suas determinações e tempo totalmente dedicado à construção de uma sociedade comunista e coletivista – leia-se: de nenhuma liberdade individual. Além, é claro, de afastar a possibilidade de traição. A paranoia stalinista foi decisiva para a prisão e a morte de camaradas que, de uma hora para outra, eram considerados perigosos. “As atitudes e os hábitos que herdamos da antiga sociedade são os inimigos mais perigosos do socialismo”, afirmou, em 1924, Stalin.

Incentivar e premiar a delação, espalhando o terror, eram suas principais armas de controle, ao lado do combate a valores considerados burgueses – entre eles, a fé religiosa. Stalin, como mostra Sussurros a partir de personagens reais como o “escritor proletário” Konstantin Simonov, elevou a níveis extremos uma política de perseguição que já ditava rumos à União Soviética, com a realização de encontros para colher delações e a construção ou divisão de apartamentos entre diversas famílias (veja mais no quadro abaixo). Para tudo, o pretexto era o bem comum, ancorado na solidez do regime. “No 14º Congresso do Partido, em 1925, foi decidido que relatar uma conversa privada devia ser uma ação geralmente vista com maus olhos, mas não se a conversa fosse considerada ‘uma ameaça à unidade do partido’”, diz Figes em um trecho do livro.

Clique aqui para ler o restante da matéria e conferir trechos de Sussurros.

12/10/2010

às 9:15 \ Páginas estrangeiras

’2666′, o livro do ano?

Há muito em 2666, livro póstumo do chileno Roberto Bolaño, lançado neste ano no Brasil. Há muitas páginas, muita badalação – ele vem sendo apontado como “o” livro de 2010, afirmação que a essa altura do ano já se pode questionar – e também muitas referências. Bolaño parece tomado por um impulso avassalador de escrever. Percorre lugares diversos (Itália, Alemanha, Ucrânia, Estados Unidos, México) e momentos importantes do século XX, como a Segunda Guerra Mundial e o movimento negro americano, cria histórias dentro de histórias, personagens a partir de personagens, e cita estilo atrás de estilo, sem nunca perder o próprio, marcado por um ritmo ágil e um humor cínico em que transparece o ceticismo do autor. A começar pelo título: ele não diz nada. Talvez uma data, 2666 pode ser, como sugere o crítico Ignácio Echevarría no posfácio, um ponto de fuga para onde convergem as caudalosas páginas do romance, projeto de que Bolaño se orgulhava por ser o mais ambicioso da sua vida.

O livro é dividido em cinco partes, que têm links apenas sutis entre si. Na primeira, quatro intelectuais europeus (um italiano, um espanhol, um francês e uma britânica) travam contato e se tornam amigos a partir de encontros em que se discute a obra do escritor alemão Benno von Archimboldi. O tomo parece dever muito ao argentino Jorge Luis Borges, com suas brincadeiras com a cultura acadêmica, com autores e obras que só existem nos livros do próprio Borges, assim como Archimboldi só existe em 2666. O escritor só será apresentado na etapa final do romance, quando se conhecerá toda a trajetória de Hans Reiter, alemão que assume o pseudônimo de Benno von Archimboldi depois de estrangular um assassino de judeus, num acampamento americano de prisioneiros de guerra.

A segunda parte, tanto pelo humor absurdo como pelo fantástico, tem um toque de Gabriel Garcia Márquez. O professor Almafinato, um espanhol contratado para dar aulas na Universidade de Santa Teresa, cidade mexicana onde ocorre uma série impressionante de assassinatos de mulheres, e que parece ter a real Ciudad Juaréz como inspiração, é um personagem que sintetiza essas duas linhas. Meio pancada, tem um livro de geometria pendurado no varal de casa e escuta uma voz que lhe chama de “bichona”.

No tomo seguinte, sobre um jornalista negro – Fate – que trabalha em uma revista voltada a afroamericanos, se percebem ecos da literatura americana. Especialmente nos diálogos, cadenciados segundo o ritmo da fala local (algo como “O que que há, John?”, “A mesma desgraça de sempre, Mike”).

A marca quarta parte é a descrição dos incontáveis assassinatos de mulheres em Santa Teresa. São tantos que é impossível reter nomes de vítimas, locais dos crimes e métodos do assassino. E talvez seja precisamente esta a ideia do autor: transformar as vítimas em traços, como nos relatórios de estatísticas, banalizando os crimes cometidos contra as mulheres no México, ideia reforçada pelas passagens em que se vê o machismo local, como quando policiais contam piadas em uma lanchonete.

2666 é de fato abundante, porque Bolaño gosta de escrever – gosto que contagia o leitor. Ou porque quer assinar um projeto grandioso – como chegou a declarar. Ou porque sente urgência em fazê-lo – quando terminava o livro, o escritor já tinha por certa a sua morte por câncer, certeza que o fez determinar a divisão do título colossal em outros menores, modo de facilitar as vendas e manter financiada por algum tempo a sua família, estratégia que seus herdeiros rejeitaram, restituindo o projeto inicial do escritor de lançar o romance completo. Ou por tudo isso. Seja como for, as palavras transbordam no livro. Todo romance é feito de histórias menores, contos, que compõem a história maior. Neste, é possível encontrar narrativas breves completamente independentes do todo, como a do soldado alemão que se perde em túneis subterrâneos na Normandia, sonha com Deus, que lhe pede para comprar sua alma, embora já seja sua, é resgatado pelo pelotão, acha que teve uma revelação e um dia depois morre atropelado. É literatura em profusão. Daí, badalações à parte em torno da figura de Bolaño, autor cada vez mais mitificado no universo editorial, o livro ser um candidato de peso ao posto de melhor do ano. Algo que, a essa altura, já se pode questionar. E responder: tem grandes chances de ser.

Maria Carolina Maia

05/10/2010

às 20:45 \ Páginas estrangeiras

Philip Roth lança livro e reflete sobre declínio do romance

O escritor americano Philip Roth não gosta de e-books e das influências da tecnologia moderna que desviam a atenção das pessoas, que, para ele, reduzem a capacidade das pessoas de apreciar a beleza e a experiência estética da leitura de livros em papel. Célebre por romances como A Marca Humana, Roth acha que não há nada que ninguém possa fazer a respeito disso. No entanto, ao mesmo tempo em que ele transmite o que pensa das novas tecnologias, é difícil não considerar que, ao escrever livros mais curtos – coisa que ele vem fazendo regularmente desde seu primeiro livro, Adeus, Columbus, de 1959 – o próprio Roth está à frente de seu tempo há anos.

“É uma pena. Mas é o que está acontecendo, e não há nada que se possa fazer”, disse Roth, de 77 anos, à Reuters, discutindo a paisagem editorial em transformação na era digital durante entrevista concedida para falar de seu novo livro, Nemesis, lançado nos EUA e Grã-Bretanha nesta terça-feira. ”A concentração, o foco, a solidão, o silêncio, tudo o que é necessário para a leitura séria, não estão mais ao alcance das pessoas.”

Começando com o cinema, no século 20, e continuando com a televisão, os computadores e, mais recentemente, redes sociais como o Facebook, o leitor hoje tem sua atenção totalmente distraída, disse ele. ”Hoje, vivemos entre telas múltiplas, e não há como concorrer com elas”, disse Roth. Ele não pretende comprar nenhum tipo de aparelho de leitura, como o Kindle da Amazon. “Não vejo utilidade nisso, para mim”, explicou. “Gosto de ler na cama, à noite, e gosto de ler livros. Não suporto mudanças.”

Em meio à discussão no mundo editorial sobre a possível morte iminente do romance popular mais longo e o crescimento das novelas (romances curtos), graças aos e-books, Nemesis, com 56.000 palavras, é o mais recente de um ciclo de novelas de Roth. Mas o formato econômico do livro, que trata da luta interna de um jovem diretor de playground no momento em que sua comunidade sofre uma epidemia de pólio, surgiu há cerca de oito anos. ”Eu estava curioso para ver se conseguiria condensar, reduzir e mesmo assim escrever algo contundente”, explicou Roth.

Ele é conhecido sobretudo por romances em formato longo, como seu controverso O Complexo de Portnoy, de 1969, e Pastoral Americana, premiado com o Pulitzer. Publicado pela Houghton Mifflin Harcourt, Nemesis é ambientado em 1944, na cidade natal do autor – Newark, Nova Jersey -, um lugar que fascina Roth devido a seu declínio. O tema da poliomielite surgiu porque Roth, visto como mestre em captar a identidade e a angústia americanas, fez uma lista de acontecimentos americanos que testemunhou em sua vida e sobre os quais nunca havia escrito.

O livro é repleto de tradições americanas aparentemente inocentes, como a de servir limonada fresca, mas a sombra da 2ª Guerra Mundial se ergue ameaçadora sobre a história. E o pânico que as comunidades demonstram diante da pólio lembra ao leitor que “Nemesis” poderia ser uma história moderna sobre o medo de doenças como a Aids, disse Roth.


 

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