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Arquivo da categoria Leituras cruzadas

15/05/2012

às 18:22 \ Leituras cruzadas

Rocco vai publicar inédito de Carlos Fuentes, morto aos 83

Escritor mexicano Carlos Fuentes em sua biblioteca em 2008 (Ronaldo Schemidt/AFP)

Morreu nesta terça-feira, aos 83 anos e de causas ainda desconhecidas, o escritor Carlos Fuentes. Nome dos mais importantes da literatura contemporânea mundial, Fuentes terá um livro inédito lançado no país no segundo semestre pela Rocco, editora que detém os direitos de publicação do mexicano no Brasil. Federico en Su Balcon, o romance, é uma homenagem do escritor ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Panamenho de nascença, mas filho de um diplomata mexicano, o escritor Carlos Fuentes passou parte de sua vida morando em diversos países, como Equador, Uruguai, Brasil, Chile, Argentina, Suíça e Estados Unidos. No entanto, foi no México que, estimulado pelo pai, desenvolveu suas raízes culturais, que estiveram presentes nos temas de suas obras.

Com 26 anos, Fuentes escreveu seu primeiro livro, Los Días Enmascarados (1954). A consolidação como um nome de peso na literatura latino-americana aconteceu anos depois, com a publicação de obras como A Região Transparente (1958), A Morte de Artemio Cruz (1962), Aura (1962) e Terra Nostra (1975), que lhe rendeu o Prêmio Rómulo Gallegos, em 1977.

Ao longo de sua carreira de cinco décadas, Fuentes recebeu títulos e premiações, como a nomeação como membro honorário da Academia Mexicana da Língua e os prêmios, como o Miguel de Cervantes, em 1987 – equivalente ao Prêmio Camões na língua espanhola – e Príncipe das Astúrias, em 1994.

Repercussão - Confira o que dizem outros escritores sobre a morte de Carlos Fuentes.

Salman Rushdie, escritor
“RIP Carlos, meu amigo. Ontem, teve ao trote sobre Gabo (Gabriel García Márquez), mas isso é verdade, infelizmente.”

Mario Vargas Llosa, escritor (no site do jornal El País)
“Com Fuentes, desaparece um escritor cuja obra e cuja presença deixaram uma pegada profunda. Seus contos, novelas e ensaios estão inspirados principalmente pela história e problemática do México, mas ele foi um homem universal, que conheceu muitas literaturas, em muitas línguas e que viveu de uma maneira comprometida com todos os grandes problemas políticos e culturais de seu tempo.”

Martin Caparrós, escritor
“Para sempre, professor, e obrigada por tudo. Alguém disse: ‘Morreu Carlos Fuentes, não Artemio Cruz.’”

Guillermo Arriaga, roteirista
“Fiquei sabendo da morte de Carlos Fuentes. Que tristeza. Lamento.”

Jorge Volpi, escritor mexicano
“Sinto terrivelmente a morte de Carlos Fuentes, o maior novelista do México, amigo generoso. Um grande abraço a Sílvia e Cecília.”

 

Imprensa

The Guardian
“Cervantes e seu personagem Dom Quixote foram influências cruciais para Fuentes como romancista. Ele viu Cervantes, junto com Shakespeare, como a inauguração da era moderna e deleitou-se com a mistura feita pelo autor espanhol de fantasia e realidade.”

The New York Times
“Sua geração de escritores, incluindo o colombiano Gabriel García Marquez e o peruano Mario Vargas Llosa, chamaram a atenção para a cultura latino-americana durante o período em que ditadores comandavam a região.”

El País
“Sua resistência era de um atleta, mas o coração estava enfrentando os impactos até que não pôde mas; sua força física, que também foi sua fortaleza literária, foi vencida pela idade do tempo, essa metáfora em que ele colocou seu empenho como escritor e também como resposta civil a do México e da humanidade.”

Le Figaro
“Carlos Fuentes tinha um projeto louco, escrever a história imaginária do mundo, dar à sua obra a forma da memória do tempo, enquanto atribuía à literatura um papel essencial na história da humanidade: ordenar o caos, oferecer alternativas ao desespero e um significado às ideias. Carlos Fuentes era Dom Quixote contra Hamlet. O segundo pensa que a literatura não é mais que palavra sem sentido, o primeiro acha que ela pode mudar a vida.”

13/08/2011

às 12:12 \ Leituras cruzadas

A sombria literatura infantojuvenil americana

No começo de junho, a crítica literária americana Meghan Cox Gurdon levou a literatura infanto-juvenil a ser um dos assuntos mais comentados do Twitter nos Estados Unidos. Ela foi atacada por leitores, escritores e representantes da indústria dos livros por fazer uma dura crítica ao que se tem produzido para o público jovem americano: livros sombrios, com temas como sequestros, incesto, distúrbios alimentares e auto-mutilação.

Meghan fala de livros como The Lying Game, de Sara Chepard, Abandon, de Meg Cabot, e Between Shades of Gray, de Ruta Sepetys, que estiveram na lista dos infanto-juvenis mais vendidos do jornal New York Times nos últimos meses.

Num artigo publicado no site do The Wall Street Journal, Meghan conta a experiência de uma mulher de Maryland que foi a uma livraria à procura de um romance para presentear a filha de 13 anos e acabou saindo de mãos vazias, desanimada com a incessante escuridão dos livros da seção de infanto-juvenis.

Poucas horas depois da publicação do artigo de Meghan Cox Gurdon, ele se tornou um dos tópicos mais comentados do Twitter dos Estados Unidos. “Idiota”, “ignorante”, “irresponsável” e “condenável” foram alguns dos adjetivos usados junto ao nome da americana pelos furiosos adolescentes defensores dessa literatura infanto-juvenil. Ela chegou a ser acusada de estar argumentando contra o ato da leitura, encorajando os jovens a se afastar do hábito de ler.

Um exemplo dessa literatura dita sombria? “Eu costumava me contorcer quando ouvia pessoas falando sobre automutilação – tirar uma navalha de sua própria carne nunca me pareceu lógico. Mas na verdade é maravilhoso. Você pode cortar de você todas as frustrações que as pessoas colocam em você.” Esse trecho está na contracapa – local onde as editoras tentam ganhar os possíveis compradores – de um dos livros que se encaixam na crítica de Meghan. Para ela, está claro que o livro não é a única coisa sendo vendida aí, mas também a ideia de que a automutilação é uma saída para os problemas.

Função terapêutica – Os defensores desse tipo de literatura dizem que esse tipo de temática tem uma função terapêutica para os adolescentes que passam por dramas pessoais semelhantes. “Infanto-Juvenil salva”era a hashtag de milhares dos posts do Twitter daqueles que escolheram expressar sua raiva em 140 caracteres ou menos”, escreveu Meghan em “My ‘Reprehensible’ Take on Teen Literature” (algo como “Minha repreensível opinião sobre a literatura juvenil” em tradução livre), artigo que escreveu em resposta às críticas ao seu primeiro texto.

Para ela, é verdade que esse tipo de romance pode ajudar crianças em situações sérias e angustiantes, mas a questão maior que se coloca é se livros sobre sequestros, incesto, distúrbios alimentares e automutilação não acabam por tornar normais esse tipo de comportamento para a grande maioria das crianças que estão simplesmente vivendo os rotineiros e já estressantes desafios da adolescência.

Com esse argumento, Meghan também foi acusada de ter falhado no entendimento das brutais realidades enfrentadas pelos adolescentes modernos, ao que ela respondeu dizendo não acreditar que a maioria dos adolescentes americanos viva em algo parecido com o inferno para precisar de livros assim. “A adolescência pode ser um período turbulento, mas não dura para sempre e com frequência – deixando de lado os casos mais tristes, é claro – parece muito mais dramático no momento do que parecerá no futuro”, escreveu.

No Brasil - O gosto literário dos jovens brasileiros parece ser um pouco diferente do dos americanos. Enquanto por lá figuram livros com temáticas mais pesadas e sombrias entre os preferidos, aqui o tema fantástico é o predileto.

O americano Rick Riordan é quem domina os primeiros lugares com os títulos O Herói Perdido, O Ladrão de Raios e O Último Olimpiano – livros que também fazem sucesso nos EUA. Para Pascoal Soto, publisher da editora Leya Brasil, é possível notar uma tendência no mercado editorial infanto-juvenil para livros que abordem temas mais afinados com a realidade dos adolescentes. No entanto, no Brasil eles seguem um caminho um diferente. A série bem-humorada Diário de um Banana, de Jeff Kinney, que fala das dificuldades de um garotinho no ensino fundamental, diz Pascoal Soto, é que temos de mais próximo dos romances-problema americanos.

31/07/2011

às 9:02 \ Leituras cruzadas

Dez dicas de leitura para qualquer época do ano

Em edição recente, o jornal americano New York Times preparou uma lista para os que aguardavam pelo verão americano, época de descanso e de dias mais longos, para mergulhar na leitura. São dez clássicos da literatura mundial, importantes por razões literárias ou históricas, que deveriam fazer parte da lista de qualquer um que tenha gosto por literatura, e por isso VEJA Meus Livros aproveita para estender a recomendação:
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1. Germinal: a obra-prima de Émile Zola descreve a vida de mineiros de carvão durante uma greve na França de 1860. A descrição idealizada da vida de Etienne e de sua paixão, Catherine, os seus esforços e os seus anseios por uma vida melhor transformam a leitura em algo fascinante. O leitor é transportado para um dos maiores cenários de batalha da Revolução Industrial e passa a compreender a origem dos movimentos trabalhistas de uma maneira como nenhum livro de história poderia ensinar.

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2. Fogo Pálido: não é tão conhecido quanto o perversamente divertido Lolita, também escrito por Vladimir Nabokov, mas deveria sê-lo. É um feito impressionante de imaginação e literatura, diferentemente de qualquer outra novela que eu conheço. É um poema épico, uma aventura sobre a misteriosa terra de Zembla e, acima de tudo, um quebra-cabeças: será que a personagem principal é insana?
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3. A Cabana do Pai Tomás: escrito por Harriet Beecher Stowe, autora nascida há exatos 200 anos. Trata-se do romance que tornou impossível para os Estados Unidos tolerar a escravidão por mais tempo. É uma leitura comovente, chorosa e uma janela para os pecados originais do país. É atualmente banida em algumas escolas por utilizar a palavra ‘nigger’ (termo para “negro” considerado pejorativo nos EUA), mas permanece uma fonte poderosa e esclarecedora sobre as dimensões da escravidão americana.

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4. As Vinhas da Ira: é o fabuloso relato de John Steinbeck sobre a luta de uma família de Ocklahoma durante a Grande Depressão. Tom Joad e família abandonam tudo o que possuem para tentar a vida na Califórnia, na esperança de tempos melhores, mas encontram o campo de jogo sempre inclinado contra eles. Com o país ainda se recuperando da Grande Recessão, esse parece ser o momento perfeito para conhecer o difícil trabalho de Tom.
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5. O Morro dos Ventos Uivantes: escrito por Emily Brönte, talvez seja a maior história de amor da literatura. Catherine precisa escolher entre a sua alma gêmea, Heathcliff, carente de educação e status, e o respeitável Edgard. As personagens resplandecem dolorosamente: elas são moldadas pelas pressuposições do século XIX sobre classe e dominação masculina, mas estão sujeitas a emoções humanas irrepreensíveis.
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6. Nosso Homem em Havana: comédia e suspense de espionagem de Graham Greene que pode parecer um pouco inculto para a lista. Mas duas lições que nunca aprendemos com a política externa americana é que nada sai como o previsto e que os furos de inteligência são sempre suspeitos. A história de Greene sobre um desafortunado espião em Cuba trabalha essas questões de modo inesquecível. O espião não possui nenhuma informação real para transmitir, então, ele começa a inventar histórias e, a partir daí, a trama torna-se mortal.
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7. Nada de Novo no Front: escrito por Erich Maria Remarque, este talvez seja o romance de guerra mais aclamado da história. Ele narra a história de um jovem e seus amigos de colégio que se alistam no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial e acabam descobrindo que a guerra não é algo glorioso, e sim um pesadelo tedioso.
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8. Os Miseráveis: clássico de Victor Hugo que conta a história de Jean Valjean, liberado da prisão por roubar um naco de pão para alimentar a família da irmã. Ele é constantemente perseguido pelo inspetor Javert através de uma narrativa poderosa, com cenas de caçada mais eletrizantes que qualquer uma dos filmes de James Bond. O livro também explora de forma sublime a temática de classes sociais, de justiça, de redenção e de misericórdia.
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9. Um Estranho Misterioso: não é o trabalho mais famoso de Mark Twain e não faz rir como O Príncipe e o Mendigo ou Um Yankee na Corte do Rei Arthur, mas é uma pequena história que se engalfinha com questões sobre Deus e o mal. É a narrativa de um anjo cruel que cai numa aldeia e provoca estragos. O anjo anima pequenas pessoas de barro e, em seguida, para o próprio divertimento, as destrói com uma tempestade, um incêndio e um terremoto. Como todo Twain, é um livro de leitura fácil, e, mais do que a maioria dos contos, faz pensar.
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10. Scoop: de Evelyn Waugh é uma análise divertida da imprensa marrom, focada num escritor de natureza que é despachado por engano para cobrir uma guerra na África. Qualquer um que tenha feito uma cobertura sobre o Iraque ou sobre o Afeganistão sabe que o assunto permanece relevante. E quem fizer a leitura do livro terá a noção do caminho incerto e muitas vezes pouco confiável através do qual a cobertura jornalística chega até o leitor.

25/04/2011

às 19:18 \ Leituras cruzadas

Vale a pena ler de novo

Relançamentos de clássicos vêm animando o mercado editorial. De Honra Teu Pai, o livro-reportagem de Gay Talese sobre a máfia italiana nos Estados Unidos às investigações sobre uma j0ia roubada do famoso detetive Sherlock Holmes, há livros para todos os gostos.

Originalmente publicado em 1971, com o título Honrados Mafiosos, Honra Teu Pai foi relançado pela Companhia das Letras. O título, que se filia ao chamado jornalismo literário, é centrado na história de Joseph Bonanno, o “Joe Bananas”, que comandava uma das chamadas Cinco Famílias Mafiosas de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno, em meio a uma guerra entre mafiosos. Um dos pais do new journalism americano, Talese obteve vasto acesso ao clã Bonanno, e pela primeira vez trouxe à tona uma visão íntima, ao mesmo tempo que objetiva, sem encantamento.

A Companhia das Letras relançou também Amor sem Fim, de Ian McEwan, lançado pela primeira vez no país em 1977 e já adaptado para o cinema pelo diretor Roger Mitchell, no filme Amor para Sempre, com Daniel Craig no papel principal. Craig deu vida ao escritor de divulgação científica Joe Rose, que vê sua vida se transformar ao cruzar com Jed Parry, que passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, nos limites da perseguição e da loucura.

Para o leitor jovem, a editora Panda Books trouxe ao Brasil três clássicos da literatura mundial, reforçados por boas ilustrações: A Carta Roubada, de Edgar Allan Põe, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain e Sherlock Holmes e o Caso da Joia Azul, de Arthur Conan Doyle.

Na versão boa para o bolso, saem Todos os Fogos o Fogo, coletânea com oito contos do argentino Julio Cortázar sobre o cotidiano e o lado solidário nas relações humanas, Os Belos e Malditos, em que F. Scott Fitzgerald revela com ironia a sociedade elegante e culta da década de 1920, e A Época da Inocência, de Edith Wharton, vencedor do Pulitzer de 1921. O livro mostra a inquietação da sociedade aristocrática nova-iorquina do fim do século XIX. Saem todos pela Bestbolso, do grupo Record.

Beatriz Souza

17/04/2011

às 8:44 \ Leituras cruzadas

Entre os 10.000 homossexuais deportados pelo regime nazista, um sobrevive: Rudolf Brazda conta sua experiência

Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab se conheceram em 2008, em Mulhouse, na França (Patrick Korben / WPA)

Muito se fala sobre a perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial, mas o sofrimento de outros grupos visados pelos nazistas, como os gays, ainda pode, e deve, ser mais bem narrado. Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista (Mescla Editorial, tradução de Ângela Cristina Salgueiro Marques, 184 páginas, 48,90 reais), livro lançado nesta semana no Brasil – primeiro país estrangeiro a lançar uma tradução – é um esforço neste sentido. Ele conta a história de Rudolf Brazda, único sobrevivente entre os 10.000 homossexuais deportados pela ditadura de Adolf Hitler.

Rudolf Brazda se descobriu homossexual muito jovem. Antes dos 10 anos de idade, seus amigos já comentavam que era afeminado. Quando adolescente, mostrou ser um verdadeiro pé de valsa. As garotas disputavam entre si para ser seu par na pista de dança. Não eram poucas as vezes em que elas tentavam ir mais longe, mas ele não correspondia. Estava claro que preferia os garotos. Filho de pais checos, livres de qualquer tipo de precon

Rudolf Brazda aos 18 anos (Divulgação / Arquivo pessoal)

ceitos, Brazda não teve problemas ao levar seu primeiro grande amor para conhecê-los. Manteve um relacionamento sério com Werner de 1933 a 1936, quando o companheiro foi convocado para o serviço militar. Eles não se veriam mais. Depois dele, porém, vieram outros amores.

Nascido no vilarejo de Brossen, perto Leipzig, na Alemanha, em 23 de junho de 1913, Brazda tinha apenas 20 anos quando os nazistas tomaram o poder. Especialmente em 1935, a legislação contra os homossexuais foi endurecida pelo regime. Os termos do parágrafo 175 do código penal foram reforçados: “A luxúria contra o que é natural, realizada entre pessoas do sexo masculino ou entre homem e animal é passível de prisão e pode também acarretar a perda de direitos civis”. Todos os gays passaram a ser cadastrados na Central do II Reich, com o objetivo claro da repressão. As estimativas da época apontam que cerca de 100.000 pessoas foram fichadas, entre elas Brazda e seus amigos.

Ele foi condenado pela primeira vez em 1937. Passou seis meses na prisão e acabou expulso da Alemanha. Esperava retomar a vida na Tchecoslováquia, mas, em 1938, o regime de Hitler atravessou o seu caminho mais uma vez. Com a anexação da província dos Sudetos pelos nazistas – onde fica a cidade onde morava, Karlsbad -, as leis alemãs passaram a ser aplicadas ali com o mesmo rigor. Em pouco tempo, Brazda foi preso novamente e condenado a 14 meses de prisão. Embora tenha cumprido a pena integralmente, não chegou a ser libertado. No auge do regime de Hitler, os campos de concentração se propagaram: abrigariam também prisioneiros de guerra, comunistas, social-democratas, judeus, testemunhas de Jeová, ciganos e homossexuais.

Mais um triângulo rosa - Em 8 de agosto de 1942, Brazda foi mandado para o campo de Buchenwald. Identificado com o símbolo de um triângulo rosa, afixado em sua roupa, Brazda era apenas mais um entre os 10.000 gays deportados para campos de concentração durante a II Guerra. Durante três anos, vivenciou todo tipo de atrocidade. A humilhação começava logo que os prisioneiros chegavam ao local, pois todos eram despidos para inspeção. Brazda, particularmente, ainda participou de uma briga feia com um SS. Levou um tapa no rosto depois de ter lhe respondido de maneira insolente e perdeu três dentes.

Sempre otimista, Brazda conta que, apesar de tudo, sua passagem pelo campo poderia ter sido pior. “Outros foram ainda mais prejudicados. Eu ao menos podia trabalhar. Eles me deixavam relativamente tranquilo, só era necessário prestar atenção para não me fazer notar pelos SS”, diz lenta e pausadamente, em entrevista por telefone ao site de VEJA. “Testemunhei diversos tipos de violência contra outros prisioneiros. Foram coisas que não me machucaram fisicamente, mas que me marcaram de forma profunda”, acrescenta. Brazda foi libertado em 11 de abril de 1945, quando fixou residência na França.

Para manter o sorriso no rosto, ele se recorda principalmente das fases felizes de sua vida, ou seja, antes de ser preso pela primeira vez e depois do período em que esteve no campo de concentração. Após nova pausa para reflexão, Brazda conclui que o melhor período foi aquele em que viveu com seu último companheiro, Eddi. Eles se conheceram em 1950 e a partir 1959 passaram a morar juntos na França. “Tínhamos uma boa vida, trabalhávamos. Éramos livres e podíamos nos deslocar como quiséssemos”, lembra. Permaneceram juntos por quase meio século – Eddi morreu em 2003. Hoje, aos 97 anos, Brazda é o último sobrevivente entre os homossexuais deportados pelos nazistas. Crente em Deus, ele define sua passagem no mundo como “plena”.

A reconstrução da história - Assumindo o papel de confidente de Brazda, o pesquisador e militante dos direitos dos homossexuais Jean-Luc

Rudolf e Fernand em Buchenwald, alguns dias após a libertação do campo. A foto foi tirada por um ex-prisioneiro, provavelmente Albert Stüber (Divulgação / Arquivo pessoal)

Schwab pôde transformar seus depoimentos no livro Triângulo Rosa. Coincidentemente, havia entrado em 2008 para uma associação dedicada ao reconhecimento desse tipo de deportados na França quando descobriu que o último sobrevivente morava bem perto dele, na região de Mulhouse, na França. Para recompor a trajetória do personagem, Schwab recorreu a centenas de horas de entrevistas com diferentes fontes, pesquisas pessoais em arquivos alemães, checos e franceses e viagens aos antigos lugares ligados à vida e ao confinamento do biografado.

Leia a seguir trechos da entrevista com o co-autor Jean-Luc Schwab:

Como o senhor tomou conhecimento da história de Brazda? Ouvi falar de Rudolf num jornal local francês, em 2008. Pouco antes, havíamos inaugurado em Berlim o memorial às vítimas homossexuais do nazismo (Homosexuellen-Denkmal), em 27 de maio. Na inauguração, lamentamos que não havia um só sobrevivente para ver o monumento. Ao saber do fato pela TV, Rudolf – que até então achava que sua história não interessava a ninguém – resolveu avisar que estava vivo. Ele não se dava conta do valor histórico de seu testemunho. No fim de junho, então, ele foi convidado para o Gay Pride na Alemanha, e foi feita uma nova cerimônia em homenagem ao memorial, desta vez com uma das vítimas presente. Depois disso, a notícia se espalhou pelos meios de comunicação internacionais.

De que forma o senhor pôde coletar material histórico suficiente para a escritura do livro? Quando fui visitar Rudolf pela primeira vez, me dei conta de que sua história não tinha sido documentada. Então, comecei a entrevistá-lo, para recolher seu testemunho verbal ao menos, e depois gravar os depoimentos em vídeo. Na época, ele estava com 95 anos. E, quando se pede a alguém dessa idade para falar de algo que ocorreu há mais de 60 anos, as lembranças não são muito claras. Então, foi importante verificar nos arquivos se os fatos históricos correspondiam àquilo que ele dizia. Isso nos permitiu descobrir alguns pontos de que ele se esqueceu e precisar outros citados por ele, especialmente algumas datas.

Como nazistas faziam para descobrir quem era ou não era homossexual? No caso de Rudolf, seu nome foi evocado por seus amigos. Não tive acesso a arquivos de outras pessoas, mas, de uma forma geral, quando havia uma denúncia de homossexualidade, era aberto um inquérito policial e, depois disso, bastava provar que o acusado de fato teve relações “contra a natureza” com uma ou mais pessoas. Nesses inquéritos, faziam de tudo para descobrir o máximo possível de nomes envolvidos, para começar novas investigações e assim por diante.

Depois de tanta conversa, surgiu uma amizade entre o senhor e Brazda? No início, não passava de uma relação entre pesquisador e sujeito de estudo. Hoje em dia, me tornei um amigo e confidente. Eu o ajudo no cotidiano, como para preencher documentos ou garantir o contato com seus médicos e enfermeiros. Passo em sua casa frequentemente para visitá-lo, mas não mais para fazer perguntas. De um ano para cá, sua memória vem se desgastando. É bom saber que sua história pôde ser eternizada.

Cecília Araújo

25/01/2011

às 17:39 \ Leituras cruzadas

Biblioteca Mario de Andrade reabre ao público de SP

O aniversário de São Paulo traz um presente para os moradores da cidade: a reabertura, nesta terça-feira, da Biblioteca Mario de Andrade, o segundo maior acervo literário do país, atrás apenas da Biblioteca Nacional. São mais de 320.000 livros, 51.000 deles classificados como raros, e um acervo de periódicos que beira 3 milhões de unidades.

Parte da instituição, a Biblioteca Circulante, com 42.000 livros para consulta e empréstimo, já havia sido reinaugurada em 21 de  julho passado. Desde a data, recebeu 83.000 visitantes, que acessam o local pelo número 235 da avenida São Luís ou pelo corredor de vidro diante da fachada, uma das novidades trazidas pela grande reforma da biblioteca. Outra parte, a dos periódicos, só deve ser reaberta em julho próximo.

Projeto original de Jacques Pilon (1905-1962), francês que passou a infância no Rio e se formou no auge da art déco, a Biblioteca Mário de Andrade passou por uma reforma de três anos contou com investimentos de 23 milhões de reais d0 Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foram 13 milhões de reais para o prédio principal e outros 10 para o anexo, na rua 7 de Abril.

Fruto da fusão da Biblioteca Municipal de São Paulo, criada em 1925, com a Estadual, a Biblioteca Mario de Andrade só passou a ter o nome do autor de Macunaíma, que nela atuou na década de 30, em 1960. Com a fusão e as sucessivas doações recebidas, como a do crítico cultural Otto Maria Carpeaux e a de Paulo Prado, um dos patrocinadores da Semana de Arte de 1922, a instituição passou a contar com obras de valor inestimável.

Estão lá exemplares com dedicatória do poeta Carlos Drummond de Andrade, uma edição alemã de 1925 de O Processo, de Franz Kafka, e uma francesa de Flores do Mal que pertenceu a um dos juízes censores da obra de Baudelaire.

Mas há iguarias ainda mais raras, como relatos de viajantes que conheceram o Brasil ainda colonial – a exemplo do de François Roger sobre a Bahia, de 1698  - e cartas dos primeiros jesuítas a aportar por aqui, como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Há ainda livros impressos até 1500, como a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.

A reforma, que se estendeu ao acervo, promoveu a desinfestação de 250.000 títulos da instituição e a recuperação de 200 raridades.  Pode-se dizer que São Paulo conta, mais uma vez, com um verdadeiro templo à leitura. Clique aqui para saber como retirar livros da biblioteca.

21/01/2011

às 19:56 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Vale a pena ressuscitar Sherlock Holmes?

Colocar no mercado, ao alcance dos leitores, livros que um escritor não quis lançar em vida é uma prática bastante questionável – pode ser entendida tanto como um favor aos fãs carentes de uma nova publicação do autor como um golpe comercial da editora. E o que se diz de um escritor retomar um personagem clássico criado décadas antes por um autor já morto? A pergunta é coerente no momento em que corre a notícia de que a editora britânica Orion prepara para setembro o lançamento de uma nova história de Sherlock Holmes,  o clássico detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle.

O autor responsável pelo livro, o inglês Anthony Horowitz, promete não “tomar liberdades” com Sherlock e apenas inseri-lo em uma nova trama policial. Em se levando em consideração a opacidade inerente ao personagem do gênero policial, que pouco transparece de si mesmo para não entregar pistas em excesso ao leitor, é possível que cumpra o que diz. Mas herdeiros e fãs puristas devem coçar a cabeça de apreensão de qualquer modo. Nunca se sabe o que pode resultar desses arriscados enxertos.

O bom currículo do substituto de Conan Doyle, que a Orion tem tratado de divulgar, não dirime os riscos. Autor de livros infantis como Alex Rider e roteirista de televisão, Horowitz, que se diz fã de Sherlock Holmes desde a adolescência, já teria adaptado para a TV histórias de outro detetive clássico: Hercule Poirot, de Agatha Christie.

Qualquer que seja a qualidade do novo trabalho, é possível que Sherlock Holmes, desde o início um grande vendedor de livros – O Cão dos Baskerville é tido um dos primeiros bestsellers do século XX -, volte a dar lucros nesta empreitada. Originalmente publicado na revista inglesa Strand Magazine, o personagem foi salvo pelos leitores da publicação quando Conan Doyle, cansado de movê-lo em cenários diversos, decidiu aposentá-lo. Um número recorde de cancelamento de assinaturas fez o escritor mudar de ideia.

Para quem é fã do detetive, uma dica de leitura é a coleção completa de Sherlock Holmes que a editora Zahar está lançando. Publicada originalmente nos Estados Unidos pela Norton, a coleção reúne toda a obra de Sir Arthur Conan Doyle, acompanhada de textos informativos, ilustrações e notas de rodapé.

Maria Carolina Maia

19/01/2011

às 0:27 \ Leituras cruzadas

William Wilson, 198, e o duplo na literatura

Nesta quarta, 19 de janeiro, William Wilson completaria 198 anos. Aliás, William Wilson e seu sósia de mesmo nome, que como ele é personagem e batiza o conto de Edgard Allan Poe sobre a experiência fantástica de se ver refletido em outra pessoa. Apropriado, esmiuçado e reinventado em teses acadêmicas e em textos de romancistas do porte do russo Fiódor Dostoiévski e do argentino Ricardo Piglia, William Wilson (1839), o conto, é considerado um dos textos mais importantes sobre a figura do duplo na literatura.

“Mas, decerto, se fôssemos irmãos, teríamos sido gêmeos: pouco depois de ter deixado a escola do Doutor Bransby soube, por acaso, que o meu homônimo nascera em 19 de janeiro de 1813 – coincidência bastante notável, sendo esse dia, precisamente, o do meu nascimento”, escreve o narrador de William Wilson, enquanto lembra que conheceu seu sósia ainda criança, na escola, e que a partir daí seria copiado e perseguido por ele.

“Wilson dava-me a réplica com uma perfeita imitação de mim mesmo – gestos e palavras – e representava admiravelmente o seu papel. Meu traje era coisa fácil de copiar, meu andar, minha atitude geral, ele fizera seus sem dificuldade e, a despeito de seu defeito constitutivo, nem mesmo minha voz lhe tinha escapado”, continua o narrador, que revela, em seguida, não ter sido imitado pelo sósia em todos os detalhes. O duplo teria um tom de voz e posturas éticas diferentes das suas, não sentiria prazer em dominar ou trapacear – e poderia, dependendo da leitura, ser entendido como o complemento ou a consciência do narrador.

O narrador, aliás, não dá ao leitor o seu verdadeiro nome, que seria também o de seu duplo, por vergonha da história que está contando. Em vez disso, numa brincadeira de Poe, ele adota um pseudônimo que é formado por dois anagramas dotados de significados: William pode ser Will i am (Serei eu?, em português) e Wilson, Wil’ son (Filho de Wil, também em tradução livro).

Explorado de diversas maneiras, com personagens semelhantes, idênticos ou proporcionalmente inversos um ao outro, o tema do duplo tem longa trajetória na literatura. Datado de 1839, William Wilson, o conto, não é o primeiro a abordar o tema do duplo, que, de acordo com Freud, nos acompanha desde os primórdios da psique humana. Ele seria a parte de nós mesmos que estranhamos e relutamos a reconhecer.

Seus primeiros registros, de fato, remetem à antiguidade, ao mito em que Zeus toma a forma de Anfitrião para se deitar com a esposa do grego, argumento retomado no século XVII por Molière, na peça Amphitryon, e aos gêmeos bíblicos Esaú e Jacó, iguais mas diferentes, recriados por Machado de Assis no século XVIII. O próprio William Wilson chegou aos leitores depois de O Elixir do Diabo, texto do alemão E. T. A. Hoffmann de 1815, e antes de O Duplo, de Dostoiévski, de 1846, e da clássica Comédia dos Erros, de Shakespeare, de fins do século XVI.

O argentino Ricardo Piglia, que retomou William Wilson no romance A Cidade Ausente, onde o conto é recriado por uma máquina fazedora de textos como Stephen Stevensen, considera o alter-ego Emilio Renzi o seu duplo literário. “Ele tem semelhanças comigo, mas, principalmente, vive uma vida paralela, que eu não pude viver”, diz, lembrando que o papel do duplo, além de ampliar a leitura de quem se depara com uma obra literária, é o de enlarguecer a experiência do autor.

A vida que Piglia vive através de Renzi vai ser, aliás, experimentada em detalhes. Está nos planos do escritor argentino uma biografia para o personagem – leia mais aqui.

Maria Carolina Maia

05/01/2011

às 20:02 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Nos EUA, Mark Twain sofre censura que enquadrou Lobato

Nem só na terra da mítica democracia racial se censuram clássicos da literatura por termos julgados preconceituosos. As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910), obras que serão lançadas num único volume nos Estados Unidos em fevereiro, terão seus textos alterados pela editora NewSouth Book. A companhia quer suprimir os termos nigger e injun, considerados sinônimos de teor negativo para negro e índio e, portanto, pedras para leitores e censores escolares politicamente corretos.  Algo semelhante ao que aconteceu no fim de 2010 com Monteiro Lobato, que teve o livro Caçadas de Pedrinho desaconselhado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

Em parecer publicado no Diário Oficial da União em outubro, o CNE recriminava a adoção da obra de Lobato por chamar a personagem Tia Nastácia de “negra” e compará-la a uma macaca, como na frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”. Como alternativa, o CNE recomendava o uso de Caçadas de Pedrinho apenas por professores que dominassem a história do racismo no Brasil e que pudessem, assim, impedir leituras nocivas por parte de seus alunos.

No caso de Twain, a opção da NewSouth é substituir as expressões tidas como racistas por outras como slave (escravo) e indian (índio) e evitar polêmicas já de saída. Objetivo que, se percebe, não foi atingido: revelada pela publicação especializada Publishers Weekly, a estratégia pôs a editora no centro de uma discussão acalorada e a levou a se justificar. “Em um movimento ousado defendido pelo estudioso de Twain Alan Gribben, substituímos duas palavras dolorosas que aparecem centenas de vezes nos textos do escritor”, diz comunicado da NewSouth. “Isso diminui possibilidade de os livros serem vetados nas listas escolares.”

Para o curador do prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb, intervir numa obra não é a solução. “Há peças de Shakespeare em que o judeu é apresentado como vilão. Eu sou judeu e não vou deixar de ler Shakespeare por isso”, diz. “É polêmico, mas o caminho não é mutilar uma obra de arte.” Para além da questão artística, ele analisa uma razão histórica: obras como a de Twain e Lobato foram escritas em sociedades caracterizadas por políticas e relações raciais distintas das de hoje. A presença de expressões de teor pejorativo como nigger ou injun, no caso de Twain, revela algo sobre o mundo em que os textos surgiram. Os livros se tornam documentos históricos.

Para além das questões artística e histórica, porém, está em jogo a questão comercial. É aí que a polêmica se inicia. Com jeito de não ter fim.

Maria Carolina Maia

04/01/2011

às 21:07 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Anjos, os novos vampiros do mercado literário

O flanco de mercado aberto por Harry Potter no Brasil, há mais de dez anos, vem sendo dominado por personagens com características sobrenaturais, cujo poder principal é o de arregimentar leitores entre o público jovem. O nicho já foi protagonizado por bruxos, por seres mitológicos e por vampiros, os atuais mandatários do pedaço. E tudo indica que em breve será tomado por criaturas celestiais. “Os anjos são o filão do momento”, diz Gabriela Nascimento, editora de títulos juvenis da Agir/Ediouro, que acaba de lançar no Brasil a trilogia Halo, da australiana Alexandra Adornetto.

Nos últimos meses, livros como Halo (472 páginas, 39,90 reais), que inaugura série homônima, e Beijada por um Anjo, da Novo Conceito, figuraram na lista dos mais vendidos de VEJA, com milhares de exemplares comercializados. Halo, quando chegou ao ranking, encontrou aliás outro best-seller do segmento: Fallen, inglês para “caído” (Record, 406 páginas, 39,90 reais), da americana Lauren Kate. Desde que foi publicado por aqui, no final de julho, o título vendeu mais de 50.000 cópias, reprisando o bom desempenho alcançado nos Estados Unidos, onde entrou para a lista de best-sellers do New York Times e teve seus direitos para o cinema comprados pela Disney. E selou de vez a aposta da robusta Record no segmento. Em outubro, a editora carioca daria partida a uma segunda série de anjos, com o lançamento de Cidade dos Ossos (462 páginas, 39,90 reais), de Cassandra Clare, famosa por seus fanfictions (derivações livres) de Harry Potter. Cidade dos Ossos, que nos EUA inspirou até uma linha de joias, teve 10.000 cópias comercializadas por aqui.

“De fato, depois da linha de Harry Potter, que une magia e fantasia, passamos pelos vampiros da Stephenie Meyer e agora há uma movimentação para o lado dos anjos”, diz Fabio Herz, diretor de marketing e relacionamento da Livraria Cultura. “Esse filão pode não atingir a força do nicho vampiresco, mas certamente vai continuar crescendo, porque há um interesse claro do público e porque o segmento dos vampiros uma hora vai saturar.”

Se é o interesse do público quem dita os rumos do mercado, não faltam indícios de que os anjos têm um céu aberto pela frente. Sussurro (264 páginas, 29,90 reais), pontapé inicial da saga americana Hush Hush, de Becca Fitzpatrick, foi lançado em junho pela Intrínseca, a mesma editora dos hits Crepúsculo e Percy Jackson, e, de acordo com a empresa, já contabiliza quase 41.000 exemplares vendidos. Sussurro foi tão bem recebido pelos leitores que sua tiragem inicial de 30.000 exemplares precisou ser repetida e agora a Intrínseca planeja uma tiragem duas vezes maior para Crescendo, o segundo título da série. O livro sai em janeiro com 60.000 cópias.

Outra saga angelical bem sucedida lá fora e importada pelo mercado nacional é Beijada por um Anjo, da americana Elizabeth Chandler, sobre um casal metade humano metade anjo. A trilogia teve seus dois primeiros livros, Uma Inesquecível História de Amor e Suspense (Novo Conceito, 263 páginas, 29,90 reais) e A Força do Amor (Novo Conceito, 263 páginas, 29,90 reais), entregues às lojas em outubro. Desde então, segundo Milla Baracchini, vice-presidente da editora Novo Conceito, de Ribeirão Preto, venderam, cada um, dezenas de milhares de exemplares.

O poder dos anjos – A publicação de um livro não se faz do dia para a noite. Os editores estão sempre visitando feiras no Brasil e no exterior, acompanhando os lançamentos e planejando o que vão pôr no mercado com um ano de antecedência, em média. Na Novo Conceito, a revoada dos anjos vinha sendo armada desde o início de 2009. “Os anjos despontaram como tendência há mais de um ano. Na época, já havia muita coisa de vampiro, nós sentíamos que esse filão estava se esgotando. Buscando algo novo para lançar, encontramos a série da Elizabeth Chandler, que nos EUA foi lançada ainda no final dos anos 1990, e deve ganhar uma continuação em 2011”, diz Milla. “O leitor brasileiro de modo geral ainda é um jovem leitor, então, se o livro for fácil, tem boa aceitação. No caso dos anjos, contribui o fato de eles não serem tão diferentes dos vampiros, que estão em alta: são personagens com poderes especiais, vivendo histórias de amor.”

Para Gabriela Nascimento, da Ediouro, além de envolvidos em histórias românticas, os anjos estão imersos em crises que permitem ao leitor, ainda mais adolescente, se identificar com eles. “Os anjos atraem pela dicotomia entre o bem e o mal, especialmente os caídos, que fazem bobagens e enfrentam dilemas. Na adolescência, os questionamentos éticos são mais acentuados e a identificação é maior com esses personagens de dois lados, que precisam escolher entre agir bem ou mal, assim como o vampiro bonzinho de Crepúsculo deseja, mas tem pudor de morder a amada.”

O tipo de discussão presente nesses livros, diz Gabriela, é capaz de atrair leitores do campo da autoajuda. “Há uma migração clara de um segmento para o outro”, conta. Não se trata, portanto, de uma literatura apenas para adolescentes. “Leitores de até 30 anos, e às vezes de mais idade, também podem se interessar.”

Leia mais aqui.

Leia também:

Na literatura, os anjos são vários, mas são todos humanos

Entrevistas com as autoras de Fallen e Sussurro


 

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