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Arquivo da categoria Leituras cruzadas

06/09/2012

às 16:39 \ Leituras cruzadas

Cerca de 400 endossam repúdio a veto de Dalton Trevisan

O escritor Dalton Trevisan em foto de 1990 (JOEL ROCHA)

petição online contra a retirada do livro Violetas e Pavões da prova para ingresso no Colégio de Aplicação (Coluni) da Universidade Federal de Viçosa (UFV) soma cerca de 400 assinaturas. Mas, de acordo com o pró-reitor de ensino da UFV, Vicente de Paula Lélis, o veto ao livro de Dalton Trevisan só será rediscutido se algum documento impresso for entregue à universidade, o que não deve ser feito a tempo: a prova, segundo ele, já começou a ser produzida e uma nova mudança no programa fica agora em segundo plano.

LEIA TAMBÉM: Procurada, a editora Record lamentou o episódio

A obra de Dalton Trevisan foi retirada do programa do vestibulinho após pedidos de pais e professores, que julgaram o livro inapropriado para os alunos por abordar temas como sexo e drogas. Alguns dos signatários consideram o veto um tipo de censura. “Um país que pretende formar cidadãos conscientes de suas virtudes é obrigado a aprender a conviver com suas diferenças sob o risco de cair num caminho perigoso para a democracia”, comentou Alfredo Benatto, assinante número 348.

A prova para admissão no Colégio de Aplicação acontece nos dias 1º e 2 de dezembro e seleciona 150 alunos para cursar o Ensino Médio.

Meire Kusumoto

05/09/2012

às 18:44 \ Leituras cruzadas

Record lamenta veto a Dalton Trevisan em vestibulinho

O escritor Dalton Trevisan, em foto antiga (Foto: Dedoc/Editora Abril)

A editora Record, que inicialmente não quis se pronunciar sobre o veto ao curitibano Dalton Trevisan no vestibular do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), emitiu nota no começo da noite desta quarta-feira, lamentando o episódio. O livro de contos Violetas e Pavões, do curitibano, era previsto no programa do vestibular da UFV neste ano, mas foi retirado a pedido de pais e professores de cursinhos preparatórios.

LEIA: Confira um trecho do livro vetado, Violetas e Pavões

“Lamentamos que exista alguma rejeição em torno de um livro de Dalton Trevisan, autor cuja obra temos o enorme orgulho de publicar. Dalton Trevisan é reconhecidamente um dos mais importantes escritores nacionais e justamente este ano ganhou dois significativos prêmios pela qualidade de sua obra: em maio venceu o Prêmio Camões, o mais elevado reconhecimento a um autor de língua portuguesa; e em junho foi laureado com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras”, diz o comunicado da Record.

O banimento de Trevisan denuncia uma atitude provinciana: seus contos foram considerados pesados por ter elementos como picantes como erotismo, drogas e crimes. Como reação, acadêmicos e estudantes lançaram um abaixo-assinado na internet para restituir ao programa do vestibular da UFV a obra de Trevisan, 86.

 

02/06/2012

às 9:04 \ Leituras cruzadas

Volta da música às escolas afina catálogo de editoras

Mortos há mais de um século, os compositores Tchaikovsky, Bach, Mozart e Chopin acabam de ganhar nova vida com a coleção Os Compositores, recém-lançada pela editora Panda Books. A ideia da publicação, longe de ser a comemoração de alguma data importante da música clássica, romântica ou barroca, é pegar carona em uma iniciativa aprovada ainda na gestão Lula. Em 2008, a lei nº 11.769 voltou a colocar as aulas de música como obrigatórias nas séries do ensino básico, mudando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996. Como o programa das escolas é um dos motores mais fortes do mercado de livros, diversas casas editoriais aproveitaram a deixa para apostar em títulos musicais.

Além da Panda, Companhia das Letras e Melhoramentos preparam lançamentos de olho na nova lei, que começou a valer neste semestre. Os Compositores, a coleção da Panda pensada para crianças de 5 a 7 anos, conta momentos da vida dos músicos com textos curtos e de fácil compreensão, acompanhados de CDs com trechos de peças de cada compositor. “Os livros propõem opções de trabalho aos professores. Temos uma equipe de divulgação nas escolas e estamos vendendo bastante para colégios particulares e planos de governo, em nível estadual e municipal”, diz Tatiana Fulas, coordenadora do projeto no Brasil. A coleção, trazida de Barcelona, foi criada pela escritora catalã Anna Obiols e ilustrada por seu parceiro profissional, Subi, que já preparam novos capítulos, como os do alemão Beethoven e do russo Stravinsky.

A editora paulista também prepara dois livros ligados à música em estilo almanaque, como parte da coleção Uma Introdução para Crianças, que já conta com volumes sobre o universo e o meio ambiente. Também importadas, as obras falam de balé e orquestra e trazem indicações para que a criança escute as faixas relacionadas no CD que vem junto com o livro. “Em Orquestra, o autor fala sobre os grandes compositores, os instrumentos musicais e o maestro. Balé relembra as grandes montagens e de como funciona a dança”, diz Tatiana. Ao contrário de Os Compositores, esses dois livros são indicados para servir de consulta em bibliotecas e não vêm com indicação de atividades para o professor.

Ritmos brasileiros – Apesar de a lei não determinar o modo como a música deve ser ensinada, o Ministério da Educação (MEC) recomenda que as escolas transmitam noções básicas de música, de instrumentos de orquestras e regionais, de cantos, ritmos e danças, principalmente brasileiros. Seguindo essa linha, a dupla Palavra Cantada, formada pelos músicos Paulo Tatit e Sandra Peres, teve a ideia de criar as coleções Brincadeiras Musicais e Brincadeirinhas Musicais, baseadas em seus anos de experiência em uma banda infantil.

Os livros, lançados pela editora Melhoramentos, tratam apenas de ritmos brasileiros, como o maracatu e a congada. Os volumes das duas coleções são compostos de livro, CD e DVD pensados para cada série do ensino fundamental I, que abarca crianças entre 2 e 10 anos. Os DVDs trazem demonstrações de brincadeiras feitas a partir das músicas do Palavra Cantada, que podem ser acompanhadas pelas letras e cifras impressos nos livros. Um dos protagonistas das coleções, o personagem fictício Bebeléu, cuida de apresentar à criançada vocabulário técnico e comentários sobre timbre, harmonia, pulso, ritmo e melodia. “Queríamos uma coisa simples e imediata, para ter empatia direta e comunicação fácil, sempre na base de curtir a música, sem ficar preso à linha racional. A música é uma manifestação espiritual e subjetiva”, diz Tatit.

“Vários municípios estão adotando a coleção, como Niterói, São Gonçalo e Goiânia”, diz Tatit. A obra, lançada no final do ano passado, teve divulgação diferenciada para as livrarias e para as escolas. As coleções dos professores vêm acompanhadas com um livro auxiliar com propostas
de trabalho, criado pelos educadores Gabriel Levy e Berenice Almeida.

Também motivada pela aprovação da lei, a Companhia das Letras está elaborando uma coleção sobre músicos brasileiros, com biografia e partituras. Segundo Júlia Schwarcz, editora responsável pelos selos Cia das Letras e Cia das Letrinhas, que é voltado aos pequenos leitores, a coleção foi idealizada pela professora de música Maria Clara Barbosa e deve trazer volumes sobre música brasileira, com nomes como Noel Rosa, música regional, com Villa-Lobos (classificado dessa forma depois de estudos de Maria Clara sobre sua obra, que trata de temas regionais), e música clássica, ainda sem um personagem. “O primeiro livro será uma biografia de Noel Rosa, narrada em primeira pessoa. É uma conversa do sambista com São Pedro sobre a ideia de escrever um livro contando sua vida. O santo trabalha como um editor, que fala de toda a época de Rosa, do samba e da música brasileira”, diz Júlia.

Os livros, ainda sem data de lançamento, serão divididos em duas partes. A primeira, da biografia, será escrita por Luciana Sandroni, ganhadora do prêmio Jabuti de 1998, com Minhas Memórias de Lobato, e a segunda, com as partituras dos arranjos de músicas dos compositores, será assinada por Maria Clara.

Ainda que não tenham sido motivados pela lei, outros livros poderão pegar carona nela. É o caso de Som, de Emmanuel Bernhard, e Viva o Ritmo, de Edgard Poças, compositor da Turma do Balão Mágico, ambos da Companhia Editora Nacional. No primeiro, o autor propõe experiências para explicar aspectos do som, como condução, altura e eco. No segundo, Poças utiliza suas letras para criar brincadeiras com o ritmo das canções. “Não tinha a pretensão de ser didático. O livro fala da música atuando, com brincadeiras relacionadas às letras. Em alguns momentos também fala de ritmo, com o personagem do maestro Vira-Bolos. Só esse pedaço já vale como um livro de música”, diz Poças.

Música nas escolas

A lei nº 11.769, aprovada pelo ex-presidente Lula em 18 de agosto de 2008, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 20 de dezembro de 1996, tornando novamente obrigatórias as aulas de música nos ensinos fundamental e médio. A primeira vez que a obrigatoriedade da disciplina foi lei aconteceu em 1932, quando Getúlio Vargas aprovou o projeto do compositor Heitor Villa-Lobos, então Superintendente de Educação Musical e Artística do governo federal.

Raissa Pascoal

 

26/05/2012

às 8:21 \ Leituras cruzadas

Clássicos perdem espaço na estante dos novos escritores

Lionel Shriver: 'Reli Dostoiévski e descobri que não tenho mais paciência para longas digressões filosóficas' (Getty Images)

A influência que os cânones da literatura exercem sobre os autores hoje é muito menor do que no passado, de acordo com um estudo que analisou milhares de trabalhos escritos ao longo de 500 anos. Matemáticos americanos, supervisionados pelo chefe do departamento da área na universidade de Dartmouth, Daniel Rockmore, fizeram uma pesquisa em larga escala sobre as tendências de estilo literário. O estudo avaliou 7.733 trabalhos escritos por 537 autores a partir de 1500 para calcular a frequência de 307 palavras — como “de”, “em” e “por”. Os pesquisadores apelidaram essas palavras de “cola sintática da linguagem”: termos que não têm significado quando analisados isoladamente, mas que funcionam como ponte entre as palavras, dando sentido ao texto e determinando um estilo.

“Quando analisamos a frequência de algumas palavras nos textos de um grande número de autores, em um certo período de tempo, podemos responder a perguntas sobre tendências de linguagem”, diz trecho do relatório “Padrões quantitativos da influência estilística na evolução da literatura”, elaborado na universidade americana de Dartmouth e obtido pelo  jornal britânico The Guardian.

Nesse cruzamento de textos, a análise descobriu que os autores de um determinado período têm estilo parecido com os de seus contemporâneos e que a influência de escritores do passado perde espaço. Enquanto os autores dos séculos XVIII e XIX ainda se baseiam no estilo de antecessores, os do século XX são influenciados por colegas da própria década. “A chamada ‘ansiedade da influência’, em que os autores são avaliados de acordo com a capacidade de perpetuar o estilo dos cânones da literatura, está se tornando a ‘ansiedade da impotência’, no sentido de que o passado exerce uma pequena influência estilística sobre o presente”, diz o relatório. Isso é ainda decorrência do movimento modernista, que rejeita a “influência dos antecessores”.

Outro fator que colabora para a diluição do poder dos antigos sobre os novos é o crescimento da oferta de livros. “É possível que a enorme produção literária dos dias de hoje torne os clássicos cada vez mais irrelevantes, porque menos lidos”, diz Daniel Rockmore, chefe do departamento de matemática em Dartmouth. “Isso não está relacionado à diminuição da importância dos clássicos na literatura, mas à relação entre leitura e escrita e entre a escrita e a língua falada.”

Por questões relacionadas a direitos autorais, o estudo engloba apenas trabalhos escritos até 1952. Mas, para Rockmore, a influência decrescente dos clássicos será perpetuada pelos escritores atuais. A romancista Lionel Shriver, 55, ganhadora do Orange Prize, concorda com a conclusão do estudo. Ela diz que se sente mais inclinada a ler contemporâneos do que clássicos. “Eu devorei clássicos até os 20 ou 30 anos, mas, agora, leio quase exclusivamente ficção contemporânea”, afirma.

“Eu fico em dúvida em relação a essa evolução, mas entre revisar, resumir textos e acompanhar o que é lançado no mercado, eu não tenho tido tempo para ter contato muito regular com os cânones literários. Quando tentei fazer isso, reli um romance de Dostoiévski e descobri que não tenho mais paciência para as longas digressões filosóficas. Eu aposto que não sou a única a ter essa intolerância em relação às tradições estilísticas do passado.”

Rockmore pensa em dividir a conclusão de suas investigações com estudiosos de literatura para saber se as fórmulas matemáticas obtidas podem ser úteis à crítica literária. “Espero que possamos engajar colegas dessas áreas para definir interesse por essas questões. Esse é um primeiro passo necessário.”

15/05/2012

às 18:22 \ Leituras cruzadas

Rocco vai publicar inédito de Carlos Fuentes, morto aos 83

Escritor mexicano Carlos Fuentes em sua biblioteca em 2008 (Ronaldo Schemidt/AFP)

Morreu nesta terça-feira, aos 83 anos e de causas ainda desconhecidas, o escritor Carlos Fuentes. Nome dos mais importantes da literatura contemporânea mundial, Fuentes terá um livro inédito lançado no país no segundo semestre pela Rocco, editora que detém os direitos de publicação do mexicano no Brasil. Federico en Su Balcon, o romance, é uma homenagem do escritor ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Panamenho de nascença, mas filho de um diplomata mexicano, o escritor Carlos Fuentes passou parte de sua vida morando em diversos países, como Equador, Uruguai, Brasil, Chile, Argentina, Suíça e Estados Unidos. No entanto, foi no México que, estimulado pelo pai, desenvolveu suas raízes culturais, que estiveram presentes nos temas de suas obras.

Com 26 anos, Fuentes escreveu seu primeiro livro, Los Días Enmascarados (1954). A consolidação como um nome de peso na literatura latino-americana aconteceu anos depois, com a publicação de obras como A Região Transparente (1958), A Morte de Artemio Cruz (1962), Aura (1962) e Terra Nostra (1975), que lhe rendeu o Prêmio Rómulo Gallegos, em 1977.

Ao longo de sua carreira de cinco décadas, Fuentes recebeu títulos e premiações, como a nomeação como membro honorário da Academia Mexicana da Língua e os prêmios, como o Miguel de Cervantes, em 1987 – equivalente ao Prêmio Camões na língua espanhola – e Príncipe das Astúrias, em 1994.

Repercussão - Confira o que dizem outros escritores sobre a morte de Carlos Fuentes.

Salman Rushdie, escritor
“RIP Carlos, meu amigo. Ontem, teve ao trote sobre Gabo (Gabriel García Márquez), mas isso é verdade, infelizmente.”

Mario Vargas Llosa, escritor (no site do jornal El País)
“Com Fuentes, desaparece um escritor cuja obra e cuja presença deixaram uma pegada profunda. Seus contos, novelas e ensaios estão inspirados principalmente pela história e problemática do México, mas ele foi um homem universal, que conheceu muitas literaturas, em muitas línguas e que viveu de uma maneira comprometida com todos os grandes problemas políticos e culturais de seu tempo.”

Martin Caparrós, escritor
“Para sempre, professor, e obrigada por tudo. Alguém disse: ‘Morreu Carlos Fuentes, não Artemio Cruz.’”

Guillermo Arriaga, roteirista
“Fiquei sabendo da morte de Carlos Fuentes. Que tristeza. Lamento.”

Jorge Volpi, escritor mexicano
“Sinto terrivelmente a morte de Carlos Fuentes, o maior novelista do México, amigo generoso. Um grande abraço a Sílvia e Cecília.”

 

Imprensa

The Guardian
“Cervantes e seu personagem Dom Quixote foram influências cruciais para Fuentes como romancista. Ele viu Cervantes, junto com Shakespeare, como a inauguração da era moderna e deleitou-se com a mistura feita pelo autor espanhol de fantasia e realidade.”

The New York Times
“Sua geração de escritores, incluindo o colombiano Gabriel García Marquez e o peruano Mario Vargas Llosa, chamaram a atenção para a cultura latino-americana durante o período em que ditadores comandavam a região.”

El País
“Sua resistência era de um atleta, mas o coração estava enfrentando os impactos até que não pôde mas; sua força física, que também foi sua fortaleza literária, foi vencida pela idade do tempo, essa metáfora em que ele colocou seu empenho como escritor e também como resposta civil a do México e da humanidade.”

Le Figaro
“Carlos Fuentes tinha um projeto louco, escrever a história imaginária do mundo, dar à sua obra a forma da memória do tempo, enquanto atribuía à literatura um papel essencial na história da humanidade: ordenar o caos, oferecer alternativas ao desespero e um significado às ideias. Carlos Fuentes era Dom Quixote contra Hamlet. O segundo pensa que a literatura não é mais que palavra sem sentido, o primeiro acha que ela pode mudar a vida.”

 

Aura

Carlos Fuentes

L&PM Editores

13/08/2011

às 12:12 \ Leituras cruzadas

A sombria literatura infantojuvenil americana

No começo de junho, a crítica literária americana Meghan Cox Gurdon levou a literatura infanto-juvenil a ser um dos assuntos mais comentados do Twitter nos Estados Unidos. Ela foi atacada por leitores, escritores e representantes da indústria dos livros por fazer uma dura crítica ao que se tem produzido para o público jovem americano: livros sombrios, com temas como sequestros, incesto, distúrbios alimentares e auto-mutilação.

Meghan fala de livros como The Lying Game, de Sara Chepard, Abandon, de Meg Cabot, e Between Shades of Gray, de Ruta Sepetys, que estiveram na lista dos infanto-juvenis mais vendidos do jornal New York Times nos últimos meses.

Num artigo publicado no site do The Wall Street Journal, Meghan conta a experiência de uma mulher de Maryland que foi a uma livraria à procura de um romance para presentear a filha de 13 anos e acabou saindo de mãos vazias, desanimada com a incessante escuridão dos livros da seção de infanto-juvenis.

Poucas horas depois da publicação do artigo de Meghan Cox Gurdon, ele se tornou um dos tópicos mais comentados do Twitter dos Estados Unidos. “Idiota”, “ignorante”, “irresponsável” e “condenável” foram alguns dos adjetivos usados junto ao nome da americana pelos furiosos adolescentes defensores dessa literatura infanto-juvenil. Ela chegou a ser acusada de estar argumentando contra o ato da leitura, encorajando os jovens a se afastar do hábito de ler.

Um exemplo dessa literatura dita sombria? “Eu costumava me contorcer quando ouvia pessoas falando sobre automutilação – tirar uma navalha de sua própria carne nunca me pareceu lógico. Mas na verdade é maravilhoso. Você pode cortar de você todas as frustrações que as pessoas colocam em você.” Esse trecho está na contracapa – local onde as editoras tentam ganhar os possíveis compradores – de um dos livros que se encaixam na crítica de Meghan. Para ela, está claro que o livro não é a única coisa sendo vendida aí, mas também a ideia de que a automutilação é uma saída para os problemas.

Função terapêutica – Os defensores desse tipo de literatura dizem que esse tipo de temática tem uma função terapêutica para os adolescentes que passam por dramas pessoais semelhantes. “Infanto-Juvenil salva”era a hashtag de milhares dos posts do Twitter daqueles que escolheram expressar sua raiva em 140 caracteres ou menos”, escreveu Meghan em “My ‘Reprehensible’ Take on Teen Literature” (algo como “Minha repreensível opinião sobre a literatura juvenil” em tradução livre), artigo que escreveu em resposta às críticas ao seu primeiro texto.

Para ela, é verdade que esse tipo de romance pode ajudar crianças em situações sérias e angustiantes, mas a questão maior que se coloca é se livros sobre sequestros, incesto, distúrbios alimentares e automutilação não acabam por tornar normais esse tipo de comportamento para a grande maioria das crianças que estão simplesmente vivendo os rotineiros e já estressantes desafios da adolescência.

Com esse argumento, Meghan também foi acusada de ter falhado no entendimento das brutais realidades enfrentadas pelos adolescentes modernos, ao que ela respondeu dizendo não acreditar que a maioria dos adolescentes americanos viva em algo parecido com o inferno para precisar de livros assim. “A adolescência pode ser um período turbulento, mas não dura para sempre e com frequência – deixando de lado os casos mais tristes, é claro – parece muito mais dramático no momento do que parecerá no futuro”, escreveu.

No Brasil - O gosto literário dos jovens brasileiros parece ser um pouco diferente do dos americanos. Enquanto por lá figuram livros com temáticas mais pesadas e sombrias entre os preferidos, aqui o tema fantástico é o predileto.

O americano Rick Riordan é quem domina os primeiros lugares com os títulos O Herói Perdido, O Ladrão de Raios e O Último Olimpiano – livros que também fazem sucesso nos EUA. Para Pascoal Soto, publisher da editora Leya Brasil, é possível notar uma tendência no mercado editorial infanto-juvenil para livros que abordem temas mais afinados com a realidade dos adolescentes. No entanto, no Brasil eles seguem um caminho um diferente. A série bem-humorada Diário de um Banana, de Jeff Kinney, que fala das dificuldades de um garotinho no ensino fundamental, diz Pascoal Soto, é que temos de mais próximo dos romances-problema americanos.

31/07/2011

às 9:02 \ Leituras cruzadas

Dez dicas de leitura para qualquer época do ano

Em edição recente, o jornal americano New York Times preparou uma lista para os que aguardavam pelo verão americano, época de descanso e de dias mais longos, para mergulhar na leitura. São dez clássicos da literatura mundial, importantes por razões literárias ou históricas, que deveriam fazer parte da lista de qualquer um que tenha gosto por literatura, e por isso VEJA Meus Livros aproveita para estender a recomendação:
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1. Germinal: a obra-prima de Émile Zola descreve a vida de mineiros de carvão durante uma greve na França de 1860. A descrição idealizada da vida de Etienne e de sua paixão, Catherine, os seus esforços e os seus anseios por uma vida melhor transformam a leitura em algo fascinante. O leitor é transportado para um dos maiores cenários de batalha da Revolução Industrial e passa a compreender a origem dos movimentos trabalhistas de uma maneira como nenhum livro de história poderia ensinar.

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2. Fogo Pálido: não é tão conhecido quanto o perversamente divertido Lolita, também escrito por Vladimir Nabokov, mas deveria sê-lo. É um feito impressionante de imaginação e literatura, diferentemente de qualquer outra novela que eu conheço. É um poema épico, uma aventura sobre a misteriosa terra de Zembla e, acima de tudo, um quebra-cabeças: será que a personagem principal é insana?
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3. A Cabana do Pai Tomás: escrito por Harriet Beecher Stowe, autora nascida há exatos 200 anos. Trata-se do romance que tornou impossível para os Estados Unidos tolerar a escravidão por mais tempo. É uma leitura comovente, chorosa e uma janela para os pecados originais do país. É atualmente banida em algumas escolas por utilizar a palavra ‘nigger’ (termo para “negro” considerado pejorativo nos EUA), mas permanece uma fonte poderosa e esclarecedora sobre as dimensões da escravidão americana.

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4. As Vinhas da Ira: é o fabuloso relato de John Steinbeck sobre a luta de uma família de Ocklahoma durante a Grande Depressão. Tom Joad e família abandonam tudo o que possuem para tentar a vida na Califórnia, na esperança de tempos melhores, mas encontram o campo de jogo sempre inclinado contra eles. Com o país ainda se recuperando da Grande Recessão, esse parece ser o momento perfeito para conhecer o difícil trabalho de Tom.
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5. O Morro dos Ventos Uivantes: escrito por Emily Brönte, talvez seja a maior história de amor da literatura. Catherine precisa escolher entre a sua alma gêmea, Heathcliff, carente de educação e status, e o respeitável Edgard. As personagens resplandecem dolorosamente: elas são moldadas pelas pressuposições do século XIX sobre classe e dominação masculina, mas estão sujeitas a emoções humanas irrepreensíveis.
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6. Nosso Homem em Havana: comédia e suspense de espionagem de Graham Greene que pode parecer um pouco inculto para a lista. Mas duas lições que nunca aprendemos com a política externa americana é que nada sai como o previsto e que os furos de inteligência são sempre suspeitos. A história de Greene sobre um desafortunado espião em Cuba trabalha essas questões de modo inesquecível. O espião não possui nenhuma informação real para transmitir, então, ele começa a inventar histórias e, a partir daí, a trama torna-se mortal.
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7. Nada de Novo no Front: escrito por Erich Maria Remarque, este talvez seja o romance de guerra mais aclamado da história. Ele narra a história de um jovem e seus amigos de colégio que se alistam no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial e acabam descobrindo que a guerra não é algo glorioso, e sim um pesadelo tedioso.
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8. Os Miseráveis: clássico de Victor Hugo que conta a história de Jean Valjean, liberado da prisão por roubar um naco de pão para alimentar a família da irmã. Ele é constantemente perseguido pelo inspetor Javert através de uma narrativa poderosa, com cenas de caçada mais eletrizantes que qualquer uma dos filmes de James Bond. O livro também explora de forma sublime a temática de classes sociais, de justiça, de redenção e de misericórdia.
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9. Um Estranho Misterioso: não é o trabalho mais famoso de Mark Twain e não faz rir como O Príncipe e o Mendigo ou Um Yankee na Corte do Rei Arthur, mas é uma pequena história que se engalfinha com questões sobre Deus e o mal. É a narrativa de um anjo cruel que cai numa aldeia e provoca estragos. O anjo anima pequenas pessoas de barro e, em seguida, para o próprio divertimento, as destrói com uma tempestade, um incêndio e um terremoto. Como todo Twain, é um livro de leitura fácil, e, mais do que a maioria dos contos, faz pensar.
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10. Scoop: de Evelyn Waugh é uma análise divertida da imprensa marrom, focada num escritor de natureza que é despachado por engano para cobrir uma guerra na África. Qualquer um que tenha feito uma cobertura sobre o Iraque ou sobre o Afeganistão sabe que o assunto permanece relevante. E quem fizer a leitura do livro terá a noção do caminho incerto e muitas vezes pouco confiável através do qual a cobertura jornalística chega até o leitor.

25/04/2011

às 19:18 \ Leituras cruzadas

Vale a pena ler de novo

Relançamentos de clássicos vêm animando o mercado editorial. De Honra Teu Pai, o livro-reportagem de Gay Talese sobre a máfia italiana nos Estados Unidos às investigações sobre uma j0ia roubada do famoso detetive Sherlock Holmes, há livros para todos os gostos.

Originalmente publicado em 1971, com o título Honrados Mafiosos, Honra Teu Pai foi relançado pela Companhia das Letras. O título, que se filia ao chamado jornalismo literário, é centrado na história de Joseph Bonanno, o “Joe Bananas”, que comandava uma das chamadas Cinco Famílias Mafiosas de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno, em meio a uma guerra entre mafiosos. Um dos pais do new journalism americano, Talese obteve vasto acesso ao clã Bonanno, e pela primeira vez trouxe à tona uma visão íntima, ao mesmo tempo que objetiva, sem encantamento.

A Companhia das Letras relançou também Amor sem Fim, de Ian McEwan, lançado pela primeira vez no país em 1977 e já adaptado para o cinema pelo diretor Roger Mitchell, no filme Amor para Sempre, com Daniel Craig no papel principal. Craig deu vida ao escritor de divulgação científica Joe Rose, que vê sua vida se transformar ao cruzar com Jed Parry, que passa a alimentar por ele uma paixão tão instantânea quanto obsessiva, nos limites da perseguição e da loucura.

Para o leitor jovem, a editora Panda Books trouxe ao Brasil três clássicos da literatura mundial, reforçados por boas ilustrações: A Carta Roubada, de Edgar Allan Põe, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain e Sherlock Holmes e o Caso da Joia Azul, de Arthur Conan Doyle.

Na versão boa para o bolso, saem Todos os Fogos o Fogo, coletânea com oito contos do argentino Julio Cortázar sobre o cotidiano e o lado solidário nas relações humanas, Os Belos e Malditos, em que F. Scott Fitzgerald revela com ironia a sociedade elegante e culta da década de 1920, e A Época da Inocência, de Edith Wharton, vencedor do Pulitzer de 1921. O livro mostra a inquietação da sociedade aristocrática nova-iorquina do fim do século XIX. Saem todos pela Bestbolso, do grupo Record.

Beatriz Souza

17/04/2011

às 8:44 \ Leituras cruzadas

Entre os 10.000 homossexuais deportados pelo regime nazista, um sobrevive: Rudolf Brazda conta sua experiência

Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab se conheceram em 2008, em Mulhouse, na França (Patrick Korben / WPA)

Muito se fala sobre a perseguição aos judeus na Segunda Guerra Mundial, mas o sofrimento de outros grupos visados pelos nazistas, como os gays, ainda pode, e deve, ser mais bem narrado. Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista (Mescla Editorial, tradução de Ângela Cristina Salgueiro Marques, 184 páginas, 48,90 reais), livro lançado nesta semana no Brasil – primeiro país estrangeiro a lançar uma tradução – é um esforço neste sentido. Ele conta a história de Rudolf Brazda, único sobrevivente entre os 10.000 homossexuais deportados pela ditadura de Adolf Hitler.

Rudolf Brazda se descobriu homossexual muito jovem. Antes dos 10 anos de idade, seus amigos já comentavam que era afeminado. Quando adolescente, mostrou ser um verdadeiro pé de valsa. As garotas disputavam entre si para ser seu par na pista de dança. Não eram poucas as vezes em que elas tentavam ir mais longe, mas ele não correspondia. Estava claro que preferia os garotos. Filho de pais checos, livres de qualquer tipo de precon

Rudolf Brazda aos 18 anos (Divulgação / Arquivo pessoal)

ceitos, Brazda não teve problemas ao levar seu primeiro grande amor para conhecê-los. Manteve um relacionamento sério com Werner de 1933 a 1936, quando o companheiro foi convocado para o serviço militar. Eles não se veriam mais. Depois dele, porém, vieram outros amores.

Nascido no vilarejo de Brossen, perto Leipzig, na Alemanha, em 23 de junho de 1913, Brazda tinha apenas 20 anos quando os nazistas tomaram o poder. Especialmente em 1935, a legislação contra os homossexuais foi endurecida pelo regime. Os termos do parágrafo 175 do código penal foram reforçados: “A luxúria contra o que é natural, realizada entre pessoas do sexo masculino ou entre homem e animal é passível de prisão e pode também acarretar a perda de direitos civis”. Todos os gays passaram a ser cadastrados na Central do II Reich, com o objetivo claro da repressão. As estimativas da época apontam que cerca de 100.000 pessoas foram fichadas, entre elas Brazda e seus amigos.

Ele foi condenado pela primeira vez em 1937. Passou seis meses na prisão e acabou expulso da Alemanha. Esperava retomar a vida na Tchecoslováquia, mas, em 1938, o regime de Hitler atravessou o seu caminho mais uma vez. Com a anexação da província dos Sudetos pelos nazistas – onde fica a cidade onde morava, Karlsbad -, as leis alemãs passaram a ser aplicadas ali com o mesmo rigor. Em pouco tempo, Brazda foi preso novamente e condenado a 14 meses de prisão. Embora tenha cumprido a pena integralmente, não chegou a ser libertado. No auge do regime de Hitler, os campos de concentração se propagaram: abrigariam também prisioneiros de guerra, comunistas, social-democratas, judeus, testemunhas de Jeová, ciganos e homossexuais.

Mais um triângulo rosa - Em 8 de agosto de 1942, Brazda foi mandado para o campo de Buchenwald. Identificado com o símbolo de um triângulo rosa, afixado em sua roupa, Brazda era apenas mais um entre os 10.000 gays deportados para campos de concentração durante a II Guerra. Durante três anos, vivenciou todo tipo de atrocidade. A humilhação começava logo que os prisioneiros chegavam ao local, pois todos eram despidos para inspeção. Brazda, particularmente, ainda participou de uma briga feia com um SS. Levou um tapa no rosto depois de ter lhe respondido de maneira insolente e perdeu três dentes.

Sempre otimista, Brazda conta que, apesar de tudo, sua passagem pelo campo poderia ter sido pior. “Outros foram ainda mais prejudicados. Eu ao menos podia trabalhar. Eles me deixavam relativamente tranquilo, só era necessário prestar atenção para não me fazer notar pelos SS”, diz lenta e pausadamente, em entrevista por telefone ao site de VEJA. “Testemunhei diversos tipos de violência contra outros prisioneiros. Foram coisas que não me machucaram fisicamente, mas que me marcaram de forma profunda”, acrescenta. Brazda foi libertado em 11 de abril de 1945, quando fixou residência na França.

Para manter o sorriso no rosto, ele se recorda principalmente das fases felizes de sua vida, ou seja, antes de ser preso pela primeira vez e depois do período em que esteve no campo de concentração. Após nova pausa para reflexão, Brazda conclui que o melhor período foi aquele em que viveu com seu último companheiro, Eddi. Eles se conheceram em 1950 e a partir 1959 passaram a morar juntos na França. “Tínhamos uma boa vida, trabalhávamos. Éramos livres e podíamos nos deslocar como quiséssemos”, lembra. Permaneceram juntos por quase meio século – Eddi morreu em 2003. Hoje, aos 97 anos, Brazda é o último sobrevivente entre os homossexuais deportados pelos nazistas. Crente em Deus, ele define sua passagem no mundo como “plena”.

A reconstrução da história - Assumindo o papel de confidente de Brazda, o pesquisador e militante dos direitos dos homossexuais Jean-Luc

Rudolf e Fernand em Buchenwald, alguns dias após a libertação do campo. A foto foi tirada por um ex-prisioneiro, provavelmente Albert Stüber (Divulgação / Arquivo pessoal)

Schwab pôde transformar seus depoimentos no livro Triângulo Rosa. Coincidentemente, havia entrado em 2008 para uma associação dedicada ao reconhecimento desse tipo de deportados na França quando descobriu que o último sobrevivente morava bem perto dele, na região de Mulhouse, na França. Para recompor a trajetória do personagem, Schwab recorreu a centenas de horas de entrevistas com diferentes fontes, pesquisas pessoais em arquivos alemães, checos e franceses e viagens aos antigos lugares ligados à vida e ao confinamento do biografado.

Leia a seguir trechos da entrevista com o co-autor Jean-Luc Schwab:

Como o senhor tomou conhecimento da história de Brazda? Ouvi falar de Rudolf num jornal local francês, em 2008. Pouco antes, havíamos inaugurado em Berlim o memorial às vítimas homossexuais do nazismo (Homosexuellen-Denkmal), em 27 de maio. Na inauguração, lamentamos que não havia um só sobrevivente para ver o monumento. Ao saber do fato pela TV, Rudolf – que até então achava que sua história não interessava a ninguém – resolveu avisar que estava vivo. Ele não se dava conta do valor histórico de seu testemunho. No fim de junho, então, ele foi convidado para o Gay Pride na Alemanha, e foi feita uma nova cerimônia em homenagem ao memorial, desta vez com uma das vítimas presente. Depois disso, a notícia se espalhou pelos meios de comunicação internacionais.

De que forma o senhor pôde coletar material histórico suficiente para a escritura do livro? Quando fui visitar Rudolf pela primeira vez, me dei conta de que sua história não tinha sido documentada. Então, comecei a entrevistá-lo, para recolher seu testemunho verbal ao menos, e depois gravar os depoimentos em vídeo. Na época, ele estava com 95 anos. E, quando se pede a alguém dessa idade para falar de algo que ocorreu há mais de 60 anos, as lembranças não são muito claras. Então, foi importante verificar nos arquivos se os fatos históricos correspondiam àquilo que ele dizia. Isso nos permitiu descobrir alguns pontos de que ele se esqueceu e precisar outros citados por ele, especialmente algumas datas.

Como nazistas faziam para descobrir quem era ou não era homossexual? No caso de Rudolf, seu nome foi evocado por seus amigos. Não tive acesso a arquivos de outras pessoas, mas, de uma forma geral, quando havia uma denúncia de homossexualidade, era aberto um inquérito policial e, depois disso, bastava provar que o acusado de fato teve relações “contra a natureza” com uma ou mais pessoas. Nesses inquéritos, faziam de tudo para descobrir o máximo possível de nomes envolvidos, para começar novas investigações e assim por diante.

Depois de tanta conversa, surgiu uma amizade entre o senhor e Brazda? No início, não passava de uma relação entre pesquisador e sujeito de estudo. Hoje em dia, me tornei um amigo e confidente. Eu o ajudo no cotidiano, como para preencher documentos ou garantir o contato com seus médicos e enfermeiros. Passo em sua casa frequentemente para visitá-lo, mas não mais para fazer perguntas. De um ano para cá, sua memória vem se desgastando. É bom saber que sua história pôde ser eternizada.

Cecília Araújo

25/01/2011

às 17:39 \ Leituras cruzadas

Biblioteca Mario de Andrade reabre ao público de SP

O aniversário de São Paulo traz um presente para os moradores da cidade: a reabertura, nesta terça-feira, da Biblioteca Mario de Andrade, o segundo maior acervo literário do país, atrás apenas da Biblioteca Nacional. São mais de 320.000 livros, 51.000 deles classificados como raros, e um acervo de periódicos que beira 3 milhões de unidades.

Parte da instituição, a Biblioteca Circulante, com 42.000 livros para consulta e empréstimo, já havia sido reinaugurada em 21 de  julho passado. Desde a data, recebeu 83.000 visitantes, que acessam o local pelo número 235 da avenida São Luís ou pelo corredor de vidro diante da fachada, uma das novidades trazidas pela grande reforma da biblioteca. Outra parte, a dos periódicos, só deve ser reaberta em julho próximo.

Projeto original de Jacques Pilon (1905-1962), francês que passou a infância no Rio e se formou no auge da art déco, a Biblioteca Mário de Andrade passou por uma reforma de três anos contou com investimentos de 23 milhões de reais d0 Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foram 13 milhões de reais para o prédio principal e outros 10 para o anexo, na rua 7 de Abril.

Fruto da fusão da Biblioteca Municipal de São Paulo, criada em 1925, com a Estadual, a Biblioteca Mario de Andrade só passou a ter o nome do autor de Macunaíma, que nela atuou na década de 30, em 1960. Com a fusão e as sucessivas doações recebidas, como a do crítico cultural Otto Maria Carpeaux e a de Paulo Prado, um dos patrocinadores da Semana de Arte de 1922, a instituição passou a contar com obras de valor inestimável.

Estão lá exemplares com dedicatória do poeta Carlos Drummond de Andrade, uma edição alemã de 1925 de O Processo, de Franz Kafka, e uma francesa de Flores do Mal que pertenceu a um dos juízes censores da obra de Baudelaire.

Mas há iguarias ainda mais raras, como relatos de viajantes que conheceram o Brasil ainda colonial – a exemplo do de François Roger sobre a Bahia, de 1698  - e cartas dos primeiros jesuítas a aportar por aqui, como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Há ainda livros impressos até 1500, como a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino.

A reforma, que se estendeu ao acervo, promoveu a desinfestação de 250.000 títulos da instituição e a recuperação de 200 raridades.  Pode-se dizer que São Paulo conta, mais uma vez, com um verdadeiro templo à leitura. Clique aqui para saber como retirar livros da biblioteca.

 

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