04/03/2011
às 12:52 \ Leitura diáriaQuem é Lope de Vega, que estreia nesta sexta nos cinemas
O cinema tem o poder de dar nova textura aos clássicos. Foi assim em As Horas, filme em que, com um nariz postiço, a australiana Nicole Kidman deu corpo à escritora britânica Virginia Woolf, apresentada ao público amplo da sala escura em todo o tormento gerado por sua esquizofrenia. E também, por que não, em Shakespeare Apaixonado, em que o autor de Hamlet e Romeu e Julieta é visto, graças à lente da comédia romântica, como um tipo leve e divertido. Pop, poderia-se dizer. O mesmo acontece agora com um autor que, para os espanhois, tem o mesmo quilate. Sob a direção do brasileiro Andrucha Waddington (confira aqui entrevista com ele), o poeta e dramaturgo Lope Félix de Vega Carpio (1562-1635), considerado o Shakespeare da Espanha, chega às telas do país em um filme que deve lhe vestir uma roupagem colorida e introduzi-lo a um público ainda distante da sua obra.
Lope, o filme, traz o poeta na pele do argentino Alberto Ammann, vencedor do prêmio Goya por sua atuação em Celda 211, de Daniel Monzón. Além de um rosto bonito – embora o original não fosse fraco -, o poeta é mostrado em sua figura humana, e por isso mesmo mais fácil de aderir junto ao imaginário da plateia e de gerar novos leitores. No longa, Lope de Vega é um jovem que precisa decidir o rumo que dará à sua vida. Precisa definir se tomará a literatura como profissão e com que mulher ficará – ele forma com Elena e Isabel um triângulo amoroso.
É aí que surge o prolífico poeta e dramaturgo, criador de obras como Amarílis e La Arcádia, novela pastoral cheia de alusões a pessoas conhecidas, típica da época, caracterizada pela retomada de temas clássicos e pela menção a personalidades reais em obras fictícias (Gil Vicente havia feito isso pouco antes, em O Auto da Barca do Inferno). Quando Lope de Vega decide se dedicar à ficção, quando descobre o teatro e troca um posto na Armada Espanhola pela função de copista na mais importante trupe teatral de Madri, ele se lança com obstinação ao projeto de ser um grande autor. Nascem, então, centenas de peças, poemas e romances, em que ele casa estrofes octossílabas com decassílabas, temas históricos com amorosos, produzindo efeitos de comédia, lirismo, tragicidade e força dramática.
Exatamente pela quantidade da produção – volume implica rapidez -, Lope de Vega não elaborou grandes inovações estilísticas. Mas soube combinar tradições populares e eruditas com facilidade, além de linhas de enredo e tempo diferentes, criando textos de estrutura complexa e ao mesmo tempo divertidos e fortes. Foi assim que criou para o teatro madrilenho - o que é considerado sua grande façanha literária – uma sólida obra feita de comédias populares e nacionais, marcadas pela presença de canções folclóricas.
Foi assim também que criou as histórias de amor temperadas de reflexões filosóficas encontradas em Dorotea (1632). Que escreveu os cem sonetos devocionais e hagiográficos – os anjos eram apenas um índice da religiosidade que dominava a atmosfera da virada do século XV para o XVI – de Rimas Sacras (1614), em que a expressão sentimental de Cristo se assemelha à forma humana de amar. E os duzentos sonetos feitos de elementos petrarquistas, mitológicos e pastoris, além de ingredientes autobiográficos, de As Rimas Humanas (1602).
Confira abaixo dois poemas de Lope de Vega vertidos para o português pelos tradutores Anderson Braga Horta e José Jeronymo Rivera:
.
.
.
Soneto de Repente
Um soneto me pede Violante,
nunca na vida estive em tal aperto;
quatorze versos dizem que é soneto:
brinca brincando lá vão três avante.
Não pensei que encontrasse consoante,
e na metade estou de outro quarteto;
mas, se me vem o início de um terceto,
cá nos quartetos nada há que me espante.
No primeiro terceto vou entrando,
e parece que entrei com o pé direito,
pois fim com este verso lhe vou dando.
Estou já no segundo, e ainda suspeito
que vou os treze versos acabando;
contai se são quatorze, e ei-lo: está feito.
.
.
Definição do Amor
Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso;
não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;
furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;
acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe.



Em queda desde 2002, dívida pública deve crescer
Aeroporto da JHSF pode se tornar internacional
Governo antecipa exigências do novo Código de Mineração
Volume de crédito cresce. E a inadimplência não cede
CFM propõe alternativa à 'importação' de médicos




