Blogs e Colunistas

25/03/2012

às 8:34 \ Livros da Semana

Contos imagéticos para crianças e adultos

As fronteiras que definem o que é literatura estão cada vez mais difusas. Autores contemporâneos como o alemão W. G. Sebald e o mexicano Mario Bellatin incorporaram o uso de fotografias intercaladas na prosa. Em Contos de Lugares Distantes (tradução de Érico Assis, CosacNaify, 104 páginas, 45 reais), Shaun Tan, escritor e quadrinista australiano, também busca mesclar texto e imagem de forma que um meio narrativo complemente o outro. Sua arma não é a fotografia, mas o desenho a lápis e a pintura a óleo.

Tan é mais conhecido por HQs como A Chegada, em que narra a história de um imigrante que, ao sair de seu país de origem, se depara com um mundo estranho, incompreensível e ocasionalmente hostil. O impressionante de A Chegada, no caso, é o fato de o autor não usar texto – a HQ é composta exclusivamente de imagens ricas em detalhes. Apesar de não ter palavras, o livro constrói uma narrativa sólida e impactante.

Contos de Lugares Distantes, por outro lado, é mais tradicional, no sentido de que as histórias contadas tomam a forma de “contos”, na acepção corrente do termo. São textos que não pareceriam deslocados em uma antologia de fantasia e ficção científica que incluísse Philip K. Dick, Ray Bradbury ou escritores mais recentes como Neil Gaiman. E, no entanto, há um uso bastante criativo de imagens. Os desenhos e pinturas de Tan não apenas ilustram o texto, mas complementam a narrativa e fazem avançar a trama. Contos como Chuva ao Longe são ainda mais radicais na mistura. Aqui, a história é contada através de recortes de papel, cada um com uma fonte diferente. A revelação final da narrativa justifica a maneira como é contada. É um feliz caso de união entre texto e forma visual.

O assunto central de A Chegada, o contato com culturas diferentes, que parecem alienígenas para o narrador, retorna em diversos momentos de Contos de Lugares Distantes. Mas, se for preciso apontar uma temática recorrente e definidora do livro, pode-se dizer que Contos de Lugares Distantes gira em torno da visão que as crianças têm do mundo.

Muitos contos incluídos no livro poderiam ser facilmente classificados de infantojuvenis – o que não quer dizer que a obra de Tan seja destinada a crianças. O livro percorre uma interessante zona cinza entre a literatura infantojuvenil e a adulta: território que, no cinema, é explorado por cineastas como Guillermo del Toro, de O Labirinto do Fauno. Isso não quer dizer, claro, que as tramas de Tan agradarão sempre aos dois públicos. Contos de Lugares Distantes apresenta histórias que podem soar incompreensíveis e complexas para os leitores mais jovens, e outras, mais óbvias, que podem parecer melosas e bobas para os adultos.

Shaun Tan ocasionalmente cai em lugares-comuns da literatura fantástica, como o conto País Nenhum, em que uma família descobre um mundo secreto dentro de casa. As histórias mais clichês, porém e por sorte, estão em minoria. Contos como Os Gravetos e Feriado sem Nome (que versa sobre um feriado que seria quase uma antítese do Natal) mostram um autor intensamente criativo. Ainda que a prosa não seja o forte de Shaun Tan, o seu talento visual e sua inteligência na hora de mesclar texto e imagem fazem de Contos de Lugares Distantes um livro que merece a atenção das crianças – por não seguir o padrão de narrativa comportada que apresenta uma moral ao fim – e dos adultos.

Antônio Xerxenesky

18/03/2012

às 14:17 \ Livros da Semana

Livro narra a primeira vez do cinema nacional

Coisas Eróticas sendo exibido no Cine Windsor (Bruno Graziano/Divulgação)

 

Não se trata de nenhum primor da cinematografia brasileira, mas é, sem dúvida, um filme que mudou a trajetória do cinema nacional. No início de abril, prestes a completar trinta anos, o filme que introduziu o país no tórrido mercado pornográfico ganha uma biografia. Coisas Eróticas – A História Jamais Contada da Primeira Vez do Cinema Nacional (Panda Books, 200 páginas, 35,90 reais), dos jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura, mostra como o longa Coisas Eróticas, do italiano radicado em São Paulo Raffaele Rossi (1938-2007), sepultou a pornochanchada – e de quebra a Boca do Lixo paulistana – e ainda pôs o Brasil no caminho de ser um dos maiores produtores mundiais de pornografia.

Corria o ano de 1979 quando Raffaele Rossi leu na extinta revista Manchete que um filme japonês com cenas de sexo explícito rumava para o Brasil. Era Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, que conseguiria uma brecha na censura militar para ser exibido no Masp, durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, então com dois anos de vida. De tino comercial aguçado, o antigo vendedor de equipamentos cinematográficos para as produções da Boca do Lixo, serviço que realizava nos anos 1960, enxergou ali um produto capaz de fazer dinheiro.

Rossi, no entanto, se decepcionou com o que viu. Japonês fazendo sexo, comentaria depois da sessão, não tinha graça nenhuma. Foi então que decidiu: faria um filme de sexo brasileiro, mostrando o sexo da maneira como os brasileiros gostavam e faziam. ”Segundo ele, as cenas de sexo de Império dos Sentidos não excitavam e chegavam a beirar o escatológico”, diz trecho do livro lançado agora pela Panda Books. “Muito pelo contrário, sexo deveria ser excitante.”

Para realizar a empreitada, Rossi cooptou amigos e convenceu atores a protagonizar as primeiras transas cinematográficas nacionais. É sintomático que a atriz Zaira Bueno, a quem o diretor não conseguiu convencer a transar em Coisas Eróticas, não faça nenhuma menção ao filme no blog que mantém. O passo mais ousado do diretor de O Homem Lobo (1971) e Boneca Cobiçada (1981) seria uma pornochanchada piorada — até então, os longas brasileiros mostravam um mamilo ou outro, nunca os dois juntos — e tosca, dividida em três atos ou histórias preenchidas por  imagens de masturbação, sexo oral, swing e homossexualismo. E apesar disso (ou por isso mesmo) um sucesso comercial: por semanas, o filme provocaria filas em frente ao Cine Windsor, no centro de São Paulo, que chegou a receber 3.000 pessoas por dia.

Ao todo, Coisas Eróticas teve um público oficial de 4,7 milhões de espectadores, mesma bilheteria de Carandiru e Se Eu Fosse Você, hits da chamada retomada do cinema nacional. Mas, entre ingressos não computados e cópias piratas, é possível que o longa tenha alcançado uma plateia semelhante à de Tropa de Elite 2, por volta dos 11 milhões de espectadores.

O boom do filme teria o efeito de um divisor de águas. A partir daí, os exibidores do centro paulistano passariam a priorizar filmes de sexo explícito, induzindo os cineastas da Boca do Lixo ainda não persuadidos do custo-benefício a investir em produções do gênero, liberado a partir do precedente obtido por Coisas Eróticas junto à censura. Era o fim da pornochanchada e da Boca do Lixo, que, bem ou mal, ainda oferecia opções de filmes brasileiros para um público mais amplo que o machario dominante nas sessões pornô.

O livro — A vitória de Coisas Eróticas junto à censura é, aliás, uma das melhores passagens do livro dos jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura. A dupla fez um trabalho de apuração competente e reconstruiu com um texto saboroso os acontecimentos de antes, durante e após o lançamento do filme, aproveitando com sabedoria o rico pano de fundo histórico. No caso da relação entre Coisas Eróticas e a censura federal, os autores não se limitaram a contar que o filme primeiro sofreu uma série de cortes e depois foi liberado na íntegra, para maiores de 18 anos, por um censor de cabeça aberta, o historiador de arte Assir Pereira, que defendia a classificação dos filmes por idade e horário, em vez de um veto total. O livro conta algo curioso e pouco explorado por obras sobre a ditadura: como funcionava a formação dos censores.

“O primeiro curso para censor federal foi realizado de 8 de julho a 16 de novembro de 1968. A intenção era aumentar o número de censores capacitados na Polícia Federal. Intitulado Curso Intensivo de Treinamento de Censor Federal na Academia Nacional de Polícia, formou a primeira leva de censores pré-Ato Institucional nº 5, credenciados em 30 de dezembro de 1968. Tornava-se obrigatório que, durante o curso, os integrantes se graduassem em uma universidade. Sendo assim, aqueles que já tinham um diploma seriam imediatamente nomeados”, conta o livro.

“Assir Pereira, o tímido rapaz de 23 anos nascido no interior de São Paulo, em Valinhos, entrou no curso em Brasília somente em 1979. A essa altura, o curso já estava aprimorado, sendo ministrado por professores da Universidade de Brasília e da Universidade Católica Federal de Minas Gerais. (…) A grade curricular era de quinhentas horas divididas em 14 matérias: introdução à sociologia, psicologia evolutiva e social, legislação especializada, história da arte, história e técnica de teatro, introdução à ciência política, técnica de cinema, filosofia da arte, técnica de televisão, literatura brasileira, comunicação em sociedade, ética brasileira, técnica operacional e segurança nacional.”

Erros – O brilho do livro só é ofuscado pela quantidade de erros — de edição e de revisão — que carrega. É possível encontrar, lado a lado em páginas vizinhas, informações díspares, como nas páginas 138 e 139. Na primeira, diz-se que Raffaele Rossi, que como quase todos os envolvidos com Coisas Eróticas terminou a vida sem dinheiro e de maneira melancólica, foi deixado pela segunda esposa em 15 de janeiro de 1992. Na segunda, conta-se que Raffaele, que queimou todo o dinheiro faturado em viagens, festas e um time de futebol de salão, se separou de Renata Candu em 15 de julho de 1982 — data impossível, já que a crise que levaria ao fim do casamento teria um desfecho dez anos após a estreia de Coisas Eróticas.

Em outro deslize, a página 50 diz que o ator Oásis Minniti — que se tornaria o rei do sexo explícito, dando até aula da matéria — bateu o carro em outubro de 1981, piorando a sua já difícil situação financeira, e que isso o teria levado a aceitar o convite para participar de Coisas Eróticas, gravando, conforme a página 53, suas cenas em maio de 1981. Uma pena erros encontrar assim em um trabalho de qualidade como este.

Maria Carolina Maia

16/03/2012

às 17:38 \ Eventos

Fãs se reúnem para discutir a série ‘Jogos Vorazes’

Seguindo a tradição das reuniões de fãs de sagas, como aconteceu com os das séries Harry Potter e Crepúsculo, os interessados em Jogos Vorazes poderão se encontrar neste fim de semana em 12 capitais do país. Além de participar de um quiz e de conversas sobre a saga, os fãs concorrerão a brindes.

A série, escrita pela americana Suzanne Collins, promete ser o próximo fenômeno adolescente. Na próxima sexta, 23 de março, a saga estreia nos cinemas em todo o mundo, o que deve impulsionar ainda mais as vendas dos livros — já são 30 milhões de exemplares comercializados, 80.000 só no Brasil.

Enredo – Jogos Vorazes conta a história de Panem, uma nação construída no que restou da América do Norte após catástrofes naturais que destruíram o mundo. No país, são realizados os Jogos Vorazes, um reality show que reúne 24 adolescentes em luta pela sobrevivência. Nas telas, a atriz americana Jennifer Lawrence dá vida à Katniss Eveerden, personagem principal.

A série de encontros é apoiada pelos principais fã-clubes da série, pela editora Rocco, que publica a saga no Brasil, e pela Paris Filmes, distribuidora do filme.

Confira abaixo a agenda dos encontros divulgada pelo perfil da série no Facebook, sob os cuidados da editora Rocco:

- Florianópolis, SC

Sexta-feira, 16/3, às 17h – Livrarias Curtiba Beira-Mar Shopping (Rua Bocaiúva, 2.468)

- Recife, PE

Sábado, 17/3, das 13h às 16h – Livraria Cultura Paço Alfândega (R. da Alfândega, 35)

- Salvador, BA

Sábado, 17/3, das 13h30 às 16h30 – Livraria Cultura Salvador Shopping (Av. Tancredo Neves, 2915)

- Belo Horizonte, MG

Sábado, 17/3, das 14h às 17h – Livraria Leitura BH Shopping (Rod. BR 356, 3049 lj OP51, Belvedere)

- Goiânia, GO

Sábado, 17/3, das 15h às 18h – Livraria Leitura (Av. T 10, 1300 3º Piso, Setor Bueno)

- Brasília, DF

Sábado, 17/3, das 15h às 18h – Livraria Cultura CasaPark Shopping (SGCV – Sul, Lote 22 - Loja 4-A)

- Vitória, ES

Sábado, 17/3, das 15h às 21h30 – Livraira Logos Shopping Jardins (Rua Carlos E. Monteiro Lemos, 262 lj. 11/12)

- São Paulo, SP

Sábado, 17/3, das 15h às 18h – Livraria Cultura Shopping Bourbon (R. Turiassu, 2100, Perdizes)

- Fortaleza, CE

Sábado, 17/3, das 15h às 18h – Livraria Cultura Varanda Mall (Av. Dom Luís, 1010)

- Curitiba, PR

Sábado, 17/3, das 16h às 19h – Livrarias Curitiba Shopping Palladium (Av. Presidente Kennedy nº. 4121, Piso L2, loja 2047)

- João Pessoa, PB

Domingo, 18/3, das 13h às 16h – Livraria Leitura Manaira Shopping (Av. Gov. Flávio Ribeiro Coutinho, s/n)

- Rio de Janeiro, RJ

Domingo, 18/3, das 16h às 19h – Livraria da Travessa Barra Shopping (Av. das Américas, 4666 Loja 220)

10/03/2012

às 8:34 \ Livros da Semana

Em ‘Chamadas Telefônicas’, Bolaño está em seu território

Há obras que ganham projeção após a morte do autor. Foi o que aconteceu com o chileno Roberto Bolaño, cujo livro de contos Chamadas Telefônicas (tradução de Eduardo Brandão, 216 páginas, 39 reais), acaba de ser lançado no país pela Companhia das Letras. Mesmo que Bolaño já fosse um autor respeitado, é inegável que o fascínio pela sua obra (e sua figura) cresceu muito após sua morte, em 2003. O Brasil, mesmo, só recebeu os livros do escritor depois disso.

Chamadas Telefônicas, publicado originalmente na Espanha, em 1997, reúne contos sobre temas caros ao autor: vidas de escritores, personagens que não conseguem se ajustar à realidade, violência urbana e muitas passagens autobiográficas. Ao longo de catorze histórias, temos Bolaño pisando em seu próprio território. Ou seja, andando por diversos países e mesclando diferentes temas. Os contos, alguns de final surpreendente, percorrem um trajeto peripatético pelo mundo afora, refletindo a própria biografia do autor.

Nascido no Chile, Bolaño se mudou para o México ainda criança, acompanhando os pais. Em 1973, aos 20 anos, regressou a território chileno empolgado com a vitória eleitoral do presidente Salvador Allende. No ano seguinte, os militares deram o golpe de estado e Allende se suicidou, dando início a um período de agitações no país. Envolvido nas manifestações contra o golpe, Bolaño foi para a prisão, de onde escapou ao ser reconhecido por um amigo da primeira infância, agora fardado. Livre, voltou para o México, onde passou apenas um ano, porque, em 1974, se jogou no mundo. Foi para a Europa, morou um pouco na França, viajou por diversos países – não se sabe ao certo por onde andou – e firmou-se, em 1978, na Espanha, firmando residência ora em Barcelona ora Girona e ora nos arredores da Costa Brava catalã, não necessariamente nessa ordem.

Entrementes, viajou também pela África e, talvez, pelo Oriente Médio. O ato final da epopeia foi agonizante. Na Espanha, passou dez dias em coma num hospital, à espera de um novo fígado. Morreu em 14 de julho de 2003, aos 50 anos, vítima de uma insuficiência hepática agravada pelo consumo, por vezes excessivo, de álcool.

Nos contos do escritor, as andanças pelo mundo, os personagens cosmopolitas, as desilusões da vida, as marcas das ditaduras nos exilados e as errantes vidas literárias de escritores e poetas são temáticas que trazem à tona as veias abertas da América Latina, com toda a carga de tragédias e lirismo que a expressão carrega.

Leitor voraz e detentor de conhecimentos literários enciclopédicos, a escrita de Bolaño foge do academicismo e agrada pela precisão, fluidez e por um quê de ironia que permeia praticamente todas as suas histórias, mesmo as mais trágicas. Influenciado por Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar, Bolaño influenciou os também argentinos Alan Pauls (autor de O Passado) e Rodrigo Fresán, (de Jardins de Kensington), entre outros prosadores de língua castelhana espalhados entre a Terra do Fogo e os muros de Tijuana.

Num dos contos, o escritor narra, com forte influência autobiográfica, a rotina do escritor latino-americano Sensini, que tenta viver de sua própria pena. Para isso, Sensini passa a inscrever suas novelas em “prêmios búfalos”, que o “escritor pele-vermelha” tinha que caçar, “pois nisso estava em jogo sua vida”.

Curiosamente, o conto acaba narrando o processo de escrita de outro livro de Bolaño. Lançado aqui no país no ano passado, Monsieur Pain (tradução de Eduardo Brandão, Companhia das Letras, 144 páginas, 34 reais) é justamente a novela premiada que o alter-ego Sensini escreve ao longo do conto. O fato é confessado por Bolaño no prefácio do livro, uma breve novela que se passa em Paris, no ano de 1938.

Na história, Pierre Pain é um mesmerista, espécie de curandeiro urbano seguidor de Franz Mesmer – médico alemão que inventou o mesmerismo, “ciência” que fazia uso de técnicas semelhantes à hipnose para tratar os doentes. Pain – o nome “dor” (em inglês) não é aleatório – nutre uma paixão não correspondida por Madame Reynaud. Chamado por ela para curar o marido de uma amiga, o senhor Vallejo, Monsieur Pain envereda por uma teia de suspeitíssimos jogos de sombras, perseguições e mistérios.

A novela, não por acaso, traz um trecho de Edgar Allan Poe na epígrafe. O excerto, que termina com a intrigante indagação “Mas onde está o princípio?”, é um diálogo extraído do conto A Revelação Mesmérica. A questão sobre a origem das coisas e casos acaba perpassando todo o romance, pois, assim como o personagem (o título é escrito em primeira pessoa), nós não sabemos onde começou o mistério todo que cerca o tratamento do senhor Vallejo, enfermo aprisionado em um hospital labiríntico. E, de pano de fundo da história, ainda temos uma França prestes a entrar em guerra com a Alemanha, temendo a perigosa ascensão do nazismo.

O escritor espanhol Javier Cercas (de Soldados de Salamina) disse uma vez que Bolaño é “mais real que a realidade”. Também chamado de “ultrarrealista”, o chileno criou em prosa um universo literário que se sobrepõe e se desdobra em seus diversos livros, configurando uma obra que se confunde com a própria vida, seja pela lucidez que cega ou pela tragédia que a acompanha.

Relembrando suas peripécias de autor iniciante na Espanha, Bolaño escreve no prefácio de Monsieur Pain que “nunca como naquela época” se sentiu “mais orgulhoso e mais infeliz por ser escritor”. Comparando a velocidade e intensidade de sua vida com o tempo que sua obra levou para ser reconhecida, fica fácil entender sua tristeza.

Diego Braga Norte

 

03/03/2012

às 8:04 \ Livros da Semana

Só as mães são felizes?

Sessenta e nove anos, baixa, cabelos grisalhos com permanente, maçãs do rosto salientes, de blusa azul-celeste, casaco branco e saia bege pregueada. Foi assim que Chi-hon descreveu a mãe, Park So-nyo, no panfleto que a família distribuiria para tentar encontrá-la depois de ela se perder do marido numa estação de metrô de Seul, na Coreia do Sul. O casal saiu do interior para uma comemoração com os filhos na capital e, já em Seul, o marido entrou no vagão do metrô e não percebeu que a mulher ficara para trás. Não é o desvendar do mistério do desaparecimento de Park So-nyo que o leitor acompanhará em Por Favor, Cuide da Mamãe (tradução de Flávia Rössler, Intrínseca, 240 páginas, 29,90 reais na versão impressa e 19,90 reais na versão e-book), best-seller da sul-coreana Kyung-Sook Shin que acaba de ser lançado no país. Seu sumiço é praticamente o fio da meada que conduz filhos e marido a um mergulho no passado para tentar compreender quem era aquela mulher que desapareceu aos 69 anos sem que eles realmente a conhecessem.

A ida de Park So-nyo e do marido para Seul tinha por objetivo a celebração, junto com os filhos, do aniversário de ambos. Fazia tempos que os filhos haviam deixado de ir até a aldeia onde os pais viviam para festejar. Pensando que era um fardo fazer duas comemorações, Park So-nyo sugeriu que se reunissem apenas no aniversário do marido, um mês antes do seu. “Então, todos começaram a dar o presente de aniversário de Mamãe no dia do aniversário do Pai. Por fim, a data de aniversário de Mamãe acabou naturalmente deslocada.” Park So-nyo é mãe de quatro filhos — ela teve um quinto, que nasceu morto — já adultos, que vivem em Seul. Ela e o marido moravam numa propriedade rural, que ela tocava como uma fábrica desde que se mudou para lá ao se casar, aos 17 anos. Pouco tempo havia se passado desde a Guerra da Coreia (1950-1953) e a família era muito pobre, mas ela fazia de tudo para não deixar os filhos passarem fome: fazia molhos, criava bicho-da-seda, fermentava malte, ajudava a fazer tofu, cultivava alimentos, criava galinhas e até cachorros, cujos filhotes vendia para ganhar algum dinheiro. E ainda tinha tempo para preparar todos os rituais ancestrais: um na primavera, dois no verão e dois no inverno.

A vida atribulada de Park So-nyo vai se tornando conhecida a partir da narrativa de seus filhos Chi-hon e Hyong-chol, e de seu marido, e também dela própria, que rememora o que passou. Os dois filhos e o marido carregam uma enorme culpa pelo seu desaparecimento e começam a perceber que nunca olharam para ela como um ser humano que também tinha sonhos, tristezas, alegrias. Apenas a viam como mãe e esposa. “Para você, Mamãe era sempre Mamãe. Jamais lhe ocorrera que ela tivesse tido 3, 12 ou 20 anos de idade. Mamãe era Mamãe. Já tinha nascido Mamãe”, refletia Chi-hon, uma escritora de sucesso, que se martiriza ao lembrar que estava na China para uma feira de livros quando a mãe desapareceu e só ficou sabendo do que ocorrera quatro dias depois. Ela se entristece ao recordar que a mãe era analfabeta e também ao relembrar o dia em que descobriu que ela tinha terríveis dores de cabeça sem dizer nada a ninguém. Chi-hon ainda se atormenta por não ter tido paciência com a mãe quando, por exemplo, ela lhe pedia para que não viajasse mais de avião.

Hyong-chol, o filho mais velho de Park So-nyo, diretor de marketing de uma construtora de prédios em Seul, não tinha muito tempo livre, mas no momento em que sua mãe desapareceu, ele estava numa sauna. Hyong-chol chegou até a pensar que o irmão mais novo estava exagerando quando ligou para informá-lo do que tinha acontecido. Ele foi o filho mais mimado pela mãe, que não deixava que os irmãos comessem antes dele e dava toda a carne do seu prato para o primogênito. Ao recordar as visitas da mãe a Seul, ele se lembra bem de quando ela chegava de madrugada, limpava toda a casa, cozinhava e ia embora ao anoitecer, dizendo que tinha trabalho na aldeia, quando na verdade só não queria tirar os filhos, que naquele tempo moravam juntos, de suas camas. Mas é o marido de Park So-nyo, no entanto, o mais aflito. Algum tempo depois do sumiço da mulher, ele decide voltar para o interior. Na casa vazia, ele a chama constantemente como se ela fosse responder. “Sua esposa, de quem você se esquecera durante cinquenta anos, estava presente em seu coração.” Por várias vezes, ele saiu de casa com outras mulheres, mas ela sempre o recebia de volta e cuidava dele.

Mais de 1 milhão de cópias de Por Favor, Cuide da Mamãe já foram vendidas na Coreia do Sul. O livro, que também foi publicado em duas dezenas de países, está dividido em quatro capítulos e um epílogo, e a maior parte do texto está escrito na segunda pessoa, como se a mãe desaparecida fosse a voz que reaviva dolorosas lembranças ou momentos em que bastaria ter tido uma atitude diferente: “Você se dá conta de que nunca ofereceu à esposa nem um copo de água morna quando ela passara dias sem conseguir segurar a comida no estômago por causa de uma indisposição severa.” Não chega a ser um enredo dramático, mas é bastante lastimoso, cheio de culpa e ressentimentos. O livro leva o leitor ainda a conhecer algumas características culturais da Coreia do Sul, marcada por tradições, mas também por aspectos extremamente modernos. Num país onde há liberdade religiosa, Park So-nyo seguia à risca os rituais ancestrais, contribuía com um templo budista e frequentava a Igreja Católica.

Não deixa de ser interessante comparar a história dessa mãe oriental que abdica de sua própria vida – ainda que guarde alguns segredos íntimos – com a “mãe tigre” de origem chinesa Amy Chua, autora de outro best-seller, Grito de Guerra da Mãe-Tigre” (também lançado pela Intrínseca). Este não é um livro de ficção, mas uma espécie de receituário de como criar os filhos para enfrentar as dificuldades do mundo. Em vez de deixar de comer, como faz Park So-nyo para alimentar o filho preferido que ela quer que estude e se torne um homem de sucesso, Amy Chua apregoa que os filhos não devem ser protegidos das aflições e desconfortos cotidianos. Nem todas as mães orientais são iguais, como o Ocidente muitas vezes faz supor. A crítica americana Maurren Corrigan, da Universidade de Georgetown, não gostou dessa mãe sul-coreana. Para ela, o texto é complemante alheio à “cultura terapêutica” americana ao passar a mensagem de que, se a mãe é completamente infeliz, a culpa é do marido e dos filhos ingratos. “Como uma leitora americana — doutrinada nas resolutas mensagens sobre “limites” e “tomadas de responsabilidade” –, fiquei esperando por ironia, um toque cômico na trama. Esperei até o final do livro, quando entendi que essa era uma ‘soap opera’ (novela) coreana travestida em ficção literária séria”, disse.

Em entrevista a uma TV portuguesa, a autora Kyung-Sook Shin contou como surgiu a ideia do texto. “Escrevi este livro porque, quando tinha 16 anos, fui com a minha mãe de trem para Seul. Durante a viagem, olhei para a minha mãe e ela estava com um ar muito solitário. E então prometi-lhe que um dia escreveria um livro dedicado a ela”. Talvez a intenção da autora fosse apenas dizer “olhe para sua mãe”. O tom muitas vezes acusatório na segunda pessoa pode ter sido o modo que ela encontrou para dizer que não é justo que — em maior ou menor grau, que varia de acordo com a cultura ou a condição financeira das mães –, as mulheres sejam as responsáveis por todo o andamento de uma casa e a criação dos filhos. O que é certo é que, apesar desse moralismo enrustido, ou justamente por causa dele, ao final do texto o leitor vai querer dizer pelo menos um “oi” para a sua mãe.

Simone Costa

12/02/2012

às 8:53 \ Livros da Semana

Livro de Raul Bopp conta bastidores do Modernismo

Conta-se que, quando Tarsila do Amaral pintou o Abaporu (ao lado), como um presente de aniversário para o marido Oswald de Andrade, o escritor ficou tão impressionado com o quadro que chamou o amigo Raul Bopp para conferi-lo. A tela, batizada com um neologismo que unia os termos do tupi-guarani “aba” (homem) e “poru” (comedor de carne humana), levaria Oswald a escrever o “Manifesto Antropofágico”, um dos documentos mais importantes do movimento modernista nacional. Esta história não está em Movimentos Modernistas no Brasil 1922 – 1928 (José Olympio, 182 páginas, 28 reais), livro do gaúcho Raul Bopp que passou quarenta anos fora de catálogo e retorna às livrarias na próxima sexta, 17, por ocasião dos noventa anos da Semana de 1922. Mas há muitas outras saborosas por lá.

Poeta e editor da Revista de Antropofagia, publicação que propagava os ideais modernistas e antropofágicos nos anos 1920, além de amigo de uma das principais lideranças do movimento, Bopp foi um espectador privilegiado da agitação cultural que marcou São Paulo no início do século XX. E são as cenas que ele presenciou em meio à Pauliceia, assim como o julgamento que fez de fatos e de personagens, que preenchem Movimentos Modernistas no Brasil, livro que reúne notas escritas para duas conferências realizadas no Instituto Brasileiro de Estudos Internacionais, além de respostas a questões feitas por um jornalista e o texto ficcional Ballet da Cobra Norato.

Quanto aos personagens, chama a atenção a maneira como Bopp descreve Oswald – “Às vezes, com lampejos geniais, mas, também, algumas vezes, com destemperos incríveis”. Sempre ativo, o marido de Tarsila teria tido, entre outas, a ideia de criar uma religião que congregasse elementos das três raças brasileiras. O detalhe, além de curioso, é valioso porque faz lembrar que não foi Gilberto Freyre quem inventou a teoria das três raças fundadoras da nação brasileira, em Casa Grande & Senzala (1933). Ela é anterior a Freyre: vem do Brasil recém-emancipado, em que o Instituto Histórico e Geográfico, ancestral do IBGE, lançou o concurso “Como Escrever a História do Brasil”. Sagrou-se ali campeão o naturalista alemão Karl Friedrich Phillipp Von Martius, com a tese de que o Brasil era um grande caldo formado pelo volumoso rio branco (português) e seus dois confluentes, os rios negro e indígena. E os ecos do século XIX ainda se faziam ouvir no XX.

Outros detalhes sobre a cultura brasileira pipocam aqui e ali, mas o foco do livro, como informa o título, é o movimento modernista paulista. E é daí que vêm informações preciosas, como a atribuição a Di Cavalcanti da ideia da Semana de 1922, tese encampada pelo jornalista Marcos Augusto Gonçalves em seu 1922 – A Semana que Não Terminou, que a Companhia das Letras acaba de lançar. Segundo Bopp, o pintor já planejava para aquele período um evento de artes visuais e conferências, que, diante das adesões de outros artistas e do patrocínio da elite paulista, acabou ampliado e transferido para o palco do Municipal.

Sobre a Semana de 1922, que nesta segunda, 13 de fevereiro, completa 90 anos, Bopp é sincero ao mostrar como foi contraditória, mesclando desejos de inovação artística a influências do passado, bem como ímpetos de ruptura com o exterior à importação de tendências vanguardistas. E ao apontar como “seus resultados foram conduzidos de forma incoerente, sem alcançar soluções mais profundas”. Mas ressalta que o evento teve o mérito de dar “maior autonomia aos meios de expressão”, libertar “o idioma de gramaticalismos inúteis” e desamarrar “a poesia em versos livres”.

O poeta também conta como o grupo modernista chegou a preparar um segundo evento, com conteúdo mais coerente que o de 1922. Ele aconteceria em Vitória (ES), provavelmente em 1929, a convite do secretário de educação local. Teses sobre o país e sobre as artes foram boladas e ensaiadas, e até o anúncio de um calendário antropofágico, com início na “data da deglutição do bispo Dom Antônio Sardinha”, foi idealizado. Mas tudo naufragou junto com o casamento de Oswald e Tarsila. Bopp não é claro, mas – uma vez mais – o que se conta é que Oswald traiu Tarsila com Pagu, jovem a quem a pintora tutelava intelectualmente.

Por falar no que se conta, entre as cenas narradas por Raul Bopp vale destacar ao menos uma, muito diferente da que abre o texto, em que ele conta como surgiu o conceito de antropofagia. E que deixa no ar qual das versões é a verdadeira — confusão que, sem dúvida, condiz com o espírito antropofágico.
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“Uma noite, Tarsila e Oswald resolveram levar o grupo que frequentava o solar a um restaurante situado nas bandas de Santa Ana. Especialidade: rãs. O garçom veio tomar nota dos pedidos. Uns queriam rãs. Outros não queriam. Preferiam escalopini…

Quando, entre aplausos, chegou um vasto prato com a esperada iguaria, Oswald levantou-se e começou a fazer o elogio da rã, explicando, com uma alta percentagem de burla, a teoria da evolução das espécies. Citou autores imaginários, os ovistas holandeses, a teoria dos ‘homúnculos’, os espermatistas etc. para ‘provar’ que a linha da evolução biológica do homem, na sua longa fase pré-antropoide, passava pela rã – essa mesma rã que estávamos saboreando entre goles de Chablis gelado.

Tarsila interveio:

- Em resumo, isso significa que, teoricamente, deglutindo rãs, somos uns… quase antropófagos.

A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a um jogo divertido de ideias. Citou-se logo o velho Hans Staden e outros clássicos da Antropologia:

- Lá vem a nossa comida pulando.

A Antropofagia era diferente dos outros menus. Oswald, no seu malabarismo de ideias e palavras, proclamou:

- Tupy or not tupy, that’s the question.

Alguns dias mais tarde, o mesmo grupo do restaurante das rãs reuniu-se no palacete da alameda Barão de Piracicaba, para o batismo de um quadro de Tarsila: o Antropófago.

Nessa ocasião, depois de passar em revista a parca safra literária posterior à Semana, Oswald propôs desencadear um movimento de reação, genuinamente brasileiro. Redigiu um ‘Manifesto’. O plano de ‘derrubada’ tomou corpo. A flecha antropofágica indicava outra direção. Conduzia a um Brasil mais profundo, de valores indecifrados.”

Maria Carolina Maia

 

OUTROS RELANÇAMENTOS DOS 90 ANOS DE 1922

Companhia das Letras

Retrato do Brasil – Paulo Prado (reedição 10/02)

 

José Olympio

Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro – Gilberto Mendonça Teles (março)

*A editora também vai relançar toda a obra de Raul Bopp

 

Editora Globo

O Santeiro do Mangue e Outros Poemas – Oswald de Andrade

O perfeito cozinheiro das almas deste mundo – Oswald de Andrade (2012 – sem data)

*As duas fazem parte do relançamento da obra completa do autor.

 

Nova Fronteira

Modinhas Imperiais – Mário de Andrade (reedição, 2012 – sem data)

Namoros com a medicina – Mário de Andrade (reedição, 2012 – sem data)

Poesia Completa – Mário de Andrade (reedição, 2012 – sem data)

Café – Mário de Andrade (romance inédito, 2012 – sem data)

Preto – Mário de Andrade (romance inédito, 2012 – sem data)

(Raissa Pascoal)

11/02/2012

às 8:10 \ Livros da Semana

Uma semana nem tão moderna assim

A capa de '1922' é baseada na de 'Pauliceia Desvairada', de Mario de Andrade. O título, num de Zuenir Ventura

Já se vão noventa anos desde que um grupo de artistas e escritores fez do Teatro Municipal de São Paulo o palco da Semana de Arte Moderna. Eles queriam que aqueles três dias (13, 15 e 17 de fevereiro de 1922) fossem um marco simbólico de transformação para a arte brasileira, gerando atrito e também furor – muito ao gosto de fãs de polêmicas e de publicidade como Oswald de Andrade. Para isso, reza a lenda, o escritor paulistano arregimentou estudantes, espalhados pelo teatro, para vaiar as apresentações e, assim, estimular a plateia a fazer o mesmo, pois o que se mostrava ali não chegava a ser assim tão inovador a ponto de chocar o público. Oswald e seus amigos conseguiram causar o rebuliço que esperavam? A Semana de Arte Moderna de 1922 foi realmente algo inovador na cultura brasileira? Uma certa des construção desse mito em que se transformaram as exibições realizadas há nove décadas em São Paulo é o que procura fazer o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, 55 anos, no livro 1922 – A Semana que Não Terminou (Companhia das Letras, 376 páginas, 49 reais), que chega ao mercado, em formato impresso e e-book, neste fim de semana.

Os modernistas eram contraditórios. Não havia sintonia entre o que pregavam e o que produziam. Enquanto o discurso do grupo defendia o rompimento com o passado e com a influência europeia, juntamente com a produção de algo genuinamente nacional, era à Europa e aos estilos do final do século XIX, como o art nouveau, o simbolismo e o impressionismo, que recorriam em busca de conhecimento e de formatos. Além disso, o livro, embora não negue valor à Semana, a situa como parte de um movimento de mudança iniciado no país antes de 1922. “Eu não diria que a Semana mudou a cultura nacional. Aquelas noites que aconteceram no Municipal refletiam um processo de mudança que vinha já de alguns anos antes. Mas não há dúvida que o modernismo deixou um legado importante, tanto de liberdade de pesquisa e ampliação dos horizontes da arte quanto na concepção antropófaga de uma cultura que é ao mesmo tempo brasileira e internacional”, diz Gonçalves a VEJA Meus Livros.

Parte do sucesso da Semana de 1922 e do mito que ela viria a se tornar se deve à habilidade do grupo modernista em se valer da imprensa – alguns deles eram articulistas de importantes jornais e revistas – para insuflar a crítica especializada e criar controvérsia em torno da arte que pretendia enterrar o academicismo e o “passadismo”. Farpas foram trocadas com o escritor Monteiro Lobato, crítico de arte e pintor diletante, um dos que mais levantaram bandeiras contra o modernismo. Embora defendesse uma arte mais brasileira, Lobato era preso às regras artísticas “passadistas”, presas ao passado, e taxou de termos como “degenerada” a arte como aquela exposta por Anita Malfatti numa mostra individual, em 1917. Há quem diga, inclusive, que a pintora paulistana Anita Malfatti retrocedeu “à ordem” depois da crítica do autor de Reinações de Narizinho – e há quem diga que Lobato tenha escrito sobre a exposição sem nem mesmo visitá-la. E há, por fim, quem aponte uma razão diferente para o recuo de Anita: a artista estaria mais uma vez seguindo a Europa. Em guerra, o velho continente retornara a padrões mais contidos de produção artística.

Não deixa de ser curioso também o fato de os próprios modernistas, principalmente Menotti del Picchia e Mário de Andrade, os mesmos que utilizavam a imprensa para acirrar os ânimos entre “passadistas” e “futuristas”, serem ambíguos ao situar suas obras. Mário de Andrade, ao ler na imprensa um texto elogioso de Oswald de Andrade chamando-o de futurista, respondeu com um artigo em que dizia não se enquadrar na “estrebaria mal-cheirosa de qualquer escola” e reafirmava seu catolicismo, tentando diminuir a repercussão negativa que o termo lhe rendera. Menotti, por sua vez, discursou na Semana de 1922 negando que o grupo fosse futurista, mas não deixando de elogiar o italiano Filippo Tommaso Marinetti, que havia cunhado a expressão uma década antes. “Numa estratégia ‘morde e assopra’, o conferencista parecia ter um olho no gato e outro na frigideira”, diz Gonçalves. Ou seja, eles queriam chocar a sociedade paulistana, mas nem tanto assim. Coisas de um movimento contraditório.

Quem é o pai? – Não há uma conclusão a respeito de quem idealizou a Semana, mas Marcos Augusto Gonçalves afirma que as evidências apontam para o pintor carioca Di Cavalcanti, que vivia em São Paulo desde 1917. No que, aliás, reverbera o modernista Raul Bopp em Movimentos Modernistas no Brasil – 1922 a 1928, livro que estava fora de catálogo havia quarenta anos e volta ao mercado agora, pela José Olympio. Segundo Bopp, Di Cavalcanti já planejava para aquele período um evento de artes visuais e conferências, que acabou ampliado e transferido para o palco do Municipal.

Mas o diplomata e escritor maranhense Graça Aranha, que chegara do exterior com desejo de engendrar novidades, se sentia pai do evento. Vaidoso que era, ele rompeu com o grupo modernista por ter sido, conforme julgou, deixado em segundo plano, tanto por não ter sua influência reconhecida quanto por não ter um artigo seu publicado na primeira página da revista modernista Estética. Quanto a Graça Aranha, uma coisa é certa: foi ele o responsável por sugerir a inclusão de artistas do Rio de Janeiro – o compositor carioca Heitor Villa-Lobos acabou sendo o maior destaque da Semana – e de fazer a ponte entre o grupo de artistas e Paulo Prado, empresário, escritor e mecenas que articulou com a elite paulista para viabilizar a Semana no Municipal.

A disputa pela paternidade é narrada, por Gonçalves, com o uso de teses discordantes sobre a Semana de 1922. A tática permeia, aliás, todo o livro. Para escrevê-lo, o autor, que não nega o valor do evento, se valeu de relatos e de pesquisas muitas vezes divergentes, buscando assentar melhor sua contribuição para a história da arte brasileira. “Se, em algumas versões, tenta-se negar reconhecimento e importância às apresentações de 1922, em outras tem-se a impressão de que teria ocorrido no Municipal uma espécie de insurreição bolchevique contra o status quo cultural”, anota o autor, que também dá a sua própria perspectiva sobre o tema. “Se havia negação na atitude polêmica e agressiva do grupo, a estética prendia-se ainda ao passado. E o evento, programado para gerar repercussão, parecia combinar muito bem com os interesses da elite paulista de autovalorização histórica e hegemonia intelectual.”

O livro – Apesar das questões deixadas em aberto e das contradições, ou justamente por causa delas, o livro pode ser uma leitura agradável tanto para leigos que apreciam arte e história quanto para acadêmicos. Gonçalves fez uma pesquisa de fôlego e conseguiu reunir diversas fontes. Ele cita trechos de estudiosos do assunto, inúmeras datas e até desvia um pouco da efervescente rota paulistana do começo do século XX para situar o leitor num contexto mais amplo, que é o modernismo europeu – por exemplo, quando aborda as escolas de arte em Berlim ou a chegada de Picasso a Paris –, sem tornar o texto pedante ou maçante.

O autor levantou e organizou pesquisas para construir uma narrativa que permite ao leitor conhecer não só as origens artísticas, mas também familiares e sociais, dos principais envolvidos no festival de arte de 1922. O enredo tem como ponto de partida a pintora Anita Malfatti. É ela quem aparece no livro como a pioneira no que se convencionou chamar moderno ou “futurista” – o vocabulário das vanguardas ainda era pouco conhecido no país. Segundo o autor, Anita “não apenas se influenciara pelas correntes europeias: ela fazia questão de explicitar a adesão”. Foi o que fez no título da individual que Monteiro Lobato atacaria com virulência: a Exposição de Pintura Moderna Anita Malfatti, de 1917, ao que se sabe, a primeira no país a se declarar de ‘arte moderna’, termo que só cinco anos mais tarde seria usado na Semana.

Foi na mostra de 1917 que o escritor Mário de Andrade conheceu Anita, a quem atribuiria, anos mais tarde, a responsabilidade por despertar nele a consciência modernista. Ainda um poeta parnasiano, Mário deixou a mostra tocado pelos quadros e rumos que Anita sugeria e iria, também ele, trilhar os campos alternativos à academia. É seguindo Anita, ao menos nas cem primeiras páginas do livro, que o leitor vai acompanhando a formação do grupo que daria corpo à Semana de 1922. Os laços entre a turma, que incluía além de Mário e Anita, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral (que não participou da Semana) e outros nomes importantes do modernismo brasileiro, foram sendo construídos desde bem antes da Semana e se estenderam para além dela. Aqueles primeiros anos e a própria Semana foram só ensaios. O melhor ainda estava por vir. Sensação que não deixa de ser boa ao final de um livro.

Não há, porém, nada de exatamente novo no livro, que também carece de reproduções das obras mais importantes citadas no livro. Pontos negativos que, no entanto, não devem impedir que 1922 – A Semana que Não Terminou se torne uma obra de referência sobre o modernismo.

Simone Costa

10/02/2012

às 22:02 \ Entrevista, Livros da Semana

‘Semana de 22, o mito fundador da cultura moderna nacional’

Foto de Renato Parada

 

No próximo dia 13, se completam 90 anos da Semana de Arte Moderna que sacudiu o cenário cultural paulista e, em ondas concêntricas, deu uma boa mexida em toda a cultura nacional. Para lembrar o evento e pontuar com exatidão que fatores permitiram a sua eclosão, bem como os efeitos que ele teve sobre o restante do país, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves levou três anos pesquisando e escrevendo 1922 – A Semana que Não Terminou, cujo título faz referência a 1968 – O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura. Mas uma referência brincalhona, aliás bem ao gosto de Oswald Andrade, que se valia das blagues para desconstruir os academicismos que ainda dominavam os meios culturais no começo do século XX. Embora, como mostra Gonçalves neste livro, já houvesse outros intelectuais antes da Semana de 1922 interessados em buscar caminhos alternativos aos rígidos rumos apontados pela academia. A Semana de 1922 não foi totalmente original em suas propostas, mas sem dúvida deixou uma forte contribuição para o país. A do mito de fundação capaz de insuflar e produzir a história. Confira abaixo a entrevista do autor a VEJA Meus Livros.

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O título 1922 – A Semana que Não Terminou é similar ao do livro 1968 – O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura. É de propósito? Sim, foi de propósito. O título veio à minha cabeça como um chiste. Comentei com o pessoal da editora e ele ficou como uma brincadeira, um título provisório que depois seria substituído. No final, acabou ficando. Ele também ecoa o 1822, do Laurentino Gomes… Zuenir foi meu mestre e primeiro chefe numa redação. A Semana, um pouco como os acontecimentos de 1968, manteve-se viva como mito e como influência real sobre a cultura brasileira ao longo desse tempo.

Pensando na Semana de 1922 como um mito, ela pode ser considerado o mito de fundação da cultura nacional como se configurou a partir da década de 1920? Sim, o mito da criação da cultura moderna brasileira.

De que maneira a Semana de 1922 mudou a cultura nacional? Eu não diria que a Semana mudou a cultura nacional. Acho que aquelas noites que aconteceram no Teatro Municipal de São Paulo na realidade refletiam um processo de mudança que vinha já de alguns anos antes, tanto na São Paulo de Anita Malfatti e Mário de Andrade como no Rio de Villa-Lobos ou no Recife de onde nos veio Manuel Bandeira. Mas não há dúvida de que o modernismo deixou um legado importante. Tanto de liberdade de pesquisa e ampliação dos horizontes da arte quanto na concepção antopófaga de uma cultura que é ao mesmo tempo brasileira e internacional.

Chama a atenção, na leitura do livro, as contradições da Semana de 1922, como o desejo de investir em algo brasileiro versus a importação das novidades europeias, o desejo de romper com o passado versus o patrocínio dos barões do café, e mesmo o retorno de Anita Malfatti às formas clássicas, logo após a Semana. As contradições são a grande característica do evento? Sim, há muitas contradições na Semana, que não foi tão moderna assim, e na formação de nosso modernismo. No livro, usei a expressão “modernismo de compromisso”, ao falar da Semana, justamente para ressaltar essa característica tão brasileira que estava presente no evento, que é romper sem romper e buscar conciliar extremos nem sempre conciliáveis. E eram muitos os compromissos – ou as contradições. O novo convivendo com o velho, o elemento transformador com o conservador, o futuro com a tradição.

A que podemos atribuir o patrocínio dos barões do café à Semana de 1922, ao descompasso entre o crescimento econômico e a ainda pouca ilustração de São Paulo? Havia um desejo de dar verniz cultural ao estado? São Paulo já detinha considerável parcela do poder econômico e político no Brasil. Era o estado mais próspero e sua elite também tinha ambições de liderança intelectual. A chamada metrópole do café era a cidade emergente do país. Tinha, em 1922, 600.000 habitantes, metade da população do Rio, que era o grande centro. A nova geração, em sintonia com setores da elite cafeeira, queria afirmar a importância histórica e cultural da Pauliceia, relativizar o poder da Corte (como Mário de Andrade se referia ao Rio), tomar a frente no debate. Esse projeto paulista acabou quebrando em 1930.

No livro, o senhor lembra que pouco se conhecia, no Brasil, dos novos ismos europeus. O sucesso da Semana de 1922 se deve mais às ações promocionais de seus integrantes que a seu conteúdo? Não há dúvida que os modernistas se encarregaram de propagandear a Semana e mantê-la viva no imaginário nacional. Mas isso não quer dizer que o evento tenha sido pouco importante, como sugerem alguns, muitas vezes contaminados pelo bairrismo e pelo rancor. A Semana não é uma fraude da intelectualidade paulista. É um marco histórico — e foi concebida para isso.

Quanto tempo levou a pesquisa para o livro e qual o senhor considera a principal descoberta de seu levantamento? Entre leitruras, entrevistas, pesquisas em arquivos e redação foram cerca de três anos. A principal descoberta foi perceber que aquela história já hiper pesquisada poderia ser contada de maneira diferente. Procurei “descascar” o mito, contextualizar o evento e dar vida aos personagens em linguagem jornalística, sem hermetismos acadêmicos.

Maria Carolina Maia

08/02/2012

às 19:08 \ Eventos

Jennifer Egan, de ‘A Visita Cruel do Tempo’, vem para a Flip

A autora americana Jennifer Egan confirmou participação na 10ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 4 e 8 de julho. A escritora, que vem pela primeira vez ao evento, é vencedora do prêmio Pulitzer de 2011, na categoria de ficção pelo livro A Visita Cruel do Tempo. Publicada em janeiro no Brasil pela Intrínseca, a obra conta a história de personagens em diferentes alturas de vida. O livro será adaptado para a televisão pela HBO.

Jennifer também é autora de The Invisible Circus (1999), adaptado para o cinema e protagonizado pela atriz Cameron Diaz, em 2001. Além de escritora reconhecida, a americana é premiada pelo seu trabalho como jornalista, com trabalhos nas revistas The New Yorker Harper’s Magazine e no jornal The New York Times.

Para a edição deste ano da Flip, com curadoria do jornalista Miguel Conde, já estão confirmados o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, o britânico Ian McEwan e o americano Jonathan Franzen, o espanhol Javier Cercas e a cubana Zoé Valdés.

04/02/2012

às 8:57 \ Livros da Semana

Animais estranhos

O que significa, hoje em dia, “literatura experimental”? Depois das vanguardas e dos experimentos radicais do modernismo, como Finnegan’s Wake, de James Joyce, e das principais obras pós-modernistas, como O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, sobrou algo para se inventar? Se, por um lado, os conceitos de inovação e originalidade parecem palavras antiquadas, por outro, ainda precisamos de algum termo como “experimental” para definir a estranha ficção praticada pelo prolífico mexicano Mario Bellatin.

Autor de mais de vinte livros (a maioria publicada em um espaço de menos de duas décadas), Bellatin se tornou conhecido do público brasileiro desde sua aparição irreverente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2009. A Cosac Naify lança agora Cães Heróis (128 páginas, 37 reais), mais uma peça esquisita na bibliografia do mexicano. O livro já chama a atenção pela aparência: trata-se de uma obra sem capa, com os cadernos costurados – um livro mutilado.

Nesta novela – embora até o termo novela pareça excessivo para um texto tão breve, que, se estivesse em uma antologia, poderia muito bem ser considerado um conto longo – Bellatin narra o cotidiano de um homem imóvel e recluso que treina (e comanda) trinta cachorros da raça pastor belga malinois. O inválido mora em uma casa junto com a mãe, a irmã e uma pessoa que atua tanto como enfermeiro do homem imóvel quanto como treinador dos cachorros. Nenhum dos personagens tem nome, e são definidos conforme sua relação com o homem paralisado.

A principal chave de leitura de Cães Heróis está no subtítulo do livro: “Tratado sobre o futuro da América Latina visto através de um homem imóvel e seus trinta pastores belgas malinois”. O homem imóvel possui um mapa do continente latino-americano onde está marcado, em vermelho, os lugares em que a criação de cachorros daquela raça são mais avançados. A partir desse dado, a novela pode ser lida como uma curiosa metáfora para os regimes totalitários. Apesar de sua fraqueza corporal, que se estende até a voz, frágil e quase incompreensível, o homem imóvel tem completo controle sobre os animais. A soberania silenciosa do inválido também é exercida em relação ao resto da família, pois a mãe e a irmã estão presas a um trabalho kafkiano de separação de sacolas plásticas, um afazer que realizam sem sequer saber o propósito de sua ocupação.

A prosa de Bellatin tem uma secura única que se tornou sua marca registrada. Desprovida de qualquer emoção, o autor mexicano narra e descreve cenas como uma câmera estática. O livro, por sua vez, é um compilado de pequenos eventos e descrições. A novela é como uma granada que explodiu em centenas de pedaços, e o leitor necessita juntar os cacos em uma tentativa de reconstrução que está fadada ao fracasso. Este recurso, todavia, foi melhor utilizado em Flores, de 2009, uma obra que parece menos fechada em si mesma. Cães Heróis, por outro lado, é uma novela críptica e hermética. Sua trama pode ser reduzida a uma simples, porém esquisita, metáfora sobre a ditadura. Entretanto, tal reducionismo não dá conta dos mecanismos narrativos que se agitam no texto. Bellatin, como demonstrou no inédito Lecciones a una liebre muerta, é uma máquina de engenhar histórias. Suas tramas se espalham no espaço, abrindo-se para muitas interpretações, implorando para serem descobertas por um leitor com coragem de decifrá-las.

Antônio Xerxenesky


 

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