23/06/2012
às 23:40 \ Livros da SemanaMóveis pesados
Objetos que funcionam como espécie de talismãs para escritores. O tema não é novo – nem na ficção, nem na vida real. O sucesso de venda das cadernetas Moleskines funciona muito por causa dessa aura mística construída em torno delas. Ernest Hemingway, André Breton e Louis-Ferdinand de Céline escreviam em Moleskines, e, ao comprar uma das elegantes encadernações da marca, o escritor anônimo, ainda que em nível inconsciente, acredita estar dando continuidade a uma tradição literária. A pesada e irregular escrivaninha que é a peça central de A Memória de Nossas Memórias (tradução de José Rubens Siqueira, Companhia das Letras, 344 páginas, 49,50 reais), novo romance de Nicole Krauss, funciona, também como uma espécie de objeto com poderes ocultos para escritores.
A ideia de montar uma narrativa ao redor de um objeto não é novidade para a romancista americana. O livro anterior de Nicole Krauss, A História do Amor, trazia uma trama fragmentada em torno de um livro perdido. Em A História do Amor, assim como em A Memória de Nossas Memórias, Krauss alterna constantemente o narrador. Em ambos os romances, uma voz complementa a outra, construindo a trama através de vários pontos de vista, sem nunca montar um quebra-cabeça completo, já que diversas perguntas ficam sem respostas.
A Memória de Nossas Memórias começa nas palavras de uma escritora divorciada que recebeu uma escrivaninha de um instigante poeta chileno chamado Daniel Varsky. Ela relata a um “Meretíssimo” sobre como veio a possuir a escrivaninha e depois a perdê-la. A narradora parece encantada com o móvel e o relaciona à sua produção ficcional – é sentada na escrivaninha que escreve os seus melhores romances. Todavia, se mostra igualmente cética a respeito do valor do objeto: “Nunca aceitei a ideia de que um escritor precise de qualquer ritual especial para escrever. Se for preciso, posso escrever em quase qualquer lugar (…) O que me incomodava perder eram as condições familiares ao meu trabalho; era sentimentalismo e nada mais”.
Nicole Krauss, ou melhor, a voz unificadora que amarra todos esses narradores, parece se alinhar a essa ambivalência. De um lado, todas as aparições da tal escrivaninha — que percorre o mundo e muda de dono várias vezes — são carregadas de uma mística exagerada. Ao mesmo tempo, há esse discurso desconfiado sobre o poder de talismã dos objetos. Essa alternância de pensamento perdura em todos os capítulos — revelar o número de narradores é, de certa forma, revelar a reviravolta que ocorre ao final da trama – em que aparece o móvel.
Os únicos capítulos em que a escrivaninha não está presente são os narrados por um idoso em Israel – e, até mesmo nesses, a figura do escritor e a função da literatura estão em discussão. Pois, afinal de contas, a escrivaninha, ignorando qualquer mística, ocupa no romance um espaço metafórico. Estranha, com umas gavetas maiores que as outras, pesada, antiga, o móvel representa, em parte, o passado — quase todos os personagens sofrem com os seus dramas e não conseguem viver bem no presente, atormentados pelas lembranças. E, em parte, a árdua tarefa do escritor de lidar com as memórias.
No universo de Nicole Krauss, a literatura parece ser um dos únicos meios de aplacar a dor das perdas pessoais. Lotte Berg, que aparece no terceiro capítulo, é uma mulher que se refugia no trabalho de escrita para escapar à discussão de problemas pessoais. Nem por isso a literatura é uma saída: as personagens de Krauss muitas vezes se encontram perdidas na divisão que é criada entre “mundo” e “livros”. A escrivaninha se revela um fardo: o marido de Lotte Berg sente ciúmes daquele móvel, pois a mulher parece passar mais tempo ali, escrevendo, do que em sua companhia. Já Nadia, a primeira narradora, liga a escrivaninha a certa “vocação” de ser ficcionista. Tal vocação, porém, não traz felicidade. A escrita é vista como uma missão, uma tarefa. Uma maneira de manter vivas as memórias, de perpetuar o passado. E não há passado que não seja doloroso.
Antônio Xerxenesky
Tags: Antônio Xerxenesky, Companhia das Letras, Nicole Krauss




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