Zoé Valdés: ‘Não há nada bom na Cuba de Fidel’
Nascida em 1959, ano em que Fidel Castro tomou o poder, a escritora cubana Zoé Valdés se tornou uma das principais vozes de oposição ao regime comunista da ilha. Depois de publicar o livro O Nada Cotidiano, cuja personagem principal procura na escrita a saída para a repressão imposta por Castro, em Paris, em 1995, recebeu do governo cubano um comunicado que lhe dizia para não voltar. Radicada na capital francesa a partir de então, a escritora acompanha o que acontece em Cuba, mas diz que só retornará à ilha quando mudar o regime político. “Eu voltarei quando houver liberdade e democracia, quando as pessoas puderem viver bem.”
Para Zoé, não há nada de positivo em Cuba hoje, e quem protesta contra algo é reprimido com violência. “As pessoas deveriam ter todo o direito de se opor ao regime, depois de 53 anos de ditadura, mas quem se queixa paga um preço.” Não que a repressão seja nítida para todos – o governo cubano faz o que pode para mascará-la. A própria Zoé, ela conta, só se deu conta de que deveria tomar cuidado com as garras do castrismo quando trabalhou na Unesco, na década de 1980, e entendeu como se manejava o poder nas altas esferas cubanas.
É essa consciência que Zoé empresta a seus livros, em que dá cutucadas no regime. “Acredito que, como escritora, tenho o dever não só de contar o que se passa, mas também de denunciar”, diz. No Brasil, o livro que a levou ao exílio foi publicado no ano passado com o nome O Todo Cotidiano (tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, Benvirá, 318 páginas, 34,90 reais). A escritora também é conhecida pela romance A Eternidade de um Instante (tradução de Marcelo Barbão, Benvirá, 252 páginas, 32,90 reais).
Agora, Zoé prepara um livro sobre Fulgencio Batista, presidente de Cuba que foi derrubado por Fidel Castro e que, para ela, é injustiçado pela história. “Ele não foi um monstro. Eu apresentarei o verdadeiro personagem”, diz.
Na Flip, a cubana participa da mesa O Avesso da Pátria, ao lado do haitiano Dany Laferrière, no sábado, às 17h15. O tema da discussão será o papel da literatura na constituição cultural dos países latino-americanos.
.
.
Os seus livros são bastante críticos do regime político cubano. A senhora define sua obra como política? Sim. Meus livros são políticos porque falam de um lugar que vive uma situação política particular há 53 anos. E sou crítica porque essa é uma realidade muito terrível para os meus personagens — para os cubanos, sobretudo. Acredito que, como escritora, tenho o dever de denunciar o que se passa.
Um dos autores da Flip deste ano, o poeta sírio Adonis acredita que a literatura deve se desligar das questões políticas e religiosas, apesar de ele mesmo ter sempre, como pessoa, uma posição a respeito desses assuntos. Na sua opinião, a literatura deve ser engajada? Adonis é um excelente poeta e uma pessoa que admiro muito. Mas cada um deve fazer o que achar melhor e o que acreditar poder obter da literatura. Esse é o verdadeiro valor da democracia, da liberdade.
Seus livros têm muitos elementos autobiográficos. A senhora já pensou em publicar um diário em vez de um romance? Eu tenho um diário há quase onze anos e sigo escrevendo. Mas romances são romances e eles têm muito do escritor mesmo que o escritor não queira aceitar isso. O que se acontece é que o romancista começa a escrever e não se dá conta de que seus personagens têm muito ou pouco a ver com a sua biografia. Eu quero que alguns dos meus personagens tenham bastante do que eu vivi. Todos os personagens, incluindo os masculinos, têm muito de mim.
Quais são as suas principais queixas do regime cubano? A falta de liberdade e a repressão, sobretudo contra o povo e contra os negros. As pessoas deveriam ter todo o direito de se opor ao regime, depois de 53 anos de ditadura. Mas quem se opõe paga um preço alto. Em todos os países da América Latina, existem eleições verdadeiras e, lá, o presidente não muda nunca. Deveria ser um direito do cubano viver a democracia, viver de maneira normal.
A senhora vê algum ponto positivo no regime cubano? Não. Uma ditadura de 53 anos, que assassinou, que fez pessoas desaparecerem, não tem pontos positivos. Eu não vejo nada bom no jeito de Fidel Castro governar: exercendo um poder repressor e abusivo e vendendo aos estrangeiros que aquele é o melhor país do mundo, com uma saúde e uma educação magníficas. A educação é um treinamento. Os professores têm quase a mesma idade que os alunos e dão aulas de política. E, se você for a um hospital lá, verá o que é um verdadeiro hospital utilizado pelo povo de Cuba.
Como define a sua posição política? Sou uma reacionária de esquerda. Sempre me considerei de esquerda e sempre fui solidária com causas como a do Haiti e a das mulheres. Não faço isso a troco de nada, peço ajuda e apoio para Cuba, mas ainda não os recebi da maneira que esperava. Tenho uma tristeza e uma raiva muito grande, porque não é justo que se condene Cuba e os cubanos a viver como vivem.
A senhora está exilada na França desde 1995. Pensa em voltar para Cuba? Eu voltarei quando houver liberdade e democracia, quando as pessoas puderem viver bem.
Outros autores latino-americanos, como Gabriel García Marquez, apoiam o regime político cubano. A senhora já chegou a encontrá-los? Gabriel García Marques defende os ditadores. É uma pena, porque ele é um grande escritor. Para ele, o mais importante é a amizade com Fidel Castro.
No começo do ano, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, foi a Cuba, mas evitou falar de temas como a oposição ao regime de Fidel Castro. Qual sua opinião sobre isso, dado que ela também se opôs a um regime ditatorial aqui no Brasil? Ela tem um passado de guerrilheira. Na época em que atuou, chamava-se de guerrilheiro, e hoje se chama de terrorista. Acredito que Dilma Rousseff tenha sido eleita em eleições democráticas e mereça todo o respeito e consideração. Ela tem um passado de lutadora, mas de uma luta violenta. Hoje, para os cubanos, a única coisa que se admite é o pacifismo. Não se admite a nenhum cubano que seja violento contra uma ditadura que há 53 anos usa de uma violência espantosa. Foi uma pena Dilma ter ido a Cuba como presidente eleita democraticamente e não ter tomado partido pela oposição. Mas ela também tem todo o direito de não o fazer. Dilma não vai libertar Cuba, quem fará isso são os cubanos ou os Castro. Em relação ao Irã, ela teve uma posição muito firme e eu aplaudo.
Raissa Pascoal
Tags: Flip, Flip 2012, Saraiva, Zoé Valdés




Em meio aos caos, Blatter já faz as malas para ir embora
'Amor à Vida': Félix admite que deixou 'ratinha' na caçamba
Os caminhos da adoção
Obama: reformas não devem perder de vista meta de melhorar vidas
Bolsa abre em alta, mas opera volátil





Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
7 Comentários
Claudia Perez
-14/08/2012 às 16:41
Me parece que con ese enunciado se esta criticando a un pueblo y no a un sistema politico…Si quieres criticar eres libre de ejercer ese derecho ahora como sugerencia quedaria mucho mejor …En la politica de Fidel no hay nada bueno…porque Cuba es una nacion, donde viven personas de bien, trabajadoras, honestas,solidarias, es el pais donde naciste para que no se olvide…El sistema tiene muchas cosas erradas y la primera es considerarse un pais socialista cuando todavia esta en un proceso de transicion,como lo es la Carta Blanca y como es que los hijos de los negociantes,de los que no hacen ningun aporte a la sociedad tengan los mismos derechos de los hijos de los trabajadores una salud gratis, a una educacion gratis hasta todos los niveles academicos, como es el problema de la Internet y ese aislamiento internacional.Yo soy cubana pero no estoy de espalda a los problemas que tiene mi pais, pero permitir que critiquen a mi pueblo no..todavia no soy lo suficientemente cobarde para eso, menos ciudadanos brasileños que viven en pais que todavia no se ha librado del analfabetismo, que tiene niños en las calles llenos de drogas, que el indice de violencia es altisimo, que el sistema de salud y de educacion es precario a no ser claro es el sector privado pero no todos llegamos a disfrutar de esos servicios…no es asi?
roberto
-06/07/2012 às 16:47
Essa entrevista deveria ser matéria obrigatória nas Universidades Brasileiras. Principalmente as públicas que estão recheadas de idéias cubanas ! Deus me livre e guarde !
Leonardo
-06/07/2012 às 15:43
Ótimo o depoimento da Zoé. Jogou luz sobre a truculência e a ineficiência do regime cubano.
G. Carvalho
-06/07/2012 às 13:47
Nenhuma família latinoamericana, como a Castro, durou tanto no poder. Mais duradoura que o Café Capital, que foi, aparentemente, famoso por apenas meio século. Como se aguentam os tiranos no topo do poleiro? Primeiro, recompensando os amigos do peito, a Nomenklatura. Segundo, controlando as forças armadas, cujos integrantes não vão ao banheiro sem licença expressa do tirano. Terceiro, financiando a polícia secreta, que intimida os descontentes dentro e fora do país tiranizado. Quarto, recorrendo a uma propaganda incessante, logorreica e desenxabida. Uma curiosidade sobre países como Cuba e Coreia do Norte: Não há coiotes tentando infiltrar migrantes desesperados em seus territórios. Inexiste demanda.
j.vicente
-06/07/2012 às 13:19
A Dilma representa essa mesma esquerda que vem oprimindo Cuba há anos, só que aqui, eles, por enquanto, não conseguiram ainda o seu objetivo maior: impor o seu projeto de poder por anos a fio e não vão conseguir. Pouco a pouco e silenciosamente os brasileiros estão se dando conta do autoritarismo atávico dessa gente e vão dar a resposta nas urnas. Chega de PT! O México e o Paraguai são os primeiros sinais da mudança na América Latina. É esperar pra ver.
Valdemir Alencar Feitoza
-06/07/2012 às 11:12
A Dilma não fez nada para ajudar os cubanos simplesmente porque não podia ir,contra o desejo do pt de também querer se perpetuar no poder.Felizmente nós brasileiros percebemos e vamos dar um jeito nisso já na próxima eleição.Precisamos melhorar na educação de base,saúde,estradas,aeroportos,infra-estrutura,exemplo.Canal do são FCO/trasnordestina e outras obras que gerem desenvolvimento para o país.gerar emprego sim dar esmola não!chega de bravata.
JOSE Olimpio Castro
-06/07/2012 às 10:37
O COMUNISMO É O CANCER DA HUMANIDADE. JA MATOU MUITA GENTE. ABAIXO OS COMNUNISTAS. PAÍS DESENVOLVIDO É PAÍS INDUSTRIUALIZADO GERANDO EMPREGO E DISTRIBUINDO RENDA. COMUNISMO É ATRASO DE VIDA PARA O POVO QUE É SUBMETIDO A ESSE REGIME.