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04/09/2010

às 9:13 \ best-seller, Entrevista

Eduardo Bueno: como a história se repete no Brasil

O jornalista Eduardo Bueno (Divulgação)

Um povo que não conhece a própria história está fadado a repeti-la. E, é o que se diz, o brasileiro não tem memória. Embora chavões, essas sentenças são, para o jornalista Eduardo Bueno, verdades que se cruzam de modo comprometedor para o Brasil. “Lula se anunciando como pai do povo no horário eleitoral é uma repetição de Getúlio Vargas”, diz. “O que revela que o Brasil ainda é um país com viés paternalista, onde as pessoas acham que a solução tem de vir dos outros, que a sua responsabilidade é quase nenhuma.” Autor de numerosos e bem vendidos livros de história, Bueno está sempre de olho no país. Um olhar que, para alguns especialistas, carece de formação acadêmica.

Ainda que não seja unanimidade entre historiadores, com cerca de 600.000 exemplares comercializados, Bueno é um fenômeno editorial. O primeiro do hoje avolumado nicho de livros de história, que inclui nomes como Laurentino Gomes, autor de 1808 e 1822, livro a caminho do mercado, Mary Del Priore, autora de Uma Breve História do Brasil e o também jornalista Leandro Narloch, autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil – os dois úlrimos estão na lista de livros mais vendidos de VEJA, para onde Laurentino deve rumar. “Eu inventei esse mercado”, diz Bueno, sem falsa modéstia. E sem mentir. Foi a partir do estouro de Brasil: uma História – Cinco Séculos de um País em Construção, lançado em 2000 e relançado agora pela Leya, nova editora do gaúcho, que surgiram forças como a de Laurentino. Comenta-se, no mercado, que o autor de 1808 recebeu um adiantamento de cerca de 1 milhão de reais para publicar 1822 pela Ediouro (controladora da Nova Fronteira desde 2006) – cerca de 500.000 reais pelo livro e a mesma quantia por outros produtos.

Em entrevista a VEJA Meus Livros, Eduardo Bueno fala do surgimento e do crescimento do mercado de livros de história, da polêmica com acadêmicos e, é claro, de Brasil. Trecho de ‘O Brasil de Lula e do PT’, de ‘Brasil: uma História’.

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Por que livro de história vende tanto no Brasil: é carência de intelecto ou de identidade?
O Brasil é um país espantoso, que deixa a gente inseguro quanto ao futuro. Agora, um pouco menos, por causa da aparente estabilidade da era Lula, que não se revelou o comedor de criancinhas que todos temiam. Mas acho que existe de fato uma curiosidade sobre o futuro do Brasil e isso desperta também interesse pelo seu passado. É aquela coisa de “Quem somos, de onde viemos, para onde vamos”. E tem também uma questão de identidade. As pessoas me perguntam muito, nas palestras que eu dou, se determinados hábitos que temos são mesmo legado português. É uma crise de identidade, e a introjeção de uma mentalidade colonizada. Mas, olha, cara, não se vendia assim antes de mim. Falo isso independentemente de ego.

Se esse terreno ainda era incerto quando você começou, por que decidiu se arriscar nele?
Primeiro, porque história era um assunto de que eu gostava. Segundo, porque, pela minha experiência no mercado editorial, sentia que havia uma demanda reprimida por livros de história no país. Eu percebia essa demanda desde os anos 1980, quando fiz uma coleção na editora LP&M sobre os grandes viajantes do período colonial – o Américo Vespúcio, o Cristóvão Colombo e o Pero Vaz de Caminha – e aquilo explodiu, vendeu muito. Então, eu ampliei a coleção e incluí Marco Pólo, que entrou para a lista de mais vendidos de VEJA, cara.

Foi aí que você resolveu escrever os próprios livros de história?
Teve mais uma coisa que contribuiu para a minha decisão. Três que caras confirmaram o que eu pensava: o Fernando Moraes, com o best-seller Olga, meu amigo Jorge Caldeira, o Cafu, que vendeu 180.000 exemplares de Mauá, e o Ruy Castro, que não faz exatamente história, mas livros com substrato ligado à área, como biografias de grandes brasileiros. Eu olhava tudo isso e me dizia, “É óbvio que as pessoas querem uma história do Brasil com mais sangue, com mais vida, com personagem de carne e osso, com mais ação e aventura, e com um texto jornalístico, não acadêmico”. E vi que havia um longo período do Brasil a ser explorado: o colonial. Porque esses três caras que eu citei trabalhavam com o passado recente, com o século XX – mesmo o do Barão de Mauá, porque ele, ao defender a industrialização do Brasil no século XIX, foi uma espécie de arauto do que viria. Resolvi ir fundo e pegar aquilo que estava aprisionado na sala de aula. Percebi que um livro com viés jornalístico iria atingir um público que estava querendo isso. Além do mais, estava se aproximando a comemoração dos 500 anos do Brasil, era um ótimo gancho para Brasil: uma História.

O que você costuma dizer aos que o criticam por não ter formação como historiador?
Pois é, até se criou uma falsa polêmica aí com alguns historiadores. Olha, preciso dizer que todos os historiadores que eu gosto e admiro são a favor do meu trabalho: o Nicolau Sevcenko, a Lilia Swcharcz, o José Murilo de Carvalho. Eles reconhecem que os meus livros despertaram um interesse sem precedentes por história colonial do Brasil. Mas dentro de certos círculos da academia houve, sim, revolta, indignação e o “feio sentimento da inveja”, como diz o meu amigo Augusto Nunes. Medíocres se manifestaram, dizendo que eu não estava preparado para fazer análises interpretativas, do que eu discordo.

Mas também acusaram você de cometer erros factuais. Isso procede?
Olha, cara, deve ter havido algum deslize típico de jornalista – com coisas menores. A edição original de A Viagem do Descobrimento teve 23 erros, depois corrigidos, e 21 deles eram de conversão de pesos e medidas – de léguas para quilômetros, por exemplo. Eu fiz os cálculos de cabeça e errei todos.

É verdade que você vai ficar milionário na Leya (risos)?
Eu ainda estou negociando valores com o Pascoal Soto (editor da Leya), mas não faço livro por menos de 120.000 reais, pagos como adiantamento – mais a porcentagem das vendas feitas a partir da reposição desse valor adiantado. E vai vir bastante coisa por aí. Eu escrevi 18 livros institucionais, obras feitas sob encomenda para empresas, por meio de contratos que me garantem a posse da obra após dois ou três anos. Três deles já retornaram para mim e o Pascoal quer lançar. Um, Avenida Rio Branco, é sobre a antiga avenida Central do Rio e foi escrito em comemoração dos cem anos da Caixa Econômica Federal, criada nessa via. Outro, o Passado a Limpo, que a princípio não deveria ir para o mercado, mas acabou indo, é sobre a história da higiene no Brasil e foi feito para a Kimberly & Clark. O terceiro se chama Produto Nacional e fala da história da industrialização no Brasil, a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Ao revisar Brasil: uma História, você fez mudanças apenas factuais ou também conceituais?
Sim. A maior parte das mudanças foi cosmética, mas fiz três alterações no conteúdo, duas porque a minha interpretação sobre os fatos mudou e outra porque surgiram novas evidências históricas – afinal de contas, e essa é uma coisa maravilhosa, o passado está sempre mudando, a história está sempre em construção. Tive de mudar a parte da pré-história devido aos novos descobrimentos arqueológicos no Brasil. E a parte dos jesuítas eu modifiquei porque, ao escrever o livro A Coroa, a Cruz e a Espada, para a coleção Terra Brasilis, eu estudei bastante a contra-reforma e concluí que a influência dos jesuítas havia sido mais nociva do que eu imaginava, por conta da supressão do hábito deleitura e do conhecimento. A reforma luterana estava toda ligada à leitura – da Bíblia e dos panfletos de Lutero. E na contra-reforma, articulada no Vaticano, mas posta em prática em Portugal e na Espanha, a leitura era tida como algo prejudicial. Outra alteração conceitual veio da minha pesquisa para Produto Nacional, quando eu concluí que D. Pedro II havia sido uma força reacionária com relação à indústria e à modernização. Ele tem um lado de que eu sempre gostei, o do interesse intelectual, que o levou a criar o Instituto Histórico e Geográfico, e o de conduzir sem estresse

suas relações com o Parlamento. Mas ele apostou no binômio escravidão-cafeicultura e obstaculizou o Mauá.

Pensando nessa reconstrução constante, você continua a ver o Brasil como a pátria do jeitinho, do corporativismo e da cordialidade?
Cada vez mais e no pior sentido. Somos a pátria do compadrio, do coronelismo, do nepotismo, da burocracia gigantesca e ineficiente, da falta de cidadania, de uma política tradicional podre, do jeitinho mais rasteiro. Piorou, pô. Claro que existe um outro lado, telúrico, da terra, do corpo do Brasil, que eu amo, a energia geológica e geográfica. E também certos aspectos do povo brasileiro, suas cores e sons, o lance do futebol. Mas o Brasil institucional é brabo.

Você é fã de On The Road, de Jack Kerouac. Não houve convite para colaborar com o filme do Walter Salles?
Não, e a minha cara de pau tem limite. Eu não consegui me oferecer. Mas o Walter Salles me mandou um e-mail, dizendo que quer fazer algo baseado em A Coroa, a Cruz e a Espada. É esperar para ver.

Maria Carolina Maia

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18 Comentários

  1. maurilio montanha

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    16/03/2012 às 20:34

    Ja estava na hora de nos Brasileiros conhecer a nossa propria historia. Pois so desta forma podemos construir um futuro melhor. O ontem constroi o hoje e o hoje constroi o amanha, porque o futuro e construido. Quem tem memoria tem futuro.

  2. Anderson Espirito Santo

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    10/03/2012 às 21:02

    Sou estudante do 6º período do curso de História, no centro universitário Leonardo Da Vinci(UNIASSELVI). E o trabalho do jornalista Eduardo Bueno tem me ajudado em pesquisas sobre a história do Brasil, com seus livros, e principalmente o livro ¨Brasil uma história¨ no qual estou lendo hoje.

  3. joão batista dos anjos barbosa

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    16/02/2012 às 9:53

    O Eduardo Bueno tem razão ao afirmar que estamos condenados a rapetir a nossa história, pois já a estamos repetindo.Além de memória, nos falta o calor do sangue latino para não aceitar-mos passivamente esta repetição!!

  4. Sheila

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    17/01/2012 às 11:42

    Sem dúvida, com o Eduardo, a gente tem interesse em ouvir a história do nosso Brasil. Ele tem um linguajar fácil de entender, não sendo monótono e repetitivo. Precisamos conhecer nossa história para mudar o que está errado (e como está errado!)…
    Grande jornalista!

  5. carlos magalhaes

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    31/12/2011 às 23:03

    vejo em Eduardo Bueno, um jornalista que expressa com clareza o passado e o presente de nosso pais, a historia do Brasil ficou muita mais gostosa depois de ouvi-lo.

  6. Valdir José Dupont

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    09/09/2011 às 21:38

    Realmente temos em Eduardo Bueno a prova efusiva de que a História é cotidianamente construida. Para que todos a conheçam ela precisa ser escrita. Para que alguem a escreva, é preciso muito estudo e conhecimento.Quem dera tivessemos Eduardos para ser nossos governantes e representantes e, alicerçados no passado, contemplassem o presente como o momento “único” para promover as transformações necessarias para um futuro promissor.

  7. Sebastião Graciano

    -

    28/08/2011 às 18:03

    Bem, eu concordo em partes com Minos Adão Filho, mas devo acrescentar
    uma questão muito triste: Quanto aos mandatos de Lula, e de outros que o antecederam são os acordos para governar e aí que o bicho pega, a
    corrupção corre solta e nós brasileiros vemos o quanto estamos ainda
    no Brasil colonial.
    Eduardo, parabens, pelos os livros, eu tenho certeza, de quanto eles
    despertaram interesse pela nossa história e que ajude no futuro moldar
    um país melhor. Um forte abraço.

    Eduardo admiro muito sua obra

  8. Minos Adão Filho

    -

    26/07/2011 às 17:42

    Eduardo Bueno você esta deixando muinta gente com inveja, para béns pelo livro, queram ou não queram, foi a primeira vez que o Brasil teve um Presidente que não veiio das elites, e o que mais doi (inveja), nas elites o Lula descobriu o Brasil, Lula é muinto diferente de Getúlio primeiro foi eleito democraticamente, e terminou seu manadato com 86% de aprovação, gerando 15 milhões de emprego, tirando 35 milhões de pessoas da pobreza, mais de 40 milhões de pessoas entrando na classe média, se isso e populismo, me poupem ! Eu chamo de Estadista, sou eu que digo e o mundo também, os que não reconhecem são os idiotas.

  9. edelveis silva

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    26/07/2011 às 11:35

    gostaria de publicar trechos do autor sobre casos ocorridos no Brasil, no meu jornal. Mas não consigo um contato direto com o Eduardo Bueno . Acho ele um gênio

  10. veja.abril.com.br

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    22/04/2011 às 11:09

    Eduardo bueno lula repete paternalismo de vargas.. Bang-up :)

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  11. veja.abril.com.br

    -

    07/04/2011 às 9:34

    Eduardo bueno lula repete paternalismo de vargas.. Bully :)

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ’0 which is not a hashcash value.

  12. Odailson da Silva

    -

    05/12/2010 às 13:07

    O pedantismo da maior parte dos intelectuais da academia no Brasil é deplorável. Ora, o maior historiador do Brasil é o meu conterrâneo Capistrano de Abreu, que não tivera formação acadêmica. Aliás, essa mesma casta de supostos donos do saber, defendem unanimamente Lula como um grande estadista e maior presidente deste país, olvidando creio, que o mesmo é por formação, um simples proletário. Então, dizer que Eduardo Bueno ou quem quer que seja, careça de formação para escrever sobre o que se proponha é no minímo leviano, tacanho, senão contaminação do vírus mortal da inveja. Se podem, façam melhor! Coisa que duvido! Como díria Delfim: “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Deixa o homem trabalhar, seus medíocres!

  13. Krishna Mahon

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    03/11/2010 às 22:31

    Ninguém consegue tornar a História tão gostosa quanto o Eduardo Bueno!

  14. João Cirino Gomes

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    24/10/2010 às 17:42

    Algumas sugestões, para o autor do livro, e o autor do filme do Lula, fazer sucesso no Brasil!
    Na capa do Livro, para dar mais autenticidade a sua biografia, e ao seu governo, deveriam colocar a foto do pinóquio, pois nunca vi alguém mentir tanto!

    Se Lula assumisse a sina do pinóquio, não conseguiria andar, pois tropeçaria no nariz!

    E sua condução, só poderia ser; o avião ou caminhão, só assim conseguiria, carregar o narigão!

    E para este livro fazer sucesso, Lula deve incluir na bolsa familia o vale livro do Lula!
    E quem sabe ele não resolva incluir também, o vale DVD pirata do seu filme!
    Pois só desta maneira, boa parte dos brasileiros, ou de seus eleitores que estão presos em currais eleitorais vão conseguir ler, ou assistir seu filme!

    Pega na mentira!!!! pega pisa em cima bate nela!

    O cara mentiroso sô!

  15. Rosimar Miranda

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    03/10/2010 às 17:41

    O Eduardo Bueno impressiona mesmo! Talvez pelo fato de não ser historiador cometa alguma gafe. Salvo engano, cometeu uma ao afirmar, na pag. 153 do Brasil: Uma História, 2010-Leya, que D. João VI queria transformar o Rio de Janeiro numa “cidade-luz tropical” por mandar iluminar os monumentos de Montigny. Creio que fez alusão a Paris. Sabe-se, entretanto, que o título de Paris não foi dado pela farta e bela iluminação pública. Veja o que diz a Wikipédia:”No século XVII, ela era a capital da maior potência política europeia; no século XVIII, era o centro cultural da Europa, cuja efervescência durante o Iluminismo lhe permite ainda hoje carregar o título de Cidade Luz”. A razão era outra: intelectual, portanto.

  16. Rafa lhp

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    30/09/2010 às 15:16

    Ele é muito fera mesmo. Mudei muito meu conceito de história depois de ouvir a ele.

  17. Jônatas

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    21/09/2010 às 17:26

    quero ganhar no sorteio dele!

  18. luiz pinho

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    08/09/2010 às 2:16

    esse cara é muito bom !!


 

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