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Arquivo de 8 de julho de 2012

08/07/2012

às 18:35 \ Entrevista, Eventos

A literatura de Javier Cercas. Ou a ‘História’ como ficção

Depois de ter o livro Soldados de Salamina, que mistura realidade com ficção, apontado pela revista The New Yorker como um dos principais de 2011, o escritor espanhol Javier Cercas voltou a beber na fonte da história para escrever Anatomia de um Instante, recém-lançado no Brasil pela Globo Livros. Apesar de se sentir de mãos atadas ao deixar de inventar tramas, Cercas disse não ter visto sentido em ficcionalizar o episódio espanhol que ficou conhecido como 23-F, uma tentativa de golpe de estado feita em 23 de fevereiro de 1981. “A história desse episódio é cheio de lendas, mentiras, meias verdades construídas por muita gente. Assim como não há um americano que não tenha uma teoria sobre a morte de Kennedy, não há um espanhol que não tenha uma para esse golpe. Pensei que seria irrelevante contar a ficção de outra ficção.”

A pesquisa para o livro, que durou alguns anos, deu origem a um romance que conta minuciosamente – não por acaso a obra leva a palavra “anatomia” no título – o que aconteceu naquele dia, quando um grupo de civis liderados pelo tenente-coronel Antonio Tejo invadiu a Câmara dos Deputados, em Madri. O golpe se mostrou um fracasso na manhã seguinte. Mesmo trabalhando com fatos reais, o escritor admite que alguma coisa em Anatomia de um Instante é fruto de sua imaginação, uma vez que, ao contrário de historiadores, ele se interessou por entender os personagens envolvidos.

“Não posso dizer que o livro não seja também um romance, porque ele tem uma estrutura de romance, com perspectivas múltiplas sobre o mesmo assunto. Eu tentei entender os personagens e mostrá-los não como deuses ou demônios, como alguns os veem, mas como pessoas”, diz. Essa seria, portanto, a diferença da história que escreveu daquela que se conta em livros escolares. Diferença que agradou aos estudiosos, segundo Cercas. “Todos receberam muito bem o livro, exceto pelos protagonistas, os políticos que estavam no parlamento no dia do golpe.”

Se a literatura tem a função de preservar a memória de um país, o espanhol não sabe. “Responder a essa pergunta é difícil, mas acredito que os escritores têm algumas obrigações: escrever bem, criar um mundo coerente e mudar a percepção das pessoas”, diz. Confira abaixo uma seleção das perguntas feitas a Javier Cercas, que recebeu VEJA Meus Livros na pousada em que se hospedou em Paraty.
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08/07/2012

às 16:19 \ Eventos

Paraty: literatura, lirismo e… futebol e UFC

Multidão acompanha a luta entre Anderson Silva e Sonnen

Nesta época do ano, as ruas de pedra do centro histórico de Paraty ficam tomadas por turistas em busca de versos, prosa, polifonia de sentidos, certo? Nem tanto assim. Na última quarta-feira, houve até queima de fogos quando o Corinthians perdeu a virgindade na Copa Libertadores. E, na tarde deste domingo, muitos se reúnem em volta da TV para assistir ao FlaxFlu que marca o clássico do centenário. Restaurantes chegam a silenciar para prestar atenção nos lances mais promissores da partida.

Na noite deste sábado, a aura literária da bucólica Paraty também foi dissolvida por uma disputa esportiva. A luta entre Anderson Silva e Sonnen paralisou boa parte dos 25.000 que, de acordo com a organização da Flip, vieram à cidade motivados pelo evento e seus desdobramentos. Quem visse uma multidão reunida em frente a um bar poderia se iludir, pensando se tratar de um happening, um recital ou algo assim. Que nada: era uma plateia nervosa, na torcida por Silva.

08/07/2012

às 15:37 \ Eventos

Em ano de público recorde, Flip mantém curador

O jornalista Miguel Conde, curador da Flip em 2012 e confirmado para 2013

Em ano de recorde de público — ainda não há números, mas a organização afirma ter registrado um número maior de mesas cheias nesta edição do que nas anteriores –, a Flip anunciou a permanência de seu curador para a próxima edição. A data não está fechada, mas a Flip 2013 deve ocorrer entre a última semana de junho e a primeira metade de julho, em Paraty, com programação desenhada pelo jornalista Miguel Conde. A permanência de Conde foi anunciada em entrevista coletiva à imprensa no começo da tarde deste domingo, último dia da festa literária, que está comemorando dez anos.

Quanto ao homenageado de 2013, a organização disse ainda não ter um nome definido. O anúncio deve ser feito em agosto. ”Há uma lista de autores que sempre são lembrados, como Monteiro Lobato, Rubem Braga e Graciliano Ramos, mas podemos optar por alguém de fora desta lista, e até mesmo um estrangeiro, como Fernando Pessoa. Também podemos inovar o formato, falando de bossa nova, por exemplo”, disse Mauro Munhoz, da Casa Azul, organização que realiza a Flip. Em seus dez anos, o evento só prestou tributo a autores nacionais — neste ano, o homenageado é o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Possível homenageado em 2013, Graciliano Ramos será protagonista de uma efeméride no ano que vem, quando se completam seis décadas da sua morte.

A ideia de inovar na homenagem parece mesmo agradar aos organizadores, que destacaram, como um dos pontos altos da 10ª edição da Flip, a inserção de leituras do autor festejado na abertura de cada mesa de debates. Poemas de Drummond foram lidos para a plateia, que podia optar por ouvi-los em inglês. De acordo com Munhoz e a britânica Liz Calder, que idealizou o evento literária, esse formato fez com que editoras estrangeiras — de países como Reino Unido, França, e Estados Unidos — tivessem contato com a literatura brasileira. “Debora Rogers, uma importante agente literária, veio para cá e esteve conversando com autores nacionais”, disse Liz, sinalizando para a crescente importância da Flip na inclusão do Brasil no mercado literário internacional.

Foram lançados dois livros e um DVD em comemoração aos 10 anos da Flip. O livro 10/Ten reúne textos traduzidos de cinco estrangeiros, entre eles Ian McEwan e Julian Barnes, e cinco inéditos de brasileiros, como Milton Hatoum e Beatriz Bracher. A obra não-ficcional Flip – Dez Anos foi escrita em forma de reportagem por jornalistas como Zuenir Ventura e Humberto Werneck, que participaram de mesas. O DVD Uma Palavra Depois da Outra: A Arte da Escrita traz a apresentação de mais de cem autores.

Quanto ao público que visita Paraty motivado pela Flip e seus desdobramentos, a organização, com informação de pousadas, restaurantes e autoridades locais, estima uma leva de 25.000 pessoas.

Maria Carolina Maia e Raissa Pascoal

08/07/2012

às 10:01 \ Entrevista, Eventos

Cinco perguntas para Alejandro Zambra, o chileno da vez

Escritor chileno da vez, sendo apontado até como o sucessor do fenômeno Roberto Bolaño (1953-2003) – que ganhou os círculos literários europeus com romances caudalosos em que se mesclam referências de literatura e história –, Alejandro Zambra é o principal representante da nova literatura latino-americana na 10ª edição da Flip. O evento conta também com a argentina Paloma Vidal, o haitiano Dany Laferrière e a cubana Zoé Valdés.

No Brasil, Zambra ainda é conhecido apenas por seu romance de estreia, o premiado Bonsai, publicado em 2006 no Chile e este ano por aqui, pela Cosac Naify. O livro conta a história de um casal jovem, Julio e Emilia, que estuda literatura e tem uma relação amorosa e sexual intensamente conectada com o ato de ler e com a formação literária e intelectual dos dois. O relacionamento se desdobra com a aparição e intervenção de outros personagens secundários e é pontuado por referências literárias, constantes em todos os capítulos do livro.

“O amor como tema me interessa muito. A minha geração foi a primeira a crescer sabendo que tudo tem um custo, que o amor não é para sempre, que todo mundo se separa, que a decisão de ter filhos é muito complexa”, diz Zambra, 37, destacando que a forma de encarar um relacionamento mudou em sua geração.

Além da mesa de que participou na quinta-feira, ao lado do espanhol Enrique Vila-Matas, o chileno Alejandro Zambra marcou presença na noite de Paraty – na sexta, foi à festa que a sua editora, a Cosac Naify, promoveu em um barco ancorado no cais da cidade. E conversou com VEJA Meus Livros. Confira abaixo uma seleção de cinco perguntas para Alejandro Zambra.
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