Blogs e Colunistas

Arquivo de maio de 2012

29/05/2012

às 19:16 \ Eventos

Suketu Mehta vai substituir Richard Sennett na Flip

O escritor indiano Suketu Mehta virá ao Brasil em julho para participar da 10ª Festa Literária Internacional de Paraty. Sua presença foi confirmada nesta terça pela organização do evento literário. Mehta vai substituir o sociólogo americano Richard Sennett, que cancelou sua participação na mesa Cidade e Democracia, no dia 7 de julho, por motivos pessoais.

Nascido em Calcutá e criado em Bombaim até os 14 anos de idade, quando foi morar nos Estados Unidos, o indiano é autor do livro Bombaim: Cidade Máxima (Companhia das Letras, 58 reais), no qual conta o cotidiano frenético de uma das cidades mais populosas do mundo. A obra rendeu uma indicação ao Pulitzer de não-ficção em 2005.

Na Flip, ao lado de Mehta, o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta vai participar do debate sobre urbanismo. A discussão vai ser mediada por Guilherme Wisnik.

 

Bombaim - Cidade Máxima

Suketu Mehta

COMPANHIA DAS LETRAS

26/05/2012

às 8:21 \ Leituras cruzadas

Clássicos perdem espaço na estante dos novos escritores

Lionel Shriver: 'Reli Dostoiévski e descobri que não tenho mais paciência para longas digressões filosóficas' (Getty Images)

A influência que os cânones da literatura exercem sobre os autores hoje é muito menor do que no passado, de acordo com um estudo que analisou milhares de trabalhos escritos ao longo de 500 anos. Matemáticos americanos, supervisionados pelo chefe do departamento da área na universidade de Dartmouth, Daniel Rockmore, fizeram uma pesquisa em larga escala sobre as tendências de estilo literário. O estudo avaliou 7.733 trabalhos escritos por 537 autores a partir de 1500 para calcular a frequência de 307 palavras — como “de”, “em” e “por”. Os pesquisadores apelidaram essas palavras de “cola sintática da linguagem”: termos que não têm significado quando analisados isoladamente, mas que funcionam como ponte entre as palavras, dando sentido ao texto e determinando um estilo.

“Quando analisamos a frequência de algumas palavras nos textos de um grande número de autores, em um certo período de tempo, podemos responder a perguntas sobre tendências de linguagem”, diz trecho do relatório “Padrões quantitativos da influência estilística na evolução da literatura”, elaborado na universidade americana de Dartmouth e obtido pelo  jornal britânico The Guardian.

Nesse cruzamento de textos, a análise descobriu que os autores de um determinado período têm estilo parecido com os de seus contemporâneos e que a influência de escritores do passado perde espaço. Enquanto os autores dos séculos XVIII e XIX ainda se baseiam no estilo de antecessores, os do século XX são influenciados por colegas da própria década. “A chamada ‘ansiedade da influência’, em que os autores são avaliados de acordo com a capacidade de perpetuar o estilo dos cânones da literatura, está se tornando a ‘ansiedade da impotência’, no sentido de que o passado exerce uma pequena influência estilística sobre o presente”, diz o relatório. Isso é ainda decorrência do movimento modernista, que rejeita a “influência dos antecessores”.

Outro fator que colabora para a diluição do poder dos antigos sobre os novos é o crescimento da oferta de livros. “É possível que a enorme produção literária dos dias de hoje torne os clássicos cada vez mais irrelevantes, porque menos lidos”, diz Daniel Rockmore, chefe do departamento de matemática em Dartmouth. “Isso não está relacionado à diminuição da importância dos clássicos na literatura, mas à relação entre leitura e escrita e entre a escrita e a língua falada.”

Por questões relacionadas a direitos autorais, o estudo engloba apenas trabalhos escritos até 1952. Mas, para Rockmore, a influência decrescente dos clássicos será perpetuada pelos escritores atuais. A romancista Lionel Shriver, 55, ganhadora do Orange Prize, concorda com a conclusão do estudo. Ela diz que se sente mais inclinada a ler contemporâneos do que clássicos. “Eu devorei clássicos até os 20 ou 30 anos, mas, agora, leio quase exclusivamente ficção contemporânea”, afirma.

“Eu fico em dúvida em relação a essa evolução, mas entre revisar, resumir textos e acompanhar o que é lançado no mercado, eu não tenho tido tempo para ter contato muito regular com os cânones literários. Quando tentei fazer isso, reli um romance de Dostoiévski e descobri que não tenho mais paciência para as longas digressões filosóficas. Eu aposto que não sou a única a ter essa intolerância em relação às tradições estilísticas do passado.”

Rockmore pensa em dividir a conclusão de suas investigações com estudiosos de literatura para saber se as fórmulas matemáticas obtidas podem ser úteis à crítica literária. “Espero que possamos engajar colegas dessas áreas para definir interesse por essas questões. Esse é um primeiro passo necessário.”

23/05/2012

às 21:43 \ Entrevista

A cor e o poder na Angola do século XVII

Nada melhor do que começar um romance insultando o personagem principal para marcar seu caráter antipático. O efeito causado pelas palavras iniciais do sacerdote franciscano Simão de Oliveira sobre Manuel Cerveira Pereira, governador de Luanda no começo do século XVII, chamado aqui polidamente de ordinário, dá o tom de A Sul. O Sombreiro, novo livro do angolano Pepetela, lançado este mês pela editora Leya (364 páginas, 44,90 reais/edição impressa e 26,90/digital). Assim como toda a produção deste ganhador do Prêmio Camões de 1997, – 19 livros e duas peças de teatro escritos ao longo de seus 70 anos –, este romance também é fortemente embasado na história de Angola e recorre a documentos de época para narrar a criação da cidade de Benguela por Cerveira Pereira, um português inescrupuloso nomeado pela coroa para gerir a então colônia.

Abertamente a favor da luta anticolonialista e ex-guerrilheiro do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Pepetela tempera os fatos históricos com personagens ficcionais para marcar os conflitos causados pela colonização enquanto narra a expedição idealizada por Cerveira Pereira rumo ao sul em busca de cobre. “A história real e a fictícia correm paralelas, assim como havia os europeus de um lado e os africanos de outro”, afirma o escritor. “Quando se encontravam, era sempre perigoso.” Ao longo da jornada, que culminou na fundação de Benguela, os portugueses subjugaram os povos nativos e escravizaram os negros, criando a relação entre cor e classe exploradora que persiste até hoje em Angola. O cobre que Cerveira Pereira procurava, porém, jamais foi encontrado.

O romance e o Brasil – Também colônia do reino de Portugal, o Brasil não fica de fora de A Sul. O Sombreiro. O país é citado como um dos principais mercados de destino para a mão-de-obra escrava capturada em Angola e para degredados.

A relação entre as duas colônias, no entanto, extrapola as referências presentes no livro de Pepetela. A história da criação de Benguela, que seguiu o modelo colonial português de catequização, dominação e exploração, bem que poderia ser sobre uma cidade brasileira no século XVII. Na época, o país via crescer o número de entradas e bandeiras – tanto as oficiais, bancadas pela coroa portuguesa, quanto as privadas que buscavam explorar territórios do interior. Os negros capturados em Angola poderiam facilmente ser substituídos pelos índios daqui – embora, no caso do Brasil, os metais preciosos tenham sido descobertos, ao contrário do que sucedeu a Cerveira Pereira.

Leia a seguir trechos da entrevista de Pepetela a VEJA Meus Livros:

De onde surgiu a ideia de mais um romance histórico? Certamente tem a ver com o fato de eu ter nascido em Benguela. A minha primeira escola se chamava Manuel Cerveira Pereira, em homenagem ao governador português que a fundou. Conheci sua história e o que escreviam sobre ele – textos sem meio termo, ou muito críticos, ou a tentar defendê-lo.

Em que fontes o senhor foi buscar registros daquela época? Pesquisei bastante em registros religiosos do Vaticano e de Portugal. Encontrei 20 volumes de uma coleção chamada Monumento Missionário Africano, escrita em geral para o Vaticano pelos padres e missionários. No meio delas, também eram publicadas textos dos reis e dos governadores. Existem inclusive alguns relatórios do próprio governador Cerveira Pereira e cartas de jesuítas com referências a ele. Isso me ajudou bastante a perceber que ele tinha amigos e inimigos e que tudo estava ligado à guerra entre as ordens religiosas pelo controle de territórios nas colônias, principalmente os franciscanos e os jesuítas.

Foi difícil recriar o personagem do governador? Difícil mesmo foi não cair na facilidade de tratar como verdade tudo aquilo o que diziam dele. É claro que é um personagem, no mínimo, antipático, mas tentei não retratá-lo com a mesma má vontade dos registros deixados pelos inimigos dele. A forma foi, sobretudo, não pôr o narrador a contar os feitos dele, só de vez em quando. É uma forma para que ele se explique, defenda-se um pouco e torne-se uma personagem um pouco mais espessa.

Por que existe um personagem fictício, o negro angolano Carlos Rocha, em um livro basicamente histórico? Eu gosto de fazer coisas assim para acordar o leitor. Esse personagem traz algumas armadilhas. A história real e a fictícia correm paralelas, assim como havia os africanos de um lado e os europeus de outro. Quando se encontravam, era sempre perigoso.

O que representa a figura de Carlos Rocha? Carlos Rocha é um pouco a anunciação de alguma coisa que virá no futuro de Angola. Ele é um homem livre, mas tem medo de ser escravizado. Os outros negros o consideravam um branco, porque ele tinha comportamento de branco, usava botas, tinha mosquete. Isso ainda existe em algumas zonas hoje: negros que se vistam ou tenham vida de europeus são considerados brancos.

Ainda é latente essa diferenciação pela cor em Angola? Isso ainda não está resolvido. Parecia que estava pouco depois da independência, em 1975, mas, ultimamente, agravou-se. Começou a haver mais pessoas claras – europeus, angolanos mais claros, libaneses e sírios – que vivem bem, enquanto a maioria da população vive mal. Isso cria uma associação da cor a uma classe que explora, embora os grandes ricos de Angola sejam negros. Por causa da cor, às vezes, me chamam de colono, que tem uma conotação negativa em Angola. Eu fico bravo, porque lutei contra eles. Depois, eles me reconhecem e dizem “Desculpa lá kota, não era consigo”. Mas era, era com a minha cor. (Kota é um termo respeitoso em quimbundo, uma das línguas originais de Angola, empregado para homens mais velhos e ainda muito em uso pelos angolanos).

Por que a história de Benguela não era tão conhecida mesmo sendo uma das cidades mais importantes do país? Porque é tudo artificial. Nunca houve reino nem rei de Benguela. Parece-me que havia um projeto do Cerveira Pereira e do rei de Espanha de criar uma procissão ao sul do rio Kwanza até o Cabo da Boa Esperança e, depois do outro lado, até o Índico, até Moçambique atual. Toda essa parte sul da África seria uma colônia, porque em Luanda havia muitos conflitos. Essa é a base do nascimento de Benguela e da rivalidade entre a cidade e Luanda, que é um pouco como acontece entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Qual foi a reação dos angolanos com a publicação do livro? Esperava que, pelo menos, a frase de início provocasse logo reações violentas, mas não provocou. É um bom sinal, por mostrar que ultrapassamos a fase do complexo colonial e já estamos em outra.

Como é a cidade de Benguela hoje? Benguela ficou muito parada no tempo, por isso houve oportunidade de os governos municipais endireitarem as ruas e ela ficou alinhada. É uma cidade pequena, com cerca de 500.000 habitantes. A região começa a se tornar uma área metropolitana, porque está a se juntar com Lobito, uma cidade com um porto ao norte, a 30 km, e Catumbela, que fica no meio das duas. Hoje, Benguela é um grande centro pesqueiro, o maior de Angola, apesar de todas as potências pesqueiras estarem a chupar isso.

O cobre nunca chegou a ser explorado? Nunca existiu. Pelo menos até hoje não foi descoberto. Agora, vão começar a explorar cobre no país, mas é mais ao norte. Da mesma maneira, nunca houve prata perto de Luanda e essa foi uma das razões da criação da cidade. De fato, essas cidades da costa, quando nasceram, viviam do tráfico de escravos e essa era a principal razão. Benguela era o porto principal para os escravos enviados a Minas Gerais e às cidades mais ao sul do Brasil; Luanda era a principal saída para Salvador e Recife.

Não tem como ler o livro e não comparar com o Brasil, na época das bandeiras. O senhor conhece essa parte da história brasileira? Sim, conheço um bocado e até lembro que havia uma série de televisão sobre os bandeirantes, A Muralha (2000). As histórias são parecidas, é o processo dos conquistadores.

Existe algum escritor brasileiro de quem o senhor gosta? Há escritores que me influenciaram muito, porque eu os li quando era muito jovem, com 13 ou 14 anos. São escritores do nordeste, como Jorge Amado, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Para mim, esses são referência. Gosto de outros escritores mais modernos, como João Ubaldo Ribeiro, de quem sou amigo, e Fernando Gabeira, que agora está um bocado desaparecido. Também leio poetas, como Castro Alves, Manuel Bandeiras, Carlos Drummond e Vinicius de Moraes.

Raissa Pascoal

 

A Sul. O Sombreiro

Pepetela

Leya

17/05/2012

às 16:02 \ Eventos

Flip chega à 10ª edição com Drummond e um Nobel


No ano em que completa uma década de existência, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) escolheu como homenageado o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, que em 2012 faria 110 anos. Entre as vinte mesas programadas para os cinco dias de evento, que acontece de 4 a 8 de julho em Paraty, no Rio de Janeiro, três serão dedicadas ao poeta, além de uma exposição, uma peça e a conferência de abertura Drummond 110, com a participação de Antonio Cícero e Silviano Santiago. Além disso, uma das mesas da festa literária terá o crítico Antonio Carlos Secchin falando sobre o livro 25 Poemas da Triste Alegria, uma compilação de textos feitos por Drummond antes da publicação de seu primeiro livro, Alguma Poesia (1930), e nunca publicados. O lançamento da obra, pela editora Cosac Naify, acontece dia 21 de junho.

Escritor francês Le Clézio (Getty Images)

Diferentemente do ano passado, em que o número de mesas havia sido reduzido para três por dia, o evento, agora sob a curadoria do jornalista Miguel Conde, volta a ter cinco mesas diárias. Volta também a ter a mesa de encerramento Livro de Cabeceira, na qual alguns escritores leem trechos de seus livros favoritos. Ao todo, participarão do evento 40 autores de 14 nacionalidades.

Entre os destaques da programação deste ano, está o encontro entre dois grandes nomes da literatura de língua espanhola: o chileno Alejandro Zambra e o espanhol Enrique Vila-Matas, que estará pela segunda vez na Flip para falar de seu livro Aire de Dylan. Em comum, além da língua, eles têm o gosto por falar de literatura, grande tema de seus livros. No dia 7, um encontro semelhante, entre um nome novo e outro já consagrado de uma mesma língua, se dá entre o britânico Ian McEwan e a americana Jennifer Egan. Os dois conversarão sobre a necessidade de se colocar no lugar de outra pessoa para fazer literatura. No evento, McEwan também fará o lançamento mundial de seu novo romance, Serena.

Escritor americano Jonathan Franzen

O americano Jonathan Franzen, de Liberdade, nome badalado do evento, também terá mesa exclusiva. A mesa de maior destaque no evento, a da noite de sábado, no entanto, ficou com o francês Le Clézio, ganhador do Nobel de literatura em 2008.

Neste ano, a organização da Flip lançará dois livros e um DVD em comemoração a seus dez anos. A obra 10/Ten, editada pela criadora do evento, Liz Calder, reúne contos e ensaios inéditos de autores brasileiros e cinco contos de escritores estrangeiros nunca publicados no país. O livro Flip – Dez Anos conta histórias relevantes das nove edições já realizadas. O DVD Uma Palavra Depois da Outra: A Arte da Escrita faz uma montagem temática das apresentações de mais de cem autores que passaram pela festa.

Raissa Pascoal

 

Liberdade

Jonathan Franzen

Companhia das Letras

15/05/2012

às 18:22 \ Leituras cruzadas

Rocco vai publicar inédito de Carlos Fuentes, morto aos 83

Escritor mexicano Carlos Fuentes em sua biblioteca em 2008 (Ronaldo Schemidt/AFP)

Morreu nesta terça-feira, aos 83 anos e de causas ainda desconhecidas, o escritor Carlos Fuentes. Nome dos mais importantes da literatura contemporânea mundial, Fuentes terá um livro inédito lançado no país no segundo semestre pela Rocco, editora que detém os direitos de publicação do mexicano no Brasil. Federico en Su Balcon, o romance, é uma homenagem do escritor ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Panamenho de nascença, mas filho de um diplomata mexicano, o escritor Carlos Fuentes passou parte de sua vida morando em diversos países, como Equador, Uruguai, Brasil, Chile, Argentina, Suíça e Estados Unidos. No entanto, foi no México que, estimulado pelo pai, desenvolveu suas raízes culturais, que estiveram presentes nos temas de suas obras.

Com 26 anos, Fuentes escreveu seu primeiro livro, Los Días Enmascarados (1954). A consolidação como um nome de peso na literatura latino-americana aconteceu anos depois, com a publicação de obras como A Região Transparente (1958), A Morte de Artemio Cruz (1962), Aura (1962) e Terra Nostra (1975), que lhe rendeu o Prêmio Rómulo Gallegos, em 1977.

Ao longo de sua carreira de cinco décadas, Fuentes recebeu títulos e premiações, como a nomeação como membro honorário da Academia Mexicana da Língua e os prêmios, como o Miguel de Cervantes, em 1987 – equivalente ao Prêmio Camões na língua espanhola – e Príncipe das Astúrias, em 1994.

Repercussão - Confira o que dizem outros escritores sobre a morte de Carlos Fuentes.

Salman Rushdie, escritor
“RIP Carlos, meu amigo. Ontem, teve ao trote sobre Gabo (Gabriel García Márquez), mas isso é verdade, infelizmente.”

Mario Vargas Llosa, escritor (no site do jornal El País)
“Com Fuentes, desaparece um escritor cuja obra e cuja presença deixaram uma pegada profunda. Seus contos, novelas e ensaios estão inspirados principalmente pela história e problemática do México, mas ele foi um homem universal, que conheceu muitas literaturas, em muitas línguas e que viveu de uma maneira comprometida com todos os grandes problemas políticos e culturais de seu tempo.”

Martin Caparrós, escritor
“Para sempre, professor, e obrigada por tudo. Alguém disse: ‘Morreu Carlos Fuentes, não Artemio Cruz.’”

Guillermo Arriaga, roteirista
“Fiquei sabendo da morte de Carlos Fuentes. Que tristeza. Lamento.”

Jorge Volpi, escritor mexicano
“Sinto terrivelmente a morte de Carlos Fuentes, o maior novelista do México, amigo generoso. Um grande abraço a Sílvia e Cecília.”

 

Imprensa

The Guardian
“Cervantes e seu personagem Dom Quixote foram influências cruciais para Fuentes como romancista. Ele viu Cervantes, junto com Shakespeare, como a inauguração da era moderna e deleitou-se com a mistura feita pelo autor espanhol de fantasia e realidade.”

The New York Times
“Sua geração de escritores, incluindo o colombiano Gabriel García Marquez e o peruano Mario Vargas Llosa, chamaram a atenção para a cultura latino-americana durante o período em que ditadores comandavam a região.”

El País
“Sua resistência era de um atleta, mas o coração estava enfrentando os impactos até que não pôde mas; sua força física, que também foi sua fortaleza literária, foi vencida pela idade do tempo, essa metáfora em que ele colocou seu empenho como escritor e também como resposta civil a do México e da humanidade.”

Le Figaro
“Carlos Fuentes tinha um projeto louco, escrever a história imaginária do mundo, dar à sua obra a forma da memória do tempo, enquanto atribuía à literatura um papel essencial na história da humanidade: ordenar o caos, oferecer alternativas ao desespero e um significado às ideias. Carlos Fuentes era Dom Quixote contra Hamlet. O segundo pensa que a literatura não é mais que palavra sem sentido, o primeiro acha que ela pode mudar a vida.”

 

Aura

Carlos Fuentes

L&PM Editores

12/05/2012

às 9:09 \ Livros da Semana

Folhas de árvore, folhas de livro

Alardeado como uma das vozes mais instigantes da novíssima literatura latino-americana, o chileno Alejandro Zambra, nascido em 1975 em Santiago, tem seu romance de estreia, Bonsai (tradução de Josely Vianna Baptista, Cosac Naify, 64 páginas, 23 reais), publicado agora no Brasil. O livro obteve diversos prêmios importantes e foi adaptado para o cinema por Cristián Jiménez, em 2011. Mais importante do que repassar o currículo da obra, porém, talvez seja observar como nela Zambra parece seguir caminhos abertos por Roberto Bolaño, escritor que também é de origem chilena e se tornou um verdadeiro fenômeno editorial na América Latina.

Costuma-se dizer que a Europa e os Estados Unidos “adotam” um escritor latino a cada década, e o último a ser assimilado, sem a menor dúvida, foi Bolaño. Na América Latina, o nome do chileno se converteu em algo fantasmagórico – espera-se que as obras dos novos narradores e poetas dialoguem, de certa forma, com a produção do autor de 2666 e Noturno do Chile.

Publicado em 2006, Bonsai conta a história de um casal jovem, Julio e Emilia, que estudam literatura e têm uma relação amorosa e sexual intensamente conectada com o ato de ler e com a formação literária e intelectual dos dois. O relacionamento se desdobra com a aparição e intervenção de outros personagens secundários e é pontuado por referências literárias, constantes em todos os capítulos do livro.

O narrador de Bonsai não cria suspense em relação à trama nem apela para métodos tradicionais de contar uma história de amor. Desde o início do livro, ele anuncia o final, e a cada começo de capítulo deixa o máximo possível às claras, destruindo qualquer possibilidade de criar uma narrativa que empolgue o leitor e o obrigue a folhear com voracidade as páginas. Pelo contrário: o narrador de Zambra é distante e esquarteja a própria história que conta com a frieza de um agente funerário. Apesar da brevidade do romance (que, não fosse por questões mercadológicas, poderia ser chamado de novela ou mesmo de conto), o texto é construído aos poucos, como quem poda uma árvore de bonsai uma folha por vez.

Em muitos sentidos, a trama remete a Os Detetives Selvagens, romance icônico de Roberto Bolaño. Assim como na primeira parte de Os Detetives Selvagens, observamos em Bonsai uma união entre descobertas amorosas e achados literários. A formação literária dos protagonistas se dá juntamente com as suas formações eróticas. Mais do que isso: com o desenrolar da narrativa de Bonsai, surgem vários indícios de que parte da história pode ser interpretada como uma metáfora sobre o ato de escrever. Assim como em Roberto Bolaño, no universo de Zambra, literatura e vida estão indissociavelmente unidas.

Isso não quer dizer, de modo algum, que Alejandro Zambra não tenha voz própria ou que seja um mero descendente de outro autor chileno de maior destaque. É apenas um sinal de que o escritor está ligado a certa tendência contemporânea – metaliterária, pode-se dizer – de usar o espaço ficcional para pensar o próprio fazer literário, nem que seja ao contar a história de amor de um casal no Chile dos dias de hoje. Assim como o espanhol Enrique Vila-Matas, outro autor de amplo destaque entre os literatos de língua hispânica, Zambra dá vida a personagens que estruturam seu mundo como se este fosse mediado pela literatura, pelos romances que devoram e que leem em voz alta para a namorada.

O resultado, em Bonsai, é uma narrativa incomum, que se mostra desmistificadora — explicitando recursos narrativos e anunciando eventos na trama muito antes de acontecerem — ao mesmo tempo em que está envolta em uma atmosfera de estranheza e obscurece certos ângulos da trama. Pode-se especular que a concisão de Zambra seja decorrente de sua experiência com a poesia. Por enquanto, com apenas um trabalho publicado no Brasil, o autor chileno seguirá para os brasileiros enigmático como seu romance.

Antônio Xerxenesky

 

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