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Arquivo de janeiro de 2012

28/01/2012

às 9:04 \ Livros da Semana

Só por precaução

Melhor prevenir do que remediar, pois vai que… Foi pensando assim que o jornalista americano Neil Strauss, 38 anos, começou a se preparar para o pior, pois vai que acontece outro 11 de Setembro ou um novo furacão como o Katrina… Foram mais de três anos experimentando os mais variados tipos de treinamentos até se transformar num sobrevivencialista, alguém precavido para praticamente qualquer tipo de problema natural, econômico ou mesmo político. Strauss aprendeu coisas como fazer uma arma utilizando um cartão de crédito, escapar do porta-malas de um carro mesmo estando algemado lá dentro, matar um animal para comer ou construir um abrigo aquecido com folhagens e galhos para passar a noite, além de ter conseguido, só por precaução, uma segunda cidadania. A ideia era ter um refúgio e também outro passaporte com alguma credibilidade para o caso de precisar fugir. O resultado de tanta obstinação – ou paranoia – está em Emergência – Este Livro Vai Salvar Sua Vida (tradução de Bruno Casotti, BestSeller, 400 páginas, 44,90 reais), um autorretrato que não deixa de ser simbólico para uma nação mergulhada na paranoia desde os ataques terroristas de 2001.

Clique aqui para ver a página 371 e aqui para a 372 do livro.

O leitor não deve esperar encontrar aqui um manual de como agir em situações críticas. O livro é mais um apanhado sobre a cultura sobrevivencialista e a narração de como o próprio autor se transformou num adepto dessa cultura depois dos atentados em Nova York. Os primeiros contatos de Strauss com sobrevicencialistas deu-se na virada do milênio, quando fazia uma reportagem sobre grupos que acreditavam num apocalipse marcado para aquele réveillon. “Fazemos piadas daqueles que mais tememos nos tornar”, repete ele ao longo do livro. Menos de dois anos depois, logo após o 11 de Setembro, ele se viu com um kit que continha desde fósforos à prova d’água a um vaso sanitário de papelão. A corrida ensandecida pela segunda cidadania veio com a reeleição de George W. Bush, em 2004, ao lado do terrorismo outra fonte de medo para boa parte dos americanos. “Senti-me alienado da maioria do país, preocupado com os danos que mais quatro anos do mesmo governo poderiam causar”, descreve ele. Mas foi o furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005, que de fato alterou sua rotina. “Foi isso que destruiu o que restava de autoilusão sobre meu país. (…) Eu me senti como no dia em que derrotei meu pai na queda de braço pela primeira vez. Naquele momento, percebi que ele já não podia me proteger. Eu é que tinha que cuidar de mim”.

Strauss é um crítico de música reconhecido – escreve regularmente para a revista Rolling Stone – e é autor de quase uma dezena de livros, entre eles, o best-seller O Jogo – A Bíblia da Sedução (publicado no Brasil em 2008 pela BestSeller), em que conta como passou de nerd a mestre da paquera, e a inenarrável biografia da banda Mötley Crüe (The Dirt ou A Sujeira, em tradução livre). É difícil imaginá-lo dormindo no quintal entre folhas do jardim e tentando encontrar água com um destilador solar. “Eu estava em pânico com a situação do meu país e do mundo. Sentia muito medo quando decidi fazer todos esses treinamentos. Quando terminei, o medo era bem menor”, disse ele a VEJA Meus Livros. “Eu nasci em uma grande cidade e aprendi sobre música e cultura. Mas meu pai não me ensinou as mais básicas habilidades humanas. Eu tive que aprender a ser um homem”, completou. Entre essas habilidades, está a de matar um animal para comer. Uma das partes mais surreais do livro é quando um homem chamado Mad Dog, encarregado de ensinar-lhe a sacrificar um animal, ordena que ele corte o pescoço de uma cabra. “’Não antropomorfize sua presa’, vociferou Mad Dog. ‘Estou tentando não me apegar a ela’, falei. ‘Por isso não lhe dei um nome’. ‘Eu dei’, interrompeu Katie (sua namorada). ‘Batizei-a de Bettie’”.

De modo geral, o livro é interessante por retratar o zeitgeist, “o espírito do tempo” americano, um certo medo que paira no ar desde o 11 de Setembro. “Alguns de meus amigos estão fazendo os mesmos cursos de sobrevivência que fiz. Como a economia piorou por aqui, isso se tornou normal. Tenho amigos que estão até criando galinhas em casa”, contou. Com uma visão um tanto romântica, ele acredita que o movimento Ocupe Wall Street – aquele que no final do ano ganhou projeção mundial, apesar de reunir apenas duas centenas de pessoas numa pequena praça em Nova York – seria o resultado da tomada de consciência pelos americanos de que eles são responsáveis por si próprios. “Os americanos finalmente despertaram para o fato de que eles devem cuidar de si mesmos e estar alertas para qualquer eventualidade. O governo não pode fazer nada. Nenhum governo pode”, disse ele.

Paranoia exaustiva – Strauss não teve medo do ridículo, contou todas as suas angústias e riu de si mesmo ao longo do livro, que está dividido em cinco partes e tem quase setenta pequenos capítulos com títulos bem divertidos, entre os quais Por que Engravidar uma Brasileira Pode Salvar sua vida. Ao contrário do que disse a crítica do New York Times – jornal para o qual Strauss trabalhou alguns anos atrás –, ele é um personagem interessante. Como poderia não conseguir prender a atenção alguém com uma certa dose de maluquice e contradição? Strauss diz amar seu país, mas quer estar preparado se tiver que deixá-lo; mora em Los Angeles, uma das maiores cidades dos Estados Unidos, mas faz cursos para aprender a sobreviver no meio do mato; tem uma casa confortável, mas passa noites no quintal. O livro tem também boas tiradas, pitadas de ironia e bom humor e algumas páginas de quadrinhos bem desenhado. Mas o leitor mais exigente pode se cansar na metade do livro, mesmo com um personagem carismático. São tantos os cursos e as práticas que talvez só um aficionado por sobrevivencialismo aprecie o texto até o final. Strauss aproveita ainda para mostrar que realmente se transformou em um sedutor e conta como sua namorada era “apaixonante, perspicaz e bem-humorada”, além de dar alguns detalhes, digamos, picantes, desnecessários para o contexto.

Quanto ao fato de ensinar truques que poderiam ser usados por alguém que queira burlar a segurança – afinal, “as ferramentas de que precisamos para nos proteger são quase idênticas àquelas que as outras pessoas usam para nos matar” –, Strauss afirmou que não teve problemas com as autoridades americanas. “Cheguei a pensar que a editora poderia parar a impressão do livro por ele conter algumas informações controversas, como dicas para se construir uma bomba. Mas espero que o livro caia nas mãos de pessoas com boas intenções”, disse. Recentemente, Strauss recebeu um artigo que falava sobre alguém pego em um avião portando uma arma feita com um cartão de crédito. Se aprendeu com o livro ou não, ele não sabe, mas alguém poderia tentar descobrir. Só por precaução.

Simone Costa

19/01/2012

às 18:28 \ mercado

Luciana Villas-Boas deixa Record por agência literária

Após 16 anos como diretora editorial da Record, Luciana Villas-Boas deixou o cargo para abrir a Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária, nos Estados Unidos. Ela vai mudar de país para se casar com um advogado americano – que também será seu sócio na nova empreitada.  Luciana deve agenciar os autores do Grupo Record no exterior. “Nossos autores são vendidos lá fora como exóticos ou coitadinhos por serem de um país subdesenvolvido. Tenho certeza de que a Luciana será capaz de mudar esse cenário”, diz Sergio Machado, presidente do Grupo Record.

De acordo com ele, ainda não há definição sobre quem irá substituir Luciana na função. Há a possibilidade de que a responsabilidade do cargo seja dividida entre um grupo de profissionais, mas a informação, que circula no mercado, não é confirmada por Machado. “A editora vive um outro momento, bem diferente de quando a Luciana chegou. Sentimos a necessidade de reestruturar para dar mais frescor ao trabalho”, diz Machado.

No ano passado, a Record perdeu os direitos autorais de Carlos Drummond de Andrade para a Companhia das Letras. O episódio teria causado uma crise no grupo, acentuada por outra perda importante ocorrida em 2007, quando a mesma Companhia das Letras arrebatou o baiano Jorge Amado da concorrente.

Oficialmente, o Grupo Record nega que a saída de Luciana esteja relacionada a essas perdas. “A decisão é pessoal”, diz Machado.

Mariana Zylberkhan

18/01/2012

às 22:02 \ Eventos

Enrique Vila-Matas volta à Flip em 2012

O autor espanhol Enrique Vila-Matas confirmou participação na décima edição da Feira Literária de Paraty (Flip), que este ano acontece entre 4 e 8 de julho. É a segunda vez que o autor vem ao evento, do qual foi uma das estrelas em  de 2005 ele participou. Como a festa completa dez anos em 2012, o curador Miguel Conde quis reeditar passagens das edições anteriores. Além de Vila-Matas, está confirmada a vinda do escritor britânico Ian McEwan e do americano Jonathan Franzen.

Neste ano, Vila-Matas irá aproveitar a viagem ao Brasil para lançar o livro Aire Dylan, romance que se desenvolve no Mercado Municipal de São Paulo. O livro sai pela editora Cosac-Naify. Conhecido por abordar a literatura em seus livros e transformar escritores em protagonistas de romance, Vila-Matas, em Aire Dylan, dá voz a um escritor arrependido de tudo que já fez na vida, que decide abandonar o ofício. Até se deparar com um grupo de jovens fundadores de uma sociedade secreta. O encontro inusitado o convence a voltar à escrita.

14/01/2012

às 9:05 \ Livros da Semana

‘Perdição’: em novo romance, contista Luiz Vilela perde força

O escritor mineiro Luiz Vilela

O escritor mineiro Luiz Vilela é conhecido, antes de tudo, por ser um contista especializado em diálogos. A fama de Vilela neste quesito é tão grande que as narrativas breves do autor viraram exemplos obrigatórios em oficinas literárias, quando o professor necessita ensinar os alunos a construir uma conversa entre personagens que soe natural. Não é difícil esquartejar o estilo do autor para descobrir alguns artifícios recorrentes. Apesar disso, o ouvido de Vilela para diálogos é tão assombroso e as falas de seus personagens (sejam eles cultos ou iletrados) soam tão plausíveis que, por mais que seu estilo possa ser imitado, dificilmente se conseguirá criar algo no mesmo nível.

Vilela não é inexperiente no território do romance e, no entanto, este não é seu habitat natural. Contista por natureza, o mineiro sempre se valeu da concisão. De certo modo, todas essas características continuam presentes em sua obra mais recente, Perdição (Record, 400 páginas, 39,90 reais). Embora se trate de uma narrativa longa, ela está dividida em pequenos capítulos, alguns deles contando histórias quase à parte, fechadas em si, como contos, e muitos desses capítulos são conduzidos inteiramente pelos diálogos.

O enredo, narrado por Ramon, um jornalista que trabalha em um pequeno jornal diário de uma cidade do interior de Minas Gerais, gira em torno de Leonardo, pescador e amigo de infância de Ramon. Leo, como é chamado, passa por um período de vacas magras – ou melhor, de peixes magros. Pressente que a pesca não será mais suficiente para a sua subsistência, ainda mais com a chegada da filial de uma grande corporação na cidade, o Disk-Peixe. É então que Leo decide, em uma história para lá de brasileira, aceitar o convite de um grupo de pastores para entrar em uma nova (e gananciosa) igreja que está sendo fundada no Rio de Janeiro pelo enigmático Mister Jones.

A história, que começa deveras interessante, logo afunda no previsível. Como era de se esperar, a entrada na seita não traz a menor alegria ao pescador, e ele é manipulado e corrompido. Por outro lado, acontecimentos marcantes, como o acidente da filha de Leo e a reação dele, são pouco explorados. Os longos diálogos de personagens coadjuvantes sobre suas crendices, no entanto, dominam vários capítulos do romance, e não adicionam muito à trama. Há vários capítulos que poderiam ser, se não cortados, bastante reduzidos, para assim diminuir a aparência “inflada” que o romance de Vilela apresenta.

Há um universo interessante e crível em Perdição, e o autor possui pleno domínio da técnica. Porém, o formato do romance longo talvez não seja ideal para o enredo que Vilela queria contar. Além disso, a fixação do narrador nos “causos” dos habitantes da cidadezinha faz predominar um tom anedótico, como se o livro fosse apenas isso: uma coleção de histórias de pouca relevância entremeada com a trajetória de ascensão e queda de Leo. O resultado final é um livro que vai progressivamente perdendo força, e cujo impacto final é pequeno. Muito distante dos contos breves do autor mineiro que desferiam um poderoso golpe no leitor.

Antônio Xerxenesky

08/01/2012

às 9:07 \ Livros da Semana

Leitura de verão: Otto Lara Resende por ele mesmo

Otto Lara Resende (1922-1992) desmentiu ao longo da vida uma de suas frases mais célebres, a que dizia que os mineiros são solidários apenas no câncer. O Rio É Tão Longe (Companhia das Letras, 416 páginas, 49 reais), livro que reúne cartas suas enviadas ao escritor Fernando Sabino entre 1944 e 1970 é, além de objeto de alto valor literário, uma prova inconteste de afeto e solidariedade intermitentes entre os dois – um nascido em São João Del Rey e o outro, em Belo Horizonte. Bom Dia para Nascer (Companhia das Letras, 456 páginas, 49 reais), uma coletânea de crônicas suas publicadas no jornal Folha de S. Paulo, também mostra a faceta humanista de Lara Resende. Além de seu talento para observador perspicaz do dia a dia do país.

Jornalista e escritor, a quem Nelson Rodrigues recomendou a companhia de um taquígrafo que anotasse suas frases para vendê-las, de tão lapidares e espirituosas, Otto Lara Resende formou com Sabino, Helio Pellegrino e Paulo Mendes Campos uma patota intelectual. “Os quatro cavaleiros do Apocalipse íntimo”, como os chamava Carlos Drummond de Andrade, eram onipresentes na segunda metade do século XX no Brasil.

Mas foi com Sabino, de quem foi amigo por mais de 50 anos, que se deu a relação mais próxima. Os dois até fundaram uma editora, a Do Autor, por onde Lara Resende publicou algumas de suas obras mais conhecidas, como o romance O Braço Direito e o livro de contos e novelas O Retrato na Gaveta.

A dedicação de Lara Resende às cartas e aos amigos era tanta que não raro se exasperava com a lentidão ou a ausência de respostas às suas cartas. “Estou convencido de que sou o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar”, reclama ele em uma das missivas. Respondidas ou não, as cartas continuavam sendo enviadas. Hoje, elas servem para compor o retrato dos protagonistas de uma época rica para o jornalismo e a literatura brasileira.

Taciturno e sombrio quando escrevia ficção, Lara Resende era bem humorado, à vontade e dado a chistes quando tratava com Sabino. Mesmo vivendo em um momento político delicado, a ditadura militar no Brasil, os dois se dedicam pouco ao assunto nas cartas. Lara Resende, quase nada fala da cultura de Lisboa e Bruxelas, onde foi adido cultural.

Preferia saber do amigo, falar dos aborrecimentos com o trabalho e compartilhar dificuldades na criação dos seus romances e contos. Como não foi capaz de fazê-lo em público, o jornalista se permite um momento de desforra quando, sem economizar palavrões, desanca Wilson Martins, o crítico literário mais respeitado de então, que demoliu seu romance O Braço Direito. Era este o seu lado de dentro.

Para o grande público, o Lara Resende que se apresentava era mais discreto, nem por isso menos divertido. Em crônicas diárias (são 266 em Bom Dia para Nascer), tratava de cotidianidades e debates leves, de literatura (tinha certeza da traição de Capitu a Bentinho, em Dom Casmurro), política, perfis de escritores, o verão carioca e dos amigos que aos poucos partiam. Sempre com frases curtas e exatas, dando a certeza de que Nelson Rodrigues estava certo em lhe recomendar um taquígrafo. Elas, as frases, agora estão à venda.

Rodrigo Levino


 

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