Geraldo Samor VEJA Mercados

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O capitalismo e seus protagonistas. A estratégia das empresas. A tal da mão invisível. O espírito animal. E as políticas públicas que ajudam e atrapalham.

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Geraldo Samor foi correspondente no Brasil do The Wall Street Journal, da agência Dow Jones e da International Financing Review (IFR). Foi produtor do Podcast Rio Bravo e consultor de hedge funds americanos com investimentos no Brasil. Desde 2014, é responsável pelo VEJA Mercados.

“Ela não acredita em preço”

Por: Geraldo Samor

Além de fortalecer a política macroeconômica, a Presidente Dilma Rousseff deveria rever a forma como lidou com a microeconomia em seu primeiro mandato e entender que o investimento privado não é a resultante de um jogo combinado com os empresários, e sim de regras claras que reconheçam que os preços de mercado são os verdadeiros balizadores do investimento.

DilmaRousseff4Abaixo, a coluna transcreve as impressões de um empresário com bom trânsito junto ao PT mas com uma visão crítica sobre a condução das políticas macro e micro no primeiro mandato de Dilma.

Suas preocupações ilustram bem as dificuldades da economia nos próximos anos se a Presidente não reavaliar a forma como tenta incentivar o setor privado.

Os comentários também podem servir de diagnóstico e plano de ação para o novo Ministro da Fazenda, cujo nome será conhecido em breve e cuja capacidade de persuasão junto à Presidente será crítica para a reversão das expectativas dos investidores com relação ao Brasil.

Segue o desabafo:

“A Dilma deve estar bastante chateada com a turma da FIESP, porque a política econômica dela veio de lá. Eles [empresários da FIESP] pediram a ela juro real baixo (mesmo à custa de inflação alta), crédito abundante e subsidiado, um câmbio nominal alto, uma política industrial seletiva, proteção tarifária e uma agenda para lidar com o custo Brasil — o que veio na forma de desonerações tributárias específicas e redução do custo de energia.

Ela foi lá, mudou a regulação na marra, expropriou bilhões do setor de energia e derrubou a tarifa.

Voltou nos empresários e disse: ‘Senhores, baixei o juro na porrada, o câmbio se desvalorizou, e o BNDES está emprestando como nunca. Fiz tudo isto em prol dos senhores! Agora entreguem!’

Essa agenda deu no que deu: crescimento zero, inflação alta e investimento baixo. Ou seja, a Dilma e a FIESP são dois lados da mesma moeda. Nenhum dos dois acredita em mercado!

A verdadeira guinada na política econômica seria ela começar a acreditar em preço, acreditar nos mercados e nos preços como mecanismos de alocação de recursos. Ela não acredita em preço.

A diferença entre alguém que acredita em preço e outro que não acredita é a seguinte: o primeiro sabe que os empresários vão plantar mais ou menos berinjelas dependendo do preço da berinjela no mercado. Quem não acredita em preço acha que é só pegar o telefone e mandar o empresário plantar uma berinjela. Não é assim.

Quando o Governo e o mercado falam em política econômica e movimento de reaproximação, estão falando essencialmente da gestão macro (política monetária, câmbio, fiscal) e não das reformas micro. No macro, acho que um certo otimismo faz sentido: a Dilma é pragmática o suficiente para perceber que o mix atual de política não fucionou bem. Acho que mudanças para melhor virão – na margem.

Eu acho que ela vai melhorar o lado fiscal, aliás, isso é relativamente fácil, depois de todos os absurdos que fizeram [de contabilidade criativa] nos últimos anos.

Acho que vamos deixar de ser um aluno ‘D’ para ser um aluno ‘C-‘.

Já no micro eu estou bastante pessimista. Para haver alguma guinada nesta seara a Dilma e a sua equipe precisariam começar a acreditar que o mercado é a grande ferramenta de alocação de recursos da economia, e não as negociações com empresários ou ordens diretas a eles.

Esse papo de se reaproximar do diálogo com os empresários reflete o modo ingênuo e até acadêmico como o PT vê os mercados. O PT acha que o mercado são 30 pessoas com quem você fala quando quer. O mercado não é uma entidade para quem você pode telefonar e marcar uma reunião com ele. O mercado não é o Trabuco nem o Roberto Setúbal. É um ente despersonalizado que se orienta principalmente pelos incentivos, pelos preços.

No contexto micro, “mais diálogo” não é uma sinalização tão boa assim: não adianta nada “combinar o jogo” com as empresas se os preços não são consistentes com a dinâmica de oferta e demanda. E eu realmente acho que o governo não se converteu neste aspecto.

De novo, veja a questão da energia… estamos à beira de um apagão, despachando térmicas a torto e a direito, e o governo está falando em baixar, radicalmente, o preço de energia (que já era fixado por fórmula) no mercado spot. Acho que eles não entendem que, a despeito do que as empresas digam ou prometam, preço mais baixo significa consumo maior. Não dá para revogar a lei da gravidade por decreto.

Enfim, não sei se o governo entendeu que as coisas não deram certo porque certos princípios elementares de mercado não foram observados. Acho que o governo pensa que as coisas não deram certo porque, apesar dele ter feito “a parte dele”, o empresariado não entregou, não investiu, não produziu. Então a resposta seria “mais diálogo”. Não é. A resposta é mais mercado.”

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Comentários

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  1. cresyl ap

    MUDANDO DE PATO PARA GANSO ! MAS QUE TEM TUDO HAVER,É SÓ REFRETIR . QUE TAL COMEÇAR AGORA UMA REFORMA NO SISTEMA VOTAÇÃO CANSADO E ULTRAPASSADO NO BRASIL , PARA DAR UM BASTA NESSA POLITICA DE “ QUEM TA EM CASA PREPARA A CASA PRA ELA ´´ .PARA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES SOU A FAVOR DO VOTO NÃO OBRIGATÓRIO !. FOI DADO O PONTAPÉ INICIAL! já !

  2. Rodrigo

    é aquele negócio. Quando é q aqui no Brasil nego vai parar de discutir sobre se o mundo é redondo ou não?

    Teoria economica ortodoxa está ai comprovada matematicamente, reconhecida até por premio nobel, e continuamos achando q vamos inventar a roda.

  3. Ricardo Silva Bispo

    Esta criatura estudou economia onde?

    Estes alunos do Belluzo…

  4. Eduardo Queiroz

    Excelente diagnóstico. Sou economista e fico estarrecido com a histórica tentativa dos esquerdistas de fazer política econômica por decreto, achando que manipular preços é a forma mais correta de gerir a economia de um país… isso não deu certo na União Soviética, na Coréia do Norte, em Cuba e na Venezuela mas a Dilma pensa que ela pode ter resultados melhores fazendo o mesmo…

  5. Alan

    A Dilma e o Lula não são duas bestas como parecem. Quem sabe eles não estejam pensando: ‘quanto mais fraco o inimigo, mais fácil derrotá-lo’

  6. Gui

    Que texto foda! Resumiu o que eu já pensava sobre a Presidente, mas nunca conseguiria formular tão bem.

  7. José Carlos Lobo Barbosa

    Na real: Dilma não sabe como funciona a economia!

    Pegando somente um dado que considero um dos mais importantes: a dívida bruta (e não a dívida líquida que os petistas preferem falar já que os mesmos mudaram a metodologia de cálculo, ou seja, dá-lhe contabilidade criativa e pedaladas)!

    O governo Dilma do PT aumentou a dívida bruta de 53,3% do PIB em dez/2010 com Selic (taxa básica de juros) a 10,75% a.a. para 61,7% do PIB em setembro/2014 com a Selic a 11,25% ao ano.

    Todos os analistas econômicos internacionais utilizam o critério da dívida bruta em seus estudos comparativos e o FMI, utilizando de outra metodologia, diz que a dívida bruta do Brasil em setembro/2014 está em 65,8% do PIB e bem acima de 35,9%, que é a média da dívida bruta dos emergentes segundo o FMI.

    Informativo Semanal de Economia Bancária – Semana de 3 a 7 de novembro – Ano 6, Nº. 268

    http://www.febraban.org.br/7Rof7SWg6qmyvwJcFwF7I0aSDf9jyV/sitefebraban/ISEB%20de%2003%20a%2007%20de%20novembro%202014.pdf

    Contas públicas fecham setembro com pior resultado da série histórica. Rombo foi recorde, com déficit de R$ 25,5 bilhões só no mês de setembro. Despesas do governo federal têm crescido muito mais do que arrecadação (contém vídeo com gráfico de barra com o aumento da dívida bruta)

    http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/11/contas-publicas-fecham-setembro-com-pior-resultado-da-serie-historica.html

  8. Mário

    Parece que este empresário é realmente muito próximo do PT, pois joga toda a culpa na FIESP. Gastos maiores que arrecadação, empréstimos secretos, perdão de dívidas, espoliação das empresas públicas, milhares de cargos comissionados, aparelhamento do estado, investimentos absurdos com a copa, bilhões em propaganda, desvio de rios de dinheiro, também foram conselhos dos empresários?

  9. G. E. Ferret

    A culpa da política econômica furada agora é da FIESP. Dilma é inocente.

  10. RONALDE

    Esse senhor é mestre em economia. Brilhante explanação de como funcionam as coisas para quem tem um pouco mais de neurônios ativados. O que se ouviu falar até agora é que a Dilma está procurando um Ministro da Fazenda que tenha trânsito no mercado, ou seja, com aqueles 30 que o Samor afirma que representam o “mercado”. Aqueles que, “en petit comitè”,continuarão a solicitar todas as benesses que o governo pode lhes oferecer.

  11. pedro

    O PT não tem e nem nunca teve, economistas que trabalharam na iniciativa privada. Não passam de professores de história econômica e economia brasileira, aonde: Marx, Shumpeter e Keynes, são a base se suas teses.
    sistema de preços, como alocação de recursos, não entendem, pois o “planejamento governamental” sempre foi o sonho, com vistas a marcar as suas gestões na história.
    A teoria microeconômica nunca foi levada a efeito. A consequência é essa!!!

  12. Maria

    Excelente desabafo!!!

  13. Evandro

    Pedir que petista seja inteligente e contraproducente!

  14. Eduardo

    O respeito elementar às regras básicas do mercado significa, em síntese, que DINHEIRO NÃO ACEITA DESAFORO.
    É muito fácil querer dar uma de “Mandrake” com o dinheiro do contribuinte. Mais fácil ainda, quando as coisas dão errado – COMO DERAM – justificar em nome da SEMPRE CRISE INTERNACIONAL.
    Quer enganar a quem, Dona Dilma e Cia??????????????????

  15. Pedro

    Acho que mesmo em cenário desfavorecido, onde encontramos um governo altamente intervencionista, que acaba afastando os empresários e capital, as expectativas, que eram baixas antes das eleições, e ao meu ver é a variável de maior persuasão do mercado, não corroborou de forma grave o mercado. As expectativas de dólar a R$ 2,80 e queda constantes na bolsa, não foram confirmas e o mercado não reagiu segundo essas previsões. A visão do amanhã(que foi o “ontem”), interfere, e muito, no agora(o hoje). Alguma incongruência está acontecendo. O mercado não está reagindo as suas expectativas. Queria saber o que está mudando.

  16. paulodf

    Eles entendem bem de mercado. Inclusive se faltar papel higiênico é porque o brasileiro está comendo muito.

  17. Sergio Costa

    Perfeita a análise. O problema básico com a turma do Foro de São Paulo é que eles não acreditam no mercado, não acreditam no capitalismo. Basta ver o que acontece nos países vizinhos, em especial na Argentina e na Venezuela, para ver o que nos aguarda se continuarmos nesse rumo.

  18. silvando antonio

    Proteção demais não funciona nem a nível familiar, agora imagina no ambito empresarial. É só chorar que brota uma ideia estupida desse governo. Esses economistas petista realmente impressionam. Rsrsrsrsrsrsr.

  19. Fernando Basso

    È isso aí Geraldo, só que mercado e comunistas não se relacionam bem, o mercado insiste em sua independência e eles acham que tem o poder sobre a economia, se olhassem a Venezuela teriam uma aula de mercado, pelo menos a velha e boa lei da oferta e procura eles aprenderiam, não há mágica que revogue esta lei.

  20. ze da silva

    brilhante!

  21. cezaroni de campos

    Ai meu amigo, ou a corda é curta ou o poço é muito fundo. A ideologização petista impede o raciocínio mercadológico. Seria, pera eles, uma pesedebeização branca. E isso nunca eles irão reconhecer ou aceitar.

  22. Léo Siqueira

    Só faltava!

  23. Januária Madre de Deus

    Foro de São Paulo revela as reais e intransigente medidas que qualquer idiota sentado na cadeira de ministro terá que obedecer, senão “rua”. Aprender espanhol é primordial ou dançar rumba!

  24. Juliano C.

    A cova é mais profunda do que imaginamos…