Blogs e Colunistas

20/03/2010

às 2:59 \ Na revista

A história em inquéritos

“Júlio César foi retratado por Plutarco. Lorenzo de Medici foi retratado por Maquiavel. Frederico II foi retratado por Thomas Carlyle. Lula será eternamente recordado pelos depoimentos de Roberto Jefferson, Hélio Malheiro e Lúcio Bolonha Funaro”

A biografia de Lula será escrita nos tribunais. O julgamento histórico de seus oito anos no poder estará estampado numa série de inquéritos penais. Ele permanecerá na memória nacional através do testemunho daqueles que rapinaram em seu nome. Júlio César foi retratado por Plutarco. Lorenzo de Medici foi retratado por Maquiavel. Frederico II foi retratado por Thomas Carlyle. Lula? Lula será eternamente recordado pelos depoimentos de Roberto Jefferson, Hélio Malheiro e Lúcio Bolonha Funaro. Quem precisa de Plutarco, se tem o presidente do PTB? Quem precisa de Maquiavel, se tem um técnico da Bancoop? Quem precisa de Thomas Carlyle, se tem o doleiro da Garanhuns?

Lula, até recentemente, ainda podia esperar que as ilegalidades praticadas em seu governo passassem impunes. As reportagens publicadas em VEJA, nas duas últimas semanas, demonstraram que isso nunca vai acontecer. No futuro, quando alguém quiser relatar os fatos deste período, terá de recorrer necessariamente aos processos judiciais, que detalharam o modo lulista de se organizar, de se acumpliciar, de se infiltrar e de fazer negócios. Está tudo lá: dos adesivos da campanha eleitoral de 2002, pagos com o dinheiro dos mutuários da Bancoop, às propinas dos parlamentares mensaleiros, pagas com o dinheiro do Banco Rural. As tramas, os nomes dos personagens e as mentiras repetem-se continuamente.

Alguns dos processos contra os lulistas podem desandar. Alguns dos réus podem ser inocentados. Mas um depoimento como o de Lúcio Bolonha Funaro assombrará para sempre a memória de Lula, como o fantasma do pai de Hamlet, que vem do purgatório para delatar seu assassino, o rei Cláudio:

FANTASMA – Escuta, Hamlet! Conta-se que o diretor-presidente da Portus, indicado pelo senhor José Dirceu, me picou quando eu me achava a dormir num shopping de Blumenau. Assim, todo o povo da Dinamarca foi ludibriado por uma notícia falsa da ASM Asset Management. Mas escuta, nobre mancebo! O pagamento “por fora” de 500 000 reais ao Partido dos Trabalhadores, que lançou veneno na vida de teu pai, agora cinge a coroa dele.

HAMLET – Vilão! Vilão que ri! Vilão maldito!

Hamlet sai dali e, muitas páginas depois, acaba se vingando do assassino de seu pai. Mesmo que os procuradores engavetem todas as provas contra os lulistas, mesmo que Dilma Rousseff seja eleita, a história de Lula será contada a partir dos depoimentos desses fantasmas.

Hamlet diz um monte de frases que podem ser aplicadas a Lula. A melhor delas é dirigida a Ofélia: “Vai embora. Vai depressa. Adeus”.

Por Diogo Mainardi

06/03/2010

às 2:55 \ Na revista

Yabadabadoo

“Depois de passar meses e meses na pedreira, o PSDB, como Fred Flintstone, escorregou pelo rabo do dinossauro, montou em seu carro pré-histórico e se pôs em marcha. Serra é o candidato”

– Serra.

– Como é que é?

– O candidato é ele.

– Quem?

– José Serra.

– José Serra é o candidato?

– José Serra é o candidato a presidente pelo PSDB.

– Decidido?

– Decidido.

– Certeza?

– Certeza.

– Posso espalhar?

– Pode.

– Yabadabadoo.

Depois de passar meses e meses na pedreira, o PSDB, como Fred Flintstone, escorregou pelo rabo do dinossauro, montou em seu carro pré-histórico e – yabadabadoo – finalmente se pôs em marcha.

De hoje em diante, tudo muda. Aquela repórter da Folha de S.Paulo, que na semana passada estava pronta para anunciar que José Serra desistiria da disputa e que foi desmentida por seus próprios colegas, terá de arrumar outro jeito de colaborar com o PT. Ao contrário do que pretendia a imprensa pautada e manipulada por Franklin Martins, José Serra decidiu candidatar-se. Mais do que isso: José Serra, insolentemente, decidiu eleger-se presidente da República. De fato, ele acredita que pode eleger-se presidente da República sem o consentimento de Lula. E, se nas últimas semanas os jornais só discutiram o papel de Aécio Neves na campanha, agora o foco passa a ser outro, infinitamente menos aborrecido: o que José Serra poderá propor ao eleitorado para conseguir derrotar Dilma Rousseff, ou Senhora Pedregulho, a candidata de Lula.

O PSDB é lento para engrenar, como o carro pré-histórico de Fred Flintstone. Por isso, o anúncio da candidatura presidencial de José Serra, com fanfarra e fogos de artifício, só ocorrerá nos próximos dias. Mas ele ocorrerá.

– Quando?

– Quando o quê?

– Quando José Serra pretende anunciar sua candidatura?

– A data é o que menos importa. O que importa é que ele já decidiu.

– Aécio Neves será seu companheiro de chapa?

– Aposto que sim. Mas isso é para depois. Maio ou junho. O fato, agora, é que o PSDB tem um nome.

– Ele?

– Ele mesmo.

– Jura?

– Juro.

– Ele ainda pode recuar?

– De maneira nenhuma.

– Serra?

– Serra.

Por Diogo Mainardi

20/02/2010

às 1:36 \ Na revista

A grande arca da TV Brasil

“A mandinga contra a ‘hegemonia cultural americana’ pode parecer ridiculamente antediluviana, mas os orangotangos e os patos do petismo se sentem reconfortados por ela”

Deus passa o dia inteiro com a TV ligada. Ele só assiste à TV Brasil. Ninguém assiste aos programas do canal, segundo os dados do Ibope. Somente Ele. Deus é o único espectador da TV Brasil. Como é que eu sei disso? Lula contou. Está lá, nas tábuas da lei do lulismo, o Dicionário Lula, de Ali Kamel: “Deus me deu o segundo mandato para fazer a TV pública brasileira”.

Lula, como Noé, respondendo ao chamado do Onipotente, fez o que lhe foi ordenado. Primeiro, ele construiu a grande arca da TV Brasil, revestindo-a de betume. Em seguida, embarcou nela um casal de cada espécie – um orangotango e uma orangotanga, um pato e uma pata, um Franklin Martins e uma Dilma Rousseff – e conduziu-os por quarenta dias e quarenta noites até os montes Ararat do éter, a fim de que eles se multiplicassem incestuosamente e povoassem a “TV pública brasileira” com seus descendentes.

Agora Deus tem outro plano. Ele decidiu destruir a TV a cabo. Ele disse a Marco Aurélio Garcia: “O fim de Law & Order é chegado perante mim”. Marco Aurélio Garcia, coordenador do programa de Dilma Rousseff, lhe obedeceu. Se Deus fizer com que Dilma Rousseff seja eleita, repetindo o que Ele já fez com Lula, “tudo o que há na TV a cabo expirará”. Marco Aurélio Garcia é autor de alguns dos maiores mitos apócrifos do lulismo. O último deles foi comparar American Idol à Quarta Frota dos Estados Unidos. Como sabemos que Deus elege o presidente do Brasil de olho na TV, escolhendo candidatos que lhe garantam programas como ABZ do Ziraldo, Dilma Rousseff já está eleita. O Brasil seria poupado de um monte de aborrecimentos se, para trocar de canal, Deus simplesmente usasse o controle remoto.

O mesmo Deus que elege o presidente do Brasil pode matar o presidente dos Estados Unidos. De uns tempos para cá, alguns pastores americanos passaram a imprecar para que Deus mate Barack Obama. Eles entoam o Salmo 109: “Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu ofício”. Marco Aurélio Garcia entoa o Salmo 109 contra o doutor House e a Quarta Frota Naval dos Estados Unidos. A mandinga contra a “hegemonia cultural americana” pode parecer ridiculamente antediluviana, mas os orangotangos e os patos do petismo se sentem reconfortados por ela. Para Marco Aurélio Garcia e suas criaturas, reunidos no congresso do PT, o paraíso terrestre está localizado na central nuclear iraniana de Natanz. Lula quer viver 950 anos, como Noé. Por isso, em 16 de maio, ele visitará o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (Salmo 109 nele!) e obterá seu apoio para a candidatura de Dilma Rousseff. O apoio de Deus? Esse ele já tem.

Por Diogo Mainardi

06/02/2010

às 0:49 \ Sem categoria

A era do cacarejo

“Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós”

Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.

A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro. Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro. Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos e escravos; ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu sozinho em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.

Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo. Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista. Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais.

Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente. Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas de mais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas de mais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?

Por Diogo Mainardi

23/01/2010

às 0:00 \ Na revista

Obama, Dilma e tia Clélia

“Quando os Estados Unidos bandearam para
a direita, nós também bandeamos. Melhor para nós.
Até na América Latina a esquerda está encrencada”

Barack Obama só durou um ano. Ele ia mudar tudo. Qual foi o resultado? Os americanos endireitaram. O maior sinal disso ocorreu na semana passada, quando a candidata democrata em Massachusetts, um dos maiores currais eleitorais do partido, foi derrotada por um republicano. Ele tomou a cadeira no Senado que por mais de quarenta anos pertenceu a Ted Kennedy, prometendo opor-se à reforma do sistema de saúde proposta por Barack Obama. O sistema de saúde americano pode ser perdulário. Ele pode criar desigualdades. Mas é melhor do que morrer num corredor do SUS.

O regressismo terceiro-mundista, que no último ano acometeu os Estados Unidos, foi detido. Chega de rombo fiscal. Chega de estatizar companhias falidas. Chega de financiar montadoras de carros. Chega de pacotes para o setor público. Chega de aumentar os impostos das empresas poluidoras. Chega de multilateralismo. Depois da posse de Barack Obama, até Lula se sentiu legitimado a teorizar sobre o capitalismo americano. Ele mesmo: Lula. A surra que os republicanos deram nos democratas, em Massachusetts, poderá conter o bolor bananista. Chega de Lula teorizando sobre o capitalismo americano.

Quando os Estados Unidos bandearam para a direita, nós também bandeamos. Melhor para nós. O programa eleitoral de Barack Obama, comemorado em todos os cantos do planeta, já foi enterrado. O aquecimento global é tratado com chacota. A temperatura média nos Estados Unidos diminuiu na última década: o maior poluidor do mundo está esfriando. No Haiti, os americanos atropelaram a ONU e militarizaram as áreas arrasadas pelo terremoto, salvando centenas de milhares de pessoas. O corpo de fuzileiros navais dos Estados Unidos é mais útil do que qualquer ONG. Até na América Latina a esquerda está encrencada. Hugo Chávez deflagrou uma guerra contra o PlayStation. E Lula está sendo apagado da memória. A média de espectadores de Lula, o Filho do Brasil foi menor do que a dos jogos do Macaé. Dilma Rousseff, sua candidata presidencial, está destinada à derrota. Porque ela, como Lula, personifica o passado. De fato, ela se assemelha cada dia mais à minha tia Clélia:

Quanto tempo Dilma Rousseff ainda poderá durar? Menos de um ano. Menos do que Barack Obama.

Por Diogo Mainardi

09/01/2010

às 1:00 \ Na revista

Herbert Richers vive

“Herbert Richers transformou nossa linguagem. Ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido”

A morte de Herbert Richers foi o acontecimento mais marcante de 2009. O mais marcante e, desoladoramente, o mais negligenciado. Herbert Richers montou seu estúdio de dublagem em 1950. Em seis décadas de trabalho, adaptando filmes, seriados de TV e desenhos animados, ele contribuiu de maneira decisiva para moldar e disseminar o dialeto tapuio com o qual passamos a nos comunicar.

Se a língua portuguesa teve Camões – com seus latinismos, com seus volteios eruditos, com sua sonoridade épica –, o patoá nacional teve Herbert Richers – com seus estrangeirismos, com seus falsos cognatos, com sua sonoridade de locutor de rádio. De dublagem em dublagem, Herbert Richers transformou nossa linguagem. Violentando predicados, pervertendo complementos, corrompendo particípios, ele revogou todas as regras que constrangiam nossa fala. Em particular, ele nos libertou da estapafúrdia necessidade de expressar um sentido. Mas ele foi mais longe do que isso. Além de revolucionar nossa linguagem, Herbert Richers revolucionou também nossa moral. Quando Jack Lemmon, numa comédia de Billy Wilder, tem a mesma voz e, principalmente, os mesmos atributos estéticos de Salsicha, num episódio do desenho animado Scooby-Doo (ambos – Jack Lemmon e Salsicha – dublados por Mário Monjardim), o resultado só pode ser uma sociedade como a nossa, em que todos os valores se equivalem e, portanto, se anulam.

No Brasil, atualmente, Dilma Rousseff é quem melhor encarna a reviravolta moral e linguística realizada por Herbert Richers. Ela é o epígono ideal de Carlos Campanile (dublador de Clint Eastwood, Al Pacino, Robert de Niro e Thor dos Cavaleiros do Zodíaco), de Garcia Neto (dublador de Gregory Peck e do Homem-Fera) e de Sumara Louise (dubladora do desenho Gasparzinho e de Meryl Streep). Se alguém lhe pergunta por que as obras do programa Minha Casa, Minha Vida continuam paradas, Dilma Rousseff responde como um médico-legista, num filme estrelado por Bruce Willis (ambos – Dilma Rousseff e Bruce Willis – dublados por Newton da Matta): “Olha, não é isso que nós estamos vendo. Não é isso que a gente está vendo e eu vou te falar a partir do que. Hoje, já tem mais de 400 projetos apresentados para a Caixa, dominantemente naquela distribuição em que zero a três é o pessoal que faz a moradia para renda de zero a três salários mínimos, é a grande maioria”.

Sim, a morte de Herbert Richers, ocorrida dois meses atrás, foi o acontecimento mais marcante de 2009. Mas ele estará sempre presente em 2010.

Por Diogo Mainardi

23/12/2009

às 22:33 \ Na revista

A chapa cabocla

“Uma chapa formada por José Serra e Marina Silva embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff”

Os dois juntos, na mesma chapa. Quem? José Serra e Marina Silva. Isso mesmo: José Serra, presidente, e Marina Silva, vice-presidente.

A ideia ainda é embrionária. Só é debatida no interior de um grupelho do PSDB. Mas ganhou impulso na semana passada, depois que Aécio Neves renunciou à candidatura presidencial e assoprou para a imprensa petista que rejeita terminantemente uma vaga de vice-presidente na chapa de José Serra – a chamada chapa puro-sangue. Apesar de todos os apelos do PSDB, Aécio Neves repetiu aos seus interlocutores que pretende candidatar-se ao Senado e dedicar-se integralmente à campanha para eleger seu sucessor em Minas Gerais, Antonio Anastasia.

Uma chapa presidencial formada por José Serra e Marina Silva – a chapa cabocla ou, melhor ainda, a chapa mameluca – embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff. O plano petista de contrapor Lula a Fernando Henrique Cardoso – o único atributo que, depois de muito empenho, os marqueteiros conseguiram arrumar para Dilma Rousseff – iria para o beleléu, considerando que Marina Silva, por mais de cinco anos, também fez parte do governo Lula. E a impostura bolivariana de que o PSDB defende o interesse dos ricos e o PT defende o interesse dos pobres seria imediatamente desmascarada. Em matéria de pobreza, ninguém pode competir com Marina Silva.

José Serra e Marina Silva saíram do armário duas semanas atrás, em Copenhague, na COP15. Um elogiou o outro, um apoiou as propostas do outro. Eles conseguiram até deter o aquecimento global, congelando o Hemisfério Norte e matando de frio algumas dezenas de poloneses. José Serra já está com a campanha presidencial pronta. O que ele representa é a “continuidade sem continuísmo”. Para o eleitorado, ele manterá as conquistas de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, e ainda poderá dar um passinho adiante. Apesar de atemorizar os banqueiros, José Serra é capaz de sossegar o lulista mais conservador. Se Marina Silva concordasse em se unir a ele, sua candidatura ganharia também um aspecto mais moderno, um caráter mais inovador.

Marina Silva, por outro lado, como candidata a vice-presidente poderia dar um sentido prático à sua plataforma ambiental, coordenando essa área no futuro governo José Serra. Reinaldo Azevedo, em seu blog na Veja on-line, disse que Marina Silva, mais do que candidata a presidente, é candidata a santa. Cruzei com ela recentemente e confirmo: ela levita. Elegendo-se na chapa de José Serra, ela teria a possibilidade de, finalmente, voltar a pisar no chão.

Por Diogo Mainardi

12/12/2009

às 1:15 \ Na revista

Eu e o urso canibal

“Se os meteorologistas cometem erro de um dia para o outro, como posso confiar em seus prognósticos para 2050 ou, pior ainda, para 2100?”

O que eu sei sobre o clima?

Eu sei que é um assunto para lá de aborrecido. Eu sei que Giorgione podia pegar uma tempestade e transformá-la numa obra de arte. Eu sei que William Shakespeare podia pegar uma tempestade e transformá-la em outra obra de arte. Eu, prosaicamente, só sei pegar disenteria com as tempestades, como a que cai agora, espalhando esgoto pela Praia de Ipanema. Sim: eu sou um Giorgione dos protozoários. Sim: meu intestino delgado é uma Stratford-upon-Avon dos adenovírus.

Meteorologistas do mundo inteiro reuniram-se em Copenhague para uns debates para lá de aborrecidos sobre o clima. Eles alardeiam que, se continuarmos a emitir CO2, a temperatura da Terra aumentará sem parar, causando uma catástrofe. O que eu sei sobre isso? Eu sei que, antes de ontem, os meteorologistas de O Globo calcularam que a temperatura mínima no Rio de Janeiro, ontem, chegaria a 22 graus. Na realidade, ela foi de 20,6 graus. Se os meteorologistas de O Globo, de um dia para o outro, cometem um erro desse tamanho, como posso confiar em seus prognósticos para 2050 ou, pior ainda, para 2100? Só esse erro de cálculo – de 1,4 grau – já seria suficiente para submergir os atóis de Tuvalu, na Polinésia.

Eu sei – e sei porque li em O Globo ou em algum outro jornal – que o alarme dos meteorologistas sobre o aquecimento global se baseia em um gráfico com a forma de taco de hóquei. A temperatura do planeta, segundo esse gráfico, teria se mantido igual por milhares de anos, subindo abruptamente – como a lâmina de um taco de hóquei – no último século, quando o homem passou a emitir uma grande quantidade de CO2. E como é que os meteorologistas sabem qual era a temperatura na Terra 1 000 anos atrás? Eles sabem porque um deles, professor de East Anglia, analisou doze troncos de pinheiros siberianos, colhidos na Península de Yamal. Agora os professores de East Anglia foram flagrados manipulando alguns desses dados.

Os meteorologistas associam o CO2 ao derretimento da calota polar ártica. Eu só associo o CO2 à água Prata. A calota polar ártica, de acordo com todos os cálculos, deveria estar diminuindo. O que mostram as imagens de satélite, nos últimos anos, é o oposto. Em 2009, há mais gelo do que em 2008. Em 2008, havia mais gelo do que em 2007. Em 2007, havia mais gelo do que em 2006. A calota polar ártica, neste momento, cobre praticamente a mesma área de 1996, exceto por um ou dois pontos, confirmando a teoria de Lula de que a Terra é quadrada.

Os leitores de jornal, alguns dias atrás, foram amedrontados pela imagem de um urso polar canibal. O que eu sei sobre o assunto é que, nos tempos de Giorgione e de William Shakespeare, talvez houvesse menos CO2, mas nós brasileiros já comíamos uns aos outros.

Um dado que ninguém tem, só eu: no segundo turno, de acordo com a última pesquisa eleitoral do Ibope, José Serra teria 51 pontos e Dilma Rousseff, 25. Descontando os votos brancos e nulos: 67 a 33. Ao contrário da calota polar ártica, Dilma Rousseff continua a derreter.

Por Diogo Mainardi

28/11/2009

às 2:21 \ Na revista

Apagão mainardiano

“A partir desta semana, por um período de seis meses, minha coluna em VEJA se tornará quinzenal. Duas semanas por mês, meu cantinho de página se apagará como uma linha elétrica de Furnas. Quem quiser me encontrar no escuro terá de acender um fósforo e torrar as pontas dos dedos”

Se a imprensa está acabando, quero acabar antes dela. É uma corrida contra o tempo. Eu já tomei a dianteira: a partir desta semana, por um período de seis meses, minha coluna em VEJA se tornará quinzenal. Duas semanas por mês, meu cantinho de página se apagará como uma linha elétrica de Furnas. Quem quiser me encontrar no escuro terá de acender um fósforo e torrar as pontas dos dedos. Serei um dos pioneiros na conquista desse território selvagem, sem lei e sem imprensa – Ringo Kid atacado no deserto por uma tribo de apaches analfabetos. Isso mesmo: John Wayne e eu.

Esta coluna está completando onze anos. O leitor, constrangido, seguiu semanalmente o “Big Brother” mainardiano. Nunca acreditei em Deus, mas acredito em Boninho. O Boninho celestial trancou-me nesta casa cenográfica e mostrou cada detalhe de meu emocionante dia a dia: o nascimento de meus dois filhos, a saída da Itália, o retorno ao Brasil, os debates acalorados, o “impeachment” de Lula. Olhe o Diogo no tribunal! Olhe o Diogo insultando o presidente! Olhe o Diogo passeando de bicicleta em Ipanema! Olhe o Diogo rebolando na beira da piscina! Isso mesmo: Grazi e eu.

Decidi diminuir temporariamente meu ritmo de trabalho na imprensa para poder ficar deitado na cama olhando para o teto. Eu só consigo pensar deste jeito: deitado na cama e olhando para o teto. Alguns meses atrás, assinei um contrato para escrever um livro. O dinheiro do adiantamento passou a pingar todos os meses em minha conta, mas o livro ainda não saiu do lugar. Agora poderei dedicar tempo a ele. Olhe o Diogo deitado na cama olhando para o teto! O que é aquilo? O Diogo continua deitado na cama, olhando para o teto?

Os episódios mais marcantes do “Big Brother” mainardiano foram sobre meu desempe–nho como pai. O leitor bisbilhotou essa gincana minuto a minuto: a barbeiragem cometida pelos médicos no parto de meu primeiro filho, a descoberta de que ele tinha uma paralisia cerebral, seus primeiros 359 passos, o nascimento de meu segundo filho, a alegria de poder ficar o tempo inteiro com os dois. O que farei de agora em diante, entre uma coluna e outra, é escrever uma reportagem sobre esses temas. Confortado pelo fato de que, nas últimas semanas, meu filho ganhou uma batalha indenizatória contra o SUS italiano e garantiu legalmente que ninguém poderá eliminá-lo do programa.

Se a imprensa resistir até lá – Geronimo está à espreita, no alto da colina, preparando seu ataque –, voltarei a escrever semanalmente em meados de 2010, durante a campanha eleitoral. É bom poder participar do tiroteio, a bordo desta carruagem. Em onze anos, matamos um monte de apaches analfabetos. Falta matar outro monte.

Por Diogo Mainardi

21/11/2009

às 0:02 \ Na revista

Quem é o ‘Filho do Brasil’

“O chefe da propaganda de Benito Mussolini era seu genro, Galeazzo Ciano. Lula, por sua vez,tem de se arranjar com Franklin Martins”

Luiz Carlos Barreto, o Filho do Brasil.” Ele, Luiz Carlos Barreto, é um personagem um tantinho menos oco do que aquele outro, canonizado em sua última obra, Lula, o Filho do Brasil. Quem é Lula? Eu o resumiria numa única linha: um retirante maroto que sonha em se transformar em José Sarney. Ele é Vidas Secas sem Graciliano Ramos. Ele é Antônio Conselheiro sem Euclides da Cunha. Ele é, citando outra patetice sertaneja produzida por Luiz Carlos Barreto, quarenta anos atrás – os filhos do Brasil repetem-se tediosamente de quarenta em quarenta anos –, o cangaceiro Coirana, sem Antônio das Mortes.

Quem já assistiu a um cinejornal do “Istituto Luce” sabe perfeitamente o que esperar de Lula, o Filho do Brasil. Benito Mussolini, em Roma, conclamando as massas, é igual a Lula, no ABC, imitando Bussunda. O chefe da propaganda de Benito Mussolini era seu genro, Galeazzo Ciano. Lula, por sua vez, tem de se arranjar com Franklin Martins, coordenador do MinCulPop lulista. Mas o fato é que, a cada dia mais, o “filho de Dona Lindu” macaqueia o “filho do ferreiro de Predappio” – só que num cenário mais indigente e embolorado.

Se o crack de 1929 consolidou aquilo que Benito Mussolini chamou de “estado empreendedor”, o crack de 2008 fez o mesmo com Lula. A economia fascista tinha IMI e IRI, bancos públicos que forneciam crédito à indústria italiana, privilegiando os aliados do regime. A economia lulista tem Banco do Brasil e BNDES, que desempenham um papel semelhante. Benito Mussolini era celebrado na propaganda oficial por ter “restringido as desigualdades sociais”. Lula? Também. Os triunfos italianos nas Copas do Mundo de 1934 e 1938 foram creditados ao Duce, que compareceu aos jogos finais, assim como a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 foram creditadas a Lula. Recentemente, Lula arrumou até seu próprio ditador antissemita, que promete repetir o holocausto: o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, recebido com pompa na capital do lulismo. Os “anos do consenso” de Benito Mussolini duraram de 1929 a 1936. Quanto podem durar os de Lula?

Luiz Carlos Barreto, em 1966, produziu um curta-metragem de propaganda para José Sarney. O curta-metragem foi dirigido por um conhecido marqueteiro: Glauber Rocha. Desde aquele tempo, Luiz Carlos Barreto, “o Filho do Brasil”, é quem melhor sintetiza o caráter nacional. Durante a ditadura militar, ele tomou conta da Embrafilme. No período de Fernando Henrique Cardoso, ele fez propaganda para a Embratur e para o BNDES. Quando o lulismo foi desmascarado, em 2006, ele disse: “O mensalão não era mensalão. Era uma anuidade. Faz parte da ética política. E a ética política é elástica”. A ética cinematográfica é igualmente elástica. E, no caso de Luiz Carlos Barreto, é uma anuidade.

Luiz Carlos Barreto, homenageado no Senado por Roseana Sarney, que o chamou de “grandalhão dócil e amável do cinema brasileiro”, agora planeja filmar o romance Saraminda, de José Sarney. É dessa maneira que Lula passará para a história: como uma mera anuidade no intervalo entre o José Sarney de 1966 e o José Sarney de 2010.

Por Diogo Mainardi

 

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