Blogs e Colunistas

07/08/2010

às 0:02 \ Na revista

Como em Pompeia

“Se Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum, ela é igual também a Cuspium Pansam. Seus cartazes de propaganda eleitoral, resgatados nas ruínas de Pompeia, aludiam exclusivamente à figura de seu padrinho”

Ceium Secundum é igual a Dilma Rousseff. Melhor dizendo: Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum. Quem é Ceium Secundum? Ele é, antes de tudo, um morto. Ele morreu quase 2 000 anos atrás, quando as cinzas do Vesúvio soterraram Pompeia, em 24 de agosto de 79. Ele é, portanto, um morto e uma múmia. Além de ser um morto e uma múmia, Ceium Secundum, no momento da tragédia que matou todos os moradores da cidade, era candidato a um cargo público. Quando os arqueólogos italianos, no século XIX, desenterraram Pompeia, encontraram alguns de seus cartazes de propaganda eleitoral. Um deles dizia o seguinte:

Ceium Secundum para duoviro.

Seu pai o apoia.

É nisso que Ceium Secundum e Dilma Rousseff se assemelham. Tanto um quanto o outro só possuem um atributo eleitoral: o apoio de quem os gerou. O primeiro tem o apoio do pai, a segunda tem o apoio de Lula. Na última quarta-feira, em Paraty, Fernando Henrique Cardoso declarou que ninguém sabe o que Dilma Rousseff pensa porque ela nunca fala. Ela nunca fala porque ninguém quer que se saiba o que ela pensa. Ou pode ser que ela nunca fale porque nem ela sabe o que pensa. O que conta, para ela, é apenas quem a apoia. Dilma Rousseff para duoviro? Sim: melhor do que para presidente.

Se Dilma Rousseff é igual a Ceium Secundum, ela é igual também a Cuspium Pansam. Seus cartazes de propaganda eleitoral, resgatados nas ruínas de Pompeia, aludiam exclusivamente à figura de seu padrinho:

Cuspium Pansam para conselheiro.

Quem pede para votar nele é Fabius Eupor, o príncipe dos libertinos.

O padrinho de Dilma Rousseff, Lula, pede para votar nela. Na verdade, ele vem pedindo isso há mais de dois anos, num gesto de pura libertinagem eleitoral. Lula tem um grande senso de oportunidade. Se um sagui é capaz de escolher o momento certo para entrar pela janela da cozinha e pegar um cacho de bananas, Lula foi capaz de escolher o momento certo para atropelar as leis e apoiar sua candidata presidencial. Assim como Ceium Secundum e Cuspium Pansam, as múmias pompeianas, Dilma Rousseff sempre se manteve à sombra de alguém. Quando participava da luta armada, seu principal papel era o de mulher. Ela era a Amélia da VAR Palmares. Primeiro, casou-se com um terrorista. Depois, trocou-o por outro terrorista. Se Dilma Rousseff fosse iraniana, já estaria condenada à morte. O fato é que, de marido em marido, ela foi fazendo carreira na burocracia estatal, até chegar a Lula, que se tornou seu pai, seu padrinho. Ninguém sabe o que ela pensa porque ela nunca fala. O que se sabe é que, se ela for eleita daqui a dois meses, o Brasil será soterrado por cinzas ancestrais.

Por Diogo Mainardi
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24/07/2010

às 0:58 \ Na revista

Vou embora

“Oito anos depois de desembarcar no Rio de Janeiro, de passagem, estou indo embora. Um vagabundo empurrado pela vagabundagem. É uma sina: andar para cima  e para baixo, à toa”

Fabiano, o retirante de Vidas Secas, é igual a um bicho. Graciliano Ramos compara-o a um cavalo. Ele compara-o também a um tatu, a um macaco, a um cachorro e a um pato. Se Fabiano é igual a um bicho, eu sou igual a Fabiano. Está lá, na primeira parte do romance:

“A sina [de Fabiano] era correr mundo, andar para cima e para baixo, à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede que tomava amizade à casa, ao curral, ao chiqueiro das cabras”.

Oito anos depois de desembarcar no Rio de Janeiro, de passagem, estou indo embora. Um vagabundo empurrado pela vagabundagem. É uma sina: andar para cima e para baixo, à toa. Sim senhor, tomei amizade à cidade. O Rio de Janeiro — e, em particular, Ipanema, que me hospedou — tornou-se para mim um verdadeiro chiqueiro das cabras.

Os quatro protagonistas de Vidas Secas — Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho e o menino mais novo — vagam silenciosamente pela caatinga, “onde avultam as ossadas e o negrume dos urubus”. Quando o menino mais velho, sedento e faminto, cai na lama rachada, tomado por uma vertigem que o impede de dar um passo a mais, Fabiano diz:

— Anda, excomungado.

Eu, minha mulher, o menino mais velho e o menino mais novo vagamos rumorosamente pelos corredores desertos do aeroporto Tom Jobim, onde avultam as ossadas e o negrume da Air France. Quando o menino mais velho, que caminha com um andador, resolve empacar, recusando-se a dar um passo a mais, eu digo, sim senhor:

— Anda, excomungado.

Fabiano tem medo de ser preso. Eu também tenho medo de ser preso. Fabiano tinha uma cadela chamada Baleia. Eu vi uma baleia, algumas semanas atrás, no mar de Ipanema. Fabiano, para matar a fome, acaba comendo seu papagaio. Eu, antes de ir embora do Rio de Janeiro, tratei de comer todas as sobras da geladeira, inclusive um ovo de Páscoa coberto de bolor.

Nas primeiras linhas de Vidas Secas, Fabiano parte, sem saber para onde. Nas últimas linhas do romance, ele parte novamente, sonhando com “uma terra desconhecida e civilizada”, onde os meninos iriam para a escola e sua mulher nunca mais teria de lamber o focinho ensanguentado de uma cadela. Depois de comparar Fabiano a um cavalo, a um tatu, a um macaco, a um cachorro e a um pato, Graciliano Ramos, nos instantes finais, apieda-se e, bisonhamente, humaniza-o. Fabiano sonha em parar de andar para cima e para baixo, à toa. O que eu digo? Eu digo:

— Anda, excomungado.

Por Diogo Mainardi
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10/07/2010

às 0:09 \ Na revista

Robben, a ilha e o jogador

“Se, depois de sair da Ilha Robben, Nelson Mandela derrotou o fanatismo racista, Robben, com seus dribles, deu um passo adiante, ridicularizando o fanatismo politicamente correto e a propaganda multirracial”

A ilha Robben. Nelson Mandela passou duas décadas preso na Ilha Robben. O regime do apartheid tinha ali sua mais temida cadeia. E quem foi o mais temido protagonista da Copa do Mundo na terra de Nelson Mandela? Isto mesmo: Robben, o camisa 11 do time da Holanda, o ponta-direita repetidamente chutado por Michel Bastos e pisoteado por Felipe Melo.

Robben é branco. Van Bommel é branco. Sneijder é branco. Iniesta é branco. Casillas é branco. Villa é branco. De acordo com a Lei de Registro Populacional, promulgada pelo regime do apartheid, os finalistas da Copa do Mundo, Holanda e Espanha, foram escalados da seguinte maneira:

Holanda (4-2-1-3) – Branco; coloured, branco, branco e branco; coloured e branco; branco; branco, branco e branco. Técnico: branco.

Espanha (4-4-2) – Branco; branco, branco, branco e branco; branco, branco, branco e branco; branco e branco. Técnico: branco.

A última final de Copa do Mundo com tantos jogadores brancos ocorreu quando Nelson Mandela ainda estava preso na Ilha Robben. Só o vestiário de um campo de críquete, nos tempos do regime racista, poderia igualar-se ao vestiário do estádio de Johannesburgo, na final desta Copa do Mundo.

Além de ser branco e de ter o nome de uma temida cadeia do regime do apartheid, Robben jogou com aquele seu uniforme laranja. O laranja, da casa real holandesa, era a cor dos colonos bôeres. Trata-se de mais um símbolo do passado segregacionista encarnado por Robben. A arquibancada do estádio de Johannesburgo, com todos os torcedores vestidos de laranja, evocava o Estado Livre de Orange.

Os holandeses chegaram à Cidade do Cabo em meados do século XVII, com a Companhia das Índias Orientais. Eles ocuparam o território, disseminaram a escravatura, massacraram os zulus, combateram os ingleses, apoiaram os nazistas e, finalmente, segregaram os negros durante o apartheid. Quase 400 anos antes da canhotinha de Robben, os holandeses já eram temidos protagonistas naquele lugar.

Da Ilha Robben a Robben, porém, tudo mudou. A memória do apartheid só permaneceu como instrumento de poder do partido de Nelson Mandela, o CNA. Em vez de ser usado, como no passado, para segregar os negros em guetos nefandos, atualmente ele é usado apenas para tentar acobertar as nefandezas cometidas pelos mandatários do CNA, como o presidente Jacob Zuma, um dos antigos prisioneiros da Ilha Robben.

Se, depois de sair da Ilha Robben, Nelson Mandela derrotou o fanatismo racista, Robben, com seus dribles, deu um passo adiante, ridicularizando o fanatismo politicamente correto e a propaganda multirracial. O temido protagonista do time da Holanda fundou, com sua canhotinha, o Estado Livre de Robben.

Por Diogo Mainardi
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26/06/2010

às 0:11 \ Na revista

O caso do Sr. D

“Acreditar que um de nós possa ter mais autonomia de pensamento do que um pombo é um daqueles desejos infantis interpretados por Sigmund Freud. Continue a insultar e a castigar o pessoal da imprensa, Dunga!”

Sigmund Freud? Na última semana, o jornal O Globo consultou uma série de psicanalistas para tentar entender a personalidade de Dunga. Ou, freudianamente: “O caso do Sr. D”. Isso demonstra que ele, Dunga, está certo: o pessoal da imprensa realmente merece ser insultado e castigado. Que o Brasil — e, em particular, o Rio de Janeiro — tenha uma série de psicanalistas já é um contrassenso. O que caracteriza os brasileiros é nossa mente perfeitamente desprovida de pensamentos conscientes ou inconscientes. O técnico da Eslováquia, Vladimir Weiss, poderia ser psicanalisado. Assim como Dunga, ele costuma insultar e castigar os repórteres, chamando-os de estúpidos. Mas, ao contrário do que ocorre com os eslovacos, as categorias da psicanálise sempre soam ridiculamente impróprias quando aplicadas aos brasileiros.

O Brasil, mais do que um ensaio de psicanálise, é um teste behaviorista. E, se o Brasil é um teste behaviorista, Dunga só pode ser nosso B.F. Skinner. Ele faz com seus jogadores precisamente o mesmo que, nos primórdios do behaviorismo, B.F. Skinner fazia com os pombos e com os macacos de seu laboratório. Primeiro, prende-os numa gaiola. Segundo, isola-os de qualquer contato com o exterior. Terceiro, raciona seus alimentos. Quarto, condiciona seu comportamento administrando-lhes choques elétricos. Luis Fabiano recebe 220 volts no pé direito toda vez que perde um gol. Quer saber o que é melhor? Funciona. Acreditar que um de nós possa ter mais autonomia de pensamento do que um pombo ou do que um macaco de laboratório é um daqueles desejos infantis interpretados por Sigmund Freud. Continue a insultar e a castigar o pessoal da imprensa, Dunga! Pode ser que um dia eles também aprendam que, quando aquela luzinha vermelha se acende, dentro da gaiola, está na hora de fugir.

No período em que jogou no time da Fiorentina, Dunga interessou-se pela obra de Maquiavel. B.F. Skinner, em seu romance behaviorista Walden II, idealizou uma sociedade totalitária e coletivista, que seria comandada, segundo ele, por um “Maquiavel moderno, mecanizado e empresarial”. Dunga transformou-se exatamente nisso no comando do time do Brasil, unindo, com seu 4-4-2, os dois eminentes liberticidas: B.F. Skinner e Maquiavel. A utopia futebolística de Dunga, que se baseia no comportamento de pombos e de macacos engaiolados num laboratório, é um mecanismo sem falhas. O time só perde quando os adversários acendem uma luzinha vermelha dentro de campo e nossos jogadores, temendo choques elétricos, fogem destrambelhados para o vestiário.

Por Diogo Mainardi
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12/06/2010

às 1:57 \ Na revista

A comédia da Copa

Susana Vieira e eu na Copa do Mundo. Susana Vieira comentará as partidas na TV. Eu comentarei as partidas no rádio. Por quê? Porque ninguém se interessou em me contratar para comentar a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Susana Vieira é minha Beatriz na Cidade do Cabo e em Johannesburgo.

Eu sou um cronista como Nelson Rodrigues. Eu sou um reacionário como Nelson Rodrigues. Eu sou pago para fazer comentários sobre a Copa do Mundo como Nelson Rodrigues. Agora só tenho de me tornar um Nelson Rodrigues.

Eu fui da literatura para a imprensa, da imprensa para o rádio. É por isso que simpatizo com Robinho. Ele tem uma trajetória semelhante à minha: do Real Madrid para o Manchester City, do Manchester City para o Santos. Eu simpatizo também com Kaká. Melhor dizendo: eu o idolatro. Eu gostaria de ganhar um dos maiores salários de todos os tempos para permanecer sentado no banco de reservas, tirando a franja da testa. Eu sou bom em matéria de tirar a franja da testa. Mas o jogador do Brasil com o qual realmente me identifico é Felipe Melo. Sempre que, durante o programa de rádio, Wanderley Nogueira me passa a bola, eu me embanano todo e, como Felipe Melo, acabo recuando para o zagueiro. Na Copa do Mundo, minha torcida será inteirinha para ele. Ele me representa. Vai, Felipe Melo! Mostre ao mundo do que é capaz uma pessoa sem talento, sem juízo e sem discernimento.

O melhor personagem desse time do Brasil, no entanto, é o técnico Dunga. O que me atrai nele – e Nelson Rodrigues seguramente concordaria comigo – é aquele seu aspecto de coronel da Operação Bandeirante. Se Carlos Alberto Parreira, em 2006, perdeu a Copa do Mundo porque convocou apenas jogadores lesados e fora de forma, Dunga, em 2010, resolveu dobrar a aposta, convocando jogadores ainda mais lesados e fora de forma. Num momento como o atual, em que o Brasil é dominado pelo populismo mais ordinário, Dunga ignorou os apelos da arquibancada e repudiou Ganso e Neymar. Ganso e Neymar consagraram-se em partidas contra o Rio Branco e o Guarani. Escalá-los numa Copa do Mundo contra a Espanha e a Inglaterra seria o mesmo que escalar Lula para negociar com o regime genocida iraniano.

Dante Alighieri usou a Divina Comédia para fazer proselitismo contra o papa Bonifácio VIII, colocando-o no Inferno, enterrado num fosso, só com as pernas de fora. Eu uso o rádio para fazer proselitismo contra o PT. Do amistoso com o Zimbábue, um sinal do apoio de Lula a Robert Mugabe, essa mistura de Mussolini com Grande Otelo, aos aloprados da CBF, que se comportam como os aloprados do PT, eu sempre dou um jeito de condenar essa gente ao castigo eterno. Agora só tenho de me tornar um Dante Alighieri. E Susana Vieira me conduzirá à Luz.

Susana Vieira e eu na Copa do Mundo. Susana Vieira comentará as partidas na TV. Eu comentarei as partidas no rádio. Por quê? Porque ninguém se interessou em me contratar para comentar a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Susana Vieira é minha Beatriz na Cidade do Cabo e em Johannesburgo.

Eu sou um cronista como Nelson Rodrigues. Eu sou um reacionário como Nelson Rodrigues. Eu sou pago para fazer comentários sobre a Copa do Mundo como Nelson Rodrigues. Agora só tenho de me tornar um Nelson Rodrigues.

Eu fui da literatura para a imprensa, da imprensa para o rádio. É por isso que simpatizo com Robinho. Ele tem uma trajetória semelhante à minha: do Real Madrid para o Manchester City, do Manchester City para o Santos. Eu simpatizo também com Kaká. Melhor dizendo: eu o idolatro. Eu gostaria de ganhar um dos maiores salários de todos os tempos para permanecer sentado no banco de reservas, tirando a franja da testa. Eu sou bom em matéria de tirar a franja da testa. Mas o jogador do Brasil com o qual realmente me identifico é Felipe Melo. Sempre que, durante o programa de rádio, Wanderley Nogueira me passa a bola, eu me embanano todo e, como Felipe Melo, acabo recuando para o zagueiro. Na Copa do Mundo, minha torcida será inteirinha para ele. Ele me representa. Vai, Felipe Melo! Mostre ao mundo do que é capaz uma pessoa sem talento, sem juízo e sem discernimento.

O melhor personagem desse time do Brasil, no entanto, é o técnico Dunga. O que me atrai nele – e Nelson Rodrigues seguramente concordaria comigo – é aquele seu aspecto de coronel da Operação Bandeirante. Se Carlos Alberto Parreira, em 2006, perdeu a Copa do Mundo porque convocou apenas jogadores lesados e fora de forma, Dunga, em 2010, resolveu dobrar a aposta, convocando jogadores ainda mais lesados e fora de forma. Num momento como o atual, em que o Brasil é dominado pelo populismo mais ordinário, Dunga ignorou os apelos da arquibancada e repudiou Ganso e Neymar. Ganso e Neymar consagraram-se em partidas contra o Rio Branco e o Guarani. Escalá-los numa Copa do Mundo contra a Espanha e a Inglaterra seria o mesmo que escalar Lula para negociar com o regime genocida iraniano.

Dante Alighieri usou a Divina Comédia para fazer proselitismo contra o papa Bonifácio VIII, colocando-o no Inferno, enterrado num fosso, só com as pernas de fora. Eu uso o rádio para fazer proselitismo contra o PT. Do amistoso com o Zimbábue, um sinal do apoio de Lula a Robert Mugabe, essa mistura de Mussolini com Grande Otelo, aos aloprados da CBF, que se comportam como os aloprados do PT, eu sempre dou um jeito de condenar essa gente ao castigo eterno. Agora só tenho de me tornar um Dante Alighieri. E Susana Vieira me conduzirá à Luz.

Por Diogo Mainardi
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29/05/2010

às 0:07 \ Na revista

Corra, Diogo, corra!

Assim como os cachorros latem antes dos terremotos,
eu interpreto os artigos de Caetano Veloso como sinais
de alerta para um desastre iminente. Au! Au! O colunismo
está ruindo. Au! Au! O colunismo está se esboroando

Caetano Veloso agora é colunista de O Globo. Desde sua estreia, num domingo, quatro semanas atrás, estou tentando arrumar outra maneira para me sustentar. Se até Caetano Veloso se tornou um colunista, tenho de mudar de trabalho urgentemente. Assim como os cachorros latem antes dos terremotos, eu interpreto os artigos de Caetano Veloso como sinais de alerta para um desastre iminente. Au! Au! O colunismo está ruindo. Au! Au! O colunismo está se esboroando. Au! Au! É melhor fugir para o meio da rua, antes que o teto desabe sobre mim. Corra, Diogo, corra! Imediatamente depois de Caetano Veloso estrear como colunista de O Globo, a Folha de
S.Paulo
passou a contratar colunistas por metro.

No momento, o jornal tem cento-e-vinte-e-oito colunistas. Esse foi o número anunciado por seus próprios editores: cento-e-vinte-e-oito. Nizan Guanaes é um dos novos contratados pela Folha de S.Paulo. No passado, o colunismo era um reduto dos mineiros. Agora ele é dominado pelos baianos. Na semana passada, Lula reclamou da “elite que escreve colunas neste país”, só porque alguns articulistas denunciaram o apoio que ele deu à bomba nuclear iraniana. Elite? Qual elite? No Brasil, qualquer um pode se tornar colunista. Temos mais colunistas do que metalúrgicos. Lula repudiou a mentalidade colonizada de nossos colunistas, mas o fato é que a mentalidade da maioria deles nunca saiu dos arredores do Pelourinho. Resultado: os cento-e-vinte-e-oito colunistas da Folha de S.Paulo ovacionaram Lula por seu apoio à bomba nuclear iraniana.

Se o Renascimento teve Ticiano, o nosso tempo tem os analistas técnicos das bolsas de valores. O que é que isso tem a ver com Caetano Veloso? Respondo imediatamente: a fim de me livrar do colunismo, decidi procurar outra fonte de renda, investindo no mercado financeiro. Os analistas técnicos desenham gráficos para tentar antecipar os movimentos das bolsas de valores. Ocasionalmente, esses gráficos assumem formas humanas. Um deles tem o nome de um produto anticaspa: Head and Shoulders. No Head and Shoulders, um índice financeiro sobe até determinado patamar, formando o ombro direito; depois sobe outro tanto, delineando uma cabeça; depois ele oscila até o patamar inferior, no que seria o ombro esquerdo. Na quarta-feira, analisando uma série de gráficos das bolsas de valores, vislumbrei aquilo que me pareceu ser o contorno do cotovelo direito de um retrato pintado por Ticiano, em 1525. Especificamente: o retrato de Federico II com seu cachorro. Au! Au! Apliquei na hora todas as minhas economias. Se o investimento der certo, nunca mais farei um artigo. Se der errado, terei de me transformar num colunista baiano.

Por Diogo Mainardi
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15/05/2010

às 0:29 \ Na revista

O Chamberlain de Macaé

“Um novo presidente será eleito daqui a cinco meses. Só ele poderá decidir sobre assuntos estratégicos. Em vez de atuar como um quinta-colunista da bomba nuclear iraniana, Lula deveria pensar apenas em esvaziar as gavetas de seu gabinete”

Lula foi ao baile funk de Mahmoud Ahmadinejad assim como Vagner Love foi à Rocinha. Vagner Love confraternizou com os assassinos do Comando Vermelho? Lula está confraternizando com os assassinos da Guarda Revolucionária iraniana. Vagner Love faz trabalho humanitário no morro? Lula, segundo Dilma Rousseff, faz trabalho humanitário no Golfo Pérsico. Vagner Love foi festejar os dois gols que marcou contra o Macaé? Lula está festejando os dois gols que marcou contra o Brasil.

O Brasil é uma espécie de Macaé do mundo. Isso é uma sorte. Se o Brasil fosse a Inglaterra, Lula já estaria consagrado como o nosso Chamberlain. Sempre que alguém quer guerrear, surge algum pateta tentando ser intermediário da paz. Em 1938, o primeiro-ministro da Inglaterra, Chamberlain, viajou para a Alemanha para negociar olho no olho com Hitler. Depois de alguns encontros, eles assinaram um tratado de paz, pelo qual Hitler se comprometia a ocupar apenas uma parte do território da Checoslováquia. Chamberlain voltou à Inglaterra comemorando a paz. Seis meses mais tarde, Hitler atropelou Chamberlain e ocupou o resto da Checoslováquia. Em seguida, ocupou a Europa inteira.

Se Lula é o Chamberlain de Macaé, Mahmoud Ahmadinejad só pode ser o Hitler de Macaé. Como Hitler, ele mata seus opositores. Como Hitler, ele persegue as minorias. Como Hitler, ele tem um plano para eliminar todos os judeus. Só lhe falta o poder de fogo, porque um Macaé, felizmente, é sempre um Macaé. O papel de Lula é esse: dar-lhe algum tempo para que ele possa obter uma arma nuclear. Na semana passada, um articulista do Washington Post chamou Lula de “idiota útil” de Mahmoud Ahmadinejad. O articulista está certo. Mas há outros “idiotas úteis”, além de Lula. O G15, reunido neste domingo no baile funk iraniano, conta também com a Venezuela, de Hugo Chávez, com o Zimbábue, de Robert Mugabe, e com a Indonésia, de Susilo Bambang Yudhoyono, eleito pela Time, em 2009, uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Time é uma espécie de VEJA de Macaé.

O apoio ao programa nuclear iraniano é o maior erro que o Brasil já cometeu na área internacional. Só a vaidade de Lula ganha com isso. Ao desafiar os Estados Unidos e a Europa, tornando-se cúmplice de Mahmoud Ahmadinejad, ele pode sentir-se um tantinho maior do que realmente é. Trata-se da síndrome de Macaé. Mas alguém tem de dizer a Lula que seu tempo já se esgotou. Ele representa o passado. A esta altura, sua autoridade é meramente protocolar. Um novo presidente será eleito daqui a cinco meses. Só ele poderá decidir sobre assuntos estratégicos. Em vez de atuar como um quinta-colunista da bomba nuclear iraniana, Lula deveria pensar apenas em esvaziar as gavetas de seu gabinete. Acabou, Lula. Chega. Fim. Xô.

Por Diogo Mainardi
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01/05/2010

às 2:03 \ Na revista

O Lanzetta da “Laranza”

“Luiz Lanzetta comanda a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff, mas nenhum dos assessores de imprensa de Dilma Rousseff é comandado por Luiz Lanzetta. De fato, ele só contratou quem o PT mandou contratar”

O PT contratou Luiz Lanzetta para comandar a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff. Isso mesmo: Luiz Lanzetta. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe por que ele foi contratado. Está na hora de tentar saber.

Luiz Lanzetta comanda a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff, mas nenhum dos assessores de imprensa de Dilma Rousseff é comandado por Luiz Lanzetta. De fato, ele só contratou quem o PT mandou contratar. De Helena Chagas, apadrinhada por Franklin Martins, a Oswaldo Buarim, que pertence à quota da própria Dilma Rousseff. Luiz Lanzetta simplesmente assinou seus contratos de trabalho e passou a pagar seus salários. A empresa usada por ele para contratar e para pagar os assessores de imprensa do PT chama-se Lanza. No meio jornalístico brasiliense, ela já ganhou o apelido de “Laranza”.

Em 2002, Marcos Valério pagou um monte de profissionais escolhidos pelo PT para cuidar da campanha presidencial de Lula. Agora, em 2010, Luiz Lanzetta paga um monte de profissionais escolhidos pelo PT para cuidar da campanha de Dilma Rousseff. De lá para cá, tudo melhorou. O tesoureiro do PT, em 2002, era Delúbio Soares. O tesoureiro do PT, em 2010, é o homem da Bancoop. Ufa.

Luiz Lanzetta tem um jornalzinho e um site na internet: brasiliaconfidencial.inf.br. Nas páginas do site, o nome de seu autor é mantido em segredo. A rigor, o site inteiro é mantido em segredo, considerando que praticamente ninguém o conhece. Mas seus artigos costumam ser reproduzidos por blogueiros pagos pelo lulismo. Uma de suas manchetes: “Pesquisa aponta disparada de Dilma”. Outra manchete: “Tropa tucana agride professores”. Outra manchete: “Serra comanda baixaria na internet”.

A campanha de Dilma Rousseff está ruindo. Fernando Pimentel, seu coordenador, é conhecido por suas patetices. Quando era terrorista, ele tentou sequestrar um diplomata americano cinco vezes, e fracassou em todas elas. Mesmo baleado pelas costas, o diplomata americano conseguiu fugir. Na sede da campanha, dois assessores de imprensa pagos por Luiz Lanzetta já pegaram dengue: Helena Chagas e Giles Azevedo. No Rio de Janeiro, um apaniguado da Petrobras, Wagner Tiso, tentou organizar um encontro de artistas com Dilma Rousseff. Só compareceram oito deles, e o de maior prestígio era o cartunista Aroeira.

Lula, alarmado com o desempenho de sua candidata, ordenou que Dilma Rousseff tomasse umas aulas para aprender a falar em público. Sua professora, Olga Curado, treinou também Roger Abdelmassih, aquele médico acusado de ter estuprado dezenas de pacientes. Quem contratou a professora de Dilma Rousseff foi Luiz Lanzetta. Quem pagou a conta foi o homem da Bancoop.

Por Diogo Mainardi
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17/04/2010

às 2:29 \ Na revista

O bispo Lula e a polícia

“Em 16 de maio, o bispo Lula emulará o presidente Romualdo e dará o passo mais ruinoso de sua carreira. Ele procurará Mahmoud Ahmadinejad em sua cadeia iraniana e negociará com ele ‘olho no olho’, prometendo ajudá-lo a escapar da polícia dos Estados Unidos e da Europa”

O presidente Lula conduz o Itamaraty da mesma maneira que o bispo Romualdo conduz a Igreja Universal. Os dois recomendaram procurar os bandidos nas cadeias e negociar diretamente com eles, dizendo: “Pô, a gente está fazendo um trabalho tão bacana. Pô, todo mundo armado. Pô, a gente é companheiro ou não é?”.

O bispo Romualdo, de acordo com a Folha de S.Paulo, resumiu candidamente o espírito desse seu empenho diplomático bilateral: “Nosso problema não é o bandido, nosso problema é a polícia”. É o que Lula tem repetido insistentemente nos últimos anos, em todos os encontros internacionais. Ele recomenda procurar os bandidos em suas cadeias e negociar diretamente com eles. Porque o problema, segundo Lula, não é o bandido de Cuba, o bandido de Gaza, o bandido da Coreia do Norte, o bandido da Guiné Equatorial, o bandido da Venezuela – o problema é a polícia.

Em 16 de maio, o bispo Lula emulará o presidente Romualdo e dará o passo mais ruinoso de sua carreira. Ele procurará Mahmoud Ahmadinejad em sua cadeia iraniana e negociará com ele “olho no olho”, prometendo ajudá-lo a escapar da polícia dos Estados Unidos e da Europa. Lula retribui assim a visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil, no fim do ano passado. Um de seus acompanhantes naquela visita foi Esmail Ghaani, que entrou anonimamente no país. Ele era comandante interino das Forças Quds, a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana. A caminho do Brasil, Mahmoud Ahmadinejad e Esmail Ghaani fizeram uma escala no Senegal. O jornal Al Qanat, publicado no Líbano, em árabe, relatou que Esmail Ghaani usou sua passagem por Dacar para adquirir uma série de docas no porto local, em nome da companhia de fachada IRISL. Nessas docas, a Guarda Revolucionária iraniana pretende armazenar os produtos triangulados da América Latina, a fim de furar o bloqueio comercial imposto pela ONU.

O contrabando é apenas uma das bandidagens praticadas pelas Forças Quds. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos denunciou-as por treinar, financiar e armar terroristas. O chefe de Esmail Ghaani, Qassem Suleimani, foi punido pela ONU, que congelou seus bens. A Europa acusou a Guarda Revolucionária de comandar o programa nuclear iraniano e passou a perseguir seu conglomerado de empresas por “proliferação de armas de destruição em massa”.

O que Esmail Ghaani fez no Brasil? Com quem ele se encontrou? Empresas nacionais negociaram com as empresas de fachada das Forças Quds? Para Lula, nenhuma dessas perguntas importa. Afinal, a gente é companheiro ou não é? Olho no olho com Mahmoud Ahmadinejad, em maio, Lula poderá dizer mais uma vez: “Nosso problema não é o bandido, nosso problema é a polícia”. Pô.

Por Diogo Mainardi
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02/04/2010

às 2:00 \ Na revista

Boletim de Ocorrência

“A soldada Erika Canavezi tem dois filhos. Cuida deles sozinha. Seu soldo: 2 000 reais. Em catorze anos de trabalho na PM,  ela nunca havia sido agredida. Isso só ocorreu agora porque os pelegos da Apeoesp decidiram sabotar as medidas de Serra”

O número do B.O. é 1591/2010.

Quando alguém quiser analisar o momento em que a candidatura presidencial de Dilma Rousseff ruiu, terá de mencionar o BO 1591/2010, do 34º Distrito Policial, no Morumbi.

O que há no B.O. 1591/2010?

Na semana passada, os professores da Apeoesp fizeram uma baderna na porta do Palácio dos Bandeirantes. O plano dos baderneiros era simples: sabotar José Serra e, com isso, ajudar Dilma Rousseff. A Apeoesp é um sindicato controlado pela CUT e pelo PT. Um dia antes que seus pelegos atacassem José Serra, Dilma Rousseff participou de um ato de campanha com a presidente da Apeoesp. Dilma Rousseff homenageou-a publicamente. A presidente da Apeoesp respondeu entoando:

– Dil-ma! Dil-ma!

Os pelegos da Apeoesp pretendiam ocupar o Palácio dos Bandeirantes. Quando a PM tentou impedi-los, eles reagiram arremessando paus e pedras contra os policiais. Segundo o relato da soldada Erika Cristina Moraes de Souza Canavezi, um desses paus atingiu-a. Ela desmaiou. Conduzida ao Hospital Albert Einstein, foi medicada por ferimentos no rosto, na boca e no ombro. A denúncia contra seus agressores está no B.O. 1591/2010.

A soldada Erika Canavezi tem dois filhos. Cuida deles sozinha. Seu soldo: 2 000 reais. Em catorze anos de trabalho na PM, ela nunca havia sido agredida. Isso só ocorreu agora, porque os pelegos da Apeoesp decidiram sabotar as medidas propostas por José Serra para punir os professores gazeteiros e para premiar com aumentos salariais aqueles que ensinam melhor. Os correligionários de Dilma Rousseff defendem com paus e pedras o direito a um ensino público de má qualidade.

Além de contar com seus milicianos nos sindicatos, Dilma Rousseff pode contar também com seus milicianos nos blogs. Depois de ser brutalizada pelo pelego da Apeoesp, a soldada Erika Canavezi foi fotografada sendo socorrida por um rapaz de barba. Os blogueiros de Dilma Rousseff trataram de espalhar que o rapaz de barba era um professor. O mais pobrezinho desses blogueiros, um repórter de Carta Capital, comentou a fotografia da seguinte maneira: “Este professor que carrega o PM ferido é um mural multifacetado de significados, uma elegia à solidariedade humana e uma peça de campanha para Dilma Rousseff”. O menos pobrezinho desses blogueiros, Luiz Carlos Azenha, repercutiu o assunto. Luiz Carlos Azenha comanda um programa na TV Brasil. Soldo do programa: 2 594 734 reais.

No dia seguinte, a PM informou que o rapaz de barba que socorreu a soldada Erika Canavezi era um policial à paisana. Os professores da Apeoesp estavam do lado de lá da barricada, compondo uma elegia à solidariedade humana com o arremesso de paus e pedras e entoando:

– Dil-ma! Dil-ma!

Por Diogo Mainardi
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