Rei Arthur – A Lenda da Espada

Kung-fu, malandragem e, claro, fantasia medieval: uma bagunça boa como só Guy Ritchie sabe fazer

Venho acompanhando Charlie Hunnam desde láááá do tempo da série inglesa Queer as Folk, que ele fez aos 19 anos (ele está com 37), e foi interessante ver ele se reinventar como um ator americano a partir de Sons of Anarchy – tanto que Guy Ritchie, o diretor de Rei Arthur – A Lenda da Espada, nem sabia que Charlie era inglês, e teve de ser convencido do fato pessoalmente. Ainda bem que, como Charlie conta nesta entrevista que você vê abaixo, ele decidiu pegar um avião por conta própria para tomar um chá com Ritchie em Londres e se apresentar. Como tudo que Ritchie faz, de Jogos, Trapaças, Dois Canos Fumegantes e Snatch até os Sherlock Holmes com Robert Downey Jr. e O Agente da U.N.C.L.E., este Rei Arthur é uma bagunça – no bom sentido. Tem desde academia de kung-fu na Londres do século 6 até elefantes (sim, na Inglaterra) usados como armas de guerra. Mistura O Senhor dos Anéis com Excalibur, joga um tanto de Game of Thrones no caldo e ainda incorpora a ele aqueles tipos folclóricos da malandragem londrina que Ritchie tanto adora. Às vezes tem o maior clima, outras vezes é comédia (boa comédia). O ritmo é impecável, a trilha sonora é ótima, e o elenco é melhor ainda. E Charlie Hunnam é o ingrediente que equilibra a receita: tem ginga, tem humor (algo que até aqui ele raramente tinha explorado) mas é mais intenso do que, digamos, o Travis Fimmel de Vikings, que eu também veria muito bem no papel.

Rei Arthur – A Lenda da Espada

(Warner/Divulgação)

A melhor ds sacadas de Rei Arthur é imaginar aquilo que a lenda arturiana omite: o que teria acontecido entre o momento em que o mago Merlin salva o Arthur bebê e o dia em que, já adulto, Arthur puxa a espada Excalibur da pedra e se descobre rei da Inglaterra? Vida de menor abandonado não é moleza e, na versão imaginada por Ritchie, logo antes de morrer, o pai de Arthur (Eric Bana, cheio de nobreza) lançou o filho num barquinho, como Moisés, pelo Rio Tâmisa. Arthur foi recolhido das águas por prostitutas, e então criado em um bordel e educado na marra na lei da rua (a sequência em que ele vai crescendo e aprendendo é um dos pontos altos do filme, aliás).

Rei Arthur – A Lenda da Espada

(Warner/Divulgação)

Apropriadamente, Arthur vira um sujeito marrento: toca o bordel e vários outros negócios duvidosos, tem a polícia no bolso, briga bem e conhece todo mundo que é alguém nos babados londrinos. Enquanto isso, seu tio malvado (Jude Law, canastra no ponto certo) virou o rei Vortigern e vem tiranizando a nação sem piedade. Vortigern não vai ceder a coroa tão fácil – e Arthur, na verdade, não está lá muito interessado nela, já que considera (com razão) que seu currículo não é a melhor qualificação possível para o posto. Os cavaleiros interpretados por Djimon Hounsou e Aidan Gillen (o Littlefinger de Game of Thrones) discordam; acham que Arthur só precisa chegar no ponto. Cabe à maga interpretada pela catalã Astrid Bergès-Frisbey, portanto, dar uma força.

Rei Arthur – A Lenda da Espada

(Warner/Divulgação)

De acordo com Charlie Hunnam, Guy Ritchie tem um jeito extremamente elástico de trabalhar. Chega no set com o roteiro, daí tem uma ideia nova e faz diferente – o que, por consequência, resulta em mais uma penca de mudanças durante o dia de trabalho. Ser irrequieto, porém, não é a mesma coisa que ser dispersivo: desde que Ritchie reencontrou o prumo com Rock’n’Rolla, em 2008, seu trabalho ficou ao mesmo tempo mais concentrado e mais fervilhante. Ambas as qualidades transparecem em Rei Arthur. Bagunça qualquer um faz; já bagunça harmônica, que transita do soturno ao cômico e ao épico com fluência e sem dar tranco, isso não é para qualquer um. Quanto às muitqas liberdades que Ritchie toma com a lenda arturiana – bom, lenda é lenda, e liberdade ele toma com tudo mesmo (seus Sherlock Holmes, por exemplo, são tudo, menos canônicos). Às vezes a plateia entra na brincadeira, outras vezes não. Eu me diverti do começo ao fim. A plateia americana, pelo que mostram os números da bilheteria, nem tanto. E, por causa dela, é provável que Rei Arthur fique sem a continuação pela qual está implorando, e que eu mesma adoraria ver.


Entrevista


Trailer

REI ARTHUR – A LENDA DA ESPADA
(King Arthur: Legend of the Sword)
Estados Unidos, 2017
Direção: Guy Ritchie
Com Charlie Hunnam, Jude Law, Astrid Bergès-Frisbey, Djimon Hounsou, Aidan Gillen, Eric Bana, Tom Wu, Craig McGinley, Kingsley Ben-Adir, Neil Maskell, Annabelle Wallis, Freddie Fox, Mikael Persbrandt e uma ponta de David Beckham
Distribuição: Warner

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Silas Costa Ferreira Jr.

    Vi o filme e verei de novo. Para quem acompanha o trabalho do Ritchie, é um prato cheio.

    Curtir

  2. Antonio Lima

    Não tava muito empolgado… Mas depois de ver o elenco, disse: Tô dentro!! Ah, e tem mesmo trilha do Zeppelin??

    Curtir

  3. SYLVIO DE ALENCAR NEVES COSTA

    O amor pela arte do cinema transparece em todas as críticas feitas por você, isabela, não canso de me repetir nos elogios que faço.
    Não sabia deste filme, nem que ele era diretor de outro filme mencionado, o Agente da UNCLE.
    Fico feliz por termos alguém do lado de lá dando essa iluminada necessária.
    Vida longa à você!

    Curtir