João Gilberto Noll e a nossa solidão

O escritor gaúcho morreu sozinho. Mas esta é uma realidade que a literatura ensina: todos morremos – e vivemos – sozinhos

João Gilberto Noll, escritor

João Gilberto Noll (Dulce Helfer/Agência RBS/Dedoc)

João Gilberto Noll morreu sozinho. A frase pede explicação, ou correção: a rigor, todos morremos sós, e ninguém nos acompanha na passagem ao outro lado, ao “país desconhecido” (e na grave e forte hipótese de que não exista outro lado, dissolveremos no vazio de forma igualmente solitária). Será mais exato dizer que João Gilberto Noll estava sozinho no momento anterior à morte: seu corpo foi encontrado por uma prima, depois que alunos de uma oficina literária que ele ministrava comunicaram sua ausência. Contava 70 anos.

As circunstâncias aproximam Noll daqueles hóspedes que morrem em um quarto de hotel, longe de casa, dos quais Drummond fala no poema A um Hotel em Demolição: “fraudados na morte familiar a que aspiramos como a um não morrer morrido” (mais dramático foi o caso de outro escritor brasileiro, João Antonio, encontrado em seu apartamento duas semanas depois da morte, em 1996). Há a tentação de relacionar o triste ocorrido à literatura que Noll fazia: os personagens de seus romances e contos erravam pela vida de lugar em lugar, de amante em amante, sempre aprisionados a uma solidão irredutível. Mas isso seria só uma débil tentativa de dar sentido último e fácil ao que não comporta sentido. O escritor de HarmadaA Céu Aberto não dava ao seu leitor conclusões tão amarradinhas. Vivemos, ele parecia dizer, do mesmo modo como um dia morreremos: sempre sozinhos.

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Vi Noll pela última vez, se lembro bem, em 2008, no Fórum das Letras promovido pela Universidade Federal de Ouro Preto – trocamos umas poucas palavras no carro que nos conduziu do hotel ao local do evento. Bem mais marcante foi a última entrevista que fiz com ele, por telefone, quando o escritor estava lançando Lorde, em 2004. Ele  me contou de uma experiência amarga da adolescência: foi internado, por seus pais, em uma clínica psiquiátrica em Porto Alegre, para tratar de um caso extremo de fobia social – em casa, ele quase não saía mais do quarto. Era o infausto ano de 1964, e Noll só muito vagamente teve consciência do torvelinho político que corria para além dos muros da clínica. Foi submetido a choques insulínicos, tratamento que induz ao coma, experiência que ele definiu como “amnésica”. “Quem tem aids ou diabetes fala disso sem problemas. Por que só as doenças psicológicas precisam ser estigmatizadas?”, questionou Noll. Com desassombro, ele relacionou esse trauma adolescente ao modo como escrevia: “Para mim, a literatura está umbilicalmente ligada àquilo que se convencionou chamar de estado patológico”.

Um dos melhores textos que li sobre Noll nos dias que se seguiram à sua morte, no final de março, diz que ele escrevia sempre o mesmo livro – e que, longe de ser um problema, isso é uma qualidade (o ensaio é de Rafael Bán Jacobsen, na ótima revista on-line Amálgama). Há um caráter inegavelmente obsessivo na obra de Noll, que talvez tenha a ver com o tal “estado patológico”. É uma estranheza rara em meio a uma literatura ainda marcada por certo realismo comezinho.

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O poeta e cronista Carpinejar, em texto publicado em Zero Hora, proclamou que João Gilberto Noll foi assassinado pela sociedade. Faltou ao autor de  Berkeley em Bellagio apoio, celebração oficial, livros indicados em listas escolares, convites para dar aulas em universidades gaúchas (Berkeley, pelo menos, o convidou). A acusação bombástica ecoa de longe o ensaio famoso de Antonin Artaud, o mais doidão dos surrealistas franceses, sobre Van Gogh, o “suicidado pela sociedade”. Só que Artaud não escreveu para pedir que o pintor holandês fosse “festejado, paparicado, cuidado, mimado, protegido, acalentado, amado” pela sociedade. O texto de Artaud, vitriólicio, é uma acusação; o texto de Carpinejar, choroso, é um pedido: governos, universidades, escolas, imprensa, por favor deem atenção ao escritor esquecido!

Não me parece que Noll, em sua literatura às vezes áspera, solicitasse qualquer “paparicação”.

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Machado de Assis não morreu sozinho.  Nova correção: ele não estaria sozinho no momento anterior à sua morte. Amigos, escritores, membros da Academia Brasileira de Letras cercavam o leito do moribundo célebre. Mas Euclides da Cunha achou pouco. Sua crônica sobre os momentos finais do autor de Dom Casmurro também reclama da pouca ou nula “paparicação” ao maior homem de letras do país: “Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa – quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa”.
Gloriosa, sim: cabe a palavra. Mas não é pela glória que se escreve. Se a leitura pode nos ensinar algo, é que a glória é ilusória e passageira. Quando for a nossa vez, a cidade lá fora seguirá, como sempre, imperturbável.

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