As histórias do Rei da Noite
Ao longo de quase três décadas, o empresário Ricardo Amaral, 69 anos, ocupou o posto de rei da noite no eixo Rio-São Paulo. Foi dono de casas noturnas lendárias, como o Hippopotamus (ou Hippo, para os assíduos), o Alô Alô (no Rio e em Nova York) e a boate Resumo da Ópera, que marcaram gerações de artistas, socialites e gente bonita nos anos 70, 80 e 90. Teve boates-sensação em Paris e em Nova York. Criou a maior casa de shows da América Latina, o Metropolitan, no Rio, para onde levou artistas de renome internacional, como o tenor Luciano Pavarotti e o guitarrista Carlos Santana. Amaral sempre foi empreendedor. Ainda adolescente, em São Paulo, organizou bailes de debutantes (Marta Suplicy foi uma delas).
Depois, teve uma coluna social que acabou se tornando o nome de toda uma geração: Jovem Guarda. Casado há 45 anos com Gisella Amaral, bom contador de histórias e cheio de boas histórias para contar, ele prepara um livro de memórias (ainda sem título), que descreve como “o mais límpido produto da absoluta imprecisão da minha memória”, a ser lançado no segundo semestre, pela editora Leya. “As histórias são puramente verdadeiras. Mas não quero que ninguém fique me enchendo depois. É um livro sobre a minha história. E eu nunca ouvi uma história que não tivesse pelo menos duas ou três versões”, diz o empresário, que não para de fazer planos. Um deles é reeditar os bailes de carnaval cariocas.
GPS adianta, com exclusividade, três histórias que estarão no livro. Elas foram contadas por Amaral em uma longa conversa em seu escritório, na Lagoa, da qual resultou a entrevista que você lê mais abaixo.
♦ O bolo de João Gilberto e o prejuízo do cunhado
“É impressionante o papel de babaca que fiz por causa do João Gilberto.” Assim começa o trecho do livro que fala sobre o pai da bossa nova. João deixou Ricardo Amaral na mão, o que não chega a ser surpreendente em se tratando do rei do forfait. Mas as circunstâncias tornam a história particularmente saborosa. Em 1970, João morava no México e aceitou o convite de Amaral para uma turnê no Brasil. Depois de tudo acertado, com todas as exigências aceitas, ele desembarcou no Rio de Janeiro algumas semanas antes da primeira apresentação. Veio com a cantora Miúcha, com quem estava casado.
- O casal hospedou-se numa suíte do Hotel Glória, onde havia sido instalada uma mesa de ping pong equipada com muitas bolas inglesas, as únicas com que João admitia jogar.
- Alguns dias depois, o músico disse a Amaral que precisava visitar a mãe em Juazeiro, sua cidade Natal, e pediu um carro. Foi providenciada a compra de um Opala especialmente para esse fim. João saiu dirigindo rumo à Bahia, e não voltou mais. Nem ele, nem o carro. Quem arcou com o custo do automóvel foi um cunhado — Chico Buarque, irmão de Miúcha.
- A poucos dias do show, Amaral recebeu, através de um amigo de João, a explicação para o sumiço: ele não estava em condições de tocar, pois achava que sua mão não saberia acompanhar seu cérebro ao violão.
♦ O jantar com os Sinatra
Bob Marx, enteado de Frank Sinatra e filho de um dos irmãos-humoristas Marx, era assíduo do Club A de Ricardo Amaral, em Nova York. Lá, aproximou-se do jornalista Sérgio Figueiredo, que, além de amigo do casal Gisella e Ricardo Amaral, era um aficionado por Sinatra. Figueiredo e o casal foram convidados para um jantar, na casa do cantor, que ficava no prédio anexo ao hotel Waldorf Astoria, até hoje um dos mais chiques de Manhattan. No apartamento, havia dois pianos, cuja fama ressoava aos quatro cantos do mundo musical. Os instrumentos tinham pertencido a um antigo e ilustre morador do local — o compositor Cole Porter, que tocava o piano preto ao entardecer, e o branco, pela manhã.
-O apartamento ficava no 13º andar e havia seguranças na entrada. Enquanto esperavam por Sinatra, os três convidados bebiam champagne Dom Pérignon e caviar sobre guardanapos em que se lia “blue eyes”, uma referência ao apelido de Sinatra dado por Barbara, sua quarta e última mulher. Algum tempo depois (e nada do cantor), um dos convidados perguntou por ele. Sinatra estava em Atlanta, onde faria um show, e sua presença na reunião jamais fora cogitada. O jantar era na casa de Sinatra, mas não com ele.
♦ A mentira que virou verdade
Em meados dos anos 80, o Jornal Nacional anunciou a eleição de Luiza Brunet como a modelo do ano, tendo recebido o prêmio no Club A, em Nova York, das mãos do presidente da Câmara de Alta Costura Francesa. A história não foi bem assim. O prêmio foi uma criação de três amigos: Ricardo Amaral, dono do Club A, o colunista Ibrahim Sued e Humberto Saade, dono da Dijon (hit nos anos 80), marca da qual Luiza Brunet era modelo exclusiva.
-Saade queria uma festa memorável, que repercutisse no Brasil. Fechou o Club A por 60 000 dólares, convidou 400 pessoas, e junto com Amaral comprou um troféu, no qual foi gravado: “Luiza Brunet, The Model of the Year”. O prêmio seria anunciado pelo jornalista Hélio Costa (atual ministro das Comunicações, então correspondente internacional da Globo), contratado como mestre-de-cerimônias do evento por cerca de 1 000 dólares. Na hora da entrega do prêmio, foi convidado a subir ao palco o presidente Câmara de Alta Costura Francesa, que gentilmente aceitou o convite — feito já na festa — para entregar o troféu.
-A lista de jurados (que incluía os atores Robert de Niro e Jean-Paul Belmondo, entre outros) foi anunciada com destaque, embora inventada alguns minutos antes. Provavelmente, nenhum deles desconfia da participação especial na festança de Saade no Club A.
♦ ENTREVISTA/ Ricardo Amaral
Em sua definição, seu livro é produto da imprecisão da memória, e os fatos ali relatados são verdadeiros, mas não necessariamente reais. Como assim? Eu nunca ouvi uma história que não tivesse pelo menos duas ou três versões. Até situações em que eu mesmo fui protagonista ouvi sendo contadas de muitas formas, o que me dá uma irritação profunda. Estou contando o que minha memória gravou, fatos inusitados que eu vivi e presenciei. É a verdade da minha memória, o que não significa que seja a realidade. Foi isso que eu quis dizer. E registro logo no começo do livro para que não fiquem me enchendo depois.
O senhor viveu histórias cuja versão é melhor que a realidade? Muitas. Uma delas aconteceu em 1983. Correu no Rio o boato de que eu tinha sido marcado pela máfia por causa do Club A, casa de grande sucesso que tive em Nova York. Ou seja, que a máfia marcou o meu corpo para me castigar por alguma coisa. Só que eu apareci no Brasil sem marca nenhuma. O Zózimo, que era como um irmão meu, sugeriu que a marca era no meu derrière. Fui para Búzios, e tinha que ficar abaixando o calção para todo mundo, para provar que não tinha marca nenhuma.
O Club A era freqüentado por gente importante e famosa, como Pelé, Brooke Shields e Mick Jagger. Como a máfia foi parar lá? O último poderoso chefão da máfia, o John Gotti (que morreu na cadeia, em 2002), começou a ir todas as noites. Era o lugar de que mais gostava em Nova York. Só que, com ele, veio a entourage mafiosa. E comecei a ter muitos problemas. Eles pagavam com cartões falsos, e meu crédito acabou cortado. Fui procurado por um agente aposentado do FBI, que fez um acordo: ele me restituiria o valor que havia sido pago com os cartões falsos se eu deixasse a empresa de segurança dele entrar no Club A. Deixei. Prenderam mais de vinte mafiosos, nenhum muito importante. Recebi várias ameaças e até apanhei uma vez de um cara enorme. A máfia nunca soube que o FBI foi parar ali porque as administradoras de cartão contrataram o tal agente aposentado…
DOWN NO HIGH SOCIETY?
A alta sociedade ainda existe? Esse nome alta sociedade já complica. Historicamente, a elite se modifica. Hoje, pintou uma coisa nova. É o dinheiro novíssimo, a sociedade do consumo, que tem uma maneira mais explícita de mostrar que tem dinheiro. Antigamente, em viagens para o exterior, o riquinho, o rico e o milionário viajavam todos juntos no mesmo navio. Hoje, não. O milionário tem seu próprio jato. E muitos dos donos de novas fortunas não querem se misturar. Alguns não têm nem traquejo social. Então, ao invés de se juntar, se isolam.
Quais as mudanças mais evidentes? Antes, a elite era formada por aqueles que realmente representavam uma elite, ou seja, as famílias tradicionais e os intelectuais. No mundo pós-guerra, surgiu o café society. Era a sociedade que vivia nos cafés, mas não obrigatoriamente nos grandes salões. Era uma elite emergente. No Brasil, existia uma grande discriminação contra os estrangeiros. Até então, os italianos não eram convidados para as grandes festas e os turcos (nomenclatura usada para designar libaneses, armênios e sírios) eram ainda mais discriminados. Os italianos foram os primeiros a ser aceitos, mas, ainda assim, com restrições. Até que as novas fortunas surgiram. Chegaram os Matarazzo, com as indústrias, os Lunardelli, que eram reis do café, e os salões se abriram.
E as celebridades também não estavam entranhadas nas altas rodas, certo? É um conceito perigoso. O célebre não era alguém de sucessinho, mas um célebre. O Brasil tem pouquíssimas celebridades de verdade. Quem é celebridade brasileira? Pitanguy, Pelé, Gisele Bündchen…
Frequentar a sociedade ficou menos interessante? Nem sei mais o que significa frequentar a sociedade hoje. Sem dúvida, antigamente era mais glamuroso. Por outro lado, hoje é mais democrático. Não sei se a alta sociedade não existe mais ou se mudou tanto, que eu resisto a reconhecê-la. Embora o Rio fosse mais aberto que São Paulo, as duas cidades tinham panelas muito fechadas, dificílimas de entrar.
O que o senhor acha das áreas VIP, espaços pretensamente reservados às pessoas mais importantes, dentro dos eventos? É uma besteira tremenda, é antipático. Antes, os poderosos ficavam com as melhores mesas, mas não havia uma separação física, explícita. Pode até ser uma forma de atender patrocinadores ou para aumentar o tamanho do evento e ter mais lucro. O nome de área reservada seria melhor, porque a verdade é que nem todo mundo que fica dentro dessas áreas é mesmo VIP e nem todo mundo que está fora deixa de ser. Não faz muito tempo, fui ao show do Fat Boy Slim e me disseram que eu estava na área VIP. Mas cabiam 2 000 pessoas lá. Como assim? No Brasil, nem existem 2 000 VIPs. Essas cordinhas afastam pessoas de ótimo nível.
RECEITAS DE SUCESSO
Como o senhor se tornou um empresário da noite? Fiz uma coluna marcante, num jornal gratuito com tiragem de 400 000 exemplares. Mas fui mandado embora de lá. O motivo foi uma reportagem polêmica, que um amigo da revista Manchete criou com a minha ajuda (sem que meu chefe no jornal soubesse). Como existia a lista das dez mulheres mais elegantes, pensamos na lista das dez maiores candidatas a um golpe do baú. Eram as moças solteiras mais ricas de São Paulo. Na lista estavam Maria Pia Matarazzo, Vera Muniz de Souza e Veroca Fontoura, entre outras. Mas eu deixei o batom na cueca, um rastro. A matéria foi publicada com fotos que eu tinha usado na minha coluna. Nós dois fomos mandados embora. Acabei me mudando para o Rio de Janeiro. Recebi uma proposta para fazer outra coluna. Mas estava decidido a ser empresário, e fui à luta. Lancei a RenTV, empresa que alugava televisores, montei um drive-in na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde também abri um boliche e um restaurante, tive uma rede de lanchonetes. As coisas foram acontecendo.
O que sua experiência de 30 anos como empresário na área de entretenimento lhe ensinou sobre festas? Mulher bonita é essencial. Empresários, modelos, artistas, intelectuais, jornalistas, um pouco de gays e mulheres fáceis. Não tem nada de preconceito, é só para dar um tempero. Uma festa badalada e divertida é um caldeirão com ingredientes bem dosados. A mistura de gerações é fundamental para não ser uma festa qualquer. E precisa ter gente poderosa. Poderoso é um adjetivo de que eu gosto, porque não está relacionado a um só tipo de poder.
Como reconhecer quem é poderoso de fato? São pessoas bem-sucedidas, influentes, com desenvoltura para a vida. Costumam apresentar duas características: o ouvido seletivo e o isolamento. Ouvem e conversam só sobre o que lhes é conveniente. Antigamente, não falavam em dinheiro, no preço das ações, no faturamento da empresa. Se você passasse uma noite inteira conversando com o Walter Moreira Salles (fundador do Unibanco, morto em 2001), banqueiro e um dos homens mais ricos do Brasil, falaria sobre tudo, mas não sobre dinheiro. Era um código de etiqueta não explícito.
O senhor tinha uma coluna chamada “Jovem Guarda” e cedeu o nome à TV Record, que transmitia o programa que lançou Roberto e Erasmo Carlos ao estrelato. Arrepende-se? De jeito nenhum. Eu usava esse nome, e ele era ligado a mim por causa da coluna social que eu fazia. Mas o próprio registro de patentes não me protegeria, porque eram categorias diferentes. Foi uma gentileza entre amigos, na verdade. Quem me pediu para usar o nome foi o produtor do programa, chamado Marcelo Leopoldo Silva.
O senhor deixou de ser empresário da noite e agora desenvolve outros projetos, como na área imobiliária. Como foi essa transição? Não houve transição, porque entendo que negócio é negócio. A vinda do Pavarotti custou 1 milhão de dólares. Eu tinha que saber como, onde e por quanto ia vender o show. O mesmo acontece na área imobiliária. O produto é, no fundo, o mesmo. Não se vende uma moradia ou um show, mas um direito, uma pulseirinha de acesso. O direito de morar ou de se divertir, por exemplo.
FESTAS E ESTRELAS
Susana Vieira declarou, recentemente, que sente falta das noitadas no Hippopotamus, boate que marcou gerações no Rio e em São Paulo, nas décadas de 70 e 80. O sucesso do Hippo não se repetiu? Não se repetiu mesmo. Nesse tipo de negócio não existe uma fórmula, mas uma conjugação de coisas: a pessoa certa, o lugar, as circunstâncias. A música hoje não ajuda, porque é muito eletrônica e o volume é alto demais. No Hippopotamus, durante pelo menos 30% da noite, tocávamos música para dançar com o rosto colado, um Frank Sinatra. Se você coloca hoje uma música assim na noite, apanha.
Qual o melhor evento de que já participou? Por quê? Foi uma festa no palácio de Versalhes, na França, em 1980. A anfitriã reproduziu no palácio a decoração de uma festa feita por Maria Antonieta, com palmeiras importadas da Abissínia (atual Etiópia). Nunca vi nada tão requintado.
E qual a melhor festa em que esteve nos últimos cinco anos? Recentemente, nada me tocou muito. Mas teve o casamento da filha de uma amiga, em Saint-Tropez. A cidade foi toda ocupada pelos convidados do casamento, que vinham de vários lugares do mundo. O simpático é que era uma igreja no meio de um campo com vinhas, com cantores gospel e muitas tochas espalhadas pelo campo. No dia seguinte, fizeram uma festa na praia muito agradável, também com tochas.
Qual o maior acesso de estrelismo com que o senhor teve de lidar nesses anos? Em geral, pior que o artista é o seu empresário, que quer criar uma aura de mito ao redor. O Pavarotti foi o mais difícil. Pedia vinhos caríssimos, de safras específicas. Lembro que ele exigiu um (vinho italiano da região do Vêneto) Amarone de um ano determinado, que não se conseguia achar. A Grace Jones, que veio para cantar num baile gay de carnaval, arrumou muita confusão. Ela exigia champanhe Cristal. Colocamos duas garrafas, que ela detonou antes de acabar o ensaio. E pediu mais. A moça estava a mil, não tinha mais Cristal na casa e oferecemos uma Chandon nacional. Ela tomou e ainda elogiou. O João Gilberto dispensa comentários. Além do que ele aprontou comigo, já tinha presenciado um atraso enorme dele, no Bottom Line, em Nova York, que fez a plateia protestar. Na mesa comigo estava o Boni, que me viu começar um banco de apostas desafiando quem achasse que ele ainda ia ao show. Acabou sendo engraçado.
Além dos estrelismos, quais as exigências mais descabidas com que se deparou? O Roberto Carlos era complicado. No Metropolitan (maior casa de shows da América Latina, inaugurada em 1994, no Rio, e hoje chamada Citybank Hall), construímos os maiores camarins que a cidade já teve. O principal tinha 160 metros quadrados, com banheira Jacuzzi, sala de vestir, sala para receber convidados. Ficava a 30 metros de distância do palco. Ainda assim, ele montou um camarim atrás do palco, num contêiner, para não precisar andar essa distância. Às vésperas da estreia, o empresário disse que não ia ter show, porque a cor da cortina era bordô e ele só cantaria se a cortina fosse azul e não naquele tom vinho. Conseguimos trocar as cortinas, mas foi um transtorno.
Com tantas mudanças que aconteceram no Brasil, no mundo e em sua vida, como explica o casamento de 45 anos com Gisella? A vida se equilibra sempre sobre um tripé. Nesse caso, é tradição-paixão-falta de imaginação. Viver na noite é como ter uma sorveteira: é só ter uma para enjoar de sorvete. Não sei se a Gisella de hoje resistiria como a de antes resistiu. Mas nós combinamos as fases. Quando eu estava mais envolvido na noite, ela estava com atenções muito voltadas aos nossos filhos, que eram pequenos. Então, deu certo.
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