
Quando foi iniciado o projeto genoma humano na década de 90, a pergunta mais comum dos jornalistas era: e a terapia gênica quando será iniciada? Para nós cientistas que sabemos quão complexos são os genes humanos, terapia gênica parecia um sonho distante. Mas apesar das grandes dificuldades em relação a algumas doenças raras, a ficção parece estar se tornando realidade. A revista Times acaba de relatar alguns casos bem sucedidos: macacos com daltonismo que passaram a ver cores, e aumento da massa muscular em outro grupo de macacos que receberam injeções de genes. E na semana passada recebemos, no Centro do Genoma Humano, o cientista italiano Vicenzo Nigro que está obtendo sucesso no tratamento de hamsters com distrofia (BIO 14.6) e cardiomiopatia através de terapia gênica.
O que são esses hamsters BIO 14.6?
Esses animais, que foram descobertos por acaso,possuem uma mutação em um gene (denominado delta sarcoglicana), que causa uma forma de distrofia muscular progressiva grave em seres humanos. Em crianças a doença se manifesta na primeira década e os afetados perdem a capacidade de andar geralmente na segunda década de vida. Já os hamsters desenvolvem uma cardiomiopatia severa. O coração vai se dilatando progressivamente até a parada cardíaca. Os hamsters afetados dificilmente sobrevivem após os 11 meses de idade enquanto os animais normais vivem mais de dois anos.
Como foi o tratamento desenvolvido pelo Dr. Nigro?
O cientista e sua equipe introduziram uma cópia normal do gene (sem a mutação) em um vírus (AAV ou adeno-associated vírus). Esse vírus com o gene normal foi multiplicado em laboratório e depois os vírus foram injetados nos hamsters. Realizaram vários experimentos com o objetivo de responder as seguintes perguntas: Qual é a melhor idade para iniciar-se as injeções? Qual é a melhor via para aplicá-las ? Que concentração de vírus era a mais eficiente? Uma injeção única seria suficiente?
Qual seria o resultado ideal de uma terapia?
O ideal seria uma terapia que permitisse recuperar a força muscular, as lesões cardíacas e as funções respiratórias. Ainda, que não causasse reação adversa e que durasse toda a vida do paciente, afirma o Dr. Nigro. Estamos todos de acordo. Mas será possível conseguir isso?
O que mostrou o experimento da equipe italiana?
Os animais foram divididos em vários grupos e submetidos a diferentes protocolos de pesquisa. Depois de testar várias estratégias os pesquisadores descobriram qual era a concentração ideal do vírus capaz de ‘infectar’ os músculos afetados. Além disso, observaram que os melhores resultados foram obtidos quando o tratamento foi iniciado cedo e com injeções repetidas: a primeira com duas semanas e a segunda aos sete meses. Os animais desse sub-grupo viveram mais de dois anos, além do que vive um hamster normal.
Esse resultado e aplicável em outras formas de doenças neuromusculares?
Há ainda muitas dificuldades a serem contornadas. Para os cientistas, um dos maiores pesadelos é conseguir importar esses animais para realizar outras pesquisas, no caso, injeções com células-tronco. Para quem trabalha com terapia gênica, uma das limitações é o tamanho do gene. Esse tipo de vírus não consegue carregar genes grandes e muitas doenças genéticas são causadas por genes de tamanho considerável.
Nesses casos a terapia celular, isto é, a substituição de toda a célula e não só do gene defeituoso poderá ser mais eficiente. Mas o importante é que a terapia gênica está andando em paralelo com a terapia celular. Para diferentes doenças, diferentes estratégias. E a cada nova descoberta, mais um tijolinho é colocado na direção da cura.
Por Mayana Zatz






Então quer dizer que, para alguns casos o melhor tratatamento será a terapia celular, enquanto para outros será a terapia gênica… Acho que é isso.
Muito bom o texto! Fácil entendimento.
Abraço.
Dr. Mayana a ciência está próxima de poder regenerar os dentes. Existe um prazo estipulado para esse feito, como 5 ou 10 anos, ou esse é um objetivo a longo prazo.
Olá Diogo
É semper difícil estipular um prazo em pesquisas mas acredito que regenerar ossos e dentes não deverá demorar muito.
Um grande abraço
Mayana
Então o experimento aponta para a conclusão de que em estágios avançados das doenças (indivíduos adultos) somente a terapia celular pode trazer esperança?…..
Rosana
Acredito que a depender da condição a terapia gênica poderá ser mais importante do que a terapia celular. Por exemplo nas doenças neurodegenerativas como as ataxias espino-cerebelares ou a Coreia de Huntington o gene defeituoso fabrica uma proteina em excesso ( poliglutamina) que aparentemente causaria a morte dos neuronios. Nesses casos a estratégia mais promissora será interferir no gene que produz essa proteina em excesso ( a estratégia é denominada RNAi ou RNA de interferencia)
Um grande abraço
Mayana
Dr. Mayana,
resumidamente, como se trata o processo da terapia celular?
“A substituição de toda a célula e não só do gene defeituoso”.
A célula utilizada é do próprio paciente, e através de enzimas de restrição
substituem-se os genes envolvidos, ou seja, a pessoa mantém as outras características
de sua célula ou permanecerá com células totalmente de terceiros?
Obrigado,
Guilherme.
Dra.mayara há 22 anos atraz era normal hoje sou deficiente pois ao longo destes anos fui perdendo a coordenação o equilibrio e claresa na voz sofri tantas dicrimilização e preconceito que passei a viver isolada.Apresar de todas as dificuldades eu amo a vida mas agora passei a senti muitas dores nos ossos e gostaria de saber se eu posso ser volutaria para alguma pesquiza pois gostaria se posivel me ajuda e a outras pessoas
obrigado
Distrofia Muscular - Dra. Mayana, parabéns por sua iniciativa. Nosso Brasil necessita sempre de pessoas dispostas com amor e paixao pelo que faz, em busca de cura para doenças tao graves, que nao sao normalmente comentadas, divulgadas, e sem interesse governamental.