23/12/2010
às 6:07 \ pesquisasDiagnóstico pré-implantação: como ele pode ajudar a prevenir, entender e, no futuro, tratar doenças genéticas
Na semana passada, fiz uma enquete sobre qual seria a preferência da população brasileira caso só pudessem ter um filho. Se você ainda não respondeu, participe clicando aqui. Hoje, com a técnica de diagnóstico pré-implantação (DPI) ou PGD (do inglês “diagnóstico pré-implantacional”) é possível saber o sexo do futuro bebê antes de implantá-lo no útero. Se isso é ético ou não, é uma longa história. Mas muito mais relevante é a possibilidade de usar o DPI para casais com alto risco de doenças genéticas, que já tem ou tiveram parentes com doenças graves e que recorrem a essa tecnologia para evitar o nascimento de mais um bebê afetado. Para nós, geneticistas e pesquisadores de células-tronco, é uma situação que pode ser mutuamente benéfica. Por um lado, garantir ao casal “em risco” a possibilidade de gerar filhos livres daquela doença. Por outro lado, os embriões com mutações genéticas – que nunca serão implantados – constituem um material precioso paras pesquisas. Para falar mais sobre isso, entrevistei o doutor Pericles Hassun, que, junto com a equipe da Genesis Genetics Brasil, colaboram conosco nessas pesquisas no Centro do Genoma Humano.
Doutor Pericles, o senhor pode explicar melhor como o DPI pode ajudar os casais “em risco”?
Trata-se de um diagnóstico avançado usado no tratamento de reprodução assistida que é capaz de detectar embriões livres de algumas alterações genéticas antes de serem transferidos para o útero materno, ou seja, antes da gravidez. O DPI pode ajudar tanto os casais com problemas de fertilidade quanto a famílias que queiram evitar a transmissão de uma doença hereditária. No primeiro grupo, o DPI possibilita elevar o sucesso gestacional, o que significa aumentar a taxa de implantação embrionária e diminuir os riscos de abortos, favorecendo o nascimento de um bebê saudável. Em casos de doenças genéticas, o DPI impede que esta alteração seja transmitida, já que apenas os embriões saudáveis são transferidos para o útero materno para seguirem seu desenvolvimento. No caso de doenças genéticas, ele é indicado para: casais que já tenham filho com alguma anomalia cromossômica, casais portadores de alguma alteração cromossômica e casais com história familiar de doenças genéticas.
Quais são as alterações genéticas que o DPI pode detectar?
Até pouco tempo atrás, apenas as alterações de alguns cromossomos podiam ser analisadas. Atualmente, com a aplicação de uma nova técnica chamada CGH (Hibridação Genômica Comparativa), o PGD passou a identificar ganho ou perda de todos os cromossomos em um único exame. No caso de doenças causadas por um único gene – por exemplo, distrofias musculares, atrofia espinhal, fibrose cística -, o diagnóstico só é possível se a mutação que causou aquela doença na família já for conhecida. É importante lembrar que ninguém pode garantir a um casal uma criança normal. O que podemos é excluir algumas doenças genéticas.
O seu grupo foi pioneiro na técnica de DPI em embriões com cinco dias (blastocisto) quando eles já têm cerca de 100 células. Quais foram os resultados observados até o momento?
É importante lembrar que o DPI só pode ser realizado após o ciclo de reprodução assistida, que consiste na coleta e posterior fertilização do óvulo pelo espermatozóide fora do corpo da mulher. Depois que o óvulo é fertilizado pelo espermatozóide o embrião inicia seu desenvolvimento e vai ganhando células dia-a-dia. Para se fazer o diagnóstico no embrião, é necessário que uma ou algumas células sejam removidas, por meio de um técnica microcirúrgica denominada biópsia embrionária, para análise em um laboratório especializado em genética. Quando feita no terceiro dia, apenas uma célula pode ser biopsiada. Fazer uma análise genética contando com uma única célula não é fácil. Já no quinto dia, mais células podem ser retiradas aumentando a eficácia do diagnóstico. De fato conseguimos agora diagnosticar mais de 300 doenças genéticas. Com esta tecnologia, atualmente nós conseguimos diagnosticar num único exame alterações maiores em todos os 23 pares cromossômicos como também a mutação genética em um casal “em risco”, desde que essa já seja conhecida.
O que é feito com os embriões portadores de mutação genética?
Como apenas os embriões geneticamente viáveis são transferidos para o útero materno, aqueles com alteração podem seguir dois destinos, dependendo sempre da decisão do casal: ou permanecem congelados ou podem ser doados para a pesquisa. Graças à Lei de Biossegurança, que permite pesquisas com embriões inviáveis, é possivel a partir daqueles que têm mutações genéticas gerar qualquer linhagem celular. Isso nos dá uma possibilidade única de estudar o efeito de uma mutação em qualquer tipo de célula: ósseas, sanguíneas, pele, músculo, neurônios, etc. Com isso, podemos entender melhor os mecanismos patológicos responsáveis por aquele erro genético, como os genes se expressam nos diferentes tecidos, porque nem todos os tecidos são afetados e principalmente tentar diferentes abordagens terapêuticas para corrigir aquele defeito. É por isso que a colaboração entre centros de reprodução assistida e de pesquisas genéticas é tão importante.



Hollande confirma saída das tropas do Afeganistão até fim do ano
Setor privado terá espaço de debate durante a Rio+20
Figurante morre após gravação para o programa de Fátima Bernardes







