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genética

08/09/2011

às 20:28 \ pesquisas

Meu livro ‘Gen Ética: Escolhas que Nossos Avós Não Fizeram’

A ideia de escrever esse livro começou há muitos anos. Toda vez que eu vivia uma história complexa no Aconselhamento Genético de famílias com pacientes afetados por doenças genéticas eu pensava, algum dia eu preciso escrever a respeito, registrar isso, compartilhar com não geneticistas o nosso mundo de incertezas, de questionamentos, de emoções. Mostrar-lhes que ao contrário do que muitos pensam, nem todos os cientistas são aqueles seres frios, imersos nos seus laboratórios, distantes do mundo real, alheios ao sofrimento. E talvez mais do que isso mostrar que se por um lado a ciência tem que ser objetiva e reproduzível a sua aplicação, principalmente na área médica e biológica é recoberta de dúvidas e questionamentos.

Mas é aquela coisa que todos conhecem. Algum dia eu escrevo…. e o dia vai sendo a-dia-do.

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Por Mayana Zatz

01/04/2011

às 15:15 \ Sem categoria

Trissomia do X


Sou a Fernanda, tenho 21 anos e estudo biomedicina, estou no terceiro ano. Gostaria de explicar resumidamente o meu forte interesse pela área de genética. A minha mãe morreu devido a uma cirurgia e anos mais tarde eu vi um diário dela que eu sou portadora de uma síndrome chamada Triplo X ou Trissomia X. Saber disso da forma como eu soube me deixou muito abalada. Minha vontade de ter filhos sumiu no mesmo minuto.

Nasceu em  mim, no entanto, um interesse por este tema e a medida que eu ia aprendendo, sobre genética na faculdade, eu me interessava cada vez mais. Além disso, tenho asma, mas a minha médica pneumologista disse que isso não tem nada a ver com a Trissomia X. É verdade?

O que é a trissomia X
A Trissomia X ou Triplo X é uma condição onde meninas nascem com um cromossomo X a mais, três e não dois e 47 cromossomos ao invés do número total de 46. Essa ocorrência não é rara, atinge cerca de 1 em cada 1.000 meninas. Por que então é tão pouco conhecida? A resposta é simples. A maioria das meninas que são triplo X são assintomáticas, têm puberdade na idade normal e são férteis. Portanto, se não fizerem um exame de cromossomos (o que não é uma rotina) a pessoa pode nascer, crescer ter filhos, morrer e não ficar sabendo nunca que nasceu com um cromossomo X a mais. Estima-se que isso acontece em 90% dos casos.  Já a asma é tão comum, que ela atinge um número enorme de pessoas no mundo todo,  não tem a ver com sexo e/ou grupo étnico. Sua médica tem razão Fernanda, a asma provavelmente não tem nada a ver com a Trissomia do X.

Como surge a Trissomia do X
Geralmente é uma mutação nova, não herdada e mais frequentemente de origem materna.  Recordando, meninas são resultantes da união do óvulo, que tem 23 cromossomos – 22 autosomos que são iguais nos dois sexos e um cromossomo X -  e um espermatozoide, também com 22 autosomos e  um cromossomo X. No caso do sexo masculino o espermatozoide tem os 22 autossomos e um cromossomo Y. Falei disso na coluna Novo teste pré-natal para síndrome de Down

O que acontece na Trissomia do X é o que chamamos de não disjunção. Se for de origem materna (o que ocorre em 80% dos casos),  o óvulo que originou aquela menina, ao invés de ter 22 autossomos e um X tem 24 cromossomos, 22 autossomos e dois cromossomos X.

Mas só um cromossomo X permanece ativo
Esse é um fenômeno muito interessante. O cromossomo X tem um número grande de genes e uma questão que intrigou os geneticistas durante muito tempo é como explicar que os produtos dos genes do cromossomo X não estavam em dose dupla na mulher em comparação com o homem já que ele só tem um cromossomo X (e o Y é um cromossomo bem pequeno com poucos genes).

A hipótese para explicar esse paradoxo veio de uma cientista britânica, Mary Lyon que observou que em camundongos do sexo feminino só um cromossomo X ficava ativo enquanto o outro era silenciado. A analogia seria como se num quarto você tivesse dez lâmpadas e no outro 20, mas só 10 ficam acesas e portanto a iluminação fica semelhante nos dois quartos. A hipótese de Lyon, como ficou conhecida na época, e que hoje é denominada de teoria de Lyon foi comprovada em todas as fêmeas de mamíferos, isto é, apenas um cromossomo X tem todos os seus genes ativos. No outro, a grande maioria (mas não todos) é silenciada.

E o que acontece na trissomia do X?
Nesses casos, ao invés de ter um cromossomo X silenciado e um ativo, dois são silenciados. Só um permanece ativo e por isso a maioria das meninas, que são triplo X,  são também assintomáticas. É interessante que teoricamente essas moças teriam um risco aumentado de produzir óvulos também com um cromossomo X a mais, mas na prática o que se observa é que com raras exceções a prole é normal. Provavelmente há uma seleção contra os óvulos com cromossomos a mais. É a sábia mãe natureza.

Por Mayana Zatz

01/07/2010

às 19:12 \ Sem categoria

Pesquisadores identificam genes da longevidade


Sabemos que fatores genéticos e ambientais contribuem para um envelhecimento saudável. Nos países desenvolvidos a expectativa de vida hoje está entre 80 e 85 anos. Fatores ambientais (dieta, exercício regular, fumo etc..) têm um papel importante. Mas o que dizer de famílias onde passar dos 90 ou até dos 100 anos é quase uma regra? Uma pesquisa liderada pelos cientistas Paola Sebastiani e  Thomas Perls da Universidade de Boston, com famílias de centenários, acaba de ser publicada na revista Sciences. De acordo com os pesquisadores, os resultados desse estudo permitirão estimar com 77% de certeza se uma pessoa terá expectativa de vida longa. Se for verdade, ler a palma da mão vai sair de moda.  Temo que muitas ciganas vão perder o ganha-pão……

O estudo foi feito com 1.055 centenários e 1.267 controles

Os pesquisadores partiram da hipótese que pessoas que conseguem viver até idades muito avançadas possuem variantes genéticas que têm um papel importante nessa sobrevida excepcional. Os cientistas identificaram 150 variantes ou SNIPS (single nucleotide polymorphisms) em centenários saudáveis, que poderiam ser usadas para prever se uma pessoa irá viver mais de 90 anos. Além disso, foram identificados 19 marcadores ou “assinaturas genéticas” em pessoas com longevidade excepcional (que vivem mais de 100 anos) que estavam presentes em 90% dos centenários.

Assinaturas genéticas

De acordo com os pesquisadores, essas chamadas “assinaturas genéticas” constituem um novo avanço em relação a genômica personalizada e medicina preditiva. Segundo a Dra. Paola, essa mesma metodologia poderá ser utilizada para prever, de modo mais preciso, o risco de que uma pessoa venha a desenvolver outras doenças complexas como Alzheimer, diabetes, Parkinson ou doença cardiovascular.

Variantes de longevidade são mais importantes que variantes de risco

Outro resultado muito interessante foi a observação que nas pessoas com os genes da longevidade, a presença de variantes que aumentam o risco para doenças cardiovasculares, Alzheimer ou Parkinson por exemplo não tiveram grande influência. Isto é, se você possuir os “genes” que aumentam a chance de você viver muito, os genes de “risco” não vão fazer diferença. Se isso for verdade, deveríamos começar analisando as variantes de longevidade. Se elas estiverem presentes, não precisamos nos preocupar muito com os outros.

Será que as pessoas vão querer se testar? Quais são os prós e os contras?
Todo mundo gostaria de saber que vai viver muito e principalmente de modo saudável. E se não possuirmos os tais “genes” da longevidade? Vamos viver intensamente e gastar tudo o que temos já que não vamos durar muito? Lembro-me do meu pai que brincava que muitos dos seus amigos, já na casa dos 70 anos, diziam-lhe que haviam feito uma economia prevendo que iriam viver no máximo dez anos. E ele perguntava ironicamente: e se você errou a conta e viver mais?

Quais são as outras implicações de saber que você viverá muito?

Além de poder estimar com mais precisão qual deve ser o tamanho do seu pé de meia, posso imaginar várias outras implicações. Por um lado, o seguro de vida deveria dar desconto se você tiver os genes da longevidade. Por outro, para os planos de previdência, os longevos representam um pesadelo. Imagine as pessoas vivendo 30, 40 anos após a aposentadoria. E se amanhã os planos de previdência resolverem exigir testes genéticos para saber se você corre o risco de viver muito? Se você tiver os 77% de chance pagará 700% a mais. Quem mandou herdar esse DNA? Agora, pague por isso. Outra coisa: se você for rico, não conte aos seus herdeiros. A probabilidade de você ter uma morte “acidental” pode aumentar…..

Mas e se o teste revelar que você não possui os genes da longevidade? Será que queremos saber? E você, caro leitor gostaria de ser testado?

Por Mayana Zatz

25/06/2010

às 16:01 \ Sem categoria

Células-tronco em São Francisco

Acabo de voltar de São Francisco, onde participei do 8o Congresso da Sociedade Internacional de Pesquisas em Células-tronco (ISSCR- International Society for Stem-cells Research ) – um assunto que está  atraindo cada vez mais o interesse dos cientistas.

Havia mais de 3.000 participantes. Nossa equipe, do Centro do Genoma, levou cinco trabalhos. Tivemos a oportunidade de discuti-los, de ouvir as novidades, de pensar e de direcionar a continuação das pesquisas. Os avanços são constantes e os primeiros ensaios clínicos estão começando. Temos muita esperança de transformar as pesquisas em tratamentos para muitas condições. Enquanto isso, porém, temos uma preocupação muito grande com a segurança e a eficácia de supostos “tratamentos” que estão sendo oferecidos por clínicas não-credenciadas e que, infelizmente, visam o lucro acima de qualquer coisa.

Na abertura do congresso, o cientista Irving L. Weissman chamou a atenção para o site da sociedade com o seguinte título: “Top Ten Things to Know About Stem Cell Treatments”, ou, traduzindo, “As dez coisas mais importantes sobre tratamentos com células-tronco” (o artigo completo em inglês pode ser acessado no link: http://migre.me/O81Q).

São 10 pontos importantes que, de acordo com a ISSCR,  as pessoas devem saber antes de se submeter a um tratamento com células-tronco sem respaldo científico. Seguem aqui, de forma resumida, esses pontos:

1.      Existem diferentes tipos de células-tronco (CT)- cada um com sua própria finalidade.

Há vários tipos de CT presentes em diferentes partes do nosso corpo. Isso inclui CT embrionárias, que só existem no início do desenvolvimento, e vários tipos de CT adultas -ou tecido-específicas- que se originam durante o desenvolvimento fetal e que permanecem no nosso corpo durante toda a vida. As células chamadas tecido-específicas têm um potencial para formar tecidos iguais àqueles de onde foram extraídas mas possuem um potencial limitado para formar outros tipos celulares. Por exemplo, CT hematopoéticas retiradas da medula óssea regeneram sangue enquanto CT neurais têm o potencial de regenerar células nervosas.

Portanto é improvável que um único tipo de CT possa ser usado para tratar inúmeras doenças diferentes. Desconfie de clínicas que oferecem tais tratamentos.

2. Um único tratamento com CT não pode funcionar para inúmeras doenças ou condições diferentes.

É impossível que um único tipo de CT trate doenças totalmente diferentes como Parkinson e diabetes, por exemplo. Os mecanismos que causam essas doenças são totalmente distintos e, portanto, diferentes tipos celulares teriam que ser utilizados para tratar cada uma dessas condições. As CT embrionárias talvez possam ser usadas para tratar muitas doenças. Entretanto, elas não podem ser usadas diretamente para fins terapêuticos por que podem formar tumores ou formar um tecido diferente daquele que queremos.

3. Ainda existem poucas doenças nas quais pode se falar em tratamento com células-tronco.

As doenças nas quais o uso de CT já pode ser considerado como tratamento (e não experiência terapêutica) são aquelas da medula óssea, isto é, doenças hematológicas (leucemias, anemias e talassemias, por exemplo) ou algumas doenças imunológicas. Algumas doenças ósseas, de pele ou da córnea começam a ser tratadas com o transplante de CT originadas desses mesmos órgãos. Algumas dessas terapias já são aceitas como seguras e eficientes pela comunidade médica.

4. O fato de algumas pessoas afirmarem que foram beneficiadas por tratamento com células-tronco não significa que isso realmente ocorreu.

Existem várias razões para explicar porque uma pessoa pode se sentir aparentemente melhor após um tratamento com CT. Por exemplo, outros tratamentos convencionais que são realizados com mais rigor juntamente com a aplicação das CT- como fisioterapia, hidroterapia, estimulação. Há também a flutuação natural da doença – existem dias onde nos sentimos melhor e outros pior. Talvez o mais importante seja o desejo intenso ou a crença de que um tratamento vai ajudar. É o que chamamos de efeito placebo, que pode ter resultados positivos, independentemente do tratamento. Por isso, uma terapia só pode ser considerada benéfica em experiências com controles não tratados. Isto é, um grupo recebe injeções com CT, o outro somente injeções sem CT e nem o paciente e nem quem avalia os resultados  sabe quem recebeu as CT e quem não. Esses ensaios são chamados de duplo-cegos.

Desconfie de clínicas que fazem propaganda dos seus resultados utilizando depoimentos de pacientes.

5. A pesquisa científica é um processo longo e difícil e por isso leva tempo para se transformar em tratamento.

Em geral, a pesquisa científica é um processo longo e complexo. Entender a causa de uma doença e como curá-la leva tempo. Novas idéias precisam ser testadas primeiro no laboratório, em culturas de células, e depois em modelo animal. Às vezes, o que parece promissor no laboratório não funciona em modelo animal. E às vezes, o que funciona em modelo animal não funciona em humanos. Se um novo tratamento não for planejado com cuidado é provável que não surta o efeito desejado. E o mais preocupante: ele pode até piorar a doença ou causar efeitos colaterais perigosos.

6. Para serem usadas em tratamentos, as células-tronco precisam se comportar de maneira específica.

O transplante de CT retiradas da medula óssea é um exemplo de um tratamento bem sucedido porque o objetivo é que as células implantadas façam o que elas estão acostumadas a fazer: mais sangue. Entretanto, para outras condições nós queremos que elas se comportem de modo diferente daquele a que estão habituadas. Além disso, uma vez injetadas no corpo, elas precisam se integrar ao órgão ou tecido que necessita ser “consertado” e funcionar harmonicamente com outras células do corpo. Por exemplo, no caso de doenças neurológicas, as células implantadas precisam formar tipos específicos de neurônios e conectar-se a outros neurônios. Ainda estamos aprendendo como controlar as células para que sejam aquelas que queremos, para que elas cresçam somente o necessário, além de descobrir o melhor método para transplantá-las. Descobrir isto tudo leva tempo.

Desconfie de pessoas que afirmam que as células-tronco, uma vez injetadas, sabem para onde se dirigir e o que fazer para tratar uma condição específica.

7. O fato de utilizar células retiradas do seu próprio corpo não significa que são seguras.

Todo procedimento médico envolve riscos. Se, por um lado, usar e reinjetar suas próprias células evita a rejeição, os procedimentos para cultivá-las e injetá-las envolvem riscos. Quando elas são manipuladas fora do seu corpo, podem sofrer mudanças nas características, podem perder a capacidade de se especializar em um determinado tipo de célula, há risco de contaminação em cultura por bactérias ou vírus patogênicos, entre outros exemplos. O próprio processo de retirada e injeção de células-tronco também envolve riscos.

8. Você pode ser prejudicado ao se submeter a um tratamento não comprovado, mesmo que tenha uma condição incurável.

Algumas das condições ainda incuráveis são consideradas “tratáveis” por clínicas não credenciadas . Por isso, é fácil de entender porque algumas pessoas decidem se submeter a esses tratamentos. Elas acreditam que não têm nada a perder. Na realidade, a probabilidade de haver algum beneficio é muito baixa, e existem riscos de complicações imdediatas ou a longo prazo. Por exemplo, um menino desenvolveu tumores cerebrais após injeções de células-tronco. Além disso, se uma pessoa já tiver se submetido a um tratamento experimental, poderá não ser aceito para participar de novas tentativas terapêuticas. Pesquisadores americanos são muito rígidos nesse aspecto. Sem falar no custo financeiro, que pode ser alto para os pacientes, seus familiares e a comunidade. Além disso, algumas clínicas localizadas em lugares distantes exigem viagens muito longas.

9. Um tratamento experimental pago não é o mesmo que uma pesquisa terapêutica.

Se um tratamento pago for chamado de experimental, isso não significa necessariamente que ele seja parte de uma pesquisa. Em pesquisas clínicas realizadas com responsabilidade, é necessário primeiro que se tenha dados pré-clínicos confirmando que o tratamento é seguro e potencialmente eficiente. O estudo precisa ser desenhado de modo a responder a questóes específicas e frequentemente tem que ser comparado com um grupo controle não submetido ao tratamento. O financiamento é feito por companhias que estão desenvolvendo o tratamento (por exemplo, novos medicamentos) ou agências de pesquisas. Antes de ser iniciado, o protocolo precisa ser revisto por um comitê independente que protege os direitos dos pacientes. Em muitos países existe uma agência regulatória nacional como a EMA, na Europa (European Medicines Agency), ou a FDA, nos Estados Unidos (Food and Drug Administration). No Brasil, além dos comitês locais que precisam aprovar a pesquisa, a agência regulatória federal é o CONEP (Conselho Nacional de Ética em pesquisas).

Desconfie de tratamentos caros que não foram cientificamente testados antes.

Tratamentos experimentais conduzidos de modo responsável são fundamentais para o desenvolvimento de novas terapias . A sociedade ISSCR defende que a participação nesses tratamentos deve ser feita após um estudo cuidadoso e discussão com um médico de confiança.

10. A ciência das células-tronco está avançando.

A ciência das células-tronco é extraordinariamente promissora. Houve grandes avanços no tratamento de doenças sanguíneas, o que confirma como a terapia das CT pode ser poderosa. Todos os dias anunciam-se novas descobertas em como modelar e controlar as CT para tratar diferentes condições, o que nos aproxima cada vez mais da aplicação clínica. Várias tentativas terapêuticas estão sendo testadas em modelos animais e algumas já vão ser iniciadas em humanos. Em fevereiro de 2010, a empresa britânica Neuron anunciou a aprovação de um teste clínico ( fase 1, isto é, para avaliar segurança ) para tratamento de derrame. O início de um primeiro teste clínico com células-tronco derivadas das embrionárias para lesões agudas da medula está sendo avaliado pela FDA e espera-se que seja aprovado logo. Apesar da aparente demora, a ciência das células-tronco está avançando. Os cientistas que, como eu, pesquisam essas células mágicas, estão extremamente otimistas de que terapias com células-tronco vão permitir, algum dia, o tratamento de um número grande de doenças e condições humanas. Vale a pena esperar.

Por Mayana Zatz

01/10/2009

às 22:36 \ Sem categoria

Profissão, prazer e retorno financeiro

chapeu-formando

Mayana, sou uma aluna do 1º ano do Ensino Médio e leitora da sua coluna em VEJA.com. Comecei a estudar Biologia e , mesmo sabendo tão pouco, amo esse assunto. Estou um pouco confusa sobre qual carreira seguir. Fico receosa de não poder conciliar prazer e retorno financeiro nessa área. Gostaria de saber como é trabalhar com genética.
(Júlia Dias de Oliveira Campos)

Recebo inúmeros emails de jovens que dizem querer seguir a área de genética e imagino que todos têm a mesma preocupação: é possível conciliar prazer e retorno financeiro? Se você tivesse feito essa pergunta há 30 anos, eu diria que não, a genética era uma ciência pouco conhecida e aparentemente de pouca aplicação prática. Os alunos da medicina daquela época não entendiam porque tinham de estudar genética. Hoje, a situação mudou radicalmente: a genética é a ciência do século XXI. Mas será que ser geneticista é uma profissão rentável?

É uma área muito ampla

É importante lembrar que a genética não se limita à parte humana e à parte médica, que tem sido o meu foco de pesquisas. Existe a genética animal, a genética vegetal, a genética de micro organismos e a biotecnologia que podem ter aplicações práticas mais rentáveis que a genética humana.

Que profissão pode garantir retorno financeiro?

Essa garantia não existe Júlia, para nenhuma profissão. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que entrar no mercado financeiro era garantia de alto salário. Mas essa situação parece estar mudando. Veja o que aconteceu nos últimos meses. Entre as profissões de futuro a biotecnologia e a genética parecem despontar como as grandes estrelas. Vale a pena apostar nelas? Na minha opinião existe um pré-requisito fundamental para o sucesso em qualquer atividade profissional…

Escolha sua profissão por paixão

Mais do que prazer, faça a sua escolha por paixão, Júlia. Um trabalho, não importa qual, onde você não sinta as horas passar. Se você conseguir uma profissão que a motive a ponto de envolvê-la de corpo e alma, o retorno virá. Talvez você não tenha um salário milionário, mas certamente se sentirá muito mais realizada que muitas pessoas frustradas, donas de jatinhos particulares. É assim que me sinto e é isso que desejo a você e a todos os jovens que estão começando ou questionando uma carreira.

Por Mayana Zatz

24/09/2009

às 20:28 \ Sem categoria

Quanto você precisa dormir?

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Estamos cansados de ouvir que dormir o suficiente é muito importante para ter um bom desempenho e manter a saúde. O número de horas apregoadas pela maioria dos especialistas é de 8 horas. Entretanto, algumas pessoas dizem que não se sentem descansadas com menos de 9 ou 10 horas de sono, enquanto outras se sentem muito bem dispostas dormindo menos de 6 horas por noite. A necessidade individual de sono depende de hábitos ou dos nossos genes?

Se você sente culpa por gostar de dormir saiba que existe sim uma influência genética no número de horas  que cada pessoa necessita para se sentir descansado. É o que mostra uma pesquisa publicada na revista Sciences, de 14 de agosto.

Os genes do sono

Os genes que influenciam o sono ainda são pouco conhecidos, mas sabemos que a variabilidade entre pessoas de uma população obedece a uma herança dita multifatorial, como a altura ou o peso. Os fatores ambientais (prática de esportes, stress, alimentação adequada etc..) são responsáveis por 50% e a contribuição genética (chamada de herdabilidade) responde pelos outros 50%. Ela depende de vários genes cada um com um efeito pequeno. Em um extremo da curva estão aqueles que precisam de pouco sono e no outro os conhecidos “dorminhocos”. Entretanto, mutações em alguns genes podem ter um efeito significante no nosso sono. É sobre isso o artigo publicado pelo Dr. Ying He e seus colaboradores.

Mutação em indivíduos de pouco sono

Esses pesquisadores descobriram que uma mutação (P385R) em um gene denominado DEC2 – envolvido entre outras coisas no ritmo circadiano – está aparentemente associado a pouca necessidade de sono. Essa mutação foi encontrada em uma família – denominada de família de pouco sono – (short sleep family). Os portadores da mutação (mãe e filho) dormiam cerca de 6 horas, enquanto os outros familiares, que não tinham a mutação, dormiam em média 8 horas (variando de 7.4 a 9.4).

Trata-se de uma mutação rara. Como saber se ela exerce mesmo esse efeito?

Essa mutação identificada em uma família não foi encontrada em 250 indivíduos da população. Como então ter certeza que ela influencia o sono? Para ter essa resposta os cientistas geraram um camundongo transgênico com a mesma mutação. Observaram que os animais portadores da mutação permaneciam  ativos entre 1.2 a 2.5 horas a mais que os controles sem a mutação. Confirmaram assim seus achados em humanos.

Afinal, quanto sono precisamos?

Trata-se de uma pergunta não só de interesse social, mas também científica, que tem sido objeto de muitas pesquisas: qual é o papel ou a importância do sono no nosso desempenho e bem-estar? Estudos genéticos serão muito importantes para desvendar esse mistério. Por outro lado, confesso que fiquei aliviada ao saber que se trata de uma mutação rara. Imaginem se tivéssemos que nos submeter a um teste de DNA para sabermos se temos uma propensão genética a dormir muito ou pouco antes de sermos aceitos em um novo emprego?

E você, caro leitor? Sabia que os genes influenciam a sua necessidade de sono?

Por Mayana Zatz


 

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