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25/06/2010

às 16:01 \ Sem categoria

Células-tronco em São Francisco

Acabo de voltar de São Francisco, onde participei do 8o Congresso da Sociedade Internacional de Pesquisas em Células-tronco (ISSCR- International Society for Stem-cells Research ) – um assunto que está  atraindo cada vez mais o interesse dos cientistas.

Havia mais de 3.000 participantes. Nossa equipe, do Centro do Genoma, levou cinco trabalhos. Tivemos a oportunidade de discuti-los, de ouvir as novidades, de pensar e de direcionar a continuação das pesquisas. Os avanços são constantes e os primeiros ensaios clínicos estão começando. Temos muita esperança de transformar as pesquisas em tratamentos para muitas condições. Enquanto isso, porém, temos uma preocupação muito grande com a segurança e a eficácia de supostos “tratamentos” que estão sendo oferecidos por clínicas não-credenciadas e que, infelizmente, visam o lucro acima de qualquer coisa.

Na abertura do congresso, o cientista Irving L. Weissman chamou a atenção para o site da sociedade com o seguinte título: “Top Ten Things to Know About Stem Cell Treatments”, ou, traduzindo, “As dez coisas mais importantes sobre tratamentos com células-tronco” (o artigo completo em inglês pode ser acessado no link: http://migre.me/O81Q).

São 10 pontos importantes que, de acordo com a ISSCR,  as pessoas devem saber antes de se submeter a um tratamento com células-tronco sem respaldo científico. Seguem aqui, de forma resumida, esses pontos:

1.      Existem diferentes tipos de células-tronco (CT)- cada um com sua própria finalidade.

Há vários tipos de CT presentes em diferentes partes do nosso corpo. Isso inclui CT embrionárias, que só existem no início do desenvolvimento, e vários tipos de CT adultas -ou tecido-específicas- que se originam durante o desenvolvimento fetal e que permanecem no nosso corpo durante toda a vida. As células chamadas tecido-específicas têm um potencial para formar tecidos iguais àqueles de onde foram extraídas mas possuem um potencial limitado para formar outros tipos celulares. Por exemplo, CT hematopoéticas retiradas da medula óssea regeneram sangue enquanto CT neurais têm o potencial de regenerar células nervosas.

Portanto é improvável que um único tipo de CT possa ser usado para tratar inúmeras doenças diferentes. Desconfie de clínicas que oferecem tais tratamentos.

2. Um único tratamento com CT não pode funcionar para inúmeras doenças ou condições diferentes.

É impossível que um único tipo de CT trate doenças totalmente diferentes como Parkinson e diabetes, por exemplo. Os mecanismos que causam essas doenças são totalmente distintos e, portanto, diferentes tipos celulares teriam que ser utilizados para tratar cada uma dessas condições. As CT embrionárias talvez possam ser usadas para tratar muitas doenças. Entretanto, elas não podem ser usadas diretamente para fins terapêuticos por que podem formar tumores ou formar um tecido diferente daquele que queremos.

3. Ainda existem poucas doenças nas quais pode se falar em tratamento com células-tronco.

As doenças nas quais o uso de CT já pode ser considerado como tratamento (e não experiência terapêutica) são aquelas da medula óssea, isto é, doenças hematológicas (leucemias, anemias e talassemias, por exemplo) ou algumas doenças imunológicas. Algumas doenças ósseas, de pele ou da córnea começam a ser tratadas com o transplante de CT originadas desses mesmos órgãos. Algumas dessas terapias já são aceitas como seguras e eficientes pela comunidade médica.

4. O fato de algumas pessoas afirmarem que foram beneficiadas por tratamento com células-tronco não significa que isso realmente ocorreu.

Existem várias razões para explicar porque uma pessoa pode se sentir aparentemente melhor após um tratamento com CT. Por exemplo, outros tratamentos convencionais que são realizados com mais rigor juntamente com a aplicação das CT- como fisioterapia, hidroterapia, estimulação. Há também a flutuação natural da doença – existem dias onde nos sentimos melhor e outros pior. Talvez o mais importante seja o desejo intenso ou a crença de que um tratamento vai ajudar. É o que chamamos de efeito placebo, que pode ter resultados positivos, independentemente do tratamento. Por isso, uma terapia só pode ser considerada benéfica em experiências com controles não tratados. Isto é, um grupo recebe injeções com CT, o outro somente injeções sem CT e nem o paciente e nem quem avalia os resultados  sabe quem recebeu as CT e quem não. Esses ensaios são chamados de duplo-cegos.

Desconfie de clínicas que fazem propaganda dos seus resultados utilizando depoimentos de pacientes.

5. A pesquisa científica é um processo longo e difícil e por isso leva tempo para se transformar em tratamento.

Em geral, a pesquisa científica é um processo longo e complexo. Entender a causa de uma doença e como curá-la leva tempo. Novas idéias precisam ser testadas primeiro no laboratório, em culturas de células, e depois em modelo animal. Às vezes, o que parece promissor no laboratório não funciona em modelo animal. E às vezes, o que funciona em modelo animal não funciona em humanos. Se um novo tratamento não for planejado com cuidado é provável que não surta o efeito desejado. E o mais preocupante: ele pode até piorar a doença ou causar efeitos colaterais perigosos.

6. Para serem usadas em tratamentos, as células-tronco precisam se comportar de maneira específica.

O transplante de CT retiradas da medula óssea é um exemplo de um tratamento bem sucedido porque o objetivo é que as células implantadas façam o que elas estão acostumadas a fazer: mais sangue. Entretanto, para outras condições nós queremos que elas se comportem de modo diferente daquele a que estão habituadas. Além disso, uma vez injetadas no corpo, elas precisam se integrar ao órgão ou tecido que necessita ser “consertado” e funcionar harmonicamente com outras células do corpo. Por exemplo, no caso de doenças neurológicas, as células implantadas precisam formar tipos específicos de neurônios e conectar-se a outros neurônios. Ainda estamos aprendendo como controlar as células para que sejam aquelas que queremos, para que elas cresçam somente o necessário, além de descobrir o melhor método para transplantá-las. Descobrir isto tudo leva tempo.

Desconfie de pessoas que afirmam que as células-tronco, uma vez injetadas, sabem para onde se dirigir e o que fazer para tratar uma condição específica.

7. O fato de utilizar células retiradas do seu próprio corpo não significa que são seguras.

Todo procedimento médico envolve riscos. Se, por um lado, usar e reinjetar suas próprias células evita a rejeição, os procedimentos para cultivá-las e injetá-las envolvem riscos. Quando elas são manipuladas fora do seu corpo, podem sofrer mudanças nas características, podem perder a capacidade de se especializar em um determinado tipo de célula, há risco de contaminação em cultura por bactérias ou vírus patogênicos, entre outros exemplos. O próprio processo de retirada e injeção de células-tronco também envolve riscos.

8. Você pode ser prejudicado ao se submeter a um tratamento não comprovado, mesmo que tenha uma condição incurável.

Algumas das condições ainda incuráveis são consideradas “tratáveis” por clínicas não credenciadas . Por isso, é fácil de entender porque algumas pessoas decidem se submeter a esses tratamentos. Elas acreditam que não têm nada a perder. Na realidade, a probabilidade de haver algum beneficio é muito baixa, e existem riscos de complicações imdediatas ou a longo prazo. Por exemplo, um menino desenvolveu tumores cerebrais após injeções de células-tronco. Além disso, se uma pessoa já tiver se submetido a um tratamento experimental, poderá não ser aceito para participar de novas tentativas terapêuticas. Pesquisadores americanos são muito rígidos nesse aspecto. Sem falar no custo financeiro, que pode ser alto para os pacientes, seus familiares e a comunidade. Além disso, algumas clínicas localizadas em lugares distantes exigem viagens muito longas.

9. Um tratamento experimental pago não é o mesmo que uma pesquisa terapêutica.

Se um tratamento pago for chamado de experimental, isso não significa necessariamente que ele seja parte de uma pesquisa. Em pesquisas clínicas realizadas com responsabilidade, é necessário primeiro que se tenha dados pré-clínicos confirmando que o tratamento é seguro e potencialmente eficiente. O estudo precisa ser desenhado de modo a responder a questóes específicas e frequentemente tem que ser comparado com um grupo controle não submetido ao tratamento. O financiamento é feito por companhias que estão desenvolvendo o tratamento (por exemplo, novos medicamentos) ou agências de pesquisas. Antes de ser iniciado, o protocolo precisa ser revisto por um comitê independente que protege os direitos dos pacientes. Em muitos países existe uma agência regulatória nacional como a EMA, na Europa (European Medicines Agency), ou a FDA, nos Estados Unidos (Food and Drug Administration). No Brasil, além dos comitês locais que precisam aprovar a pesquisa, a agência regulatória federal é o CONEP (Conselho Nacional de Ética em pesquisas).

Desconfie de tratamentos caros que não foram cientificamente testados antes.

Tratamentos experimentais conduzidos de modo responsável são fundamentais para o desenvolvimento de novas terapias . A sociedade ISSCR defende que a participação nesses tratamentos deve ser feita após um estudo cuidadoso e discussão com um médico de confiança.

10. A ciência das células-tronco está avançando.

A ciência das células-tronco é extraordinariamente promissora. Houve grandes avanços no tratamento de doenças sanguíneas, o que confirma como a terapia das CT pode ser poderosa. Todos os dias anunciam-se novas descobertas em como modelar e controlar as CT para tratar diferentes condições, o que nos aproxima cada vez mais da aplicação clínica. Várias tentativas terapêuticas estão sendo testadas em modelos animais e algumas já vão ser iniciadas em humanos. Em fevereiro de 2010, a empresa britânica Neuron anunciou a aprovação de um teste clínico ( fase 1, isto é, para avaliar segurança ) para tratamento de derrame. O início de um primeiro teste clínico com células-tronco derivadas das embrionárias para lesões agudas da medula está sendo avaliado pela FDA e espera-se que seja aprovado logo. Apesar da aparente demora, a ciência das células-tronco está avançando. Os cientistas que, como eu, pesquisam essas células mágicas, estão extremamente otimistas de que terapias com células-tronco vão permitir, algum dia, o tratamento de um número grande de doenças e condições humanas. Vale a pena esperar.

Por Mayana Zatz

10/09/2009

às 22:25 \ Sem categoria

Doença de Alzheimer

alzheimer

Há muito tempo acompanho seu trabalho na área de genética. Li recentemente sobre a descoberta de células do Mal de Alzheimer. Gostaria de me colocar á disposição para ser voluntário em eventuais testes de seu laboratório. Estou  com 61 anos. Será que sirvo?
(Manuel Ribeiro)

O que são essas novas descobertas?

Com o envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida, a  doença de Alzheimer (DA), caracterizada pela perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva, está se tornando cada vez mais frequente. Embora não tenhamos estatísticas precisas para a população brasileira sabemos que a doença atinge mais de 5 milhões de americanos. Portanto, identificar novos genes e mecanismos responsáveis pela DA abre novas perspectivas de tratamento. É isso que dois grupos de pesquisadores independentes, um francês e outro britânico, acabam de publicar na revista Nature Genetics.

A DA pode ter herança dominante ou multifatorial

Existem formas da doença cujo início é precoce (entre 40 e 50 anos). Essa variações são causadas por pelo menos três genes autossômicos dominantes já identificados. Uma pessoa portadora de uma mutação em um desses genes, além da quase certeza de desenvolver a doença (desde que viva o suficiente) terá um risco de 50% de transmiti-la à sua descendência. Felizmente essas formas são raras e correspondem a menos de 10% de todos os casos de DA. As formas mais comuns, de início tardio (após os 60 anos) obedecem a uma herança mais complexa, dita multifatorial, isto é, pela interação de genes de suscetibilidade com fatores ambientais.

O que são esses genes de suscetibilidade?

São genes que aumentam o risco, mas não determinam que uma pessoa irá desenvolver a doença. Para que isso ocorra deve haver interação com outros genes de risco e fatores ambientais. Até o momento, o único gene de susceptibilidade para DA reconhecido em todos os estudos internacionais  era o gene APOE, que pode se apresentar sob três formas: APOe2, APOe3 e APOe4. Pessoas portadoras da forma APOe4  têm um risco aumentado de vir a desenvolver a DA.
O que mostrou esse novo estudo publicado na revista Nature Genetics?

Os pesquisadores, em dois estudos independentes, um realizado na França e outro no Reino Unido, identificaram mais três genes de suscetibilidade denominados: clusterina, CR1 e PICALM. O estudo envolveu muitos milhares de pessoas, 16.000 só no estudo britânico.

O que fazem esses genes?

O gene PICALM  atua na junção entre as células nervosas. Os genes da clusterina e CR1 interagem com a proteína amiloide que se acumula no cérebro de pacientes com DA, levando a morte celular e problemas cognitivos. O interessante é que variantes do gene da clusterina podem ter dois papeis antagônicos: um benéfico auxiliando na remoção das placas amiloides ou um patogênico permitindo a formação de fibrilas, que vão ancorar as placas amiloides às células nervosas (como se fossem teias de aranha para ancorar suas presas). Já o gene CR1  está envolvido com o  sistema imunológico. Ele poderia atuar reconhecendo ou não as placas amiloides como agentes invasores patogênicos. Se isso for confirmado, estimular esse gene a remover as placas amiloides abriria novas perspectivas terapêuticas.

E agora, como estimar o risco de podemos ter DA?

O primeiro gene de risco, o APOe4 , descoberto há 15 anos, está associado a um risco de 20% de uma pessoa desenvolver a doença, o da clusterina em cerca de 10% e o CR1 e PICALM em cerca de 3 a 5%. Existe uma probabilidade grande de qualquer um de nós ter um ou mais desses genes de risco. Mas cada um deles sozinho, não vai determinar qual é a probabilidade de alguém vir a desenvolver a DA. Mesmo que tivéssemos os três genes de risco teríamos uma probabilidade de 30 a 35% de vir a desenvolver a DA, ou seja, 65 a 70% de não desenvolvê-la.

Vale a pena passarmos por testes?

Muitas  pessoas afirmam que gostariam de ser testadas. Na minha opinião, embora as novas pesquisas sejam muito promissoras, enquanto não houver um tratamento efetivo que previna o depósito das placas amiloides, não vale a pena passar por esses testes genéticos. Pelo menos eu não quero saber…. Já falei disso em colunas anteriores. Mas essa é uma questão polêmica. Na próxima semana vou entrevistar o Dr. David Schlesinger, que vem trabalhando em pesquisas com a DA sobre os prós e contras de submeter-se a um teste preditivo.

Por Mayana Zatz


 

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