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Xampus, DNA, células-tronco

quinta-feira, 19 de novembro de 2009 | 6:22

Muitos produtos falam que contêm DNA, ou que agem no DNA. O que realmente fazem? O que o DNA vegetal faz para deixar os cabelos mais bonitos? O que o creme antirrugas faz no DNA do rosto? Soube de um shampoo de células-tronco, ele funciona?
(Natalia)

Produtos de beleza com DNA

Outro dia, um colega me contava de uma senhora no supermercado encantada ao encontrar shampoo com DNA. Segundo ela, o DNA - aquela dupla hélice colorida e brilhante que ela havia visto na televisão - iria se enrolar em volta dos fios de cabelo e assim ficaria mais bonito e saudável. Certamente ela não sabia que aquela dupla hélice colorida esquematizada na TV é muito diferente do DNA presente nas células do corpo.

Colocar DNA em um xampu ou outro produto de beleza não é difícil

O DNA está em toda parte. Quando você toma um café, deixa seu DNA na borda da xícara. Se colar um envelope com saliva, lá vai um pouco do seu DNA. Se você deixar cair lágrimas, saliva ou espirrar no seu xampu, estará adicionando seu próprio DNA. Você poderá até dizer que é um produto com DNA personalizado. Agora que você já sabe a receita para enriquecer seu xampu com DNA (seu ou de outra pessoa) experimente. Veja se seu cabelo fica realmente mais bonito.

E as células-tronco?

Depois do DNA, a última moda são as células-tronco. Muito mais convincentes. Se a expectativa é de que elas sirvam no futuro para regenerar tecidos, porque não colocá-las nos cremes de beleza? Afinal os mais caros prometem tirar as rugas e regenerar a pele. Será que esse efeito será redobrado se forem adicionadas células-tronco aos cosméticos? Seria uma maravilha. E o risco de formar tumores?

O cultivo de células-tronco depende de condições muito especiais

Se você comprou um creme de beleza “supostamente” com células-tronco saiba primeiro que, como qualquer célula, para se multiplicar e proliferar as células-tronco precisam estar vivas. Para mantê-las vivas elas precisam ser armazenadas a temperaturas muito baixas (170 graus negativos), em tanques de nitrogênio líquido. Uma vez descongeladas, requerem condições muito especiais para crescer: nutrientes específicos, temperatura controlada,etc…

Alguns cosméticos afirmam que contêm produtos para estimular nossas células-tronco

O que seriam esses produtos, ninguém sabe. É um segredo guardado a sete chaves, mas de qualquer modo isso é muito diferente de conter células-tronco vivas. Portanto, a menos que você tenha recebido injeções de células-tronco vivas, ou seu produto de beleza é mantido em tanque de nitrogênio, não se preocupe com o risco de tumores. Mas também não espere formação de novos tecidos. Quanto ao efeito cosmético, faça a seguinte experiência: coloque por alguns dias o produto na metade do seu rosto e um bom creme hidratante na outra metade. E tire suas próprias conclusões.

Por Mayana Zatz

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Quebra de sigilo: do Enem ao nosso genoma

quinta-feira, 15 de outubro de 2009 | 22:55

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A quebra do sigilo da prova do Enem tem ocupado todos os espaços da mídia. Concordo totalmente com Jorge Forbes quando ele diz: “Não há segurança possível se, por segurança, for entendido o direito de cada um manter indevassado todos os aspectos de sua vida.” (caderno Aliás do jornal Estado de S.Paulo, 11 de outubro). Infelizmente. Isso nos remete a outro assunto, muito polêmico: a quebra de sigilo do nosso genoma, dos segredos contidos no nosso DNA. A quem pertencem essas informações?

Bancos de DNA

Os bancos de DNA armazenados em institutos de pesquisas são controlados por um esquema muito rígido de sigilo. Para ter acesso a essas amostras é necessário passar por rigorosos comitês de ética e justificar muito bem qual será o seu uso. E é claro, sempre com o consentimento dos doadores das amostras. Mas, ao contrário do caso do Enem, de escutas telefônicas ou da quebra de sigilo na internet não é necessário realizar nenhum crime para obter o DNA de alguém.

Nosso DNA está em toda parte

Nós o deixamos em toda  parte: na xícara onde bebemos nossos cafés, nos talheres que usamos nos restaurantes, no lenço de papel onde espirramos, nas cutículas que retiramos ao fazer as unhas nos salões de beleza, nos modess com nosso sangue menstrual (cuidadosamente embalados em invólucros higiênicos e prontos para serem levados) ou na ponta do cigarro que fumamos. Vocês devem se lembrar do caso da Roberta - irmã do Pedrinho que havia sido sequestrado ao nascer - e que teve seu DNA analisado em uma ponta de cigarro descartada, sem o seu consentimento.

Que informações poderão ser obtidas no nosso DNA?

A análise do nosso DNA nunca permitirá descobrir o que pensamos, o que sabemos ou o que sentimos. Mas informações como falsa paternidade ou o risco aumentado para algumas doenças estarão lá, disponíveis para todos. O sequenciamento do DNA vem permitindo obter um número cada vez maior de informações. E quem sabe, no futuro será possível saber se temos mais propensão para alguns traços de personalidade ou comportamento como agressividade, bom humor, otimismo.

A quem interessa?

Para os paparazzi seria um prato cheio. Além de seguir os famosos para obter fotos reveladoras, eles poderiam coletar também seus DNAs.  Já imagino as manchetes sobre os filhos de Michael Jackson, por exemplo. Mas o mais preocupante são as companhias de seguro saúde que certamente gostariam de saber se temos um risco aumentado de termos algumas doenças de alto custo para elas. Nossos empregadores também poderiam querer usar essas informações antes de nos aceitar.

Ético ou não ético?

Talvez você não tenha sido prejudicado pelo exame do Enem e não esteja interessado nas aventuras extra conjugais ou nas intimidades genômicas dos colunáveis. Mas quebrar o sigilo na internet  ou revelar segredos contidos em DNA é um assunto que diz respeito a todos nós. Para alguns juristas o DNA descartado não nos pertence mais. Portanto não é crime ou algo antiético usar ou revelar as informações obtidas nele. E você o que acha?

Por Mayana Zatz

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