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distrofia

13/06/2012

às 12:32 \ Sem categoria

Células-tronco de tecido de cordão umbilical beneficiam camundongos com forma congênita de distrofia muscular

Thinkstock


Há algum tempo publicamos um trabalho sugerindo que células-tronco mesenquimais (células-tronco com potencial de formar músculo, osso, gordura e cartilagem) de gordura pareciam melhores do que as do tecido do cordão umbilical para diferenciar-se em células musculares.  Mas será que as células injetadas precisam diferenciar-se em células musculares para trazerem um benefício clínico? Para respondermos a essa questão planejamos outro experimento. Injetamos células-tronco mesenquimais (CTM) retiradas do tecido do cordão umbilical em camundongos que têm uma forma grave de distrofia congênita.  Além disso, quisemos testar se seria possível melhorar a eficiência das CTM se injetadas em conjunto com um fator de crescimento chamado IGF-1 (insulin-growth factor-1). A pesquisa, que acaba de ser publicada na revista Stem Cells Reviews and Reports,  foi a tese de doutorado de Mariane Secco e realizada no Centro de Genomas da USP. Para falar mais sobre os resultados entrevistei a Dra. Mariane Secco.

Explique rapidamente como é o camundongo que foi escolhido para os experimentos?

Neste estudo foram utilizados os camundongos LAMA2dy/2j, que são modelos para Distrofia Muscular do tipo Congênita. Estes animais apresentam deficiência da proteína merosina no músculo, o que leva a uma fraqueza muscular bem grave e reduzida expectativa de vida (sobrevivem em torno de 6 meses). Pelo fato de apresentarem esse quadro clínico severo, estes animais constituem ferramentas valiosas para estudo de abordagens terapêuticas diversas, uma vez que se torna mais fácil a identificação dos benefícios promovidos por essas abordagens.

Porque você utilizou células-tronco de tecido e não de sangue de cordão umbilical?

As CTM – utilizadas neste estudo – apresentam certas características que as tornam candidatas ideais para uso em medicina regenerativa. Essas células podem ser isoladas de diferentes órgãos e tecidos, como o tecido adiposo, cordão umbilical, polpa dentária, sangue menstrual, entre outros. Entre as diferentes fontes de CT, o cordão umbilical apresenta fortes atrativos. É um material descartado após o parto e as células-tronco são mais “jovens”. Embora o sangue e o tecido do cordão umbilical compartilhem das mesmas vantagens em relação a facilidade de coleta, o sangue do cordão – que é coletado e armazenado nos bancos de cordão – é pobre em CTM. Em uma pesquisa realizada pelo nosso grupo (e publicada em 2008, pela revista Stem Cells), comparamos o sangue e o tecido do cordão dos mesmos nascituros. Enquanto todos os tecidos de cordões eram ricos nessas células, elas só apareciam em 10% das amostras de sangue. Chamamos a atenção dos bancos de cordão e da população sobre a importância desse achado. Para aqueles que ainda querem pagar para manter sangue do cordão de seu bebê em banco particular, nossa sugestão: guarde também o tecido.

Porque a ideia de testar as CTM em conjunto com IGF-1?

No caso das distrofias, a inflamação crônica e outras alterações patológicas no tecido muscular podem dificultar a função das células-tronco transplantadas. O IGF-1 é um fator de crescimento aparentemente capaz de tratar esses sintomas patológicos do músculo. Ele diminui a inflamação e fibrose e, portanto, poderia aumentar a sobrevida das células. O nosso intuito foi testar se seria possível melhorar a eficiência das CTM quando injetadas em conjunto com esse fator de crescimento em animais distróficos.

Como foram feitos os experimentos?

Para fazer o experimento usamos 55 camundongos LAMA2dy/2j com apenas um mês de idade, divididos em quatro grupos. O grupo A foi o controle, não tratado. O grupo B recebeu só CTM. O grupo C recebeu só o fator de crescimento IGF-1. Por fim, o grupo D recebeu CTM e IGF-1. As CTMs e o fator de crescimento IGF-1 foram administrados por via sistêmica.  As CTM, foram transplantadas semanalmente, (8 injeções) enquanto o IGF-1, foi administrado diariamente, por um período de dois meses.

Quais foram os resultados?

As CTM humanas foram capazes de migrar para a musculatura dos animais distróficos e não foram rejeitadas após injeção sistêmica – mesmo sem imunossupressão. Curiosamente, observamos que as CTM transplantadas não se diferenciaram em células musculares, em nenhum dos grupos injetados. Mesmo assim, a associação das CTM ao IGF-1 promoveu uma diminuição da inflamação e fibrose do músculo esquelético, além do aumento do reparo muscular e melhora clínica significativa dos animais distróficos, o que não foi observado nos camundongos tratados só com IGF-1 ou só com CTMs. Acreditamos que o tratamento do músculo com IGF-1 tenha favorecido as ações das CTMs. Esses dados reforçam a importância da combinação de diferentes estratégias terapêuticas para o tratamento das distrofias musculares.

Qual foi a conclusão do trabalho?

Nossos dados sugerem que o uso combinado de CTM de tecido de cordão umbilical humano e IGF-1 pode ser benéfico no tratamento de distrofias musculares. Além disso, nossos resultados mostram que não é necessária a diferenciação das células-tronco injetadas em células musculares para trazer um benefício clínico. Esses dados confirmam trabalhos anteriores, que sugerem que o efeito benéfico se daria por fatores liberados pelas células-tronco. A confirmação destes dados no modelo canino de distrofia muscular será de extrema importância para avaliarmos eventuais efeitos adversos deste tratamento a longo prazo, o que poderá representar um passo importante para o início dos testes clínicos em pacientes.

 

Por Mayana Zatz

04/02/2010

às 20:57 \ Sem categoria

Distrofias musculares e meu reencontro com Julio

Quem é Julio?

Na semana passado contei a história de Julio, um menino fantástico de 9 anos, que tinha um irmão mais velho, José, com distrofia muscular de Duchenne. Algumas pessoas adivinharam de quem eu estava falando. É o Julio Rocha, hoje é ator de novelas. Na sua última novela, Caras e Bocas fez o papel de vilão, imaginem. Não acreditei quando soube que aquele personagem mau caráter era menino Julio. O menino que me marcou para sempre pela sua coragem. E na vida real, como é o verdadeiro Julio? Por que esse nosso reencontro?

Já há algum tempo soube que um jovem rapaz estava querendo ajudar a nossa ABDIM – Associação Brasileira de Distrofia Muscular -, mas não tinha a menor ideia de quem se tratava (confesso que vejo TV muito raramente). Ele não se apresentou como profissional de televisão. Muito pelo contrário fez questão de se identificar como o irmão do José.
No ano passado, Julio apareceu na festa de Natal que o Grupo Harmonia Solidária promove há mais de 7 anos para a ABDIM. Aliás, quero aproveitar para agradecer a esse grupo que incansavelmente tem proporcionado momentos de muita emoção a todos os nossos pacientes e colaboradores. Eu estava no exterior e não pude comparecer.Mas seus pais, Eduardo e Ana, estavam presentes e me mandaram um cartãozinho. Foi só então que eu soube quem eles eram. Quis revê-los a qualquer custo.Como estaria Julio agora?

O nosso reencontro foi emocionante. Julio que veio com seu pai, ainda tem o mesmo olhar da criança gravado na minha memória. O ator que interpreta personagens maldosos com tanto realismo continua tão generoso quanto o menino que conheci. Por que veio nos procurar? Ele quer ajudar tantos outros meninos com distrofia muscular que nasceram depois que José, seu irmão, que partiu prematuramente aos 16 anos.

Julio

Relembramos o passado. Falamos do José, dos seus ensinamentos, de quão importante ele havia sido e das lembranças boas que ele havia deixado. Lembramos também do Willian, o amiguinho que também participou da coleta noturna de sangue e a quem também sou muito grata. Recordamos como nascera a ABDIM na década de 80 e da sua primeira sede, a minha sala no prédio da Biologia da USP. Contamos que com os tratamentos de hoje, a ABDIM consegue hoje estender a expectativa de vida por mais de 10 anos . Da nossa luta por recursos para construir uma sede nova que atenda mais pacientes. Falamos das pesquisas atuais, da nossa esperança de tratamento com células-tronco e também das dificuldades em conseguir importar reagentes ou camundongos afetados para testes pré-clínicos.Julio nos interrompia a cada momento: “Como posso ajudar? Como posso ajudar?”

E mais uma vez eu revia o menino de 20 anos atrás que nos convenceu que queria ajudar o irmão doando o que ele tinha de mais precioso: o seu próprio sangue. Mesmo depois de ter se consagrado como ator, dos holofotes, do glamour, do assédio da imprensa e dos fãs, Julio continua com a mesma garra. Preocupando-se com tantos outros Josés que ainda lutam, que têm esperanças….

Você certamente conseguirá nos ajudar Julio. Saber que você estará do nosso lado, batalhando por essa causa já é uma ajuda gigantesca. E você vai redescobrir algo que já sentiu quando criança. O retorno enorme que recebemos quando lutamos para ajudar os outros. Esse calor humano não tem preço. Todos aqueles que já trilharam esse caminho e se envolveram pessoalmente sabem do que estou falando.

Por Mayana Zatz

23/07/2009

às 20:11 \ Arquivo

O caso da índia: testar ou não testar?

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É interessante pensar como a tecnologia mais moderna – no caso, o uso de testes genéticos sofisticados – poderia influenciar uma decisão tão primitiva: enterrar vivo ou não um recém-nascido afetado por uma doença genética. Alguns antropologistas defendem que não devemos nos intrometer no costume dos índios, mesmo em situações como essas. Não penso assim. Nesse caso eu estava diretamente envolvida. A responsabilidade era minha e da nossa equipe no Centro do Genoma Humano.

Qual era a probabilidade desse bebê ser afetado?

O risco de que esse bebê fosse portador da mutação que causa esse tipo de distrofia era de 25%, ou seja, um em quatro. Para você imaginar o que significa um risco desses, imagine que você tem quatro maçãs na sua frente. Todas são aparentemente iguais, mas em uma delas há um veneno letal que o mataria na primeira mordida. Vocë se arriscaria a comer uma dessas maçãs?

Não testamos crianças assintomáticas

Fiquei surpresa porque muitos leitores sugeriram fazer o teste genético. É óbvio que a torcida seria para um resultado negativo. Entretanto, uma regra de ouro em relação ao uso de testes genéticos no Centro do Genoma Humano (e em inúmeros serviços de genética ao redor do mundo) é o de NÃO TESTAR crianças assintomáticas para doenças de início mais tardio para as quais ainda não há tratamento. Não há por que antecipar um sofrimento. Era o caso desse bebê prestes a nascer.

Como explicar aos interessados que o teste não seria feito?

Teria de usar um argumento para convencer a comunidade indígena a não fazer esse teste. Como a mãe já havia tido duas crianças afetadas, eles deveriam estar imaginando que a probabilidade desse nascituro também ser portador da distrofia deveria ser muito alta. Expliquei à assistente social que, ao invés de ressaltar que o risco para esse bebê era de 25%, ela deveria enfatizar exatamente o contrário. Ou seja, havia uma probabilidade de 75% de ele ser normal. Era 3 vezes mais provável que o bebê fosse normal do que afetado. Era isso que ela teria de dizer à comunidade indígena.

O teste não foi feito

O exame genético não foi realizado, respeitando as normas éticas de não testarmos crianças assintomáticas para doenças de início mais tardio sem tratamento. Não sei se o recém-nascido herdou ou não o gene da distrofia. Mas mesmo que tenha herdado, tenho esperança de que, até a idade de manifestação, exista um tratamento para as distrofias. O tempo, nesse caso, é nosso aliado.

E retorno a pergunta para você, caro leitor. Será que a verdade deve sempre ser dita?

Por Mayana Zatz

 

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