Qual das vontades prevalece?
Na semana passada contei um dilema ético envolvendo Susana, uma moça de 35 anos que tinha um risco de 50% de ser portadora de uma mutação responsável por uma ataxia de herança dominante – uma doença ainda sem tratamento que causa uma paralisia progressiva e que havia afetado sua mãe e vários familiares.
Susana, aos 25 anos, veio testar-se porque queria saber se era ou não portadora da mutação que causa a ataxia mas na época o exame não era conclusivo. Dez anos depois ela voltou. As técnicas evoluíram muito mas ela tinha perdido a coragem de testar-se. Ainda assim, queria ter filhos que não corressem o risco de ter essa doença. Optou então por uma fertilização assistida onde seria utilizado o óvulo de uma doadora.
Houve uma discussão interessante entre os leitores. Alguns defenderam que não seria errado testá-la sem o seu conhecimento se isso pudesse beneficiá-la enquanto outros defendem que sua vontade deve ser respeitada.
O que é relevante no caso de Susana?
Temos situações em que consulentes optam por não se submeter ao teste genético mas também não desistem de ter filhos. “Que seja o que Deus quiser.” Outros optam por não se testar mas também não querem arriscar ter filhos. É o caso de Nancy Wexler, uma pesquisadora americana cuja mãe e avó materna morreram com Coreia de Huntington- uma doença também de herança dominante, de início tardio que afeta os movimentos e a parte cognitiva.
Susana, porém, quer ter filhos desde que estejam livres da ataxia. E para isso é necessário que ela se submeta a um tratamento de reprodução assistida de alto custo emocional e financeiro e com chances consideráveis de não ter sucesso porque, para a doação de óvulos, há uma longa fila de espera.
O que preferem os jovens adultos?
Ao ler a opinião dos leitores lembrei-me da Carla, um outro dilema ético. Carla também pertencia a uma família com vários casos de ataxia. Quando começamos a estudar essas doenças, na década de 90, testávamos todos os familiares em risco. Os pais traziam seus filhos e nos pediam para fazer o exame. Era uma prática realizada nos laboratórios de genética do mundo todo. Entretanto logo nos demos conta de que analisar crianças para doenças de início tardio, ainda sem tratamento, poderia ser altamente prejudicial e decidimos que elas não seriam mais testadas. Não daríamos mais essa informação mesmo a pedido dos pais.
Isso porque, ao testar crianças, estávamos tirando-lhes o direito de decidir, quando adultas, se queriam ou não saber. E de fato, a nossa experiência tem mostrado que a maioria dos jovens prefere não saber.
Carla era uma aparente exceção
E então apareceu Carla, com 18 anos na época. Veio nos procurar porque queria se submeter ao teste. Por que? perguntei-lhe para tentar entender como isso poderia lhe ser benéfico. “Para me preparar se o teste for positivo”, respondeu ela emocionada e caiu em um pranto convulsivo desculpando-se por não conseguir segurar o choro. “Não há porque pedir desculpas. Vendo você chorar me questiono se você está realmente preparada para ser testada. Não vou coletar nenhum sangue hoje. Quero que você pense melhor. Mas você pode voltar quando quiser para conversar mais a respeito”, retruquei. Ela se levantou e se despediu com um forte abraço, ainda com a voz embargada.
Já tínhamos o resultado do exame de DNA
Ela mal tinha descido as escadas do prédio quando a técnica do laboratório me chamou com o registro dos exames antigos nas mãos, dizendo: Carla não sabe mas ela foi testada quando criança, na época em que analisávamos todos os familiares. Ela não tem a mutação. Meu ímpeto foi de correr atrás dela e lhe contar imediatamente. Mas me contive. Esperei um tempo e marquei uma nova consulta. Queria lhe contar a novidade mas ela parecia não ter muita pressa em retornar. Até que um dia Carla voltou. Entrou na minha sala e antes que eu tivesse a chance de dizer qualquer coisa ela me olhou e disse. “Você tem razão. Eu não estou pronta para ser testada. Não estou preparada pra saber”.
E aí pergunto, querido leitor: Você contaria ou não? Que vontade devemos respeitar? A primeira ou a segunda?
Questões como essa estarão cada vez mais presentes na nossa vida. A vida reinventada. Como o conhecimento do genoma irá transformar a sua vida? Será o tema que irei debater juntamente com Jorge Forbes, na próxima segunda, dia 20, no Colégio santa Cruz. Aguardamos vocês.






