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cordão umbilical

25/06/2010

às 16:01 \ Sem categoria

Células-tronco em São Francisco

Acabo de voltar de São Francisco, onde participei do 8o Congresso da Sociedade Internacional de Pesquisas em Células-tronco (ISSCR- International Society for Stem-cells Research ) – um assunto que está  atraindo cada vez mais o interesse dos cientistas.

Havia mais de 3.000 participantes. Nossa equipe, do Centro do Genoma, levou cinco trabalhos. Tivemos a oportunidade de discuti-los, de ouvir as novidades, de pensar e de direcionar a continuação das pesquisas. Os avanços são constantes e os primeiros ensaios clínicos estão começando. Temos muita esperança de transformar as pesquisas em tratamentos para muitas condições. Enquanto isso, porém, temos uma preocupação muito grande com a segurança e a eficácia de supostos “tratamentos” que estão sendo oferecidos por clínicas não-credenciadas e que, infelizmente, visam o lucro acima de qualquer coisa.

Na abertura do congresso, o cientista Irving L. Weissman chamou a atenção para o site da sociedade com o seguinte título: “Top Ten Things to Know About Stem Cell Treatments”, ou, traduzindo, “As dez coisas mais importantes sobre tratamentos com células-tronco” (o artigo completo em inglês pode ser acessado no link: http://migre.me/O81Q).

São 10 pontos importantes que, de acordo com a ISSCR,  as pessoas devem saber antes de se submeter a um tratamento com células-tronco sem respaldo científico. Seguem aqui, de forma resumida, esses pontos:

1.      Existem diferentes tipos de células-tronco (CT)- cada um com sua própria finalidade.

Há vários tipos de CT presentes em diferentes partes do nosso corpo. Isso inclui CT embrionárias, que só existem no início do desenvolvimento, e vários tipos de CT adultas -ou tecido-específicas- que se originam durante o desenvolvimento fetal e que permanecem no nosso corpo durante toda a vida. As células chamadas tecido-específicas têm um potencial para formar tecidos iguais àqueles de onde foram extraídas mas possuem um potencial limitado para formar outros tipos celulares. Por exemplo, CT hematopoéticas retiradas da medula óssea regeneram sangue enquanto CT neurais têm o potencial de regenerar células nervosas.

Portanto é improvável que um único tipo de CT possa ser usado para tratar inúmeras doenças diferentes. Desconfie de clínicas que oferecem tais tratamentos.

2. Um único tratamento com CT não pode funcionar para inúmeras doenças ou condições diferentes.

É impossível que um único tipo de CT trate doenças totalmente diferentes como Parkinson e diabetes, por exemplo. Os mecanismos que causam essas doenças são totalmente distintos e, portanto, diferentes tipos celulares teriam que ser utilizados para tratar cada uma dessas condições. As CT embrionárias talvez possam ser usadas para tratar muitas doenças. Entretanto, elas não podem ser usadas diretamente para fins terapêuticos por que podem formar tumores ou formar um tecido diferente daquele que queremos.

3. Ainda existem poucas doenças nas quais pode se falar em tratamento com células-tronco.

As doenças nas quais o uso de CT já pode ser considerado como tratamento (e não experiência terapêutica) são aquelas da medula óssea, isto é, doenças hematológicas (leucemias, anemias e talassemias, por exemplo) ou algumas doenças imunológicas. Algumas doenças ósseas, de pele ou da córnea começam a ser tratadas com o transplante de CT originadas desses mesmos órgãos. Algumas dessas terapias já são aceitas como seguras e eficientes pela comunidade médica.

4. O fato de algumas pessoas afirmarem que foram beneficiadas por tratamento com células-tronco não significa que isso realmente ocorreu.

Existem várias razões para explicar porque uma pessoa pode se sentir aparentemente melhor após um tratamento com CT. Por exemplo, outros tratamentos convencionais que são realizados com mais rigor juntamente com a aplicação das CT- como fisioterapia, hidroterapia, estimulação. Há também a flutuação natural da doença – existem dias onde nos sentimos melhor e outros pior. Talvez o mais importante seja o desejo intenso ou a crença de que um tratamento vai ajudar. É o que chamamos de efeito placebo, que pode ter resultados positivos, independentemente do tratamento. Por isso, uma terapia só pode ser considerada benéfica em experiências com controles não tratados. Isto é, um grupo recebe injeções com CT, o outro somente injeções sem CT e nem o paciente e nem quem avalia os resultados  sabe quem recebeu as CT e quem não. Esses ensaios são chamados de duplo-cegos.

Desconfie de clínicas que fazem propaganda dos seus resultados utilizando depoimentos de pacientes.

5. A pesquisa científica é um processo longo e difícil e por isso leva tempo para se transformar em tratamento.

Em geral, a pesquisa científica é um processo longo e complexo. Entender a causa de uma doença e como curá-la leva tempo. Novas idéias precisam ser testadas primeiro no laboratório, em culturas de células, e depois em modelo animal. Às vezes, o que parece promissor no laboratório não funciona em modelo animal. E às vezes, o que funciona em modelo animal não funciona em humanos. Se um novo tratamento não for planejado com cuidado é provável que não surta o efeito desejado. E o mais preocupante: ele pode até piorar a doença ou causar efeitos colaterais perigosos.

6. Para serem usadas em tratamentos, as células-tronco precisam se comportar de maneira específica.

O transplante de CT retiradas da medula óssea é um exemplo de um tratamento bem sucedido porque o objetivo é que as células implantadas façam o que elas estão acostumadas a fazer: mais sangue. Entretanto, para outras condições nós queremos que elas se comportem de modo diferente daquele a que estão habituadas. Além disso, uma vez injetadas no corpo, elas precisam se integrar ao órgão ou tecido que necessita ser “consertado” e funcionar harmonicamente com outras células do corpo. Por exemplo, no caso de doenças neurológicas, as células implantadas precisam formar tipos específicos de neurônios e conectar-se a outros neurônios. Ainda estamos aprendendo como controlar as células para que sejam aquelas que queremos, para que elas cresçam somente o necessário, além de descobrir o melhor método para transplantá-las. Descobrir isto tudo leva tempo.

Desconfie de pessoas que afirmam que as células-tronco, uma vez injetadas, sabem para onde se dirigir e o que fazer para tratar uma condição específica.

7. O fato de utilizar células retiradas do seu próprio corpo não significa que são seguras.

Todo procedimento médico envolve riscos. Se, por um lado, usar e reinjetar suas próprias células evita a rejeição, os procedimentos para cultivá-las e injetá-las envolvem riscos. Quando elas são manipuladas fora do seu corpo, podem sofrer mudanças nas características, podem perder a capacidade de se especializar em um determinado tipo de célula, há risco de contaminação em cultura por bactérias ou vírus patogênicos, entre outros exemplos. O próprio processo de retirada e injeção de células-tronco também envolve riscos.

8. Você pode ser prejudicado ao se submeter a um tratamento não comprovado, mesmo que tenha uma condição incurável.

Algumas das condições ainda incuráveis são consideradas “tratáveis” por clínicas não credenciadas . Por isso, é fácil de entender porque algumas pessoas decidem se submeter a esses tratamentos. Elas acreditam que não têm nada a perder. Na realidade, a probabilidade de haver algum beneficio é muito baixa, e existem riscos de complicações imdediatas ou a longo prazo. Por exemplo, um menino desenvolveu tumores cerebrais após injeções de células-tronco. Além disso, se uma pessoa já tiver se submetido a um tratamento experimental, poderá não ser aceito para participar de novas tentativas terapêuticas. Pesquisadores americanos são muito rígidos nesse aspecto. Sem falar no custo financeiro, que pode ser alto para os pacientes, seus familiares e a comunidade. Além disso, algumas clínicas localizadas em lugares distantes exigem viagens muito longas.

9. Um tratamento experimental pago não é o mesmo que uma pesquisa terapêutica.

Se um tratamento pago for chamado de experimental, isso não significa necessariamente que ele seja parte de uma pesquisa. Em pesquisas clínicas realizadas com responsabilidade, é necessário primeiro que se tenha dados pré-clínicos confirmando que o tratamento é seguro e potencialmente eficiente. O estudo precisa ser desenhado de modo a responder a questóes específicas e frequentemente tem que ser comparado com um grupo controle não submetido ao tratamento. O financiamento é feito por companhias que estão desenvolvendo o tratamento (por exemplo, novos medicamentos) ou agências de pesquisas. Antes de ser iniciado, o protocolo precisa ser revisto por um comitê independente que protege os direitos dos pacientes. Em muitos países existe uma agência regulatória nacional como a EMA, na Europa (European Medicines Agency), ou a FDA, nos Estados Unidos (Food and Drug Administration). No Brasil, além dos comitês locais que precisam aprovar a pesquisa, a agência regulatória federal é o CONEP (Conselho Nacional de Ética em pesquisas).

Desconfie de tratamentos caros que não foram cientificamente testados antes.

Tratamentos experimentais conduzidos de modo responsável são fundamentais para o desenvolvimento de novas terapias . A sociedade ISSCR defende que a participação nesses tratamentos deve ser feita após um estudo cuidadoso e discussão com um médico de confiança.

10. A ciência das células-tronco está avançando.

A ciência das células-tronco é extraordinariamente promissora. Houve grandes avanços no tratamento de doenças sanguíneas, o que confirma como a terapia das CT pode ser poderosa. Todos os dias anunciam-se novas descobertas em como modelar e controlar as CT para tratar diferentes condições, o que nos aproxima cada vez mais da aplicação clínica. Várias tentativas terapêuticas estão sendo testadas em modelos animais e algumas já vão ser iniciadas em humanos. Em fevereiro de 2010, a empresa britânica Neuron anunciou a aprovação de um teste clínico ( fase 1, isto é, para avaliar segurança ) para tratamento de derrame. O início de um primeiro teste clínico com células-tronco derivadas das embrionárias para lesões agudas da medula está sendo avaliado pela FDA e espera-se que seja aprovado logo. Apesar da aparente demora, a ciência das células-tronco está avançando. Os cientistas que, como eu, pesquisam essas células mágicas, estão extremamente otimistas de que terapias com células-tronco vão permitir, algum dia, o tratamento de um número grande de doenças e condições humanas. Vale a pena esperar.

Por Mayana Zatz

13/05/2010

às 23:17 \ Sem categoria

Células IPS: O que são?


A descoberta das células IPS (do inglês induced pluripotent stem-cells) pelo pesquisador japonês Shinya Yamanaka em 2006  abriu enormes perspectivas de pesquisas e possibilidades terapêuticas. Desde então tivemos vários avanços.

No mês de junho teremos o Congresso Internacional de Células-tronco em São Francisco. As células IPS certamente terão um papel de destaque. Para falar sobre isso, entrevistei o doutor Rodrigo Calado, um reconhecido pesquisador brasileiro que está atualmente no NIH (National Institute of Health) nos Estados Unidos. Aliás, torço para que volte logo ao Brasil.

A seguir, cinco perguntas que enviei a ele, com as respostas:

O senhor poderia explicar em uma linguagem simples o que são e como obter as células IPS? Células iPS são células adultas maduras retiradas do nosso corpo ou de um animal e que são reprogramadas para se transformar em uma célula-tronco (CT) pluripotente, ou seja, que tem a capacidade de dar origem a todos os tecidos. O nome em inglês traduzido significa “células pluripotentes induzidas”, ou seja, uma célula já madura e especializada, como por exemplo uma célula da pele, que é induzida a perder sua especialização e voltar a ser uma célula imatura semelhante à célula-tronco encontrada no embrião. É como, por exemplo, induzir uma célula do galho de uma árvore a voltar a ser como a célula da semente que dá origem a toda a árvore. Por conta dessa capacidade “pluripotente”, ou seja, de poder dar origem a qualquer tipo de célula de um dado organismo, desde células da pele, passando por neurônios, músculo, sangue até células do fígado ou do pâncreas, essas células iPS são muito parecidas com as CT embrionárias. Por outro lado, apesar de serem formadas a partir de uma célula madura adulta, elas têm propriedades muito diferentes das CT adultas (que normalmente podem produzir apenas um tipo de célula). Daí o grande interesse nessas células, que podem reproduzir as capacidades de uma CT  embrionária sem necessidade de se utilizar um embrião.

Para nós que trabalhamos com doenças genéticas, a possibilidade de derivar qualquer linhagem celular a partir de uma célula de um paciente poderá permitir pesquisas muito importantes para entender o funcionamento dos genes “doentes” em diferentes tecidos. O senhor poderia falar um pouco da sua pesquisa com células IPS? Eu estudo pacientes que têm anemia aplástica, uma doença em que a CT hematopoética praticamente desaparece e portanto a medula óssea para de produzir as células do sangue, como as hemácias, glóbulos brancos e plaquetas. Em alguns casos, a CT virtualmente desaparece porque as células têm um defeito nos telômeros, que são as extremidades dos cromossomos, e com isso a célula se torna incapaz de se multiplicar adequadamente e dar origem às células do sangue. O que já foi identificado é que quando se deriva células IPS de um paciente com telômeros muito curtos, essas células têm a capacidade de alongar muito os seus próprios telômeros, aumentando portanto a capacidade da célula em se multiplicar. O que estamos investigando agora é como essas células iPS conseguem alongar os seus telômeros para que possamos ativar os mesmos mecanismos na CT hematopoética (que produz o sangue).

O senhor. acredita que as células IPS poderão ser usadas no futuro para terapia celular, isto é serem introduzidas nas pessoas sem riscos? Acredito que as células IPS são uma grande promessa para o tratamento dos pacientes com anemia aplástica no futuro próximo. Como a causa da doença é uma deficiência de células-tronco hematopoéticas na medula óssea, poderemos retirar células da pele, transformá-las em células IPS e depois induzi-las a se transformar em células-tronco da medula, devolvendo assim a capacidade de produzir células sanguíneas. E isso pode ir além. Uma das dificuldades no transplante de medula óssea hoje em dia para doenças como a leucemia é a falta de um doador compatível. Muitos não têm irmãos que sejam compatíveis, precisam procurar um doador no banco internacional de medula ou mesmo em bancos de cordão umbilical para realizar o transplante. Muitos não conseguem encontrar um doador. Porém, hoje já conseguimos com sucesso pegar uma célula da pele e transformá-la em célula IPS, que é pluripotente. Se conseguirmos agora fazer com que a IPS se diferencie única e eficazmente em uma CT da medula, poderemos assim sanar a falta de doadores, porque o doador será o próprio paciente a partir das células da sua pele, que serão então induzidas a produzir células do sangue.

Quando nasceu a ovelha Dolly por clonagem reprodutiva houve um clamor internacional de que iriam usar essa tecnologia (transferência de núcleos) para gerar clones humanos. Por esse motivo a técnica de transferência de núcleos (clonagem terapêutica) foi proibida em muitos países, inclusive no Brasil. Entretanto, no ano passado pesquisadores chineses clonaram um camundongo, Tiny, com células IPS. Apesar desse feito permitir muito mais facilmente que pesquisadores inescrupulosos tentem a clonagem humana, ele não foi muito alardeado. Qual é a sua opinião a respeito? Eu acredito que haja muitos fatores para isso. Primeiro, a opinião pública já está mais acostumada à era das CT, de suas potencialidades no tratamento de doenças e já entende mais como elas funcionam. Por isso, não existe tanto o medo de uma tecnologia desconhecida, quase de ficção científica, como quando aconteceu com a ovelha Dolly. O mesmo temor pela tecnologia alimentou muito o imaginário coletivo na década de 1960 com o começo dos computadores, como foi tão bem ilustrado no filme 2001, de Stanley Kulbrick, ou tantos outros filmes que se seguiram sobre ciborgues e máquinas dominando os homens. Acho que hoje ninguém tem medo de computadores. Um outro fator é que depois de tanto tempo, essa profecia de cientistas “malucos” ou inescrupulosos, como você disse, não se realizou. Não temos notícias, pelo menos sérias, de que alguém, em algum laboratório no mundo, tenha gerado um exército de clones humanos. Acho que por isso, esse temor inicial não exista mais. De qualquer forma, novas tecnologias que podem ser extremamente benéficas para a humanidade podem também ter o seu lado trágico se mal utilizadas. O bisturi de um cirurgião pode ser utilizado para salvar uma vida ou para tirá-la. A anestesia, idem; um anestésico utilizado rotineiramente em milhares de cirurgias todos os dias foi a causa da morte do Michael Jackson. É por isso que temos que ter em mente e dar todas as garantias que as pessoas investigando e desenvolvendo essas novas células trabalharam dentro de todo o rigor e dos limites da ética médica, da bioética e da lei. É a observância contínua desses parâmetros que dão garantia à sociedade e à própria comunidade científica de que essas células serão utilizadas de forma a beneficiar o ser humano.

O senhor acha que as células reprogramadas são realmente iguais as células embrionárias? Não, elas são semelhantes, mas não são iguais. Como essas têm origem diferente, é de se pressupor que não sejam exatamente a mesma coisa. Como eu citei anteriormente, as células IPS têm uma capacidade única de alongar os telômeros, o que não vemos em células embrionárias. Isto pode ser um ponto a mais para essas células no potencial em tratar doenças. Há ainda algumas diferenças no padrão de expressão de determinados genes, mas o seu significado é ainda desconhecido. Na verdade, como essas células são ainda muito recentes, essas diferenças são alvo de constante pesquisa científica neste momento em diversos laboratórios no mundo.

Por Mayana Zatz

18/03/2010

às 23:45 \ Arquivo

Novo banco público de sangue de cordão umbilical

Getty
O Hospital Sírio-Libanês inaugurou no início de março mais um banco público de sangue de cordão umbilical e placentário. O projeto é filantrópico e foi desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde e o Amparo Maternal. Terá capacidade para armazenar aproximadamente 3.700 unidades de sangue de cordão e fará parte da Brasilcord, juntamente com outras cinco unidades semelhantes no país. A vantagem é que irá coletar uma população com grande diversidade genética, pois o Amparo Maternal atende mulheres de diferentes etnias de vários estados. Já escrevi mais de uma vez  sobre  bancos de sangue  de cordão mas como continuo recebendo muitas mensagens vou retomar o assunto.

Já é um consenso que as células-tronco de sangue de cordão são uma esperança de cura para várias doenças hematológicas, como leucemia, linfomas, talassemia e anemias hereditárias, além de deficiências do sistema imunológico. Aliás, é a única situação onde podemos falar em tratamento com células-tronco. Por isso a importância de ter bancos públicos de sangue de cordão umbilical, que na prática podem funcionar do mesmo modo que os bancos de sangue.  Tentativas terapêuticas para tratar outras doenças com células-tronco, como diabetes, por exemplo, ainda são consideradas experimentais.

Bancos públicos ou privados?
Já me manifestei várias vezes contra os bancos privados e a favor dos bancos públicos de sangue de cordão. Entretanto casais “grávidos” continuam me perguntando  se vale a pena coletar e armazenar o sangue do cordão umbilical do bebê prestes a nascer em bancos privados, para um eventual uso próprio, no futuro. E pagar caro por isso. A minha opinião vocês já sabem. Mas o que pensa a convidada de honra do simpósio preparado para celebrar a inauguração do banco, dra. Eliane Gluckman?

Ela é uma pesquisadora francesa mundialmente conhecida e respeitada, que se notabilizou por ser a primeira pessoa a fazer transplante de células-tronco de sangue de cordão umbilical, em 1988, para tratar a anemia de Fanconi, doença hematológica hereditária. O que ela diz a respeito:

“ Não há nenhuma prova que o sangue do cordão possa ser usado para terapia celular regenerativa

- A maioria das doenças degenerativas ocorre em uma idade mais avançada: qual será a viabilidade e o potencial das células após um armazenamento de 25 a 75 anos?

- Será que daqui 50 anos a metodologia será compatível com os métodos atuais de coleta e armazenamento?

- E se novos conhecimentos surgirem em 50 anos que tornem a terapia celular obsoleta?”

E o mais importante:

“Que tipo de propriedade as células-tronco do sangue de cordão oferecem que não se encontram em células-tronco adultas de medula óssea ou outros tecidos?”

Em resumo, a não ser em familias onde existem doenças hematológicas tratáveis com CT de cordão umbilical, a descoberta e a melhoria nas técnicas de obtenção e diferenciação das CT de diferentes tecidos adultos tornarão cada vez mais desnecessário armazenar o sangue de cordão para uso próprio.

Por Mayana Zatz

26/11/2009

às 21:29 \ Sem categoria

A competição entre as células-tronco

No dia 24 de novembro a nossa equipe foi uma das vencedoras do prêmio SAÚDE da Editora Abril, na categoria saúde da mulher. O trabalho premiado refere-se à descoberta de uma nova fonte de células-tronco nas trompas de falópio, desenvolvido pela Dra. Tatiana Jazedje, no Centro de Estudos do Genoma Humano.

Transcrevo aqui meu discurso de agradecimento.

Estamos assistindo a uma grande competição entre as diferentes células-tronco (CT): CT embrionárias, de cordão umbilical, tecido adiposo, polpa dentária….. Qual é a melhor para formar células musculares e neurônios visando o tratamento futuro de doenças neuromusculares, que é o nosso objetivo maior?

E aí a Tatiana resolveu usar o tecido da trompa para servir de tapete e cultivar as diferentes CTs. Tapete eu?? Disse a trompa…. Não sirvo só para ser pisada. Eu também sei produzir células-tronco. Me testem….
E foi isso o que a Tatiana fez. E viu que a trompa era realmente capaz de produzir CTs com potencial para se diferenciar em células musculares, adiposas, ósseas e cartilagem.

E é por isso que estamos aqui hoje. Em nome das trompas agradecemos essa premiação. Ela é o reconhecimento que esperávamos. Podemos fazer mais do que servir só de passagem para os óvulos.

E a vocês ginecologistas e obstetras o nosso recado: não nos descartem nas cirurgias! Podemos ser muito úteis.
Muito obrigada.

Por Mayana Zatz

22/10/2009

às 22:19 \ Sem categoria

Células-tronco de cordão umbilical: novas descobertas

Um dos nossos principais objetivos no Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) é realizar pesquisas científicas visando contribuir para o tratamento de doenças neuromusculares. Para isso, achar fontes abundantes de células-tronco (CT) de fácil acesso e com potencial de formar vários tecidos é fundamental. Ainda temos perguntas muito importantes a responder, tais como: qual é a melhor fonte de CT para o tratamento de cada doença? Qual é o potencial que elas têm de formar diferentes tecidos? CT de várias fontes são equivalentes ou, dependendo de sua origem, elas podem formar um tecido melhor do que outro?

Dentre as várias fontes de CT adultas que estão sendo investigadas, como medula óssea, tecido adiposo e polpa dentária, entre outras, o cordão umbilical tem recebido uma atenção especial. O tecido do cordão, diferentemente do sangue, é rico em um tipo especial de CT com potencial de formar músculo, osso, cartilagem e tecido adiposo. São as chamadas CT mesenquimais (CTM). O que descobrimos agora é que as CTM do sangue do cordão são diferentes daquelas encontradas no tecido do cordão. Essa nova pesquisa, desenvolvida no nosso Centro, será publicada na revista Stem Cells Reviews and Reports. Além do interesse para futuras terapias, ela está relacionada a uma questão polêmica: os bancos de cordão umbilical.

CT mesenquimais (CTM)

Uma das grandes dúvidas em relação às CTM é se elas são todas iguais ou se, de acordo com sua origem, elas podem ter um potencial maior para formar um ou outro tecido. Por exemplo, um tipo de célula poderia ser melhor para formar ossos, enquanto outro seria melhor para originar músculos. Se isso for verdade, descobrir a “vocação” de cada uma delas é extremamente importante para futuras terapias.

Já sabemos que o sangue do cordão é rico em CT hematopoéticas, isto é, precursoras de células sanguíneas. Elas têm sido transplantadas com sucesso  em casos de leucemias, anemias e várias doenças hematológicas. Por outro lado, uma outra população de CT, as CTM, que são preciosas porque têm o potencial de formar vários tecidos, é escassa no sangue do cordão. Onde obtê-las?

O tecido do cordão umbilical é rico em CTM

Nosso grupo (em uma pesquisa realizada pelos alunos de doutorado Mariane Secco e Eder Zucconi) já havia mostrado que o tecido do cordão umbilical é muito mais rico em CTM do que o sangue do cordão. Nessa pesquisa, que foi publicada em 2008 (revista Stem Cells), comparamos o tecido do cordão e o sangue do cordão dos mesmos nascituros. Enquanto todos os cordões eram ricos nessas células, elas só apareciam em 10% das amostras de sangue de cordão. Chamamos a atenção dos bancos de cordão sobre a importância desse achado porque a rotina é que eles guardem o sangue e descartem o cordão. O próximo passo era descobrir se…

…as CTM do cordão e do sangue são iguais? Elas têm o mesmo potencial para formar diferentes tecidos?

Quando vimos que havia muito mais CTM no cordão do que no sangue, a primeira pergunta que surgiu foi: será que as do sangue são as mesmas do cordão, só que presentes em menor quantidade? Responder a essa pergunta não foi fácil, porque tivemos de comparar amostras pareadas, isto é: sangue e cordão umbilical do mesmo bebê.

Para isso, Mariane e o Eder tiveram de coletar e processar 65 cordões. Toda vez que nascia um bebê, eles tinham de estar lá para garantir que as amostras fossem coletadas com todo o rigor científico. Em seguida, elas foram comparadas por um método chamado de microarray, que nos permite analisar a expressão de milhares de genes ao mesmo tempo. Para esta análise, contamos com uma colaboração preciosa do Dr. Sergio Verjovski e de seu aluno Yuri Moreira, ambos do Instituto de Química (USP). O esforço valeu a pena e já temos os resultados, que serão publicados em breve. E o que descobrimos?

As células são diferentes

No linguajar científico, dizemos que elas têm um perfil de expressão diferente. Por exemplo, as CT do sangue parecem estar mais relacionadas a formação de ossos ou ao sistema imunológico, enquanto as do cordão se identificam mais com células nervosas, células secretoras e/ou formadoras de vasos sanguíneos. Diante desses resultados, as nossas próximas questões são: será que isso também vai ocorrer quando essas células forem injetadas em organismos vivos? Por exemplo, será que as CTM do tecido do cordão serão mais eficientes no tratamento de doenças neurológicas, já que elas estão mais relacionadas com a formação de neurônios? Como confirmar isso agora?

Qual é o próximo passo?

O próximo passo agora é separar as células e injetá-las em modelos animais com doenças neuromusculares, modelos de Parkinson ou esclerose lateral amiotrófica (ELA) e confirmar se esse mesmo comportamento ocorre “in vivo”, ou seja, no organismo do animal.  Um grupo de animais receberá CT do tecido do cordão e outro, do sangue do cordão, e eles serão comparados quanto à eficiência das CT no tratamento da doença. São pesquisas demoradas, mas as respostas serão fundamentais para direcionar os futuros tratamentos em seres humanos.

E os bancos de cordão, como é que ficam?

Milhares de pessoas estão pagando para guardar o sangue do cordão de seu filho em bancos particulares. Vale a pena? Minha opinião continua a mesma. O sangue de cordão deveria ser armazenado em bancos públicos e não privados. Ele poderia salvar vidas de inúmeras pessoas que sofrem de leucemias, anemias ou outras condições que poderão ser curadas com transplante de CT de cordão umbilical. Mas para aqueles que ainda querem pagar para manter o sangue do cordão de seu bebê em banco particular, minha sugestão é: guarde também o tecido do cordão umbilical.

Por Mayana Zatz

 

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