13/05/2010
às 23:17 \ Sem categoriaCélulas IPS: O que são?

A descoberta das células IPS (do inglês induced pluripotent stem-cells) pelo pesquisador japonês Shinya Yamanaka em 2006 abriu enormes perspectivas de pesquisas e possibilidades terapêuticas. Desde então tivemos vários avanços.
No mês de junho teremos o Congresso Internacional de Células-tronco em São Francisco. As células IPS certamente terão um papel de destaque. Para falar sobre isso, entrevistei o doutor Rodrigo Calado, um reconhecido pesquisador brasileiro que está atualmente no NIH (National Institute of Health) nos Estados Unidos. Aliás, torço para que volte logo ao Brasil.
A seguir, cinco perguntas que enviei a ele, com as respostas:
O senhor poderia explicar em uma linguagem simples o que são e como obter as células IPS? Células iPS são células adultas maduras retiradas do nosso corpo ou de um animal e que são reprogramadas para se transformar em uma célula-tronco (CT) pluripotente, ou seja, que tem a capacidade de dar origem a todos os tecidos. O nome em inglês traduzido significa “células pluripotentes induzidas”, ou seja, uma célula já madura e especializada, como por exemplo uma célula da pele, que é induzida a perder sua especialização e voltar a ser uma célula imatura semelhante à célula-tronco encontrada no embrião. É como, por exemplo, induzir uma célula do galho de uma árvore a voltar a ser como a célula da semente que dá origem a toda a árvore. Por conta dessa capacidade “pluripotente”, ou seja, de poder dar origem a qualquer tipo de célula de um dado organismo, desde células da pele, passando por neurônios, músculo, sangue até células do fígado ou do pâncreas, essas células iPS são muito parecidas com as CT embrionárias. Por outro lado, apesar de serem formadas a partir de uma célula madura adulta, elas têm propriedades muito diferentes das CT adultas (que normalmente podem produzir apenas um tipo de célula). Daí o grande interesse nessas células, que podem reproduzir as capacidades de uma CT embrionária sem necessidade de se utilizar um embrião.
Para nós que trabalhamos com doenças genéticas, a possibilidade de derivar qualquer linhagem celular a partir de uma célula de um paciente poderá permitir pesquisas muito importantes para entender o funcionamento dos genes “doentes” em diferentes tecidos. O senhor poderia falar um pouco da sua pesquisa com células IPS? Eu estudo pacientes que têm anemia aplástica, uma doença em que a CT hematopoética praticamente desaparece e portanto a medula óssea para de produzir as células do sangue, como as hemácias, glóbulos brancos e plaquetas. Em alguns casos, a CT virtualmente desaparece porque as células têm um defeito nos telômeros, que são as extremidades dos cromossomos, e com isso a célula se torna incapaz de se multiplicar adequadamente e dar origem às células do sangue. O que já foi identificado é que quando se deriva células IPS de um paciente com telômeros muito curtos, essas células têm a capacidade de alongar muito os seus próprios telômeros, aumentando portanto a capacidade da célula em se multiplicar. O que estamos investigando agora é como essas células iPS conseguem alongar os seus telômeros para que possamos ativar os mesmos mecanismos na CT hematopoética (que produz o sangue).
O senhor. acredita que as células IPS poderão ser usadas no futuro para terapia celular, isto é serem introduzidas nas pessoas sem riscos? Acredito que as células IPS são uma grande promessa para o tratamento dos pacientes com anemia aplástica no futuro próximo. Como a causa da doença é uma deficiência de células-tronco hematopoéticas na medula óssea, poderemos retirar células da pele, transformá-las em células IPS e depois induzi-las a se transformar em células-tronco da medula, devolvendo assim a capacidade de produzir células sanguíneas. E isso pode ir além. Uma das dificuldades no transplante de medula óssea hoje em dia para doenças como a leucemia é a falta de um doador compatível. Muitos não têm irmãos que sejam compatíveis, precisam procurar um doador no banco internacional de medula ou mesmo em bancos de cordão umbilical para realizar o transplante. Muitos não conseguem encontrar um doador. Porém, hoje já conseguimos com sucesso pegar uma célula da pele e transformá-la em célula IPS, que é pluripotente. Se conseguirmos agora fazer com que a IPS se diferencie única e eficazmente em uma CT da medula, poderemos assim sanar a falta de doadores, porque o doador será o próprio paciente a partir das células da sua pele, que serão então induzidas a produzir células do sangue.
Quando nasceu a ovelha Dolly por clonagem reprodutiva houve um clamor internacional de que iriam usar essa tecnologia (transferência de núcleos) para gerar clones humanos. Por esse motivo a técnica de transferência de núcleos (clonagem terapêutica) foi proibida em muitos países, inclusive no Brasil. Entretanto, no ano passado pesquisadores chineses clonaram um camundongo, Tiny, com células IPS. Apesar desse feito permitir muito mais facilmente que pesquisadores inescrupulosos tentem a clonagem humana, ele não foi muito alardeado. Qual é a sua opinião a respeito? Eu acredito que haja muitos fatores para isso. Primeiro, a opinião pública já está mais acostumada à era das CT, de suas potencialidades no tratamento de doenças e já entende mais como elas funcionam. Por isso, não existe tanto o medo de uma tecnologia desconhecida, quase de ficção científica, como quando aconteceu com a ovelha Dolly. O mesmo temor pela tecnologia alimentou muito o imaginário coletivo na década de 1960 com o começo dos computadores, como foi tão bem ilustrado no filme 2001, de Stanley Kulbrick, ou tantos outros filmes que se seguiram sobre ciborgues e máquinas dominando os homens. Acho que hoje ninguém tem medo de computadores. Um outro fator é que depois de tanto tempo, essa profecia de cientistas “malucos” ou inescrupulosos, como você disse, não se realizou. Não temos notícias, pelo menos sérias, de que alguém, em algum laboratório no mundo, tenha gerado um exército de clones humanos. Acho que por isso, esse temor inicial não exista mais. De qualquer forma, novas tecnologias que podem ser extremamente benéficas para a humanidade podem também ter o seu lado trágico se mal utilizadas. O bisturi de um cirurgião pode ser utilizado para salvar uma vida ou para tirá-la. A anestesia, idem; um anestésico utilizado rotineiramente em milhares de cirurgias todos os dias foi a causa da morte do Michael Jackson. É por isso que temos que ter em mente e dar todas as garantias que as pessoas investigando e desenvolvendo essas novas células trabalharam dentro de todo o rigor e dos limites da ética médica, da bioética e da lei. É a observância contínua desses parâmetros que dão garantia à sociedade e à própria comunidade científica de que essas células serão utilizadas de forma a beneficiar o ser humano.
O senhor acha que as células reprogramadas são realmente iguais as células embrionárias? Não, elas são semelhantes, mas não são iguais. Como essas têm origem diferente, é de se pressupor que não sejam exatamente a mesma coisa. Como eu citei anteriormente, as células IPS têm uma capacidade única de alongar os telômeros, o que não vemos em células embrionárias. Isto pode ser um ponto a mais para essas células no potencial em tratar doenças. Há ainda algumas diferenças no padrão de expressão de determinados genes, mas o seu significado é ainda desconhecido. Na verdade, como essas células são ainda muito recentes, essas diferenças são alvo de constante pesquisa científica neste momento em diversos laboratórios no mundo.
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