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Hormônio de crescimento: os ensinamentos de um menino muito especial

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 | 21:53
Julio, aos 9 anos: mais coragem que muitos adultos

Julio, aos 9 anos: mais coragem que muitos adultos

Tudo começou há cerca de 20 anos. Naquela época descobrimos que pacientes raros com distrofia de Duchenne - doença genética causadora de uma degeneração progressiva dos músculos - com deficiência de hormônio de crescimento (GH) tinham um quadro muito mais leve da doença. Desconfiamos então que esse mesmo hormônio, tão importante na fase de crescimento, poderia estar prejudicando meninos com distrofia. Se isso fosse verdade, inibir o hormônio de crescimento em pacientes com distrofia poderia, talvez, ser benéfico. Precisávamos pesquisar mais sobre o GH. E foi então que surgiu Julio, esse menino tão especial. Graças a ele conseguimos realizar essa pesquisa que hoje poderá ser muito importante, quando estamos estudando o efeito do GH em células-tronco.

O primeiro passo era entender como era liberado o GH

Para poder inibir o GH precisávamos entender como e quando ele era liberado em meninos normais. Já sabíamos que existe uma maior liberação à noite, durante o sono. Aliás, é o que todos os pais dizem para convencer seus filhos que relutam em ir para cama à noite… “Se você não dormir não vai crescer.”

A dificuldade era: como estudar crianças normais?

Descobrimos naquela época que havia muito poucos estudos em crianças com crescimento normal. É fácil de entender. Só vai procurar ajuda médica quem está com problema de crescimento. Seria verdade que o GH é liberado à noite, durante o sono?

Para pesquisar isso, o ideal seria fazer esse estudo quando a criança estivesse dormindo normalmente, sem stress, na sua própria cama, diziam os especialistas. É só colocar um cateter e coletar umas gotinhas de sangue de 20 em 20 minutos, a noite toda. Fácil de falar… Mas e na prática, como poderíamos fazer isto?

Será que as famílias que tinham meninos com distrofia poderiam colaborar?

Julio queria a qualquer custo ajudar o irmão, José

Julio queria a qualquer custo ajudar o irmão, José

Expus o problema a famílias que tinham filhos com distrofia. Os pais estão sempre prontos. Mas nesse caso, precisávamos de crianças e não de adultos. E foi então que conheci Julio, um menino lindo de 9 anos, cheio de energia, sapeca como é esperado na sua idade. Sua única tristeza era que José, seu irmão mais velho, tinha distrofia de Duchenne. Estava em uma cadeira de rodas e não podia brincar como ele. Ao ouvir falar dessa pesquisa, ofereceu-se imediatamente. Queria a qualquer custo ajudar seu irmão. Aos nove anos, Julio tinha mais coragem que muitos adultos.

A pesquisa foi realizada

Julio conseguiu convencer um amigo a participar

Julio conseguiu convencer um amigo a participar

Além de se oferecer para a pesquisa, Julio conseguiu convencer um amiguinho a participar junto e a se manter firme quando este estava prestes a desistir, no meio da noite. Graças a eles e aos meus próprios filhos (que também eram crianças naquela época) aprendemos muito sobre a liberação de GH em crianças normais. Os resultados foram publicados em 1989 na revista americana American Journal of Medical Genetics. O tempo foi passando, novas pesquisas e novas ideias foram surgindo. Só agora, estamos retomando as pesquisas com GH. Queremos saber como atua o hormônio de crescimento nas células-tronco e tentar entender o seu papel na formação de músculos e nas distrofias musculares . Os dados que obtivemos naquela ocasião vão ser muito importantes para avaliar os resultados das pesquisas atuais.
E o Julio? O que aconteceu com ele?

Perdi o contato com sua família, mas nunca esqueci o gesto desse menino. A sua generosidade e o imenso amor que ele demonstrou por seu irmão me marcaram para sempre. Depois de muitos anos, acabo de reencontrá-lo, já adulto. Descobri que é uma pessoa conhecida. E continua muito especial. Na semana que vem , vou contar o porque do nosso reencontro. Será que alguém descobre quem é Julio?

Por Mayana Zatz

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Laser, células-tronco, odontologia e câncer

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 | 0:21

laser

VEJA publicou na primeira semana de janeiro uma longa reportagem sobre os benefícios dos lasers em várias áreas da medicina. Além dessas aplicações, essa nova tecnologia tem importante uso na odontologia e também na prevenção e tratamento das mucosites orais de pacientes submetidos a altas doses de quimio e radioterapia, com significante melhora da sua qualidade de vida. Recentemente, fizemos uma pesquisa sobre o tema em colaboração com o professor Carlos de Paula Eduardo, titular da Faculdade de Odontologia da USP. Analisamos os efeitos do laser de baixa potência na proliferação de células-tronco. Os resultados, que foram publicados na revista Lasers in Surgery and Medicine, foram muito interessantes - e explicam porque os raios laser atuam na regeneração celular.

Os lasers ajudam na recuperação de mucosas

A equipe de cirurgiões dentistas da Faculdade de Odontologia da USP, sob a coordenação do professor Carlos, é apaixonada pelos lasers há muito tempo. Perceberam há alguns anos que, quando utilizavam os lasers de baixa potência nos tecidos moles bucais, em lesões benignas onde as mucosas estavam comprometidas, elas se recuperavam mais rapidamente. Se você já teve herpes com manifestações bucais ou aftas alguma vez na vida deve saber o quanto isso incomoda. Imagine então lesões maiores na boca.

Como agem os lasers?

Como pesquisadores que somos, possuídos pela curiosidade, não nos contentamos em apenas observar esse efeito. Isso era pouco. Queríamos saber mais… Qual era o mecanismo pelo qual os lasers interagiam com as mucosas? Será que eles atuariam também sobre as células-tronco? E para responder essa questão fizemos um experimento muito simples.

O efeito dos lasers nas células-tronco

Estabelecemos uma cultura de células-tronco a partir da polpa dentária que foi separada em dois grupos e que foram cultivados segundo os protocolos habituais. A diferença é que no primeiro grupo aplicamos também o laser - e no segundo, não. É importante ressaltar que trata-se de um laser de baixa potência.  Após um período de 24 horas, as células foram analisadas em teste cego, ou seja, quem observava os resultados não sabia se as células tinham sido irradiadas ou não. E adivinhem o que aconteceu? As células, em déficit nutricional, submetidas à irradiação com laser de baixa potência, haviam proliferado mais. Acabávamos de comprovar que eles atuavam na divisão celular das células-tronco da polpa dentária. Tínhamos a explicação para a melhor recuperação das mucosas alteradas.

O valor do laser para pacientes com câncer

A quimioterapia e a radioterapia de cabeça e pescoço podem causar lesões importantes nas mucosas bucais. Cirurgiões dentistas que estão trabalhando em hospitais e universidades têm dado atenção especial aos pacientes que são submetidos a altas doses de quimioterapia e radioterapia nessas partes do corpo. Eles podem apresentar manifestações severas nos tecidos moles da boca, uma inflamação da mucosa chamada mucosite oral, que provoca muita dor e extrema dificuldade na hora de comer. Além disso, essas feridas tornam-se porta de entrada para microorganismos, aumentando significativamente o risco de infecções.

Todos os centros de quimio e radio deveriam ter lasers

É  fundamental  que os protocolos utilizados nas quimioterapias sejam discutidos, entendidos e aplicados por equipes multiprofissionais (médicos, dentistas, enfermeiras, etc), pois é necessário um profundo conhecimento científico da tecnologia laser para alcançar os benefícios desejados . Mas vale a pena. As mucosas se recuperam rapidamente sem efeito colateral e o paciente ganha muito em qualidade de vida!

O doutor Carlos conta a história de uma garotinha de 3 anos que havia sido internada para transplante de medula óssea e tinha muitas lesões bucais. Amedrontada, chorou quando o protocolo de laserterapia foi iniciado. Mas à medida que foram aparecendo os efeitos do tratamento e o alivio da dor, ela mesmo pedia o laser antes de tomar o café da manhã. Era preciso que a equipe de odontologia fosse cedinho ao hospital, mas o seu sorrisinho de satisfação compensava qualquer esforço.  É por isso que defendemos que todos os centros de quimioterapia e radioterapia tenham a tecnologia laser integrada ao serviço prestado. O custo do equipamento laser de baixa potência, de origem nacional, é baixo - e o retorno para a saúde do paciente é gigantesco.

Por Mayana Zatz

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Células-tronco embrionárias reconstituem pele

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 | 21:34

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Um dos grandes desafios da medicina tem sido a reconstituição de pele em pessoas que sofrem queimaduras extensas. Apesar de já se ter conseguido produzir pele a partir de enxertos obtidos da própria pessoa, uma das grandes limitações é o tempo que essas células levam para crescer e recobrir toda a área afetada, o que causa infecções e desidratação. Essa semana, um grupo de pesquisadores franceses, liderados pelos cientistas Christine Baldeschi e Marc Peschanski conseguiram uma nova revolução: produzir epiderme a partir de células-tronco embrionárias humanas (CTEH).

O primeiro passo

O  primeiro objetivo desses pesquisadores era verificar se seria possível produzir “in vitro”, isto é, no laboratório, células-tronco de pele - chamadas queranócitos -  semelhantes às presentes na epiderme humana. Os queranócitos são responsáveis pela renovação constante da pele. É importante lembrar que a pele é formada de várias camadas e reconstituir todas elas não é tão fácil.

Esse foi o primeiro sucesso. Os cientistas franceses conseguiram transformar CTEH em células de pele combinando técnicas de biologia celular e meios de cultura com substâncias específicas capazes de induzir a diferenciação dessas células em queranócitos.

O experimento foi mantido por 40 dias que é o tempo que o embrião normalmente leva para formar a epiderme. Aparentemente foi esse o segredo. Imitar o que ocorre naturalmente no desenvolvimento embrionário. Os pesquisadores isolaram então uma população de queranócitos que tinham todas as propriedades necessárias: capacidade de se renovar, de se diferenciar e formar as várias camadas da pele.

O passo seguinte

Era verificar se era possível formar pele “in vivo”, isto é, em modelos animais. Para isso os pesquisadores franceses, em colaboração com um grupo espanhol, transplantaram essas células em camundongos imunodeficientes, isto é, camundongos que não rejeitam células humanas. Doze semanas após o transplante os camundongos tinham desenvolvido uma pele com as mesmas características da pele adulta humana. Um novo sucesso. Eles conseguiram provar que era possível transformar CTEH em epiderme in vitro e in vivo. Para aqueles que lutaram para a aprovação das pesquisas com células embrionárias humanas isso representa uma grande conquista.

Quais serão as aplicações futuras?

Temos muitos motivos para festejar. Além das queimaduras graves que podem causar a morte ou lesões deformantes, existem inúmeras pessoas com doenças de pele que poderão se beneficiar. Por exemplo, ulcerações de pele são comuns em diabéticos. Além disso, existem também doenças genéticas que podem ser muito graves como a neurofibromatose ou a epidermosis bullosa que aguardam ansiosamente tratamentos efetivos. Ainda serão necessários novos experimentos antes da aplicação em humanos devido ao risco de formação de tumores. Mas, de acordo com a pesquisadora Christine Baldeschi, a vantagem da pele é que o experimento poderia ser monitorado de perto e se houvesse o aparecimento de um tumor ele poderia rapidamente ser retirado.

E as células reprogramadas IPS?

Vocês devem se lembrar que em 2007 dois pesquisadores mostraram que células adultas - da pele por exemplo - poderiam ser reprogramadas e comportar-se como as embrionárias. Se um dia for possível transformar essas células em pele teremos o melhor dos mundos. Não haverá mais o problema da rejeição e nem a polêmica de utilizar células embrionárias. Mas foi necessário observar o comportamento das células-tronco embrionárias humanas para o sucesso desse experimento. São elas que dão as diretrizes.
Muitos de vocês já devem estar se perguntando: e nas cirurgias plásticas? Ao invés de ter uma pele esticada, quem não gostaria de ter uma pele nova? Tomara que as pesquisas com células IPS tenham sucesso. Senão logo teremos um novo debate. Será ético usar células-tronco embrionárias humanas para fins estéticos?

Por Mayana Zatz

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A competição entre as células-tronco

quinta-feira, 26 de novembro de 2009 | 21:29

No dia 24 de novembro a nossa equipe foi uma das vencedoras do prêmio SAÚDE da Editora Abril, na categoria saúde da mulher. O trabalho premiado refere-se à descoberta de uma nova fonte de células-tronco nas trompas de falópio, desenvolvido pela Dra. Tatiana Jazedje, no Centro de Estudos do Genoma Humano.

Transcrevo aqui meu discurso de agradecimento.

Estamos assistindo a uma grande competição entre as diferentes células-tronco (CT): CT embrionárias, de cordão umbilical, tecido adiposo, polpa dentária….. Qual é a melhor para formar células musculares e neurônios visando o tratamento futuro de doenças neuromusculares, que é o nosso objetivo maior?

E aí a Tatiana resolveu usar o tecido da trompa para servir de tapete e cultivar as diferentes CTs. Tapete eu?? Disse a trompa…. Não sirvo só para ser pisada. Eu também sei produzir células-tronco. Me testem….
E foi isso o que a Tatiana fez. E viu que a trompa era realmente capaz de produzir CTs com potencial para se diferenciar em células musculares, adiposas, ósseas e cartilagem.

E é por isso que estamos aqui hoje. Em nome das trompas agradecemos essa premiação. Ela é o reconhecimento que esperávamos. Podemos fazer mais do que servir só de passagem para os óvulos.

E a vocês ginecologistas e obstetras o nosso recado: não nos descartem nas cirurgias! Podemos ser muito úteis.
Muito obrigada.

Por Mayana Zatz

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Tratamento na China: depoimento de um paciente

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 | 21:54

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Já escrevi mais de uma vez contra o suposto tratamento com células-tronco oferecido na China a um alto custo - de 20.000 a 50.000 dólares. Não sabemos o que é injetado nos pacientes, não há seguimento a longo prazo e nem relato de melhoras após o tratamento. Mas nada mais convincente do que o depoimento de um paciente que viveu a experiência.

Meu nome é Laerte Colling e sou portador de esclerose lateral amiotrófica ou ELA (diagnosticada em outubro de 2007). Não sei se a senhora está lembrada, mas já conversamos algumas vezes sobre pesquisas e tratamentos para ELA. Agora, envio este e-mail porque faz um ano que me submeti ao tratamento com células-tronco na China. E, apesar de saber que a senhora – assim como a maioria dos profissionais da área, inclusive meu  neurologista – é contra, eu gostaria de relatar minha experiência.

Eu entendo perfeitamente a sua posição em relação ao tratamento, porém, considerando a situação em que me encontro, qualquer possibilidade, por mais remota que seja, é sempre uma esperança de cura ou uma oportunidade para retardar a evolução da doença, enquanto aguardamos os avanços das pesquisas.

Após vários contatos com o hospital chinês e, depois de uma extenuante viagem, me submeti ao tratamento disponível no Xishan Hospital em Pequim, coordenado pelo Dr. Huang. O tratamento consiste na aplicação de células-tronco da mucosa olfatória aplicadas diretamente na região frontal do cérebro. Fiquei na China durante um mês, tempo necessário para as atividades de preparação, realização da cirurgia e recuperação.
Lá no hospital, conheci vários outros pacientes (esperançosos como eu) que estavam se submetendo ao tratamento. Nenhum portador de ELA. O hospital e as acomodações são simples mas, o atendimento e dedicação dos profissionais é muito bom.

Senti uma pequena melhora na força muscular, porém, somente por um pequeno período após o tratamento. Acredito que esta “melhora” ocorreu em função das várias atividades desenvolvidas (fisioterapia diária, acupuntura, exercícios, etc…), que continuo fazendo até hoje.

A evolução da doença não estagnou. No meu caso, a evolução sempre foi lenta e não senti melhora significativa com o tratamento até o momento. Nenhum movimento perdido foi recuperado. Porém, não sei como estaria hoje se não tivesse feito… é tudo muito relativo. Portanto, até o momento, o que a senhora e vários outros profissionais da área aqui no Brasil comentam está correto: a princípio, o tratamento não  funciona.

De qualquer forma, gostaria de aproveitar a oportunidade para solicitar informações sobre as pesquisas em relação a ELA. Há alguma perspectiva a curto prazo? Como andam as pesquisas? Há algum grupo de voluntários sendo formado para testes?
Quero reforçar meu interesse em participar, se possível.
(Laerte Colling)

Prezado Laerte

Existem inúmeras pesquisas sendo realizadas ao redor do mundo com células-tronco e com novas drogas na tentativa de tratar a esclerose lateral amiotrófica. Estamos em contato direto com os  grupos idôneos que realizam essas pesquisas. Chegaremos lá, tenho certeza.

Assim que soubermos de algum resultado promissor seremos os primeiros a divulgá-los.

Um grande abraço
Mayana

Por Mayana Zatz

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Células-tronco em doenças neuromusculares

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 | 20:30

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Dra. Mayana, sou presidente da Associação de Doenças Neuromusculares de MS e os pacientes vêm a mim com muita frequência em busca de informações. Duas são recorrentes:

1- quais patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas por terapias com células-tronco;

2- como anda o progresso das pesquisas nas diversas fontes de células-tronco que já foram descobertas (tecido adiposo, polpa dentária, sangue menstrual, embriões descartados, etc.). Poderia nos falar um pouco sobre essas questões?

O que são patologias neuromusculares?

Existem centenas de patologias neuromusculares, causadas por mutações em diferentes genes e que causam uma fraqueza progressiva devido a degeneração da musculatura. Algumas são causadas por um defeito primário do músculo, como por exemplo as distrofias musculares progressivas (DMPs). O gene defeituoso deixa de produzir alguma proteína que é essencial para o músculo . Em outras o defeito primário é nos neurônios (células nervosas) que mandam ordens aos músculos. Os neurônios morrem e por causa disso os músculos  acabam se atrofiando  indiretamente. É o caso, por exemplo, das atrofias espinhais progressivas. No primeiro grupo, a preocupação é substituir as células musculares enquanto no segundo são os neurônios que devem ser substituídos.

Que patologias poderão vir a ser beneficiadas?

Eu acredito que todas as patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas mas  as abordagens terapêuticas serão diferentes. Nossa equipe está trabalhando mais com modelos animais de distrofias musculares, onde o efeito primário é no músculo. Estamos injetando CT de diferentes fontes e analisando qual é o seu efeito clínico.

Quais são as questões que  estamos querendo responder?

Como as células devem ser injetadas? Injeções locais, diretamente na musculatura, ou sistêmicas, na veia? Que quantidade deve ser injetada? Com que frequência?  Como garantir que elas cheguem no local certo? Como controlar a sua diferenciação, isto é, ter certeza que uma vez injetadas elas vão se diferenciar só em músculo e não em outro tecido? Como controlar a rejeição? Quais são as melhores células para formar tecido muscular?

Uma linhagem não é igual a outra

Tivemos bons resultados com CT de tecido adiposo humano. Quando injetadas em camundongos com distrofia, elas se direcionaram para os músculos, não foram rejeitadas (sem uso de imunosupressores) e os animais melhoraram clinicamente. Esses resultados nos deixaram muito animados. Mas sabemos que uma linhagem de CT pode não ser igual a outra e por isso esses experimentos precisam ser confirmados.

Qual é o próximo passo?

Vamos iniciar em breve um grande estudo comparativo envolvendo muitos animais e vários pesquisadores. A ideia é comparar o potencial de diferentes CT- no caso, tecido adiposo, cordão umbilical e polpa dentária- em camundongos com distrofia. Os animais serão injetados ao mesmo tempo e acompanhados pela mesma equipe. A avaliação será feita em teste cego, isto é, quem for analisar os resultados não saberá o que cada animal recebeu.

Os animais serão acompanhados por pelo menos um ano

Para termos respostas conclusivas, precisamos acompanhar os animais por pelo menos um ano. Na realidade eles deveriam ser acompanhados por 2 ou 3 anos. Só assim poderemos avaliar os resultados a  longo prazo. Portanto, podemos antecipar que vai ser um experimento demorado. Só assim poderemos ter resultados fidedignos. A partir deles poderemos direcionar os futuros tratamentos com muito mais segurança.

Por Mayana Zatz

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Células-tronco de cordão umbilical: novas descobertas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 | 22:19

Um dos nossos principais objetivos no Centro de Estudos do Genoma Humano (USP) é realizar pesquisas científicas visando contribuir para o tratamento de doenças neuromusculares. Para isso, achar fontes abundantes de células-tronco (CT) de fácil acesso e com potencial de formar vários tecidos é fundamental. Ainda temos perguntas muito importantes a responder, tais como: qual é a melhor fonte de CT para o tratamento de cada doença? Qual é o potencial que elas têm de formar diferentes tecidos? CT de várias fontes são equivalentes ou, dependendo de sua origem, elas podem formar um tecido melhor do que outro?

Dentre as várias fontes de CT adultas que estão sendo investigadas, como medula óssea, tecido adiposo e polpa dentária, entre outras, o cordão umbilical tem recebido uma atenção especial. O tecido do cordão, diferentemente do sangue, é rico em um tipo especial de CT com potencial de formar músculo, osso, cartilagem e tecido adiposo. São as chamadas CT mesenquimais (CTM). O que descobrimos agora é que as CTM do sangue do cordão são diferentes daquelas encontradas no tecido do cordão. Essa nova pesquisa, desenvolvida no nosso Centro, será publicada na revista Stem Cells Reviews and Reports. Além do interesse para futuras terapias, ela está relacionada a uma questão polêmica: os bancos de cordão umbilical.

CT mesenquimais (CTM)

Uma das grandes dúvidas em relação às CTM é se elas são todas iguais ou se, de acordo com sua origem, elas podem ter um potencial maior para formar um ou outro tecido. Por exemplo, um tipo de célula poderia ser melhor para formar ossos, enquanto outro seria melhor para originar músculos. Se isso for verdade, descobrir a “vocação” de cada uma delas é extremamente importante para futuras terapias.

Já sabemos que o sangue do cordão é rico em CT hematopoéticas, isto é, precursoras de células sanguíneas. Elas têm sido transplantadas com sucesso  em casos de leucemias, anemias e várias doenças hematológicas. Por outro lado, uma outra população de CT, as CTM, que são preciosas porque têm o potencial de formar vários tecidos, é escassa no sangue do cordão. Onde obtê-las?

O tecido do cordão umbilical é rico em CTM

Nosso grupo (em uma pesquisa realizada pelos alunos de doutorado Mariane Secco e Eder Zucconi) já havia mostrado que o tecido do cordão umbilical é muito mais rico em CTM do que o sangue do cordão. Nessa pesquisa, que foi publicada em 2008 (revista Stem Cells), comparamos o tecido do cordão e o sangue do cordão dos mesmos nascituros. Enquanto todos os cordões eram ricos nessas células, elas só apareciam em 10% das amostras de sangue de cordão. Chamamos a atenção dos bancos de cordão sobre a importância desse achado porque a rotina é que eles guardem o sangue e descartem o cordão. O próximo passo era descobrir se…

…as CTM do cordão e do sangue são iguais? Elas têm o mesmo potencial para formar diferentes tecidos?

Quando vimos que havia muito mais CTM no cordão do que no sangue, a primeira pergunta que surgiu foi: será que as do sangue são as mesmas do cordão, só que presentes em menor quantidade? Responder a essa pergunta não foi fácil, porque tivemos de comparar amostras pareadas, isto é: sangue e cordão umbilical do mesmo bebê.

Para isso, Mariane e o Eder tiveram de coletar e processar 65 cordões. Toda vez que nascia um bebê, eles tinham de estar lá para garantir que as amostras fossem coletadas com todo o rigor científico. Em seguida, elas foram comparadas por um método chamado de microarray, que nos permite analisar a expressão de milhares de genes ao mesmo tempo. Para esta análise, contamos com uma colaboração preciosa do Dr. Sergio Verjovski e de seu aluno Yuri Moreira, ambos do Instituto de Química (USP). O esforço valeu a pena e já temos os resultados, que serão publicados em breve. E o que descobrimos?

As células são diferentes

No linguajar científico, dizemos que elas têm um perfil de expressão diferente. Por exemplo, as CT do sangue parecem estar mais relacionadas a formação de ossos ou ao sistema imunológico, enquanto as do cordão se identificam mais com células nervosas, células secretoras e/ou formadoras de vasos sanguíneos. Diante desses resultados, as nossas próximas questões são: será que isso também vai ocorrer quando essas células forem injetadas em organismos vivos? Por exemplo, será que as CTM do tecido do cordão serão mais eficientes no tratamento de doenças neurológicas, já que elas estão mais relacionadas com a formação de neurônios? Como confirmar isso agora?

Qual é o próximo passo?

O próximo passo agora é separar as células e injetá-las em modelos animais com doenças neuromusculares, modelos de Parkinson ou esclerose lateral amiotrófica (ELA) e confirmar se esse mesmo comportamento ocorre “in vivo”, ou seja, no organismo do animal.  Um grupo de animais receberá CT do tecido do cordão e outro, do sangue do cordão, e eles serão comparados quanto à eficiência das CT no tratamento da doença. São pesquisas demoradas, mas as respostas serão fundamentais para direcionar os futuros tratamentos em seres humanos.

E os bancos de cordão, como é que ficam?

Milhares de pessoas estão pagando para guardar o sangue do cordão de seu filho em bancos particulares. Vale a pena? Minha opinião continua a mesma. O sangue de cordão deveria ser armazenado em bancos públicos e não privados. Ele poderia salvar vidas de inúmeras pessoas que sofrem de leucemias, anemias ou outras condições que poderão ser curadas com transplante de CT de cordão umbilical. Mas para aqueles que ainda querem pagar para manter o sangue do cordão de seu bebê em banco particular, minha sugestão é: guarde também o tecido do cordão umbilical.

Por Mayana Zatz

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Um brasileiro explica o Nobel de Medicina

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 | 21:15

A genética ganhou de novo. Desta vez, os laureados no prêmio Nobel de Medicina foram os telômeros, as estruturas que ficam nas extremidades dos cromossomos. Os vencedores foram três americanos: Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak. Entender o papel dos telômeros e da telomerase, a enzima que os regula, vai nos ajudar a compreender mecanismos relacionados com envelhecimento, formação de tumores e algumas doenças genéticas.

Para falar disso, entrevistei o Dr. Rodrigo Calado, um jovem e brilhante pesquisador brasileiro que não conseguiu se “calar” quando soube da notícia. Foi quase “um ganhador”. Ele, que está atualmente no NIH (National Institute of Health, nos Estados Unidos), possui trabalhos importantíssimos relacionados com telômeros e tem colaborado conosco para desvendar essas estruturas nas células-tronco.

Por favor explique em uma linguagem “leiga” o que são os telômeros e qual a sua importância.

Rodrigo Calado - Os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos e servem como verdadeiros protetores dos cromossomos contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

O senhor conhece e já interagiu com as ganhadoras do prêmio Nobel? Qual foi a sua reação quando soube do prêmio?

R.C. - Sim, o grupo de pesquisadores na área de telômeros não é tão grande assim ao redor do mundo e nos reunimos pelo menos uma vez por ano para apresentar e discutir as descobertas nessa área. Tive a chance de discutir meu trabalho com a Dra. Elizabeth Blackburn, que sempre é muito motivadora e ajuda com ideias interessantes. A Dra. Carol Greider também lidera um grupo de estudos mais voltado para as implicações clínicas, ou seja, para pacientes com problemas nos telômeros, semelhante aos interesses do nosso grupo no NIH, e compartilhamos informações e ideias sobre o assunto.

O seu grupo fez descobertas importantes relacionando os telômeros e doenças genéticas ou hematológicas. O senhor poderia falar um pouco a respeito?

R.C. - Nosso grupo descobriu alterações nos telômeros de alguns pacientes com anemia aplástica, uma doença do sangue em que a medula óssea para de produzir as células do sangue e consequentemente o paciente tem anemia, infecções por conta do baixo número de glóbulos brancos e sangramentos por causa das plaquetas baixas. O que descobrimos foi que esses pacientes têm mutações no gene que produz a enzima telomerase, que então não funciona adequadamente. Como consequência, os telômeros ficam muito curtos e a célula-tronco hematopoética para de se dividir. Com isso, a medula óssea para de funcionar adequadamente e o número das células do sangue torna-se reduzido.  Descobrimos também que essas mutações causam uma instabilidade muito grande dos cromossomos e podem aumentar o risco do desenvolvimento de cânceres, como a leucemia aguda.

Sabemos que os telômeros diminuem de tamanho com o envelhecimento celular  e que a enzima telomerase regula o seu tamanho. Já me perguntaram se não valeria a pena colocar telomerase nas células para diminuir seu envelhecimento. Quais seriam os potenciais benefícios e riscos?

R.C. - Constatamos recentemente aqui no NIH que os hormônios sexuais, tanto o andrógeno (hormônio masculino) quanto o estrógeno (hormônio feminino), são capazes de estimular a produção de telomerase na célula-tronco da medula óssea, e este é um tratamento muitas vezes bastante efetivo. É interessante que mulheres após a menopausa que fazem reposição de hormônio têm telômeros mais longos que mulheres pós-menopausa que não fazem essa reposição. Outra forma de aumentar a telomerase na célula seria a terapia gênica, em que o gene da telomerase seria inserido no núcleo da célula e esta então passaria a produzir mais telomerase e reparar adequadamente os telômeros. Mas os estudos em humanos feitos até hoje se mostraram muito complicados e existe uma alta chance de desenvolvimento de câncer. Isso porque é muito difícil acertar na mosca em relação a onde e como colocar este gene no núcleo da célula. Muitas vezes, este gene acaba se “instalando” perto de algum oncogene, ou seja, um gene “precursor” de tumor. Em resumo, apesar das inúmeras pesquisas e do enorme potencial futuro, a terapia gênica ainda é uma promessa distante da aplicação prática em medicina.

Por Mayana Zatz

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Síndrome de Prader-Willi

quinta-feira, 6 de agosto de 2009 | 20:56

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Estive lendo sobre a Síndrome de Prader-Willi e gostaria de saber mais sobre ela. Existe alguma pesquisa de células-tronco em relação a essa doença?
(Natalia)

Para responder a sua pergunta entrevistei a doutora Célia P. Koiffmann que é a maior especialista brasileira em Síndrome de Prader-Willi.

O que é a Síndrome de Prader-Willi?
É uma doença genética cuja principal manifestação é a obesidade mórbida. Os afetados têm um apetite voraz  e por isso é fundamental o diagnóstico precoce para controlar a dieta e iniciar um tratamento adequado antes que apareça a obesidade e os seus efeitos colaterais.

Eles já são bebês gordos?
Não, ironicamente o recém-nascido apresenta hipotonia (é molinho), dificuldade de sucção (o bebê não consegue mamar no peito, tem que ser alimentado com sonda ou conta-gotas). Eles apresentam dificuldade para ganhar peso e têm atraso de desenvolvimento neuropsicomotor - demoram mais tempo para sustentar o pescoço, sentar sem apoio, andar. Isso pode até levar a mãe a  “super alimentar” o filho sem suspeitar do diagnóstico. A hiperfagia (fome excessiva) só se inicia entre 1 e 6 anos de idade.

Os adolescentes apresentam baixa estatura, mãos e pés pequenos, problemas de aprendizado e de comportamento e se não forem submetidos a uma dieta, desenvolvem obesidade extrema. A procura por comida é incessante, pois os pacientes sentem muita fome, não têm noção de saciedade. Um controle rigoroso da dieta precisa ser feito para que problemas como diabetes, pressão alta e outros não se manifestem.

É uma doença genética?
Sim. É importante lembrar que genético não é sinônimo de hereditário. A SPW é uma doença genética porque ela é causada por um mecanismo genético envolvendo o cromossomo 15. Entretanto, raramente ela é hereditária. O risco de recorrência ou de repetição da doença na família é muito baixo.

Como é realizado o diagnóstico no laboratório?
Esse é um aspecto importante porque existem várias causas genéticas e/ou ambientais que podem levar à obesidade. O teste que confirma o diagnóstico dos pacientes é realizado no DNA e chama-se “Estudo do padrão de metilação da região  Prader-Willi/Angelman.” O teste determina o mecanismo genético que deu origem à síndrome e também se existe risco de que um casal com uma criança afetada possa ter outra com a mesma síndrome.

Como células-tronco poderão ajudar no caso da Síndrome de Prader-Willi?
Além do potencial de regenerar tecidos, as células-tronco podem ajudar a entender os mecanismos que causam doenças genéticas abrindo novas perspectivas terapêuticas. A partir de células-tronco de pacientes com a Síndrome de PW, podemos no laboratório derivar várias linhagens celulares (tecido adiposo, muscular, ósseo etc.) e tentar entender porque essas crianças desenvolvem a obesidade e porque é tão difícil para elas emagrecer. Além disso podemos pesquisar o efeito de diferentes estratégias moleculares ou drogas para tentar corrigir o defeito.

Como conseguir células-tronco dos pacientes?
Um dos métodos seria a partir do próprio tecido adiposo. Sabemos que o tecido adiposo é rico em células-tronco mesenquimais que têm o potencial de formar várias linhagens celulares. Portanto, se uma criança ou adolescente tiver que fazer qualquer cirurgia é importante os pais saberem que com uma quantidade pequena de tecido adiposo podemos extrair muitas células-tronco. A outra fonte rica em células-tronco e de fácil obtenção é a polpa do dente.

Como conseguir a polpa de dente?
Quando o dentinho da primeira dentição cai espontaneamente colocá-lo em leite líquido num pote limpo que pode ser o coletor de urina que se compra na farmácia. Isso mesmo, leite, e avisar o Centro de Estudos do Genoma Humano aos cuidados da professora Célia P. Koiffmann pelo telefone (11) 3091-8093. Se precisar extrair o dentinho no dentista solicitar a esse profissional que faça uma limpeza do dentinho e o coloque no pote com leite ou em uma solução que é fornecida pelo Centro de Estudo do Genoma Humano. Essa solução tem que ser solicitada com alguma antecedência para que possamos enviá-la em tempo.

A polpa de dente pode ser importante para outras doenças?
Bem lembrado. Como a polpa do dente de leite é rica em células-tronco é importante guardá-la no caso de pacientes com outras doenças genéticas. Portanto, caro leitor se você tiver uma criança com algum problema genético que estiver trocando a dentição, contate o Centro de Estudos do Genoma Humano no telefone (11)3091-7966,  ramal:15.

Por Mayana Zatz

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Estamos mais próximos de produzir um clone humano?

quinta-feira, 30 de julho de 2009 | 21:18

clones

Células reprogramadas de camundongo geram clone viável e fértil

Na semana passada  duas equipes de pesquisadores chineses demonstraram que células reprogramadas de camundongos, as chamadas células iPS podem gerar um animal clonado. As pesquisas foram publicadas nas revistas Nature e Cell& Stem Cell, mas surpreendentemente a notícia não teve o destaque que eu esperava.

Para os cientistas  da nossa equipe, interessados em terapia celular ou em  utilizar células-tronco para descobrir os mecanismos que causam doenças genéticas, é uma grande notícia. Ela abre inúmeras portas para novas pesquisas que podem ser muito promissoras. Por outro lado, a partir dessa técnica, talvez seja muito mais fácil produzir um clone humano, uma possibilidade rejeitada pela grande maioria dos cientistas. Será possível controlar isto? Como irão reagir os grupos religiosos que aplaudiram a descoberta das células iPS?

Reprogramar células adultas ficou muito mais fácil

Desde o nascimento da ovelha Dolly, que demonstrou pela primeira vez que uma célula adulta de um mamífero pode ser “reprogramada” e  adquirir as mesmas características de uma célula-tronco embrionária (CTE), os cientistas usam essa tecnologia para tentar originar tecidos em laboratório. Entretanto, essa técnica, chamada de clonagem terapêutica, apresenta uma grande dificuldade: requer o uso de óvulos, que no caso de seres humanos não são fáceis de serem obtidos.

A reprogramação de células por clonagem terapêutica foi proibida

“Isso vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva’, clamavam os opositores. “Vai gerar comércio de óvulos!” Grupos religiosos se posicionaram frontalmente contra e poucos países permitiram pesquisas  envolvendo clonagem terapêutica. Meus argumentos de que elas dependiam de óvulos humanos, cuja obtenção era difícil e poderia perfeitamente ser controlada e regulamentada foram em vão. A nossa lei de biossegurança  aprovou as pesquisas com CTE  derivadas de embriões congelados, mas não permitiu a clonagem terapêutica.

Dois anos atrás surgiram as células iPS: a solução para os grupos religiosos

Em 2007, dois grupos de pesquisadores independentes, dr. Yamanaka e dr. Thomson demonstraram que células adultas de camundongos poderiam ser reprogramadas e adquirir características de uma célula embrionária de um modo muito mais fácil. Bastava ativar 3 ou 4 genes, inserindo-se um vírus dentro da célula, e essa célula aparentemente teria as mesmas propriedades de uma célula embrionária.

As células iPS foram aplaudidas por todos aqueles que se opunham as pesquisas com células embrionárias obtidas de embriões congelados ou derivadas de clonagem terapêutica. “Elas são a solução. Não será mais necessário destruir embriões.” Não perceberam que em teoria elas representavam o mesmo “risco” da clonagem terapêutica.

Entre cientistas a dúvida continuava

Elas são mesmo iguais? “Ainda sabemos muito pouco a respeito”, ouvi  o prof. Yamanaka afirmar no início de julho, em sua conferência no congresso internacional de células-tronco, em Barcelona. Ele mostrou que células iPS  obtidas de diferentes tecidos  comportam-se de modo diferente .

Elas conseguiram reproduzir um camundongo inteiro e fértil

Enquanto discutíamos o potencial das células iPS em Barcelona, cientistas chineses publicavam seus trabalhos demonstrando que elas são capazes de produzir camundongos clonados e férteis. Se essa mesma tecnologia funcionar com células humanas, realmente não será mais necessário destruir embriões e estaremos muito mais próximos de poder construir no laboratório tecidos ou órgãos que precisam ser substituídos, sem risco de rejeição. Poderemos ainda produzir linhagens celulares de pessoas portadoras de doenças genéticas e testar inúmeras possibilidades de tratamento diretamente nas células, sem usar o ser humano como cobaia. Por enquanto ainda é pesquisa básica, mas o futuro parece promissor.

Poderemos impedir o uso de células iPS na clonagem humana?

O grande risco é que pessoas sem ética queiram usar essa tecnologia para tentar gerar um clone humano. E o que é pior, como não necessitam de óvulos humanos, isso poderia ser feito em qualquer laboratório e “o clone”  inserido em qualquer útero. A curiosidade humana não tem limites. Poderemos controlar esses experimentos? Qual vai ser a posição dos grupos religiosos que tanto exaltaram as células reprogramadas iPS ? Será que pensaram nessa possibilidade? Os avanços científicos estão rompendo paradigmas a uma velocidade cada vez maior. Discussões envolvendo toda a sociedade serão cada vez mais necessárias.

Por Mayana Zatz

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