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câncer

21/01/2010

às 0:21 \ Sem categoria

Laser, células-tronco, odontologia e câncer

laser

VEJA publicou na primeira semana de janeiro uma longa reportagem sobre os benefícios dos lasers em várias áreas da medicina. Além dessas aplicações, essa nova tecnologia tem importante uso na odontologia e também na prevenção e tratamento das mucosites orais de pacientes submetidos a altas doses de quimio e radioterapia, com significante melhora da sua qualidade de vida. Recentemente, fizemos uma pesquisa sobre o tema em colaboração com o professor Carlos de Paula Eduardo, titular da Faculdade de Odontologia da USP. Analisamos os efeitos do laser de baixa potência na proliferação de células-tronco. Os resultados, que foram publicados na revista Lasers in Surgery and Medicine, foram muito interessantes – e explicam porque os raios laser atuam na regeneração celular.

Os lasers ajudam na recuperação de mucosas

A equipe de cirurgiões dentistas da Faculdade de Odontologia da USP, sob a coordenação do professor Carlos, é apaixonada pelos lasers há muito tempo. Perceberam há alguns anos que, quando utilizavam os lasers de baixa potência nos tecidos moles bucais, em lesões benignas onde as mucosas estavam comprometidas, elas se recuperavam mais rapidamente. Se você já teve herpes com manifestações bucais ou aftas alguma vez na vida deve saber o quanto isso incomoda. Imagine então lesões maiores na boca.

Como agem os lasers?

Como pesquisadores que somos, possuídos pela curiosidade, não nos contentamos em apenas observar esse efeito. Isso era pouco. Queríamos saber mais… Qual era o mecanismo pelo qual os lasers interagiam com as mucosas? Será que eles atuariam também sobre as células-tronco? E para responder essa questão fizemos um experimento muito simples.

O efeito dos lasers nas células-tronco

Estabelecemos uma cultura de células-tronco a partir da polpa dentária que foi separada em dois grupos e que foram cultivados segundo os protocolos habituais. A diferença é que no primeiro grupo aplicamos também o laser – e no segundo, não. É importante ressaltar que trata-se de um laser de baixa potência.  Após um período de 24 horas, as células foram analisadas em teste cego, ou seja, quem observava os resultados não sabia se as células tinham sido irradiadas ou não. E adivinhem o que aconteceu? As células, em déficit nutricional, submetidas à irradiação com laser de baixa potência, haviam proliferado mais. Acabávamos de comprovar que eles atuavam na divisão celular das células-tronco da polpa dentária. Tínhamos a explicação para a melhor recuperação das mucosas alteradas.

O valor do laser para pacientes com câncer

A quimioterapia e a radioterapia de cabeça e pescoço podem causar lesões importantes nas mucosas bucais. Cirurgiões dentistas que estão trabalhando em hospitais e universidades têm dado atenção especial aos pacientes que são submetidos a altas doses de quimioterapia e radioterapia nessas partes do corpo. Eles podem apresentar manifestações severas nos tecidos moles da boca, uma inflamação da mucosa chamada mucosite oral, que provoca muita dor e extrema dificuldade na hora de comer. Além disso, essas feridas tornam-se porta de entrada para microorganismos, aumentando significativamente o risco de infecções.

Todos os centros de quimio e radio deveriam ter lasers

É  fundamental  que os protocolos utilizados nas quimioterapias sejam discutidos, entendidos e aplicados por equipes multiprofissionais (médicos, dentistas, enfermeiras, etc), pois é necessário um profundo conhecimento científico da tecnologia laser para alcançar os benefícios desejados . Mas vale a pena. As mucosas se recuperam rapidamente sem efeito colateral e o paciente ganha muito em qualidade de vida!

O doutor Carlos conta a história de uma garotinha de 3 anos que havia sido internada para transplante de medula óssea e tinha muitas lesões bucais. Amedrontada, chorou quando o protocolo de laserterapia foi iniciado. Mas à medida que foram aparecendo os efeitos do tratamento e o alivio da dor, ela mesmo pedia o laser antes de tomar o café da manhã. Era preciso que a equipe de odontologia fosse cedinho ao hospital, mas o seu sorrisinho de satisfação compensava qualquer esforço.  É por isso que defendemos que todos os centros de quimioterapia e radioterapia tenham a tecnologia laser integrada ao serviço prestado. O custo do equipamento laser de baixa potência, de origem nacional, é baixo – e o retorno para a saúde do paciente é gigantesco.

Por Mayana Zatz

07/10/2009

às 21:15 \ Sem categoria

Um brasileiro explica o Nobel de Medicina

A genética ganhou de novo. Desta vez, os laureados no prêmio Nobel de Medicina foram os telômeros, as estruturas que ficam nas extremidades dos cromossomos. Os vencedores foram três americanos: Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak. Entender o papel dos telômeros e da telomerase, a enzima que os regula, vai nos ajudar a compreender mecanismos relacionados com envelhecimento, formação de tumores e algumas doenças genéticas.

Para falar disso, entrevistei o Dr. Rodrigo Calado, um jovem e brilhante pesquisador brasileiro que não conseguiu se “calar” quando soube da notícia. Foi quase “um ganhador”. Ele, que está atualmente no NIH (National Institute of Health, nos Estados Unidos), possui trabalhos importantíssimos relacionados com telômeros e tem colaborado conosco para desvendar essas estruturas nas células-tronco.

Por favor explique em uma linguagem “leiga” o que são os telômeros e qual a sua importância.

Rodrigo Calado - Os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos e servem como verdadeiros protetores dos cromossomos contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

O senhor conhece e já interagiu com as ganhadoras do prêmio Nobel? Qual foi a sua reação quando soube do prêmio?

R.C. – Sim, o grupo de pesquisadores na área de telômeros não é tão grande assim ao redor do mundo e nos reunimos pelo menos uma vez por ano para apresentar e discutir as descobertas nessa área. Tive a chance de discutir meu trabalho com a Dra. Elizabeth Blackburn, que sempre é muito motivadora e ajuda com ideias interessantes. A Dra. Carol Greider também lidera um grupo de estudos mais voltado para as implicações clínicas, ou seja, para pacientes com problemas nos telômeros, semelhante aos interesses do nosso grupo no NIH, e compartilhamos informações e ideias sobre o assunto.

O seu grupo fez descobertas importantes relacionando os telômeros e doenças genéticas ou hematológicas. O senhor poderia falar um pouco a respeito?

R.C. – Nosso grupo descobriu alterações nos telômeros de alguns pacientes com anemia aplástica, uma doença do sangue em que a medula óssea para de produzir as células do sangue e consequentemente o paciente tem anemia, infecções por conta do baixo número de glóbulos brancos e sangramentos por causa das plaquetas baixas. O que descobrimos foi que esses pacientes têm mutações no gene que produz a enzima telomerase, que então não funciona adequadamente. Como consequência, os telômeros ficam muito curtos e a célula-tronco hematopoética para de se dividir. Com isso, a medula óssea para de funcionar adequadamente e o número das células do sangue torna-se reduzido.  Descobrimos também que essas mutações causam uma instabilidade muito grande dos cromossomos e podem aumentar o risco do desenvolvimento de cânceres, como a leucemia aguda.

Sabemos que os telômeros diminuem de tamanho com o envelhecimento celular  e que a enzima telomerase regula o seu tamanho. Já me perguntaram se não valeria a pena colocar telomerase nas células para diminuir seu envelhecimento. Quais seriam os potenciais benefícios e riscos?

R.C. – Constatamos recentemente aqui no NIH que os hormônios sexuais, tanto o andrógeno (hormônio masculino) quanto o estrógeno (hormônio feminino), são capazes de estimular a produção de telomerase na célula-tronco da medula óssea, e este é um tratamento muitas vezes bastante efetivo. É interessante que mulheres após a menopausa que fazem reposição de hormônio têm telômeros mais longos que mulheres pós-menopausa que não fazem essa reposição. Outra forma de aumentar a telomerase na célula seria a terapia gênica, em que o gene da telomerase seria inserido no núcleo da célula e esta então passaria a produzir mais telomerase e reparar adequadamente os telômeros. Mas os estudos em humanos feitos até hoje se mostraram muito complicados e existe uma alta chance de desenvolvimento de câncer. Isso porque é muito difícil acertar na mosca em relação a onde e como colocar este gene no núcleo da célula. Muitas vezes, este gene acaba se “instalando” perto de algum oncogene, ou seja, um gene “precursor” de tumor. Em resumo, apesar das inúmeras pesquisas e do enorme potencial futuro, a terapia gênica ainda é uma promessa distante da aplicação prática em medicina.

Por Mayana Zatz

 

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