
Quem é Julio?
Na semana passado contei a história de Julio, um menino fantástico de 9 anos, que tinha um irmão mais velho, José, com distrofia muscular de Duchenne. Algumas pessoas adivinharam de quem eu estava falando. É o Julio Rocha, hoje é ator de novelas. Na sua última novela, Caras e Bocas fez o papel de vilão, imaginem. Não acreditei quando soube que aquele personagem mau caráter era menino Julio. O menino que me marcou para sempre pela sua coragem. E na vida real, como é o verdadeiro Julio? Por que esse nosso reencontro?
Já há algum tempo soube que um jovem rapaz estava querendo ajudar a nossa ABDIM - Associação Brasileira de Distrofia Muscular -, mas não tinha a menor ideia de quem se tratava (confesso que vejo TV muito raramente). Ele não se apresentou como profissional de televisão. Muito pelo contrário fez questão de se identificar como o irmão do José.
No ano passado, Julio apareceu na festa de Natal que o Grupo Harmonia Solidária promove há mais de 7 anos para a ABDIM. Aliás, quero aproveitar para agradecer a esse grupo que incansavelmente tem proporcionado momentos de muita emoção a todos os nossos pacientes e colaboradores. Eu estava no exterior e não pude comparecer.Mas seus pais, Eduardo e Ana, estavam presentes e me mandaram um cartãozinho. Foi só então que eu soube quem eles eram. Quis revê-los a qualquer custo.Como estaria Julio agora?
O nosso reencontro foi emocionante. Julio que veio com seu pai, ainda tem o mesmo olhar da criança gravado na minha memória. O ator que interpreta personagens maldosos com tanto realismo continua tão generoso quanto o menino que conheci. Por que veio nos procurar? Ele quer ajudar tantos outros meninos com distrofia muscular que nasceram depois que José, seu irmão, que partiu prematuramente aos 16 anos.

Relembramos o passado. Falamos do José, dos seus ensinamentos, de quão importante ele havia sido e das lembranças boas que ele havia deixado. Lembramos também do Willian, o amiguinho que também participou da coleta noturna de sangue e a quem também sou muito grata. Recordamos como nascera a ABDIM na década de 80 e da sua primeira sede, a minha sala no prédio da Biologia da USP. Contamos que com os tratamentos de hoje, a ABDIM consegue hoje estender a expectativa de vida por mais de 10 anos . Da nossa luta por recursos para construir uma sede nova que atenda mais pacientes. Falamos das pesquisas atuais, da nossa esperança de tratamento com células-tronco e também das dificuldades em conseguir importar reagentes ou camundongos afetados para testes pré-clínicos.Julio nos interrompia a cada momento: “Como posso ajudar? Como posso ajudar?”
E mais uma vez eu revia o menino de 20 anos atrás que nos convenceu que queria ajudar o irmão doando o que ele tinha de mais precioso: o seu próprio sangue. Mesmo depois de ter se consagrado como ator, dos holofotes, do glamour, do assédio da imprensa e dos fãs, Julio continua com a mesma garra. Preocupando-se com tantos outros Josés que ainda lutam, que têm esperanças….
Você certamente conseguirá nos ajudar Julio. Saber que você estará do nosso lado, batalhando por essa causa já é uma ajuda gigantesca. E você vai redescobrir algo que já sentiu quando criança. O retorno enorme que recebemos quando lutamos para ajudar os outros. Esse calor humano não tem preço. Todos aqueles que já trilharam esse caminho e se envolveram pessoalmente sabem do que estou falando.





