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07/10/2009

às 21:15 \ Sem categoria

Um brasileiro explica o Nobel de Medicina

A genética ganhou de novo. Desta vez, os laureados no prêmio Nobel de Medicina foram os telômeros, as estruturas que ficam nas extremidades dos cromossomos. Os vencedores foram três americanos: Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak. Entender o papel dos telômeros e da telomerase, a enzima que os regula, vai nos ajudar a compreender mecanismos relacionados com envelhecimento, formação de tumores e algumas doenças genéticas.

Para falar disso, entrevistei o Dr. Rodrigo Calado, um jovem e brilhante pesquisador brasileiro que não conseguiu se “calar” quando soube da notícia. Foi quase “um ganhador”. Ele, que está atualmente no NIH (National Institute of Health, nos Estados Unidos), possui trabalhos importantíssimos relacionados com telômeros e tem colaborado conosco para desvendar essas estruturas nas células-tronco.

Por favor explique em uma linguagem “leiga” o que são os telômeros e qual a sua importância.

Rodrigo Calado - Os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos e servem como verdadeiros protetores dos cromossomos contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

O senhor conhece e já interagiu com as ganhadoras do prêmio Nobel? Qual foi a sua reação quando soube do prêmio?

R.C. – Sim, o grupo de pesquisadores na área de telômeros não é tão grande assim ao redor do mundo e nos reunimos pelo menos uma vez por ano para apresentar e discutir as descobertas nessa área. Tive a chance de discutir meu trabalho com a Dra. Elizabeth Blackburn, que sempre é muito motivadora e ajuda com ideias interessantes. A Dra. Carol Greider também lidera um grupo de estudos mais voltado para as implicações clínicas, ou seja, para pacientes com problemas nos telômeros, semelhante aos interesses do nosso grupo no NIH, e compartilhamos informações e ideias sobre o assunto.

O seu grupo fez descobertas importantes relacionando os telômeros e doenças genéticas ou hematológicas. O senhor poderia falar um pouco a respeito?

R.C. – Nosso grupo descobriu alterações nos telômeros de alguns pacientes com anemia aplástica, uma doença do sangue em que a medula óssea para de produzir as células do sangue e consequentemente o paciente tem anemia, infecções por conta do baixo número de glóbulos brancos e sangramentos por causa das plaquetas baixas. O que descobrimos foi que esses pacientes têm mutações no gene que produz a enzima telomerase, que então não funciona adequadamente. Como consequência, os telômeros ficam muito curtos e a célula-tronco hematopoética para de se dividir. Com isso, a medula óssea para de funcionar adequadamente e o número das células do sangue torna-se reduzido.  Descobrimos também que essas mutações causam uma instabilidade muito grande dos cromossomos e podem aumentar o risco do desenvolvimento de cânceres, como a leucemia aguda.

Sabemos que os telômeros diminuem de tamanho com o envelhecimento celular  e que a enzima telomerase regula o seu tamanho. Já me perguntaram se não valeria a pena colocar telomerase nas células para diminuir seu envelhecimento. Quais seriam os potenciais benefícios e riscos?

R.C. – Constatamos recentemente aqui no NIH que os hormônios sexuais, tanto o andrógeno (hormônio masculino) quanto o estrógeno (hormônio feminino), são capazes de estimular a produção de telomerase na célula-tronco da medula óssea, e este é um tratamento muitas vezes bastante efetivo. É interessante que mulheres após a menopausa que fazem reposição de hormônio têm telômeros mais longos que mulheres pós-menopausa que não fazem essa reposição. Outra forma de aumentar a telomerase na célula seria a terapia gênica, em que o gene da telomerase seria inserido no núcleo da célula e esta então passaria a produzir mais telomerase e reparar adequadamente os telômeros. Mas os estudos em humanos feitos até hoje se mostraram muito complicados e existe uma alta chance de desenvolvimento de câncer. Isso porque é muito difícil acertar na mosca em relação a onde e como colocar este gene no núcleo da célula. Muitas vezes, este gene acaba se “instalando” perto de algum oncogene, ou seja, um gene “precursor” de tumor. Em resumo, apesar das inúmeras pesquisas e do enorme potencial futuro, a terapia gênica ainda é uma promessa distante da aplicação prática em medicina.

Por Mayana Zatz
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9 Comentários

  1. roberval

    -

    10/12/2010 às 21:43

    Meu filho é bem parecido com a foto porém foi feito o exame e foi diagnosticado negativo para sindrome de prader willi e angelman, gostaria de saber mais e o que fazer

  2. carlos

    -

    14/10/2009 às 15:42

    Voces como cientistas de ponta, veêm a possibilidade de o ser humano alcançar a imortalidade, daqui a , digamos, 500 anos?
    Ví alguns cientistas defendendo essa tese. Obrigado.

  3. Rodrigo Calado

    -

    14/10/2009 às 13:29

    Seu comentário é muito interessante. Na verdade, nós encontramos uma associação entre alterações cromossômicas e encurtamento telomerico em leucemias agudas, mas leucemias crônicas não foram devidamente estudadas ainda. Conhece-se muito bem o papel do cromossomo Filadélfia, resultante desta quebra que você falou e provocanto a translocação (9;22) e um novo gene quimérico BCR-ABL, mas as razões que levam a esses cromossomos se quebrarem são pouco compreendidas. É possível que a desregulação dos telômeros tenha algum papel e isso pode ser importante para evitar a doença no futuro, como você bem lembrou.

    Rodrigo Calado

  4. Rodrigo Calado

    -

    14/10/2009 às 1:21

    Caro Aécio,

    Obrigado pelo interesse sobre a matéria. Eu fiz uma pesquisa e infelizmente não encontrei informação na literatura médica-científica que demonstre efeito da acupuntura sobre o comprimento telomérico em algum tipo celular. Seria ótimo se você me passasse a fonte de sua informação para que eu pudesse analisar os dados com cuidado.

    Cara Marcela,

    Bom saber que o texto ficou claro de entender (acho que a história dos cadarços são um bom exemplo de comparação). Os hormônios masculinos, ou seja, os andrógenos exercem suas funções diretamente como andrógenos ligando-se ao receptor de andrógeno ou então são convertidos em estrógenos dentro da própria célula e se ligam ao receptor de estrógeno. Alguns exercem suas funções principalmente como andrógeno (os anabolizantes), enquanto outros têm maior capacidade de serem convertidos em estrógenos. Células de homens e mulheres possuem tanto receptores de estrógeno quanto de andrógeno; a diferença está nas quantidades de de cada hormônio em circulação. Portanto, em teria, tanto andrógenos (testosterona) como estrógenos exerceriam a mesma função em homens. O grande problema, tanto para homens quanto mulheres, está nos efeitos colaterais muitas vezes tóxicos do uso destes hormônios, que superam os efeitos benéficos em pessoas normais. Por isto que a reposição hormonal é feita apenas quando há indicação médica e orientação médica adequada para pacientes em que os benefícios superam os malefícios.

    Cordialmente,

    Rodrigo Calado

  5. manuel

    -

    13/10/2009 às 22:38

    Dra. Mayana , a quebra do cromossomo 22 e do 9 resulta na formaçao de um terceiro cromossomo que será responsavel pela leucemia mieloide cronica , essa descoberta do papel dos telomeros ajudara a evitar a quebra desses cromossomos.

    att

    manuel

  6. Marcela Santos

    -

    12/10/2009 às 15:20

    Nossa, ficou muito mais fácil entender assim. Porém, me ficou uma única dúvida: se nas mulheres os telômeros são mantidos longos pela reposição de hormônios; como seria feito o mesmo nos homens?

    Dr. Mayana e Dr. Rodrigo Calado, obrigada pelo texto, !

  7. ROSENDO, AÉCIO FLÁVIO PERAZZO,

    -

    11/10/2009 às 16:29

    É sabido que a estimulação de determinado ponto de acunpultura prolongo o Telömero.

    Gostariai de saber do Dr. Calado se ele tem conhecimento deste fato.

    Att.

    Aécio Perazzo

  8. Mayana

    -

    09/10/2009 às 14:43

    Obrigada Alba
    É importante esclarecer que terapia gênica- com atuação diretamente no gene- é diferente de terapia celular, onde um dos objetivos terapêuticos é a substituição de células ou linhagens celulares, como por exemplo na leucemia.
    Acredito que a terapia celular está muito mais próxima da aplicação prática em medicina do que a terapia gênica.
    Mayana

  9. Alba

    -

    08/10/2009 às 17:08

    Parabenizo a matéria e a linguagem usada.
    Vejo o ponto mais importante que mostra a humildade de informar aos leigos que “a terapia gênica ainda é uma promessa distante da aplicacao prática em medicina”, tudo ao seu tempo.


 

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